{"id":1223,"date":"2022-03-09T09:05:09","date_gmt":"2022-03-09T12:05:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/?page_id=1223"},"modified":"2022-03-09T16:35:13","modified_gmt":"2022-03-09T19:35:13","slug":"feminismo-e-fenomenologia","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/teorias-feministas\/feminismo-e-fenomenologia\/","title":{"rendered":"Feminismo e Fenomenologia"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns has-1-columns has-desktop-equal-layout has-tablet-equal-layout has-mobile-equal-layout has-default-gap has-vertical-unset\" id=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns-a0f55cec\"><div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns-overlay\"><\/div><div class=\"innerblocks-wrap\">\n<div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-column\" id=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-column-5ca4c1e7\">\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">por <strong>Luiza Helena Hilgert<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">P\u00f3s-doutoranda em Filosofia UFSCar\/FAPESP,<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Doutora em Filosofia UNICAMP\/Universit\u00e9 Paris VIII\/FAPESP &#8211; <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/4817122367741300\">Lattes<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2022\/03\/Feminismo-e-Fenomenologia-Luiza-Hilgert.pdf\">PDF &#8211; Feminismo e Fenomenologia<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"435\" class=\"wp-image-1224\" style=\"width: 500px\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2022\/03\/Monticelli_-_Sce\u0300ne_de_parc_femmes_enfants_et_chiens.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2022\/03\/Monticelli_-_Sce\u0300ne_de_parc_femmes_enfants_et_chiens.jpeg 800w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2022\/03\/Monticelli_-_Sce\u0300ne_de_parc_femmes_enfants_et_chiens-300x163.jpeg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2022\/03\/Monticelli_-_Sce\u0300ne_de_parc_femmes_enfants_et_chiens-768x418.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Cena do parque, mulheres, crian\u00e7as e cachorros<\/em>, Adolphe Monticelli (1824-1886), Museu de Belas Artes de Marselha <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">a) Defini\u00e7\u00f5es<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O feminismo tem uma longa hist\u00f3ria com diferentes fases e ondas, com temas e autoras j\u00e1 consolidadas e cl\u00e1ssicas cujas ra\u00edzes te\u00f3ricas e filos\u00f3ficas t\u00eam origem em diferentes m\u00e9todos e abordagens. \u00c9 um movimento bastante din\u00e2mico e m\u00faltiplo \u2013 que nos permitiria falar em feminismos, no plural, em raz\u00e3o das suas variadas vertentes. Apesar da diversidade e da heterogeneidade que o comp\u00f5em, a ideia comum e fundante \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o da igualdade e equidade entre os g\u00eaneros. Com a fenomenologia o processo n\u00e3o difere muito. Criada por volta de 1900 pelo fil\u00f3sofo e matem\u00e1tico austr\u00edaco Edmund Husserl, a fenomenologia tamb\u00e9m tem um percurso convencionado por autores e temas, marcado por rupturas, apropria\u00e7\u00f5es e continuidades. Em linhas gerais, a fenomenologia diz respeito \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno que se manifestam enquanto tal para a consci\u00eancia, trata-se de pensar as ess\u00eancias, isto \u00e9, as estruturas que permitem determinado fen\u00f4meno manifestar-se na sua assinalada condi\u00e7\u00e3o. O m\u00e9todo fenomenol\u00f3gico, bem como a an\u00e1lise feminista, podem ser investiga\u00e7\u00f5es oportunas para repensar quest\u00f5es importantes da filosofia a partir das diferen\u00e7as, ou mesmo das semelhan\u00e7as, entre os g\u00eaneros, em raz\u00e3o da objetividade com que tratam a subjetividade. O potencial da uni\u00e3o entre feminismo e fenomenologia ainda \u00e9 vasto, h\u00e1 muito para ser descoberto a partir do encontro dessas duas formas de compreender a Erlebnis (viv\u00eancia, experi\u00eancia), o sentido e a intencionalidade segundo as categorias fundantes de corpo, mundo, hist\u00f3ria, situa\u00e7\u00e3o, etc.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">b) Hist\u00f3ria<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 um pouco arriscado determinar quando e por meio de quem feminismo e fenomenologia se avizinharam pela primeira vez, contudo, Edith Stein (1891-1942) foi uma figura proeminente da fase inicial do uso do m\u00e9todo fenomenol\u00f3gico na investiga\u00e7\u00e3o de antropologia filos\u00f3fica. Aluna, assistente e colaboradora de Edmund Husserl, defendeu a uni\u00e3o entre filosofia e teologia num exerc\u00edcio de aux\u00edlio m\u00fatuo. A obra <em>A estrutura da pessoa humana <\/em>(<em>Der Aufbau der menschlichen Person<\/em>), de 1932,<em> <\/em>e a colet\u00e2nea de ensaios e palestras realizados entre as d\u00e9cadas de 1920 e 1930, <em>A mulher<\/em> (<em>Die Frau<\/em>), s\u00e3o exemplos dos primeiros passos para pensar fenomenologicamente o ser da pessoa humana e, por extens\u00e3o, da mulher. Aliando m\u00e9todo fenomenol\u00f3gico a elementos da metaf\u00edsica aristot\u00e9lico-tomista e do cristianismo, sobretudo do mito da Cria\u00e7\u00e3o do homem e da mulher, Stein pressup\u00f5e que toda criatura tem a voca\u00e7\u00e3o de aprimorar-se e desenvolver-se de acordo com os des\u00edgnios de Deus. No caso do ser humano, que difere dos outros seres gra\u00e7as \u00e0 racionalidade, sua voca\u00e7\u00e3o se manifesta pela tr\u00edade: corpo vivenciado, <em>psiqu\u00e9<\/em> e esp\u00edrito\/alma. Cada<em> esp\u00e9cie<\/em>, homem ou mulher, tem suas pr\u00f3prias particularidades: a estrutura da mulher n\u00e3o se presta ao combate, \u00e0 conquista, \u00e0 explora\u00e7\u00e3o de terras e ao esfor\u00e7o f\u00edsico como a do homem; predominam nela as habilidades do cuidado e da conserva\u00e7\u00e3o, seu esp\u00edrito foi talhado para a afetividade e o amor. \u00c0 mulher cabe ser ajudante do homem e m\u00e3e dos seres humanos, como \u00e9 da natureza do seu corpo, da sua <em>psiqu\u00e9<\/em> e do seu esp\u00edrito. Stein compreende que h\u00e1 caracter\u00edsticas e faculdades pr\u00f3prias do homem e da mulher e cabe a ambos desenvolver algumas do outro g\u00eanero para compensar a atrofia promovida pela <em>queda<\/em>. Apesar das an\u00e1lises de Edith Stein terem como pano de fundo o m\u00e9todo fenomenol\u00f3gico, suas teorias incorrem na promo\u00e7\u00e3o do essencialismo da mulher, na redu\u00e7\u00e3o do ser da mulher \u00e0 sua biologia e no refor\u00e7o dos determinismos mitol\u00f3gicos e religiosos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muitas fil\u00f3sofas poderiam ser citadas aqui em raz\u00e3o do seu <em>background<\/em> fenomenol\u00f3gico (Judith Butler, Hannah Arendt), do pioneirismo na fenomenologia (Hedwig Conrad-Martius, Gerda Walther &#8211; Conferir o verbete <em><a href=\"https:\/\/historyofwomenphilosophers.org\/project\/women-in-early-phenomenology\/\">Women in early phenomenology<\/a>)<\/em>, ou porque seus trabalhos promoveram fecundos debates para as teorias feministas mais recentes, contudo, por mais importantes que essas pesquisadoras tenham sido e continuem sendo, minha escolha n\u00e3o foi por tra\u00e7ar a presen\u00e7a das mulheres na fenomenologia, mas apresentar trabalhos inscritos ao mesmo tempo nos dois temas do presente verbete, a saber, da fenomenologia e do feminismo. N\u00e3o \u00e9 exagero afirmar que a primeira grande obra em que feminismo e fenomenologia se combinam foi <em>O segundo sexo<\/em>, de 1949, de autoria da fil\u00f3sofa francesa <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/simone-de-beauvoir-2\">Simone de Beauvoir<\/a> &nbsp;Ainda que n\u00e3o tenha sido anunciado, \u00e0 \u00e9poca, nem como um livro de fenomenologia e nem de feminismo, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas que a obra \u00e9 um marco tanto para uma quanto para outra \u00e1rea e, mais ainda, inaugural no uso do m\u00e9todo fenomenol\u00f3gico no feminismo e na tratativa das quest\u00f5es concernentes \u00e0 mulher. Se a fenomenologia j\u00e1 havia afirmado o corpo como categoria imprescind\u00edvel para pensar o sujeito, Beauvoir afirma que esse corpo, esse sujeito, \u00e9 sempre de determinado sexo. A m\u00e1xima beauvoiriana \u201c<em>N\u00e3o se nasce mulher, torna-se\u201d<\/em> fez da <em>mulher<\/em> um conceito a ser examinado como processo de transformar-se, de<em> tornar-se<\/em> mulher em lugar de uma categoria essencializada e determinada por outrem. Em outras palavras, Beauvoir introduziu como tema filos\u00f3fico a discuss\u00e3o acerca do g\u00eanero de uma maneira nova e radical, analisando a hist\u00f3ria humana a fim de compreender a constru\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o que determinou a mulher como um sujeito de segunda categoria. Beauvoir revolucionou ao mesmo tempo a fenomenologia e o feminismo ao demonstrar como a experi\u00eancia vivida \u00e9 sempre generificada e n\u00e3o neutra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir dos anos 1970, ocorreu uma<em> <\/em>certa<em> oficializa\u00e7\u00e3o <\/em>da filosofia feminista e do feminismo filos\u00f3fico: fil\u00f3sofas de todo o mundo, mas principalmente da Alemanha e dos Estados Unidos, organizaram encontros acad\u00eamicos, semin\u00e1rios, col\u00f3quios e simp\u00f3sios e suas respectivas publica\u00e7\u00f5es compilando os principais trabalhos. A aproxima\u00e7\u00e3o entre fenomenologia e feminismo se torna, ent\u00e3o, um campo acad\u00eamico de pesquisas e estudos, com uma abordagem crescente e em vertiginoso desenvolvimento. Existe j\u00e1 uma produ\u00e7\u00e3o relativamente volumosa, se considerarmos as v\u00e1rias restri\u00e7\u00f5es e resist\u00eancias impostas pelas formas tradicionais de se fazer filosofia academicamente e tamb\u00e9m o relativo pouco tempo da sua exist\u00eancia: 70 anos se considerarmos<em> O segundo sexo<\/em> como inaugural, 50 anos se contarmos a partir da sua <em>institucionaliza\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para a elabora\u00e7\u00e3o do presente texto, debrucei-me sobre dezenas de trabalhos, entre artigos e livros, e muitos partilham a ideia de que a fenomenologia \u00e9 o m\u00e9todo privilegiado para tratar dos assuntos ligados \u00e0s quest\u00f5es de g\u00eanero por incluir no debate conceitos como situa\u00e7\u00e3o, corpo vivido, subjetividade e experi\u00eancia. Eu quero, contudo, me posicionar c\u00e9tica em rela\u00e7\u00e3o a essa ideia. Em primeiro lugar, porque estudando a hist\u00f3ria da filosofia vemos que n\u00e3o \u00e9 a primeira vez que se discutem ideias favor\u00e1veis \u00e0 equidade de g\u00eanero e contr\u00e1rias \u00e0 exclus\u00e3o das mulheres. Ao longo da sua hist\u00f3ria, houve v\u00e1rios fil\u00f3sofos e fil\u00f3sofas interessados em refletir acerca do estatuto da mulher, da desigualdade entre os g\u00eaneros, ou mesmo de outros temas cl\u00e1ssicos capazes de desmascarar os preconceitos contras as mulheres. Em segundo lugar, porque mesmo as teorias, m\u00e9todos e correntes mais abstratas, metaf\u00edsicas e essencialistas, cujo objetivo \u00e9 o <em>a priori<\/em>, o universal e o absoluto, para quem o caminho investigativo \u00e9 independente e anterior a toda e qualquer individualiza\u00e7\u00e3o e singulariza\u00e7\u00e3o, poderiam fundamentar a igualdade entre os g\u00eaneros. N\u00e3o se trata, a meu ver, de m\u00e9todo investigativo ou corrente te\u00f3rica, mas, antes e sobretudo, de escolha. Descartes, por exemplo, estabelece o<em> cogito<\/em> e Poulain de La Barre afirma que se o <em>cogito <\/em>n\u00e3o tem sexo, devemos desfazer todos os preconceitos contra a igualdade dos sexos. A Hist\u00f3ria da Filosofia consagrou Descartes um cl\u00e1ssico e La Barre um esquecido. De maneira semelhante, a consci\u00eancia absoluta, o Eu transcendental, o Para-si, o <em>Dasein<\/em> poderiam, no seu car\u00e1ter absoluto e universal, bem alicer\u00e7ar uma filosofia contr\u00e1ria a todos os preconceitos contra as mulheres e os n\u00e3o-europeus, mas nem Husserl, nem Sartre, nem Heidegger o fizeram. A opress\u00e3o contra as mulheres se torna uma quest\u00e3o filos\u00f3fica para quem escolhe refletir sobre ela. Ent\u00e3o, como n\u00e3o houve interesse da parte da fenomenologia, enquanto movimento filos\u00f3fico, nem da parte dos fenomen\u00f3logos, na qualidade de indiv\u00edduos, de enfrentar as quest\u00f5es sobre a igualdade de g\u00eanero e as pautas do pensamento feminista, a iniciativa partiu das fenomen\u00f3logas e das feministas. Na verdade, os fenomen\u00f3logos homens, al\u00e9m de n\u00e3o expressarem preocupa\u00e7\u00e3o com a tem\u00e1tica da desigualdade de g\u00eanero, em muitos casos contribu\u00edram para engrossar o caldo do machismo com teorias, falas, argumentos e a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">c) Feminismo e fenomenologia, Feminismo fenomenol\u00f3gico e fenomenologia feminista<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez uma das mais valiosas contribui\u00e7\u00f5es do feminismo para a filosofia seja a amplia\u00e7\u00e3o das perspectivas de compreens\u00e3o dos temas, pois em um contexto mais amplo das discuss\u00f5es te\u00f3ricas, as vis\u00f5es espec\u00edficas das mulheres foram historicamente negligenciadas. A fenomenologia pode representar a tentativa de supera\u00e7\u00e3o do problema da universaliza\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o particularizada promovida pela hist\u00f3ria da filosofia, j\u00e1 que a an\u00e1lise das ess\u00eancias pode ser pensada como a descri\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias que s\u00e3o, ao mesmo tempo, individuais e singulares, mas tamb\u00e9m compartilhadas e gen\u00e9ricas e, assim, incluir as experi\u00eancias das mulheres. Importante lembrar que ess\u00eancias, em fenomenologia, significam as estruturas que permitem determinado fen\u00f4meno, neste caso, se nos referimos ao fen\u00f4meno da experi\u00eancia, da subjetividade generificada, estamos, portanto, falando sobre compreender como essas estruturas se particularizam e se singularizam nos diferentes g\u00eaneros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na aproxima\u00e7\u00e3o entre fenomenologia e feminismo ter\u00edamos, ent\u00e3o, uma fenomenologia feminista ou, se se preferir, um feminismo fenomenol\u00f3gico. Silva Stoller analisa a origem dessa aproxima\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento da fenomenologia feminista no artigo<em> What is feminist phenomenology?<\/em> e classifica fenomenologia feminista como<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><em>uma abordagem te\u00f3rica que, na sua ess\u00eancia, trata de descri\u00e7\u00f5es da experi\u00eancia vivida; aplica fundamentalmente o m\u00e9todo fenomenol\u00f3gico \u00e0 pesquisa feminista num sentido mais ou menos estrito; tamb\u00e9m aplica conceitos fenomenol\u00f3gicos partindo de um contexto feminista. Por fim, discute criticamente a interse\u00e7\u00e3o da fenomenologia com a teoria feminista. (STOLLER, 2017, p. 399).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apresento, na sequ\u00eancia, alguns trabalhos e teorias oriundas da aproxima\u00e7\u00e3o entre fenomenologia e feminismo, contudo, \u00e9 preciso ter bem claro que h\u00e1 muitas outras obras com conquistas te\u00f3ricas essenciais que ficaram de fora do presente verbete; algumas delas constam nas refer\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">1. Iris Marion Young, Throwing like a girl (1980)<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No campo das pesquisas de fenomenologia feminista, destaco o famoso ensaio de Iris Marion Young, <em>Throwing like a girl<\/em>, de 1980<em>.<\/em> A autora elabora uma descri\u00e7\u00e3o que combina a teoria merleau-pontiana do corpo vivido com a teoria beauvoiriana da situa\u00e7\u00e3o da mulher e conclui que h\u00e1 tr\u00eas modalidades da mobilidade da mulher: transcend\u00eancia amb\u00edgua, intencionalidade inibida e unidade descont\u00ednua com o seu entorno. A contradi\u00e7\u00e3o inerente \u00e0s categorias do comportamento corporal da mulher se deve ao modo como a mulher vive e experiencia seu corpo: ao mesmo tempo como coisa e capacidade, como objeto e sujeito. Young adverte que as categorias de mobilidade, espacialidade e comportamento corporal descritas por ela s\u00e3o comuns \u00e0 exist\u00eancia das mulheres na contemporaneidade, em um grau ou outro. Sobre a causa dessas caracter\u00edsticas, ela explica o seguinte:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><em>N\u00e3o t\u00eam sua fonte, entretanto, nem em anatomia nem em fisiologia, e certamente n\u00e3o em uma misteriosa ess\u00eancia feminina. A fonte est\u00e1, ao contr\u00e1rio, na situa\u00e7\u00e3o particular das mulheres condicionada pela opress\u00e3o sexista na sociedade contempor\u00e2nea. As mulheres, numa sociedade sexista, s\u00e3o fisicamente deficientes. Na medida em que aprendemos a conduzir nossa exist\u00eancia de acordo com a defini\u00e7\u00e3o que a cultura patriarcal nos atribui, estamos fisicamente inibidas, confinadas, determinadas e objetivadas. [\u2026] Na maioria das vezes, meninas e mulheres n\u00e3o t\u00eam a oportunidade de usar todas as suas capacidades corporais no empenho livre e aberto com o mundo, nem s\u00e3o encorajadas tanto quanto os meninos a desenvolver habilidades corporais espec\u00edficas. (YOUNG, 1980, p. 152).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A socializa\u00e7\u00e3o das meninas \u00e9 bastante diferente da dos meninos. N\u00e3o \u00e9 novidade dizer que as mulheres s\u00e3o definidas como objeto sexual, um mero corpo, em uma sociedade sexista e patriarcal. \u00c9 parte da situa\u00e7\u00e3o de ser mulher conviver com a possibilidade sempre presente do ass\u00e9dio, do abuso e at\u00e9 do estupro. Essa objetifica\u00e7\u00e3o corporal \u00e9 introjetada pela mulher e altera sua pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o com o corpo:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><em>Esta exist\u00eancia corporal objetificada \u00e9 respons\u00e1vel pela consci\u00eancia de si (self-consciousness) da rela\u00e7\u00e3o feminina com seu corpo e da dist\u00e2ncia resultante que ela toma do seu corpo. Como ser humano, ela \u00e9 transcend\u00eancia e subjetividade e n\u00e3o pode viver a si mesma como mero objeto corporal. Assim, na medida em que ela vive si mesma (live herself) como mero corpo, n\u00e3o pode estar em unidade consigo mesma, mas precisa tomar dist\u00e2ncia e existir em descontinuidade com seu corpo. O olhar objetificador que \u201ca mant\u00e9m em seu lugar\u201d tamb\u00e9m \u00e9 respons\u00e1vel pela modalidade espacial [\u2026] porque as mulheres frequentemente tendem a n\u00e3o se mover livremente (openly), mantendo seus membros em torno de si mesmas. (YOUNG, 1980, p. 154).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ensaio de Iris Marion Young \u00e9 rico em apontamentos e an\u00e1lises fenomenol\u00f3gicas sobre a rela\u00e7\u00e3o da mulher com seu corpo, a exist\u00eancia corporal pr\u00f3pria e particular da mulher, o medo de machucar-se, a inseguran\u00e7a dos movimentos, as dificuldades e limita\u00e7\u00f5es em termos de mobilidade e espacialidade. Tamb\u00e9m aponta e sugere estudos futuros de outras atividades f\u00edsicas para refletir acerca do conjunto das modalidades da experi\u00eancia corporal em situa\u00e7\u00e3o da mulher, como aquelas que n\u00e3o envolvessem o corpo todo, com movimentos mais leves e precisos, atividades menos orientadas, por exemplo, a dan\u00e7a e a experi\u00eancia enquanto ser sexual.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">2. Lee Bartky, Toward a phenomenology of feminist conciousness (1990)<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sandra Lee Bartky, no artigo <em>Toward a phenomenology of feminist conciousness <\/em>(1990), inicia seu texto com uma afirma\u00e7\u00e3o que lembra a m\u00e1xima beauvoiriana: \u201cPara ser uma feminista, \u00e9 preciso primeiro tornar-se uma\u201d (BARTKY, 1990, p. 11). O <em>tornar-se feminista<\/em> ser\u00e1 analisado fenomenologicamente a partir da descri\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as das experi\u00eancias e as transforma\u00e7\u00f5es pessoais que ultrapassam o campo pol\u00edtico e atravessam a percep\u00e7\u00e3o de si, do mundo e dos outros, reconfigurando as rela\u00e7\u00f5es subjetivas e intersubjetivas. Bartky observa que as mudan\u00e7as de comportamento v\u00e3o de m\u00e3os dadas com as mudan\u00e7as de consci\u00eancia, pois tornar-se feminista equivale a desenvolver uma consci\u00eancia radicalmente diferente, n\u00e3o somente de si, mas tamb\u00e9m dos outros e da realidade a sua volta. A autora pergunta o que acontece com a consci\u00eancia no processo de tornar-se feminista, como se desenvolve uma consci\u00eancia feminista? Examina a estrutura da consci\u00eancia feminista na busca por descrever a sua \u201cmorfologia\u201d, identificando o que chamou de \u201cestruturas dessa forma alterada de apreens\u00e3o de si e do mundo, ambos ao mesmo tempo produto e conte\u00fado de uma consci\u00eancia desperta (<em>raised consciousness<\/em>)\u201d (BARTKY, 1990, p. 12).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por todo o mundo a mulher \u00e9 oprimida, n\u00e3o h\u00e1 ainda lugar onde o sonho feminista da liberta\u00e7\u00e3o tenha sido alcan\u00e7ado, por\u00e9m, a consci\u00eancia feminista n\u00e3o \u00e9 onipresente como a misandria e o machismo. Por qu\u00ea? Para a autora, h\u00e1 duas condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para o surgimento da consci\u00eancia feminista no que ela chama de atual realidade social (<em>current social reality<\/em>): a) as contradi\u00e7\u00f5es, em sentido marxista; b) circunst\u00e2ncias concretas que permitem altera\u00e7\u00f5es significativas no <em>status <\/em>da mulher.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O despertar da consci\u00eancia de classe \u00e9 fundamental para que o indiv\u00edduo compreenda a extens\u00e3o e a gravidade das condi\u00e7\u00f5es materiais sobre a vida individual e coletiva, contudo, esse n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico fen\u00f4meno relevante na ordem da constru\u00e7\u00e3o da subjetividade e no fen\u00f4meno da mudan\u00e7a social: \u201cH\u00e1 uma consci\u00eancia angustiada [\u2026] \u2013 e eu vou argumentar que a consci\u00eancia feminista, em grande medida, \u00e9 uma consci\u00eancia angustiada \u2013 cuja exist\u00eancia os estudiosos marxistas parecem desconhecer\u201d (BARTKY, 1990, p. 12). A consci\u00eancia feminista emerge quando h\u00e1 possibilidade de liberta\u00e7\u00e3o da sua condi\u00e7\u00e3o, parcial ou total e \u201ca consci\u00eancia feminista \u00e9 a apreens\u00e3o desta possibilidade\u201d (BARTKY, 1990, p. 14). No momento do despertar da consci\u00eancia, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 apreendida primeiramente como um estado de coisas a ser negado e radicalmente transformado e o sentido da situa\u00e7\u00e3o passa a ser iluminado pela luz do que a situa\u00e7\u00e3o deveria ser. A consci\u00eancia feminista \u00e9 a experi\u00eancia das contradi\u00e7\u00f5es da sociedade apreendidas como intoler\u00e1veis em nome de um futuro genuinamente transformador:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><em>O que Sartre chamaria de \u201ctranscend\u00eancia\u201d, o projeto de nega\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o, torna poss\u00edvel o que s\u00e3o formas especificamente feministas de apreender as contradi\u00e7\u00f5es na ordem social. As trabalhadoras que n\u00e3o s\u00e3o feministas sabem que recebem sal\u00e1rio desigual por trabalho igual, mas podem pensar que o arranjo \u00e9 justo; a feminista v\u00ea essa situa\u00e7\u00e3o como uma inst\u00e2ncia de explora\u00e7\u00e3o e uma ocasi\u00e3o de luta. As feministas n\u00e3o est\u00e3o mais conscientes de coisas diferentes que as outras pessoas; elas est\u00e3o conscientes das mesmas coisas de maneira diferente. A consci\u00eancia feminista [\u2026] transforma um \u201cfato\u201d em uma \u201ccontradi\u00e7\u00e3o\u201d; frequentemente, as caracter\u00edsticas da realidade social s\u00e3o apreendidas primeiramente como contradit\u00f3rias, em conflito entre si, ou perturbadoramente defasadas do ponto de vista de um projeto radical de transforma\u00e7\u00e3o. (BARTKY, 1990, pp. 14-15).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A consci\u00eancia feminista n\u00e3o pode ser vista como mero reflexo das condi\u00e7\u00f5es externas por causa do car\u00e1ter transformador e de nega\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o dada do seu projeto que garante que as contradi\u00e7\u00f5es sejam reveladas enquanto tais. Al\u00e9m disso, apreender determinada situa\u00e7\u00e3o como insuport\u00e1vel n\u00e3o \u00e9 suficiente para que ela seja alterada, isso significa que a rela\u00e7\u00e3o entre a consci\u00eancia e as condi\u00e7\u00f5es concretas \u00e9 dial\u00e9tica e exige a elabora\u00e7\u00e3o de um conjunto de a\u00e7\u00f5es que visem transform\u00e1-las.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro elemento fundante da consci\u00eancia feminista \u00e9 a <em>consci\u00eancia de ser v\u00edtima<\/em> (<em>consciousness of victimization<\/em>) em que ela se apreende como <em>v\u00edtima<\/em> ao descobrir que h\u00e1 for\u00e7as hostis externas respons\u00e1veis pelo tratamento injusto \u00e0s mulheres e que ela faz parte de um sistema opressor que diferencia tratamentos e papeis de acordo com o g\u00eanero. Essa consci\u00eancia de ser v\u00edtima \u00e9 uma consci\u00eancia dividida: por um lado, perceber-se v\u00edtima \u00e9 saber-se lesionada, mutilada, exposta; por outro, \u00e9 descobrir-se apta a libertar-se, \u00e9 ver possibilidade de crescimento, de recuperar o poder que lhe foi subtra\u00eddo, \u00e9 ser consci\u00eancia alegre da pr\u00f3pria for\u00e7a. Essa consci\u00eancia \u00e9, pois, amb\u00edgua: \u201cconsci\u00eancia de fraqueza e consci\u00eancia de for\u00e7a\u201d (BARTKY, 1990, p. 16). \u00c9 preciso considerar os efeitos positivos dessa consci\u00eancia bipartida, como o de buscar formas para superar as fragilidades ao descobrir que as vulnerabilidades e fraquezas n\u00e3o s\u00e3o, necessariamente, internas, mas internalizadas pelas for\u00e7as desse poder hostil e opressor. Ela promove a an\u00e1lise sobre categorias e elementos da constitui\u00e7\u00e3o de si, afinal, as condi\u00e7\u00f5es externas, a cultura da nossa \u00e9poca e do lugar onde vivemos, s\u00e3o aspectos que moldam a constru\u00e7\u00e3o da personalidade, da percep\u00e7\u00e3o de si e dos outros e da resposta ao mundo a nossa volta. Quest\u00f5es muito profundas e internas passam a ser tema de reflex\u00e3o: em que medida o que eu fa\u00e7o e o modo como sou s\u00e3o mesmo caracter\u00edsticas e atos aut\u00eantica e originariamente meus ou s\u00e3o rea\u00e7\u00f5es ao sexismo e \u00e0 misoginia a que sempre estive exposta? A timidez que sinto em apresenta\u00e7\u00f5es \u00e9 apenas minha pr\u00f3pria idiossincrasia ou resultado de anos de falas interrompidas, sugest\u00f5es ignoradas, deboche, desrespeito e outros comportamentos desagrad\u00e1veis que terminaram por afetar o desenvolvimento da minha personalidade? Os exemplos nessa \u00e1rea podem ir longe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 imposs\u00edvel negar a divis\u00e3o sexual na sociedade: profiss\u00e3o, comportamentos, fun\u00e7\u00f5es e pap\u00e9is sociais s\u00e3o organizados segundo o g\u00eanero a ponto de praticamente todas as rela\u00e7\u00f5es sociais serem determinadas de alguma forma por esse princ\u00edpio. Para Bartky, depois de desperta, a consci\u00eancia feminista \u00e9 como uma paranoia porque, tendo aprendido sobre a extens\u00e3o da discrimina\u00e7\u00e3o sexual, ela se torna permanentemente vigilante. Tendo descoberto uma s\u00e9rie de caracter\u00edsticas da sua personalidade que lhe foram, na realidade, atribu\u00eddas e incutidas em raz\u00e3o da cultura patriarcal como naturais \u00e0 mulher, agora precisar\u00e1 reconstruir-se a duras penas. Separar o que \u00e9 seu e o que \u00e9 constructo social n\u00e3o \u00e9 uma tarefa agrad\u00e1vel, fatiar-se para descobrir-se, regurgitar sua hist\u00f3ria e reconstitu\u00ed-la fora da ideologia do g\u00eanero, \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o na qual se encontra a mulher conscientizada. Esse ser\u00e1 um processo de escolher-se, de definir quais conjuntos de valores adotar\u00e1 para al\u00e9m daqueles estipulados e institu\u00eddos como virtudes femininas. Desenvolver a consci\u00eancia feminista \u00e9 estar sempre num impasse \u00e9tico, com per\u00edodos de transi\u00e7\u00e3o, d\u00favidas, paradigmas e conflitos internos para a mulher que decidiu ser uma nova pessoa, o que torna a mulher conscientizada solit\u00e1ria e confusa:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><em>Em resumo, consci\u00eancia feminista \u00e9 a consci\u00eancia de um ser radicalmente alienado do seu mundo e frequentemente em conflito consigo mesma, um ser que se v\u00ea como v\u00edtima e cuja vitima\u00e7\u00e3o (victimization) determina seu ser-no-mundo como resist\u00eancia, cautela (wariness) e desconfian\u00e7a. Despreparada e exposta a maior parte do tempo, ela sofre tanto um choque tanto \u00e9tico quanto ontol\u00f3gico. Sem um paradigma moral totalmente engendrado, \u00e0s vezes incapaz de dar sentido \u00e0s pr\u00f3prias rea\u00e7\u00f5es e emo\u00e7\u00f5es, ela est\u00e1 imersa em uma realidade social que com aspecto de cruel ambiguidade. (BARTKY, 1990, p. 21).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mulher com consci\u00eancia feminista \u00e9 uma <em>outsider<\/em>, uma estranha na pr\u00f3pria sociedade, para as pessoas que ela ama e, \u00e0s vezes, para si pr\u00f3pria. Ainda assim, \u00e9 poss\u00edvel ter esperan\u00e7as para o futuro, porque os conflitos e as lutas internas n\u00e3o s\u00e3o vivenciados por uma pessoa sozinha, s\u00e3o milh\u00f5es de mulheres emancipando-se. Bartky n\u00e3o deixa de prenunciar que a liberta\u00e7\u00e3o ser\u00e1 coletiva com possibilidades de crescimento pessoal sem precedentes que o sexismo enganoso havia at\u00e9 agora ocultado. Desvelados para todos os indiv\u00edduos que comp\u00f5em a sociedade, os malef\u00edcios do sexismo precisam ser superados:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><em>o<\/em> <em>sentimento de aliena\u00e7\u00e3o da sociedade estabelecida, que \u00e9 uma caracter\u00edstica t\u00e3o proeminente da experi\u00eancia feminista, pode ser contrabalan\u00e7ado por uma nova identifica\u00e7\u00e3o com as mulheres de todas as condi\u00e7\u00f5es e um crescente senso de solidariedade com outras feministas. \u00c9 um coment\u00e1rio adequado sobre nossa sociedade que o crescimento da consci\u00eancia feminista, apesar de suas ambiguidades, confus\u00f5es e prova\u00e7\u00f5es, \u00e9 apreendido por aqueles em quem ela se desenvolve como uma experi\u00eancia de liberta\u00e7\u00e3o. (BARTKY, 1990, p. 21).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 importante lembrar que o despertar da consci\u00eancia para as quest\u00f5es de opress\u00e3o de g\u00eanero e injusti\u00e7a contra as mulheres n\u00e3o \u00e9 garantia da conscientiza\u00e7\u00e3o em bloco dos outros modos de exclus\u00e3o. Muitas mulheres, sobretudo brancas e de classe alta, apreendem a si mesmas v\u00edtimas de um sistema injusto que as oprime sem se solidarizarem com as mulheres da classe trabalhadora e n\u00e3o brancas e, por vezes, contribuem para a manuten\u00e7\u00e3o dos seus privil\u00e9gios e da opress\u00e3o de outras mulheres. Por outro lado, o despertar da consci\u00eancia feminista pode ser o <em>start<\/em> para uma conscientiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica mais geral em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 luta contra todas inf\u00e2mias do um sistema excludente.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">3. Johana Oksala, A phenomenology of gender (2006)<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Johana Oksala, em artigo de 2006, <em>A phenomenology of gender<\/em>, se pergunta \u201cComo a fenomenologia, enquanto m\u00e9todo de investiga\u00e7\u00e3o filos\u00f3fico, explica o g\u00eanero?\u201d (OKSALA, 2006, p. 229). Como sabemos, a fenomenologia \u00e9 compreendida de diferentes maneiras e a resposta \u00e0 pergunta depende do entendimento que se tem da fenomenologia e, consequentemente, do seu respectivo alcance na quest\u00e3o de g\u00eanero. Oksala distingue quatro caracteriza\u00e7\u00f5es da fenomenologia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o sobre g\u00eanero: cl\u00e1ssica, corp\u00f3rea, intersubjetiva e p\u00f3s-estruturalista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A leitura cl\u00e1ssica da fenomenologia n\u00e3o d\u00e1 conta das diferen\u00e7as sexuais porque na atitude transcendental todas as interpreta\u00e7\u00f5es singulares, caracter\u00edsticas individuais e emp\u00edricas s\u00e3o colocadas entre par\u00eanteses. A autora cita o estudo de Mohanty, para quem a corporeidade n\u00e3o \u00e9 exclu\u00edda da vida da subjetividade transcendental husserliana, ainda que n\u00e3o aborde diretamente a quest\u00e3o da diferen\u00e7a sexual. \u00c9 fato que a consci\u00eancia transcendental husserliana tem como estrato b\u00e1sico a consci\u00eancia pr\u00e9-reflexiva, o que inclui o corpo vivido como um sistema de intencionalidades, contudo, a fenomenologia transcendental deve estar acima dos fen\u00f4menos contingentes descrevendo, na verdade, as condi\u00e7\u00f5es de possibilidade da subjetividade transcendental e, como tal, n\u00e3o pode ser entendida como sexuada ou generificada. Do contr\u00e1rio, haveria dois tipos de subjetividades transcendental.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A leitura corp\u00f3rea geralmente \u00e9 interpretada como se significasse uma investiga\u00e7\u00e3o fenomenol\u00f3gica a partir da no\u00e7\u00e3o de corpo vivido em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 de consci\u00eancia transcendental. Essa abordagem interessou a muitas te\u00f3ricas dos estudos feministas para falar sobre o corpo da mulher, como a j\u00e1 citada Iris Marion Young. \u00c9 uma perspectiva que permite a an\u00e1lise de experi\u00eancias negligenciadas, como gravidez, amamenta\u00e7\u00e3o, timidez, etc., contudo, Oksala aponta para alguns problemas metodol\u00f3gicos, dos quais destaco: generalizar o relato de uma experi\u00eancia vivida em primeira pessoa para uma descri\u00e7\u00e3o fenomenol\u00f3gica da corporeidade feminina incorre numa essencializa\u00e7\u00e3o, muitas vezes, no bastante combatido essencialismo biol\u00f3gico. Como caso emblem\u00e1tico, a autora cita Sonia Kruks e o livro <em>Retrieving experience<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A leitura intersubjetiva \u00e9 aquela segundo a qual o mundo deve ser compreendido como algo alcan\u00e7ado por meio de um processo cont\u00ednuo de rela\u00e7\u00f5es intersubjetivas com seus conflitos e concord\u00e2ncias. Na quest\u00e3o do g\u00eanero, Oksala analisa o exemplo dos indiv\u00edduos intersexuais que, nos dias de hoje, conseguem articular suas experi\u00eancias em novos termos e afirma, com isso, que do ponto de vista te\u00f3rico o sistema de normalidade j\u00e1 deveria ter sido alterado: \u201cpodemos simplesmente considerar [\u2026] a estupidez do que os fil\u00f3sofos escreveram sobre as mulheres na hist\u00f3ria da filosofia\u201d (OKSALA, 2006, pp. 234-235). A autora aponta que, ou a quest\u00e3o do g\u00eanero n\u00e3o pode ser investigada sob o m\u00e9todo fenomenol\u00f3gico, ou a investiga\u00e7\u00e3o ser\u00e1 condenada a uma circularidade porque j\u00e1 pressup\u00f5e aquilo que pretende explicar. A \u00fanica sa\u00edda \u00e9 que o m\u00e9todo fenomenol\u00f3gico seja modificado para dar conta da intersubjetividade considerando a import\u00e2ncia constitutiva da cultura, da linguagem e da historicidade, somando elementos de outras formas de abordagens. Ela chamou essa modifica\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo de p\u00f3s-estruturalista:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><em>O m\u00e9todo de redu\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio para efetuar a etapa reflexiva que abre o reino de investiga\u00e7\u00e3o transcendental. Devemos romper com a atitude natural entendida como uma atitude em que a pr\u00e9-compreens\u00e3o ontol\u00f3gica do mundo n\u00e3o \u00e9 vis\u00edvel para n\u00f3s, em dire\u00e7\u00e3o a uma atitude que \u00e9 capaz de problematiz\u00e1-la. Ao mesmo tempo, temos que aceitar que a ontologia nunca pode ser totalmente suspensa, porque est\u00e1 irrevogavelmente ligada com a nossa linguagem, m\u00e9todos de reflex\u00e3o e formas de ver o mundo. Isso significa admitir o car\u00e1ter sempre parcial e preliminar de qualquer investiga\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica sobre n\u00f3s mesmos. Uma an\u00e1lise da experi\u00eancia que pretende ser radical e transcendental s\u00f3 pode ser fragment\u00e1ria e incompleta. (OKSALA, 2006, p. 241).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para manter o distanciamento cr\u00edtico, \u00e9 mais \u00fatil debru\u00e7ar-se sobre relat\u00f3rios da psicologia ou da etnografia que sobre as pr\u00f3prias experi\u00eancias e viv\u00eancias, isto \u00e9, refletir sobre conhecimentos e experi\u00eancias alheios, sem desconsiderar os princ\u00edpios elementares da fenomenologia. Essa integra\u00e7\u00e3o entre fenomenologia e p\u00f3s-estruturalismo daria condi\u00e7\u00f5es de realizar uma compreens\u00e3o mais radical da experi\u00eancia singular e pr\u00f3pria acerca da quest\u00e3o dos g\u00eaneros.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">4. Linda Mart\u00edn Alcoff, Visible identities (2006)<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Linda Mart\u00edn Alcoff, no livro <em>Visible identities<\/em>, de 2006, se preocupa em demonstrar como marcadores sociais de identidade, como ra\u00e7a e etnia, sexo e g\u00eanero, se relacionam \u00e0 categoria do eu<em> <\/em>(<em>self<\/em>) e da experi\u00eancia vivida da subjetividade. A autora produz uma obra original e inovadora de descri\u00e7\u00e3o fenomenol\u00f3gica da identidade racial da perspectiva de como \u00e9 experienciada corporalmente pelos sujeitos racializados:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><em>Acredito que um relato hermen\u00eautico e fenomenol\u00f3gico do eu (self), um relato que se constr\u00f3i a partir de uma hermen\u00eautica plurit\u00f3pica, em vez da hermen\u00eautica monot\u00f3pica tradicional, nos ajudar\u00e1 a come\u00e7ar a dar sentido \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es das pol\u00edticas de identidade e de alguns aspectos dos conflitos pol\u00edticos entre grupos culturalmente definidos, bem como a preencher algumas das caracter\u00edsticas da identidade de g\u00eanero que o vi\u00e9s performativo n\u00e3o pode abordar. (ALCOFF, 2006, p. 107).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A combina\u00e7\u00e3o da hermen\u00eautica com a fenomenologia permitiria visualizar os efeitos epistemol\u00f3gicos da diversidade social sem subestimar a personifica\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia subjetiva em dire\u00e7\u00e3o a compreender de maneira ampla e profunda as formas como a identidade racial e de g\u00eanero s\u00e3o materialmente manifestadas. Alcoff parte das descobertas e assertivas das fenomenologias de Merleau-Ponty e de Beauvoir reconhecendo os ganhos e as limita\u00e7\u00f5es do conceito de intencionalidade e discute tamb\u00e9m com teorias p\u00f3s-freudianas e estruturalistas.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">5. Mariana Ortega, In-Between: Latina feminist phenomenology, multiplicity, and the self (2016)<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mariana Ortega, no livro <em>In-Between: Latina feminist phenomenology, multiplicity, and the self<\/em>, de 2016, discute preceitos da fenomenologia tradicional, sobretudo de Martin Heidegger, com as filosofias de Gloria Anzald\u00faa e Mar\u00eda Lugones para compor o que ela chamou de<em> <\/em>teoria <em>mestiza<\/em> (<em>mestiza theory<\/em>). Nas palavras da pr\u00f3pria autora, trata-se de<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><em>uma teoria de individualidade multipliciosa (multiplicitous selfhood), de eus (selves) caraterizada por ser-entre-mundos, ser-nos-mundos, tornar-se-com (being-between-worlds, being-in-worlds, becoming-with). [\u2026] Minha an\u00e1lise leva em considera\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas a multiplicidade do eu (self) em geral, as m\u00faltiplas posi\u00e7\u00f5es que todos n\u00f3s ocupamos, mas tamb\u00e9m as experi\u00eancias de si em fronteiras, em nepantla ou no meio do caminho (in-betweenness). (ORTEGA, 2016, p. 3).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Ortega, uma das grandes potencialidades das fenomenologias feministas latinas \u00e9 a capacidade de realizar a descri\u00e7\u00e3o dos momentos dolorosos e conflitantes de uma vida <em>in-between<\/em> (entre, no meio do caminho). Diferentemente das descri\u00e7\u00f5es do eu feitas pelos fenomen\u00f3logos existencialistas, tais como Heidegger, Sartre e Merleau-Ponty, as fenomen\u00f3logas feministas latinas n\u00e3o se encontram <em>no mundo<\/em>. Ortega relembra Anzald\u00faa e sua descri\u00e7\u00e3o da <em>facultad<\/em>, algo como um \u201csexto sentido\u201d daquilo que \u00e9 ou \u00fatil ou prejudicial por tr\u00e1s dos fen\u00f4menos cotidianos. Trata-se da habilidade da consci\u00eancia cotidiana aperfei\u00e7oada pelos marginalizados de identificar o que amea\u00e7a a liberdade em raz\u00e3o da cont\u00ednua experi\u00eancia do medo e do perigo. Uma das maiores fontes de ang\u00fastia para a nova<em> mestiza<\/em> \u00e9 que ela n\u00e3o tem conhecimento de todas as normas e pr\u00e1ticas dos espa\u00e7os e mundos que ela habita. O seu mundo \u00e9 uma multiplicidade de lugares e fronteiras com normas e culturas vari\u00e1veis; o eu m\u00faltiplo ocupa lugares variadose est\u00e1 imerso em culturas distintas que podem ter normas contradit\u00f3rias entre si, com pr\u00e1ticas e contextos amb\u00edguos. Consequentemente, esse cen\u00e1rio n\u00e3o a torna um ser-no-mundo no mesmo sentido do <em>Dasein<\/em>, uma vez que h\u00e1 mundos contradit\u00f3rios, opostos, fronteiri\u00e7os, entre-mundos que n\u00e3o a deixam habitar confortavelmente e tornam a sua experi\u00eancia angustiante e dolorosa. Pensar na experi\u00eancia da nova <em>mestiza<\/em> aliada \u00e0 teoria heideggeriana de <em>Dasein<\/em> revela uma diferen\u00e7a importante:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><em>As rupturas em sua exist\u00eancia cotidiana, dadas suas m\u00faltiplas localiza\u00e7\u00f5es sociais, culturais e espaciais, levam-na a tornar-se mais reflexiva de suas atividades e de sua exist\u00eancia, o que podemos descrever como uma vida de estranhamento (not-being-at-ease). Enquanto todos os eus podem experimentar o estranhamento ocasionalmente, os eus multipliciosos marginalizados experimentam-no continuamente. (ORTEGA, 2016, p. 60).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acredito que a autora se refira ao conceito de <em>Umheimlichkeit<\/em>, estranhamento, quando n\u00e3o nos sentimos em casa, aus\u00eancia de familiaridade. Certo \u00e9 que as mulheres latino-americanas experimentam as rupturas e as descontinuidades entre a abertura do seu poder-ser mais pr\u00f3prio e as condi\u00e7\u00f5es segundo as quais as suas exist\u00eancias se caracterizam continuamente. Ent\u00e3o, assim como vimos anteriormente com a fenomenologia da consci\u00eancia feminista, podemos dizer que a <em>mestiza<\/em> tem tamb\u00e9m uma consci\u00eancia angustiada em raz\u00e3o dos mundos m\u00faltiplos em que est\u00e1. O conceito de mundo \u00e9 fundamental para a fenomenologia de Ortega, que combina as concep\u00e7\u00f5es de mundo de <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/maria-lugones\">Maria Lugones<\/a> com a de Heidegger (Conferir Ortega, 2016, pp. 60-70). Mundo \u00e9 entendido como um lugar habitado por pessoas reais, com constru\u00e7\u00e3o da vida em termos de rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, g\u00eanero, ra\u00e7a, sexualidade, classe, pol\u00edtica e etc.; uma constru\u00e7\u00e3o incompleta, uma comunidade de sentido onde os significados resultam da transcultura\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de influ\u00eancias e de rela\u00e7\u00f5es de diferentes culturas. N\u00e3o h\u00e1 uma descri\u00e7\u00e3o fixa do termo, mas o sentido \u00e9 que h\u00e1 v\u00e1rios significados, pois mundo \u00e9 algo que est\u00e1 sempre aberto \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o e reinterpreta\u00e7\u00e3o sobre esses cruzamentos poss\u00edveis:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><em>[\u2026] as maneiras pelas quais tais mundos est\u00e3o ligados ao eu e as maneiras segundo \u00e0s quais o eu est\u00e1 neles, a maneira como o eu se comporta neles. Perder esta conex\u00e3o permite a possibilidade n\u00e3o apenas de entender o eu como um mundo \u00e0 parte, mas tamb\u00e9m de fornecer teorias que n\u00e3o est\u00e3o ligadas \u00e0 experi\u00eancia vivida. Dada a import\u00e2ncia da experi\u00eancia vivida para escritores como Anzald\u00faa e Lugones, gostaria de ressaltar a dimens\u00e3o existencial e ontol\u00f3gica do eu. O ser-nos-mundos capta tal dimens\u00e3o, bem como a multiplicidade do eu que ambas as escritoras trouxeram \u00e0 luz. Como multiplicidade, o eu tem v\u00e1rias identidades sociais e a possibilidade de estar em v\u00e1rios mundos. Por exemplo, como multiplicidade, estou em muitos mundos \u2013 o mundo latino, o mundo nicaraguense, o mundo l\u00e9sbico, o mundo l\u00e9sbico latino, o mundo de l\u00edngua espanhola, o mundo acad\u00eamico, entre outros, esses mundos que se cruzam e se sobrep\u00f5em em minhas muitas experi\u00eancias. (ORTEGA, 2016, pp. 65-66).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As no\u00e7\u00f5es de ser-nos-mundos e de ser-entre-mundos permitem compreender o eu em v\u00e1rios mundos particulares ao mesmo tempo e experimentar deslocar-se para outros mundos em raz\u00e3o das diferentes identidades sociais, culturais, hist\u00f3ricas e econ\u00f4micas a que o eu est\u00e1 vinculada. A individualidade multipliciosa assume variadas identidades sociais em termos de ra\u00e7a, g\u00eanero, sexualidade, classe, nacionalidade, etnia, religi\u00e3o, profiss\u00e3o e outros marcadores que, estando entre-mundos precisa adaptar-se, adequar-se e, estrategicamente, superar as contradi\u00e7\u00f5es inerentes a esses m\u00faltiplos mundos. A grande originalidade dessa fenomenologia \u00e9 a flexibilidade da no\u00e7\u00e3o de eu que se op\u00f5e \u00e0 rigidez da concep\u00e7\u00e3o tradicional de individualidade e subjetividade. Para Ortega, somente exercitando a flexibilidade \u00e9 que a nova <em>mestiza <\/em>pode abandonar as forma\u00e7\u00f5es habituais do pensamento e do racioc\u00ednio anal\u00edtico e mover-se em dire\u00e7\u00e3o ao pensamento divergente afastando os padr\u00f5es e objetivos estabelecidos em dire\u00e7\u00e3o a uma perspectiva de mundo mais completa que a inclui, em vez de exclu\u00ed-la.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Considera\u00e7\u00f5es finais<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O feminismo mostrou a necessidade de reconhecer as viv\u00eancias das mulheres e de duvidar daqueles que as negam ou dissimulam. A fenomenologia, por sua vez, ensinou sobre o voltar-se \u00e0s coisas mesmas, \u00e0s condi\u00e7\u00f5es e estruturas que permitem viv\u00eancias e experi\u00eancias. Nos seus respectivos desenvolvimentos, o feminismo evoluiu para as preocupa\u00e7\u00f5es com a ra\u00e7a e a classe; a fenomenologia, para o corpo vivido e a situa\u00e7\u00e3o. O encontro do feminismo com a fenomenologia mostrou que n\u00e3o tenho um corpo de mulher, mas sou meu corpo de mulher, fa\u00e7o existir pela minha condi\u00e7\u00e3o de mulher as contradi\u00e7\u00f5es de uma sociedade desigual, que racionalidade n\u00e3o \u00e9 o oposto do corpo e que tampouco a consci\u00eancia \u00e9 desvinculada da exist\u00eancia corporal. Os feminismos que pesquisam a categoria do ser mulher pela via da diferen\u00e7a podem encontrar contribui\u00e7\u00f5es no uso do m\u00e9todo fenomenol\u00f3gico. E a fenomenologia, por sua vez, desfruta de incont\u00e1veis ganhos com o feminismo se considerarmos, dentre outros dos v\u00e1rios pontos acima levantados, que o g\u00eanero pode ser compreendido como um dos elementos da constitui\u00e7\u00e3o da subjetividade e que se n\u00e3o h\u00e1 consci\u00eancia sem corpo tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 corpo sem sexo e g\u00eanero. Ademais, se quisermos construir uma fenomenologia, n\u00e3o da diferen\u00e7a entre os sexos, mas das condi\u00e7\u00f5es compartilhadas por todos os seres humanos, descrevendo as mesmas estruturas que permitem o aparecimento dos fen\u00f4menos \u00e0 consci\u00eancia, ainda assim, precisar\u00edamos enfrentar as quest\u00f5es de g\u00eanero uma vez que n\u00e3o s\u00e3o os mesmos poss\u00edveis que se desvelam diante de n\u00f3s, nem os mesmos fen\u00f4menos com os mesmos sentidos, nem a experi\u00eancia \u00e9 vivida segundo as mesmas condi\u00e7\u00f5es. Se a busca da filosofia ainda \u00e9 pela verdade, mesmo que o sentido de verdade seja diferente daquele do seu in\u00edcio, quanto mais perspectivas e concep\u00e7\u00f5es abarcar, considerar e acolher menos distante dela estar\u00e1. A heterog\u00eanea tradi\u00e7\u00e3o em que se originam tanto a fenomenologia quanto o feminismo s\u00e3o a marca que garante o espa\u00e7o de potencialidades advindas da aproxima\u00e7\u00e3o entre ambos. Feminismo e fenomenologia n\u00e3o foram ainda exaustivamente desenvolvidos e, por esse horizonte aberto, muitos frutos ainda ser\u00e3o colhidos. A integra\u00e7\u00e3o entre essas duas \u00e1reas de investiga\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise ser\u00e1 ben\u00e9fica tanto para cada uma individualmente quanto para a revolu\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica de ambas propriamente. Eu gostaria de demarcar minha alegria na escrita deste verbete por compreender que a filosofia avan\u00e7a e evolui no entrela\u00e7amento entre diferentes m\u00e9todos, formas de an\u00e1lise, campos te\u00f3ricos e correntes discursivas que visam o pensamento na sua radicalidade.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Bibliografia<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ALCOFF, Linda Martin. <em>Visible identities: race, gender, and the Self.<\/em> Oxford: Oxford Press, 2006.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ALLEN, Jeffner; YOUNG, Iris Marion (Org.). <em>The thinking muse<\/em>. Feminism and modern french philosophy. Indianapolis: Indiana University Press, 1989.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">______. \u201cThrough the Wild Region: An Essay in Phenomenological Feminism\u201d, <em>Review of Existential Psychology <\/em>&amp; <em>Psychiatry <\/em>18, nos. I, 2 &amp; 3, 1982-83, p. 241.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FERGUSON, Ann; NAGEL, Mechthild (Org.). <em>Dancing with Iris. <\/em>The philosophy of Iris Marion Young. Oxford: Oxford University Press, 2009.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FIELDING, Helen A.; OLKOWSKI, Dorothea E. (Org.). <em>Feminist phenomenology futures<\/em>. Indiana University Press, 2017.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FISHER, Linda; EMBR\u00c9E, Lester (Org.). <em>Feminist phenomenology<\/em>. Kluwer Academic Publishers &#8211; Dordrecht <em>I <\/em>Boston <em>I <\/em>London, (1999) 2000.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">HEIN\u00c4MAA, Sara. <em>Toward a phenomenology of sexual difference. <\/em>Husserl, Merleau-Ponty, Beauvoir. Maryland: Rowman &amp; Littlefield Publishers, 2003.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">IRIGARAY, Luce.<em> \u00c9thique de la diff\u00e9rence sexuelle.<\/em> Paris: \u00c9ditions de Minuit,1984.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">______. Sur l&#8217;\u00e9thique de la diff\u00e9rence sexuelle. In: <em>Les Cahiers du GRIF<\/em>, n\u00b032, 1985. l&#8217;ind\u00e9pendance amoureuse. pp. 115-119.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&lt;http:\/\/www.persee.fr\/doc\/grif_0770-6081_1985_num_32_1_1672&gt;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ORTEGA, Mariana. <em>In-between. <\/em>Latina feminist phenomenology, multiplicity, and the Self. Albany: State University of New York, 2016.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">PARKER, Emily Anne; LEEUWEN, Anne van (Org.). <em>Differences: <\/em>Rereading Beauvoir and Irigaray. New York: Oxford University Press, 2018.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00c1ENZ, M\u00aa Carmen L\u00f3pez. \u201cFenomenolog\u00eda e feminismo\u201d,<em> Daimon. <\/em><em>Revista Internacional de Filosof\u00eda<\/em>, n\u00ba 63, 2014, 45-63. ISSN: 1130-0507<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">http:\/\/dx.doi.org\/10.6018\/daimon\/197001<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SCH\u00dcES, Christina; FIELDING, Helen A.; OLKOWSKI, Dorothea E. (Org.). <em>Time in feminist phenomenology<\/em>.&nbsp; Indiana University Press, 2011.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SHABOT, Sara Cohen; LANDRY, Christinia (Org.). <em>Rethinking feminist phenomenology<\/em>. Theoretical and applies perspectives. London:&nbsp; Rowman &amp; Littlefield International Ltda., 2018.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">STOLLER, Sylvia. \u201cWhat is feminist phenomenology? Looking backward and into the future\u201d. In: FIELDING, Helen A.; OLKOWSKI, Dorothea E. (Org.). <em>Feminist phenomenology futures<\/em>. Indiana University Press, 2017, pp. 329-354.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">YOUNG, Iris Marion. \u201cThrowing like a girl: a phenomenology of feminine body comportment motility and spatitality\u201d<em>, Human studies<\/em>, 3, pp. 137-156, 1980.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">_______. <em>On female body experience.<\/em> \u201cThrowing like a girl\u201d and other essays. Oxford: Oxford Press, 2005.<\/p>\n<\/div>\n<\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":360,"featured_media":0,"parent":353,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","inline_featured_image":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"class_list":["post-1223","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1223","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/360"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1223"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1223\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1237,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1223\/revisions\/1237"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/353"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1223"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}