{"id":1475,"date":"2022-09-13T19:36:30","date_gmt":"2022-09-13T22:36:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/?page_id=1475"},"modified":"2022-09-16T09:58:50","modified_gmt":"2022-09-16T12:58:50","slug":"karoline-von-gunderrode","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/filosofas\/karoline-von-gunderrode\/","title":{"rendered":"Karoline von G\u00fcnderrode"},"content":{"rendered":"<p>(1780-1806)<\/p>\n<p style=\"text-align: right\">Por Fabiano Lemos, professor adjunto do Departamento de Filosofia da UERJ, pesquisador do CNPq. <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/6441173133501487\">Lattes<\/a>.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1476\" aria-describedby=\"caption-attachment-1476\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1476\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2022\/09\/Karoline.jpeg\" alt=\"\" width=\"370\" height=\"500\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1476\" class=\"wp-caption-text\">Litografia de Valentin Schertle, sem data<\/figcaption><\/figure>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2022\/09\/Karoline-Fabiano.pdf\">PDF &#8211; Karoline von G\u00fcnderrode<\/a><\/p>\n<p><b>Vida<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Como ocorre com boa parte dos autores e autoras do Romantismo alem\u00e3o, grupo ao qual Karoline von G\u00fcnderrode \u00e9 comumente associada, a biografia dessa escritora \u00e9 atravessada de mitifica\u00e7\u00f5es que, em grande medida, eclipsam uma discuss\u00e3o mais cuidadosa de seus escritos. Nascida em Karlsruhe, no sudoeste da Alemanha, em 11 de fevereiro de 1780, G\u00fcnderrode ficou conhecida logo ap\u00f3s seu suic\u00eddio, aos 26 anos, \u00e0 beira do Reno, em Winkel, um pouco ao norte de sua cidade natal. Uma representa\u00e7\u00e3o bastante difundida de sua figura, recorrente mesmo em trabalhos mais consistentes de hist\u00f3ria e historiografia da literatura alem\u00e3 at\u00e9 hoje, \u00e9 a da poetisa incompreendida, entregue aos bra\u00e7os da morte por si mesma em fun\u00e7\u00e3o de um amor infeliz. Ao vincular o significado hist\u00f3rico de G\u00fcnderrode a uma figura masculina que est\u00e1 longe de ter esgotado sua atividade intelectual, tal representa\u00e7\u00e3o mobiliza uma imagem da escrita feminina tutelada, que est\u00e1 em ampla contradi\u00e7\u00e3o com os prop\u00f3sitos da obra da autora.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Filha mais velha do casal Hector Wilhelm e Louise von G\u00fcnderrode, Karoline von G\u00fcnderrode cresceu, com outros cinco irm\u00e3os, em uma fam\u00edlia t\u00edpica da nobreza financeiramente decadente do final do s\u00e9culo XVIII alem\u00e3o. Seu estatuto social, ainda que em defasagem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, a vinculava a um modelo de cultura que a aproximava de certa heran\u00e7a liter\u00e1ria. Seu pai, conselheiro real, que herdara o t\u00edtulo de bar\u00e3o de um antigo patriarcado de Frankfurt, havia chegado mesmo a escrever algumas obras de economia pol\u00edtica, e publicado, anonimamente, uma hist\u00f3ria do rei Adolfo de Nassau. Sua m\u00e3e, que se interessava pela filosofia de Fichte, publicara poesias e artigos, tamb\u00e9m de modo an\u00f4nimo, em diversas revistas, dos quais n\u00e3o se possuem mais registros. A morte do pai, quando G\u00fcnderrode tinha apenas seis anos, impactou de modo irrevers\u00edvel a situa\u00e7\u00e3o financeira da fam\u00edlia, que passou a depender de uma pens\u00e3o destinada aos membros associados \u00e0 linhagem dos Alten-Limpurg, com a qual a vi\u00fava e seus filhos puderam se estabelecer, ainda que modestamente, na cidade de Hanau. Desde 1797, a filha mais velha da fam\u00edlia \u00e9 integrada \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o Cronstetten-Hynsperg, em Frankfurt, um pequeno internato evang\u00e9lico destinado a mulheres, no qual p\u00f4de estudar filosofia (Kant, Schelling e Schleiermacher, sobretudo), literatura e mitologia \u2014 alcan\u00e7ando a mais alta distin\u00e7\u00e3o dentre as estudantes da institui\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 claro em que medida sua interna\u00e7\u00e3o se deveu \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ou a alguns conflitos com sua m\u00e3e, que, inclusive, fizeram com que, ao menos em uma ocasi\u00e3o, Karoline von G\u00fcnderrode tenha fugido de casa (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">ST<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, 1983, p. 12).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A situa\u00e7\u00e3o no internato pareceu produzir sobre G\u00fcnderrode uma impress\u00e3o notavelmente amb\u00edgua. De um lado, o rigor simb\u00f3lico da institui\u00e7\u00e3o interferia indelevelmente no modo como ela aparecia em p\u00fablico: G\u00fcnderrode se incomodava continuamente com o fato de ter de vestir o h\u00e1bito negro da ordem, sempre adornado por uma enorme cruz ao peito (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">ST<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, 1983, pp. 12-13). Por outro lado, as regras da Funda\u00e7\u00e3o lhe permitiram participar de v\u00e1rios eventos sociais da cidade e seus arredores, passando a frequentar as casas de muitas fam\u00edlias nobres da regi\u00e3o, e a ter, assim, contato com um pequeno grupo de jovens com pretens\u00f5es liter\u00e1rias e filos\u00f3ficas. \u00c9 nesse contexto que ela conhece, em 1799, Friedrich Carl von Savigny, que se tornaria um reconhecido jurista nas d\u00e9cadas seguintes, bem como Bettina von Arnim, sua futura bi\u00f3grafa, e seu irm\u00e3o Clemens, que viria a ser um importante poeta rom\u00e2ntico. A paix\u00e3o entre Savigny e G\u00fcnderrode parece ter sido m\u00fatua, e, da parte dela \u2014 se considerarmos suas cartas da \u00e9poca \u2014, emocionalmente desgastante, ainda que tenha durado apenas alguns meses, j\u00e1 que, em agosto daquele ano, Savigny partiria para uma longa viagem de estudos. A correspond\u00eancia trocada posteriormente entre os dois \u00e9, assim, marcada de uma melancolia indexada pela refer\u00eancia expl\u00edcita aos sofrimentos de Werther, o her\u00f3i suicida do romance epistolar de Goethe (Bianquis, 1910, p. 23), e G\u00fcnderrode confessa constantemente aos amigos von Arnim a amplitude de tais conflitos emocionais. Somente ap\u00f3s 1803, as rela\u00e7\u00f5es com Savigny, a essa altura j\u00e1 noivo de Kunigunde Brentano, assumem um tom novamente cordial, e um breve per\u00edodo de tranquilidade se instaura.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">N\u00e3o se tem not\u00edcia precisa sobre as etapas de reda\u00e7\u00e3o e prepara\u00e7\u00e3o para a publica\u00e7\u00e3o do livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Gedichte und Phantasie<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Poemas e fantasias<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">], que aparece em abril de 1804 sob o pseud\u00f4nimo Tian, e que, em suas quase cento e quarenta p\u00e1ginas in-octavo, \u00e9 composto por vinte textos, incluindo poemas de inspira\u00e7\u00e3o mitol\u00f3gica, pequenas narrativas em prosa, excertos dram\u00e1ticos e fragmentos filos\u00f3ficos. Embora G\u00fcnderrode j\u00e1 houvesse manifestado anteriormente o desejo de se dedicar \u00e0 literatura, que lhe parecia o meio mais adequado de express\u00e3o para sua perspectiva de vida (Hoff, 2000, pp. 182-183), o aparecimento do livro parece ter sido recebido com alguma surpresa, mesmo por seus amigos pr\u00f3ximos: \u00e9 assim que Bettina von Arnim e seu irm\u00e3o Clemens lhe escrevem, no come\u00e7o de maio, para saber se o livro \u00e9 mesmo de sua autoria, como os boatos sup\u00f5em, ao que ela responde, um tanto laconicamente, confirmando a suspeita, mas, ao mesmo tempo, lamentando que tenha sido descoberta (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">GSW*<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> III, pp. 60-61). Essa contradi\u00e7\u00e3o insol\u00favel entre a necessidade de se expressar e um relativo desejo de anonimato configura n\u00e3o apenas a posi\u00e7\u00e3o de G\u00fcnderrode, mas uma situa\u00e7\u00e3o mais ampla, observ\u00e1vel como tra\u00e7o recorrente da escrita feminina da \u00e9poca.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ainda naquele ano, em julho ou agosto, Karoline von G\u00fcnderrode, de passagem por Heidelberg, conhece Friedrich Creuzer, professor de filologia da Universidade daquela cidade, por quem se apaixona. Creuzer, que mais tarde se tornaria famoso pelo seu livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Symbolik und Mythologie der alten V\u00f6lker, besonders der Griechen <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">[<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Simbologia e mitologia dos povos antigos, em especial dos gregos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">] (1812) \u2014 admirado, entre outros, por Nietzsche, que o utilizou como refer\u00eancia na composi\u00e7\u00e3o de seu <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O nascimento da trag\u00e9dia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> \u2014 \u00e9 dez anos mais velho que ela, casado ent\u00e3o h\u00e1 cinco anos, e, apesar de sua proverbial feiura e de sua figura extravagante \u2014 fala-se de sua peruca antiquada e de seu comportamento um tanto empertigado (Bianquis, 1910, pp. 56-57) \u2014 \u00e9 considerado por muitos uma personalidade carism\u00e1tica. O sentimento que liga G\u00fcnderrode a Creuzer \u00e9 m\u00fatuo e ele chega mesmo a planejar manter seu casamento apenas socialmente, mas renuncia a essa decis\u00e3o pouco tempo depois, por temor de que isso pudesse afetar sua carreira, ou, segundo informa a G\u00fcnderrode em carta, por pena de sua esposa. Outras tentativas de concretizar essa rela\u00e7\u00e3o ser\u00e3o arquitetadas, sempre de modo vago e sem solu\u00e7\u00e3o de continuidade: Creuzer negocia um cargo em uma universidade russa, pensando em fugir com sua amada; G\u00fcnderrode tem planos mais ousados: mudar-se para Heidelberg, viver disfar\u00e7ada de homem entre os estudantes de filologia da Universidade (Bianquis, 1910, p. 63). O tom assumido na irrealiza\u00e7\u00e3o dessa uni\u00e3o \u00e9 manifesto, sobretudo, nas passagens mais desesperan\u00e7osas das cartas de G\u00fcnderrode, que denunciam, assim, ao mesmo tempo, sua tens\u00e3o emocional e sua elabora\u00e7\u00e3o po\u00e9tica:\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Tive recentemente um momento terr\u00edvel. Parecia-me como se tivesse ficado louca por muitos anos e tivesse acabado de tomar ju\u00edzo e perguntado por ti e descobrisse que estavas morto h\u00e1 muito tempo. Esse pensamento era loucura e teria dilacerado meu c\u00e9rebro se tivesse durado mais do que um momento. Portanto, n\u00e3o fale de nenhuma outra felicidade de amor por mim<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">ST<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, 1983, p. 235).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A conturbada rela\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m significou uma troca intensa de percep\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas e liter\u00e1rias. G\u00fcnderrode enviava a seu amante muitos de seus escritos, que ele comentava, sugerindo altera\u00e7\u00f5es ou pedindo esclarecimentos. Esse interc\u00e2mbio, contudo, esteve longe de se qualificar exclusivamente como uma colabora\u00e7\u00e3o, como se demonstra nas muitas ocasi\u00f5es em que Creuzer imp\u00f4s restri\u00e7\u00f5es nitidamente mis\u00f3ginas ao trabalho de G\u00fcnderrode. Em uma dessas ocorr\u00eancias, ele lhe sugere que o estudo aprofundado do latim, que ela havia come\u00e7ado por sugest\u00e3o sua \u2014 para que trocassem bilhetes que n\u00e3o poderiam ser imediatamente lidos por qualquer um \u2014, n\u00e3o era adequado \u00e0s mulheres (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">ST<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, 1983, p. 43; Bianquis, 1910, p. 69). A marca da influ\u00eancia de Creuzer \u00e9, certamente, percept\u00edvel no segundo livro de G\u00fcnderrode, publicado em 1805, ainda sob o pseud\u00f4nimo Tian, com o t\u00edtulo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Poetische Fragmente <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">[<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Fragmentos po\u00e9ticos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">]. O livro \u00e9 constitu\u00eddo por tr\u00eas poemas \u2014 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Piedro<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Die Pilger<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Os peregrinos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">] e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Der Kuss im Traume<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O beijo no sonho<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">] \u2014 e dois dramas curtos \u2014 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Hildgund<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Mahomed, der Prophet von Mekka<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Maom\u00e9, o profeta de Meca<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">]. N\u00e3o chegar\u00edamos, no entanto, a dizer, como Herbert Levin o fez em seu estudo de 1922 sobre o Romantismo de Heidelberg, que o que haveria de melhor em G\u00fcnderrode se deveria \u00e0s intui\u00e7\u00f5es de Creuzer (Becker-Cantarino, 2008, p. 281). Uma revis\u00e3o menos mis\u00f3gina do c\u00e2none filos\u00f3fico-liter\u00e1rio poderia demonstrar, antes, que os interesses desse \u00faltimo em sua obra posterior <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Symbolik<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> est\u00e3o pr\u00f3ximos do sincretismo apresentado por aquela primeira nas refer\u00eancias, poetizantes, \u00e9 claro, \u00e0s mitologias oriental e n\u00f3rdica do livro de 1805. Estabelecer a dire\u00e7\u00e3o em que essa influ\u00eancia se deu est\u00e1 longe de ser uma decis\u00e3o f\u00e1cil.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ainda naquele ano, Creuzer traria a p\u00fablico dois outros textos de G\u00fcnderrode, os dramas <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Udohla<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Magie und Schicksal<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Magia e destino<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">], que apareceriam conjuntamente na se\u00e7\u00e3o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Poesien<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Poesias<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">], no jornal <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Studien, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">por ele editado. Um terceiro fragmento dram\u00e1tico, intitulado <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Nikanor,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> \u00e9 editado pouco depois no almanaque <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Taschenbuch f\u00fcr das Jahr 1806<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, e, um pouco depois, o texto em prosa <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Geschichte eines Braminen<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Hist\u00f3ria de um br\u00e2mane<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">] aparece em um s\u00e9rie de livros de divulga\u00e7\u00e3o religiosa editados por Sophie von La Roche. Todos s\u00e3o assinados sob o mesmo pseud\u00f4nimo, Tian.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Enquanto o projeto liter\u00e1rio de G\u00fcnderrode parece avan\u00e7ar, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 bem mais complicada no que se refere \u00e0 sua rela\u00e7\u00e3o com Creuzer. Ap\u00f3s a decis\u00e3o desse \u00faltimo de n\u00e3o se separar de sua esposa, que havia recentemente se dedicado a fazer com que ele se recuperasse de uma longa enfermidade, Karoline von G\u00fcnderrode d\u00e1 sinais de que n\u00e3o resistiria por muito tempo \u00e0s tens\u00f5es emocionais decorrentes da\u00ed. Retrospectivamente, alguns de seus amigos afirmam ter pressentido o pren\u00fancio das ideias suicidas, mas o fato \u00e9 que o tema da morte esteve sempre muito presente na obra de G\u00fcnderrode, mesmo antes de Creuzer, bem como em toda sua produ\u00e7\u00e3o epistolar, de tal modo que essa indica\u00e7\u00e3o deve ser colocada sob suspeita. O interesse de suas leituras de Schelling e Schleiermacher, por exemplo, est\u00e1 marcado pela busca de uma abordagem filos\u00f3fica da quest\u00e3o, como se pode notar em seu fragmento de 1805-1806, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Idee der Erde<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Ideia da Terra<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">]. Tamb\u00e9m \u00e9 incerta a informa\u00e7\u00e3o de que G\u00fcnderrode havia comprado h\u00e1 muito tempo um punhal, e que, ap\u00f3s se consultar com um cirurgi\u00e3o sobre o modo de manipul\u00e1-lo fatalmente, passaria a andar sempre com ele. Seja como for, no crep\u00fasculo do dia 26 de julho de 1806, G\u00fcnderrode se mata com uma punhalada no cora\u00e7\u00e3o, \u00e0 margem do rio Reno. Seu corpo foi encontrado, na manh\u00e3 seguinte, por um barqueiro. Creuzer s\u00f3 recebeu a not\u00edcia semanas depois.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">N\u00e3o demorou muito para que uma certa mitologia se constru\u00edsse em torno da figura da poetisa suicida. \u00c9 verdade que a publica\u00e7\u00e3o, poucos meses depois de seu suic\u00eddio, da colet\u00e2nea <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Melete, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">que n\u00e3o havia sido completamente revisada por sua autora, mas, ainda assim, veio a p\u00fablico atrav\u00e9s, ironicamente, do trabalho de edi\u00e7\u00e3o de Creuzer, pode ter colaborado para isso. Mas a pe\u00e7a fundamental na constru\u00e7\u00e3o do mito G\u00fcnderrode, contudo, \u00e9 a biografia epistolar <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Die G\u00fcnderode<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A G\u00fcnderode<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, grafado equivocadamente sem o duplo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">r<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">], escrita por Bettina von Arnim. Publicado em 1840, o livro alcan\u00e7ou um grande sucesso \u2014 bem como algumas cr\u00edticas n\u00e3o isentas de misoginia \u2014\u2013, mas uma compara\u00e7\u00e3o das cartas reproduzidas por von Arnim indica o grande n\u00famero de interfer\u00eancias e transforma\u00e7\u00f5es do material original (Hock, 2001, p. 54). Seja como for, o romance n\u00e3o apenas consolidou a imagem da tr\u00e1gica hero\u00edna rom\u00e2ntica, despertando um relativo interesse por sua obra, mas, na dire\u00e7\u00e3o oposta, promoveu uma interpreta\u00e7\u00e3o, muitas vezes politicamente conservadora, dadas as convic\u00e7\u00f5es religiosas e ideol\u00f3gicas de Bettina, de textos que, sob muitos aspectos, expressam tend\u00eancias revolucion\u00e1rias pr\u00f3prias do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Fr\u00fchromatik<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">primeiro Romantismo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Pode-se afirmar, nesse sentido, que a imagem da biografia de Karoline von G\u00fcnderrode muitas vezes apagou tra\u00e7os significativos de sua escrita \u2014 uma situa\u00e7\u00e3o que s\u00f3 seria revertida, em parte, a partir das leituras feministas da hist\u00f3ria da literatura feminina alem\u00e3, empreendida, desde a d\u00e9cada de 1960, por exemplo, por Christa Wolf, Sigrid Weigel ou Helga Dormann, que mostraram em que sentido a vida de G\u00fcnderrode deveria permitir a promo\u00e7\u00e3o de um interesse mais amplo, e um estudo mais aprofundado, de seus textos.<\/span><\/p>\n<p><b>Obras e temas<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A dificuldade de se articular a escrita de Karoline von G\u00fcnderrode ao debate filos\u00f3fico moderno deriva ao menos de duas raz\u00f5es que se amplificam mutuamente: de um lado, a misoginia da historiografia que constitui e estrutura o c\u00e2none, e, de outro, a recusa, da parte de muitos historiadores, de pensar a escrita liter\u00e1ria como ve\u00edculo conceitual aut\u00f4nomo. Enquanto o primeiro aspecto resulta em um apagamento sistem\u00e1tico de autoras que pensaram de modo original os problemas filos\u00f3ficos, pode-se responsabilizar o segundo pela virtual aus\u00eancia de escritores rom\u00e2nticos nas historiografias can\u00f4nicas da filosofia, uma vez que o projeto conceitual desses consistia, em alguma medida, em mostrar que a forma do conceito n\u00e3o est\u00e1 necessariamente ligada a um modelo dedutivo, promovendo, conscientemente, a experimenta\u00e7\u00e3o do contexto narrativo da filosofia na dire\u00e7\u00e3o da poesia. Se admitirmos, portanto, que essa experimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 leg\u00edtima, e que aquele silenciamento deve ser tamb\u00e9m sistematicamente enfrentado, a obra de G\u00fcnderrode se revela como de grande interesse.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Os poemas de G\u00fcnderrode apresentam grande varia\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica, consistindo ora em baladas l\u00edricas (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Wunsch<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Desejo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">] ou <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Die Bande der Liebe<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Os elos do amor<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">]), ora em retratos \u00e9picos (Darthula nach Ossian<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">[<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">D\u00e1rtula segundo Ossian<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">], <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Don Juan<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">), ora em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">poemas hist\u00f3ricos <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Mahomets Traum in der W\u00fcste<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O sonho de Maom\u00e9 no deserto<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">]). Do ponto de vista formal, eles n\u00e3o anunciam nenhuma grande diverg\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao modelo vigente \u00e0 \u00e9poca, assemelhando-se, frequentemente, a certas passagens de Goethe, com uma ou outra exce\u00e7\u00e3o \u2014 como \u00e9 o caso com <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Die Bande der Liebe<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Os elos do amor<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">], que foge da estrutura do quarteto. O mesmo se pode dizer dos fragmentos dram\u00e1ticos, que, em geral, se alinham ao tipo de exerc\u00edcio liter\u00e1rio que interessou toda uma gera\u00e7\u00e3o na virada para o s\u00e9culo XIX. \u00c9 no n\u00edvel tem\u00e1tico, contudo, que esses textos expressam as ideias particulares de G\u00fcnderrode.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Uma primeira leitura poderia nos levar a incluir a po\u00e9tica de seus livros inteiramente no projeto geral do Romantismo: ao lado da premeditada instabilidade formal dos textos, que parece replicar o princ\u00edpio editorial da revisa <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Athen\u00e4um<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, dos irm\u00e3os Schlegel. Al\u00e9m disso,<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">tomados em conjunto, esses textos corroboram a imagem do amor como princ\u00edpio de s\u00edntese transpessoal \u2014 que o avizinha da elimina\u00e7\u00e3o da concretude da singularidade, ou seja, entre outras coisas, do suic\u00eddio como quest\u00e3o \u00e9tica e cosmol\u00f3gica \u2014, que se deixa pressentir como uma tend\u00eancia geral do movimento. Assim, alguns de seus poemas de 1799, recolhidos em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Gedichte und Phantasien<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Poemas e fantasias<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">], podem mesmo ser interpretados a partir dos paradoxos \u00e9ticos instanciados na imagem do amor irrealiz\u00e1vel, como \u00e9 o caso com os primeiros versos de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Liebe<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Amor<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">], escritos, provavelmente, na segunda metade de 1799: \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O reiche Armut! Gebend, seliges Empfangen!\/ In Zagheit Mut! in Freiheit doch gefangen.\/ In Stummheit Sprache, \/ Sch\u00fcchtern bei Tage, \/ Siegend mit zaghaftem Bangen<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d [\u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u00d3 rica pobreza! Sagrado receber, doador! \/ Coragem na timidez! na liberdade ainda aprisionada. \/ Em linguagem de mutismo, \/ Oculto em pleno dia, \/ Vencendo com tremores hesitantes<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d] (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">GSW<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> I, p. 79). Que essa disposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o se esgota em uma representa\u00e7\u00e3o meramente subjetiva do amor \u2014 como frequentemente se critica nos textos rom\u00e2nticos em geral, e das mulheres, em particular \u2014 \u00e9 algo que se demonstra em v\u00e1rios fragmentos do esp\u00f3lio de G\u00fcnderrode que se esfor\u00e7am para indicar a dimens\u00e3o \u00e9tica da quest\u00e3o. \u00c9 o caso de uma passagem, de data incerta, onde lemos: \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">n\u00e3o existe nenhum Amor Pessoal, apenas amor \u00e0 excel\u00eancia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">GSW<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> I, p. 463).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No entanto, a tem\u00e1tica do amor em G\u00fcnderrode sugere subvers\u00f5es que n\u00e3o se encontram facilmente entre outros autores. A maneira como a inexorabilidade do destino, orientada pelo impulso amoroso transpessoal, resulta, em seus escritos, em uma reavalia\u00e7\u00e3o dos pap\u00e9is de g\u00eanero \u00e9 algo excepcional, mesmo se levarmos em conta as experimenta\u00e7\u00f5es que, nesse sentido, foram feitas em um romance como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Lucinde<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1800), de Friedrich Schlegel. Nesse \u00faltimo, embora haja um esfor\u00e7o para se pensar a relatividade das identidades de g\u00eanero e para se promover o elogio do feminino, as personagens acabam, fatalmente, marcadas pelo destino familiar, dom\u00e9stico, auxiliar (Lemos, 2022b, pp. 75-82). Em G\u00fcnderrode, ao contr\u00e1rio, o amor for\u00e7a as personagens a romper com essa estrutura da familiaridade, e, por extens\u00e3o, com os espa\u00e7os identit\u00e1rios do masculino e do feminino. Um poema inclu\u00eddo em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Poetische Fragmente<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Fragmentos po\u00e9ticos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">], intitulado <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Piedro<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, j\u00e1 foi definido como uma \u201cbalada homoer\u00f3tica\u201d (Ezekiel, 2016, p. 8), pois narra a hist\u00f3ria do personagem-t\u00edtulo, um marinheiro que, ao matar o sequestrador de sua noiva, vendo-o \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">t\u00e3o graciosamente na morte<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">GSW<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> I, p. 104) acaba por se apaixonar por ele, \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">e de seus p\u00e1lidos l\u00e1bios \/ com remorso bebe beijos quentes<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d [\u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Und von seinen blassen Lippen \/ Reuig hei\u00dfe K\u00fcsse trinkt<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d] (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Idem<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">). Um ultrapassamento an\u00e1logo se d\u00e1 no fragmento dram\u00e1tico <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Hildgung<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, no qual a guerreira que d\u00e1 nome \u00e0 pe\u00e7a se v\u00ea presa a uma dif\u00edcil decis\u00e3o: ela deve casar-se com \u00c1tila, o Huno, de quem havia acabado de fugir, a fim de poupar a Borgonha de uma invas\u00e3o. Nos \u00faltimos versos da pe\u00e7a, que termina em suspenso, ela acaba por ceder, pressionada por seu pai, mas est\u00e1 decidida a matar seu futuro marido e a cometer suic\u00eddio. Assim, ela l<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">he diz: \u201cCurvo-me at\u00e9 a poeira do ch\u00e3o diante de meu senhor<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d [\u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Ich beuge mich zum Staub vor meinem Herr<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">scher nhi\u201d] (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">GSW<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> I, p. 101), enquanto para si mesma, anuncia: \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Ah, tirano, celebra, \/ as horas que r\u00e1pido passam de seu \u00faltimo dia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d [\u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Ha feire nur, Tirann, \/ Des letzten Tages schnell entflohne Stunden<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d] (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">GSW<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> I, p. 102).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Os escritos de G\u00fcnderrode s\u00e3o, assim, pr\u00f3digos em refer\u00eancias ao sistema de opress\u00e3o de g\u00eanero, bem como de propostas de subvers\u00e3o, ainda que atrav\u00e9s dos instrumentos conceituais e narrativos pr\u00f3prios do oitocentos. As resenhas que seus livros publicados receberam confirmam o quanto estas percep\u00e7\u00f5es eram tang\u00edveis em seu espa\u00e7o hist\u00f3rico-cultural. Em uma rea\u00e7\u00e3o t\u00edpica das resenhas escritas por homens por ocasi\u00e3o do aparecimento de obras escritas por mulheres, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Gedichte und Phantasien <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">[<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Poemas e fantasias<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">] \u00e9 criticado, em uma recens\u00e3o publicada no <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Der Freim\u00fcthige<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, em maio de 1805, onde se indica o nome da autora e se sugere que ela, no futuro, n\u00e3o recaia nas \u201cprofundezas de uma m\u00edstica sinistra\u201d (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">GSW<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> III, p. 62). Em julho, uma outra resenha, no <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Jenaische Allgemeine Literatur-Zeitung<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, \u00e9 ainda mais dura, apontando o que entende como as inconsist\u00eancias formais do livro, sem unidade com seu conte\u00fado (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">GSW <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">III, p. 68). No ano seguinte, a publica\u00e7\u00e3o de seu livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Poetische Fragmente <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">[<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Fragmentos po\u00e9ticos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">] \u00e9 recebida com igual disposi\u00e7\u00e3o: sua obra \u00e9 apresentada como \u201csem come\u00e7o e sem fim \u2014 e sem conte\u00fado\u201d, sem as compet\u00eancias necess\u00e1rias para a articula\u00e7\u00e3o do todo, sugerindo, enfim, os benef\u00edcios que o autor (n\u00e3o se sabe at\u00e9 que ponto o resenhista sabia da identidade por tr\u00e1s do pseud\u00f4nimo Tian, anteriormente j\u00e1 revelada) poderia retirar de algum tempo de estudo (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">GSW<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> III, pp. 110-111). E, apesar de algumas breves men\u00e7\u00f5es elogiosas na imprensa especializada (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Idem<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, p. 112), em junho de 1807 \u2014 um ano, portanto, ap\u00f3s o suic\u00eddio de Karoline von G\u00fcnderrode \u2014, o mesmo jornal <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Jeanaische Allgemeine Literatur-Zeitung<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> ainda insistia na imagem t\u00edpica da defici\u00eancia da escrita feminina: o que a autora parece ter desejado fazer em seu segundo livro \u00e9 a\u00ed entendido como \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">poetizar enquanto mulher no esp\u00edrito masculino [dichten als Weib im m\u00e4nnlichen Geiste] (&#8230;) mas a natureza feminina nela fez com que a este fim faltasse aquele \u2014 a consci\u00eancia de sua inten\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Idem<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, p. 113).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O tri\u00e2ngulo formado, assim, pelos problemas da opress\u00e3o de g\u00eanero, da universalidade categ\u00f3rica e sacrificial do amor e da disponibilidade po\u00e9tica da morte como alternativa a uma vida despotencializada se prolonga dos poemas e pe\u00e7as aos fragmentos de car\u00e1ter mais imediatamente reconhec\u00edveis como filos\u00f3ficos. Desde seus primeiros anos de estudo, G\u00fcnderrode havia enxergado no idealismo p\u00f3s-kantiano, bem como na mitologia, especialmente a n\u00f3rdica e a de povos orientais, a imagem de mundo capaz de responder aos seus anseios em torno da ideia de unidade cosmol\u00f3gica. Os textos que constitu\u00edram o material de sua forma\u00e7\u00e3o indicam a constante retomada dessa preocupa\u00e7\u00e3o fundamental com o Todo especulativo. De seus cadernos, podemos reconstruir, de um lado, o amplo interesse pelas ci\u00eancias: confirmam-no seus estudos de m\u00e9trica grega cl\u00e1ssica e alem\u00e3, de l\u00edngua latina, qu\u00edmica, e, especialmente, fisionomia \u2014 uma \u00e1rea \u00e0 qual dedicava grande interesse, a se contar pelos muitos desenhos que fez, anexados aos seus estudos (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">GSW<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> III, pp. 419-483). Mas, por outro lado, s\u00e3o suas leituras filos\u00f3ficas que configuram o horizonte heur\u00edstico de suas reflex\u00f5es. Tamb\u00e9m nesses cadernos est\u00e3o transcritos muitos dos fragmentos da revista <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Athen\u00e4um<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, especialmente os de Novalis e Friedrich Schlegel (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">GSW<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> III, pp. 273-281), passagens do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u00dcber die Religion<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Sobre a religi\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">], publicado por Friedrich Schleiermacher em 1799, da s\u00e9rie de confer\u00eancias de Fichte, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Die Bestimmung des Menschen<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A destina\u00e7\u00e3o dos homens<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">], do mesmo ano, e de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Simon ou des facult\u00e9s de l\u2019\u00e2me<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, escrito por Franz Hemsterhuis, um fil\u00f3sofo importante para autores como Novalis e Jean Paul, e publicado postumamente em 1792. Uma parte consider\u00e1vel desses cadernos, por fim, \u00e9 preenchida pelas anota\u00e7\u00f5es do estudo detalhado feito por G\u00fcnderrode a partir da obra <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Grundri\u00df einer reinen allgemeinen Logik nach Kantischen Grunds\u00e4tzen<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Esbo\u00e7o fundamental de uma l\u00f3gica universal pura segundo princ\u00edpios kantianos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">], publicado por Johann Gottfried Kiesewetter, professor de filosofia em Berlim, em 1793.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O que se desenha a partir dessas refer\u00eancias \u00e9 o problema j\u00e1 mapeado na cr\u00edtica feita pelos autores do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Sturm und Drang<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e do Romantismo \u00e0s cis\u00f5es operadas por Kant entre subjetividade e mundo, que, no caso de G\u00fcnderrode, se reveste de uma melancolia profunda. Se reconstruirmos suas posi\u00e7\u00f5es a partir desse quadro geral, pode-se dizer que sua quest\u00e3o mais insistente \u00e9 a da possibilidade de se alcan\u00e7ar a verdadeira unidade entre a natureza e a liberdade atrav\u00e9s de uma transforma\u00e7\u00e3o \u00e9tica do estado de incompletude da vida cotidiana, que corresponderia a viver po\u00e9tica e misticamente no mundo, como se n\u00e3o se pertencesse a ele:\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">H\u00e1 duas vidas[,] a comum (a pior \u00e9 como a nossa) e a mais elevada; muitos seres humanos alternam entre as duas, o verdadeiro artista permanece inteiramente na \u00faltima[,] ela \u00e9 a verdadeira ben\u00e7\u00e3o, e quem alguma vez a adentrou, para este o mundo est\u00e1 perdido, sem salva\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">GSW<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> I, p. 437).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Essa convers\u00e3o que, n\u00e3o por acaso, \u00e9 denominada <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">celestial<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, faz com que o modelo perceptivo dos sujeitos reunificados com o mundo seja, n\u00e3o o da l\u00f3gica ou o do utilitarismo, mas o da contempla\u00e7\u00e3o on\u00edrica e da disposi\u00e7\u00e3o para o sinest\u00e9sico. A aten\u00e7\u00e3o dispensada por G\u00fcnderrode ao mundo dos sonhos, como chave de interpreta\u00e7\u00e3o da eternidade (cf. os fragmentos <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Der Traum <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">[<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O sonho<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">] em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">GSW<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> I, p. 435, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">ein Traum<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">um sonho<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">], em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">GSW<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> I, p. 439, ou <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Tr\u00e4ume<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">GSW<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> I, pp. 444-445) n\u00e3o est\u00e1 muito distante do interesse que, alguns anos depois, Friedrich Schlegel desenvolveria a respeito dos estados magn\u00e9ticos e sonamb\u00falicos, algo com o que tamb\u00e9m Hegel se ocupou nos \u00a7\u00a7 404-407 da <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Enciclop\u00e9dia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O que define, portanto, a estrutura ontol\u00f3gica do mundo enquanto unidade entre sujeito e objeto, \u00e9 uma totalidade vital que s\u00f3 pode ser categorizada analiticamente em um momento posterior da hist\u00f3ria do Esp\u00edrito. Em conson\u00e2ncia com muitas das ideias rom\u00e2nticas, G\u00fcnderrode assume como paradigma da reflex\u00e3o filos\u00f3fico-po\u00e9tica o movimento de retorno \u00e0s origens de uma s\u00edntese total, mas a caracter\u00edstica fundamental desse ponto origin\u00e1rio \u00e9, ao mesmo tempo, a possibilidade do hibridismo. \u00c9 o que afirma um fragmento de 1802-1803, apropriando-se poeticamente do conceito fichtiano de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Anstoss<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">obst\u00e1culo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">:\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Em todas as mat\u00e9rias habita uma vida secreta, mas ela est\u00e1 presa nelas com os apertados la\u00e7os de um tecido do qual ela n\u00e3o pode se livrar sozinha. Quando, contudo, um obst\u00e1culo [Anstoss] externo toca a mat\u00e9ria, ent\u00e3o os n\u00f3s se desfazem, os sons saem de seus calabou\u00e7os, abra\u00e7am, tr\u00eamulos, o ar, e, em harm\u00f4nicas vibra\u00e7\u00f5es, voam uns sobre os outros. Assim, h\u00e1 muito tempo, quando todas as coisas ainda estavam misturadas em uma massa crua, o esp\u00edrito vivo flutuou sobre todas as mat\u00e9rias, e, quando ele a abra\u00e7ou, nasceu de sua mistura uma s\u00e9rie de formas harm\u00f4nicas[.]<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">GSW<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> I, p. 441).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Sob esse aspecto, o conceito impl\u00edcito de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">origem<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> dos textos de G\u00fcnderrode est\u00e1 mais pr\u00f3ximo daquilo que Novalis chamou, no fragmento 54 do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">P\u00f3len<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">confus\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, do que da estabilidade unificadora de uma s\u00edntese id\u00eantica a si mesma. A cr\u00edtica que, contra o Romantismo, pretendeu enxergar nele o totalitarismo de uma regress\u00e3o, n\u00e3o compreende que esse movimento de retorno ao Todo \u00e9, ao mesmo tempo, uma afirma\u00e7\u00e3o paradoxal da pot\u00eancia radical que esse Todo guarda de se tornar <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">tudo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, de dispersar-se, configurando essa <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">potencialidade<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> como crit\u00e9rio de unifica\u00e7\u00e3o. Os fragmentos de G\u00fcnderrode, lidos com aten\u00e7\u00e3o, podem ajudar a esclarecer esse ponto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Por fim, talvez, nesse sentido, o texto mais emblem\u00e1tico da conflu\u00eancia de suas quest\u00f5es \u00e9ticas, po\u00e9ticas e cosmol\u00f3gicas seja o fragmento <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Idee der Erde<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Ideia da Terra<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">], escrito pouco antes de seu suic\u00eddio, entre novembro de 1805 e fevereiro de 1806. Trata-se de um fragmento de quatro par\u00e1grafos, que pretende discutir a tese apresentada logo no in\u00edcio do texto:\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A Terra \u00e9 uma ideia realizada [Die Erde ist eine realisrte Idee], ao mesmo tempo uma (for\u00e7a) eficiente e uma (apari\u00e7\u00e3o) efetivada, portanto, uma unidade entre alma e corpo [Leib], das quais um dos polos da atividade que eles desenvolvem exteriormente n\u00f3s chamamos extens\u00e3o, forma, corpo [K\u00f6rper], e, quanto ao que se volta ao interior, intensidade, ess\u00eancia, for\u00e7a [Kraft], alma<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">GSW<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> I, p. 446).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Reconhecemos, nessa proposi\u00e7\u00e3o de abertura, reverbera\u00e7\u00f5es do horizonte da filosofia de Schelling, que G\u00fcnderrode havia estudado h\u00e1 alguns anos, e que discutia h\u00e1 algum tempo com Creuzer. Esse texto, que merece uma an\u00e1lise cuidadosa \u2014 e sobre o qual h\u00e1 pouca coisa escrita \u2014 prop\u00f5e, contudo, uma invers\u00e3o: trata-se de pensar a <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">ideia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> n\u00e3o a partir de uma t\u00f3pica exclusivamente ascensional, mas, antes, de reconduzi-la \u00e0 Terra, ou seja, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">radicaliz\u00e1-la<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, no sentido em que pensamos na dire\u00e7\u00e3o da <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">raiz<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> do Ser. Al\u00e9m disso, o processo atrav\u00e9s do qual o Esp\u00edrito se move n\u00e3o se reduz \u00e0 unidirecionalidade da dial\u00e9tica que, em Hegel, por exemplo, se manifesta como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Aufhebung<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">suprassun\u00e7\u00e3o.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Idee der Erde<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, a \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">vida \u00e9 imortal e ondula para cima e para baixo nos elementos, pois eles s\u00e3o a pr\u00f3pria vida<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (GSW<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> I, p. 446<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">). O que se estabelece, assim, \u00e9 uma identifica\u00e7\u00e3o, tensionada, sem d\u00favida, entre a profundidade ontol\u00f3gica e a sublimidade epistemol\u00f3gica, ou seja, entre a concretude do Ser e a contempla\u00e7\u00e3o do Infinito. Diferentemente do que o idealismo especulativo de tipo hegeliano prop\u00f5e, G\u00fcnderrode pretende que essa identifica\u00e7\u00e3o deva se dar n\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o de uma s\u00edntese superior, mas na vertigem de uma <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">queda<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Eis porque a morte e a individualidade s\u00f3 conduzem \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de um <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">aterramento<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, sendo mantidas como figura, mas n\u00e3o exatamente <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">superadas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">:\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Mas quando, ent\u00e3o, a morte do ser humano retorna sua mistura para a subst\u00e2ncia terrena, o que nela era o que designamos como for\u00e7a, a\u00e7\u00e3o, ou v\u00e1rias outras <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">[coisas]<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> desse teor, nas quais o polo ativo predominou, se revolve de novo naquilo que, na Terra, as modifica; os elementos mais grosseiros procuram pelos semelhantes segundo leis da afinidade <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(&#8230;)\u201d (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">GSW<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> I, p. 447).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Eis porque a \u00e9tica celestial de G\u00fcnderrode \u00e9, concomitantemente, uma ontologia laps\u00e1ria, uma cosmologia da queda que, em si mesma, promove a ascens\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Assim, todo moribundo devolve \u00e0 Terra uma vida elementar aumentada, mais desenvolvida, que ela plasma em formas cada vez mais ascendentes, e o organismo em que, desse modo, incorpora em si elementos, sempre mais desenvolvidos, deve, com isso, se tornar cada vez mais completo e universal. Assim, a Totalidade se torna viva atrav\u00e9s da queda da individualidade, e a individualidade continua a viver, imortal, na totalidade, cuja vida ela vivamente desenvolveu, e, mesmo ap\u00f3s a morte, elevou e ampliou; e, desse modo, atrav\u00e9s do viver e do morrer, ajuda a realizar a ideia da Terra<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">GSW<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> I, p. 447).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ainda que relativamente pouca aten\u00e7\u00e3o tenha sido dada \u00e0s contribui\u00e7\u00f5es originais de G\u00fcnderrode ao debate da filosofia p\u00f3s-kantiana, um esfor\u00e7o de interpreta\u00e7\u00e3o nesse sentido, especialmente concentrado no fragmento <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Idee der Erde<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, tem sido empreendido desde a publica\u00e7\u00e3o, em 1990, da edi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica das obras da autora, organizada por Walter Morgenthaler. N\u00e3o podemos deixar de indicar a pesquisa pioneira de Christa Wolf, que, no in\u00edcio dos anos 1980, havia apresentado, na Alemanha, uma sele\u00e7\u00e3o dos poemas, da prosa e da correspond\u00eancia de G\u00fcnderrode, ainda que seu intuito n\u00e3o tenha sido o de estabelecer uma edi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica. Os esfor\u00e7os operados por uma revis\u00e3o do c\u00e2none liter\u00e1rio de uma perspectiva feminista, instanciados exemplarmente nos artigos de Sigrid Weigel, desde a d\u00e9cada de 1970, consistem em uma primeira formula\u00e7\u00e3o mais geral das quest\u00f5es de m\u00e9todo que reivindicariam um novo espa\u00e7o de leitura, mas n\u00e3o tratam direta e extensamente da obra de G\u00fcnderrode. Os trabalhos de Wolfgang Westphal (1993), Markus Hille (1999) ou Helga Dormann (2004), em alem\u00e3o, e de Gabriele Dillmann (2008), Dalia Nassar (2014) ou Anna Ezekiel (2016), em ingl\u00eas, representam um avan\u00e7o importante e mais recente na reconsidera\u00e7\u00e3o do problema. Essa \u00faltima estudiosa ainda prop\u00f4s, tamb\u00e9m em 2016, uma tradu\u00e7\u00e3o dos <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Poetische Fragmente<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> para o ingl\u00eas. Em portugu\u00eas, apenas refer\u00eancias indiretas \u00e0 vida, e ainda mais indiretas, \u00e0 obra de G\u00fcnderrode estavam dispon\u00edveis at\u00e9 2022, quando foi publicado o livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">As outras constela\u00e7\u00f5es<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, no qual proponho a tradu\u00e7\u00e3o, a partir da edi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica alem\u00e3, de uma sele\u00e7\u00e3o de textos escritos por mulheres, sobre filosofia, no per\u00edodo rom\u00e2ntico alem\u00e3o. Entre esses textos, encontraremos os seguintes fragmentos: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O sonho<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1801-1802), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">[A excel\u00eancia \u00e9 um todo&#8230;]<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1802), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">um sonho<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1802-1804), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O rouxinol<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1802-1803), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O reino dos sons<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1802-1803), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A m\u00fasica<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1803), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A m\u00fasica para mim<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1802-1803), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Sonhos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1804), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Um fragmento apocal\u00edptico<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1804), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Os manes. Um fragmento<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1804), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Ideia da Terra<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1806) e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Cartas de dois amigos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1806).<\/span><\/p>\n<p><b>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">*A edi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica das obras de G\u00fcnderrode, editada por Walter Morganthaler, s\u00e3o referidas ao longo do verbete atrav\u00e9s da abreviatura <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">GSW<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, seguida do n\u00famero do volume em algarismo romano e da p\u00e1gina em ar\u00e1bico. A abreviatura <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">ST<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> refere-se ao livro organizado por Christa Wolf, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Der Schatten eines Traumes <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">[<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A sombra de um sonho<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">].<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Becker-Cantarino, B. (2008) \u201cMythos und Symbolik bei Karoline von G\u00fcnderrode und Friedrich Creuzer\u201d In: STRACK, F. (Hrsg.), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">200 Jahre Heidelberger Romantik<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Berlin\/ Heidelberg: Heidelberger Jahrb\u00fccher.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Behrens, K. (1982) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Frauenbriefe der Romantik<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, herausgegeben und mit einem Nachwort von Katja Behrens, 2. Auflage, Frankfurt am Main: Insel.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Bianquis, G. (1910) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Caroline de Gunderode 1780-1806<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Paris: F\u00e9lix Alcan.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Dillmann, G. (2008) \u201cSuicidal Ideation in Karoline von G\u00fcnderrode&#8217;s Life and Work\u201d In: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Essays in Romanticism,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> volume 16, issue 1.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Dormann, H. (2004) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Die Kunst des inneren Sinns: Mythisierung der inneren und \u00e4u\u00dferen Natur im Werk Karoline von G\u00fcnderrode,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> W\u00fcrzburg: K\u00f6nigshausen &amp; Neumann.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ezekiel, A. (2016) \u201cIntroduction\u201d In: G\u00dcNDERRODE, K. von, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Poetic fragments<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Translated and with Introductory Essays by Anna C. Ezekiel, New York: SUNY.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">G\u00fcnderrode, K. von. (1983) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Der Schatten eines Traumes. Gedichte, Prosa, Briefe, Zeugnisse von Zeitgenossen<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, herarusgegeben und mit einem Essay von Christa Wolf, 3. Auflage, Darmstad und Neuwied: Luchterhand.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_____. (2016) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Poetic fragments<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Translated and with Introductory Essays by Anna C. Ezekiel, New York: SUNY.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_____. (1990) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">S\u00e4mtliche Werke und Ausgew\u00e4hlte Studien. Historisch-Kritische Ausgabe <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">herausgegeben von Walter Morgenthaler, Frankfurt am Main und Basel: Stroemfeld\/ Roter Stern.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Hille, M. (1999.) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Karoline von G\u00fcnderrod<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Reinbeck bei Hamburg: Rowohlt.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Hock, L. M. (2001) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Replicas of a female Prometheus: the textual personae of Bettina von Arnim. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">New York: Peter Lang.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Hoff, D. von, (2000) \u201cKontingenz-Erfahrung in der Romantik. Ausdrucksbegehren und Zensur bei Karoline von G\u00fcnderrode\u201d In: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Pandemonium Germanicum<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, n. 4.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Lemos, F. (2022a) (ed.), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">As outras constela\u00e7\u00f5es. Antologia de fil\u00f3sofas do Romantismo alem\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Belo Horizonte: Relic\u00e1rio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_____. (2022b) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O contrac\u00e2none rom\u00e2ntico. Estudos sobre uma (certa) filosofia do Romantismo alem\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Rio de Janeiro; EdUerj.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nassar, D. (2014) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Romantic Absolute<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Chicago and London: University of Chicago Press.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Weigel, S. (1988) \u201cDer schielende Blick. Thesen zur Geschichte weiblicher Schreibpraxis\u201d In: STEPHAN, I. (Hrsg.), <\/span> <i><span style=\"font-weight: 400\">Die verborgene Frau. Sechs Beitr\u00e4ge zu einer feministischen Literaturwissenschaft<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Hamburg: Argument.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Westphal, W. (1993) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Karoline von G\u00fcnderrode und \u2018Naturdenken um 1800\u2019<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Essen: Blaue Eule.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(1780-1806) Por Fabiano Lemos, professor adjunto do Departamento de Filosofia da UERJ, pesquisador do CNPq. Lattes. 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