{"id":1602,"date":"2022-12-06T18:03:03","date_gmt":"2022-12-06T21:03:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/?page_id=1602"},"modified":"2022-12-06T18:09:27","modified_gmt":"2022-12-06T21:09:27","slug":"heleieth-saffioti","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/filosofas\/heleieth-saffioti\/","title":{"rendered":"Heleieth Saffioti"},"content":{"rendered":"\n<p><span style=\"font-weight: 400\">(1934 &#8211; 2010)<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">por Daniele Motta,<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">doutora em Ci\u00eancias Sociais pela Universidade Estadual de Campinas e professora da rede estadual de ensino de S\u00e3o Paulo &#8211; <\/span><a href=\"https:\/\/lattes.cnpq.br\/7408664520292740\"><span style=\"font-weight: 400\">Lattes<\/span><\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignright size-full is-resized eplus-wrapper\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2022\/12\/saffioti-300x209-1.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1603\" width=\"416\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2022\/12\/saffioti-300x209-1.jpeg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2022\/12\/saffioti-300x209-1-130x90.jpeg 130w\" sizes=\"(max-width: 416px) 100vw, 416px\" \/><figcaption>Imagem de marxismo21.org<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2022\/12\/Saffioti-Daniela.pdf\">PDF &#8211; Heleieth Safiotti <\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Heleieth Iara Bongiovani Saffioti nasceu no dia quatro de janeiro de 1934 em uma fam\u00edlia humilde em Ibir\u00e1, na regi\u00e3o de S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto, interior de S\u00e3o Paulo. Sua m\u00e3e era costureira e seu pai marceneiro. Sua fam\u00edlia morava na zona rural, onde \u00e0 \u00e9poca n\u00e3o havia acesso \u00e0 escola, fato que a fez, desde cedo, morar longe de seus pais para que pudesse estudar. Primeiramente foi alfabetizada em casa por suas tias professoras at\u00e9 ingressar na escola. Heleieth Saffioti morou com diversos familiares at\u00e9 concluir seus estudos na tradicional Escola Caetano de Campos, em S\u00e3o Paulo, onde se formou normalista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No ano de 1956 ingressou no curso de Ci\u00eancias Sociais na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e se casou com o qu\u00edmico Waldemar Saffioti, de quem herdou o sobrenome. Em decorr\u00eancia do trabalho de Waldemar, assim que se casou foi morar nos Estados Unidos. Na sua volta ao Brasil, um ano depois, retornou ao curso de Ci\u00eancias Sociais e se formou no ano de 1960. Dois anos depois de sua formatura, Heleieth Saffioti mudou-se para a cidade de Araraquara, no interior do Estado de S\u00e3o Paulo, para acompanhar Waldemar na forma\u00e7\u00e3o do curso superior de Qu\u00edmica, que mais tarde iria se transformar na Universidade Estadual Paulista. Na mesma cidade tamb\u00e9m se consolidava a Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras, lugar em que Heleieth Saffioti atuou por 21 anos, tendo come\u00e7ado a lecionar em 1962, a convite de Luis Pereira. Do seu casamento com Waldemar teve um filho, que veio a \u00f3bito precocemente, aos 17 anos de idade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Al\u00e9m de uma trajet\u00f3ria profissional marcada pela intensa atividade docente, sua tese de livre doc\u00eancia \u201cA mulher na sociedade de classes: mito e realidade\u201d, defendida em 1967 e publicada em livro em 1969, foi um importante marco para as Ci\u00eancias Sociais no Brasil, sendo o primeiro estudo acerca das mulheres no modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. Heleieth Saffioti teve toda a sua carreira marcada pelos estudos sobre as mulheres. Ap\u00f3s a defesa de sua tese de livre doc\u00eancia, seu esfor\u00e7o te\u00f3rico de apreens\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o da mulher na sociedade capitalista a leva para a investiga\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o da mulher no mercado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A obra da autora pode ser dividida em dois momentos (Gon\u00e7alves, 2011): no primeiro, marcado pela investiga\u00e7\u00e3o do trabalho feminino (final da d\u00e9cada de 1960 at\u00e9 o final dos anos 1980), analisou a desvaloriza\u00e7\u00e3o das mulheres a partir de estudos emp\u00edricos e an\u00e1lise de dados. Entre seus textos destacam-se os estudos sobre as trabalhadoras t\u00eaxteis e as empregadas dom\u00e9sticas: <em>Emprego dom\u00e9stico e capitalismo<\/em>, 1978; <em>Do Artesanal ao Industrial: a explora\u00e7\u00e3o da mulher<\/em>, 1981; <em>Mulher Brasileira: opress\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o<\/em>, 1986. Essas obras d\u00e3o continuidade \u00e0 tese sobre o alijamento da mulher no mercado de trabalho da <em>A mulher na sociedade de classes: mito e realidade<\/em>, 1969.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No segundo momento, iniciado no final dos anos 1980 e que se estende at\u00e9 o fim de sua vida, em 2010, dedicou-se a estudar a quest\u00e3o da viol\u00eancia contra as mulheres. Sobre o tema, destacam-se as obras: <em>O Poder do Macho<\/em>, 1987; <em>Mulher Brasileira \u00e9 Assim<\/em>, 1994; <em>Viol\u00eancia de g\u00eanero: poder e impot\u00eancia<\/em>, 1995; <em>G\u00eanero, Patriarcado e Viol\u00eancia<\/em>, 2004. Ao longo do seu processo de pesquisa sobre a condi\u00e7\u00e3o feminina, ampliou o di\u00e1logo acad\u00eamico com as teorias feministas (p\u00f3s-estruturalistas e materialistas) para elucidar seus estudos sobre a viol\u00eancia patriarcal sofrida pelas mulheres. Heleieth Saffioti faz uma fus\u00e3o entre marxismo e feminismo pois entende que \u201c<em>no campo das viol\u00eancias contra as mulheres, o marxismo colaboraria, mas n\u00e3o seria suficiente para dar conta da \u2018complexidade do complexo\u2019<\/em>\u201d (Castro, 2011, p. 75). Dialogou com diversas correntes das Ci\u00eancias Sociais, pois entendia que, para desvendar a viol\u00eancia contra as mulheres, era preciso olhar para as diversas \u00e1reas do social: simb\u00f3lica, pol\u00edtica, cultural; al\u00e9m da esfera econ\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mesmo ap\u00f3s sua aposentadoria da Unesp de Araraquara continuou pesquisando, escrevendo\/publicando e lecionando na <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Pontif%C3%ADcia_Universidade_Cat%C3%B3lica_de_S%C3%A3o_Paulo\">Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica (PUC) de S\u00e3o Paulo<\/a>, cidade em que manteve resid\u00eancia at\u00e9 seu falecimento. Heleieth Saffioti \u00e9 at\u00e9 hoje uma refer\u00eancia da \u00e1rea de estudos de g\u00eanero no Brasil e foi respons\u00e1vel pela cria\u00e7\u00e3o, no ano de 1989, na Associa\u00e7\u00e3o Nacional de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o e Pesquisa em Ci\u00eancias Sociais (ANPOCS), do Grupo de Trabalho &#8220;Mulheres e Trabalho&#8221;. No ano de 1984 foi convidada a trabalhar no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), onde permaneceu por tr\u00eas meses.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Heleieth Saffioti dedicou sua vida a investigar e desmistificar as rela\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o\/domina\u00e7\u00e3o, revelando como o capitalismo, ao enovelar as hierarquias de g\u00eanero, ra\u00e7a\/etnia e classe, consegue aumentar ainda mais seus lucros. A soci\u00f3loga foi uma incans\u00e1vel defensora dos direitos das mulheres e teve importante inser\u00e7\u00e3o no movimento feminista. Suas formula\u00e7\u00f5es, com grandes repercuss\u00f5es desde a d\u00e9cada de 1970 (momento de grande efervesc\u00eancia no movimento de mulheres), fizeram com que a autora se aproximasse do movimento feminista, atuando no combate \u00e0s desigualdades de g\u00eanero e a viol\u00eancia end\u00eamica contra as mulheres. Destacam-se o curso de g\u00eanero e viol\u00eancia que deu para profissionais da seguran\u00e7a, a atua\u00e7\u00e3o em torno do Conselho da Mulher e as aulas que ministrou para o curso das Promotoras Legais Populares (PLPs). No ano de 1995, como reconhecimento de seu trabalho e de sua luta, seu nome foi indicado ao Nobel da Paz, ao lado de outras mulheres brasileiras, por integrar o projeto Mil Mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Heleieth Saffioti faleceu em 13 de dezembro de 2010 na cidade de S\u00e3o Paulo, em decorr\u00eancia de uma parada cardiorrespirat\u00f3ria. Seu legado continua na grandeza de suas obras e nas pistas que deixou indicada para que outras pesquisadoras seguissem. Todo o seu acervo pessoal, junto com a sua biblioteca, encontram-se hoje na Ch\u00e1cara Sapucaia, local de resid\u00eancia de Heleieth Saffioti e Waldemar na cidade de Araraquara que foi doado pela autora para a UNESP ap\u00f3s o falecimento de seu marido, e hoje \u00e9 um centro cultural e hist\u00f3rico da cidade, aberto ao p\u00fablico. Na cidade de Araraquara o Centro de Refer\u00eancia da Mulher, vinculado \u00e0 prefeitura local, leva o seu nome.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A import\u00e2ncia de Heleieth Saffioti \u00e9 imensa para a Sociologia Brasileira e para a luta feminista. Sua an\u00e1lise sobre as mulheres, a partir das no\u00e7\u00f5es de totalidade e singularidade, avan\u00e7ou o debate epistemol\u00f3gico, colocando g\u00eanero (ao lado de classe e ra\u00e7a) como um dos estruturadores da sociedade. Dessa forma, a autora chega a uma ideia importante, ainda pouco explorada, sobre a imbrica\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, ra\u00e7a\/etnia e classe, que formam um n\u00f3 frouxo. Dessa forma, ainda que seja uma autora vinculada ao marxismo, ela tamb\u00e9m contesta a ideia da primazia da classe social sobre as demais rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Temas e conceitos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O grande tema de Heleieth Saffioti foi a investiga\u00e7\u00e3o sobre as mulheres no modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, refletindo sobre as desigualdades de g\u00eanero e de classe. Para falar de Heleieth Saffioti \u00e9 preciso primeiro entender o seu pioneirismo nos estudos de g\u00eanero com o livro <em>A mulher na sociedade de classes: mito e realidade<\/em>, publicado pela primeira vez em 1969, contando com segunda edi\u00e7\u00e3o em 1976 e a terceira edi\u00e7\u00e3o mais recente, em 2013. Apesar de ter ficado quatro d\u00e9cadas esgotado e sem uma reedi\u00e7\u00e3o, o livro reassumiu sua singularidade e import\u00e2ncia nos \u00faltimos anos, o que possibilitou que a autora fosse retomada por uma nova gera\u00e7\u00e3o de estudiosas sobre a quest\u00e3o de g\u00eanero no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Seu livro foi o primeiro no Brasil a investigar a rela\u00e7\u00e3o entre g\u00eanero e capitalismo, abrindo o campo de estudos sobre mulheres nas Ci\u00eancias Sociais. A obra reflete sobre a forma como a contradi\u00e7\u00e3o da sociedade de classes se articula com outras hierarquias sociais, focalizando sobretudo a quest\u00e3o de g\u00eanero, destacando-a como um dos pilares de manuten\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gios, hierarquias e status social. A conclus\u00e3o a que chega ao final do livro \u00e9 que as mulheres foram alijadas do mercado de trabalho, posi\u00e7\u00e3o que sustenta at\u00e9 o fim de sua vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Embora a quest\u00e3o de g\u00eanero tenha sempre pautado a obra de Heleieth Saffioti, o conceito de g\u00eanero (tal qual \u00e9 usado hoje) ainda n\u00e3o havia adentrado as universidades brasileiras. A formula\u00e7\u00e3o do conceito de g\u00eanero que impactou a teoria social, a partir de uma formula\u00e7\u00e3o feminista, foi elaborada na d\u00e9cada de 1970. No entanto, a sua ampla absor\u00e7\u00e3o pelas te\u00f3ricas feministas no Brasil ocorreu na d\u00e9cada de 1990.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mesmo que a palavra g\u00eanero n\u00e3o apare\u00e7a em suas obras iniciais, pois ainda n\u00e3o havia uma difus\u00e3o do conceito na teoria feminista, a autora faz uma leitura das desigualdades entre homens e mulheres de maneira relacional j\u00e1 em sua primeira obra, quando afirma: \u201c<em>o problema da mulher nas sociedades competitivas n\u00e3o \u00e9 somente seu, mas um problema de homens e mulheres<\/em>\u201d (Saffioti, 2013, p. 513). Heleieth Saffioti dialoga com diferentes tradi\u00e7\u00f5es da teoria feminista e quando absorve o conceito de g\u00eanero para o interior de sua teoria o faz com ressalva, tendo em vista que este foi colocado para ser uma alternativa a outros conceitos considerados problem\u00e1ticos, como o patriarcado, por exemplo. \u00c9 exatamente no abandono do termo patriarcado \u2014 ou na sua substitui\u00e7\u00e3o pelo termo g\u00eanero \u2014 que Heleieth Saffioti centra sua cr\u00edtica, e faz a defesa da utiliza\u00e7\u00e3o conjunta de g\u00eanero e patriarcado. Essa \u00e9 a marca, a singularidade, da utiliza\u00e7\u00e3o do conceito de g\u00eanero pela autora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c9 a partir da ideia de g\u00eanero como uma forma de pensar as rela\u00e7\u00f5es socialmente constru\u00eddas entre homens e mulheres que a no\u00e7\u00e3o de patriarcado passou a ser questionada, acusada de ser uma maneira universal de rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero, e que tratava de forma \u00fanica as rela\u00e7\u00f5es de poder entre homens e mulheres nos diferentes contextos e lugares. O patriarcado foi considerado a-hist\u00f3rico e insuficiente para tratar das rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero. Heleieth Saffioti \u00e9 uma das te\u00f3ricas do campo do feminismo que vai na contram\u00e3o dessa tend\u00eancia e insiste na utilidade do conceito de patriarcado para an\u00e1lise das rela\u00e7\u00f5es entre homens e mulheres, tendo em vista que h\u00e1 uma desigualdade importante a ser demarcada. Ao inv\u00e9s de abandonar a ideia do patriarcado, ela defende a compreens\u00e3o de seus limites e fronteiras hist\u00f3ricas, entendendo que \u201c<em>o patriarcado \u00e9 um caso espec\u00edfico de rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero<\/em>\u201d (Saffioti, 2015, p. 51) e deve ser entendido a partir da forma\u00e7\u00e3o social em cada pa\u00eds, levando em conta que as experi\u00eancias de domina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o podem ser diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para Saffioti (2015), o conceito de g\u00eanero n\u00e3o explicita, necessariamente, a desigualdade entre homens e mulheres; n\u00e3o pressup\u00f5e uma rela\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o\/domina\u00e7\u00e3o, por isso a insist\u00eancia da autora no uso do conceito de patriarcado. A dimens\u00e3o econ\u00f4mica do patriarcado n\u00e3o repousa apenas na desigualdade salarial, ocupacional e na marginaliza\u00e7\u00e3o dos importantes pap\u00e9is econ\u00f4micos e pol\u00edticos, mas inclui o controle da sexualidade e a capacidade reprodutiva das mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">\u201c<em>Por que se manter o nome patriarcado? Sistematizando e sintetizando o acima exposto, porque: 1) n\u00e3o se trata de uma rela\u00e7\u00e3o privada, mas civil; 2) d\u00e1 direitos sexuais aos homens sobre as mulheres, praticamente sem restri\u00e7\u00e3o; 3) configura um tipo hier\u00e1rquico de rela\u00e7\u00e3o, que invade todos os espa\u00e7os da sociedade; 4) tem uma base material; 5) corporifica-se; 6) representa uma estrutura de poder baseada tanto na ideologia quanto na viol\u00eancia<\/em>\u201d (Saffioti, 2015 [2004], p. 60).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>O patriarcado \u00e9 uma das ideias centrais na constru\u00e7\u00e3o do pensamento de Heleieth Saffioti, fundamental para os estudos da autora sobre a viol\u00eancia de g\u00eanero e sobre a imbrica\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, ra\u00e7a\/etnia e classe. Para ela, a alega\u00e7\u00e3o da a-historicidade do conceito \u00e9 muito simplista porque acredita ser poss\u00edvel apreender a historicidade do conceito (Saffioti, 2005).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Da leitura que a autora faz sobre o patriarcado, destaca-se a influ\u00eancia de Carole Pateman, a partir de um debate feminista sobre o contrato social. Em seu livro <em>O Contrato Sexual<\/em> (1988), Carole Pateman critica os te\u00f3ricos contratualistas cl\u00e1ssicos, os utilitaristas e os socialistas, a fim de explicar a domina\u00e7\u00e3o sexual e sua origem na filosofia pol\u00edtica moderna. Afirma ser o pacto original tamb\u00e9m um pacto sexual, criando o direito pol\u00edtico dos homens sobre as mulheres. O termo contrato sexual \u00e9 uma den\u00fancia contra a teoria do contrato, e refere-se ao poder que os homens exercem sobre as mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Para Saffioti (2004), olhar para o patriarcado, a partir dessa leitura, ajuda a demonstrar que a sociedade civil e a economia capitalista t\u00eam uma estrutura patriarcal. Segundo Pateman:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">\u201c<em>A liberdade do homem e a sujei\u00e7\u00e3o da mulher derivam do contrato original e o sentido da liberdade civil n\u00e3o pode ser compreendido sem a metade perdida da hist\u00f3ria, que revela como o direito patriarcal dos homens sobre as mulheres \u00e9 criado pelo contrato. A liberdade civil n\u00e3o \u00e9 universal \u2014 \u00e9 um atributo masculino e depende do direito patriarcal. (\u2026) O pacto original \u00e9 tamb\u00e9m um contrato sexual quanto social; \u00e9 social no sentido de patriarcal \u2014 isto \u00e9, o contrato cria o direito pol\u00edtico dos homens sobre as mulheres \u2014, e tamb\u00e9m sexual no sentido de estabelecimento de um acesso sistem\u00e1tico dos homens ao corpo das mulheres. O contrato original cria o que chamarei, seguindo Adrienne Rich de \u2018lei do direito sexual masculino\u2019. O contrato est\u00e1 longe de se contrapor ao patriarcado; ele \u00e9 o meio pelo qual se constitui o patriarcado moderno<\/em>\u201d (Pateman, 1993 [1988], pp. 16-17 apud Saffioti, 2015 [2004], p.57).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c9 importante destacar, entretanto, que o patriarcado n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico estruturador da sociedade. Saffioti trabalha com a ideia da imbrica\u00e7\u00e3o entre patriarcado, capitalismo e racismo. Ela concebe as diferentes origens dessas tr\u00eas rela\u00e7\u00f5es sociais, mas aponta para a sua fus\u00e3o e retroalimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">\u201c<em>O g\u00eanero, mil\u00eanios anterior, historicamente, \u00e0s classes sociais, se reconstr\u00f3i, isto \u00e9, absorvido pela classe trabalhadora inglesa, no caso de Thompson, se reconstr\u00f3i\/constr\u00f3i juntamente com uma nova maneira de articular rela\u00e7\u00f5es de poder: as classes sociais. A g\u00eanese destas n\u00e3o \u00e9 a mesma, nem se d\u00e1 da mesma forma que a do g\u00eanero. (&#8230;) as classes sociais t\u00eam uma hist\u00f3ria muito mais curta que o g\u00eanero. Desta forma, as classes sociais s\u00e3o, desde sua g\u00eanese, um fen\u00f4meno gendrado. Por sua vez, uma s\u00e9rie de transforma\u00e7\u00f5es no g\u00eanero s\u00e3o introduzidas pela emerg\u00eancia das classes. Para amarrar melhor esta quest\u00e3o, precisa-se juntar o racismo. O n\u00f3 formado por estas tr\u00eas contradi\u00e7\u00f5es apresenta uma qualidade distinta das determina\u00e7\u00f5es que o integram<\/em>\u201d (Saffioti, 2015 [2004], p. 122).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A autora concebe o patriarcado como um fen\u00f4meno social em constante transforma\u00e7\u00e3o. Sendo um sistema de domina\u00e7\u00e3o anterior ao capitalismo, ele se molda para coexistir e potencializar o processo de domina\u00e7\u00e3o\/explora\u00e7\u00e3o, e penetra toda a esfera da vida social. Dessa forma, o patriarcado se produz ao mesmo tempo que reproduz o racismo e o capitalismo e vice-versa. \u00c9 a partir da leitura patriarcal das rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero que a autora vai formular uma vis\u00e3o imbricacionista das rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>M\u00e9todo do enovelamento<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Conforme Heleieth Saffioti vai amadurecendo sua teoria, chega \u00e0 formula\u00e7\u00e3o de que explora\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o s\u00e3o duas faces do mesmo processo e que n\u00e3o existe, de um lado, a explora\u00e7\u00e3o capitalista e, de outro, a domina\u00e7\u00e3o patriarcal, afinal uma se alimenta da outra. Segundo ela:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">\u201c<em>N\u00e3o h\u00e1 de um lado a domina\u00e7\u00e3o patriarcal e, de outro, a explora\u00e7\u00e3o capitalista. Para come\u00e7ar, n\u00e3o existe um processo de domina\u00e7\u00e3o separado de outro de explora\u00e7\u00e3o. Por esta raz\u00e3o, usa-se, aqui e em outros textos, a express\u00e3o domina\u00e7\u00e3o-explora\u00e7\u00e3o ou explora\u00e7\u00e3o-domina\u00e7\u00e3o. Alternam-se as formas, para evitar a m\u00e1 interpreta\u00e7\u00e3o da preced\u00eancia de um processo. De rigor, n\u00e3o h\u00e1 dois processos, mas duas faces de um mesmo processo. Da\u00ed ter-se criado a met\u00e1fora do n\u00f3 para dar conta da realidade da fus\u00e3o patriarcado-racismo-capitalismo<\/em>\u201d (Saffioti, 2005, p. 65).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>A primeira no\u00e7\u00e3o que a autora trabalha \u00e9 a da simbiose entre racismo-patriarcado-capitalismo, que aparece no livro <em>O Poder do Macho<\/em>, publicado no ano de 1987. Ela procura demonstrar como cada um desses sistemas de explora\u00e7\u00e3o\/domina\u00e7\u00e3o est\u00e3o fundidos numa unidade contradit\u00f3ria. A partir de ent\u00e3o, seus textos enaltecem e enfatizam tal perspectiva, uma vez que Saffioti considera um erro tratar a quest\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o no campo econ\u00f4mico e a da domina\u00e7\u00e3o no pol\u00edtico, pois\u201c<em>n\u00e3o dever\u00edamos buscar a primazia do sexo, da classe ou da ra\u00e7a, nem as isolar como estruturas separadas, j\u00e1 que elas se fundiram historicamente<\/em>\u201d (Saffioti, 1992, p. 206).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Essa concep\u00e7\u00e3o \u00e9 importante para o salto metodol\u00f3gico que a autora d\u00e1 na sua teoria, pois a an\u00e1lise dos processos de explora\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o de maneira interligada \u00e9 um caminho que a autora percorre para sua formula\u00e7\u00e3o da totalidade imbricada nas rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero, ra\u00e7a\/etnia e classe, avan\u00e7ando numa metodologia que apreende diversas faces da realidade social, sem hierarquiz\u00e1-las. Entende-se que h\u00e1 uma virada no pensamento da autora (que n\u00e3o acontece repentinamente, mas \u00e9 processual), porque no seu primeiro livro (assim como em algumas obras posteriores), ainda que d\u00ea ind\u00edcios para a an\u00e1lise articulada de g\u00eanero e classe, uma vez que n\u00e3o separa os problemas da mulher dos problemas da sociedade como um todo, ela ainda trabalha com a quest\u00e3o da classe, partindo da an\u00e1lise do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista como o primordial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">\u201c<em>\u00c0s determina\u00e7\u00f5es essenciais de cada forma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mico-social, configuradas do emprego da m\u00e3o de obra em geral, acrescentam-se ainda as combina\u00e7\u00f5es que se estabelecem entre elas e os caracteres naturais dos indiv\u00edduos. A utiliza\u00e7\u00e3o social de caracteres raciais, assim como sexuais, permite dar aos fen\u00f4menos de natureza econ\u00f4mica, tais como o posicionamento dos indiv\u00edduos no sistema produtivo de bens e servi\u00e7os, uma apar\u00eancia inibidora da percep\u00e7\u00e3o de sua ess\u00eancia. Neste sentido, \u00e0s determina\u00e7\u00f5es essenciais de cada uma das configura\u00e7\u00f5es estruturais hist\u00f3rico-sociais, fornecendo-lhes cobertura, isto \u00e9, a apar\u00eancia necess\u00e1ria sob a qual se escondem os verdadeiros mecanismos de opera\u00e7\u00e3o de cada modo espec\u00edfico de produ\u00e7\u00e3o. Conquanto seja o fator sexo um crit\u00e9rio menos conveniente que o fator ra\u00e7a para a conserva\u00e7\u00e3o do dom\u00ednio das camadas privilegiadas, constitui sempre um elemento pelo menos potencialmente discriminador e, portanto, estratificat\u00f3rio<\/em>\u201d (Saffioti, 2013 [1969], p. 328).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No entanto, \u00e9 fundamental destacar que a partir da d\u00e9cada de 1980 ela apresenta sua perspectiva metodol\u00f3gica imbricacionista, enovelando g\u00eanero, ra\u00e7a\/etnia e classe. Essa mudan\u00e7a anal\u00edtica \u00e9 uma maneira da autora articular a quest\u00e3o de g\u00eanero, ra\u00e7a\/etnia com a quest\u00e3o da classe social, de uma vis\u00e3o marxista e dial\u00e9tica. Nas palavras de Saffioti:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">\u201c<em>A figura do n\u00f3 foi usada por mim para mostrar, simultaneamente, a simbiose entre o racismo, o sexismo e as classes sociais, assim como deixar aberta a possibilidade de se puxar uma ou outra ponta dos eixos que o formam, para se realizar um escrut\u00ednio mais acurado. N\u00e3o se trata de separar estas contradi\u00e7\u00f5es, que operam por meio desta nova realidade de car\u00e1ter fusional, mas de examinar cada uma delas \u00e0 luz do n\u00f3 que formam. O n\u00f3 n\u00e3o apresenta a frouxid\u00e3o dos la\u00e7os que se desfazem ao menor movimento. Tampouco \u00e9 duro a ponto de tornar irreconhec\u00edveis as contradi\u00e7\u00f5es que o comp\u00f5em. E, sobretudo, deixa as pontas dos eixos \u00e0 vista, dispostas a revelar suas especificidades. O mais importante a frisar, contudo, \u00e9 a natureza contradit\u00f3ria do n\u00f3, que, ademais, \u00e9 regido por uma l\u00f3gica tamb\u00e9m contradit\u00f3ria<\/em>\u201d (Saffioti, 1999, p. 9).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c9 interessante notar que a autora insiste na ideia da frouxid\u00e3o desse n\u00f3 (Saffioti, 1993, 2015 [2004], 2005). Para ela \u201c<em>n\u00e3o se trata do n\u00f3 g\u00f3rdio nem apertado, mas do n\u00f3 frouxo, deixando mobilidade para cada uma de suas componentes<\/em>\u201d (2015 [2004], p. 133). Trazendo a no\u00e7\u00e3o de mobilidade entre as rela\u00e7\u00f5es que considera fundamentais, auxilia a entender os \u201c<em>processos sociais em suas dimens\u00f5es micro e macro, pois aponta o emaranhado dos processos macrossociais, nas estruturas hist\u00f3ricas nas quais elas se criaram e se consolidaram, e permite a observa\u00e7\u00e3o dessas perspectivas nas identidades e na resist\u00eancia dos sujeitos, percebendo a ag\u00eancia a partir das suas viv\u00eancias pessoais e intera\u00e7\u00f5es sociais, nas suas rela\u00e7\u00f5es din\u00e2micas<\/em>\u201d (Motta, 2017, p. 87). Nas palavras da autora:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">\u201c<em>De acordo com as circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas, cada uma das contradi\u00e7\u00f5es integrantes do n\u00f3 adquire relevos distintos. E esta mobilidade \u00e9 importante reter, a fim de n\u00e3o se tomar nada como fixo, a\u00ed inclusa a organiza\u00e7\u00e3o destas subestruturas na estrutura global, ou seja, destas contradi\u00e7\u00f5es no seio da nova realidade \u2014 novelo patriarcado-racismo-capitalismo \u2014 historicamente constru\u00edda<\/em>\u201d (Saffioti, 2005, p. 59).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">           A ideia do n\u00f3 frouxo de Heleieth Saffioti \u00e9 um mecanismo anal\u00edtico interessante e complexo, pois, ao mesmo tempo em que define g\u00eanero, ra\u00e7a e classe como estruturantes, evita o engessamento da estrutura pela reitera\u00e7\u00e3o da mobilidade entre esses marcadores. E mais do que isso, a ideia do n\u00f3 frouxo permite uma leitura segundo a qual na constitui\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es estruturantes seja poss\u00edvel analisar outras formas de diferencia\u00e7\u00e3o, que se entrecruzam com essas, como linhas que passam entre esse n\u00f3 frouxo, como: a idade, sexualidade, religiosidade, nacionalidade (Motta, 2017; 2018).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Obras da autora<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Saffioti, H. (2013). <em>A mulher na sociedade de classes: mito e realidade.<\/em> 3a edi\u00e7\u00e3o. Editora express\u00e3o popular: S\u00e3o Paulo[1<sup>a<\/sup> edi\u00e7\u00e3o: 1969].<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">_______. (1969). <em>Profissionaliza\u00e7\u00e3o feminina: professoras prim\u00e1rias e oper\u00e1rias.<\/em> Faculdade de Filosofia Ci\u00eancias e Letras de Araraquara.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">_______. (1978). <em>Emprego Dom\u00e9stico e Capitalismo<\/em>. Vozes: Petr\u00f3polis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">_______. (1981). <em>Do Artesanal ao Industrial: A Explora\u00e7\u00e3o da Mulher<\/em>. Editora Hucitec: S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">_______. (1984). <em>Mulher Brasileira: Opress\u00e3o e Explora\u00e7\u00e3o<\/em>. Achiam\u00e9: Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">_______. (1987). <em>O poder do macho<\/em>. Moderna: S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">_______. (1991). <em>Novas perspectivas metodol\u00f3gicas de investiga\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero<\/em>. In: Moraes Silva, M. A. (org.). <em>Mulher em seis tempos.<\/em> Araraquara, FCL, pp. 141-170.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">_______. (1992). <em>Rearticulando g\u00eanero e classe social<\/em>. In: Costa, A. O.; Bruschinni, C. (Orgs), <em>Uma quest\u00e3o de g\u00eanero<\/em>. Rosa dos Tentos Editora e Funda\u00e7\u00e3o Carlos Chagas: S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">_______. (1993). <em>Diferen\u00e7a ou indiferen\u00e7a: g\u00eanero, ra\u00e7a\/etnia e classe social<\/em> \u2013 Saffioti. In: A sociologia entre a modernidade e a contemporaneidade. Sergio Adorno (org.). (pp. 159-165).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">_______. (1994). <em>P\u00f3sfacio: Conceituando G\u00eanero<\/em>. (p. 271-). In: Mulher Brasileira \u00e9 assim. Heleieth Saffioti e Monica Mu\u00f1oz-Vargas (orgs). Rio de janeiro: Rosa dos Tempos: NIPAS; Bras\u00edlia, D.F.: UNICEF.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Saffioti, H. I. B.; Almeida, S. S. (1995). <em>Viol\u00eancia de g\u00eanero: poder e impot\u00eancia<\/em>. Livraria e Editora Revinter: Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">_______. (1999). <em>Pref\u00e1cio<\/em>. In: Moraes Silva, Maria Aparecida, Errantes do fim do s\u00e9culo. Editora da Unesp: S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">_______. (2015). <em>G\u00eanero, patriarcado e viol\u00eancia<\/em>. 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o. Express\u00e3o popular: funda\u00e7\u00e3o Perseu abramo: S\u00e3o Paulo [1<sup>a<\/sup> edi\u00e7\u00e3o: 2004].<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">_______. (2005). \u201c<em>G\u00eanero e Patriarcado\u201d<\/em> (pp.35-76) In: Marcadas a Ferro. Secretaria Especial de Pol\u00edticas para as Mulheres: Bras\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Obras sobre Heleieth Saffioti<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Castro, M. G. (2011) Notas sobre a Potencialidade do Conceito de Patriarcado para um Sujeito no Feminismo. Contribui\u00e7\u00f5es de Heleieth Saffioti &#8211; em mem\u00f3ria e pelo devir. Cadernos Cr\u00edtica Feminista, ano V, n. 4..<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Gon\u00e7alves, R.&nbsp;<a href=\"https:\/\/drive.google.com\/open?id=0BweR5ZLUhMHgWjNQZC11T2Y5U2s\">Heleieth Saffioti e a articula\u00e7\u00e3o entre teoria marxista e ideias feministas nas Ci\u00eancias Sociais<\/a>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/anpocs.com\/index.php\/encontros\/papers\/36-encontro-anual-da-anpocs\/gt-2\/gt18-2\/8053-heleieth-saffioti-e-a-articulacao-entre-teoria-marxista-e-ideias-feministas-nas-ciencias-sociais\">Heleieth Saffioti e a articula\u00e7\u00e3o entre teoria marxista e ideias feministas nas Ci\u00eancias Sociais<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">________.&nbsp;<a href=\"https:\/\/drive.google.com\/open?id=0BweR5ZLUhMHgVFVfSlE5b2Jka00\">O feminismo marxista de Heleieth Saffioti<\/a>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/revistas.pucsp.br\/index.php\/ls\/article\/view\/18737\/13930\">Vista do O feminismo marxista de Heleieth Saffioti<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Teles, M. A de A.&nbsp;<a href=\"https:\/\/drive.google.com\/open?id=0BweR5ZLUhMHgejllazRxRzhNMUE\">Heleieth,&nbsp;a ousadia do livre pensar feminista! (1934 \u2013 2010)<\/a>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/fpabramo.org.br\/2011\/01\/13\/heleieth-a-ousadia-do-livre-pensar-feminista-1-1934-2010\/\">Heleieth, a ousadia do livre pensar feminista ! [1] &#8211; (1934 \u2013 2010) &#8211; Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo<\/a><br>Minella, L, S.&nbsp;<a href=\"https:\/\/drive.google.com\/open?id=0BweR5ZLUhMHgN3ZWWl9GNWlQWGc\">Heleieth Saffioti, uma pioneira dos estudos feministas no Brasil<\/a>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/ref\/a\/StxQFMfcfv6DSbmHCBtT8hp\/?lang=pt\">Heleieth Saffioti, uma pioneira dos estudos feministas no Brasil<\/a><br>Sorj, B.&nbsp;<a href=\"https:\/\/drive.google.com\/open?id=0BweR5ZLUhMHgN3g0MkplZnFsUWM\">Dois olhares sobre Heleieth Saffioti: o feminismo adentra a academia<\/a>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/periodicos.ufsc.br\/index.php\/ref\/article\/view\/16928\">Dois Olhares sobre Heleieth Saffioti O Feminismo Adentra a Academia<\/a><br>Lovatto, A.&nbsp;<a href=\"https:\/\/drive.google.com\/open?id=0BweR5ZLUhMHgaDVYa29kMUVDTXM\">Desvendando O poder do macho: um encontro com Heleieth Saffioti<\/a>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/revistas.pucsp.br\/index.php\/ls\/article\/view\/18736\/13929\">https:\/\/revistas.pucsp.br\/index.php\/ls\/article\/view\/18736\/13929<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Motta, D. (2017) Desvendando o n\u00f3: A Experi\u00eancia de auto-organiza\u00e7\u00e3o das mulheres catadoras de materiais recicl\u00e1veis no Estado de S\u00e3o Paulo. Tese de Doutorado, Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas, Unicamp.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">_________. Desvendando Heleieth Saffioti. Revista Lutas Sociais, vol. 22, n. 40, 2018 (p. 149-<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">160).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Para os leitores interessados em conhecer mais sobre a obra da autora, hoje j\u00e1 contamos com uma organiza\u00e7\u00e3o online que cont\u00e9m boa parte de seus livros, artigos e entrevistas. Todas as obras citadas acima est\u00e3o dispon\u00edveis em:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, em decorr\u00eancia dos 50 anos da publica\u00e7\u00e3o de \u201cMulher na sociedade de classes: mito e realidade&#8221;, foram publicados dossi\u00eas sobre a autora em diversos peri\u00f3dicos:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Revista Lutas Sociais: \u201c<\/strong>A mulher na sociedade de classes 50 anos depois: a atualidade de Heleieth Saffioti\u201d Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/revistas.pucsp.br\/index.php\/ls\/issue\/view\/2529\">v. 23 n. 43 (2019): A mulher na sociedade de classes 50 anos depois: a atualidade de Heleieth Saffioti | Lutas Sociais<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Cadernos CRH: \u201c<\/strong>50 Anos De A Mulher Na Sociedade De Classes: o pioneirismo de Heleieth Saffioti e suas contribui\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas para os estudos feministas e de g\u00eanero\u201d. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/periodicos.ufba.br\/index.php\/crh\/issue\/view\/2006\">https:\/\/periodicos.ufba.br\/index.php\/crh\/issue\/view\/2006<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Revista de Estudos Feministas: <\/strong>Heleieth Saffioti \u2013 50 anos d\u2019A Mulher na Sociedade de Classes. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/periodicos.ufsc.br\/index.php\/ref\/issue\/view\/3092\">v. 29 n. 1 (2021) | Revista Estudos Feministas<\/a><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong>Revista de Ci\u00eancias Sociais, Trabalho e Pol\u00edtica:<\/strong> \u201cRevisitando Heleieth Saffioti: aportes para pensar a atualidade de seus conceitos\u201d. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/periodicos.ufpb.br\/index.php\/politicaetrabalho\/issue\/view\/2467\/567\">https:\/\/periodicos.ufpb.br\/index.php\/politicaetrabalho\/issue\/view\/2467\/567<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PDF &#8211; Heleieth Safiotti Heleieth Iara Bongiovani Saffioti nasceu no dia quatro de janeiro de 1934 em uma fam\u00edlia humilde<\/p>\n","protected":false},"author":360,"featured_media":0,"parent":23,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","inline_featured_image":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"class_list":["post-1602","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1602","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/360"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1602"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1602\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1607,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1602\/revisions\/1607"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/23"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1602"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}