{"id":1653,"date":"2023-03-13T17:19:58","date_gmt":"2023-03-13T20:19:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/?page_id=1653"},"modified":"2023-03-13T17:27:01","modified_gmt":"2023-03-13T20:27:01","slug":"sueli-carneiro","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/filosofas\/sueli-carneiro\/","title":{"rendered":"Sueli Carneiro"},"content":{"rendered":"\n<p>(1950)<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">por Vinicius Santana,<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">mestrando no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Filosofia da\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e integrante do\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">Grupo de Pesquisa Filosofia Pol\u00edtica &#8211; CAPES &#8211; <\/span><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/6377564195313624\"><span style=\"font-weight: 400\">Lattes<\/span><\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/03\/Sueli-Carneiro-PDF.docx-2.pdf\">PDF- Sueli Carneiro\u00a0<\/a><\/p>\n\n\n\n\n\n<figure id=\"attachment_1654\" aria-describedby=\"caption-attachment-1654\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-vp_sm wp-image-1654\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/03\/Sueli-Carneiro-500x500.png\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/03\/Sueli-Carneiro-500x500.png 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/03\/Sueli-Carneiro-300x300.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/03\/Sueli-Carneiro-1024x1024.png 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/03\/Sueli-Carneiro-150x150.png 150w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/03\/Sueli-Carneiro-768x768.png 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/03\/Sueli-Carneiro-800x800.png 800w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/03\/Sueli-Carneiro-24x24.png 24w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/03\/Sueli-Carneiro-48x48.png 48w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/03\/Sueli-Carneiro-96x96.png 96w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/03\/Sueli-Carneiro.png 1200w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1654\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Caroline Lima<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>Vida e Obra<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Conhecida por sua luta antirracista, feminista e atua\u00e7\u00e3o em Geled\u00e9s \u2014 Instituto da Mulher Negra (fundado em 1988), Aparecida Sueli Carneiro nasceu em 1950 no bairro da Lapa, em S\u00e3o Paulo. Seu pai, Jos\u00e9 Hor\u00e1cio Carneiro, natural de Minas Gerais, veio a S\u00e3o Paulo ainda jovem em busca de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida, trabalhando posteriormente como ferrovi\u00e1rio. Sua m\u00e3e, Eva Camargo Alves, natural de Campinas, migrou para a cidade pelo mesmo motivo, atuando como costureira at\u00e9 o casamento \u2014 apesar de ter cursado datilografia. Nessa \u00e9poca, havia um grande fluxo migrat\u00f3rio de diversas regi\u00f5es do Brasil para a cidade de S\u00e3o Paulo, que passava por um processo de industrializa\u00e7\u00e3o acelerado, o que aumentou consideravelmente seu contingente populacional (cf. Santana, 2021, p.33). Primog\u00eanita de sete filhos, Carneiro passou quatro anos como filha \u00fanica no bairro da Lapa. Conforme a fam\u00edlia crescia, sua renda diminu\u00eda gradativamente (cf. Santana, 2021, p.43). Por isso, a fam\u00edlia se mudou para a Vila Bonilha, em Pirituba, bairro perif\u00e9rico da cidade de S\u00e3o Paulo, onde mantinha um modo de vida \u201cculturalmente prolet\u00e1rio e greg\u00e1rio\u201d (cf. Carneiro, 2004, p.3).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Apesar disso, o racismo era algo presente no cotidiano da fam\u00edlia. Embora os pais de Carneiro n\u00e3o participassem de nenhuma organiza\u00e7\u00e3o militante antirracista, desenvolveram, ao seu modo, uma consci\u00eancia racial e transmitiram isso a ela. Carneiro foi alfabetizada pela pr\u00f3pria m\u00e3e e durante toda sua forma\u00e7\u00e3o b\u00e1sica estudou em escola p\u00fablica. Quando os primeiros casos de racismo apareceram em sua vida no ambiente escolar, \u2014 como quando a chamaram de \u201cPelezinho\u201d \u2014, a orienta\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica da m\u00e3e foi simples: \u201cse apanhar na rua e voltar chorando, vai apanhar de novo\u201d (Santana, 2021, p.43). Assim, Carneiro aprendeu a se defender das discrimina\u00e7\u00f5es raciais que sofria, reagindo, muitas vezes, \u201cno tapa\u201d, o que a fez ser vista como \u201cbriguenta\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0Com 22 anos, trabalhou como auxiliar em um escrit\u00f3rio na Secretaria da Fazenda de S\u00e3o Paulo, no centro da cidade. A viv\u00eancia no centro a permitiu conhecer e participar das reuni\u00f5es do Centro de Cultura e Arte Negra (CECAN), entidade antirracista fundada pelo soci\u00f3logo Eduardo de Oliveira e Oliveira e pela intelectual Thereza Santos. No CECAN, Carneiro compreendeu que a quest\u00e3o racial era algo em torno da qual negros e negras se organizavam politicamente a fim de tra\u00e7ar uma luta antirracista contra o regime ditatorial.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em 1973, Carneiro ingressou no curso de Filosofia da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), ambiente em que havia pouqu\u00edssimos alunos negros. Na universidade, teve contato com o movimento estudantil e com integrantes do movimento negro. Rafael Pinto, Hamilton Cardoso, Vanderlei Jos\u00e9 Maria e Milton Barbosa eram, nos termos de Carneiro, \u201cos Quatro Cavaleiros do Apocalipse\u201d (cf. Carneiro, 2004, p.11). O contexto internacional que os militantes observavam, sobretudo o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos e a revolu\u00e7\u00e3o anticolonial dos pa\u00edses africanos lus\u00f3fonos (Angola, Mo\u00e7ambique, Cabo Verde e Guin\u00e9-Bissau), fortaleceu seu esp\u00edrito combativo de resist\u00eancia ao racismo e de enfrentamento \u00e0 ditadura militar. Como uma resposta \u00e0s sistem\u00e1ticas viol\u00eancias raciais, em 7 de julho de 1978, nas escadarias do Theatro Municipal de S\u00e3o Paulo, os Quatro Cavaleiros ajudaram a organizar um ato p\u00fablico contra o racismo, que inaugurou a cria\u00e7\u00e3o do ent\u00e3o chamado Movimento Unificado Contra a Discrimina\u00e7\u00e3o Racial (MUCDR). Um dos motivos do ato foi a pris\u00e3o, tortura e assassinato do trabalhador negro Robson Silveira da Luz, no 44\u00ba Distrito Policial de Guaianases. Outro caso foi o impedimento de quatro garotos negros de treinarem no time infantil de v\u00f4lei do Clube de Regatas Tiet\u00ea (cf. Santana, 2021, p.95). Por sugest\u00e3o de Abdias Nascimento e L\u00e9lia Gonzalez, que estavam presentes no ato, incluiu-se o termo \u201cnegro\u201d no nome do movimento, que depois permaneceu como Movimento Negro Unificado (MNU).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ainda que Carneiro n\u00e3o fosse militante do MNU, ela esteve no ato como apoio de base. O contato com o movimento foi decisivo para a forma\u00e7\u00e3o do pensamento antirracista de Carneiro, que entendeu a articula\u00e7\u00e3o entre racismo e capitalismo no Brasil. Por\u00e9m, ela percebia que o sexismo era algo presente no interior do movimento. Se o MNU e os Quatro Cavaleiros trouxeram uma nova perspectiva de se pensar a quest\u00e3o racial no Brasil, aliando ra\u00e7a e classe, foi somente com L\u00e9lia Gonzalez que a quest\u00e3o ganhou contornos mais complexos com a articula\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a, classe e g\u00eanero.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Depois de ouvir Gonzalez pela primeira vez, Carneiro afirma que \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">parecia que ela estava dentro do meu c\u00e9rebro organizando tudo que me inquietava, tudo que eu sentia, que eu n\u00e3o conseguia formular [&#8230;]<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (Carneiro, 2004, p. 12). A partir disso, Carneiro aprofunda suas reflex\u00f5es sobre a condi\u00e7\u00e3o particular da mulher negra, e percebe a necessidade de construir sua milit\u00e2ncia articulando tanto a quest\u00e3o de g\u00eanero no contexto da luta antirracista, quanto a quest\u00e3o racial na luta feminista. Seu objetivo passou a ser a constru\u00e7\u00e3o coletiva de organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas cujo protagonismo fosse das mulheres negras.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em 1980, Carneiro concluiu sua gradua\u00e7\u00e3o e elaborou um projeto de mestrado sobre filosofia africana contempor\u00e2nea. Atrav\u00e9s do conceito de etnofilosofia, do fil\u00f3sofo beninense Paulin Hountondji, sua ideia era pensar as formas de apropria\u00e7\u00e3o que alguns estudiosos fazem das tradi\u00e7\u00f5es culturais negras (cf. Carneiro, 2004, p.19). Por\u00e9m, nenhum docente do Departamento de Filosofia se disp\u00f4s a orient\u00e1-la, pois consideravam que n\u00e3o se produzia filosofia em \u00c1frica, mas somente \u201ctradi\u00e7\u00e3o oral\u201d (cf. Santana, 2021, p.115). Sob o t\u00edtulo de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Leitura cr\u00edtica da filosofia africana contempor\u00e2nea<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, iniciou a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o no Centro de Estudos Africanos, mas n\u00e3o finalizou porque o diretor do Centro, simpatizante da ditadura, impunha suas convic\u00e7\u00f5es pol\u00edticas ao ambiente. Depois, Carneiro recebeu o convite do professor Octavio Ianni, refer\u00eancia nos estudos de ra\u00e7a e mobilidade social, para cursar o mestrado em Filosofia na Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo (PUC-SP). Contudo, ela sentiu que Ianni tinha interesse em enquadrar suas preocupa\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas exclusivamente sob o vi\u00e9s marxista (cf. Santana, 2021, p.116). N\u00e3o que ela considerasse imposs\u00edvel o di\u00e1logo com teorias marxistas \u2014 at\u00e9 porque teve envolvimento com membros do MNU que eram socialistas \u2014, mas o sentimento de cerceamento intelectual era o que lhe incomodava. Essas dificuldades, somadas \u00e0 urg\u00eancia de atuar ativamente na milit\u00e2ncia, fizeram com que Carneiro abandonasse a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em 1983, Carneiro criou o Coletivo de Mulheres Negras, juntamente com Martha Arruda, S\u00f4nia Nascimento, Solimar Carneiro (sua irm\u00e3), Edna Roland e Thereza Santos, que seria indicada pelo Coletivo para compor o Conselho Estadual da Condi\u00e7\u00e3o Feminina de S\u00e3o Paulo. Nesse momento, Carneiro elaborou um estudo pioneiro sobre a condi\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica das mulheres negras na cidade de S\u00e3o Paulo e no Brasil com a pesquisa \u201cMulher Negra\u201d, publicada no livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Mulher negra: Pol\u00edtica governamental e a mulher <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">[1985]. Embora o conceito de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">interseccionalidade<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> n\u00e3o tivesse sido cunhado at\u00e9 ent\u00e3o por Kimberl\u00e9 Crenshaw (1989), a fil\u00f3sofa realiza uma an\u00e1lise interseccional para compreender as consequ\u00eancias da imbrica\u00e7\u00e3o do racismo e do sexismo na vida das mulheres negras. Ao articular os dados de ra\u00e7a, cor, idade e g\u00eanero, Carneiro demonstrou que as mulheres negras, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s brancas e amarelas, encontram-se em uma posi\u00e7\u00e3o de menor escolaridade, maior vulnerabilidade social e exclus\u00e3o do mercado formal de trabalho.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Carneiro e Cristiane Cury, uma amiga que conhecera na universidade, redigiram um projeto de pesquisa sobre o candombl\u00e9 para a Funda\u00e7\u00e3o Carlos Chagas. Carneiro j\u00e1 tinha contato com a religi\u00e3o, pois frequentava um terreiro em Tabo\u00e3o da Serra. Anos depois, ela se iniciaria no candombl\u00e9, descobrindo ser filha de Ogum, orix\u00e1 guerreiro que \u00e9 conhecido por sua for\u00e7a e coragem. A partir dessa pesquisa surgiu o texto \u201cO poder feminino no culto aos orix\u00e1s\u201d [1990], no qual as autoras trazem um panorama da cosmovis\u00e3o iorub\u00e1 e do papel do feminino no interior desse pensamento africano, discutindo a figura da mulher no candombl\u00e9. Durante a pesquisa, Carneiro conheceu o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Geled\u00e9<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, uma organiza\u00e7\u00e3o secreta feminina religiosa que realiza um festival anual de culto ao poder e \u00e0 sabedoria das m\u00e3es anci\u00e3s entre os iorub\u00e1s, no qual homens e mulheres participam. Esse texto evidencia o esfor\u00e7o de Carneiro em resgatar referenciais hist\u00f3rico-culturais africanos para construir um feminismo negro brasileiro com matrizes africanas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ap\u00f3s a posse de Thereza Santos, Carneiro integrou o Conselho Estadual, que efetivou uma s\u00e9rie de reivindica\u00e7\u00f5es do movimento feminista, como a cria\u00e7\u00e3o da primeira Delegacia de Defesa da Mulher em 1985 (cf. Santana, 2021, p.132). Em 1988, ano do Centen\u00e1rio da Aboli\u00e7\u00e3o, Carneiro e outras companheiras fundaram a organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental Geled\u00e9s \u2014 Instituto da Mulher Negra. O nome \u201cGeled\u00e9s\u201d representa a inten\u00e7\u00e3o das fundadoras em marcar a tradi\u00e7\u00e3o negro-africana basilar da organiza\u00e7\u00e3o de mulheres, que, apesar de permitir a presen\u00e7a masculina, possui lideran\u00e7as femininas. A atua\u00e7\u00e3o de Geled\u00e9s se desdobrou em importantes projetos de cunho social, pol\u00edtico e cultural. Dentre eles, encontramos o Projeto \u201cGera\u00e7\u00e3o XXI\u201d, o Projeto \u201cPromotoras Legais Populares\u201d (\u201cPLPs\u201d) e o \u201cProjeto Rappers\u201d, que propiciaram forma\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-culturais e a\u00e7\u00f5es afirmativas direcionadas \u00e0 popula\u00e7\u00e3o negra e \u00e0 juventude perif\u00e9rica. Este \u00faltimo, inclusive, marcou a aproxima\u00e7\u00e3o do movimento negro organizado com o movimento hip-hop, que se consolidava na cidade de S\u00e3o Paulo, e gerou a revista \u201cPode Cr\u00ea\u201d, um ve\u00edculo de comunica\u00e7\u00e3o centralizador e difusor da cultura hip-hop. Al\u00e9m disso, o Programa de Direitos Humanos de Geled\u00e9s tamb\u00e9m elaborou o SOS Racismo, um projeto pioneiro de assist\u00eancia e acompanhamento jur\u00eddico para v\u00edtimas de racismo, que foi reconhecido internacionalmente e serviu de inspira\u00e7\u00e3o para a cria\u00e7\u00e3o de programas similares na Am\u00e9rica Latina.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em 2001, houve a III Confer\u00eancia Mundial contra o Racismo, Discrimina\u00e7\u00e3o Racial, Xenofobia e Intoler\u00e2ncias Correlatas em Durban, na \u00c1frica do Sul. A \u201cConfer\u00eancia de Durban\u201d reuniu representantes da ONU e de diversos pa\u00edses, dentre chefes de Estado, membros da sociedade civil e jornalistas. A delega\u00e7\u00e3o do Brasil era a maior da confer\u00eancia e a equipe de Geled\u00e9s estava completa, juntamente com lideran\u00e7as ind\u00edgenas e de outros movimentos sociais. Dentre as conquistas da confer\u00eancia, destacam-se o reconhecimento da escravid\u00e3o e do tr\u00e1fico de africanos escravizados como crime contra a humanidade, e a recomenda\u00e7\u00e3o de inclus\u00e3o no curr\u00edculo escolar sobre a hist\u00f3ria e a contribui\u00e7\u00e3o de africanos e afrodescendentes (cf. Santana, 2021, p. 230). A proposta que gerou mais pol\u00eamica e inc\u00f4modo em determinados segmentos da sociedade brasileira foi a ado\u00e7\u00e3o de cotas para negros no ensino superior, que precisou esperar mais de uma d\u00e9cada para tornar-se lei no Brasil (Lei 12.711\/2012). A articula\u00e7\u00e3o das mulheres negras brasileiras organizadas foi decisiva para a implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas de combate ao racismo e de promo\u00e7\u00e3o da igualdade racial.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nos anos em que estava fora da academia, Carneiro n\u00e3o parou de escrever artigos, ensaios e textos de apresenta\u00e7\u00e3o oral abordando as quest\u00f5es raciais, sociais e de g\u00eanero, os quais foram publicados em revistas cient\u00edficas, jornais e livros. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Racismo, Sexismo e Desigualdade no Brasil <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(2011) re\u00fane 35 textos escritos pela fil\u00f3sofa entre 1999 e 2010 publicados, em geral, no Correio Braziliense. Dentre eles, Carneiro trata de diversos temas, como direitos humanos, mercado de trabalho, cotas, g\u00eanero, consci\u00eancia negra global e igualdade racial.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400\">Escritos de uma Vida<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (2020) tamb\u00e9m \u00e9 uma colet\u00e2nea de 18 textos que circularam em revistas, jornais, livros, f\u00f3runs e palestras. O livro cont\u00e9m as pesquisas pioneiras de Carneiro, \u201cMulher Negra\u201d e \u201cO poder feminino no culto aos orix\u00e1s\u201d. Ambos os livros evidenciam como Carneiro produziu filosofia em diferentes formatos e para p\u00fablicos distintos, tendo interesse em se comunicar n\u00e3o s\u00f3 com a academia, mas principalmente com o p\u00fablico que n\u00e3o faz parte dela.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em 1999, ela retornou \u00e0 p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o sob orienta\u00e7\u00e3o de Roseli Fischmann na \u00e1rea de Filosofia da Educa\u00e7\u00e3o, sendo direcionada diretamente para o processo de doutorado devido \u00e0 qualidade de sua qualifica\u00e7\u00e3o. Com base na experi\u00eancia positiva que teve em uma disciplina sobre o pensamento foucaultiano, aplicou os conceitos de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">dispositivo <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">e de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">biopoder <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">ao dom\u00ednio das rela\u00e7\u00f5es raciais para compreender a din\u00e2mica que as impulsiona. Depois de 18 anos de sua defesa, a tese de Carneiro, intitulada <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A Constru\u00e7\u00e3o do Outro como N\u00e3o-Ser como fundamento do Ser <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(2005), finalmente \u00e9 publicada sob o t\u00edtulo de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Dispositivo de Racialidade: A constru\u00e7\u00e3o do outro como n\u00e3o ser como fundamento do ser.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (2023).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A obra encontra-se dividida em tr\u00eas partes. Na Parte I, \u201cPoder, Saber e Subjetiva\u00e7\u00e3o\u201d, a fil\u00f3sofa forja o conceito de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">dispositivo de racialidade<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, que diz respeito \u00e0s formas de subalterniza\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o da racialidade negra. O <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">epistemic\u00eddio <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u2014 o assassinato da raz\u00e3o de pessoas negras promovido pelo colonialismo europeu \u2014 emerge como um elemento constitutivo do dispositivo que influencia as hierarquias raciais no campo educacional. Na Parte II, \u201cDas resist\u00eancias\u201d, s\u00e3o apresentados os testemunhos de militantes antirracistas: Edson Cardoso, comunicador e articulador do MNU; S\u00f4nia Maria Pereira Nascimento, advogada e co-fundadora de Geled\u00e9s \u2014 Instituto da Mulher Negra; F\u00e1tima Oliveira, m\u00e9dica e militante feminista e antirracista; e Arnaldo Xavier, poeta, membro do Cineclube Glauber Rocha. Por fim, na Parte III, \u201cEduca\u00e7\u00e3o e o cuidado de si\u201d, Carneiro reflete sobre as formas que as resist\u00eancias encontram para construir positivamente suas subjetividades. As resist\u00eancias prop\u00f5em uma \u00e9tica renovada que, ao identificar o cuidado de si com o cuidado do outro, volta-se para a constru\u00e7\u00e3o de um sujeito pol\u00edtico que luta pela emancipa\u00e7\u00e3o coletiva.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A filosofia de Sueli Carneiro est\u00e1 vinculada com a sua experi\u00eancia de vida. Sua atua\u00e7\u00e3o militante evidencia como sua intelectualidade foi forjada organicamente a partir de um contato \u00edntimo com o movimento negro, com o movimento feminista e, sobretudo, com o movimento de mulheres negras. Suas viv\u00eancias enquanto uma mulher negra brasileira, de origem pobre, praticante do candombl\u00e9 e militante feminista e antirracista informam a constru\u00e7\u00e3o de uma filosofia que combate, simultaneamente, as desigualdades raciais, sociais e de g\u00eanero no Brasil.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Temas e Conceitos<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A vasta produ\u00e7\u00e3o intelectual de Sueli Carneiro \u00e9 constitu\u00edda por sua tese de doutorado, artigos, ensaios, cap\u00edtulos de livros, falas em semin\u00e1rios, em f\u00f3runs e em audi\u00eancias p\u00fablicas. Em seus escritos, Carneiro aborda temas cruciais para se pensar o Brasil contempor\u00e2neo: o conceito de dispositivo de racialidade; o epistemic\u00eddio; o mito da democracia racial; a proposi\u00e7\u00e3o de um feminismo negro brasileiro e a concretiza\u00e7\u00e3o dos direitos humanos.\u00a0<\/span><\/p>\n<ul>\n<li><b>O Dispositivo de Racialidade<\/b><\/li>\n<\/ul>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Dispositivo de Racialidade <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(2023), Carneiro busca compreender as m\u00faltiplas pr\u00e1ticas pelas quais o racismo e a discrimina\u00e7\u00e3o racial estruturam e se manifestam na sociedade brasileira. A partir das no\u00e7\u00f5es de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">dispositivo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">biopoder<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, de Michel Foucault (1979; 2020), e da teoria do Contrato Racial, do fil\u00f3sofo afro-americano Charles Mills (1997), a fil\u00f3sofa desenvolve o conceito de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">dispositivo de racialidade<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Para ela, a racialidade \u00e9 \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">uma no\u00e7\u00e3o produtora de um campo ontol\u00f3gico, um campo epistemol\u00f3gico e um campo de poder conformando, portanto, saberes, poderes e modos de subjetiva\u00e7\u00e3o cuja articula\u00e7\u00e3o constitui um dispositivo de poder<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (Carneiro, 2023, p.44). O dispositivo \u00e9 um conjunto heterog\u00eaneo que, dentre os seus diversos elementos, engloba leis, discursos, institui\u00e7\u00f5es, enunciados cient\u00edficos, proposi\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas e organiza\u00e7\u00f5es arquitet\u00f4nicas. O dispositivo abarca, portanto, o dito e o n\u00e3o-dito.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A atua\u00e7\u00e3o do dispositivo de racialidade estabelece uma divis\u00e3o no campo ontol\u00f3gico a partir da qual se constr\u00f3i o Eu e o Outro, o Ser e o N\u00e3o-Ser. Carneiro afirma que o dispositivo de racialidade, a partir do s\u00e9c XVIII, possibilitou \u00e0 branquitude se afirmar como Ser mediante a constru\u00e7\u00e3o do negro como o Outro. Segundo a fil\u00f3sofa, \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">esse eu, no seu encontro com a racialidade ou etnicidade, adquiriu superioridade pela produ\u00e7\u00e3o do inferior, pelo agenciamento que esta superioridade produz sobre a razoabilidade, a normalidade e a vitalidade<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (Carneiro, 2023, p.31). O Eu se define negativamente para marcar sua diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao Outro, sendo necess\u00e1rio que o Eu construa o Outro como N\u00e3o-Ser para que ele pr\u00f3prio se afirme como Ser. Nesse sentido, a branquitude deslocou o negro para uma alteridade desumanizante, rebaixando-o ao estatuto do N\u00e3o-Ser, de \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">coisa que fala<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (cf. Carneiro, 2023, p.92). Por isso, o dispositivo de racialidade \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">tamb\u00e9m ser\u00e1 uma dualidade entre positivo e negativo, tendo na cor da pele o fator de identifica\u00e7\u00e3o do normal, e a brancura ser\u00e1 sua representa\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (Carneiro, 2023, p.31). Assim, a brancura se torna sin\u00f4nimo de humanidade, colocando-se como ideal de Ser e construindo para si um corpo fr\u00e1gil.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Embora o dispositivo de racialidade adquira contornos espec\u00edficos a partir do s\u00e9c. XVIII, Carneiro identifica que ele se constitui inicialmente no colonialialismo como um contrato entre brancos que funda a supremacia branca global. A fil\u00f3sofa argumenta que o contrato social abriga o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">contrato racial<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> \u2014 conceito retirado de Charles Mills (1997) \u2014, um contrato restrito aos racialmente hegem\u00f4nicos que transforma os n\u00e3o-brancos em objetos de subjuga\u00e7\u00e3o (cf. Carneiro, 2023, p.37). Sob o pretexto de um contrato social supostamente neutro, o contrato racial funda um Estado racial que, enquanto garante a igualdade e liberdade aos brancos (cidad\u00e3os plenos), legitima a viol\u00eancia contra os n\u00e3o-brancos, aprisionados no estado de natureza e considerados \u201cselvagens\u201d. O contrato racial emerge como um elemento estruturador do dispositivo de racialidade, que fundamenta um acordo de exclus\u00e3o e subalterniza\u00e7\u00e3o dos negros e perpetua a branquitude em todos espa\u00e7os de poder.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em sociedades multirraciais com passado escravocrata, como o Brasil, a ra\u00e7a \u00e9 um elemento estrutural que informa a forma\u00e7\u00e3o das classes sociais (cf. Carneiro, 2023, p.21). O dispositivo de racialidade juntar\u00e1 as contradi\u00e7\u00f5es de classe \u00e0s de ra\u00e7a, transformando a pobreza, segundo a autora, em \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">condi\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica da exist\u00eancia negra, na medida em que a mobilidade de classe torna-se controlada pela racialidade<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (Carneiro, 2023, p.58). Consequentemente, as pessoas negras ficar\u00e3o paralisadas nas camadas mais baixas da sociedade, buscando, em geral, uma forma de ascens\u00e3o social individualizada em detrimento de uma estrat\u00e9gia coletiva de emancipa\u00e7\u00e3o. Essa forma de inclus\u00e3o individualizada poder\u00e1 ser efetivada quanto mais o indiv\u00edduo se desassociar das marcas f\u00edsicas\/simb\u00f3licas da negritude. Quanto mais se embranquecer, maior ser\u00e1 a chance dele ser tolerado socialmente. Aqueles que n\u00e3o passam por tais procedimentos disciplinares do dispositivo de racialidade estar\u00e3o, segundo Carneiro, entregues \u00e0 l\u00f3gica do biopoder.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A fil\u00f3sofa utiliza a no\u00e7\u00e3o foucaultiana de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">biopoder<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> para compreender a pol\u00edtica de morte implementada pelo Estado contra a popula\u00e7\u00e3o negra. Ao mesmo tempo, do outro lado do Atl\u00e2ntico, o fil\u00f3sofo camaron\u00eas Achille Mbembe trabalhava parcialmente na mesma ideia ao conceituar a <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">necropol\u00edtica<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (cf. Santana, 2021, p.235). O biopoder \u00e9 uma tecnologia de poder que, a partir do s\u00e9c. XIX, volta-se \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o da vida de alguns e ao abandono \u00e0 morte de outros, cuja express\u00e3o reside na m\u00e1xima \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">deixar viver e deixar morrer<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (cf. Carneiro, 2023, p.66). Na l\u00f3gica do biopoder, o racismo \u00e9 um elemento determinante para legitimar o direito de matar do Estado, exercido por a\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o. De um lado, o racismo insere uma divis\u00e3o no campo biol\u00f3gico, criando \u201cra\u00e7as\u201d e determinando quem deve viver e quem deve morrer. De outro, permite que haja uma rela\u00e7\u00e3o positiva do tipo biol\u00f3gica com a morte do Outro \u2014 quanto mais o Outro morrer, mais sadia ser\u00e1 a vida da ra\u00e7a considerada superior. Entende-se a morte n\u00e3o s\u00f3 como o assassinato direto, mas tamb\u00e9m indireto por meio da exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de exist\u00eancia (como falta de saneamento b\u00e1sico, condi\u00e7\u00f5es insalubres de moradia, etc.). A branquitude, ent\u00e3o, \u00e9 inscrita no registro da vida e a negritude, nos termos de Carneiro, \u201csob o signo da morte\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O biopoder produzir\u00e1 efeitos espec\u00edficos, segundo Carneiro, de acordo com a articula\u00e7\u00e3o entre g\u00eanero e ra\u00e7a. No caso das mulheres negras, ele se manifestar\u00e1 atrav\u00e9s de tecnologias de controle de reprodu\u00e7\u00e3o (neglig\u00eancias no atendimento hospitalar, viol\u00eancias obst\u00e9tricas, aus\u00eancia de tratamento adequado de pr\u00e9-natal, etc.). No caso dos homens negros, atrav\u00e9s da pura viol\u00eancia produzida pela repress\u00e3o policial (cf. Carneiro, 2023, p.61). Assim se configura um cen\u00e1rio de genoc\u00eddio contra a popula\u00e7\u00e3o negra brasileira.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Quando o dispositivo de racialidade n\u00e3o possui inten\u00e7\u00e3o de disciplinar ou subalternizar, passa a atuar o biopoder para decidir quem deve viver e quem deve morrer (cf. Carneiro, 2023, p.65). No Brasil p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o, o dispositivo se beneficiar\u00e1 do imagin\u00e1rio colonial para implementar procedimentos de subalterniza\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra, considerando-a incapaz de acompanhar o processo de industrializa\u00e7\u00e3o e promovendo o branqueamento populacional pelo est\u00edmulo \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra europeia (ibid.). Portanto, o conceito carneiriano de dispositivo de racialidade sintetiza tanto os procedimentos disciplinares de assujeitamento da racialidade negra, quanto os distintos processos de vida e morte entre brancos e negros no Brasil (cf. Carneiro, 2023, p.16).<\/span><\/p>\n<ul>\n<li><b>Epistemic\u00eddio<\/b><\/li>\n<\/ul>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para Carneiro, o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">epistemic\u00eddio<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> \u2014 conceito emprestado de Boaventura de Sousa Santos (1997) \u2014 \u00e9 um elemento constitutivo do dispositivo de racialidade, que nomeia o processo de destitui\u00e7\u00e3o da racionalidade, da cultura e da civilidade do Outro ao longo da modernidade ocidental. A fil\u00f3sofa centraliza sua an\u00e1lise no epistemic\u00eddio negro, considerando-o n\u00e3o s\u00f3 como uma nega\u00e7\u00e3o dos saberes dos povos africanos empreendida pelo projeto colonial, mas principalmente como um processo persistente de produ\u00e7\u00e3o da indig\u00eancia cultural que influencia nas hierarquias raciais no campo da educa\u00e7\u00e3o (cf. Carneiro, 2023, p.88). Ao rebaixar (ou \u201csequestrar\u201d) a raz\u00e3o negra, o epistemic\u00eddio permite que os saberes africanos e afro-diasp\u00f3ricos sejam invisibilizados e anula a posi\u00e7\u00e3o do negro enquanto sujeito portador\/produtor de conhecimento, transformando-o em objeto de conhecimento ao mesmo tempo em que consolida a supremacia intelectual branca.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Segundo Carneiro, \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">o epistemic\u00eddio fere de morte a racionalidade do subjugado, <\/span><\/i><b><i>sequestrando a pr\u00f3pria capacidade de aprender<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (Carneiro, 2023, p.89). Reside aqui, para ela, a explica\u00e7\u00e3o para o fato de jovens negros liderarem a taxa de evas\u00e3o escolar, o que permanece at\u00e9 os dias de hoje (representam 71,7% dos alunos que abandonam a escola, segundo dados do PNAD 2019, ver: \u201cJovens negros lideram evas\u00e3o escolar\u201d, 2021). Por terem sua autoestima intelectual comprometida e, muitas vezes, n\u00e3o possu\u00edrem condi\u00e7\u00f5es materiais que os permitam dedicar-se exclusivamente ao estudo, jovens negros s\u00e3o sistematicamente expulsos do ambiente escolar, o que acaba por comprometer suas possibilidades de mobilidade social.<\/span><\/p>\n<ul>\n<li><b>O Mito da democracia racial<\/b><\/li>\n<\/ul>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Enquanto o dispositivo de racialidade engendra formas de subalterniza\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra brasileira, ele constr\u00f3i uma narrativa para mascarar a desigualdade racial do pa\u00eds: o mito da democracia racial. Assim como Abdias Nascimento e <\/span><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/lelia-gonzalez\/\"><span style=\"font-weight: 400\">L\u00e9lia Gonzalez<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">, Carneiro se dedicou a desvelar o mito. Para a fil\u00f3sofa, \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">o discurso que molda as rela\u00e7\u00f5es raciais \u00e9 o mito da democracia racial. Sua constru\u00e7\u00e3o e perman\u00eancia at\u00e9 os dias atuais evidencia, por si s\u00f3, sua fun\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, sobretudo como <\/span><\/i><b><i>apaziguador das tens\u00f5es \u00e9tnico-raciais<\/i><\/b><i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (Carneiro, 2023, p.50, grifos meus). Para justificar o mito, tem-se feito um uso pol\u00edtico da miscigena\u00e7\u00e3o racial segundo o qual o intercurso sexual entre negros, brancos e ind\u00edgenas seria um sinal da nossa toler\u00e2ncia racial. Esse argumento, para Carneiro, \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">omite o estupro colonial praticado pelo colonizador contra mulheres negras e ind\u00edgenas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (Carneiro, 2023, p.52).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Al\u00e9m disso, a fil\u00f3sofa considera que a miscigena\u00e7\u00e3o tem se prestado historicamente ao embranquecimento da popula\u00e7\u00e3o por meio da institui\u00e7\u00e3o de uma \u201chierarquia crom\u00e1tica e de fen\u00f3tipos\u201d, em cuja base se encontra o negro retinto e, no topo, o \u201cbranco da terra\u201d (cf. idem.). Aos intermedi\u00e1rios, agregados na categoria \u201cpardo\u201d, \u00e9 dado o benef\u00edcio simb\u00f3lico de estarem mais pr\u00f3ximos do branco, criando a ilus\u00e3o de uma melhor aceita\u00e7\u00e3o social dos mais claros em rela\u00e7\u00e3o aos mais escuros, o que gera diversas formas de autodeclara\u00e7\u00e3o (\u201cmarrom-bombom\u201d, \u201cmoreno\u201d, etc.). Essas diferencia\u00e7\u00f5es, para a autora, acabam fragmentando a identidade negra e coibindo que ela se aglutine em um sujeito coletivo demandador de direitos (cf. Carneiro, 2023, p.53). Esse sujeito teria o poder de romper com o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">contrato racial<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> em prol de pol\u00edticas que garantam a equidade racial.<\/span><\/p>\n<ul>\n<li><b>Enegrecendo o Feminismo\u00a0<\/b><\/li>\n<\/ul>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O contato que Carneiro teve com o Movimento Negro Unificado e os \u201cQuatro Cavaleiros do Apocalipse\u201d, como afirmei anteriormente, foi decisivo para ela articular as quest\u00f5es de ra\u00e7a \u00e0s de classe. Contudo, a fil\u00f3sofa j\u00e1 percebia que o protagonismo do movimento negro era majoritariamente de homens negros, que, embora fossem v\u00edtimas do racismo e da opress\u00e3o de classe, tinham, de alguma forma, comportamentos machistas. O debate racial era conduzido pela figura pol\u00edtica do homem negro, fazendo com que a imbrica\u00e7\u00e3o de g\u00eanero com a ra\u00e7a n\u00e3o recebesse a devida aten\u00e7\u00e3o no interior do movimento e as mulheres negras ficassem exclu\u00eddas do debate. Assim, o movimento negro n\u00e3o foi capaz, de acordo com Carneiro, de \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">pautar as rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero no interior do pr\u00f3prio Movimento e, consequentemente, n\u00e3o vem redefinindo o papel da mulher negra nos projetos pol\u00edticos [&#8230;] nem na distribui\u00e7\u00e3o do poder nas inst\u00e2ncias de decis\u00e3o [&#8230;]\u201d <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(cf. Carneiro, 2020, p.168).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Um exemplo disso \u00e9 a cr\u00edtica que Carneiro faz em \u201cG\u00eanero, ra\u00e7a, e ascens\u00e3o social\u201d [1995] a Joel Rufino, historiador e militante negro que, em um de seus artigos, comparou mulheres brancas a Monzas e mulheres negras a Fuscas. Al\u00e9m de reproduzir um padr\u00e3o de beleza euroc\u00eantrico, que valoriza as mulheres brancas em detrimento das mulheres negras, Rufino considera ambas as mulheres, segundo Carneiro, \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">como objetos de consumo ou ostenta\u00e7\u00e3o. Meros adornos do <\/span><\/i><b><i>status<\/i><\/b><i><span style=\"font-weight: 400\"> e poder de um homem<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (Carneiro, 2020, p.94, grifos da autora). Essa coisifica\u00e7\u00e3o das mulheres \u00e9 resultado do \u00fanico espa\u00e7o de cumplicidade entre o homem negro e o homem branco: o machismo (cf. Carneiro, 2020, p.99).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Se o protagonismo do movimento negro era dos homens negros, o protagonismo do movimento feminista era das mulheres brancas. Ainda que sofressem com as viol\u00eancias de g\u00eanero, as mulheres brancas de classe m\u00e9dia e alta reproduziam, de certo modo, a ideologia racista. Por sua posi\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gio, essas mulheres n\u00e3o compreendiam a situa\u00e7\u00e3o peculiar da mulher negra pobre, que se encontra na intersec\u00e7\u00e3o das opress\u00f5es de ra\u00e7a, g\u00eanero e classe. Em \u201cMulher Negra\u201d [1985], Carneiro afirma que o movimento feminista hegem\u00f4nico generaliza uma identidade feminina \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">a <\/span><\/i><b><i>femininos<\/i><\/b><i><span style=\"font-weight: 400\"> historicamente constru\u00eddos de maneira diferenciada, isto \u00e9, [a generaliza\u00e7\u00e3o] apresenta \u00e0s mulheres uma problem\u00e1tica uniformizada que aparentemente explica, resgata, padronizando experi\u00eancias diversas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (Carneiro, 2020, p.48, grifo da autora).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O movimento feminista hegem\u00f4nico acabou reproduzindo uma perspectiva euroc\u00eantrica e universal do que \u00e9 \u201cser mulher\u201d, e omitindo a centralidade da ra\u00e7a nas hierarquias de g\u00eanero (cf. Carneiro, 2020, p.182). A pr\u00f3pria ideia de \u201cfragilidade feminina\u201d, por exemplo, segundo a qual as mulheres s\u00e3o fr\u00e1geis e devem ser protegidas pelos homens, n\u00e3o \u00e9 compat\u00edvel com a experi\u00eancia hist\u00f3rica das mulheres negras no Brasil. Essas mulheres foram consideradas, sob a ideologia racista, naturalmente fortes, o que serviu como justificativa para sua escraviza\u00e7\u00e3o. Se observarmos o papel feminino na religiosidade afro-brasileira, notamos que, conforme assinala Carneiro em \u201cO poder feminino no culto aos orix\u00e1s\u201d [1990], o candombl\u00e9 permite \u00e0 mulher \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">abrir um espa\u00e7o de competi\u00e7\u00e3o com o homem e a sociedade machista, que a rigor n\u00e3o lhe \u00e9 dado. Apoiada nos orix\u00e1s, ela justifica uma poss\u00edvel rejei\u00e7\u00e3o ao homem, com ele se confronta abertamente e [&#8230;] afirma sua capacidade de super\u00e1-lo\u201d<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (Carneiro, 2020, pp.84-85).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">As pautas do movimento negro e do movimento feminista hegem\u00f4nico n\u00e3o contemplavam totalmente as necessidades urgentes das mulheres negras. Para elas, segundo a fil\u00f3sofa, \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">a conjuga\u00e7\u00e3o das discrimina\u00e7\u00f5es de ra\u00e7a, sexo e classe implica em <\/span><\/i><b><i>tr\u00edplice milit\u00e2ncia<\/i><\/b><i><span style=\"font-weight: 400\">, visto que nenhuma solu\u00e7\u00e3o efetiva para os problemas que nos aflige pode advir da aliena\u00e7\u00e3o de qualquer desses tr\u00eas fatores<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (Carneiro, 2020, p.55, grifos meus). Essa tr\u00edplice milit\u00e2ncia faz com que seja imperativo o combate simult\u00e2neo ao racismo, ao sexismo e \u00e0 opress\u00e3o de classe. Em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 perspectiva euroc\u00eantrica do que \u00e9 ser mulher, Carneiro resgata o poder feminino na ancestralidade africana e no candombl\u00e9 para pensar um feminismo negro com ra\u00edzes africanas. A mobiliza\u00e7\u00e3o das mulheres negras no interior do movimento feminista brasileiro acaba, em suas palavras, \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">enegrecendo o feminismo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (Carneiro, 2020, p.198)\u00a0<\/span><\/p>\n<ul>\n<li><b>Direitos Humanos: Por um universalismo concreto<\/b><\/li>\n<\/ul>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O bin\u00f4mio \u201cuniversal-particular\u201d \u00e9 alvo de disputa conceitual na Filosofia Ocidental desde a antiguidade. Os conceitos ganham novos contornos na filosofia carneiriana ao serem articulados com a quest\u00e3o racial. Carneiro extrai do pensamento de Martin Heidegger, em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Ser e Tempo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, o bin\u00f4mio \u201c\u00f4ntico-ontol\u00f3gico\u201d para abordar a rela\u00e7\u00e3o entre racismo, universalidade e particularidade. \u00d4ntico se refere aos entes particulares, e ontol\u00f3gico, ao ser enquanto tal. Ra\u00e7a, cor, cultura, etnia e religi\u00e3o est\u00e3o na categoria do \u00f4ntico, pois dizem respeito \u00e0s particularidades do ser. J\u00e1 o ser humano est\u00e1 na ordem do ontol\u00f3gico, referindo-se \u00e0 universalidade. O racismo reduz o ser \u00e0 sua dimens\u00e3o \u00f4ntica, \u00e0 sua particularidade, que aprisiona o sujeito negro ao seu grupo espec\u00edfico e anula a sua dimens\u00e3o ontol\u00f3gica, tornando sua humanidade incompleta (cf. Carneiro, 2023, p.19).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em oposi\u00e7\u00e3o, segundo a fil\u00f3sofa, \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u00e9 a ideia de universalidade que emancipa o indiv\u00edduo e permite-lhe expressar sua especificidade<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (ibid.). Essa afirma\u00e7\u00e3o de Carneiro, conforme assinala Frateschi (2023, p.385), \u00e9 melhor compreendida se considerarmos outro texto, \u201cG\u00eanero e ra\u00e7a na sociedade brasileira\u201d [2002]. Nele, a fil\u00f3sofa retoma a quest\u00e3o do universal e particular a partir de Aim\u00e9 C\u00e9saire, que afirma haver duas possibilidades de se perder: por segrega\u00e7\u00e3o encurralado na particularidade ou por dilui\u00e7\u00e3o no universal. Segundo Carneiro, \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">a utopia que perseguimos hoje consiste em buscar <\/span><\/i><b><i>um atalho entre uma negritude redutora da dimens\u00e3o humana e a universalidade ocidental hegem\u00f4nica que anula a diversidade<\/i><\/b><i><span style=\"font-weight: 400\">. Ser negro sem ser somente negro, ser mulher sem ser somente mulher, ser mulher negra sem ser somente mulher negra<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (Carneiro, 2020, p.184, grifos meus).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A fil\u00f3sofa reconhece que o universal hegem\u00f4nico constru\u00eddo na modernidade ocidental, \u201co homem\u201d, que det\u00e9m a igualdade, liberdade e fraternidade como valores intr\u00ednsecos, n\u00e3o abarca todos os grupos sociais. Seguindo a l\u00f3gica do contrato racial, ele exclui e anula a diversidade, garantindo tais valores somente aos brancos ao mesmo tempo em que desumaniza os n\u00e3o-brancos. Em oposi\u00e7\u00e3o, a fil\u00f3sofa defende a constru\u00e7\u00e3o de um universalismo capaz de abarcar e permitir a express\u00e3o da diversidade humana, que transforme a igualdade e a liberdade em valores concretamente universais. Valores que s\u00e3o decisivos para a democracia, mas que s\u00e3o colocados em xeque por ideologias autorit\u00e1rias (neofascismos, neonazismo, fundamentalismo religioso, racismo, machismo e demais opress\u00f5es). Para ela, s\u00e3o valores pelos quais se deve lutar e vigiar constantemente para conquist\u00e1-los e defend\u00ea-los (cf. Carneiro, 2020, pp.108-109).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A filosofia de Sueli Carneiro observa a subalterniza\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o produzidas pelo racismo contra a popula\u00e7\u00e3o negra, mas sem deixar de lado as resist\u00eancias que as pessoas negras realizam. Trata-se de uma filosofia que reivindica e defende a humanidade daqueles que foram desumanizados e objetificados pelo projeto colonial. Uma filosofia brasileira que defende a efetiva\u00e7\u00e3o dos direitos humanos, a emancipa\u00e7\u00e3o de todas as formas de opress\u00e3o e a radicaliza\u00e7\u00e3o da igualdade e da liberdade para todos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/b><\/p>\n<p><b>Obras da autora<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Carneiro, S. (2023). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Dispositivo de Racialidade: A Constru\u00e7\u00e3o do Outro como N\u00e3o-Ser como fundamento do Ser<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. 1\u00ba ed. Rio de Janeiro: Zahar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________. (2005). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A Constru\u00e7\u00e3o do Outro como N\u00e3o-Ser como fundamento do Ser<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Tese de Doutorado em Educa\u00e7\u00e3o, na \u00e1rea de Filosofia da Educa\u00e7\u00e3o, S\u00e3o Paulo: FEUSP.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________. (2011). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Selo Negro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________. (2019). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Escritos de uma vida<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Editora Janda\u00edra.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________. (2004). \u201cSueli Carneiro &#8211; entrevista I\u201d. Rio de Janeiro, CPDOC\/Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas (FGV), (2h 55min). Entrevista 1. Dispon\u00edvel em: <\/span><a href=\"https:\/\/www.fgv.br\/cpdoc\/historal\/arq\/Entrevista1252.pdf\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/www.fgv.br\/cpdoc\/historal\/arq\/Entrevista1252.pdf<\/span><\/a><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>Obras sobre Sueli Carneiro<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Frateschi, Y. (2021). \u201cO pensamento feminista negro de Sueli Carneiro para al\u00e9m dos reducionismos de classe e g\u00eanero\u201d. Boitempo. Dispon\u00edvel em: &lt;<\/span><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2021\/10\/22\/o-pensamento-feminista-negro-de-sueli-carneiro-para-alem-dos-reducionismos-de-classe-e-genero\/\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2021\/10\/22\/o-pensamento-feminista-negro-de-sueli-carneiro-para-alem-dos-reducionismos-de-classe-e-genero\/<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">&gt;. Acesso em: 22 de fevereiro de 2023.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________. (2023). \u201cA filosofia pr\u00e1tica de Sueli Carneiro\u201d. In: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Dispositivo de Racialidade: A Constru\u00e7\u00e3o do Outro como N\u00e3o-Ser como fundamento do Ser<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Rio de Janeiro: Zahar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Lobato, Danielle de Castro Silva. (2020). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Contribui\u00e7\u00f5es de Sueli Carneiro para o Pensamento Decolonial, Feminista e Anti-racista Latino-americano<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado (Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Estudos Comparados sobre a Am\u00e9rica) \u2013 Instituto de Ci\u00eancias Sociais, Universidade de Bras\u00edlia (UnB). Distrito Federal.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Santana, B. (2021). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Continuo preta: a vida de Sueli Carneiro<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>Obras relacionadas<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Foucault, M. (2005).<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> Em Defesa da Sociedade<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________. (1979). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Microf\u00edsica do Poder<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Rio de Janeiro: Edi\u00e7\u00f5es Graal.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________. (2020). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Hist\u00f3ria da Sexualidade I &#8211; A Vontade do Saber<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Rio de Janeiro: Paz e Terra.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mills, C. W. (1997). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Racial Contract<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. New York: Cornell University Press.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Santana, B. <\/span><span style=\"font-weight: 400\">(<\/span><span style=\"font-weight: 400\">2020<\/span><span style=\"font-weight: 400\">). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A escrita de si de mulheres negras: mem\u00f3ria e resist\u00eancia ao racismo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Tese de Doutorado em Ci\u00eancia da Informa\u00e7\u00e3o <\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u2013 Escola de Comunica\u00e7\u00e3o e Artes, Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). S\u00e3o Paulo.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>Outros materiais<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ariel, Freitas. \u201cJovens negros lideram evas\u00e3o escolar\u201d. Mobilidade Estad\u00e3o. S\u00e3o Paulo, maio de 2021. Dispon\u00edvel em: &lt;<\/span><a href=\"https:\/\/mobilidade.estadao.com.br\/patrocinados\/jovens-negros-lideram-evasao-escolar\/\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/mobilidade.estadao.com.br\/patrocinados\/jovens-negros-lideram-evasao-escolar\/<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">&gt;. Acesso em 27 de fevereiro de 2023.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><br \/><span style=\"font-weight: 400\">Carneiro, S. (2022). Mano Brown recebe Sueli Carneiro. [Entrevista concedida a Mano Brown e Semayat Oliveira. Spotify Janeiro de 2022. Podcast. Dispon\u00edvel em: &lt;<\/span><a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/episode\/2eTloWb3Nrjmog0RkUnCPr?si=67c53e1879ca400f\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/open.spotify.com\/episode\/2eTloWb3Nrjmog0RkUnCPr?si=67c53e1879ca400f<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">&gt;. Acesso em 22 de setembro de 2022<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":360,"featured_media":0,"parent":23,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","inline_featured_image":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"class_list":["post-1653","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1653","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/360"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1653"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1653\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1663,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1653\/revisions\/1663"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/23"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1653"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}