{"id":1671,"date":"2023-03-28T13:27:55","date_gmt":"2023-03-28T16:27:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/?page_id=1671"},"modified":"2023-03-29T17:40:49","modified_gmt":"2023-03-29T20:40:49","slug":"neusa-santos-souza","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/filosofas\/neusa-santos-souza\/","title":{"rendered":"Neusa Santos Souza"},"content":{"rendered":"\n<p><span style=\"font-weight: 400\">(1951 \u2013 2008)<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/03\/Neusa-Santos-Souza-PDF.docx-1.pdf\">PDF &#8211; Neusa Santos Souza<\/a><\/p>\n<figure id=\"attachment_1672\" aria-describedby=\"caption-attachment-1672\" style=\"width: 375px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1672\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/03\/neusa-santos.jpg\" alt=\"\" width=\"375\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/03\/neusa-santos.jpg 750w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/03\/neusa-santos-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 375px) 100vw, 375px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1672\" class=\"wp-caption-text\">Fonte: L\u00e9a Freire\/acervo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">por \u00c9rico Andrade, professor associado da Universidade Federal de Pernambuco\u00a0 &#8211; <\/span><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/0725459534795685\"><span style=\"font-weight: 400\">Lattes<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0e <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">Priscilla Santos de Souza, doutoranda em psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade de S\u00e3o Paulo &#8211; <\/span><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/2017035898422232\"><span style=\"font-weight: 400\">Lattes<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Baiana de Cachoeira, no rec\u00f4ncavo baiano, Neusa Santos Souza nasceu em 30 de mar\u00e7o de 1951, e n\u00e3o em 1948, como encontramos em diversos lugares que falam da autora. Essa informa\u00e7\u00e3o foi esclarecida recentemente por sua afilhada, Lu\u00edza Nasciutti, que \u00e9 tamb\u00e9m pesquisadora e faz, atualmente, seu doutorado em ci\u00eancias sociais, sob o t\u00edtulo \u201cTornar-se NEUSA: Ra\u00e7a, subjetividade e mem\u00f3ria a partir da trajet\u00f3ria e obra de Neusa Santos Souza&#8221;, isso para dizer dos enigmas e transmiss\u00f5es da mulher e intelectual que continua a inspirar a dizer sobre sua obra, sua vida. Ela viveu em uma fam\u00edlia fortemente marcada pela religi\u00e3o de matriz africana, o Candombl\u00e9, e pela cultura afro-brasileira. De uma fam\u00edlia simples, pobre, ela sai do rec\u00f4ncavo e, ainda muito jovem, entra na Faculdade de Medicina em Salvador e escolhe, fruto de suas afeta\u00e7\u00f5es com o tema, a \u00e1rea da psiquiatria, tendo se formado em 1070. Sabemos pouco a respeito de sua vida antes de ingressar na faculdade, bem como temos poucas informa\u00e7\u00f5es sobre sua fam\u00edlia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Faleceu em 20 de dezembro de 2008, no Rio de Janeiro. A constrangedora cena do seu enterro, onde um funcion\u00e1rio do cemit\u00e9rio perguntou se tinha algu\u00e9m da fam\u00edlia para guardar o n\u00famero da l\u00e1pide e teve como resposta o sil\u00eancio, transmite uma solid\u00e3o, palavra t\u00e3o marcada na vida de mulheres negras e que pouco representa as descri\u00e7\u00f5es dos amigos de Neusa Santos Souza ao relatarem sua receptividade e alegria em partilhar sua casa e vida com os mais pr\u00f3ximos. O que podemos e desejamos dizer, \u00e9 sobre a sua trajet\u00f3ria cl\u00ednica, pol\u00edtica e intelectual que se desenvolve agudamente com a sua ida ao Rio de Janeiro, que \u00e9 a cidade na qual ela foi enterrada aos 57 anos de idade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Neusa Santos Souza decide ir ao Rio de Janeiro continuar os seus estudos. De forma surpreendente, sem ter passado pelo curso de especializa\u00e7\u00e3o, trajet\u00f3ria quase obrigat\u00f3ria para conseguir entrar no mestrado, ela adentra a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e, com um tema que trouxe grandes debates dentro dos circulos psicanaliticos e do movimento negro no per\u00edodo, defende sua disserta\u00e7\u00e3o em 1981, que vir\u00e1 a se tornar o livro que, 42 anos depois, \u00e9 retomado como leitura imprescind\u00edvel para pensar a psican\u00e1lise e as rela\u00e7\u00f5es raciais no Brasil. Na bel\u00edssima disserta\u00e7\u00e3o de William Pereira Penna, \u201cEscreviv\u00eancias sobre a mem\u00f3ria de Neusa Santos Souza\u201d, de 2019, encontramos not\u00edcias da trajet\u00f3ria da vida da psiquiatra entusiasmada, rec\u00e9m chegada no Rio de janeiro, que se envolve em uma s\u00e9rie de atividades relacionadas \u00e0 psican\u00e1lise. Vinculou-se ao <\/span><span style=\"font-weight: 400\">Instituto Brasileiro de Psican\u00e1lise, Grupos e Institui\u00e7\u00f5es<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> (IBRAPSI), em que a forma\u00e7\u00e3o se articulava com sindicatos, partidos pol\u00edticos, movimentos sociais com perspectivas de atua\u00e7\u00e3o institucional. Tamb\u00e9m se vinculou ao N\u00facleo de Atendimento Terap\u00eautico, o NAT, ao lado de Jurandir Freire. O n\u00facleo era coordenado por Katarina Kemper e H\u00e9lio Pellegrino. De l\u00e1, seguiu para o Centro Psiqui\u00e1trico Pedro II \u2014 atual IMAS Nise da Silveira \u2014 que foi local de aglutina\u00e7\u00e3o de muitos psiquiatras militantes que come\u00e7avam a construir uma das primeiras experi\u00eancias da reforma psiqui\u00e1trica no Brasil. Nesse meio tempo, ela passou pelo Hospital do Engenho de Dentro, de que saiu ap\u00f3s grandes diverg\u00eancias quanto ao tratamento ali aplicado, num momento importante na reforma psiqui\u00e1trica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Na \u00faltima entrevista concedida por Neusa Santos Souza ela assim se apresenta:\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Meu nome \u00e9 Neusa Santos Souza. Sou psiquiatra, psicanalista. Vivo aqui no Rio e fa\u00e7o cl\u00ednica psicanal\u00edtica e tamb\u00e9m tenho uma atividade de ensino, de transmiss\u00e3o. Eu trabalho dando semin\u00e1rios cl\u00ednicos num hospital chamado Casa Verde, que \u00e9 um hospital para pacientes graves, e a refer\u00eancia, assim, fundamental, talvez, na minha trajet\u00f3ria seja o fato de eu ter escrito <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Tornar-se Negro, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">que foi a rigor uma disserta\u00e7\u00e3o de mestrado e que virou um livro e que parece que hoje ainda \u00e9 uma refer\u00eancia. As pessoas continuam me procurando muito em fun\u00e7\u00e3o desse livro e enfim, foi um livro que escrevi, portanto, h\u00e1 25 anos (Souza, Programa espelho, 2008).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Apesar de nessa entrevista o sorriso acompanhar as suas palavras, Neusa Santos Souza parecia guardar certa dist\u00e2ncia de sua obra seminal <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Tornar-se Negro: ou as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascens\u00e3o social<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, quando destacava que o seu livro j\u00e1 tinha 25 anos naquela que seria a sua \u00faltima entrevista, dada ao programa <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Espelho<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Neusa Santos Souza:\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Eu acho que \u00e9 porque eu me detive, depois disso, no estudo de uma quest\u00e3o tamb\u00e9m muito marginal que \u00e9 a quest\u00e3o dos loucos. Eu me detive em estudar e trabalhar e me desenvolver nessa dire\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o eu mergulhei fundo na quest\u00e3o da psicose, inclusive escrevi um livro tamb\u00e9m sobre a psicose e me detive nisso. Quer dizer, a quest\u00e3o racial est\u00e1 a\u00ed, est\u00e1 presente na minha vida ela \u00e9 cotidiana, ent\u00e3o eu estou confrontada com essa quest\u00e3o. Mas eu me recusei \u2014 e hoje \u00e9 realmente uma exce\u00e7\u00e3o \u2014 a falar nessa quest\u00e3o por que eu n\u00e3o estou na milit\u00e2ncia cotidiana, aquela milit\u00e2ncia organizada. Ent\u00e3o tem muita gente, muitas pessoas que est\u00e3o nessa milit\u00e2ncia e eu acho que \u00e9 hora de elas falarem, mesmo porque de direito elas t\u00eam muito mais raz\u00e3o de falar do que eu (Souza, 2008).<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A recusa sistem\u00e1tica em falar do texto parecia se apresentar como uma forma de datar as ideias que ele continha ou pelo menos parecia mostrar um abandono da pretens\u00e3o de que a psican\u00e1lise poderia contribuir para uma discuss\u00e3o sobre o sofrimento racial. Ela destaca que faz tempo que publicou o texto com aparente intuito de dizer: passou. Foi outro momento. \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">N\u00e3o me atenho mais a esse tema<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d, insistiria ela ao longo da entrevista e na sua pr\u00f3pria atitude de se recusar a dar entrevistas sobre o livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Tornar-se Negro<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Assim, escrever sobre Neusa Santos Souza, como Maria Lucia da Silva fala em seu pref\u00e1cio da nova edi\u00e7\u00e3o de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Torna-se negro<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u00e9 uma honra e um grande desafio<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (Souza, 2021, p.05). Uma honra em poder recuperar sua mem\u00f3ria, escritos, e destacar sua contribui\u00e7\u00e3o intelectual depois de anos de sil\u00eancio sobre temas e textos que lhe foram importantes e permanecem, ainda hoje, insistindo em repetir. Um desafio pois, diante de sua morte prematura e inesperada, marcada pelo suic\u00eddio, de algu\u00e9m que \u00e9 descrita pela marca do sorriso, da amizade e generosidade em seus encontros. Mas tamb\u00e9m por suas declara\u00e7\u00f5es em entrevista ao programa Espelho, que tinha como foco principal seu livro de um \u201cpassado\u201d onde ela se reconhecia como militante e que, apesar de \u201cbem feito\u201d, n\u00e3o era mais objeto de suas inquieta\u00e7\u00f5es e dedica\u00e7\u00e3o. Definitivamente n\u00e3o \u00e9 uma tarefa f\u00e1cil. Diante disso nos restam algumas apostas, uma delas \u00e9 insistir em pensar a obra de Souza com foco no seu \u00fanico livro escrito sobre o tema do racismo sem desconsiderar os seus artigos posteriores que t\u00eam outras tem\u00e1ticas como fio condutor, nem muito menos o seu livro introdut\u00f3rio sobre psicose a partir da obra de Lacan. O nosso desafio \u00e9 apresentar a obra da autora com foco no livro que ela n\u00e3o retomou, e, ao mesmo tempo, mostrar que seus artigos e sua breve introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 psicose tanto carregam quest\u00f5es novas como n\u00e3o deixam de dialogar, ainda que indiretamente, com <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Tornar-se Negro<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A recusa sistem\u00e1tica em falar do tema central do seu livro, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Tornar-se Negro<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, n\u00e3o parecia ser apenas um acerto de contas com a ideia, imposta pela branquitude, de que as pessoas negras s\u00f3 poderiam falar sobre o racismo. Sem d\u00favida n\u00f3s, pessoas negras, estamos acostumadas a sermos convocadas para falar das marcas do racismo em nossa subjetividade como se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos quest\u00f5es, contradi\u00e7\u00f5es, conflitos, dilemas e sofrimentos que n\u00e3o se reduzem \u00e0 esfera do racismo. \u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o acolher essa reinvindica\u00e7\u00e3o porque ela comp\u00f5e, entre outras coisas, a luta antirracista. Souza n\u00e3o precisaria mais falar do racismo. Certo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No entanto, a sua fala na \u00faltima entrevista se revelar\u00e1 mais contundente. Ela diz que \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">n\u00e3o republicaria o livro<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d. A pergunta que um texto sobre a obra dessa pensadora tem que enfrentar \u00e9: Por que Neusa Santos Souza n\u00e3o faria uma nova reedi\u00e7\u00e3o do seu livro? Lembrando contudo que, paradoxalmente e a despeito de sua vontade,<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> Tornar-se Negro<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> foi republicado em 2021 pela editora Zahar. Por que ela n\u00e3o desejava voltar para as quest\u00f5es raciais por meio da psican\u00e1lise?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Duas indica\u00e7\u00f5es parecem estar presentes na fala dela. Com essas indica\u00e7\u00f5es iremos apresentar a sua obra no presente verbete. Por um lado, Souza faz uma defesa de um limite da psican\u00e1lise no que diz respeito \u00e0s \u201cgeneraliza\u00e7\u00f5es\u201d de car\u00e1ter social, mais precisamente no que concerne \u00e0 explica\u00e7\u00e3o do racismo. A psican\u00e1lise teria, nesse caso, um limite de natureza epistemol\u00f3gica. Por outro, ela entende que a psican\u00e1lise \u00e9 radicalmente uma pr\u00e1tica do singular e, nesse caso, ela s\u00f3 faria sentido como uma atividade eminentemente cl\u00ednica. Aqui, temos uma compreens\u00e3o da psican\u00e1lise circunscrita ao cuidado com a sa\u00fade mental. Esses dois pontos est\u00e3o correlacionados e ser\u00e3o desenvolvidos ao longo do presente texto, mas vamos primeiro mostrar como Neusa Santos Souza pensou inicialmente a psican\u00e1lise como uma teoria cr\u00edtica da ideologia, a exemplo de outros pensadores e pensadoras que em geral faziam uma aproxima\u00e7\u00e3o entre psican\u00e1lise e marxismo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Tornar-se Negro<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Souza envereda pela an\u00e1lise da ideologia e da sua rela\u00e7\u00e3o com o processo de subjetiva\u00e7\u00e3o das pessoas negras. A obra se divide em seis cap\u00edtulos. Os tr\u00eas primeiros cap\u00edtulos s\u00e3o dedicados \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre ideologia e racismo, ao passo que os dois seguintes s\u00e3o dedicados ao relato e an\u00e1lise das entrevistas feitas com as pessoas negras em ascens\u00e3o social. No \u00faltimo cap\u00edtulo \u00e9 apresentada a metodologia do trabalho \u2014 presente por se tratar de uma disserta\u00e7\u00e3o de mestrado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Quando decide tratar do conceito de ideologia numa obra de psican\u00e1lise, Neusa Santos Souza se filia a uma leitura corrente na \u00e9poca, qual seja, a leitura da obra de Louis Althusser. \u00c9 com base no conceito de ideologia daquele pensador que Neusa Santos Souza ir\u00e1 promover uma importante reorienta\u00e7\u00e3o tanto no debate no interior da pr\u00f3pria psican\u00e1lise quanto no debate sobre o pr\u00f3prio conceito de ideologia. Ela oferece uma fina defini\u00e7\u00e3o de ideologia que articula as quest\u00f5es de classe com as quest\u00f5es de ra\u00e7a. \u00c9 nessa perspectiva que \u00e9 poss\u00edvel notar que n\u00e3o se trata de reproduzir o conceito de ideologia, tal como formulado por Althusser, mas de orient\u00e1-lo para a quest\u00e3o da ra\u00e7a, uma vez que, no contexto brasileiro, ra\u00e7a informa a pr\u00f3pria compreens\u00e3o de classe. Ou seja, a compreens\u00e3o de Althusser de que a ideologia se inscreve sobretudo na economia libidinal, ou poder\u00edamos dizer nas formas pelas quais se organiza a circula\u00e7\u00e3o dos afetos, \u00e9 ampliada por Souza quando p\u00f5e em cena a ra\u00e7a como aquilo que enquadra a circula\u00e7\u00e3o dos afetos ou daquilo que ela chama de emocionalidade no seio da sociedade brasileira.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para Neusa Santos Souza a \u201cemocionalidade\u201d das pessoas negras no modo como elas tra\u00e7am as suas pr\u00f3prias narrativas de si e dos seus processos de subjetiva\u00e7\u00e3o \u00e9 marcada pela ideologia da branquitude. As suas palavras precisam ser citadas:\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Conv\u00e9m explicar que ra\u00e7a aqui \u00e9 entendida como no\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, engendrada como crit\u00e9rio social de distribui\u00e7\u00e3o e posi\u00e7\u00e3o na classe e na cultura. Apesar de estar fundamentada em qualidades biol\u00f3gicas, principalmente a cor de pele, ra\u00e7a sempre foi definida no Brasil em termos sociais de atributo social compartilhado por um determinado grupo social, tendo em comum uma mesma grada\u00e7\u00e3o social, um mesmo contingente de prest\u00edgio e mesma bagagem e valores culturais (Souza, 2021, p.48).\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A ideologia se refere, nesse contexto, aos valores que orientam a vida social.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O ponto principal da autora \u00e9 que a pessoa negra introjeta a inferioridade atribu\u00edda ao negro na mesma propor\u00e7\u00e3o que o ideal da branquitude determina, de modo impositivo, a \u00fanica forma de se conferir identidade humana a uma pessoa. Isto \u00e9, a ideologia que a branquitude imp\u00f5e \u00e9 que a \u00fanica forma de reconhecimento de si \u00e9 por meio da assimila\u00e7\u00e3o dos valores da branquitude. Neusa Souza mostra que n\u00e3o tem como passar por gente sem se passar por branco: vestir, portanto, a \u201cm\u00e1scara branca\u201d, para recuperar aqui a express\u00e3o que d\u00e1 t\u00edtulo a obra de Fanon e que aponta para o embranquecimento como uma estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia das pessoas negras numa sociedade de hegemonia branca.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para desfazer a ideia de que o racismo \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de classe, conforme certa compreens\u00e3o do marxismo poderia levar a acreditar, a autora argumenta que o racismo informa os modos de subjetiva\u00e7\u00e3o das pessoas no Brasil. Em seu livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Tornar-se negro<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, ela apresenta dez entrevistados, entre homens e mulheres, que preenchem o requisito de serem negros, brasileiros e em condi\u00e7\u00e3o de mobilidade social ascendente. A sua ideia consistia em demonstrar que mesmo pessoas negras que conseguiram mudar de classe social continuavam sendo v\u00edtimas do racismo. \u00c9 nesse sentido que ela escreve:\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A hist\u00f3ria social da ascens\u00e3o do negro brasileiro \u00e9, assim, a hist\u00f3ria de sua assimila\u00e7\u00e3o aos padr\u00f5es brancos de rela\u00e7\u00f5es sociais. \u00c9 a hist\u00f3ria da submiss\u00e3o ideol\u00f3gica e um estoque racial em presen\u00e7a de outro que se fez hegem\u00f4nico. \u00c9 hist\u00f3ria de uma identidade renunciada, em aten\u00e7\u00e3o \u00e0s circunst\u00e2ncias que estipulam o pre\u00e7o do reconhecimento ao negro com base na intensidade de sua nega\u00e7\u00e3o (Souza, 2021, p.53).\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A afirma\u00e7\u00e3o da branquitude como universal e par\u00e2metro para o humano implica, por um lado, a constru\u00e7\u00e3o da ra\u00e7a negra e, por outro, a sua pr\u00f3pria ren\u00fancia. \u00c9 sobre essa ambival\u00eancia que a obra se envereda.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O ponto central \u00e9 que, mesmo ascendendo socialmente, a pessoa negra \u00e9 negra, ou seja, permanece racializada. Nisso, Neusa Santos Souza segue a posi\u00e7\u00e3o de Fanon que diz que a pessoa negra \u00e9 sempre identificada como negra numa sociedade marcada pela hegemonia branca, independentemente de sua classe social. Mesmo com capital, decorrente da ascens\u00e3o social, a epiderme \u2014 para usar outra express\u00e3o de Fanon \u2014 mant\u00e9m-se como crit\u00e9rio de demarca\u00e7\u00e3o racial e, claro, de exclus\u00e3o social. A alternativa para a sociabiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o da origem. Nessa nega\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria em que, segundo Souza, ele se afasta \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">dos seus valores originais, representados fundamentalmente por sua heran\u00e7a religiosa, o negro tomou o branco como modelo de identifica\u00e7\u00e3o, como \u00fanica possibilidade de tornar-se \u2018gente\u2019<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (Souza, 2021, p.46). A afirma\u00e7\u00e3o de algo requer a nega\u00e7\u00e3o de outra coisa. Afirma-se, neste caso, a identidade entre ser branco e a humanidade para obrigar as pessoas negras a viverem os par\u00e2metros da branquitude.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">De algum modo o mito do negro \u00e9, segundo Souza, a cria\u00e7\u00e3o do negro e a sua ren\u00fancia. Ela \u00e9 precisa quando diz que o mito \u00e9 \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">uma converg\u00eancia de determina\u00e7\u00f5es econ\u00f4mica-pol\u00edtico-ideol\u00f3gicas e ps\u00edquicas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (Souza, 2021, p.54), gra\u00e7as \u00e0s quais se cria o negro como contraponto ao branco.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para Souza, a \u201cdescoberta\u201d de ser negra \u00e9 mais que a constata\u00e7\u00e3o do \u00f3bvio (descortinar os v\u00e9us):<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Saber-se negra \u00e9 viver a experi\u00eancia de ter sido massacrada em sua identidade, confundida em suas expectativas, submetida a exig\u00eancias, compelida a expectativas alienadas. Mas \u00e9 tamb\u00e9m, e sobretudo, a experi\u00eancia de comprometer-se a resgatar sua hist\u00f3ria e recriar-se em suas potencialidades (Souza, 2021, p.54)<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O reconhecimento da especificidade da condi\u00e7\u00e3o da pessoa negra leva Neusa Souza a posicionar racialmente alguns conceitos da psican\u00e1lise. Ela sublinha dois: o narcisismo e o ideal do ego. Primeiramente, o ideal do ego para o negro \u00e9 branco (Souza, 2021, p.65) porque ele concentra em si todos os predicados por meio das quais o reconhecimento se d\u00e1 em termos positivos, dado estarem diretamente ligados aos estamentos com destaque social. H\u00e1 uma indissociabilidade entre o fator econ\u00f4mico e ideol\u00f3gico, independentemente da ascens\u00e3o econ\u00f4mica a pessoa negra permanece no estigma de inferioridade cujo lugar, a psican\u00e1lise neste ponto tem raz\u00e3o, se inicia no seio das rela\u00e7\u00f5es familiares (Souza, 2021, p.69).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A tend\u00eancia das pessoas negras \u00e9, portanto, de se negarem, por meio de uma adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 branquitude ou por um processo de autodeprecia\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, a puni\u00e7\u00e3o supereg\u00f3ica incide sobre as pessoas negras, especialmente num ambiente de classe alta. Ao ser humilhada por um grupo de pessoas brancas, uma das entrevistadas de Neusa Souza se declara impotente diante dessa estrutura de imposi\u00e7\u00e3o e o caminho para a melancolia \u00e9 aberto. O ponto \u00e9 que mesmo num ambiente de classe alta os afetos s\u00e3o crivados pela ra\u00e7a, de sorte que rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o rompidas por press\u00e3o familiar que \u00e9, na verdade, press\u00e3o racial. No entanto, persiste o desejo, n\u00e3o raramente frustrado, como norma de conduta supereg\u00f3ica em virtude da qual a autodeprecia\u00e7\u00e3o \u00e9 sintonizada com a manuten\u00e7\u00e3o do ideal do ego, em que as refer\u00eancias do bom, do belo, os s\u00edmbolos de bem e mal, do que devemos ser ou n\u00e3o ser em uma sociedade, est\u00e3o diretamente relacionados \u00e0s caracter\u00edsticas de que pessoas brancas t\u00eam o valor do bom e idealizado e as pessoas negras do que \u00e9 ruim e, portanto, indesejado. Em outras palavras, as normas de conduta social constrangem as pessoas negras a se auto desvalorizarem por n\u00e3o corresponderem aos ideais da branquitude.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">N\u00e3o se trata de um fen\u00f4meno isolado e isso condena muitas vezes a pessoa negra a assumir as fantasias ou m\u00e1scaras brancas que lhe s\u00e3o impostas pela branquitude. Com essa chave de leitura podemos entender porque Lu\u00edsa (entrevistada por Neusa Souza) incorpora o fetiche da mulher negra sedutora. O recurso de sobreviv\u00eancia das pessoas negras muitas vezes \u00e9 vestir a m\u00e1scara branca ou estar de acordo com a expectativa que a branquitude deposita sobre elas. E quando as pessoas negras, sobretudo as mulheres, n\u00e3o vestem a fantasia de sedutora, no \u00e2mbito intelectual toda sociedade parece estar \u00e0 espreita para apontar uma falha. Isso fomenta nas pessoas negras uma forma de ang\u00fastia, como se n\u00e3o pudesse falhar quando sabemos que falhar \u00e9 uma das caracter\u00edsticas do humano, para recuperar um conceito que Neusa Santos Souza trabalha no artigo \u201cA Ang\u00fastia na experi\u00eancia anal\u00edtica\u201d, de 2005. Ang\u00fastia que atravessa analista e analisante e \u00e9 com ela que nos deparamos no trabalho anal\u00edtico. Uma condi\u00e7\u00e3o paradoxal, desafios que o sujeito tem diante do encontro com a &#8220;opacidade do desejo do outro&#8221; (Souza, 2005, p. 15).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No artigo mencionado acima, Neusa Santos Souza descreve por uma \u00f3tica lacaniana os principais vetores da ang\u00fastia e como esse afeto pode ser manejado na cl\u00ednica respeitando a singularidade de cada processo psicanal\u00edtico. Se com Souza \u00e9 poss\u00edvel entender a ang\u00fastia como \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">a experi\u00eancia do sujeito lan\u00e7ado a\u00ed, entregue \u00e0s feras e ao desejo do Outro<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (Souza, 2005, p.21), \u00e9 importante notar que a ang\u00fastia das pessoas negras est\u00e1 diretamente ligada ao fato de que elas n\u00e3o podem realizar o desejo da branquitude. Ou seja, ainda que a ang\u00fastia seja abordada no artigo de 2005 por uma dimens\u00e3o da singularidade e n\u00e3o por um enquadramento mais generalista, esse afeto pode ajudar a compreender a posi\u00e7\u00e3o das pessoas negras numa sociedade racista que exige delas que sejam o que nunca poder\u00e3o ser, a saber: infal\u00edveis. Ou seja, \u00e9 poss\u00edvel encontrar no artigo sua rela\u00e7\u00e3o direta com o trabalho com psic\u00f3ticos \u2014 tema sobre o qual a obra de Neusa Santos Souza se volta ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Tornar-se negro <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u2014, como uma discuss\u00e3o mais geral sobre a rela\u00e7\u00e3o \u00edntima entre ang\u00fastia e psicose sem que isso nos impe\u00e7a de reconhecer que o modo pelo qual a autora pensa as quest\u00f5es da psicose pode se aplicar para a explica\u00e7\u00e3o da ang\u00fastia das pessoas negras quando tentam, em v\u00e3o, corresponder ao imperativo infalibilidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">In\u00fameros ditados populares e express\u00f5es racistas, as quais nos recusamos citar, tentam aterrorizar as pessoas negras as constrangendo a agirem como se n\u00e3o pudessem falhar porque a expectativa da branquitude \u00e9 na verdade uma certeza quanto \u00e0 vulnerabilidade e \u00e0 falhabilidade das pessoas negras. Ou seja, a pessoa negra est\u00e1 condenada a falhar e lidar com isso lhe gera uma ang\u00fastia muito forte. N\u00e3o que o ser humano n\u00e3o seja vulner\u00e1vel, mas \u00e9 que a vulnerabilidade \u00e9 atribu\u00edda apenas \u00e0s pessoas negras e especialmente \u00e0s mulheres negras.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O texto de Neusa Souza \u00e9 uma investiga\u00e7\u00e3o sobre, por um lado, a nega\u00e7\u00e3o da pessoa negra de sua pr\u00f3pria identidade, com uma incid\u00eancia mais forte sobre as mulheres negras. Por outro, \u00e9 uma investiga\u00e7\u00e3o sobre como a branquitude se imp\u00f5e como modelo projetivo para a identifica\u00e7\u00e3o da pessoa como pessoa. \u00c9 uma obra de psican\u00e1lise, mas cujo foco \u00e9 uma forma de sofrimento que est\u00e1 ligado \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de ser racializado como inferior. Esse sofrimento tem claramente uma base material anunciada por Neusa Souza logo no in\u00edcio de sua obra (Souza, 2021, p.48). Essa base material no Brasil est\u00e1 marcada pela hist\u00f3ria escravista que organizou a produ\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o e ac\u00famulo de propriedades de acordo com o crit\u00e9rio racial. As suas palavras s\u00e3o certeiras: \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A sociedade escravista, ao transformar o africano em escravo, definiu o negro como ra\u00e7a, demarcou o seu lugar, a maneira de tratar e ser tratado, os padr\u00f5es de intera\u00e7\u00e3o com o branco e institui o paralelismo entre cor negra e a posi\u00e7\u00e3o social inferior<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (Souza, 2021, p.48). Quando o caminho de ascens\u00e3o social est\u00e1 condicionado aos padr\u00f5es da branquitude, esta \u00e9 tomada \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">como modelo de identidade, ao estruturar e levar a cabo a estrat\u00e9gia de ascens\u00e3o social<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (Souza, 2021, p.48).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O ponto \u00e9 que n\u00e3o se pode discutir racismo sem reconhecer a base material que lhe amparou no Brasil e \u00e9 por isso que obras marcadas pelo materialismo hist\u00f3rico como m\u00e9todo de abordagem da sociedade brasileira figuram em abund\u00e2ncia em seus escritos. Ser\u00e1 que essa consci\u00eancia das quest\u00f5es materiais e sociais teria feito Neusa Souza desistir de retomar esse texto por n\u00e3o se acreditar mais capaz de tecer essa an\u00e1lise por meio da psican\u00e1lise? Ser\u00e1 que ela acreditava que outras \u00e1reas seriam mais promissoras para o estudo do racismo do que a psican\u00e1lise? Ser\u00e1 que ela compreendeu que a psican\u00e1lise n\u00e3o explica de modo geral a condi\u00e7\u00e3o do negro e que por isso o seu livro j\u00e1 recorria a obras de pensadores ligados a outros dom\u00ednios do conhecimento?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Neusa Souza nos oferta algumas pistas na sua \u00faltima entrevista. As quest\u00f5es materiais e os seus impactos na vida das pessoas negras foram centrais no processo de subjetiva\u00e7\u00e3o das pessoas negras, mas Souza acredita que tais quest\u00f5es se referem a um fato que \u00e9, de algum modo, contingente, que \u00e9 a ra\u00e7a. Afinal, se trata de uma cria\u00e7\u00e3o cujo prop\u00f3sito era a explora\u00e7\u00e3o das pessoas negras. Essas quest\u00f5es efetivamente concorriam para a compreens\u00e3o da \u201cneurose\u201d brasileira, como diria <\/span><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/lelia-gonzalez\/\"><span style=\"font-weight: 400\">L\u00e9lia Gonzalez<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\"> (1984), e estavam presentes nas entrevistas que figuram no livro da Souza como uma esp\u00e9cie de prova de como a subjetiva\u00e7\u00e3o das pessoas negras \u00e9 atravessada pelo racismo. Com efeito, outros dom\u00ednios da psican\u00e1lise ajudam a compreender outras formas de sofrimento que n\u00e3o est\u00e3o ligadas substancialmente e quase exclusivamente \u00e0s vari\u00e1veis sociais, mas indicam outro campo de atua\u00e7\u00e3o. Estamos falando das psicoses amplamente estudadas pela autora. Assim, a passagem das quest\u00f5es da neurose, da neurose negra, para as quest\u00f5es da psicose provavelmente impulsionou a obra de Souza a tomar outro rumo. Ela parecia querer descortinar novos horizontes nos quais a individualidade, como ela costumava frisar, \u00e9 completamente central para a compreens\u00e3o e tratamento cl\u00ednico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0As \u201cgeneraliza\u00e7\u00f5es\u201d que, segunda Neusa Santos Souza, estavam presentes em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Tornar-se Negro<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> perdem espa\u00e7o para uma an\u00e1lise do individual, poder\u00edamos dizer talvez uma an\u00e1lise do singular, para a qual se voltam os seus estudos posteriores ligados especialmente \u00e0 psicose. Uma obra agora focada sobretudo na teoria e cl\u00ednica psicanal\u00edtica, mas que, quando mergulha na singularidade, n\u00e3o hesita em destacar tamb\u00e9m as quest\u00f5es de g\u00eanero ligadas \u00e0s experi\u00eancias de ser uma mulher negra. Apesar de se afastar do tema das rela\u00e7\u00f5es raciais, a autora mant\u00e9m a pujan\u00e7a e originalidade do seu pensamento na mesma medida em que n\u00e3o exclui de seu enquadramento reflexivo as quest\u00f5es raciais. Longe de simplesmente desviar a rota das pondera\u00e7\u00f5es sobre a racialidade, Souza parece desloc\u00e1-las para um terreno mais preciso ou menos generalista e que indica uma forma mais espec\u00edfica de subjetiva\u00e7\u00e3o: a da mulher negra.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A ci\u00eancia e a verdade: um coment\u00e1rio<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Neusa Souza, junto aos colegas Ana Beatriz Freire e Francisco Leonel Fernandes, investiga minuciosamente o texto \u201cCi\u00eancia e verdade\u201d de Jacques Lacan, um di\u00e1logo com a filosofia, o campo cient\u00edfico, a religi\u00e3o e a magia. A autora assina 8 textos dos 17 artigos do livro. Tr\u00eas pontos chamam a aten\u00e7\u00e3o no livro. O primeiro \u00e9 a import\u00e2ncia que Souza expressa em apontar certa continuidade do pensamento de Lacan da obra Freudiana, apontando suas diferen\u00e7as e viradas te\u00f3ricas, sobretudo no que se refere ao campo do sujeito e sua constitui\u00e7\u00e3o. Se em um primeiro tempo ela aponta para um retorno \u00e0 Freud de Lacan, que demonstra que a divis\u00e3o do sujeito, ou seja, um sujeito dividido, n\u00e3o completo, faltante, que n\u00e3o sabe tudo de si; o segundo ponto \u00e9 a dedica\u00e7\u00e3o em apontar a caracter\u00edstica \u00e9tica da psican\u00e1lise e sua teoria do sujeito, a partir da rela\u00e7\u00e3o com as no\u00e7\u00f5es de desejo, saber, verdade e ci\u00eancia, marcando sua diferen\u00e7a com o C\u00f3gito Cartesiano e o sujeito da ci\u00eancia. O conceito de causa em Lacan se refere \u00e0 inscri\u00e7\u00e3o do inconsciente, como linguagem, que se d\u00e1 a partir da rela\u00e7\u00e3o e exist\u00eancia com o outro. Esse aspecto se encontra em todo o trabalho de Souza, em sua leitura cl\u00ednica da rela\u00e7\u00e3o do sujeito com a realidade e os efeitos que promovem o fen\u00f4meno da psicose. O terceiro aspecto que se destaca \u00e9 o exerc\u00edcio filos\u00f3fico e de articula\u00e7\u00e3o cl\u00ednica de Souza com os desdobramentos da causalidade, compreendendo que, apesar de ser atravessado pelo desejo enigm\u00e1tico de um Outro, o sujeito deve assumir sua pr\u00f3pria causalidade.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A autora se at\u00e9m a outro fator que concorre de modo diferenciado para o sofrimento das pessoas negras, que \u00e9 a quest\u00e3o de g\u00eanero. Ao lado das quest\u00f5es raciais e sendo enquadradas por elas, as quest\u00f5es de g\u00eanero n\u00e3o apenas n\u00e3o ser\u00e3o sonegadas na an\u00e1lise de Neusa Santos como ser\u00e3o um dos seus vetores principais. \u00c9 o que podemos constatar no seu artigo publicado originalmente em 1998 e reeditado na nova edi\u00e7\u00e3o de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Tornar-se Negro<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, cujo t\u00edtulo \u00e9 \u201cO estrangeiro: nossa condi\u00e7\u00e3o\u201d. Num texto que se prop\u00f5e a discutir a rela\u00e7\u00e3o entre a psicanalista e aquela pessoa submetida ao processo de psican\u00e1lise, ela, mesmo sem mobilizar o conceito de ideologia, recorre a uma compreens\u00e3o da norma social para mostrar as opress\u00f5es de g\u00eanero. Afinal, afirma ela \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">a norma \u00e9 sempre o masculino, o f\u00e1lico, o adulto, o europeu<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (Souza, 2021, p.126). Ela faz as quest\u00f5es de ra\u00e7a serem atravessadas pelas quest\u00f5es de g\u00eanero. E \u00e9 nesse sentido que um cl\u00e1ssico termo do pensamento de Freud ser\u00e1 mobilizado neste mesmo artigo para pensar as quest\u00f5es de g\u00eanero por uma \u00f3tica racial e mostrar como o feminino pode se apresentar como aquilo que \u00e9 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">estranho<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> ao enquadramento psicanal\u00edtico, visto que ele expressa \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">o excedente, a desmensura, o que n\u00e3o se deixa reduzir, o que com a norma, n\u00e3o tem medida comum<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (Souza, 2021, p.126).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span> <i><span style=\"font-weight: 400\">Das Unheimliche<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> ou na sua tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas o Infamiliar\/Estranho, um importante texto de Freud de 1910, que nos convida para pensar o inc\u00f4modo\/infamiliar remeteria a algo que \u00e9 assustador, ao mesmo tempo que bastante familiar, velho conhecido, sendo o processo de recalque o respons\u00e1vel por essa aproxima\u00e7\u00e3o, o que ficaria expresso pelo sufixo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">un<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> presente nessa palavra. O estranho familiar nos \u00e9 apresentado por Neusa Souza na sua rela\u00e7\u00e3o com o estrangeiro, em um texto que alia o rigor te\u00f3rico com uma escrita extremamente po\u00e9tica. Ao falar do estrangeiro que desde sempre vive em nossa casa, aponta: \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">sendo o mais opaco, o mais escondido, \u00e9 ao mesmo tempo, o mais estranho e o mais interior [&#8230;] por estar t\u00e3o em n\u00f3s, t\u00e3o escondido em n\u00f3s, se perde a\u00ed \u2014 tal qual um bem precioso que, de t\u00e3o bem guardado se perde<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (Souza, 1998, p. 156).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Na esteira de Freud, a autora lembra que existem algumas formas, figuras do estranho, sendo que o que nos concerne particularmente em seu texto \u00e9 a sua refer\u00eancia ao estranho como feminino, aquilo que escapa \u00e0 norma: \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O feminino pensado como diferen\u00e7a, alteridade \u2013 o feminino como Outro. Outro sexo, Outra sexualidade, outro modo de gozo, outra ra\u00e7a, outro pa\u00eds, outra l\u00edngua. O feminino \u00e9 o Outro que se op\u00f5e ao mesmo, resiste ao um da norma<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (Souza, 1998, p. 159). A norma \u00e0 qual Neusa Souza se refere inclui n\u00e3o s\u00f3 o masculino e o f\u00e1lico, mas o adulto e o europeu. O que isso contribui para nosso tema? A mulher negra poderia encarnar a estrangeira por ser mulher: o estrangeiro sendo aqui articulado ao feminino, e a norma ao masculino e f\u00e1lico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Notadamente, este feminino n\u00e3o se refere ao corpo anat\u00f4mico, uma vez que n\u00e3o \u00e9 exclusividade delas e n\u00e3o \u00e9 impedido a eles. A mulher negra pode encarnar a estrangeira, ainda mais, por ser negra, estrangeira em rela\u00e7\u00e3o aos brancos, na medida em que a norma, apontada por Neusa Souza de maneira um tanto gen\u00e9rica, mas reconhec\u00edvel por n\u00f3s, seria constitu\u00edda pelo europeu. Podemos dizer que aqui o negro \u00e9 o estrangeiro do branco! Parece-nos poss\u00edvel afirmar que a mulher negra representaria uma das figuras do estrangeiro, tanto para os homens \u2014 brancos e negros \u2014 como para as pr\u00f3prias mulheres brancas. De tal modo que, no tocante ao estrangeiro, ela se tornaria reincidente: mulher e negra. A tal ponto que n\u00e3o podemos julgar ser um simples acaso a coincid\u00eancia dessa face duplamente estrangeira que a mulher negra representa, com a dupla discrimina\u00e7\u00e3o: tanto racial quanto de g\u00eanero.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No rastro de sua apresenta\u00e7\u00e3o, chama aten\u00e7\u00e3o como ela nomeia, ainda na entrevista do programa Espelho, a continuidade de seus interesses nos estudos psicanal\u00edticos, \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">uma quest\u00e3o tamb\u00e9m muito marginal que \u00e9 a quest\u00e3o dos loucos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d os quais talvez pudessem ser compreendidos com aqueles que s\u00e3o estrangeiros no mundo por estarem imersos nas suas fantasias; como ir\u00e1 explicar Neusa Santos Souza (Souza, 2008). Assim, ela assinalou o tema que se dedicou ao longo de sua vida em diferentes espa\u00e7os.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Neusa Santos Souza escreveu em 1991 um livro, republicado recentemente, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A psicose: um estudo lacaniano<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Um texto elementar, apesar de introdut\u00f3rio ao tema diante da perspectiva lacaniana. Considerando que uma de suas atividades tratava-se em dar semin\u00e1rios cl\u00ednicos na Casa Verde<\/span><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><span style=\"font-weight: 400\">uma maneira generosa de dividir seus estudos, transmiss\u00f5es e experi\u00eancias cl\u00ednicas. Penna (2019) relata que em 1994 inicia o n\u00facleo de assist\u00eancia em sa\u00fade mental na Casa Verde, um hospital situado em Botafogo, no Rio de Janeiro. Esse n\u00facleo oferece uma s\u00e9rie de dispositivos de tratamento no campo da sa\u00fade mental, tratamento caracterizado pelos cuidados singulares. Neusa Santos Souza atuou durante os 10 \u00faltimos anos de sua vida nessa institui\u00e7\u00e3o, desenvolvendo atividades de transmiss\u00e3o da psican\u00e1lise e coordenando semin\u00e1rios regulares. Ainda hoje o n\u00facleo funciona e mant\u00e9m atividades semelhantes \u00e0s realizadas por ela, mantendo viva sua mem\u00f3ria e suas transmiss\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ainda sobre seu livro, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A psicose<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, cotejando com vinhetas cl\u00ednicas, ilustrativas de como a psicose se apresenta em seus pacientes, seus quadros cl\u00ednicos, Neusa Souza organiza de forma objetiva e did\u00e1tica, em di\u00e1logo com Freud e Lacan, as rela\u00e7\u00f5es da psicose com os tr\u00eas registros, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">simb\u00f3lico, imagin\u00e1rio e o real<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, tr\u00eas unidades interligadas e essenciais para realidade humana, segundo Lacan. O <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">simb\u00f3lico<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> \u00e9 a <\/span><span style=\"font-weight: 400\">dimens\u00e3o da nossa experi\u00eancia humana que \u00e9 organizada a partir da linguagem e que permite a troca nas rela\u00e7\u00f5es sociais<\/span><span style=\"font-weight: 400\">; o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">imagin\u00e1rio<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> \u00e9 pensado a partir da rela\u00e7\u00e3o d\u00fabia que o humano tem com a imagem do outro e seu pr\u00f3prio corpo; e o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">real<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> como aquilo que n\u00e3o pode ser simbolizado, algo da ordem do desconhecido. Esses registros auxiliam na compreens\u00e3o de como as pessoas se relacionam e se organizam com os acontecimentos e a realidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para Neusa Santos Souza a psicose era resultado de uma cat\u00e1strofe do encontro do sujeito com a linguagem, de onde emerge um sujeito \u00e0 deriva, \u201csem arrimo do significante\u201d. Esse \u201cacidente silencioso\u201d ter\u00e1 consequ\u00eancias sempre ruidosas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A autora se coloca \u00e0 altura do desafio em sua incurs\u00e3o pelos estudos da Psicose: ela nunca recua e sempre se reposiciona no trabalho cl\u00ednico diante das contradi\u00e7\u00f5es que surgem. Em<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> seu artigo, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O sujeito suposto saber: uma obje\u00e7\u00e3o \u00e0 transfer\u00eancia na psicose? <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(1999)<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> ela comenta o caso de Marcos, um paciente que prop\u00f4s uma nova oficina:<\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Havia muitas e variadas oficinas na Casa Verde, mas para Marcos faltava uma: uma Oficina de Vozes. N\u00e3o, n\u00e3o se tratava de organizar um coral, mas sim de criar um espa\u00e7o e um tempo reservados em que se pudesse falar do estranho \u2014 um estranho que se ouve, que se imp\u00f5e como voz, \u201cas vozes\u201d \u2014 para se fazer alguma coisa com isso. E o que fazer com isso, em suas mais diversas possibilidades, concerne ao campo da significa\u00e7\u00e3o, campo onde se encontra todo sujeito \u2014 neur\u00f3tico ou psic\u00f3tico \u2014 que se dirige ao analista (Souza, 1999, p. 114, apud Penna, 2019).\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Os residentes e trabalhadores da Casa Verde relatam que a oficina de ouvidores de vozes tomou corpo e foi levada tamb\u00e9m para o Instituto de Psiquiatria (IPUB) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde um grupo de ouvidores se estabilizou e acontece at\u00e9 os dias de hoje.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Autora de diversos artigos em di\u00e1logo com o campo psicanal\u00edtico, Neusa Santos Souza insiste em pesquisar, relatar e transmitir seu estudo sobre a Psicose. Apesar de n\u00e3o estar associada formalmente \u00e0 academia, nem ter v\u00ednculo com escolas psicanal\u00edticas, sua produ\u00e7\u00e3o independente \u00e9 vasta e possibilita acompanhar a envergadura de quem amou, mergulhou e se dedicou intensamente \u00e0 paix\u00e3o pelo tema t\u00e3o marginalizado da loucura. Em 2005, com Maria Silvia Hanna, organiza um livro, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O objeto da ang\u00fastia, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">no qual escreve um artigo, \u201cA ang\u00fastia da experi\u00eancia anal\u00edtica\u201d. Livro este que apresenta e conceitua a ang\u00fastia por diversos autores, tema principal no Semin\u00e1rio X de Jacques Lacan. A psiquiatra escolhe dizer sobre<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">\u201cA ang\u00fastia da experi\u00eancia anal\u00edtica\u201d, onde o analista se familiariza com o paciente. Diante da precipita\u00e7\u00e3o da ang\u00fastia, que transborda a experi\u00eancia como ato, ela nos convida a continuar! \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Continuar, continuar a trabalhar\u2026 continuar a caminhar\u2026continuar a levar as coisas adiante\u2026 para al\u00e9m do limite da ang\u00fastia\u2026 continuar no sentido de fazer a cada an\u00e1lise uma aventura \u00fanica\u2026 para que ela possa se chamar experi\u00eancia anal\u00edtica<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">.\u201d (Souza, 2005, pp. 27 e 28).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ao final da entrevista do programa Espelho, <\/span><span style=\"font-weight: 400\">L\u00e1zaro Ramos pergunta: \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Por que a senhora escolheu a psican\u00e1lise?<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d Souza responde:\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Pois \u00e9, por que \u00e9 que eu escolhi a psican\u00e1lise? \u00c9 dif\u00edcil a gente dizer aquilo que \u00e9 a causa do nosso desejo, n\u00e9? &#8230;A gente \u00e9 sempre movida a priori por suas raz\u00f5es, por suas quest\u00f5es. Ent\u00e3o a quest\u00e3o da transfer\u00eancia que se estuda desde o terceiro ano de medicina, nessa mat\u00e9ria, rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-paciente. A transfer\u00eancia \u00e9 a quest\u00e3o central da psican\u00e1lise. A transfer\u00eancia e o manejo dessa transfer\u00eancia. Como trabalhar com isso. Ent\u00e3o isso \u00e9 a psican\u00e1lise. Desde sempre, talvez, eu tenha sido fisgada por ela (Souza, 2008).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Com Neusa Santos Souza somos convocadas a compreender o ponto forte da psican\u00e1lise, o mais radical: entender os seus limites. Isto \u00e9, a psican\u00e1lise \u00e9 pensada ao longo de sua obra como um saber humano atravessado por quest\u00f5es de classe, ra\u00e7a e g\u00eanero na mesma medida em que cont\u00e9m um grande potencial de cuidado das singularidades. Nessa perspectiva, Neusa Santos Souza nunca negociou a import\u00e2ncia da psican\u00e1lise na sa\u00fade mental, mas apontou para v\u00e1rios dos seus limites que est\u00e3o inscritos nas quest\u00f5es acima mencionadas. Para Neusa Santos Souza a psican\u00e1lise \u00e9 definitivamente entendida como uma tarefa inacabada e da\u00ed seu compromisso com a compreens\u00e3o de temas marginais como a psicose, a loucura, o sofrimento com o racismo que ainda permanecem como feridas do nosso tempo. Afinal, como diz Neusa Santos Souza no seu \u00faltimo escrito que versa sobre a quest\u00e3o do racismo e que foi produzido na data simb\u00f3lica de 13 de maio, dias antes de sua morte. \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A escravid\u00e3o acabou, mas a nossa luta continua<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (Souza, 2021, p.163). Em suma, com a nossa pensadora aprendemos a import\u00e2ncia de um devir \u00e9tico e radical para a psican\u00e1lise. A d\u00fap\u00e9, Neusa Santos Souza.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/b><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>Obras de Neusa Santos Souza:\u00a0<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Souza, N. S. (1983). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Tornar-se negro ou As Vicissitudes da Identidade do Negro Brasileiro em Ascens\u00e3o Social<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Rio de Janeiro: Edi\u00e7\u00f5es Graal.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________. (1989) A quest\u00e3o do dinheiro na psican\u00e1lise<\/span><b>.<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> In: Souza, N. S. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Agenda de Psican\u00e1lise<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Rio de Janeiro: Xanon. pp. 242-45.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________. (1991) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A Psicose: um estudo Lacaniano<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Rio de Janeiro: Campus.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________. (1994) Transfer\u00eancia e dire\u00e7\u00e3o da cura na psicose<\/span><b>.<\/b><i><span style=\"font-weight: 400\"> Boletim de Novidades<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, n. 57, pp. 36-43.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________. (1994) A Foraclus\u00e3o, um caso de grandeza negativa<\/span><b>.<\/b> <i><span style=\"font-weight: 400\">Boletim de Novidades<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, n. 59, pp. 43-53\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________. (1995) Sexualidade e morte na psicose. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Boletim de Novidades,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> n. 72, pp. 51-9.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Freire, A. B.; Leonel, F. de F. e S.; Souza, N. S. (1996) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A Ci\u00eancia e a Verdade: um coment\u00e1rio<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Rio de Janeiro: Revinter.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Souza, N. S. (1997) Teoria e cl\u00ednica da psicose.<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> Latusa<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Rio de Janeiro, n.1, pp. 154-6.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________. (1998) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O estrangeiro: nossa condi\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. In: Koltai, Caterina (Org.). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O estrangeiro.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> S\u00e3o Paulo: Escuta.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Souza, N. S. e Hanna, M. S. G. F. (org.). (2005). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O objeto da ang\u00fastia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Rio de Janeiro: Editora 7 Letras.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Souza, N. S. (1999) O Sujeito Suposto Saber: Uma obje\u00e7\u00e3o \u00e0 transfer\u00eancia na Psicose? <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u00c1gora, Estudos em Teoria Psicanal\u00edtica<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, v.2 n.1 pp. 109-119.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________. (2002) O Eu e o Sujeito: Ressentimento, culpa e responsabilidade. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Cadernos de psican\u00e1lise<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> &#8211; C\u00edrculo Psicanal\u00edtico do Rio de Janeiro, n.15, pp. 59-76.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________. (2021) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Tornar-se negro ou As Vicissitudes da Identidade do Negro Brasileiro em Ascens\u00e3o Social<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Zahar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________. (2021) A casa. In Anexos de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Tornar-se negro ou As Vicissitudes da Identidade do Negro Brasileiro em Ascens\u00e3o Social<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Zahar. (Texto Original de 2006)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________. (2021) Contra o racismo: com muito orgulho e amor. In Anexos de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Tornar-se negro ou As Vicissitudes da Identidade do Negro Brasileiro em Ascens\u00e3o Social<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Zahar. (Texto Original de 2008).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________. (2021) E agora, Jos\u00e9? In Anexos de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Tornar-se negro ou As Vicissitudes da Identidade do Negro Brasileiro em Ascens\u00e3o Social<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Zahar. (Texto Original de 2000)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________. (2021) O Corpo em psican\u00e1lise. In Anexos de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Tornar-se negro ou As Vicissitudes da Identidade do Negro Brasileiro em Ascens\u00e3o Social<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Zahar. (Texto Original de 2008)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________. (2021) O estrangeiro: nossa condi\u00e7\u00e3o. In Anexos de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Tornar-se negro ou As Vicissitudes da Identidade do Negro Brasileiro em Ascens\u00e3o Social<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Zahar. (Texto Original de 1998)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________. (2021) O que pode uma analista aprender com os pacientes psic\u00f3ticos. In Anexos de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Tornar-se negro ou As Vicissitudes da Identidade do Negro Brasileiro em Ascens\u00e3o Social<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Zahar. (Texto original de 2002)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________. (2023) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A psicose: um estudo Lacaniano<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Zahar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________. (2023) Amor e morte na psicose. In.: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A psicose: um estudo Lacaniano<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Zahar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________. (2023)<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">Psicose: Fen\u00f4meno e estrutura. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A psicose: um estudo Lacaniano<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Zahar.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>Entrevistas e outros materiais em audiovisual sobre Neusa Santos Souza:\u00a0<\/b><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Souza, N. S. (2008) Trilogia da Mente. [Entrevista concedida a L. Ramos e S. Almada]. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Programa Espelho<\/span><\/i><b>.<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Rio de Janeiro: Canal Brasil. Programa de TV. Agosto de 2008.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________. (1990) S\u00f3 e bem acompanhada. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Cadernos de Psican\u00e1lise<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [Entrevista concedida a A. Salgado, C. Duba, I. Lamy e M. Resende], ano 8, n.11.<\/span><\/p>\n<p><br \/><br \/><\/p>\n<p><b>Produ\u00e7\u00e3o em audiovisual sobre Neusa Santos Souza:\u00a0<\/b><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SOUZA, Leonardo. Um grito parado no ar. Curta metragem. Rio de Janeiro, 2020. <\/span><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=V4WHFs8PGm0\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=V4WHFs8PGm0<\/span><\/a><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>Outros textos:\u00a0<\/b><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Abu-Merh, A. (2022) Neusa Santos Souza e a Casa Verde. Revista Caju. Dispon\u00edvel em: <\/span><a href=\"https:\/\/revistacaju.com.br\/2022\/01\/10\/neusa-santos-souza-e-a-casa-verde\/\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/revistacaju.com.br\/2022\/01\/10\/neusa-santos-souza-e-a-casa-verde\/<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Fanon, F. (2020) Pele Negra, M\u00e1scaras Brancas. S\u00e3o Paulo: UBU.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Gonzalez, L. (1984) Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira. In: Revista de Ci\u00eancias Sociais Hoje: Anpocs, pp. 223-44. Dispon\u00edvel em: <\/span><a href=\"https:\/\/edisciplinas.usp.br\/pluginfile.php\/6608168\/mod_resource\/content\/1\/06%20-%20GONZALES%2C%20L%C3%A9lia%20-%20Racismo_e_Sexismo_na_Cultura_Brasileira%20(1).pdf\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/edisciplinas.usp.br\/pluginfile.php\/6608168\/mod_resource\/content\/1\/06%20-%20GONZALES%2C%20L%C3%A9lia%20-%20Racismo_e_Sexismo_na_Cultura_Brasileira%20(1).pdf<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Herkenhoff, A. (2009) Racismo: Por que se matou a psicanalista negra que fazia sucesso no Rio? Mamaterra Press. Dispon\u00edvel em: <\/span><a href=\"https:\/\/mamapress.wordpress.com\/2016\/08\/03\/racismo-por-que-se-matou-a-psicanalista-negra-que-fazia-sucesso-no-rio\/\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/mamapress.wordpress.com\/2016\/08\/03\/racismo-por-que-se-matou-a-psicanalista-negra-que-fazia-sucesso-no-rio\/<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Penna, W. P. (2019) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Escreviv\u00eancias das mem\u00f3rias de Neusa Santos Souza: apagamentos e lembran\u00e7as negras nas pr\u00e1ticas PSIS<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado. Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o do Instituto de Psicologia, Universidade Federal Fluminense, Niter\u00f3i.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Silva, M. L. (2021) Pref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o. In.: Souza, N. S. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Tornar-se negro ou As Vicissitudes da Identidade do Negro Brasileiro em Ascens\u00e3o Social<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Zahar.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":360,"featured_media":0,"parent":23,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","inline_featured_image":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"class_list":["post-1671","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1671","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/360"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1671"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1671\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1684,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1671\/revisions\/1684"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/23"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1671"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}