{"id":1685,"date":"2023-04-18T13:11:19","date_gmt":"2023-04-18T16:11:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/?page_id=1685"},"modified":"2023-04-18T15:32:01","modified_gmt":"2023-04-18T18:32:01","slug":"gloria-anzaldua","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/filosofas\/gloria-anzaldua\/","title":{"rendered":"Gloria Anzald\u00faa"},"content":{"rendered":"\n\n\n<p style=\"text-align: left\"><span style=\"font-weight: 400\">(1942-2004)<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">por Ada Cristina Ferreira, doutoranda em Filosofia pela\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">Universidade Federal do ABC &#8211; <\/span><a href=\"https:\/\/lattes.cnpq.br\/7607020035737166\"><span style=\"font-weight: 400\">Lattes<\/span><\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/04\/Verbete-Gloria-Anzaldua-versao-final-PDF.docx-1.pdf\">PDF &#8211; Gloria Anzald\u00faa<\/a><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1696 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/04\/Anzaldua.jpg\" alt=\"\" width=\"501\" height=\"512\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/04\/Anzaldua.jpg 501w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/04\/Anzaldua-294x300.jpg 294w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/04\/Anzaldua-24x24.jpg 24w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/04\/Anzaldua-48x48.jpg 48w\" sizes=\"(max-width: 501px) 100vw, 501px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><span style=\"font-weight: 400\">Gloria Anzald\u00faa, 1988. Cole\u00e7\u00e3o Vozes Particulares: Retratos de Escritores <br \/>Gays e L\u00e9sbicas por Robert Giard. Biblioteca P\u00fablica de Nova York.<br \/><\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>Vida<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Com o florescimento das teorias feministas e os estudos sobre g\u00eanero, classe e sexualidade, a autora Gloria Evangelina Anzald\u00faa (1942-2004) tem sido uma das autoras que vem conquistando espa\u00e7o dentro dos estudos filos\u00f3ficos. Serpenteando entre as linhas da poesia, literatura, narrativa, teoria e auto-hist\u00f3ria, Anzald\u00faa convida seus leitores e leitoras a visitarem os espa\u00e7os fronteiri\u00e7os e serem testemunhas do nascimento de uma nova cultura, a cultura que envolve e representa a popula\u00e7\u00e3o da fronteira e que abriga a identidade da \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">New Mestiza\u201d<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nascida no Vale do Rio Grande no Texas, na fronteira com o M\u00e9xico &#8211; Estados Unidos, onde uma linha divis\u00f3ria cortou o espa\u00e7o sagrado da ancestralidade asteca, Anzald\u00faa foi a filha mais velha de Urbano e Am\u00e1lia Anzald\u00faa. De origem pobre e campesina e autodeclarada chicana, l\u00e9sbica e ativista pol\u00edtica, Anzald\u00faa experiencia desde muito cedo as tens\u00f5es que envolvem seu corpo, sua sexualidade e seu local de origem. Desde muito antes de seu nascimento a fam\u00edlia sobrevive do trabalho campesino. Enquanto crian\u00e7a, Anzald\u00faa e seus irm\u00e3os auxiliavam os pais com as tarefas nos campos, intercalando os hor\u00e1rios de aula com as horas de trabalho eles ajudavam no sustento da fam\u00edlia. \u00c0 noite, per\u00edodo em que tinha maior liberdade, Anzald\u00faa lia para sua irm\u00e3 Hilda adormecer, sua imagina\u00e7\u00e3o criativa a fazia inventar contos noturnos em troca do sil\u00eancio prometido pela irm\u00e3 quando Anzald\u00faa temia ser repreendida pela m\u00e3e. Ent\u00e3o, atravessava a noite em claro, lendo e escrevendo debaixo das cobertas, iluminando as p\u00e1ginas com uma lanterna para n\u00e3o ser descoberta.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ainda muito cedo experimentou o quanto o corpo pode transformar as rela\u00e7\u00f5es que estabelecemos conosco e com o pr\u00f3ximo. Com uma condi\u00e7\u00e3o rara que a obrigava enfrentar um forte desequil\u00edbrio hormonal que a fazia sangrar desde que tinha tr\u00eas meses de idade, Anzald\u00faa se v\u00ea como uma estranha entre as outras pessoas. Aos sete anos e j\u00e1 com os seios em desenvolvimento, sua m\u00e3e tentava proteg\u00ea-la dos olhares atravessados pela viol\u00eancia enfaixando seus seios para que n\u00e3o fossem vistos pelos colegas e demais pessoas. Ainda era repetidamente advertida para que tomasse cuidado ao se sentar, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u201cMantenha suas pernas fechadas, Prieta\u201d<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (Anzald\u00faa, 2021, p. 66), j\u00e1 que em sua calcinha diversos panos dobrados serviam para absorver o sangramento que tinha. Sua condi\u00e7\u00e3o a deixou com fortes dores, principalmente na vida adulta. Com c\u00f3licas, febres altas e tremores, Anzald\u00faa sempre estava no hospital.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Aos 38 anos de idade foi submetida a cirurgia de histerectomia. A retirada do \u00fatero trouxe \u00e0 Anzald\u00faa uma das experi\u00eancias mais traumatizantes que a deixou entre a vida e a morte. Esses acontecimentos s\u00e3o relatados num ensaio profundo e emocionante <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">La Prieta <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">publicado em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">This Bridge Called My Back <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">[Essa Ponte que Chamo de Minhas Costas],<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">em 1981.<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">Nele, Anzald\u00faa relembra momentos de sua inf\u00e2ncia e de sua vida adulta, a perda do pai quando tinha apenas 12 anos de idade, a dif\u00edcil rela\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e e os olhares de estranhamento que enfrentava de uma sociedade que a via como uma <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u201cloquita, jotita, marimacha, pajuelona, lambiscona, culera\u201d <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(Anzald\u00faa, 2021, p. 126) nomes considerados depreciativos e que reproduzem os preconceitos de uma sociedade.\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">How to turn away from the hellish journey that the disease has put me through, the alchemical nights of the soul. Torn limb from limb, knifed, mugged, beaten. My tongue (Spanish) ripped from my mouth, left voiceless. My name stolen from me. My bowels fucked with a surgeon&#8217;s knife, uterus and ovaries pitched into the trash. Castrated. Set apart from my own kind, isolated. My life-blood sucked out of me by my role as woman nurturer &#8211; the last form of cannibalism.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">[Como me afastar da jornada infernal em que a doen\u00e7a me fez passar, as noites alqu\u00edmicas da alma. Rasgada membro por membro, esfaqueada, roubada, espancada. Minha l\u00edngua (espanhol) arrancada de minha boca, deixada sem voz. Meu nome roubado de mim. Minhas entranhas fodidas por uma faca de cirurgi\u00e3o, \u00fatero e ov\u00e1rios lan\u00e7ados no lixo. Castrada. Separada do meu pr\u00f3prio povo, isolada. Meu sangue-vital sugado de mim pelo meu papel de mulher criadora &#8211; a \u00faltima forma do canibalismo].\u00a0 (Anzald\u00faa, 1984, pp. 231-232).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mesmo frequentando a universidade, Anzald\u00faa manteve uma forte liga\u00e7\u00e3o com o campo, trabalhava nos fins de semana e nas f\u00e9rias para ajudar a fam\u00edlia. N\u00e3o era sua inten\u00e7\u00e3o desenvolver o tradicional papel destinado \u00e0 mulher naquela \u00e9poca, que consistia em casar e ter filhos, viver nos campos trabalhando para sobreviver, destino que geralmente era tra\u00e7ado para pessoas mais pobres. Anzald\u00faa se sentia sufocada com isso. Necessitava de mais. Mais palavras, mais conhecimento, mais questionamentos sobre \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">o jeito de ser das coisas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d. (Anzald\u00faa, 2021, p. 73). Essa sua sede por conhecimento a conduziu \u00e0 Universidade Pan American, onde em 1969 recebeu o diploma de licenciatura em Artes e Literatura Inglesa.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nos anos seguintes \u00e0 sua forma\u00e7\u00e3o, Anzald\u00faa foi professora em escolas p\u00fablicas no Texas. Em suas aulas para o ensino m\u00e9dio ela percebia a recusa da escola em oferecer aos alunos e alunas chicanos\/as uma literatura que inclu\u00edsse contos e a arte chicana. Sempre que tentava complementar os estudos de seus alunos levando textos sobre esses temas, era repreendida pela diretora. No entanto, arriscando seu emprego, ela oferecia em segredo alguns poemas, pe\u00e7as, contos da literatura chicana para que seus alunos e alunas pudessem conhecer e experienciar um pouquinho daquilo que viviam na pr\u00e1tica.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em 1972 se tornou mestre em educa\u00e7\u00e3o art\u00edstica e literatura pela Universidade de Austin e logo em seguida ingressou nos movimentos campesinos, encontros de ativistas pol\u00edticos e movimentos sociais de imigrantes chicanos. Esses contatos a conduziram \u00e0 coordena\u00e7\u00e3o de uma escola na qual Anzald\u00faa era incumbida da educa\u00e7\u00e3o de filhas e filhos de migrantes trabalhadores do campo em Indiana. Em 1974, entra em contato direto com o feminismo e passa a participar ativamente de encontros pol\u00edticos e atividades pr\u00e1ticas do movimento. Com a proximidade dos di\u00e1logos, Anzald\u00faa estabelece uma alian\u00e7a entre o movimento chicano que j\u00e1 participava e o movimento feminista na \u00e9poca. Esse contato foi importante para que ela pudesse perceber que havia cr\u00edticas a serem feitas em cada um desses movimentos como, por exemplo, o abismo que existia entre o movimento feminista e o movimento anti-racista, a precariedade do trabalho entre as mulheres chicanas em rela\u00e7\u00e3o aos homens da mesma comunidade (Palacio, 2020).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nos anos seguintes, Anzald\u00faa se ocupa com as discuss\u00f5es feministas e o tema do racismo e passa boa parte de seu tempo se dedicando \u00e0 escrita. Ela articula a constru\u00e7\u00e3o de um movimento que pudesse discutir um feminismo mais plural, que trabalhasse com a experi\u00eancia relatada por mulheres que estavam \u00e0s margens da visibilidade ocidental, mulheres que Anzald\u00faa chamou de \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Mulheres de Terceiro Mundo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (Anzald\u00faa, 1987, p. 3). Tais experi\u00eancias envolveriam principalmente os problemas como o racismo e as desigualdades de classes, temas que atingiam mais as mulheres de cor da classe trabalhadora. Anzald\u00faa acreditava que apenas com essas discuss\u00f5es era poss\u00edvel alcan\u00e7ar uma emancipa\u00e7\u00e3o feminina mais abrangente, mais inclusiva e justa.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Por volta dos anos de 1976-1977, Anzald\u00faa tenta ingressar no doutorado na Universidade do Texas. Mas, a pesquisa que pretendia sobre estudos feministas e literatura chicana foi frustrada, uma vez que consideravam os estudos sobre mulheres algo a que Anzald\u00faa n\u00e3o deveria se dedicar (Anzald\u00faa, 2016, p. 274). Segundo relata, era como se essas vozes n\u00e3o existissem, como se esses estudos n\u00e3o gerassem impacto ou peso acad\u00eamico. (Anzald\u00faa, 2016, p. 275).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">(&#8230;) cuando estaba en la Univesidad de Texas, quer\u00eda centrar mi tesis en estudios feministas y literatura chicana\u00a0 y enseguida me di cuenta de que eso parec\u00eda un proyecto imposible. El asesor de dijo que la literatura chicana no era una disciplina leg\u00edtima, que no exist\u00eda, y que los estudios de mujeres no era algo a lo que yo deber\u00eda dedicarme. Ya sabes, esto era en 1976-1977. Si eras una chicana en una universidad, todo lo que te ense\u00f1aban eran sistemas filos\u00f3ficos, disciplinas y modos de conocimiento rojos, blancos y azules, bien estadunidenses.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">[(&#8230;) quando estava na universidade do Texas, queria centrar minha tese nos estudos feministas e literatura chicana e em seguida me dei conta de que isso parecia ser um projeto imposs\u00edvel. O orientador me disse que a literatura chicana n\u00e3o era disciplina leg\u00edtima, que n\u00e3o existia, e que os estudos sobre as mulheres n\u00e3o era algo a que deveria me dedicar. J\u00e1 sabe, isso era em 1976-1977. Se voc\u00ea \u00e9 uma chicana em uma universidade, tudo o que te ensinam s\u00e3o sistemas filos\u00f3ficos, disciplinas e modos de conhecimento vermelhos, brancos e azuis, bem estadunidense]. (Anzald\u00faa, In Ikas, 2016, p. 274).\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ap\u00f3s as negativas que recebeu sobre a inten\u00e7\u00e3o de sua pesquisa na academia, Anzald\u00faa desiste de completar o doutorado e se muda para a cidade de S\u00e3o Francisco. Ela ent\u00e3o entra para a \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Women\u2019s Writer\u2019s Union<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d e a \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Feminist Writer\u2019s Guild<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d, um sindicato e uma associa\u00e7\u00e3o que contemplavam escritoras mulheres e feministas. Ali conhece diversas escritoras, como Susan Griffin, Nellie Wong, Merle Woo e tamb\u00e9m Cherr\u00ede Moraga, com quem divide amizade e trabalhos ao longo de sua vida. Durante os encontros com essas mulheres, Anzald\u00faa percebe que os grupos eram formados em sua maioria por mulheres brancas, e que acabavam negligenciando outros fatores que envolviam a opress\u00e3o de g\u00eanero. Como, por exemplo, a classe social, a ra\u00e7a, a orienta\u00e7\u00e3o religiosa, a idade, e mesmo o f\u00edsico das mulheres, entre outros tantos temas que embasavam a viol\u00eancia e deveriam entrar para a discuss\u00e3o, mas n\u00e3o era o que acontecia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Essas experi\u00eancias despertam em Anzald\u00faa a ideia de unir essas vozes que se encontravam \u00e0s margens para que pudessem ser ouvidas, incluindo as diferentes opress\u00f5es que envolvem n\u00e3o s\u00f3 o corpo, mas o lugar que esse ocupa. Em 1981 foi convidada pela Universidade de S\u00e3o Francisco a lecionar no rec\u00e9m programa voltado ao estudos sobre mulheres, em que mantinha o foco na literatura de mulheres de terceiro Mundo (Palacio, 2020). Com o engajamento de seu trabalho e com o interesse demonstrado por diversas mulheres surge, em 1981, por iniciativa de Anzald\u00faa, um compilado que levou o nome de \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">This bridge called my back, writings by radical women of color<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d [Essa ponte que chamo de minhas costas, escrito de mulheres radicais de cor], reunindo diversas escritoras com diferentes estilos de escrita e diferentes formas de experienciar o mundo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A recep\u00e7\u00e3o do livro, o engajamento e a parceria dessas escritoras fez com que as ideias borbulhassem na mente de Anzald\u00faa e a encorajassem a seguir com um projeto que j\u00e1 estava sendo desenhado h\u00e1 algum tempo, chamado por ela de \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Mundo Zurdo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d [Mundo Canhoto]. Nele, Anzald\u00faa prop\u00f5e uma esp\u00e9cie de partilha em que as mulheres pudessem dividir n\u00e3o s\u00f3 de forma liter\u00e1ria, mas fisicamente, suas hist\u00f3rias, participando de semin\u00e1rios, oficinas, grupos de escuta, movimentos em que o corpo tamb\u00e9m pudesse mediar o pr\u00f3prio pensamento. A ideia consistia, segundo Palacio (2020), em estabelecer um v\u00ednculo entre teoria e pr\u00e1tica com o objetivo de criar um espa\u00e7o desde a marginalidade. Esse espa\u00e7o serviria de \u201cabrigo\u201d para essas mulheres, fornecendo condi\u00e7\u00f5es para que as experi\u00eancias pudessem ser compartilhadas. Muitas vezes a mesma realidade atravessava a vida de diferentes sujeitos e com a partilha se constru\u00edam condi\u00e7\u00f5es em conjunto para superar os obst\u00e1culos e articular novas formas para transpor as dificuldades que lhes eram apresentadas. Dessa forma, Anzald\u00faa e outras tantas mulheres rompiam juntas a tradi\u00e7\u00e3o do sil\u00eancio que anteriormente se instaurava em torno dos marcadores como o sexo, o g\u00eanero, a cor e a localidade, etc.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">La noci\u00f3n del Mundo Zurdo no pretende ser una mera categor\u00eda explicativa, sino que introduce el v\u00ednculo entre teor\u00eda y pr\u00e1ctica, ya que de lo que se trata es de crear un espacio desde la marginalidad, un espacio que al ser creado por ellos pueda albergarles. En este sentido, la metodolog\u00eda de talleres y seminarios acompa\u00f1a al proceso de elaboraci\u00f3n de un nuevo sentido al que refiere este Mundo Zurdo. Anzald\u00faa sab\u00eda de qu\u00e9 hablaba y por qu\u00e9, ella conoc\u00eda la marginaci\u00f3n y confiaba en que la experiencia de las carencias sirviera de resorte a una visi\u00f3n diferente de una misma realidad compartida.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">[A ideia \u2018<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Mundo Zurdo&#8217; <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">n\u00e3o pretende ser uma categoria explicativa, mas visa introduzir o v\u00ednculo entre teoria e pr\u00e1tica, j\u00e1 que se trata de criar um espa\u00e7o desde a marginalidade, um espa\u00e7o que ao ser criado possa servir de abrigo. Neste sentido, a metodologia de oficinas e semin\u00e1rios acompanha o processo de elabora\u00e7\u00e3o de um novo sentido a que se refere o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Mundo Zurdo. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Anzald\u00faa sabia o que falava e por que falava, ela conhecia a marginaliza\u00e7\u00e3o e confiava que a experi\u00eancia sobre as car\u00eancias serviria de aporte a uma vis\u00e3o diferente de uma mesma realidade compartilhada]. (Palacio, 2020, vers\u00e3o ebook, tradu\u00e7\u00e3o nossa).\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ap\u00f3s o ano de 1981, Anzald\u00faa participou de diversas atividades al\u00e9m de lecionar em Universidades, como Columbia, Maryland, Yale, Norwich, Calif\u00f3rnia e, anos mais tarde, na Universidade da Fl\u00f3rida. Em 1987 finalmente \u00e9 publicado seu mais famoso livro \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Bordelands\/La frontera: La consciencia de la nueva mestiza<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d [Fronteiras\/ A Fronteira: A consci\u00eancia da nova mesti\u00e7a] eleito pela <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Journal<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> como um dos 38 melhores do ano e um dos 100 melhores de 1987 segundo as revistas <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Hungry Mind <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Utner Reader. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Por suas publica\u00e7\u00f5es e pelo impacto de suas obras Anzald\u00faa recebe diversos pr\u00eamios, como o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Before Columbus American Book Award, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">pr\u00eamio <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Lambda Lesbian Small Book Press<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Lesbian Rights<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Pr\u00eamio Nacional de Artes da faculdade de Artes Liberais da Pamona College<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> na Calif\u00f3rnia, Pr\u00eamio <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Sappho<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Americas Honor Award<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e o pr\u00eamio concedido pelo programa de Estudos Latinos o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Consortium of Latin American Studies Programs <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">&#8211; CLAPSA.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0\u00a0<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">Nos anos que se seguem, Anzald\u00faa mant\u00e9m um forte ritmo produtivo e retoma sua pesquisa no doutorado com mais afinco em 2003 na Universidade da Calif\u00f3rnia. Por\u00e9m, com sua sa\u00fade cada dia mais debilitada somada ao diagn\u00f3stico de diabetes, Anzald\u00faa n\u00e3o concluiu seu doutoramento e faleceu em casa na cidade de S\u00e3o Francisco no dia 15 de maio de 2004 aos 61 anos de idade. Seu corpo retornou para casa, para a pequena cidade de Hargill no Texas onde cresceu. Posteriormente, a Universidade da Calif\u00f3rnia lhe concedeu o t\u00edtulo p\u00f3stumo de doutora em literatura. E em 2009 uma s\u00e9rie de entrevistas editadas por AnaLouise Keating &#8211; \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Gloria Anzald\u00faa Reader<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d &#8211; \u00e9 publicada.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>O poetizar da obra <\/b><b><i>Borderlands\/La Frontera: The New Mestiza<\/i><\/b><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Realizar a leitura de uma obra \u00e9 sempre uma tarefa dif\u00edcil, pois a leitura exige mais que uma mera interpreta\u00e7\u00e3o, exige absor\u00e7\u00e3o do texto, da narrativa, das imagens, do aprofundamento e da apropria\u00e7\u00e3o dos conceitos. A leitura do texto de Gl\u00f3ria Anzald\u00faa se torna mais desafiadora quando ela retira o leitor de seu comodismo acad\u00eamico e o insere de forma gradativa no universo da fronteira. Ao iniciarmos a leitura dessa obra, Anzald\u00faa nos convida a experimentar a linguagem fronteiri\u00e7a, linguagem que reflete seus antepassados e o seu presente e que atualmente representa a sobreviv\u00eancia na fronteira. Do \u201cbilinguajamento\u201d, \u201cmultilinguajamento\u201d, ou seja, a intersec\u00e7\u00e3o de l\u00ednguas que se fundem em uma s\u00f3 como a mescla do espanhol com ingl\u00eas, o Tex-Mex, o Pachuco, as g\u00edrias, emerge \u201cum modo de viver\u201d, um viver-entre-l\u00ednguas (Anzald\u00faa, 1987). S\u00f3 assim \u00e9 que se pode adentrar no espa\u00e7o da <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">mestiza<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e conhece-la da forma como Anzald\u00faa desejaria que a conhec\u00eassemos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ao tomarmos contato com seu mais famoso livro,<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">Anzald\u00faa consegue resgatar nossa aten\u00e7\u00e3o desde sua capa \u2014 a da primeira edi\u00e7\u00e3o de 1987. No t\u00edtulo a palavra <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u201cBorderlands\u201d<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">,<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">localizada na parte superior, insinua o norte ingl\u00eas, o norte geogr\u00e1fico, e na parte inferior <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u201cLa fronteira\u201d<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, o sul mexicano, seguido por dois pontos \u2014 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u201cThe new mestiza\u201d<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, mostra a mescla lingu\u00edstica que representa o espa\u00e7o h\u00edbrido da fronteira. Para separar os territ\u00f3rios uma linha divis\u00f3ria corta o sul e o norte e delimita dois lados, o desenho \u00e9 uma met\u00e1fora para demonstrar as barreiras assinaladas pela geografia pol\u00edtica colonial.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A estrutura\u00e7\u00e3o dos cap\u00edtulos do livro e a mescla que a autora faz da narrativa po\u00e9tica nas passagens em que resgata a mem\u00f3ria chicana deixa mais evidente o movimento da obra. Essa estrutura \u00e9 fundamental para ilustrar o pr\u00f3prio processo de constru\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia mesti\u00e7a. O desenvolvimento passa pela teoria, pela autobiografia e, desta, para poesia e posteriormente para a transcri\u00e7\u00e3o de uma entrevista concedida a Karin Ikas. A obra se divide em duas partes. A primeira \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Atravesando Fronteras\/Crossing Borders\u201d <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">traz importantes temas como a viol\u00eancia colonial, os processos de resist\u00eancia, as amea\u00e7as constantes sofridas pelas chicanas e chicanos e, por fim, a consci\u00eancia mesti\u00e7a. A segunda parte inicia-se em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u201cUn Agitado Viento\/Eh\u00eacatl, The Wind\u201d<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e \u00e9 composta de poesias.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Apesar do livro se dividir em duas partes e conter v\u00e1rios cap\u00edtulos, podemos dizer que a obra passa por tr\u00eas movimentos, os quais v\u00e3o se transformando poeticamente em uma esp\u00e9cie de ritual metaf\u00f3rico e que se consolida por fim com o nascimento da <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u201cNew Mestiza\u201d.\u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>A fronteira<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A contextualiza\u00e7\u00e3o do lugar de onde nascem as discuss\u00f5es de Anzald\u00faa \u00e9 importante para que se compreenda a identidade <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">mestiza<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Nos primeiros cap\u00edtulos de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u201cBorderlands\/La Frontera: The new mestiza&#8221;,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> a autora se preocupa em apresentar a fronteira de onde ela fala. Ressalta que essa fronteira n\u00e3o \u00e9 apenas um espa\u00e7o geogr\u00e1fico definido, mas sim um local conflituoso que, em meio \u00e0s tens\u00f5es pol\u00edticas, econ\u00f4micas e culturais desenvolve, segundo Anzald\u00faa (1987), uma luta que tamb\u00e9m \u00e9 feminista.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Anzald\u00faa faz um apanhado hist\u00f3rico, revisitando o M\u00e9xico, principalmente a parte norte do hemisf\u00e9rio, \u00e1rea tradicional de cultura mexicana e onde atualmente \u00e9 o sul dos Estados-Unidos. A autora ressalta a import\u00e2ncia dada \u00e0s entidades m\u00edsticas femininas, algumas como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Malintzin, La Llorona, Coatlicue, Malinche <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">e a virgem de Guadalupe, entre outras que foram estigmatizadas ou passaram por um processo de adapta\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Suas hist\u00f3rias remetem aos s\u00edmbolos da am\u00e9rica pr\u00e9-colombiana e entidades que est\u00e3o intrinsecamente relacionadas ao surgimento da cultura chicana.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A autora apresenta n\u00e3o s\u00f3 o contexto de forma\u00e7\u00e3o da fronteira, mas aponta a situa\u00e7\u00e3o de dupla viol\u00eancia que as mulheres fronteiri\u00e7as enfrentam diante da situa\u00e7\u00e3o em que se encontram. Anzald\u00faa busca demonstrar como se institui o dispositivo hier\u00e1rquico de poder e, como aponta Meloni (2012), essa colonialidade opera em tr\u00eas n\u00edveis: o poder econ\u00f4mico (pol\u00edtico), o saber epist\u00eamico, e produz o controle da sexualidade pela designa\u00e7\u00e3o de r\u00f3tulos para os g\u00eaneros. Assim realiza o que An\u00edbal Quijano (2005), Mignolo (2003) e os te\u00f3ricos do c\u00edrculo de debates do grupo \u201cModernidade\/Colonialidade\u201d chamaram posteriormente de colonialidade do poder, do saber e do ser.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Com a coloniza\u00e7\u00e3o espanhola no come\u00e7o do s\u00e9culo XVI, a terra <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u201cAztl\u00e1n\u201d<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, a terra sagrada asteca, foi dominada pelos europeus e a popula\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria drasticamente reduzida. S\u00e9culos depois, entre 1846-1848 a guerra entre M\u00e9xico e Estados Unidos provocou a perda de grande parte do territ\u00f3rio norte do M\u00e9xico para os Estados Unidos, e o tratado de Guadalupe Hidalgo celebrado em 1848 fez com que milhares de mexicanos e mexicanas se transformassem repentinamente cidad\u00e3os e cidad\u00e3s estadunidenses. Surge ent\u00e3o a fronteira, o \u201cterceiro espa\u00e7o\u201d, que, como conceituado por Bhabha (2007), projeta a no\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a cultural que se desenvolve no contexto hist\u00f3rico de lutas e resist\u00eancias.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">The U.S.-Mexican border <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">es una herida abierta<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> where the Third World grates against the first and bleeds. And before a scab forms it hemorrhages again, the lifeblood of two worlds merging to form a third country, a border culture.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">[A fronteira entre Estados Unidos e M\u00e9xico <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">es una herida abierta<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> onde o terceiro mundo \u00e9 arranhado pelo primeiro e sangra. E antes de que se forme uma crosta, volta a sangrar novamente, a for\u00e7a vital de dois mundos que se fundem para formar um terceiro pa\u00eds, uma cultura de fronteira. (Anzald\u00faa, 1987, p. 3, tradu\u00e7\u00e3o nossa)].<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A ferida aberta \u00e9 uma ferida colonial que produz e categoriza o sujeito subalterno e aponta, com uma linha divis\u00f3ria, os lugares que s\u00e3o ou n\u00e3o s\u00e3o seguros (Anzald\u00faa, 1987). S\u00e3o fronteiras que se estendem para al\u00e9m da geopol\u00edtica, pois acompanham seu povo e sua cultura. Num pa\u00eds em que a terra e o indiv\u00edduo mant\u00eam uma \u00edntima rela\u00e7\u00e3o de sobreviv\u00eancia, fixar limites \u00e9 separar o sujeito de seu lar, \u00e9 separ\u00e1-lo de sua pr\u00f3pria identidade. <\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>A mulher fronteiri\u00e7a<\/b><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ap\u00f3s destacar as tens\u00f5es que comp\u00f5em a hist\u00f3ria da fronteira M\u00e9xico-Estados Unidos, a autora volta sua an\u00e1lise para a mulher que habita esse local. Anzald\u00faa se concentra nas experi\u00eancias dessas mulheres em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho, \u00e0 cultura, \u00e0 fam\u00edlia e \u00e0 religiosidade. Sua investiga\u00e7\u00e3o deixa evidente a exist\u00eancia de pap\u00e9is pr\u00e9-definidos para cada grupo. Da mulher pobre \u00e0 professora universit\u00e1ria, cada uma vive dentro de um limite definido, conduzindo-nos \u00e0 cr\u00edtica de como organizamos as diferentes estruturas de poder a partir das diferentes experi\u00eancias. A autora consegue viver a experi\u00eancia de diversas culturas ao mesmo tempo e descrever o poder que existe em cada uma delas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">It&#8217;s an interesting path, one that continually slips in and out of the white, the Catholic, the Mexican, the indigenous, the instincts. (\u2026) It is a path of knowledge &#8211; one of knowing (and of learning) the history of oppression of our <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">raza<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. It is a way of balancing, at mitigating duality.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">[\u00c9 um caminho interessante, que continuamente desliza para dentro e para fora do branco, do cat\u00f3lico, do mexicano, do ind\u00edgena, dos instintos. (&#8230;) \u00c9 um caminho de conhecimento \u2013 de saber (e de aprender) a hist\u00f3ria de opress\u00e3o de nossa <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">raza<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. \u00c9 uma forma de equilibrar, de mitigar a dualidade]. (Anzald\u00faa, 1987, p. 19, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Como uma mulher fragmentada \u2014 pela l\u00edngua, cultura, g\u00eanero, classe social, cren\u00e7as, sexualidade \u2014 ela se insere em debates que envolvem a condi\u00e7\u00e3o da mulher que segue marcada por diferentes grupos sociais. A autora tem a legitimidade de apontar determinados aspectos de opress\u00e3o que n\u00e3o s\u00e3o facilmente detectados por outros sujeitos femininos. Quanto mais pr\u00f3xima est\u00e1 a mulher da fronteira, mais vis\u00edveis ficam as opress\u00f5es. Ela desarticula o conceito hegem\u00f4nico ocidental de \u201cmulher\u201d para apontar as diferen\u00e7as coloniais e experienciais que seguem estruturando identidades. A autora busca incluir n\u00e3o s\u00f3 a chicana em seus estudos, mas a partir de sua experi\u00eancia abranger outras mulheres que se identifiquem com o local de hibridez.<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400\">La mestiza<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> tem que se mover constantemente para fora das forma\u00e7\u00f5es cristalizadas \u2014 do h\u00e1bito; para fora do pensamento convergente, do racioc\u00ednio anal\u00edtico que tende a usar a racionalidade em dire\u00e7\u00e3o a um objetivo \u00fanico (um modo ocidental), para um pensamento divergente, caracterizado por um movimento que se afasta de padr\u00f5es e objetivos estabelecidos, rumo a uma perspectiva mais ampla, que inclui em vez de excluir. (Anzald\u00faa, 2005, p. 706).\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Neste sentido, a autora nos convida a repensar as diferen\u00e7as que se constroem dentro das bordas geogr\u00e1ficas, dos interc\u00e2mbios culturais. Encontrar caminhos para articular o tr\u00e2nsito de vozes e conhecimento.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A uma determinada altura, no nosso caminho rumo a uma nova consci\u00eancia, teremos que deixar a margem oposta, com o corte entre os dois combatentes mortais cicatrizado de alguma forma, a fim de que estejamos nas duas margens ao mesmo tempo e, ao mesmo tempo, enxergar tudo com olhos de serpente e de \u00e1guia. (Anzald\u00faa, 2005, p. 706).<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Sua finalidade \u00e9 propor o alargamento de nossa compreens\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s hist\u00f3rias que carregam os sujeitos femininos e as identidades que as integram para a formula\u00e7\u00e3o e edifica\u00e7\u00e3o dos saberes. Identidade que n\u00e3o \u00e9 branca, hisp\u00e2nica, negra, ind\u00edgena, mas heterog\u00eanea.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>A tomada de consci\u00eancia \u2013 nascimento da <\/b><b><i>New Mestiza<\/i><\/b><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ap\u00f3s levantar o debate sobre o significado da fronteira na geografia pol\u00edtica territorial e indicar a experi\u00eancia que comp\u00f5e a identidade da mulher fronteiri\u00e7a, Anzald\u00faa soma ao seu discurso o capital simb\u00f3lico que se encontra nas entidades culturais de seus antepassados. Para romper com as hegemonias do conhecimento do c\u00e2none ocidental, a autora revisita as hist\u00f3rias de seus ascendentes astecas que, depois da invas\u00e3o espanhola, compuseram uma identidade h\u00edbrida com tra\u00e7os mexicanos e espanh\u00f3is. Ser\u00e1 a partir deste momento que a leitura vai desvendando o processo que chamamos de \u201ctomada de consci\u00eancia\u201d, em que Anzald\u00faa (2005) percebe a necessidade de romper com as dualidades que aprisionam a identidade chicana ao ter que escolher entre uma ou outra cultura. O viver entre fronteiras \u00e9, segundo Anzald\u00faa (1987), uma batalha que nunca termina, que envolve a luta constante pela identidade cultural. A inquietude ps\u00edquica sempre est\u00e1 presente e sempre se depara com a mesma pergunta, \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">com o dilema das ra\u00e7as h\u00edbridas: a que coletividade pertence a filha de uma m\u00e3e de pele escura<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">?\u201d (Anzald\u00faa, 2005, p. 705).\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A \u201ctomada de consci\u00eancia\u201d, ou seja, o nascimento da identidade mesti\u00e7a, se torna poss\u00edvel pelas lentes da poesia. Anzald\u00faa assume a poesia como uma estrat\u00e9gia narrativa a fim de aproximar sua comunidade dos la\u00e7os que a mant\u00e9m enquanto povo mesti\u00e7o. Ela recorda (Anzald\u00faa, 1987, p. 63) o impacto que a poesia bil\u00edngue teve em sua comunidade em meados dos anos sessenta quando houve a publica\u00e7\u00e3o de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u201cI Am Joaqu\u00edn&#8221; <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">[Eu sou Joaqu\u00edn] de Rodolfo Gonzales. A poesia era uma exposi\u00e7\u00e3o do sentimento e afirma\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia vivida. Cada pessoa que a declamava, mesmo que individualmente, sentia as palavras se aproximarem do sentimento mais profundo que carregava. Para Anzald\u00faa, essa obra fez com que a popula\u00e7\u00e3o experimentasse pela primeira vez um sentimento de coletividade e de perten\u00e7a a uma comunidade. E este sentimento, o sentimento de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u201cLa raza unida<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d foi o nome que deu aporte para os movimentos chicanos que se intensificaram nos anos seguintes nos Estados Unidos. Entender o processo que conduz ao sentimento de uni\u00e3o de uma comunidade foi fundamental para que Anzald\u00faa pudesse encontrar na <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u201cNew Mestiza\u201d<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> uma identidade que expressasse o sentimento de estar na fronteira.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u201cNew Mestiza\u201d <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">nasce no envolvimento po\u00e9tico da natureza textual de sua narrativa e a autora nos transforma em c\u00famplices metaf\u00f3ricos\/as de seu surgimento. Frente a um espelho, num processo simbi\u00f3tico de ver a outra metade de si mesma, ela consegue observar o que comp\u00f5e a sua forma\u00e7\u00e3o cultural. Embalada pela poesia de suas palavras, a autora enxerga sua inf\u00e2ncia, o rosto de seus familiares, o passado de seu povo e a identifica\u00e7\u00e3o de sua alma \u00e0 ancestralidade que carrega.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">And there in the black, obsidian mirror of the Nahuas is yet another face, a stranger&#8217;s face. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Simult\u00e1neamente me miraba la cara desde distintos \u00e1ngulos. Y mi cara, como la realidad, ten\u00eda un car\u00e1cter multiplice<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">[E ali no espelho negro de obsidiana dos <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Nahuas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> existe mais um rosto, o rosto de uma estranha. Simultaneamente olhava para meu rosto de distintos \u00e2ngulos. E meu rosto, como a realidade, tinha um car\u00e1ter m\u00faltiplo] (Anzald\u00faa, 1987, p. 44, tradu\u00e7\u00e3o nossa).\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Inicia-se assim um processo metaforizado de \u201ctomada de consci\u00eancia\u201d, um di\u00e1logo com o s\u00edmbolo ambivalente, que n\u00e3o produz apenas imagens, mas proporciona a vis\u00e3o da pr\u00f3pria alma. Ela percebe o fosso entre dois mundos, um vazio que s\u00f3 pode ser preenchido com uma nova consci\u00eancia. E assim, ela realiza, num ato simb\u00f3lico de passagem, o despertar da consci\u00eancia da \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">New Mestiza<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">The gaping mouth slit heart from mind. Between the two eyes in her head, the tongueless magical eye and the loquacious rational eye, was la <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">rajadura<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, the abyss that not bridge could span. Separated, they could not visit each other and each was too far away to hear what the other was saying. Silence rose like a river and could not be held back, it flooded and drowned everything.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">[A boca aberta separou o cora\u00e7\u00e3o da mente. Entre os dois olhos em sua cabe\u00e7a, o olho m\u00e1gico sem l\u00edngua e o olho racional loquaz, estava <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">la rajadura<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, o abismo que nenhuma ponte poderia transpor. Separados, eles n\u00e3o podiam se visitar e cada um estava muito longe para ouvir o que o outro dizia. O sil\u00eancio cresceu como um rio e n\u00e3o p\u00f4de ser contido, inundou e afogou tudo]. (Anzald\u00faa, 1987, p. 45, tradu\u00e7\u00e3o nossa).\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Anzald\u00faa deixa que o poetizar de suas palavras alcance o que ela quer transmitir. Dois olhos que enxergam de formas diferentes: um desses olhos, sem a l\u00edngua que o especifique aos olhos ocidentais, como os chicanos e chicanas que utilizam diversos dialetos e diferentes l\u00ednguas para se comunicarem; o outro, o olho \u201cracional\u201d ocidentalizado, aquele que ocupa as categorias do conhecimento acad\u00eamico e cient\u00edfico. Est\u00e3o separados por uma rachadura que os mant\u00eam distantes. Condicionados ao sil\u00eancio, esse pode ser rompido com o nascimento de uma nova consci\u00eancia, a consci\u00eancia da <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u201cNew Mestiza\u201d<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Com ela podemos transpor fronteiras, construir pontes, gerar uma forma mais male\u00e1vel e rica de cultura, sem negar uma ou outra identidade. Ser h\u00edbrido, que nasce <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u201ca partir dessa \u201ctranspoliniza\u00e7\u00e3o\u201d<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> racial, ideol\u00f3gica, cultural e biol\u00f3gica\u201d (Anzald\u00faa, 2005, p. 704). Uma consci\u00eancia que est\u00e1 em constante forma\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o e que pretende reconstruir a hist\u00f3ria, equilibrar as culturas, renovar e ampliar as identidades.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/b><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>Obras de Gloria Anzald\u00faa<\/b><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Anzald\u00faa, G. E. (1987). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Borderlands\/La Frontera: The new mestiza<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. San Francisco: Aunt Lute Books.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400\">_________. <\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400\">et al <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(1984). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">This Bridge Called My Back, Writings by radical women of color<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. New York: Kitchen Table\/Women color press.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________.<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> (1990). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Making Face, Making Soul\/Haciendo Caras: Creative and Critical Perspectives by Feminists-of-Color<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. San Francisco: Aunt Lute Books.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________.<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> (2000). Falando em l\u00ednguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo. Tradu\u00e7\u00e3o: \u00c9dna M<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">. Revista Estudos Feministas.<\/span><\/i> <span style=\"font-weight: 400\">Florian\u00f3polis: UFSC, v.8, n. 1, p. 229-236.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________.<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> (2005). La consciencia de la mestiza\/Rumo a uma nova consci\u00eancia. Tradu\u00e7\u00e3o: Ana C. A. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Revista Estudos Feministas. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Florian\u00f3polis: UFSC, v. 13, n. 3, p. 704-719, set-dez.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________.<\/span><span style=\"font-weight: 400\">(2009). Como domar uma l\u00edngua selvagem: Gloria Anzald\u00faa. Tradu\u00e7\u00e3o: Joana P. P.; Karla S.; Viviane V. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Cadernos de Letras da UFF \u2013 Dossi\u00ea: difus\u00e3o da l\u00edngua portuguesa<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Niter\u00f3i, n. 39, p. 305-318, 2\u00ba sem.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________.<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> (2016). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Borderlands\/La Frontera: La nueva mestiza. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Tradu\u00e7\u00e3o: Carmen V. Madrid, Espa\u00f1a: Capit\u00e1n Swing libros.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________.<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> (2021). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A vulva \u00e9 uma ferida aberta e outros ensaios. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Tradu\u00e7\u00e3o: Tatiana N. Rio de Janeiro, Brasil: A bolha editora.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">BHABHA, H. K (2007). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O local da cultura.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Tradu\u00e7\u00e3o: Myriam \u00c1. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">et al<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. 4. reimp. Belo Horizonte: Ed. UFMG.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>Bibliografia secund\u00e1ria<\/b><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Alarcon, N (1984). Chicana Feminist Literature: A Re-Vision Through Malintzin\/or Malintzin: Putting the Flesh Back on the Object<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">In: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">This Bridge Called My Back, Writings by radical women of color<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Ed Cherr\u00ede Moraga and Gloria Anzald\u00faa, 182-189. New York: Kitchen Table\/Women color press.\u00a0 \u00a0 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Costa, C. L.; \u00c1vila, E. (2005). Gloria Anzald\u00faa, a consci\u00eancia mesti\u00e7a e o feminismo da diferen\u00e7a. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Revista Estudos Feministas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Florian\u00f3polis: Universidade Federal de Santa Catarina, v. 13, n\u00b0 3, p. 691-703.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________.<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> (2004). O sil\u00eancio da tradu\u00e7\u00e3o. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Revista Estudos Feministas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Florian\u00f3polis, n\u00b0 12, p. 13-14.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ikas, K. R. (2001). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Chicana Ways; Conversations with Ten Chicana Writers<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Reno, University, Nevada Press.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Meloni, C. (2012). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Las fronteras del feminismo: Teor\u00edas n\u00f3madas, mestizas y postmodernas. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Madrid, Espanha: Editora fundamentos.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mignolo, W. (2003). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Hist\u00f3rias locais\/Projetos Globais; Colonialidades, saberes subalternos e pensamento liminar.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Tradu\u00e7\u00e3o: Solange R. O. Belo Horizonte: Editora UFMG.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Moraga, C. (1993). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Last Generation: Prose end Poetry.<\/span><\/i> <span style=\"font-weight: 400\">Boston: South end Press.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________.<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> (1993). Queer Aztl\u00e1n: The Re-Formation of Chicano Tribe. In: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Last Generation: Prose and Poetry.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Boston: South End Press, p. 145-174.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mohanty, C. T. (2020). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Sob olhos ocidentais. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Tradu\u00e7\u00e3o: Ana B. Rio de Janeiro: Zazie Edi\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_________.<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> (2003). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Feminism without borders: decolonizing theory, practicing solidarity<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Durham: Duke University Press.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Palacio, M. (2020). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Gloria Anzald\u00faa: Poscolonialidad y feminism. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Barcelona, Espanha: Gedisa editorial.<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">[Vers\u00e3o Kindle]. e-ISBN: 978-84-18193-01-9.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Quijano, A. (2005). Colonialidad del poder, eurocentrismo y America latina. In: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A colonialidade do saber: eurocentrismo e ci\u00cdncias sociais. Perspectivas latinoamericanas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Edgardo Lander (org) Colecci\u00f3n Sur. Buenos Aires, Argentina: CLACSO. p. 107-126.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Sandoval, C. (2004). Nuevas ciencias: feminismo cyborg y metodologia de los oprimidos. In: HOOKS, b.; BRAH, A.; SANDOVAL, C.; ANZALD\u00daA, G.; <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">et al.<\/span><\/i> <i><span style=\"font-weight: 400\">Otras inapropiables: feminismos desde las fronteras.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Espanha, Madrid: Editora Traficantes de Sue\u00f1os, p. 81-106.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":360,"featured_media":0,"parent":23,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","inline_featured_image":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"class_list":["post-1685","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1685","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/360"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1685"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1685\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1698,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1685\/revisions\/1698"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/23"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1685"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}