{"id":1793,"date":"2023-08-08T15:56:03","date_gmt":"2023-08-08T18:56:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/?page_id=1793"},"modified":"2023-08-08T15:56:04","modified_gmt":"2023-08-08T18:56:04","slug":"heloisa-de-argenteuil","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/heloisa-de-argenteuil\/","title":{"rendered":"Helo\u00edsa de Argenteuil"},"content":{"rendered":"\n\n\n<p style=\"text-align: center\"><b>Helo\u00edsa de Argenteuil<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><span style=\"font-weight: 400\">(1090? &#8211; 1164)<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">por Roberta Miquelanti, professora\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">da Universidade Federal da Bahia &#8211; <\/span><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/0772819258616488\"><span style=\"font-weight: 400\">Lattes<\/span><\/a><\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/08\/Heloisa-de-Argenteuil-PDF.docx.pdf\">Helo\u00edsa de Argenteuil &#8211; PDF<\/a><\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"mceTemp\">\u00a0<\/p><figure id=\"attachment_1794\" aria-describedby=\"caption-attachment-1794\" style=\"width: 475px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1794\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/08\/unnamed-1.jpg\" alt=\"\" width=\"475\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/08\/unnamed-1.jpg 475w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/08\/unnamed-1-297x300.jpg 297w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/08\/unnamed-1-24x24.jpg 24w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/08\/unnamed-1-48x48.jpg 48w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/08\/unnamed-1-96x96.jpg 96w\" sizes=\"(max-width: 475px) 100vw, 475px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1794\" class=\"wp-caption-text\">Ang\u00e9lica Kaufmann, Abelardo e Helo\u00edsa surpreendidos pelo c\u00f4nego Fulberto, \u00f3leo sobre tela, 1778. Burghley House, Lincolnshire.<\/figcaption><\/figure><p><b>Vida<\/b><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Helo\u00edsa de Argenteuil \u00e9 conhecida principalmente pelo seu relacionamento amoroso com Pedro Abelardo. Mas al\u00e9m de uma tr\u00e1gica hist\u00f3ria de amor, a hist\u00f3ria dos dois amantes \u00e9 tamb\u00e9m a hist\u00f3ria de uma troca intelectual, um testemunho das tens\u00f5es entre os ideais de vida filos\u00f3fico e religioso na sociedade do s\u00e9culo XII. Nas correspond\u00eancias trocadas com Abelardo, podemos reconhecer na voz de Helo\u00edsa de Argenteuil o eco de uma reflex\u00e3o sofisticada, que expressa com erudi\u00e7\u00e3o, clareza e eloqu\u00eancia ideias acerca da vida filos\u00f3fica, o amor, o casamento e a natureza da virtude.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Helo\u00edsa de Argenteuil nasceu na Fran\u00e7a, por volta de 1090. Filha de Hersende, pertencente a uma fam\u00edlia nobre da regi\u00e3o de Paris. Ela foi inicialmente educada no Convento de Argenteuil, onde recebeu uma forma\u00e7\u00e3o padr\u00e3o para sua \u00e9poca, baseada nas artes do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Trivium<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e nas <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Sagradas Escrituras<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">.\u00a0 Ela continua sua instru\u00e7\u00e3o sob os cuidados do seu tio, Fulberto, c\u00f4nego de Notre-Dame, que, encantado pelos talentos excepcionais e zelo ao estudo demonstrados pela sobrinha, incentiva a continua\u00e7\u00e3o dos seus estudos. Al\u00e9m de conhecer obras cl\u00e1ssicas da filosofia, incluindo autores como S\u00eaneca, Ov\u00eddio e C\u00edcero, e da teologia, ela tamb\u00e9m conhecia latim, grego e hebraico, habilidades pouco comuns para mulheres naquela \u00e9poca. Aos dezesseis anos, j\u00e1 era conhecida como uma das mulheres mais eruditas da Fran\u00e7a.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O desenrolar de sua hist\u00f3ria \u00e9 ditado pelo seu encontro com Pedro Abelardo (1079-1142), um dos mestres de l\u00f3gica mais c\u00e9lebres do per\u00edodo. Por volta de 1115, Fulberto contrata Abelardo para ser tutor particular de Helo\u00edsa de Argenteuil e eles passam a viver na mesma casa. Os estudos logo d\u00e3o lugar \u00e0 paix\u00e3o e os dois amantes passam a manter um relacionamento secreto, que, ao ser descoberto por Fulberto, os leva a se separarem momentaneamente. A separa\u00e7\u00e3o s\u00f3 torna a paix\u00e3o mais forte, e os dois amantes continuam se encontrando furtivamente. Pouco tempo depois, ela descobre que est\u00e1 gr\u00e1vida. Em uma noite, Abelardo rapta Helo\u00edsa de Argenteuil da casa do tio e a envia, disfar\u00e7ada de religiosa, \u00e0 Bretanha, onde vive uma das irm\u00e3s de Abelardo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ap\u00f3s o nascimento do filho, Astrol\u00e1bio, Abelardo retorna \u00e0 Paris. Como forma de reparar a honra da fam\u00edlia Helo\u00edsa de Argenteuil e aplacar a ira de Fulberto ap\u00f3s o esc\u00e2ndalo gerado pela hist\u00f3ria, ele decide se casar com ela. Ela n\u00e3o \u00e9 favor\u00e1vel ao casamento, argumentando que este iria manchar o prest\u00edgio de Abelardo, mas acaba cedendo. Helo\u00edsa deixa o filho sob os cuidados da fam\u00edlia de Abelardo e retorna \u00e0 casa do tio, em Paris. Ap\u00f3s celebrado o casamento, que \u00e9 mantido em segredo, os dois esposos passam a levar vidas separadas e discretas. Fulberto, humilhado pela situa\u00e7\u00e3o, torna o casamento p\u00fablico, e passa a maltratar a sobrinha, que continua negando o v\u00ednculo em diversas ocasi\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Abelardo a envia ent\u00e3o para o convento de Argenteuil, o mesmo no qual ela havia sido educada. Fulberto sente-se mais uma vez tra\u00eddo pelos amantes e, para se vingar, manda castrar Abelardo. Depois deste tr\u00e1gico acontecimento, Helo\u00edsa de Argenteuil, sob as ordens de Abelardo, toma o v\u00e9u em Argenteuil, e Abelardo se recolhe ao convento de Saint-Denis, onde se torna monge. A partir do momento em que fazem os votos, por volta de 1118, Helo\u00edsa de Argenteuil e Abelardo passam a levar vidas separadas e dedicadas \u00e0 religi\u00e3o, voltando a se comunicar mais de uma d\u00e9cada ap\u00f3s os acontecimentos, atrav\u00e9s de cartas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em 1129, o Abade de Saint-Denis, Suger, expulsa as freiras do convento de Argenteuil, alegando que o convento pertencia \u00e0 Saint-Denis. Com a ajuda de Abelardo, as freiras se instalam no Paracleto, monast\u00e9rio fundado pelo pr\u00f3prio Abelardo perto de Troyes, e estabelecem ali uma nova comunidade. Helo\u00edsa de Argenteuil assume a dire\u00e7\u00e3o do convento de Paracleto, do qual se torna abadessa, e o dirige at\u00e9 o final da sua vida. Registros da \u00e9poca indicam que ela obteve muito \u00eaxito no comando do Paracleto, obtendo a prote\u00e7\u00e3o e ajuda de autoridades importantes do per\u00edodo. Sob sua dire\u00e7\u00e3o, o Paracleto torna-se um centro de aprendizado e cultura, onde as mulheres podiam se dedicar aos estudos e ao debate intelectual. Ap\u00f3s sua morte, em 11 de maio de 1164, Helo\u00edsa \u00e9 enterrada no Paracleto, juntamente ao t\u00famulo de Abelardo, at\u00e9 a remo\u00e7\u00e3o dos restos mortais dos amantes, em 1817, para o cemit\u00e9rio P\u00e8re-Lachaise, em Paris, onde encontram-se ainda hoje.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O que conhecemos dos escritos de Helo\u00edsa de Argenteuil \u00e9, basicamente, um conjunto de cinco correspond\u00eancias, entre as quais quatro cartas trocadas com Pedro Abelardo, uma delas contendo o conjunto de quest\u00f5es conhecido como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Problemata<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, e uma carta dirigida a Pedro, o Vener\u00e1vel. Todas as cartas datam do per\u00edodo mon\u00e1stico de sua vida. As duas primeiras cartas trocadas com Abelardo t\u00eam car\u00e1ter pessoal e mostram n\u00e3o s\u00f3 a profundidade e a intensidade do amor de Helo\u00edsa, mas tamb\u00e9m seu lamento com a separa\u00e7\u00e3o de Abelardo e a nova condi\u00e7\u00e3o de vida que lhe foi imposta. J\u00e1 as \u00faltimas cartas dirigidas a Abelardo indicam um redirecionamento tem\u00e1tico, tratando principalmente de quest\u00f5es ligadas \u00e0 vida mon\u00e1stica e religiosa.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>Contexto hist\u00f3rico-cultural<\/b><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Helo\u00edsa de Argenteuil e Pedro Abelardo viveram no s\u00e9culo XII, tamb\u00e9m conhecido como s\u00e9culo do renascimento cultural, marcado pela renova\u00e7\u00e3o da vida urbana, do com\u00e9rcio, pelo ressurgimento de centros urbanos de ensino e nascimento das primeiras universidades. Nesse contexto, a educa\u00e7\u00e3o formal \u00e9 reservada aos homens. As mulheres t\u00eam pouco acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, limitada aos conventos femininos ou ao ensino privado. Helo\u00edsa \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o para a \u00e9poca n\u00e3o s\u00f3 como uma mulher educada, mas pelo seu n\u00edvel de erudi\u00e7\u00e3o.\u00a0 Segundo testemunhos da \u00e9poca, ela teria se demarcado n\u00e3o somente por suas habilidades intelectuais, mas pela sua vontade em perseguir os estudos, mesmo em Teologia, numa \u00e9poca em que as mulheres de sua idade eram destinadas a se casar. Ap\u00f3s receber uma educa\u00e7\u00e3o segundo os padr\u00f5es da \u00e9poca no convento de Argenteuil, Helo\u00edsa continua seus estudos incentivada por Fulberto. Assim, antes mesmo de se tornar aluna de Abelardo, ela j\u00e1 seria versada em diversas l\u00ednguas e obras filos\u00f3ficas e teol\u00f3gicas, o que nos permite mesmo levantar a quest\u00e3o do seu papel como mera aluna de Abelardo, colocando em relevo sua contribui\u00e7\u00e3o ativa no desenvolvimento intelectual do seu mestre.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mas o s\u00e9culo XII tamb\u00e9m \u00e9 marcado por conflitos entre as autoridades eclesi\u00e1sticas e as novas classes seculares. Estes elementos tamb\u00e9m s\u00e3o essenciais na compreens\u00e3o do relacionamento de Helo\u00edsa de Argenteuil e Pedro Abelardo, no que diz respeito ao casamento. Num contexto de mudan\u00e7as sociais e culturais, o celibato dos cl\u00e9rigos parece ter se tornando uma quest\u00e3o de debate, em um ambiente em que as autoridades eclesi\u00e1sticas buscavam impor regras \u00e0 comunidade clerical e ao comportamento de homens e mulheres. Ainda que nesse per\u00edodo n\u00e3o houvesse interdi\u00e7\u00e3o formal do casamento aos cl\u00e9rigos, eles tinham entre as suas obriga\u00e7\u00f5es manter a castidade, o que tornaria a vida clerical incompat\u00edvel com o matrim\u00f4nio. Na \u00e9poca dos fatos, Abelardo ocupava a condi\u00e7\u00e3o de cl\u00e9rigo, uma posi\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica inferior na qual se encontrava grande parte dos mestres de filosofia que se dedicavam ao estudo e ao ensino. Assim, a vontade de Abelardo em manter o segredo do casamento precisa ser entendida nesse contexto. Uma das poss\u00edveis raz\u00f5es seria que o casamento levaria Abelardo a perder o seu prest\u00edgio enquanto mestre, ou mesmo sua posi\u00e7\u00e3o, o que implicaria em perder o direito de ensinar. Mas como o casamento n\u00e3o parecia ser expressamente proibido para os cl\u00e9rigos da \u00e9poca, outra hip\u00f3tese \u00e9 que ele seria visto como um sinal de decad\u00eancia moral, o cl\u00e9rigo sendo incapaz de manter sua contin\u00eancia (Gilson, 2007, pp. 36-47). Al\u00e9m disso, o casamento n\u00e3o \u00e9 visto, nesse per\u00edodo, como o resultado de um la\u00e7o de amor. O casamento \u00e9 um contrato, que imp\u00f5e obriga\u00e7\u00f5es m\u00fatuas entre marido e esposa. Nas <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Cartas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Helo\u00edsa de Argenteuil demonstra ci\u00eancia dessas imposi\u00e7\u00f5es, que aparecem como uma das raz\u00f5es que a levam a n\u00e3o querer contrair o matrim\u00f4nio, j\u00e1 que este implicaria deveres de uma vida pr\u00e1tica incompat\u00edveis com as exig\u00eancias da vida clerical e de estudos de Abelardo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>As <\/b><b><i>Cartas\u00a0<\/i><\/b><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Helo\u00edsa de Argenteuil e Pedro Abelardo trocaram uma s\u00e9rie de cartas que se tornaram parte da hist\u00f3ria liter\u00e1ria e cuja autenticidade foi intensamente questionada, tornando a quest\u00e3o, nas palavras de Marenbon, uma das maiores controv\u00e9rsias nos estudos medievais (2000, p. 19). Alguns estudiosos consideram que o conjunto de cartas n\u00e3o \u00e9 aut\u00eantico, e teria sido forjado como uma obra ficcional por algum autor do s\u00e9culo XIII, tendo como base a hist\u00f3ria real dos dois amantes. Jean de Meun, autor de uma das principais obras liter\u00e1rias do s\u00e9culo XIII, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O Romance de Ros<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">a, e primeiro tradutor das cartas para o franc\u00eas, \u00e9 apontado como o verdadeiro autor da correspond\u00eancia. Outros consideram que as cartas s\u00e3o aut\u00eanticas, mesmo admitindo que tenham sido reunidas, organizadas e modificadas por algum autor posterior. Ainda entre aqueles que consideram que as cartas s\u00e3o aut\u00eanticas, alguns levantam a hip\u00f3tese de que elas teriam sido compostas apenas por Abelardo (Dronke,1992; Marenbon, 2000). Atualmente, a interpreta\u00e7\u00e3o que prevalece \u00e9 a de que as cartas s\u00e3o aut\u00eanticas, e ainda que tenham sido reunidas e organizadas por um autor posterior, as obras possuem uma forte coer\u00eancia interna, indicando que foram escritas por dois autores diferentes: Helo\u00edsa de Argenteuil e Pedro Abelardo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Al\u00e9m disso, muitos questionamentos sobre a autenticidade tamb\u00e9m levam em considera\u00e7\u00e3o o conte\u00fado das cartas. Deve-se notar que o <\/span><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/elisabeth-da-bohemia-epistolografia\/\"><span style=\"font-weight: 400\">g\u00eanero epistolar<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\"> era um g\u00eanero liter\u00e1rio comum na \u00e9poca e que, de maneira geral, as cartas tinham car\u00e1ter p\u00fablico. Assim, eram meios pelos quais se fazia a comunica\u00e7\u00e3o de senten\u00e7as, exposi\u00e7\u00e3o de ideias, mas elas tamb\u00e9m podiam ser usadas para apresentar a vis\u00e3o subjetiva do autor sobre determinado assunto. Esse car\u00e1ter p\u00fablico das cartas tamb\u00e9m deve ser considerado ao se avaliar a inten\u00e7\u00e3o do autor no relato dos fatos. Por exemplo, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A Hist\u00f3ria das Minhas Calamidades<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, \u00e9 muitas vezes lida como a apresenta\u00e7\u00e3o de uma autodefesa de Abelardo face aos acontecimentos tr\u00e1gicos de sua vida. J\u00e1 as cartas, tomadas em seu conjunto, visariam apresentar um modelo de convers\u00e3o \u00e0 vida religiosa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A correspond\u00eancia entre Helo\u00edsa de Argenteuil e Pedro Abelardo foi trocada por volta dos anos 1132-1137 (?) e \u00e9 composta pelas seguintes cartas (com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 numera\u00e7\u00e3o das <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Cartas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, seguimos a numera\u00e7\u00e3o da edi\u00e7\u00e3o latina da obra de Pedro de Abelardo de Migne, PL 178):<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">-Carta I: de Abelardo a um amigo (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Hist\u00f3ria das minhas Calamidades<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">);<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">-Carta II: de Helo\u00edsa a Abelardo;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">-Carta III: de Abelardo a Helo\u00edsa;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">-Carta IV: de Helo\u00edsa a Abelardo;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">-Carta V: de Abelardo a Helo\u00edsa;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">-Carta VI: de Helo\u00edsa a Abelardo;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">-Carta VII: de Abelardo a Helo\u00edsa \u2013 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Sobre a origem da vida religiosa;<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">-Carta VIII: de Abelardo a Helo\u00edsa \u2013 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Regras<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O conjunto de cartas n\u00e3o forma uma unidade tem\u00e1tica. As primeiras cartas envolvem relatos mais subjetivos, enquanto as duas \u00faltimas cartas de Abelardo, compostas a pedido de Helo\u00edsa, t\u00eam car\u00e1ter impessoal e dizem respeito a quest\u00f5es sobre a vida religiosa e a administra\u00e7\u00e3o do Paracleto: a <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Carta VII<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> trata da origem da vida religiosa das freiras, enquanto a <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Carta VIII, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">conhecida como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Regra <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Regula<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">), constitui uma regra para a vida das religiosas do Paracleto.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">As cartas II, IV e VI, escritas por Helo\u00edsa, encontram-se preservadas em sete dos nove manuscritos que conservam a correspond\u00eancia, al\u00e9m de constar na tradu\u00e7\u00e3o francesa feita por Jean de Meun, no s\u00e9culo XIII (cf. Dronke, 1984, p. 108). Muito se debateu sobre a atribui\u00e7\u00e3o da autoria dessas cartas a Helo\u00edsa de Argenteuil. Em parte, essa suspeita fundamenta-se no preconceito que coloca em xeque a possibilidade de que um relato com tal n\u00edvel de erudi\u00e7\u00e3o possa ter sido escrito por uma mulher. No entanto, como apontam diversos testemunhos da \u00e9poca, tal escrita condiz com as aptid\u00f5es atribu\u00eddas a Helo\u00edsa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Al\u00e9m do debate estabelecido nas cartas, tamb\u00e9m conhecemos uma s\u00e9rie de quest\u00f5es propostas por Helo\u00edsa a Abelardo acerca de passagens problem\u00e1ticas das <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Sagradas Escrituras<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> na obra que ficou conhecida como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Problemata Heloissae <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">[<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Os Problemas de Helo\u00edsa<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">]. Essa obra foi conservada em um \u00fanico manuscrito copiado por volta de 1400, e \u00e9 composta por quarenta e duas quest\u00f5es colocadas por por ela, seguidas pelas respostas de Abelardo. A obra \u00e9 precedida por uma carta introdut\u00f3ria em que ela apresenta uma analogia entre as quest\u00f5es que prop\u00f5e a Abelardo e as cartas trocadas entre Marcela e S\u00e3o Jer\u00f4nimo, que dirigiu Marcela no estudo das <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Escrituras<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Assim, ela cobra a d\u00edvida que Abelardo tem com ela e as freiras sob sua dire\u00e7\u00e3o, \u00e0s quais deve o direcionamento espiritual.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">De Helo\u00edsa de Argenteuil temos ainda uma carta dirigida a Pedro, o Vener\u00e1vel, abade de Cluny (1092-1156), em que ela pede que ele lhe envie uma carta selada contendo a absolvi\u00e7\u00e3o de Abelardo, que provavelmente seria colocada em seu t\u00famulo, al\u00e9m da ajuda para conseguir uma prebenda para seu filho, Astrol\u00e1bio. Essa carta \u00e9 seguida por uma nova resposta do abade de Cluny, que promete ajud\u00e1-la como poss\u00edvel com o filho, que posteriormente parece ter obtido uma posi\u00e7\u00e3o como C\u00f4nego de Nantes, e \u00e9 complementada com a carta selada de absolvi\u00e7\u00e3o de Abelardo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0Acrescenta-se a esse <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">corpus<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> um outro conjunto de cartas an\u00f4nimas que teriam sido trocadas entre dois amantes no s\u00e9culo XII, na Fran\u00e7a. Um dos interlocutores \u00e9 um homem, descrito como o mestre mais brilhante da Fran\u00e7a e, o outro, uma mulher, jovem aluna. Tratar-se-ia das cartas de amor perdidas de Pedro Abelardo e Helo\u00edsa de Argenteuil, trocadas durante a juventude, \u00e0s quais os amantes fazem alus\u00e3o nas <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Cartas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. O texto foi encontrado em apenas um manuscrito copiado por Johannes de Vepria, bibliotec\u00e1rio da Abadia de Claraval, no final do s\u00e9culo XV, que deu ao conjunto o t\u00edtulo de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Ex epistolis duorum amantium<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Cartas de Dois Amantes<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">]. Os dois autores n\u00e3o se identificam pelo nome, e o bibliotec\u00e1rio indica \u00e0 margem do texto a interven\u00e7\u00e3o da mulher pela inicial M (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">mulier<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">) e do homem pela inicial V (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">vir<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">). O texto foi editado e publicado apenas em 1974, por Ewald K\u00f6nsgen. Tais cartas se distinguiriam de outras correspond\u00eancias da \u00e9poca pelo car\u00e1ter \u00edntimo da correspond\u00eancia, em que o homem se engaja explicitamente na conquista da jovem mulher e na exposi\u00e7\u00e3o de suas exig\u00eancias afetivas, face \u00e0 jovem que op\u00f5e inicialmente resist\u00eancia. Os amantes ainda discutem quest\u00f5es sobre a natureza do amor, problem\u00e1tica que encontramos nos escritos posteriores de Helo\u00edsa. A controv\u00e9rsia com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 autenticidade desse conjunto de cartas continua em aberto, ainda que estudos importantes, como de Mews (1999), defendam sua atribui\u00e7\u00e3o a Helo\u00edsa de Argenteuil e Abelardo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>Temas filos\u00f3ficos nas <\/b><b><i>Cartas<\/i><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">As cartas de Helo\u00edsa de Argenteuil demonstram originalidade na maneira de abordar quest\u00f5es filos\u00f3ficas do ponto de vista feminino. Al\u00e9m disso, a escrita da fil\u00f3sofa exprime habilidade com a linguagem e desenvoltura na utiliza\u00e7\u00e3o das fontes antigas, as quais s\u00e3o constantemente mobilizadas nos seus argumentos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A primeira carta escrita por Helo\u00edsa \u00e9 motivada pela leitura da carta de Abelardo ao amigo an\u00f4nimo (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Carta I<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, mais conhecida como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Hist\u00f3ria das minhas calamidades<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">). A carta se inicia com uma s\u00e9rie de s\u00faplicas de Helo\u00edsa para que Abelardo tamb\u00e9m se dirija a ela, ao mesmo tempo que exp\u00f5e a sua pr\u00f3pria vers\u00e3o dos fatos. Ela desafia a narrativa feita por Abelardo, mostrando que os dois tinham posturas diferentes em rela\u00e7\u00e3o ao amor. Enquanto Abelardo fala do amor como uma paix\u00e3o avassaladora, ela parte de um ideal ciceroniano de amor como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">dilectio<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, um amor livre e desinteressado. Ela ressalta em diversos momentos que seu amor por Abelardo n\u00e3o tem como objeto sua fama ou fortuna, mas que ela ama Abelardo por si mesmo. Esse ideal de amor desinteressado tamb\u00e9m impulsiona sua posi\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria ao casamento.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O casamento proposto por Abelardo \u00e9 ancorado em uma conven\u00e7\u00e3o social e \u00e9 uma maneira de restabelecer a honra da fam\u00edlia de Helo\u00edsa de Argenteuil frente ao esc\u00e2ndalo que o relacionamento causou na sociedade da \u00e9poca. J\u00e1 a vis\u00e3o de Helo\u00edsa est\u00e1 ancorada na oposi\u00e7\u00e3o entre o modo de vida clerical e filos\u00f3fico e o modo de vida conjugal. Do \u00faltimo, decorre uma s\u00e9rie de inconvenientes da vida pr\u00e1tica, como cuidar da casa e dos filhos, e que s\u00e3o incompat\u00edveis com as exig\u00eancias do estudo. A autora recorre a uma s\u00e9rie de exemplos retirados de autoridades eclesi\u00e1sticas, como S\u00e3o Jer\u00f4nimo e fil\u00f3sofos antigos, para justificar o celibato como modo de vida ideal do cl\u00e9rigo que, em sua \u00e9poca, representava o ideal do fil\u00f3sofo antigo. Ela prefere que Abelardo mantenha sua gl\u00f3ria enquanto cl\u00e9rigo do que v\u00ea-lo desonrado pelo casamento, que representaria, aos olhos dela \u201cuma verdadeira ignom\u00ednia e uma carga onerosa\u201d (2008, p. 117). Ela diz que preferiria, assim, o t\u00edtulo de amante ao de esposa, preferindo manter um v\u00ednculo de amor desinteressado com Abelardo do que v\u00ea-lo preso a ela por um la\u00e7o matrimonial. Ainda assim, ela acaba consentindo com o casamento. Mas uma vez contra\u00eddo o v\u00ednculo, que, por sua vez, \u00e9 seguido pela castra\u00e7\u00e3o de Abelardo, o que vemos na sequ\u00eancia das cartas \u00e9 a den\u00fancia de Helo\u00edsa de que Abelardo n\u00e3o a amava da mesma forma que ela o amava. Ela se mostra triste com a mudan\u00e7a de atitude e neglig\u00eancia de Abelardo ap\u00f3s sua entrada na vida religiosa, se comparada \u00e0 intensidade de amor descritas pelo amante no passado, e op\u00f5e a esse quadro o seu amor desinteressado. Nesse ponto, Helo\u00edsa de Argenteuil toca em um dos conceitos centrais pelos quais \u00e9 conhecida a \u00e9tica de Abelardo: a no\u00e7\u00e3o de inten\u00e7\u00e3o (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">intentio)<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, segundo a qual o que conta na qualifica\u00e7\u00e3o de uma a\u00e7\u00e3o moral n\u00e3o \u00e9 o ato em si, mas a inten\u00e7\u00e3o do agente. N\u00e3o sabemos se Helo\u00edsa teve acesso \u00e0 respectiva obra de Abelardo, mas seu relato cont\u00e9m no\u00e7\u00f5es desenvolvidas nessa obra. Se o que conta \u00e9 a inten\u00e7\u00e3o na determina\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o tudo o que Helo\u00edsa fez foi com boa inten\u00e7\u00e3o, ainda que envolvendo a\u00e7\u00f5es pecaminosas. Por isso, ainda que culpada, ela se considera inocente. Ela acusa, no entanto, Abelardo, que visaria na rela\u00e7\u00e3o apenas os prazeres carnais. No restante da carta, ao cobrar de Abelardo que se dirija a ela com mais frequ\u00eancia, Helo\u00edsa quer n\u00e3o s\u00f3 resgatar o ideal de amor enquanto <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">dilectio<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, mas, principalmente, estabelecer a coer\u00eancia no comportamento moral de Abelardo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A segunda carta escrita por Helo\u00edsa de Argenteuil come\u00e7a demonstrando preocupa\u00e7\u00e3o pela vida de Abelardo que, durante o per\u00edodo como abade no Convento de Saint-Gildas, sofre diversas tentativas de assassinato pelos monges locais. Mas logo a narrativa ganha um car\u00e1ter mais psicol\u00f3gico e o relato ganha forma de autoan\u00e1lise. Inicialmente, ela se coloca como a fonte dos infort\u00fanios de Abelardo, e se inscreve numa s\u00e9rie de refer\u00eancias a mulheres das <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Sagradas Escritura<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">s que tamb\u00e9m causaram a queda de homens. Como na primeira carta, ela deixa claro que, se ela \u00e9 a causa dos sofrimentos de Abelardo, n\u00e3o \u00e9 com inten\u00e7\u00e3o: ela \u00e9 inocente.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Por um lado, ela considera que a puni\u00e7\u00e3o de Deus aos amantes \u00e9 justa, pois pune, na sua vis\u00e3o, os pecados cometidos visando o prazer, mas tamb\u00e9m o v\u00ednculo institu\u00eddo com o casamento:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cCom efeito, enquanto goz\u00e1vamos dos prazeres de um amor inquieto e, para usar um termo mais vergonhoso, mas mais expressivo, nos entreg\u00e1vamos \u00e0 fornica\u00e7\u00e3o, a severidade divina perdoou-nos. Mas logo que legitimamos esses amores ileg\u00edtimos e cobrimos com a dignidade conjugal a ignom\u00ednia da fornica\u00e7\u00e3o, a ira do Senhor abateu pesadamente a sua m\u00e3o sobre n\u00f3s e o nosso leito imaculado n\u00e3o encontrou favor diante daquele que outrora tinha tolerado um leito manchado\u201d <\/span><span style=\"font-weight: 400\">(Argenteuil, 2008, p. 241).<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Por outro lado, ela n\u00e3o demonstra arrependimento com rela\u00e7\u00e3o aos prazeres experimentados e, ainda que tenha cedido ao pedido de Abelardo, e muitas vezes mesmo em rela\u00e7\u00e3o aos prazeres sexuais, ela n\u00e3o consentiu com o casamento. Ela tamb\u00e9m deixa claro, como na primeira carta, que sua entrada na vida religiosa foi apenas para obedecer \u00e0 ordem de Abelardo, e n\u00e3o por devo\u00e7\u00e3o a Deus. No que se segue, ela exp\u00f5e seu conflito interior, denunciando a hipocrisia da sua situa\u00e7\u00e3o: apesar de ser vista como piedosa pelo mundo exterior e pelo pr\u00f3prio Abelardo, ela \u00e9, interiormente, incapaz de esquecer as vol\u00fapias do passado, e continua as desejando novamente nos mais diferentes momentos, mesmo durante o sono ou a celebra\u00e7\u00e3o da missa:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cQuanto aos prazeres dos amantes a que ambos nos entrega\u0301vamos, devo confessar que foram para mim ta\u0303o doces que nem me desagradam, nem da minha memo\u0301ria ha\u0301 meio de se varrerem. Para onde quer que me vire, saltam-me sempre aos olhos com seus desejos. Nem durante o sono essas fantasias me deixam em paz. Mesmo durante as solenidades da missa, precisamente quando a orac\u0327a\u0303o deve ser mais pura, as obscenas imagens dessas volu\u0301pias assaltam ta\u0303o profundamente a minha pobre alma que estou mais ocupada com essas torpezas do que com a orac\u0327a\u0303o. Devia gemer com as faltas cometidas, suspiro antes pelas que na\u0303o pude cometer. [&#8230;] Proclamam a minha castidade aqueles que na\u0303o conhecem a minha hipocrisia. Consideram uma virtude a pureza da carne, quando a virtude na\u0303o e\u0301 uma questa\u0303o do corpo, mas do espi\u0301rito\u201d (Argenteuil, 2008, pp. 247-249).\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ela recusa, assim, o r\u00f3tulo de piedade atribu\u00eddo a ela por Abelardo, expondo, de maneira exemplar, o conflito entre interior e exterior, e mostrando que as condi\u00e7\u00f5es para a virtude devem ser buscadas na inten\u00e7\u00e3o do sujeito, apontando, assim, para uma interioriza\u00e7\u00e3o da moral.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A partir da terceira carta, ela muda o tom de escrita. Tal movimento \u00e9 resultado da frieza da \u00faltima resposta de Abelardo. Ele refor\u00e7a a liga\u00e7\u00e3o com Helo\u00edsa em termos espirituais, referindo-se a ela como a esposa de Cristo. Abelardo tamb\u00e9m se refere \u00e0 sua castra\u00e7\u00e3o como um bem, que o livrou das tenta\u00e7\u00f5es da carne, expressando seu contentamento com a vida mon\u00e1stica. E a despeito das confiss\u00f5es de Helo\u00edsa, Abelardo a toma como suficientemente s\u00e1bia e virtuosa para resistir \u00e0s tenta\u00e7\u00f5es. Ela parece atender ao pedido de Abelardo. Cessa os seus lamentos e pede a Abelardo conselho espiritual, de forma que sua escrita ganha um car\u00e1ter instrumental. Os temas discutidos a partir da\u00ed tratam dos problemas encontrados na vida mon\u00e1stica e na leitura das <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Escrituras<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, e a preocupa\u00e7\u00e3o de Helo\u00edsa de Argenteuil se volta ent\u00e3o \u00e0s necessidades da comunidade feminina que est\u00e1 sob sua dire\u00e7\u00e3o. Assim, ela pede que Abelardo a instrua sobre quest\u00f5es como a origem e natureza da vida mon\u00e1stica de freiras e que escreva uma regra adaptada \u00e0s mulheres, o que Abelardo atende nas duas cartas seguintes. As regras mon\u00e1sticas do per\u00edodo prescreviam pr\u00e1ticas que levavam em considera\u00e7\u00e3o apenas as necessidades masculinas, e continham preceitos muitas vezes inadequados para mulheres. Ela pede que Abelardo leve em considera\u00e7\u00e3o as especificidades da vida das mulheres nos conventos, como a quest\u00e3o das vestimentas, inadaptadas para o per\u00edodo menstrual, da dieta, dos trabalhos e fun\u00e7\u00f5es que as mulheres podem exercer, da hospitalidade a homens, etc. Helo\u00edsa \u00e9, assim, uma das primeiras mulheres a chamar a aten\u00e7\u00e3o sobre a especificidade da natureza feminina e de suas fun\u00e7\u00f5es sociais nas ordens mon\u00e1sticas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Por fim, ficam em aberto as raz\u00f5es da mudan\u00e7a tem\u00e1tica da \u00faltima carta. Helo\u00edsa de Argenteuil estaria apenas obedecendo ao pedido de Abelardo, ou teria realmente passado por um processo total de convers\u00e3o que levaria a se dedicar completamente \u00e0 vida espiritual? No final da <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Carta V<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, ela parece dizer que ainda n\u00e3o foi capaz de atingir tal ponto, mesmo que o queira. Apesar de n\u00e3o termos mais cartas que contenham elementos para responder \u00e0 quest\u00e3o, podemos vislumbrar um retorno de Helo\u00edsa a esse ponto nos <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Problemata<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Na \u00faltima quest\u00e3o dessa obra, ela questiona se algu\u00e9m pode pecar fazendo aquilo que o Senhor permitiu ou mesmo ordenou. A quest\u00e3o remete tanto \u00e0 \u00e9tica da inten\u00e7\u00e3o como \u00e0 sua entrada na vida religiosa, ambas resultantes do seu consentimento \u00e0s ordens dadas por Abelardo. Na <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Carta II<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, a primeira carta dela a Abelardo, ela diz claramente que foi apenas o amor a Abelardo, e n\u00e3o a escolha ou o amor a Deus, que a levou a tomar o v\u00e9u. O fato de que ela retorne a essa quest\u00e3o pode ser lido como um ind\u00edcio de que ela jamais se converteu completamente, ou, simplesmente, sinal de uma m\u00e1goa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 decis\u00e3o de Abelardo. Se a quest\u00e3o da verdadeira inten\u00e7\u00e3o de convers\u00e3o de Helo\u00edsa fica em aberto, por tr\u00e1s dos seus questionamentos podemos certamente vislumbrar uma reflex\u00e3o acerca da liberdade e da responsabilidade, consideradas da perspectiva de uma mulher que, mais de uma vez, adotou um modo de vida que n\u00e3o foi aquele que escolheu. Al\u00e9m disso, Helo\u00edsa de Argenteuil parece dar grande relevo ao aspecto moral, indicando que a conflu\u00eancia entre vida interior e exterior tamb\u00e9m deve guiar as pr\u00e1ticas e regras da vida mon\u00e1stica.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>O legado de Helo\u00edsa de Argenteuil<\/b><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Al\u00e9m da vis\u00e3o de Helo\u00edsa de Argenteuil durante a hist\u00f3ria ter sido extremamente marcada pela perspectiva de Pedro Abelardo, sua descri\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m oscilou entre a de uma hero\u00edna tr\u00e1gica que sucumbe a uma paix\u00e3o que causa sua ru\u00edna, e um exemplo de vida virtuosa e piedosa, como indicam as \u00faltimas cartas e a descri\u00e7\u00e3o de Helo\u00edsa feita por Pedro, o Vener\u00e1vel em uma das cartas dirigidas a ela:\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cEu n\u00e3o havia ainda passado os limites da adolesc\u00eancia, eu ainda n\u00e3o havia entrado nos anos da juventude, quando o teu nome chegou aos meus ouvidos; n\u00e3o era ainda a tua profiss\u00e3o religiosa, mas o teu t\u00e3o honrado e t\u00e3o louv\u00e1vel gosto pelo estudo que fazia tua fama. Ouvi falar ent\u00e3o que uma mulher, ainda n\u00e3o liberta dos la\u00e7os mundanos, estava se dedicando ao estudo das letras e, coisa rara, \u00e0 busca da sabedoria; e que os prazeres do mundo, suas frivolidades e seus desejos, n\u00e3o poderiam afast\u00e1-la do prop\u00f3sito de aprender as artes. E numa \u00e9poca em que a mais deplor\u00e1vel apatia por esses dois estudos torna o mundo entorpecido, e a sabedoria n\u00e3o tem onde subsistir, n\u00e3o diria entre o sexo feminino, do qual \u00e9 totalmente descartada, mas dificilmente se encontra entre as mentes dos homens, voc\u00ea, atrav\u00e9s do seu zelo, superou todas as mulheres, e h\u00e1 poucos homens que voc\u00ea n\u00e3o superou\u201d (Pedro, o Vener\u00e1vel, 1967, pp. 303<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u2013<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">304, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">tradu\u00e7\u00e3o nossa<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A figura de Helo\u00edsa de Argenteuil tamb\u00e9m serviu de inspira\u00e7\u00e3o constante em obras posteriores, como em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O Romance da Rosa, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">de Jean de Meun, nos versos de Fran\u00e7ois Villon, em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">J\u00falia ou a nova Helo\u00edsa, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">de Jean-Jacques Rousseau<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">ou ainda no poema <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Eloisa to Abelard<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">,<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">de Alexander Poper, que contribu\u00edram para uma vis\u00e3o romantizada a seu respeito. A leitura das cartas, no entanto, nos apresenta uma outra Helo\u00edsa, marcada pelos conflitos internos e as exig\u00eancias sociais do seu tempo. Ainda que seus escritos n\u00e3o sejam extensos, s\u00e3o originais na maneira como elabora temas como o amor, a natureza feminina e o modo de vida de mulheres em ordens religiosas, sendo uma fonte importante para a compreens\u00e3o do desenvolvimento do pensamento feminino no per\u00edodo medieval.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/b><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>Escritos de Helo\u00edsa de Argenteuil<\/b><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b><i>Cartas<\/i><\/b><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>Texto latino:<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Argenteuil, H. (1953) Heloisae suae ad ipsum deprecatoria. [Carta II] In: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Personal Letters Between Abelard and Heloise<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Ed. J. T. Muckle. Mediaeval Studies, v. 15, pp. 68-73<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">________.<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> (1953) Rescriptum ipsius ad ipsum. [Carta IV] In: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Personal Letters Between Abelard and Heloise<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Edi\u00e7\u00e3o de J. T. Muckle. Mediaeval Studies, v. 15, pp. 77-82.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">________.<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> (1955) Item eadem ad eundem. [Carta VI] In: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Letter of Heloise on Religious Life and Abelard\u2019s First Reply<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Edi\u00e7\u00e3o de J. T. Muckle. Mediaeval Studies, v. 17, pp. 241-253.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Abelardo, P., Argenteuil, H. (1855) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Petri Abaelardi Opera Omnia. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Patrologia Latina, v. 178. Paris Garnier. Reimpress\u00e3o: Turnholt: Brepols, 1995.<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>Tradu\u00e7\u00f5es em l\u00edngua portuguesa:<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Abelardo, P., Argenteuil, H. (2008) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Historia Calamitatum<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Cartas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Pref\u00e1cio, tradu\u00e7\u00e3o e notas de Abel Nascimento Pena. Lisboa: Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">________.<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> (2002) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Correspond\u00eancia de Abelardo e Helo\u00edsa<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Texto Apresentado por Paul Zumthor. Tradu\u00e7\u00e3o de Let\u00edcia Santana Martins. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">________<\/span><span style=\"font-weight: 400\">. (1997) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Cartas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. As cinco primeiras cartas traduzidas do original por Zeferino Rocha, Recife: Editora Universit\u00e1ria da UFPE.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>Tradu\u00e7\u00f5es em outras l\u00ednguas:<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Abelardo, P., Argenteuil, H. <\/span><span style=\"font-weight: 400\">(1859) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Lettres compl\u00e8tes d\u2019Ab\u00e9lard et H\u00e9lo\u00efse<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Tradu\u00e7\u00e3o de O. Gr\u00e9ard. Paris: Garnier Fr\u00e8res, 1859.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">________. (1974) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Letters of Abelard and Heloise<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Tradu\u00e7\u00e3o de Betty Radice. Londres: Penguin Classics.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">________. (1992) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Lamentations, Histoire des mes malheurs, Correspondance avec H\u00e9lo\u00efse<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Tradu\u00e7\u00e3o do latim e apresenta\u00e7\u00e3o de Paul Zumthor. Arles: Actes Sud.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">________. (1996) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">H\u00e9lo\u00efse et Ab\u00e9lard. Lettres et vies. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Introdu\u00e7\u00e3o, tradu\u00e7\u00e3o, notas, bibliografia e cronologia por Yves Ferroul. Paris: Flammarion.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">________.<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> (2004) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Epistolario di Abelardo ed Eloisa.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Edi\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o de Ileana Pagani. Turin: Unione Tipografico-Editrice Torinese.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">________.<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> (2007) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Abelard and Heloise: The Letters and Other Writings.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Tradu\u00e7\u00e3o de William Levitan. Indianapolis &#8211; Cambridge: Hackett.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">________. (2009) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The letters of Abelard and Heloise: A Translation of Their Collected Correspondance and Related Wrintings.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Edi\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o de McLaughlin, Mary; Wheeler, Bonnie. New York: Palgrave Macmillan.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>Tradu\u00e7\u00e3o em franc\u00eas de Jean de Meun:<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Jean de Meun (1934) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Traduction de la premie\u0300re e\u0301pitre de Pierre Abe\u0301lard (<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Historia Calamitatum). Edi\u00e7\u00e3o de C. Charrier. Paris: Champion.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b><i>Cartas de Helo\u00edsa e Pedro, o Vener\u00e1vel<\/i><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Argenteuil, H. (1859) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Lettres compl\u00e8tes d&#8217;Ab\u00e9lard et d&#8217;H\u00e9lo\u00efse<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Tradu\u00e7\u00e3o de O. Gr\u00e9ard. Paris: Garnier Fr\u00e8res, pp. 562-563.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Pedro, Vener\u00e1vel; Argenteuil, H. (1967) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Letters of Peter the Venerable<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Edi\u00e7\u00e3o de Giles Constable. Cambridge: Harvard University Press. V. 1, pp. 400<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u2013<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">401.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b><i>Cartas de Dois Amantes<\/i><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">An\u00f4nimo. (1974)<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> Epistolae duorum amantium: Brief Abaelards und Heloises<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">? Edi\u00e7\u00e3o e estudo de Ewald K\u00f6nsgen. Leyde: Brill.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">________. (2005) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Lettres de deux amants attribu\u00e9es \u00e0 H\u00e9lo\u00efse et Ab\u00e9lard<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Tradu\u00e7\u00e3o e apresenta\u00e7\u00e3o de Sylvan Piron. Paris: Gallimard.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b><i>Problemata Heloissae<\/i><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Argenteuil, H. (1885) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Heloissae Problemata cum Petri Abaelardi solutionibus<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. In: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Petri Abaelardi Opera Omnia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Edi\u00e7\u00e3o de J. P. Migne. Patrologia Latina, 178. Paris, Garnier.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">________. (1991) <\/span><span style=\"font-weight: 400\">MacNamer, E. M. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Education of Heloise<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Lewinston: Mellen, pp. 111-183.<\/span><\/p>\n<p><br \/><br \/><\/p>\n<p><b>Bibliografia secund\u00e1ria<\/b><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Clanchy, M. T. (1997) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Abelard: A Medieval Life<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Oxford: Blackwell.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Dronke, P. (1984) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Women writers of the Middle Ages. A critical study of texts form Perpetua (203) to Marguerite Porete (1310)<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Cambridge: Cambridge University Press.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">________<\/span><span style=\"font-weight: 400\">.(1992) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Intellectuals and Poets in Medieval Europe<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Rome: Edizioni di Storia e Letteratura.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Duby, G.\u00a0 (1995) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Dames du XII si\u00e8cle. I. H\u00e9lo\u00efsse, Ali\u00e9nor, Iseut et quelques outres<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Paris: Gallimard.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Estev\u00e3o, J. C.\u00a0 (2015) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Abelardo e Helo\u00edsa<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Discurso Editorial\/ Paulus.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Findley, B. H.\u00a0 (2006) Does the Habit Make the Num? A Case Study of Heloise\u00b4s Influence on Abelard\u00b4s Ethical Philosophy. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Vivarium<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, v. 44, pp. 248-275, n. 2\/3.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Gilson, \u00c9. (2007) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Helo\u00edsa e Abelardo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Tradu\u00e7\u00e3o de Henrique R\u00e9. S\u00e3o Paulo: Editora da Universidade de S\u00e3o Paulo.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Hubert, S. (1985) &#8220;L&#8217;idylle d&#8217;Ab\u00e9lard et H\u00e9lo\u00efse: la part du Roman.&#8221; In: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Bulletin de la Classe des Lettres et des Sciences Morales et Politique<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">s, v. 7, pp. 157-200.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Luscombe, D. E. (1980) \u201cThe Letters of Heloise and Abelard since\u2019 Cluny 1972\u00b4\u201d, in: Thomas, R. et al. (Eds.) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Petrus Abaelardus<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Trier: Paulinus-Verlag.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">________.<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> (1988) \u201cFrom Paris to the Paraclete: The Correspondence of Abelard and Heloise.\u201d Proceedings of the British Academy 74, pp. 247-83.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Marenbon, J. (2000) \u201cAuthenticity revisited\u201d, in: Wheeler, B. (Ed.), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Listening to Heloise<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Nova York: St. Martin\u00b4s Press.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mews, C. J. (1999) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Lost Love Letters of Heloise and Abelard. Perceptions of Dialogue in Twelfth Century France<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Nova York: Saint Martin\u00b4s Press.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">________. <\/span><span style=\"font-weight: 400\">(2005) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Abelard and Heloise.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Oxford: Oxford University Press.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Pernoud, R. (1970) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">H\u00e9lo\u00efse et Ab\u00e9lard<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Paris: Albin Michel.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Santos, E. B. (2022) \u201cA filosofia e o feminino em Helo\u00edsa de Argenteuil.\u201d <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Modernos e Contempor\u00e2neos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, v. 6, n. 14, pp. 42-56.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Thomas, R. et al. (Eds.) (1980) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Petrus Abaelardus<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Trier: Paulinus-Verlag.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Whaite, M. H. (1989). Heloise. In: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A History of Women Philosophers. Medieval, renaissance and enlightenment women<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. V. 2. Dordrecht: Nijhoff, pp. 67-83.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Wheeler, B. (Ed.) (2000) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Listening to Heloise<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Nova York: St. Martin\u2019s Press.<\/span><\/p>\n<p><br \/><br \/><br \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":360,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","inline_featured_image":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"class_list":["post-1793","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1793","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/360"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1793"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1793\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1796,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1793\/revisions\/1796"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1793"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}