{"id":1803,"date":"2023-08-14T15:39:13","date_gmt":"2023-08-14T18:39:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/?page_id=1803"},"modified":"2023-08-14T15:39:14","modified_gmt":"2023-08-14T18:39:14","slug":"caca-as-bruxas-o-caso-katarina-kepler","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/caca-as-bruxas-o-caso-katarina-kepler\/","title":{"rendered":"Ca\u00e7a \u00e0s Bruxas: o caso Katarina Kepler"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"text-align: center\"><b>Ca\u00e7a \u00e0s bruxas: o caso Katarina Kepler<\/b><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">por Anastasia Guidi Itokazu, professora\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">de Filosofia na Universidade Federal do ABC &#8211; <\/span><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/5364364905861471\"><span style=\"font-weight: 400\">Lattes<\/span><\/a><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/08\/Caca-as-bruxas-o-caso-Katarina-Kepler-PDF.docx.pdf\">Ca\u00e7a \u00e0s bruxas &#8211; o caso Katarina Kepler &#8211; PDF<\/a><\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<figure id=\"attachment_1804\" aria-describedby=\"caption-attachment-1804\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1804\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/08\/unnamed-2.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"588\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/08\/unnamed-2.jpg 800w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/08\/unnamed-2-300x221.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/08\/unnamed-2-768x564.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1804\" class=\"wp-caption-text\">Katarina Kepler, escultura de Jakob Fehrle (1884-1974) na cidade de Eltingen. Fonte: Katharina Kepler &#8211; Die schw\u00e4bische &#8220;Hexenmutter&#8221; &#8211; Wiener Zeitung Online<\/figcaption><\/figure>\n<p><b>Quem eram as bruxas? Do que foram acusadas? Que tipo de amea\u00e7a representavam?<\/b><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Katarina Guldenmann nasceu em Eltingen, 17 quil\u00f4metros a oeste de Stuttgart, Alemanha, em 1546, e, como veremos, o processo movido contra ela nos ajuda a responder a essas perguntas. Seu pai, Melchior Guldenmann, exerceu o cargo de prefeito por quase vinte anos, de 1567 a 1585 e, quando a filha nasceu, a fam\u00edlia vivia em uma casa em frente \u00e0 igreja da cidade (Rublack, 2015, pp. 20-22). Ele era tamb\u00e9m o propriet\u00e1rio de uma estalagem chamada O Sol, onde Katarina trabalhou na juventude. Ap\u00f3s casar-se com Heinrich Kepler, adotando seu sobrenome, Katarina Kepler mudou-se para Leonberg, no ducado de W\u00fcrttemberg. No dia 27 de dezembro de 1571, ela deu \u00e0 luz seu primeiro filho, Johannes, uma crian\u00e7a franzina que quase morreu de var\u00edola e que se tornaria um dos astr\u00f4nomos mais importantes da hist\u00f3ria e um dos intelectuais mais not\u00e1veis do s\u00e9culo XVII. Ao todo, ela teve quatro filhos que sobreviveram at\u00e9 a idade adulta: Johannes, Heinrich, Christoph e Margaretha. Seu marido, Heinrich Kepler, abandonou a fam\u00edlia e partiu como soldado mercen\u00e1rio, e Katarina Kepler sobreviveu cuidando do pequeno peda\u00e7o de terra que possu\u00eda. Ela tamb\u00e9m fabricava infus\u00f5es de vinhos com ervas que coletava nas terras comunais adjacentes a Leonberg, mas n\u00e3o h\u00e1 ind\u00edcios de que essa atividade fosse remunerada. Em 1615, Katarina Kepler foi formalmente acusada de bruxaria e, ap\u00f3s ficar por mais de um ano acorrentada em uma cela, entre 1620 e 1622, ela finalmente foi libertada gra\u00e7as aos invulgares esfor\u00e7os de seu filho Johannes Kepler, vindo a falecer h\u00e1 quase exatos quatrocentos anos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Segundo Silvia Federici, a ca\u00e7a \u00e0s bruxas, que vitimou trezentas mil mulheres na Europa da Revolu\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica (Federici, 2017, p. 292), teve seu auge entre os anos 1570 e 1630, per\u00edodo que coincide quase exatamente com a vida de Johannes Kepler (1571-1630). \u00c9 imposs\u00edvel conhecer exatamente o que pensava Katarina Kepler, j\u00e1 que ela n\u00e3o nos legou textos escritos. Mesmo com a Reforma, que ampliou o acesso das mulheres \u00e0 leitura e \u00e0 escrita (Perrot, 2019, p. 91), Katarina Kepler era iletrada, como atesta o fato de que uma das acusa\u00e7\u00f5es feitas contra ela foi justamente a de incomodar o diretor de escola Hans Beitelspacher \u2014 antigo colega de Johannes Kepler na Universidade de T\u00fcbingen \u2014 pedindo que ele lesse as cartas endere\u00e7adas a ela por seu filho e que tamb\u00e9m escrevesse as respostas. A primazia da escrita como o meio por excel\u00eancia de transmiss\u00e3o de conhecimento j\u00e1 foi criticada muitas vezes, do Fedro de Plat\u00e3o a Octavia Butler e Davi Kopenawa. Desde Her\u00f3doto e Tuc\u00eddides, a hist\u00f3ria contada pelos vencedores \u00e9 uma hist\u00f3ria escrita. Enquanto isso, a hist\u00f3ria (e o pensamento) das mulheres e dos povos escravizados, colonizados e expropriados, em grande medida, se perdeu \u2014 por n\u00e3o ter sido incorporada ao c\u00e2none. No caso das mulheres vitimadas pela Grande Ca\u00e7a \u00e0s Bruxas, a oralidade era a forma principal de transmiss\u00e3o de conhecimento, conhecimento este que foi em grande parte incorporado e reformulado pelos grandes nomes da Revolu\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica. Obras recentes, como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Eu, Tituba, bruxa negra de Salem<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, de Maryse Cond\u00e9, e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Todo mundo sabe que sua m\u00e3e \u00e9 uma bruxa<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Everybody knows your mother is a witch<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">] \u2014 em que Rivka Galchen conta a vida de Katarina Kepler em uma narrativa envolvente \u2014, buscam trazer para o registro escrito a voz dessas mulheres, em uma literatura que mescla elementos de fic\u00e7\u00e3o com um recurso cuidadoso \u00e0s fontes hist\u00f3ricas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O esfor\u00e7o para enxergar Katarina Kepler como uma pensadora \u00e9 portanto um ato pol\u00edtico, fruto da decis\u00e3o deliberada de lan\u00e7ar luz sobre o pensamento de mulheres que n\u00e3o pertenciam \u00e0 nobreza ou \u00e0 aristocracia, que n\u00e3o tiveram tutores que as ensinassem o grego e o latim, mulheres que trabalhavam nos campos e foram perseguidas, torturadas e mortas por n\u00e3o se limitarem ao espa\u00e7o dom\u00e9stico que o capitalismo nascente reservava a elas, mas que, mesmo assim, ergueram a voz e exerceram uma influ\u00eancia marcante em suas comunidades.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400\">A morte da natureza<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The death of nature<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">] (Merchant, 1980), \u00e9 uma obra cl\u00e1ssica do ecofeminismo que prop\u00f5e uma cr\u00edtica incisiva \u201cda mentalidade abusiva e linear de progresso\u201d (Merchant, 1980, p. xxi), ideia que se tornou amplamente difundida quando uma vis\u00e3o de mundo org\u00e2nica foi substitu\u00edda pela met\u00e1fora do rel\u00f3gio, caracter\u00edstica do per\u00edodo que se seguiu \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Copernicana. Merchant desenvolve a tese geral segundo a qual a mentalidade que via a Terra como um ser animado e acolhedor precisou ser descartada para que as atividades t\u00edpicas do mercantilismo e da industrializa\u00e7\u00e3o pudessem ser levadas a cabo. Ela associa o advento da ci\u00eancia moderna tanto com a ca\u00e7a \u00e0s bruxas quanto com a destrui\u00e7\u00e3o cada vez mais voraz da Terra.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Calib\u00e3 e a bruxa<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Silvia Federici (2017) discorda da primeira associa\u00e7\u00e3o, argumentando que vis\u00f5es de mundo anteriores \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica n\u00e3o evitaram a escravid\u00e3o ou a persegui\u00e7\u00e3o aos hereges. Ela enxerga a Grande Ca\u00e7a \u00e0s Bruxas como um fen\u00f4meno hist\u00f3rico mais complexo, que dependeu de m\u00faltiplas causas. Federici concorda, por\u00e9m, com Merchant quanto ao fato de que \u201co mundo precisou ser \u2018desencantado\u2019 para poder ser dominado\u201d (Federici, 2017, 313). Se o mundo seria submetido \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o capitalista, a nova ci\u00eancia deveria fornecer as bases para transform\u00e1-lo em mercadoria. \u201cA ca\u00e7a \u00e0s bruxas se coloca na encruzilhada de um aglomerado de processos sociais que prepararam o caminho para o surgimento do mundo capitalista moderno.\u201d (Federici, 2019, p. 40)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em uma perspectiva micropol\u00edtica, a import\u00e2ncia filos\u00f3fica de buscar reconstruir o pensamento dessas mulheres, a despeito da escassez das fontes, prov\u00e9m do fato de que o capitalismo se baseia em um certo tipo de subjetividade que nos distancia de nossa condi\u00e7\u00e3o de viventes (Rolnik, 2023, pp. 107-113). O tipo de subjetividade forjado durante a Revolu\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica dos s\u00e9culos XVI e XVII ainda nos expropria de nossa pot\u00eancia vital e do sentimento de pertencimento a um mundo animado, que passou a ser encarado como fonte de mat\u00e9ria prima e mercadorias, ao mesmo tempo em que as mulheres se tornam obedientes produtoras de for\u00e7a de trabalho (sendo, mais tarde, tamb\u00e9m incorporadas a essa for\u00e7a). O mundo vivo das mulheres que foram perseguidas como bruxas \u00e9 um mundo de subjetividades forjadas na colabora\u00e7\u00e3o m\u00fatua e no uso coletivo da terra e dos bens comuns, subjetividades que se revelariam incompat\u00edveis com os contextos cada vez mais violentos de acumula\u00e7\u00e3o capitalista. \u201cCom as fogueiras se eliminaram aquelas supersti\u00e7\u00f5es que faziam obst\u00e1culo \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o do corpo individual e social em um conjunto de mecanismos previs\u00edveis e control\u00e1veis.\u201d (Federici, 2017, p. 262).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Este mundo em transforma\u00e7\u00e3o era o mundo de Katarina Kepler. Quando tinha cerca de vinte e cinco anos, em 1596, Johannes Kepler fez um hor\u00f3scopo de sua m\u00e3e, que descreveu como \u201cpequena, magra, de complei\u00e7\u00e3o escura, tagarela, briguenta e em geral desagrad\u00e1vel\u201d (Caspar, 1993, p. 34). Anos mais tarde, em 1619, Kepler voltaria a mencionar o hor\u00f3scopo de Katarina Kepler no Livro IV da <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Harmonia do mundo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, ao explicar como os mesmos aspectos no c\u00e9u podem levar a vidas completamente diferentes a depender do contexto \u2014 no caso a sua pr\u00f3pria e a de sua m\u00e3e:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cEu conhe\u00e7o uma mulher que nasceu sob quase os mesmos aspectos [que eu], com um temperamento certamente muito inquieto, mas pelo qual n\u00e3o tem nenhuma vantagem no aprendizado te\u00f3rico (o que n\u00e3o \u00e9 surpreendente numa mulher) e perturba toda a sua cidade, sendo a autora de seu pr\u00f3prio lament\u00e1vel infort\u00fanio\u201d (Kepler, 1997, p. 376).<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Essa passagem da <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Harmonia do mundo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> causaria a Katarina Kepler muitos problemas, pois o livro foi publicado durante o seu processo. \u00c9 revelador que sua inquieta\u00e7\u00e3o que \u201cperturba a cidade\u201d seja apontada como a causa de seus infort\u00fanios, ainda mais se considerarmos que, na sequ\u00eancia da passagem citada, Johannes Kepler afirma que esse mesmo temperamento inquieto o favoreceu porque, ao contr\u00e1rio da m\u00e3e, ele teve a oportunidade de estudar.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Teria Katarina Kepler influenciado seu filho na sua op\u00e7\u00e3o por defender o sistema copernicano? Ou a dizer que o c\u00e9u \u00e9 um \u00fatero que gera estrelas novas? N\u00e3o temos como saber; ideias vitalistas n\u00e3o eram incomuns \u00e0 \u00e9poca de Johannes Kepler, como mostram os estudos de Sarah Hutton (2004) e Ernst Cassirer (2001), entre outros. Entretanto, n\u00e3o deixa de ser not\u00e1vel que seu pensamento tenha sido considerado demasiado ex\u00f3tico por interlocutores como Galileu e Tycho Brahe (e mesmo pela maioria dos historiadores de nossa \u00e9poca, que optaram por um recorte onde sobressai o aspecto matem\u00e1tico de sua obra, em detrimento das discuss\u00f5es \u2014 importantes na economia de seus textos \u2014 que tratam das almas dos planetas ou do car\u00e1ter divino do Sol). Enquanto Brahe pede que deixe suas ideias aprior\u00edsticas de lado no estudo sobre o movimento de Marte que lhe encomenda, Galileu, na Quarta Jornada dos <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Di\u00e1logos sobre os dois m\u00e1ximos sistemas de mundo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, desdenha das teorias que atribu\u00edam as mar\u00e9s \u00e0 influ\u00eancia da Lua, como foi defendido por Johannes Kepler, por serem baseadas em qualidades ocultas: \u201cn\u00e3o me parece que valha a pena consumir o tempo referindo-as, e muito menos gastar palavras para refut\u00e1-las; e se v\u00f3s prestais assentimento a alguma dessas ou a semelhantes futilidades, estais sendo injusto com vosso pr\u00f3prio ju\u00edzo [&#8230;]\u201d (Galilei, 2001, p. 503).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Sabemos que Johannes Kepler n\u00e3o teve muito contato com o pai, \u201chomem vicioso, inflex\u00edvel, briguento e destinado a um p\u00e9ssimo fim\u201d (Kepler, Apud. Koestler, 1989, p. 156), segundo o hor\u00f3scopo geneal\u00f3gico que ele escreveu aos vinte e seis anos de idade (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Johannes Kepler Opera Omnia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Vol VIII) e sabemos tamb\u00e9m que seus irm\u00e3os n\u00e3o eram pessoas especialmente cultas. Mas ele nos conta no mesmo hor\u00f3scopo que sua m\u00e3e o levou para o topo de uma colina nas imedia\u00e7\u00f5es de Weil der Stadt quando ele tinha seis anos para ver o Grande Cometa de 1577: \u201couvi falar muito do cometa daquele ano, 1577, e minha m\u00e3e me levou a um lugar bastante alto para v\u00ea-lo\u201d (Koestler, 1989, p. 158). Embora seja imposs\u00edvel reconstruir as partes do pensamento de Kepler que teriam sido influenciadas pelo contato com Katarina Kepler, parece igualmente imposs\u00edvel negar que essa influ\u00eancia tenha acontecido.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Entretanto, \u00e9 poss\u00edvel procurar por pistas que nos permitam conhecer um pouco melhor Katharina Kepler a partir das acusa\u00e7\u00f5es que foram feitas contra ela por moradores de Leonberg. Como usualmente acontece com as mulheres das classes populares (Perrot, 2019, p. 26). A principal fonte de que dispomos est\u00e1 em um arquivo p\u00fablico. O seu processo por bruxaria \u00e9 um dos mais bem preservados da Ca\u00e7a \u00e0s Bruxas na Alemanha (Rublack, 2015, p. 7), e hoje se encontra em um arquivo de Stuttgart, que pode ser consultado <\/span><span style=\"font-weight: 400\">nos <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Landesarchiv Baden-W\u00fcrttemberg<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">: 209 B\u00fc 1054-56.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Tudo come\u00e7ou em 1614 quando seu filho mais velho, Heinrich, voltou para casa ap\u00f3s passar vinte e cinco anos como soldado e guarda imperial em Praga. Embriagado, ele exigiu carne para comer e, ao ouvir da m\u00e3e que isso n\u00e3o seria poss\u00edvel naquele inverno severo, chamou-a de bruxa. Algumas pessoas escutaram (Rublack, 1015, pp. 75-76). Em agosto daquele mesmo ano, a mulher do vidraceiro da cidade, Ursula Reinbold, afirmou ter ficado com o lado direito do corpo formigando e come\u00e7ado a mancar ap\u00f3s tomar um vinho com ervas oferecido por Katarina Kepler. Isso mostra que Katarina Kepler conhecia ervas medicinais e preparava infus\u00f5es dessas ervas com vinho, as quais oferecia aos habitantes da cidade. \u201cDepois do Conc\u00edlio de Trento (1545-1563), a Contrarreforma adotou uma postura dura contra as curandeiras populares, tremendo seus poderes e suas profundas ra\u00edzes na cultura de suas comunidades\u201d (Federici, 2017, p. 363). O processo contra Katarina Kepler mostra que a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era diferente em terras protestantes. \u00c9 not\u00e1vel que Ursula Reinbold tivesse dois irm\u00e3os, e que o primeiro, Urban Kr\u00e4utlin, fosse barbeiro e m\u00e9dico do irm\u00e3o do duque Frederick de W\u00fcrttemberg, enquanto o segundo era o administrador da floresta de Leonberg. Afinal, ainda segundo Silvia Federici (2017), a Grande Ca\u00e7a \u00e0s Bruxas esteve associada tanto ao cercamento das terras comunais, como a floresta de Leonberg, quanto ao cercamento metaf\u00f3rico dos saberes sobre o corpo que foram absorvidos pela nascente medicina cient\u00edfica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ursula sofria de uma doen\u00e7a cr\u00f4nica que lhe causava fortes dores, e Katarina Kepler se defendeu admitindo ter se compadecido de sua condi\u00e7\u00e3o e oferecido a ela um vinho que poderia de fato estar velho, e provavelmente avinagrado por estar guardado h\u00e1 muito tempo, mas que certamente n\u00e3o era enfeiti\u00e7ado. A acusa\u00e7\u00e3o de Ursula \u00e9 a mais importante do processo. Katarina Kepler foi chamada \u00e0 casa do governador ducal Lukas Einhorn, que se mostraria bastante afeito a levar adiante processos de bruxaria, tendo executado nove mulheres enquanto ocupou seu cargo, entre 1613 e 1629. Ali, na recep\u00e7\u00e3o da casa do governador, Urban Krautlin chamou Katarina Kepler de bruxa e exigiu que ela curasse o mal que havia feito a Ursula. Ela argumentou que n\u00e3o poderia curar Ursula porque n\u00e3o era respons\u00e1vel por seu sofrimento, e ent\u00e3o Urban desembainhou sua espada e amea\u00e7ou-a. Chocada, segundo o relato que consta no processo (Rublack, 2015, p. 81), Katarina Kepler teve o esp\u00edrito de dizer a Einhorn que n\u00e3o podia ser confrontada daquela forma, sozinha, sem nenhuma prote\u00e7\u00e3o, pois era uma mulher idosa (guardi\u00f5es homens eram requeridos em cortes civis ou criminais) (Rublack, 2015, p. 123). Logo em seguida, a fam\u00edlia de Katarina Kepler reagiu. Seu filho mais novo, Christoph, fabricante de utens\u00edlios de estanho que gozava de boa reputa\u00e7\u00e3o na cidade, e o pastor Binder, casado com sua filha Margaretha, acusaram Ursula Reinbold de difama\u00e7\u00e3o, acusa\u00e7\u00e3o que acabaria por complicar ainda mais a situa\u00e7\u00e3o, pois Ursula passou a lutar muito ativamente pela condena\u00e7\u00e3o de Katarina Kepler de modo a limpar seu pr\u00f3prio nome e receber uma significativa quantia de dinheiro em repara\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em outubro de 1615, Margaretha escreveu uma carta a seu irm\u00e3o astr\u00f4nomo pedindo ajuda, \u00e0 qual ele respondeu, n\u00e3o poupando esfor\u00e7os dali em diante para salvar sua m\u00e3e da tortura e da morte na fogueira. Gra\u00e7as \u00e0 fama de seu filho, que a mencionou algumas vezes em suas obras e participou ativamente de sua defesa, sabemos muito mais sobre Katarina Kepler do que sobre a maioria das mulheres v\u00edtimas da Grande Ca\u00e7a \u00e0s Bruxas. Nesse sentido, Katarina Kepler \u00e9 especialmente apta a represent\u00e1-las, trazendo at\u00e9 n\u00f3s, quatrocentos anos depois, informa\u00e7\u00f5es valiosas sobre o que essas mulheres pensavam, como atuavam em suas comunidades, e porque entraram em conflito com a nova organiza\u00e7\u00e3o social que surgia naquele per\u00edodo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em 1616, Einhorn recebeu uma segunda acusa\u00e7\u00e3o contra Katarina Kepler, algo muito significativo pois, de acordo com a Lei Carolina (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Constitutio Criminalis Carolina<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, de 1530) do Sacro Imp\u00e9rio Romano, acusa\u00e7\u00f5es de bruxaria deveriam basear-se em mais de um testemunho. Desta vez, uma menina de doze anos de sobrenome Haller, que carregava tijolos, teria sido tocada no bra\u00e7o por Katarina Kepler, e desde ent\u00e3o experimentado dores terr\u00edveis neste bra\u00e7o, at\u00e9 ter ficado incapaz de mover um dedo sequer. Katarina Kepler tomou uma atitude desastrada que complicou enormemente a sua situa\u00e7\u00e3o: procurou Einhorn sozinha para oferecer-lhe uma ta\u00e7a de prata, implorando que n\u00e3o reportasse seu caso ao duque, e ent\u00e3o saiu de Leonberg para hospedar-se com sua filha Margaretha e o pastor Binder, em Heumaden, pequena cidade pouco a Leste de Stuttgart. Os conselheiros ducais ordenaram que ela fosse presa, mas Einhorn logo soube que ela havia partido para Linz, \u00e0s margens do Dan\u00fabio, para encontrar seu filho astr\u00f4nomo. Katarina Kepler agora estava fora do ducado de W\u00fcrttemberg e do alcance de seus acusadores.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ursula Reinbold ent\u00e3o escreveu ao duque John Frederick, prometendo rezar por ele e seus filhos, e pedindo em troca que Katarina Kepler fosse presa. De seu lado, Christoph e o pastor Binder tamb\u00e9m escreveram ao duque uma longa carta que ele provavelmente n\u00e3o chegou a ler (Rublack, 2015, p. 119), questionando a reputa\u00e7\u00e3o de Ursula bem como da fam\u00edlia Haller, mencionando o epis\u00f3dio em que sua m\u00e3e fora interrogada na casa do governador Einhorn e explicando que ela n\u00e3o havia fugido de Leonberg, mas seguido o conselho de seu filho ilustre indo juntar-se a ele.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em janeiro de 1617, foi Johannes Kepler que enviou uma carta cuidadosamente redigida \u00e0 chancelaria do duque, afirmando a inoc\u00eancia da m\u00e3e bem como sua disposi\u00e7\u00e3o para defend\u00ea-la e, apesar da carta enviada \u00e0 chancelaria pelo vidraceiro Reinbold, a ordem de pris\u00e3o foi suspensa e ficou acordado que Einhorn se limitaria a interrog\u00e1-la e, perguntando sobre a ta\u00e7a, se tinha ou n\u00e3o tocado o bra\u00e7o doente da filha dos Haller e sobre sua sa\u00edda apressada de W\u00fcrttemberg.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Outras acusa\u00e7\u00f5es vieram em seguida: Katarina Kepler foi responsabilizada pela morte de seu marido na guerra, pois fora ela que o teria expulsado de casa repetidas vezes (na verdade, h\u00e1 registros de que ela chegou a deixar os filhos com os av\u00f3s para ir busc\u00e1-lo). O professor da escola, Hans Beitelspacher, acusou-a de ter entrado em sua casa quando as portas estavam trancadas para pedir que escrevesse uma carta. Em outra ocasi\u00e3o, dez anos antes, Katarina Kepler o teria chamado a sua casa e oferecido um vinho, que causara uma dor terr\u00edvel no quadril e quase o deixara coxo. A padeira contou que Katarina Kepler havia pedido leite a ela, que inicialmente recusou, mas acabou por fornec\u00ea-lo. Ainda assim sua bezerra morreu, evidentemente porque Katarina Kepler a teria montado at\u00e9 mat\u00e1-la. \u00c9 not\u00e1vel como essas acusa\u00e7\u00f5es v\u00e3o ao encontro da descri\u00e7\u00e3o que Silvia Federici faz das mulheres que foram perseguidas como bruxas:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cEram mulheres que resistiam \u00e0 pr\u00f3pria pauperiza\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o social. Amea\u00e7avam, lan\u00e7avam olhares reprovadores e amaldi\u00e7oavam quem se recusava a ajud\u00e1-las; algumas se tornavam inconvenientes, aparecendo de repente, e sem serem convidadas, na soleira de vizinhos e vizinhos que viviam em melhor situa\u00e7\u00e3o [&#8230;]\u201d (Federici, 2019, p. 52).<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Pouco depois, uma mulher chamada Dorothea Kleb contou que cinco anos atr\u00e1s havia contratado uma jovem costureira, que trabalhara na casa de Katarina Kepler e passara a noite l\u00e1. A jovem lhe contara que, ao ver Katarina Kepler vagando durante a noite, teria perguntado por que n\u00e3o ia dormir, e ela teria respondido: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o quer se tornar uma bruxa?\u201d (Rublack, 2015, p. 161), prometendo alegria e devassid\u00e3o al\u00e9m da conta e argumentando que \u201cn\u00e3o h\u00e1 vida eterna\u201d e que \u201cquando um homem morre ele deixa de existir, como as bestas\u201d. Ela teria dito ainda que \u201ca \u00fanica raz\u00e3o para existirem pastores \u00e9 para que as pessoas possam cruzar as ruas quando forem se visitar sem temer a viol\u00eancia\u201d (Rublack, 2015, pp. 161-162). Esse trecho do processo parece demasiadamente original para ter sido inventado, delineando uma vis\u00e3o de mundo que n\u00e3o podia ser anunciada publicamente nos tempos de domestica\u00e7\u00e3o das mulheres e intoler\u00e2ncia religiosa que precederam a Guerra dos Trinta Anos, mas que sobrevivia nas conversas noturnas partilhadas entre mulheres no ambiente dom\u00e9stico. O controle da sexualidade feminina estava no cerne do fen\u00f4meno complexo que foi a Ca\u00e7a \u00e0s Bruxas:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cNa Europa da Era da Raz\u00e3o, eram colocadas focinheiras nas mulheres acusadas de serem desbocadas, como se fossem c\u00e3es, e elas eram exibidas pelas ruas; as prostitutas eram a\u00e7oitadas ou enjauladas e submetidas a simula\u00e7\u00f5es de afogamentos, ao passo que se instaurava a pena de morte para as mulheres condenadas por adult\u00e9rio\u201d (Federici, 2017, p. 203).<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mais acusa\u00e7\u00f5es seguiram: o a\u00e7ougueiro teria sofrido de dor no quadril e vis\u00e3o emba\u00e7ada simplesmente porque Katarina Kepler passou perto dele. Katarina Kepler se defendeu alegando que o a\u00e7ougueiro havia cortado uma \u00e1rvore verde, cheia de seiva vital, e os problemas circulat\u00f3rios que o tornaram manco eram uma puni\u00e7\u00e3o. Este argumento deixa entrever uma percep\u00e7\u00e3o do mundo natural como vivo, divino e interconectado semelhante \u00e0quela expressa por Johannes Kepler em obras como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">De stella nova<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">De niue sexangula<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e na pr\u00f3pria <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Harmonia do mundo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, vis\u00e3o bastante diferente daquela que o capitalismo nascente deveria impor para justificar a explora\u00e7\u00e3o cada vez mais intensiva da natureza e que encontraria sua express\u00e3o m\u00e1xima nos <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Princ\u00edpios de filosofia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> de Ren\u00e9 Descartes.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Um homem a quem Katarina Kepler pediu que jogasse esterco em sua terra, e que n\u00e3o p\u00f4de faz\u00ea-lo porque estava sem tempo, perdeu um porco, e agora a culpava por isso. O caso acontecera em 1590. Um outro, que se recusara oito anos antes a carregar feno para Katarina Kepler, tinha visto seu cavalo adoecer. O animal se recuperara, mas ainda assim ele a acusou formalmente. Um outro ainda a acusava de ter matado seus filhos dez anos antes, pois ela fora \u00e0 sua casa quando estavam doentes para oferecer conselhos sobre como trat\u00e1-los, mas eles haviam morrido.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em meio a todas essas acusa\u00e7\u00f5es, surgiu um relato mais substancial: dezoito anos antes, Katarina Kepler procurara o coveiro de Leonberg para pedir que desenterrasse o seu pai, com o objetivo de usar seu cr\u00e2nio para fazer uma ta\u00e7a de prata que queria presentear a seu filho Johannes, que na \u00e9poca era astr\u00f4nomo imperial em Praga (Rublack, 2015, pp. 170-171). Cr\u00e2nios eram considerados objetos de feiti\u00e7aria e, embora seja compreens\u00edvel que ela quisesse presentear seu filho com um objeto pitoresco que n\u00e3o era incomum nas cortes por onde ele circulava, essa acusa\u00e7\u00e3o acabou por revelar-se grav\u00edssima.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Redigindo sua defesa, Johannes Kepler procurava pelos motivos que teriam levado sua m\u00e3e a ser de tal forma perseguida em Leonberg: \u201cuma vi\u00fava com muitas crian\u00e7as pequenas, que se alimentava escassamente, cuidava de sua terra e defendia seus interesses, tendo sido muitas vezes arrastada para querelas v\u00e1rias, infelicidade e inimizade\u201d (Rublack, 2015, p. 126). O processo movido contra Katarina Kepler nos mostra que, embora ela n\u00e3o fosse exatamente uma mulher pobre, era uma vi\u00fava, que trabalhava duramente na pequena terra que possu\u00eda, conhecia as plantas e fazia infus\u00f5es que se dispunha a partilhar com quem precisasse (afinal, Ursula Reinbold n\u00e3o era uma pessoa pr\u00f3xima dela) e que eventualmente recorria aos vizinhos para pedir alguma ajuda em momentos mais dif\u00edceis. Era tamb\u00e9m uma mulher ativa, falante e de opini\u00f5es fortes. Isso corresponde bem de perto \u00e0 descri\u00e7\u00e3o que Federici faz das mulheres que foram perseguidas neste per\u00edodo de cercamentos e expropria\u00e7\u00f5es:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cQuanto aos crimes diab\u00f3licos das bruxas, eles n\u00e3o nos parecem mais do que a luta de classes desenvolvida na escala do vilarejo: o \u201cmau olhado\u201d, a maldi\u00e7\u00e3o do mendigo a quem se negou a esmola, a inadimpl\u00eancia no pagamento do aluguel, a demanda por assist\u00eancia p\u00fablica. [&#8230;] Encontramos um padr\u00e3o similar na Esc\u00f3cia, onde as acusadas tamb\u00e9m eram <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">cottars<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> pobres, que ainda possu\u00edam um peda\u00e7o de terra pr\u00f3prio, mas que mal sobreviviam, frequentemente despertando a hostilidade de seus vizinhos [&#8230;]\u201d (Federici, 2017, pp. 310-311).<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No mundo que presenciava o advento do capitalismo, Johannes Kepler identificou uma impaci\u00eancia crescente com as mulheres idosas: \u201cna vis\u00e3o dos jovens, este mundo vil j\u00e1 durou tempo demais, e na sua idade avan\u00e7ada se tornou moroso, como no vulgar e anticrist\u00e3o prov\u00e9rbio: r\u00e1pido para a estaca com as mulheres velhas\u201d (Kepler, Apud. Rublack, 2015, p. 127). Severin Stahl, um dos ju\u00edzes leigos do processo, chegou a afirmar que \u201cn\u00e3o era a idade de Katarina Kepler que levantava suspeita, mas suas andan\u00e7as incessantes e intrus\u00f5es nas casas alheias\u201d (Rublack, 2015, p. 219). Katarina Kepler tamb\u00e9m se recusou a chorar no interrogat\u00f3rio, atitude que era associada ao comportamento de uma bruxa. Na ocasi\u00e3o, ela teria respondido ao juiz: \u201cEu j\u00e1 chorei tanto, que agora n\u00e3o posso mais chorar\u201d (Rublack, 2015, p. 220).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Consta no processo a reza que Katarina Kepler dizia para seus filhos quando eles estavam gravemente doentes, e que tamb\u00e9m recomendou ao a\u00e7ougueiro. A reza acabou sendo considerada in\u00f3cua pelo tribunal:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cDeus me seja bem-vindo<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No Sol e nos dias ensolarados<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Voc\u00ea cavalga em nossa dire\u00e7\u00e3o<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Eis aqui um humano, permita-se ser indagado<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Deus, Pai, Filho e Esp\u00edrito Santo<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">E a Sant\u00edssima Trindade<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">D\u00ea a essa pessoa sangue e carne<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">E tamb\u00e9m uma boa sa\u00fade\u201d (Rublack, 2015, p. 202).<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nessa reza chama a aten\u00e7\u00e3o a men\u00e7\u00e3o ao Sol, afinal, seu filho foi um dos mais prol\u00edficos defensores do sistema helioc\u00eantrico de Cop\u00e9rnico. Certamente n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel provar a partir disso que foi por influ\u00eancia de Katarina Kepler que Johannes se tornou um copernicano, mas esse \u00e9 um ponto que se soma a outros apontados acima para indicar que Katarina Kepler deve de fato ter exercido alguma influ\u00eancia significativa no pensamento do mais filos\u00f3fico dos astr\u00f4nomos da Revolu\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Katarina Kepler, magra, de cabelos brancos e sem dentes foi presa na casa de sua filha Margaretha e do pastor Binder na manh\u00e3 de 7 de agosto de 1620. Ela foi encontrada nua, escondida dentro de um ba\u00fa sob o abrigo de um cobertor (Rublack, 2020, p. 200). Inicialmente, ficou presa em Stuttgart, mas seus filhos conseguiram evitar que ela ficasse na tem\u00edvel \u201ctorre dos ladr\u00f5es\u201d. Ainda assim, ela permaneceu acorrentada \u00e0 parede, e a argola de metal feriu sua perna. Em uma ocasi\u00e3o, ela pediu ovos a sua filha Margaretha, pois n\u00e3o suportava a comida do c\u00e1rcere (Rublack, 2015, p. 199). Em dezembro de 1620 foi transferida para uma cela na cidade de G\u00fcglingen, onde permaneceu at\u00e9 o ver\u00e3o de 1621. Johannes Kepler trabalhou na defesa de sua m\u00e3e em T\u00fcbingen, onde p\u00f4de contar com a ajuda do eminente advogado Christoph Besold, seu velho amigo. No dia 28 de setembro de 1621, Katarina Kepler foi levada \u00e0 c\u00e2mara de tortura e os instrumentos foram mostrados a ela. Mesmo assim, nada confessou. Seis dias depois, ela foi libertada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Katarina Kepler morreu no dia 13 de abril de 1622, em Leonberg, aos 75 anos de idade.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/b><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>Link para acesso ao processo de acusa\u00e7\u00e3o de Katarina Kepler:<\/b><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400\">Landesarchiv Baden-W\u00fcrttemberg<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">: 209 B\u00fc 1054-56: <\/span><a href=\"http:\/\/www.landesarchiv-bw.de\/plink\/?f=1-1224228\"><span style=\"font-weight: 400\">http:\/\/www.landesarchiv-bw.de\/plink\/?f=1-1224228<\/span><\/a><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Caspar, M. (1993). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Kepler<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Nova York: Dover.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Cassirer, E. (2001). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Indiv\u00edduo e cosmos na filosofia do Renascimento<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, S\u00e3o Paulo: Martins Fontes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Cond\u00e9, M. (2019). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Eu,Tituba, bruxa negra de Salem<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Federici, S. (2017). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Calib\u00e3 e a bruxa<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, S\u00e3o Paulo: Ed. Elefante.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">________. (2019). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Mulheres e ca\u00e7a \u00e0s bruxas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, S\u00e3o Paulo: Boitempo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Galchen, R. (2022). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Everyone knows your mother is a witch<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [Todo mundo sabe que sua m\u00e3e \u00e9 uma bruxa], Nova York: Picador.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Galilei, G. (2001). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Di\u00e1logo sobre os dois m\u00e1ximos sistemas de mundo, ptolomaico e copernicano<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, S\u00e3o Paulo: Discurso Editorial.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Hutton, S. (2004). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Anne Conway, a woman philosopher <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">[Anne Conway, uma mulher fil\u00f3sofa], Cambridge: Cambridge University Press.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Kepler, J. (1976). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The harmony of the world <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">[Harmonia do mundo], La Vergue: American Philosophical Society.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">_______. (2018). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Johannes Kepler Opera Omnia <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">[Obras completas], Vol VIII, Londres: Forgotten Books.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Koestler, A. (1989). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O homem e o universo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, S\u00e3o Paulo: Ibrasa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Merchant, C. (1980). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The death of nature<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [A morte da natureza], Nova York: Harper and Row.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Perrot, M. (2019). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Minha hist\u00f3ria das mulheres<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, S\u00e3o Paulo: Contexto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Rolnik, S. (2023). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Esferas da insurrei\u00e7\u00e3o &#8211; notas para uma vida n\u00e3o cafetinada<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, S\u00e3o Paulo: n-1 Edi\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Rublack, U. (2015) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The astronomer and the witch<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [O astr\u00f4nomo e a bruxa], Oxford: Oxford University Press.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":360,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","inline_featured_image":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"class_list":["post-1803","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1803","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/360"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1803"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1803\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1806,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1803\/revisions\/1806"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1803"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}