{"id":1875,"date":"2023-12-03T12:16:30","date_gmt":"2023-12-03T15:16:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/?page_id=1875"},"modified":"2023-12-03T12:16:30","modified_gmt":"2023-12-03T15:16:30","slug":"gertrude-elizabeth-margaret-anscombe","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/gertrude-elizabeth-margaret-anscombe\/","title":{"rendered":"Gertrude Elizabeth Margaret Anscombe"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><b>Gertrude Elizabeth Margaret Anscombe<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><span style=\"font-weight: 400\">(1919 &#8211; 2001)<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">por Beatriz Sorrentino Marques,\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">professora da Universidade Federal de Mato Grosso &#8211; <\/span><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/3212263361966390\"><span style=\"font-weight: 400\">Lattes<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/12\/Gertrude-Elizabeth-Margaret-Anscombe-PDF.docx.pdf\">Gertrude Elizabeth Margaret Anscombe &#8211; PDF<\/a><\/p>\n<figure id=\"attachment_1876\" aria-describedby=\"caption-attachment-1876\" style=\"width: 409px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1876\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/12\/unnamed-1.png\" alt=\"\" width=\"409\" height=\"707\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/12\/unnamed-1.png 409w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2023\/12\/unnamed-1-174x300.png 174w\" sizes=\"(max-width: 409px) 100vw, 409px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1876\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Capa da Tradu\u00e7\u00e3o Brasileira de Intention de G. E. M. Anscombe<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Este verbete visa apresentar um breve <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">recorte<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> da vida e obra de Gertrude Elizabeth Margaret Anscombe. Ela nasceu em 18 de mar\u00e7o de 1919, Limerick, Irlanda, numa fam\u00edlia anglicana e de classe m\u00e9dia, e faleceu em 5 de janeiro de 2001, em Cambridge, Inglaterra. Anscombe frequentou a escola Sydenham School e depois estudou na Universidade de Oxford. No final da gradua\u00e7\u00e3o, casou-se com o tamb\u00e9m fil\u00f3sofo Peter Geach, com quem teria sete filhos, mas sempre preferiu ser chamada pelo pr\u00f3prio sobrenome. Ela lecionou na sua <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">alma mater <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">at\u00e9 assumir a cadeira de Wittgenstein, seu professor e amigo, na Universidade de Cambridge, em 1970.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A fil\u00f3sofa escreveu <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Modern Moral Philosophy <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">[Filosofia Moral Moderna] (1958), que trouxe a \u00c9tica das Virtudes aristot\u00e9lica de volta para as discuss\u00f5es da \u00e9tica contempor\u00e2nea,<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> The First Person<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> ([1975]1981) e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">An Introduction to Wittgenstein\u2019s Tractatus <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(1959). Al\u00e9m disso, o seu livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Inten\u00e7\u00e3o <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(1957b) criou a \u00e1rea da filosofia da a\u00e7\u00e3o como disciplina acad\u00eamica contempor\u00e2nea. As quest\u00f5es tratadas nele ditam a agenda dessa \u00e1rea at\u00e9 hoje. Contudo, os interesses de Anscombe em filosofia eram amplos. Ela escreveu artigos muito citados e proferiu palestras sobre temas desde a causa\u00e7\u00e3o, a percep\u00e7\u00e3o e a primeira pessoa at\u00e9 quest\u00f5es sobre religi\u00e3o, dignidade humana, aborto e eutan\u00e1sia. A maioria pode ser encontrada em cole\u00e7\u00f5es de ensaio como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">From Parmenides to Wittgenstein, Human Life, Action, and Ethics: Essays by G. E. M. Anscombe<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e outras cole\u00e7\u00f5es organizadas por Mary Geach e Luke<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">Gormally.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Inf\u00e2ncia, fam\u00edlia e contexto<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Elizabeth Anscombe teve, de modo geral, uma inf\u00e2ncia comum, com dois irm\u00e3os, eles g\u00eameos, e o pai professor de escola (Lipscomb, 2022, p. 51). A exce\u00e7\u00e3o \u00e0 norma era personificada em sua m\u00e3e, Gertrude Anscombe (n\u00e9e Thomas), que era progressista para a \u00e9poca em termos de educa\u00e7\u00e3o formal para as mulheres. Ela havia frequentado a universidade, embora tenha sido em um per\u00edodo em que as mulheres n\u00e3o podiam receber um diploma de gradua\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, foi professora e diretora de uma escola antes de se casar (Cumhaill e Wiseman, 2022, pp. 25-26).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Quando crian\u00e7a, Gertrude Thomas (m\u00e3e de Elizabeth Anscombe) teve uma educa\u00e7\u00e3o pouco usual para uma menina. Cumhaill e Wiseman relatam que quando ela era pequena, a fam\u00edlia desistiu de ter governantas por n\u00e3o poder proteg\u00ea-las das insistentes \u201caten\u00e7\u00f5es\u201d (2022, p. 25) do tio das crian\u00e7as. A fam\u00edlia precisou optar por um arranjo pouco ortodoxo, em que o tutor homem ensinava tanto aos garotos como a Gertrude Thomas as mesmas mat\u00e9rias, o que resultou no dom\u00ednio pouco usual da menina de grego e de latim, algo raro na educa\u00e7\u00e3o das mulheres (Cumhaill e Wiseman, 2022, p. 26).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Essa era uma distin\u00e7\u00e3o marcante a respeito da educa\u00e7\u00e3o de meninos e meninas naquela \u00e9poca. Os primeiros aprendiam as l\u00ednguas mortas, exigidas para o acesso a cursos concorridos nas grandes universidades, como Cambridge e Oxford, enquanto que as \u00faltimas aprendiam franc\u00eas e, quando tinham idade para ir \u00e0 escola, estudavam tamb\u00e9m hist\u00f3ria e literatura. Isso contribu\u00eda para afastar as mulheres dos cursos mais prestigiosos. Como lembra Lipscomb (2022, p. 28), esse \u00e9 um exemplo de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">controle de acesso<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [gatekeeping] em que o acesso n\u00e3o \u00e9 proibido, mas as condi\u00e7\u00f5es para de fato acessar os cursos, embora pare\u00e7am razo\u00e1veis, em conjunto com a realidade social, tornam quase imposs\u00edvel para as mulheres faz\u00ea-lo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O grande objetivo da prepara\u00e7\u00e3o dos jovens rapazes que tinham condi\u00e7\u00f5es financeiras de ir para a universidade era justamente ingressar nas institui\u00e7\u00f5es inglesas de excel\u00eancia, em especial num curso como<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> Honour Moderations and Literae Humaniores <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(Letras Cl\u00e1ssicas), conhecido simplesmente como<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> Greats<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, ou <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Mods and Greats<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (Lipscomb, 2022, p. 28). O curso abordava cl\u00e1ssicos e humanidades e preparava para profiss\u00f5es de grande notoriedade no servi\u00e7o p\u00fablico, pol\u00edtica e diplomacia, bem como outras ocupa\u00e7\u00f5es importantes (Lipscomb, 2022, pp. 28-29). Quando ingressou na Universidade de Oxford em 1937, na faculdade de St. Hugh, Elizabeth Anscombe p\u00f4de trilhar esse prestigioso caminho acad\u00eamico pois Gertrude Anscombe (n\u00e9e Thomas), sua m\u00e3e, havia ensinado as l\u00ednguas mortas aos seus filhos e tamb\u00e9m \u00e0 sua filha, e insistiu que ela continuasse estudando grego quando estava na escola Sydenham School (Cumhaill e Wiseman, 2022, p. 26).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Lipscomb relata que aos doze anos Elizabeth Anscombe se interessou pelas hist\u00f3rias de m\u00e1rtires cat\u00f3licos. A religi\u00e3o cat\u00f3lica passou a ser um aspecto importante de sua vida e, posteriormente, de muitas de suas reflex\u00f5es filos\u00f3ficas. \u00c9 importante notar que ainda havia consider\u00e1vel preconceito aberto contra cat\u00f3licos na Inglaterra antes dos anos cinquenta. Mesmo assim, a menina leu diversos livros sobre o tema e se aproximou do catolicismo e da ideia da convers\u00e3o (Lipscombe, 2022, p. 50). Seus pais se opuseram fortemente, mas tinham dificuldade para argumentar com a filha adolescente que j\u00e1 era r\u00e1pida e sagaz (Lipscombe, 2022, p. 51). Elizabeth Anscombe \u00e9 comumente descrita como uma grande presen\u00e7a intelectual (Cumhaill e Wiseman, 2022, p. 218) e parece t\u00ea-lo sido desde muito jovem. Quando foi para Oxford, ela finalmente se converteu, apesar da amea\u00e7a dos pais de que n\u00e3o pagariam por seus estudos se ela o fizesse, algo que sua m\u00e3e jamais cumpriria (Lipscombe, 2022, pp. 52-3). Anscombe (doravante usarei apenas Anscombe para me referir a Elizabeth Anscombe) seguiu na universidade at\u00e9 se formar em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Greats<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, que exigia dom\u00ednio do grego e do latim.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Embora as Universidades de Oxford e de Cambridge sejam universidades medievais (a de Oxford tem quase mil anos), Cambridge s\u00f3 passou a emitir diplomas para mulheres em 1948, enquanto que Oxford \u201cj\u00e1\u201d o fazia em 1920 (Lipscombe, 2022, p. 24). Isso n\u00e3o significa que antes disso as mulheres estivessem totalmente proibidas de frequentar a universidade, contudo, n\u00e3o recebiam o diploma e poucas frequentavam afinal, pois havia uma s\u00e9rie de restri\u00e7\u00f5es, muitas sociais. Quando passaram a receber o diploma, Lipscomb explica que havia limites. Por receio da <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">feminiza\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> da universidade, em Oxford foi imposta a regra de que as estudantes poderiam totalizar apenas um quarto do total de estudantes.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Com o in\u00edcio da Segunda Guerra, contudo, a demografia da universidade sofreu uma enorme altera\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que muitos homens foram enviados para a guerra ou para os esfor\u00e7os de guerra, inclusive muitos professores (Lipscombe, 2022, p. 38). As mulheres, ao contr\u00e1rio, eram encorajadas a terminarem suas gradua\u00e7\u00f5es. Com os homens ausentes, era preciso que elas tomassem seus lugares no servi\u00e7o p\u00fablico, trabalhos administrativos e planejamento relacionado \u00e0 vida civil e aos suprimentos (Lipscombe, 2022, p. 39). Em Oxford, as mulheres passaram a compor a maioria dos estudantes avan\u00e7ados e se tornaram, finalmente, o foco da aten\u00e7\u00e3o dos tutores, at\u00e9 mesmo dos de grande fama acad\u00eamica e que por alguma raz\u00e3o n\u00e3o tinham sido convocados (Lipscombe, 2022, p. 49). Isso deu a elas um acesso \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de excel\u00eancia, antes inimagin\u00e1vel.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>A jovem fil\u00f3sofa<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em 1941, Anscombe concluiu a gradua\u00e7\u00e3o no mais alto estrato de notas (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">First Class<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">) e se casou com Peter Geach (Cumhaill e Wiseman, 2022, pp. 86-7). Ele foi recrutado para os esfor\u00e7os de guerra pouco tempo depois, enquanto que ela seguiu para a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. O casal enfrentava grandes dificuldades financeiras na \u00e9poca. Cumhaill e Wiseman (2022, p. 98) relatam que Anscombe j\u00e1 vinha enfrentando dificuldades ap\u00f3s a morte de seu pai, em 1939, at\u00e9 mesmo para terminar a gradua\u00e7\u00e3o e, embora tivesse uma bolsa Gilchrist, o dinheiro era muito pouco, mesmo somado ao que recebia pelas tutorias que assumiu em Oxford depois de graduada. Em 1942, lhe foi concedida uma bolsa Sara Smithson para estudar em Cambridge, sem incompatibilidade com a continua\u00e7\u00e3o de suas atividades de doutorado em filosofia em Oxford. Gr\u00e1vida da primeira filha, Anscombe passou a fazer o trajeto Oxford-Cambridge (Cumhaill e Wiseman, 2022, p. 99). Em 1944, contudo, ela perdeu a bolsa, voltando \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de dificuldade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No ano seguinte, Anscombe frequentou o curso de Ludwig Wittgenstein em Cambridge. A rela\u00e7\u00e3o que eles desenvolveram teve enorme significado para os dois, pois eles compartilhavam uma atitude similar em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 filosofia (Cumhaill e Wiseman, 2022, p. 124). A amizade e parceria entre os dois se estabeleceu na filosofia e fora dela. Quando Wittgenstein faleceu, em 1951, ele deixou os direitos de publica\u00e7\u00e3o de suas obras aos cuidados de Anscombe e mais dois alunos (Cumhaill e Wiseman, 2022, p. 242). Ficou a cargo dela traduzir para o ingl\u00eas as <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Investiga\u00e7\u00f5es Filos\u00f3ficas <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(1953). A fil\u00f3sofa manteve as ideias de Wittgenstein vivas em seu pr\u00f3prio trabalho filos\u00f3fico, contudo, \u00e9 importante notar que Anscombe n\u00e3o foi apenas uma aluna de Wittgenstein, ela desenvolveu suas pr\u00f3prias ideias, um m\u00e9todo original e um estilo pr\u00f3prio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Outras grandes influ\u00eancias para Anscombe foram suas amigas Philippa Foot, <\/span><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/filosofas\/iris-murdoch\/\"><span style=\"font-weight: 400\">Iris Murdoch<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\"> e Mary Midgley. As quatro estudaram na Universidade de Oxford na mesma \u00e9poca. Elas discutiam sobre filosofia regularmente e encontraram afinidades a respeito das quest\u00f5es que as incomodavam e das dificuldades que percebiam nas teorias que tentavam abord\u00e1-las. Essas conversas seguiram mesmo depois da gradua\u00e7\u00e3o (Cumhaill e Wiseman, 2022, pp. 186-7; Lipscomb, 2022, pp. 99-100) e alguns dos temas que elas discutiam informalmente aparecem nos trabalhos publicados das fil\u00f3sofas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Um dos temas de discuss\u00e3o era a vis\u00e3o cr\u00edtica que elas compartilhavam da filosofia proposta por Alfred J. Ayer em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Language, truth and logic<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> ([1936]1972) e, posteriormente, por John L. Austin em<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> How to do things with words<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1962) e da \u00e9tica de Richard Hare (Cumhaill e Wiseman, 2022, p. 186; Lipscomb, 2022, p. 100). Pouco antes da guerra, Ayer havia trazido para Oxford ideias que ele desenvolveu quando frequentou o C\u00edrculo de Viena em 1933. A influ\u00eancia de Viena na Inglaterra j\u00e1 havia come\u00e7ado em Cambridge antes disso. No in\u00edcio dos anos de 1930, a l\u00f3gica Susan Stebbing se interessou pelo trabalho do c\u00edrculo de Viena antes de seus colegas homens (Cumhaill e Wiseman, 2022, p. 46). Ela se preocupava com a educa\u00e7\u00e3o do p\u00fablico em geral e com como as pessoas poderiam estar melhor equipadas pela an\u00e1lise da linguagem para evitar a manipula\u00e7\u00e3o por meio da propaganda, por exemplo, de guerra, ou de produtos. A busca pela compreens\u00e3o do que significa aquilo que \u00e9 afirmado levou a uma virada metodol\u00f3gica em Cambridge (Cumhaill e Wiseman, 2022, p. 46). Apesar da reconhecida compet\u00eancia de Stebbing, sua aplica\u00e7\u00e3o das ferramentas de Viena foi esquecida e ofuscada pela proposta de Ayer, que concluiu que proposi\u00e7\u00f5es podem ser formalizadas para que fiquem claras e depois verificadas empiricamente, e aquelas que n\u00e3o puderem ser analisadas dessa forma n\u00e3o teriam sentido (Cumhaill e Wiseman, 2022, pp. 48-9).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Consequentemente, tais ideias promoveram tamb\u00e9m um duro ataque \u00e0 \u00e9tica, pois n\u00e3o parecia haver observa\u00e7\u00f5es capazes de verificar afirma\u00e7\u00f5es sobre, por exemplo, um dever moral. As proposi\u00e7\u00f5es da \u00e9tica passaram a ser tratadas como sem sentido (Cumhaill e Wiseman, 2022, p. 50). Tal consequ\u00eancia deu in\u00edcio a um subjetivismo moral que tratava julgamentos morais como meras prefer\u00eancias ou express\u00f5es de emo\u00e7\u00f5es. Esse foi um ponto de forte desacordo para Anscombe e suas colegas (Cumhaill e Wiseman, 2022, pp. 186-7).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Richard Hare foi um dos herdeiros imediatos das ideias de Ayer. Ao aceitar a cis\u00e3o entre descri\u00e7\u00f5es de fatos e de valores em sua teoria, ele n\u00e3o defendeu um conjunto de princ\u00edpios \u00e9ticos objetivos. A \u00e9tica seguiu sendo tratada por ele como algo distante dos fatos, sendo assim uma \u00e9tica subjetivista (Lipscomb, 2022, pp. 94-5). Esse passou a ser considerado o paradigma da \u00e9tica de Oxford, \u00e9tica que seria duramente criticada por Anscombe (1957a).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Foot, Murdoch, Midgley e Anscombe conversavam frequentemente sobre o que elas consideravam problem\u00e1tico na filosofia de Oxford, especialmente os pontos relacionados \u00e0 proposta de que n\u00e3o h\u00e1 objetividade moral que permita verificar se uma asser\u00e7\u00e3o \u00e9tica \u00e9 verdadeira ou falsa (Cumhaill e Wiseman, 2022, pp. 185-6). O debate entre as fil\u00f3sofas visava n\u00e3o apenas criticar a posi\u00e7\u00e3o vigente, mas tamb\u00e9m encontrar uma maneira de resgatar as verdades morais, reaproximando a moral das quest\u00f5es relevantes da vida. N\u00e3o \u00e9 por acaso que esse problema lhes era caro. No p\u00f3s-guerra, parecia-lhes que deveria ser poss\u00edvel para a filosofia discutir os horrores da guerra e afirmar que tinham sido <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">moralmente<\/span><\/i> <i><span style=\"font-weight: 400\">erradas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> as barbaridades perpetradas pelos nazistas (Cumhaill e Wiseman, 2022, p. 186). Afinal, era estranho que a \u00e9tica deixasse essas quest\u00f5es \u00e0 merc\u00ea do subjetivismo. Para avan\u00e7ar na discuss\u00e3o, contudo, Cumhaill e Wiseman ressaltam que era preciso tratar da metaf\u00edsica que fundamenta a \u00e9tica para reaproximar valor de fato (2022, p. 187).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A descri\u00e7\u00e3o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">rude<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> foi por isso muito discutida pelo quarteto. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Rude<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> \u00e9 uma descri\u00e7\u00e3o que pode ser apoiada por evid\u00eancias, por exemplo, \u201cele \u00e9 uma pessoa rude, pois muitas vezes o vi deliberadamente n\u00e3o responder quando lhe desejam um bom dia\u201d. As a\u00e7\u00f5es da pessoa d\u00e3o evid\u00eancia de sua rudeza, contudo, atribuir o adjetivo rude a algu\u00e9m \u00e9 tamb\u00e9m uma avalia\u00e7\u00e3o negativa, j\u00e1 que consideramos que agir de maneira rude \u00e9 reprov\u00e1vel (Lipscomb, 2022, p. 100). Portanto, \u00e9 importante perceber que a pr\u00f3pria aplica\u00e7\u00e3o do termo rude requer a compreens\u00e3o dessa avalia\u00e7\u00e3o negativa e n\u00e3o faria sentido dizer que algumas pessoas usam o termo rude para avaliar bem as a\u00e7\u00f5es. Mesmo em um caso em que podemos avaliar que ela agiu bem ao ser rude, por exemplo, com um assediador, estamos justamente dizendo que ela fez bem em ter uma rea\u00e7\u00e3o proporcionalmente ruim em resposta a algu\u00e9m que estava se comportando mal com ela. Portanto, mesmo que seja um termo avaliativo, a avalia\u00e7\u00e3o que rude encerra \u00e9 apoiada em fatos, i.e., nas evid\u00eancias. Anscombe (1958) depois publica um exemplo em que a pessoa deve dinheiro ao verdureiro, sendo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">dever<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> um termo avaliativo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em conclus\u00e3o, o uso da linguagem n\u00e3o segue uma regra espec\u00edfica que d\u00e1 significado \u00e0s palavras, porque a linguagem surge das pr\u00e1ticas da vida, algo que n\u00e3o pode ser simplificado em um conjunto de regras (Lipscombe, 2022, p. 121). Nas complexas pr\u00e1ticas da vida humana, Lipscomb enfatiza que n\u00e3o separamos o aspecto descritivo do aspecto avaliativo da rudeza e tampouco faz sentido tentar fazer essa separa\u00e7\u00e3o nas palavras. \u00c9 poss\u00edvel ver nessas ideias a influ\u00eancia das ideias que Wittgenstein apresenta nas <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Investiga\u00e7\u00f5es Filos\u00f3ficas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Obras<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Inten\u00e7\u00e3o <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">tem sido considerado a obra central de Anscombe. Como dito acima, a fil\u00f3sofa escreveu sobre diversos temas da filosofia. No entanto, como n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel abordar todos eles, manterei o foco em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Inten\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e nos textos que ajudam a compreend\u00ea-lo.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol>\n<li><b> A filosofia moral de Oxford corrompe a juventude?\u00a0<\/b><\/li>\n<\/ol>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O estado da \u00e9tica contempor\u00e2nea foi o tema do programa de r\u00e1dio da BCC no qual Anscombe, em 1957, respondeu se a filosofia moral da Universidade de Oxford corrompe a juventude [\u2018Does Oxford moral philosophy corrupt the youth?\u2019]. A conclus\u00e3o foi negativa, mas apenas porque Anscombe julgava que a filosofia de Oxford estava de acordo com as ideias morais do pa\u00eds (Wiseman, 2016, p. 32; Lipscomb, 2022, p. 159). Subentende-se que estava t\u00e3o de acordo, que n\u00e3o poderia corromper a juventude para al\u00e9m do que as ideias morais da cultura vigente j\u00e1 corrompiam.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Um ano antes, a Universidade de Oxford havia decidido conceder um t\u00edtulo honor\u00edfico a Harry Truman, que foi presidente dos EUA durante o final da Segunda Guerra e foi respons\u00e1vel por assinar a ordem de lan\u00e7ar bombas at\u00f4micas em Hiroshima e Nagasaki. Anscombe foi veementemente contra a homenagem, ao contr\u00e1rio da grande maioria de seus colegas, que parecia aceitar bem a proposta (Lipscomb, 2022, pp. 56-7). Homenagear algu\u00e9m que ela considerava um assassino era um exemplo das ideias morais da sociedade \u00e0s quais Anscombe havia se referido na BBC (Cumhaill e Wiseman, 2022, p. 4). Sobre a homenagem, ela escreveu um manifesto, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Mr. Truman\u2019s Degree<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O diploma do Senhor Truman<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">] (1956), argumentando que n\u00e3o se deve conceder honras a um homem afamado por dois massacres, tampouco elogiar tais a\u00e7\u00f5es por meio de honrarias. Os desdobramentos de suas reflex\u00f5es filos\u00f3ficas sobre o tema apareceriam ainda em renomados trabalhos seus como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Inten\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1957b) e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Filosofia Moral Moderna<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1958), que Lipscomb lembra que \u00e9 um dos artigos mais citados do s\u00e9culo XX.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para dizer no programa da BBC que Oxford estava corrompendo a juventude, seria preciso mostrar que os jovens teriam tido ideias melhores sem a Universidade de Oxford por meio da forma\u00e7\u00e3o na sociedade e na fam\u00edlia. Mas, de modo geral, aquilo que era defendido pela filosofia moral em Oxford era similar \u00e0s ideias da sociedade; portanto, Oxford n\u00e3o podia estar corrompendo a juventude (Anscombe, 1957a). Anscombe era bastante afeita \u00e0 ironia e ao sarcasmo, inclusive em seus textos, mas a fala era uma cr\u00edtica \u00e0 \u00e9tica de Oxford.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><b> Filosofia Moral Moderna<\/b><\/li>\n<\/ol>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Filosofia Moral Moderna<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1958), Anscombe chega \u00e0 conclus\u00e3o de que era necess\u00e1rio investigar as inten\u00e7\u00f5es para que fosse poss\u00edvel avan\u00e7ar na \u00e9tica. A \u00e9tica, no tempo em que a fil\u00f3sofa escreveu, tinha duas posi\u00e7\u00f5es fortes, a deontologia e o que Anscombe chamou de consequencialismo, cunhando o famoso termo (Wiseman, 2016, pp. 32-3). No artigo, ela rejeita as duas posi\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">doutrina do duplo efeito<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (ou do efeito colateral) \u00e9 fundamental para entender a rejei\u00e7\u00e3o do consequencialismo e a parte da motiva\u00e7\u00e3o para escrever <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Inten\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Wiseman (2016, pp. 18 e 39) explica que essa \u00e9 uma doutrina cat\u00f3lica, associada a Tom\u00e1s de Aquino, que diz que se um evento proibido adv\u00e9m de maneira previs\u00edvel, mas n\u00e3o intencional, de uma a\u00e7\u00e3o, isso n\u00e3o torna a a\u00e7\u00e3o proibida. J\u00e1 se a consequ\u00eancia proibida \u00e9 intencional, ent\u00e3o a a\u00e7\u00e3o \u00e9 proibida. O exemplo de Anscombe (1982) \u00e9 um caso imagin\u00e1rio em que uma pessoa est\u00e1 presa entre rochas, bloqueando a sa\u00edda de uma caverna que est\u00e1 inundando, e h\u00e1 outras pessoas dentro da caverna que morrer\u00e3o afogadas junto com a pessoa que est\u00e1 bloqueando a sa\u00edda. Para a fil\u00f3sofa, est\u00e1 claro que n\u00e3o \u00e9 permitido explodir tal pessoa com dinamite para liberar a sa\u00edda, matando-a intencionalmente, mesmo que isso salve as demais. Isso constituiria assassinato. Contudo, no exemplo, \u00e9 poss\u00edvel criar outra sa\u00edda; basta mover certa pedra em outro lugar da caverna. Dada a posi\u00e7\u00e3o da pedra, \u00e9 previs\u00edvel que, ao ser deslocada, ela cair\u00e1 e esmagar\u00e1 a cabe\u00e7a da pessoa presa entre as rochas, matando-a. Nesse caso, entretanto, Anscombe (1982) aceita que n\u00e3o h\u00e1 inten\u00e7\u00e3o de mat\u00e1-la, seria um infort\u00fanio, por isso, a a\u00e7\u00e3o \u00e9 permitida, mesmo que a morte seja previs\u00edvel. Por\u00e9m, as circunst\u00e2ncias s\u00e3o relevantes para quais descri\u00e7\u00f5es da a\u00e7\u00e3o o agente deve aceitar (Anscombe, 1982). De algumas consequ\u00eancias da a\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se pode dizer que n\u00e3o foram intencionais, por exemplo, se, ao mover a pedra, ela imediatamente esmagar\u00e1 a cabe\u00e7a da pessoa presa, n\u00e3o se pode dizer que a consequ\u00eancia \u00e9 apenas previs\u00edvel.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Isso mostra por que Anscombe considerava a a\u00e7\u00e3o de Truman t\u00e3o grave. Com o bombardeio, Truman tinha a inten\u00e7\u00e3o de matar milhares de pessoas, o que, sup\u00f5e-se, ele esperava que levaria \u00e0 rendi\u00e7\u00e3o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">incondicional<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> do Jap\u00e3o. Para Anscombe, como vimos, isso constitui assassinato. Caso ele tivesse optado por ordenar uma invas\u00e3o ao Jap\u00e3o para for\u00e7ar sua rendi\u00e7\u00e3o, era previs\u00edvel que muita gente morresse, talvez tamb\u00e9m milhares (Anscombe, 1956), mas isso seria uma consequ\u00eancia desafortunada, n\u00e3o a sua inten\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Havia, portanto, um problema de filosofia da psicologia para Anscombe, pois, Schwenkler (2019) ressalta que como a filosofia moral do tempo n\u00e3o fazia distin\u00e7\u00e3o entre consequ\u00eancias previstas e consequ\u00eancias intencionais, ent\u00e3o tratava todas as consequ\u00eancias como intencionalmente provocadas. Sendo assim, a distin\u00e7\u00e3o entre esses tipos de consequ\u00eancias n\u00e3o podia contribuir para a avalia\u00e7\u00e3o moral da a\u00e7\u00e3o e restava apenas olhar para qual consequ\u00eancia era menos danosa. Por\u00e9m, para a fil\u00f3sofa, quando certa consequ\u00eancia vai se seguir de uma a\u00e7\u00e3o que realizamos, faz diferen\u00e7a saber se tal consequ\u00eancia \u00e9 intencionalmente provocada (Schwenkler, 2019, XIX). Era necess\u00e1ria uma investiga\u00e7\u00e3o da inten\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Contudo, como vimos, a pr\u00f3pria avalia\u00e7\u00e3o moral de a\u00e7\u00f5es era problem\u00e1tica por causa da cis\u00e3o entre fatos e valores, tema que preocupava Anscombe e suas amigas fil\u00f3sofas. A quest\u00e3o sobre como as avalia\u00e7\u00f5es podem ser factuais e n\u00e3o meramente subjetivas aparece tamb\u00e9m em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Filosofia Moral Moderna<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Anscombe defende que h\u00e1 um pano de fundo complexo de pr\u00e1ticas da vida humana que fazem com que, dado certo contexto, afirma\u00e7\u00f5es sobre valores sejam verdadeiras (Wiseman, 2016, p. 42). O exemplo \u00e9 o caso em que o verdureiro entrega batatas na casa dela e ela, ent\u00e3o, deve dinheiro ao verdureiro. Dever dinheiro \u00e9 uma avalia\u00e7\u00e3o (ela deve pagar) e, se ela n\u00e3o pagar, pode at\u00e9 ser chamada de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">trapaceira <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(Anscombe, 1958, p. 4). Novamente uma avalia\u00e7\u00e3o (trapacear \u00e9 uma injusti\u00e7a). Para Anscombe, chega-se \u00e0 conclus\u00e3o \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">devo dinheiro<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">por meio de uma s\u00e9rie de fatos que s\u00e3o pr\u00f3prios do contexto institucional (pr\u00e1ticas da vida humana), ao menos na sociedade em que ela escreveu. Para perceber isso, \u00e9 preciso considerar mais do que uma \u00fanica afirma\u00e7\u00e3o at\u00f4mica. \u00c9 preciso aceitar alguns fatos, por exemplo, que ela encomendou batatas e que o verdureiro as entregou, mas, al\u00e9m disso, \u00e9 preciso considerar o contexto de pr\u00e1ticas da vida humana que permitem a uma pessoa encomendar batatas e, se ela as recebe, dizemos que \u00e9 verdadeiro que ela deve dinheiro ao verdureiro (Wiseman, 2016, pp. 42-3) e que seria uma<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> trapaceira<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> se n\u00e3o pagasse.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><b> <\/b><b><i>Inten\u00e7\u00e3o<\/i><\/b><\/li>\n<\/ol>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Embora n\u00e3o trate de quest\u00f5es da \u00e9tica, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Inten\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1957b) \u00e9 um livro cuja preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 a \u00e9tica em grande medida. Vimos que Anscombe conclui que ainda n\u00e3o era frut\u00edfero discutir \u00e9tica, porque era necess\u00e1rio antes esclarecer quest\u00f5es sobre a filosofia da psicologia para que se pudesse avan\u00e7ar adequadamente numa investiga\u00e7\u00e3o \u00e9tica. Por isso, em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Inten\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> ela se dedica \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o da filosofia da psicologia, tentando elucidar o conceito de inten\u00e7\u00e3o. Seu objetivo ent\u00e3o \u00e9 dar os fundamentos que permitam a discuss\u00e3o adequada da \u00e9tica, e isso ela logrou. Anscombe deitou os trilhos para o ressurgimento da \u00c9tica das Virtudes no s\u00e9culo XX.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Colocando de forma simplificada, um dos objetivos do livro \u00e9 elucidar a distin\u00e7\u00e3o entre uma consequ\u00eancia de a\u00e7\u00e3o prevista e uma consequ\u00eancia intencional. Para esclarecer a inten\u00e7\u00e3o para o futuro, esclarecendo assim a distin\u00e7\u00e3o enfatizada pelo duplo efeito, a fil\u00f3sofa precisa se engajar em uma empreitada anti\u2013Cartesiana, mostrando que uma inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um estado mental que pode ser determinado pela vontade do agente (Wiseman, 2016, p. 47). Segundo Wiseman (2016, p. 47) Anscombe questiona que o valor moral da a\u00e7\u00e3o esteja num estado mental que a antecede e prop\u00f5e olhar para a a\u00e7\u00e3o intencional. Afinal, a\u00e7\u00f5es t\u00eam diferentes descri\u00e7\u00f5es, algumas delas s\u00e3o carregadas de valor moral devido ao pano de fundo contextual de institui\u00e7\u00f5es, sociedade, cultura e hist\u00f3ria, ou seja, as pr\u00e1ticas da vida humana que lhe conferem tal descri\u00e7\u00e3o e j\u00e1 lhe atribuem uma avalia\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Assim, Wiseman divide os tr\u00eas t\u00f3picos do livro em tr\u00eas objetivos. O primeiro objetivo do livro trata da doutrina do duplo efeito, que mostra a influ\u00eancia tomista no trabalho de Anscombe, e distingue consequ\u00eancia intencional de previs\u00edvel. J\u00e1 o segundo objetivo trata de investigar a inten\u00e7\u00e3o com a qual o agente age, que n\u00e3o \u00e9 um estado mental ou a vontade. Por fim, o terceiro objetivo \u00e9 oferecer uma explica\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00e3o intencional que permita trat\u00e1-la como virtuosa ou viciosa (Wiseman, 2016, p. 27). No \u00faltimo, percebe-se a influ\u00eancia aristot\u00e9lica em Anscombe, central para a retomada da \u00e9tica das virtudes.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li><b> O m\u00e9todo<\/b><\/li>\n<\/ol>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O m\u00e9todo do livro situa a fil\u00f3sofa em seu tempo, ap\u00f3s a virada lingu\u00edstica. Anscombe, contudo, n\u00e3o adotou a filosofia da linguagem de Austin, muito pelo contr\u00e1rio, ela criticava duramente a ideia de basear a an\u00e1lise de conceitos no uso da linguagem (Cumhaill e Wiseman, 2022, pp. 168-9). A fil\u00f3sofa visa desvelar pressuposi\u00e7\u00f5es escondidas sobre inten\u00e7\u00f5es (Wiseman, 2016, p. 56) e a gram\u00e1tica wittgensteiniana \u00e9 sua influ\u00eancia metodol\u00f3gica (Diamond 2019, pp. 225-6), embora seja importante deixar claro que Anscombe desenvolveu seu pr\u00f3prio m\u00e9todo, mostrando que conceitos intencionais, como inten\u00e7\u00e3o (ou percep\u00e7\u00e3o) esbo\u00e7am, ou delineiam, padr\u00f5es e habilidade que constituem a vida humana (Wiseman, 2022, p. 189). Assim, ela aprimorou e desenvolveu sua investiga\u00e7\u00e3o gram\u00e1tica para mostrar que a linguagem \u00e9 aplicada nas pr\u00e1ticas da vida humana, vivida em um ambiente moral. Que a vida humana se passa em tal ambiente \u00e9 tamb\u00e9m enfatizado pelas fil\u00f3sofas de Oxford de seu tempo, suas amigas Philippa Foot, Iris Murdoch e Mary Midgley.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Um ponto para o qual Wiseman (2016) chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que muitas vezes a chave de leitura sugerida por comentadores do livro n\u00e3o ajuda na sua compreens\u00e3o. Por exemplo, se o projeto que se pensa que Anscombe visa realizar com o livro for mostrar <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">a conex\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (causal) entre os tr\u00eas t\u00f3picos acima listados, o livro parece oferecer rascunhos incompletos (Wiseman, 2016, p. 56). Por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 isso o que a fil\u00f3sofa pretende; os seus objetivos s\u00e3o aqueles listados no final da subse\u00e7\u00e3o anterior. Se interpretamos o livro como visando mostrar a tal conex\u00e3o entre os t\u00f3picos, isso faz parecer que Anscombe faz afirma\u00e7\u00f5es que precisam ser apoiadas por argumentos que ela nunca oferece. Um exemplo de uma afirma\u00e7\u00e3o desse tipo, segundo Wiseman (2016, p. 69), \u00e9 que a\u00e7\u00f5es podem ter diversas descri\u00e7\u00f5es, algumas delas intencionais e outras n\u00e3o. Wiseman defende que, na verdade, essa afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 a descri\u00e7\u00e3o de um requisito que uma explica\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es precisaria satisfazer, pois esse \u00e9 um fato b\u00e1sico sobre identidade e sobre a\u00e7\u00f5es, e se uma explica\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00e3o n\u00e3o puder dar conta disso, precisa ser repensada. \u00c9 uma afirma\u00e7\u00e3o sobre algo t\u00e3o b\u00e1sico que ningu\u00e9m o negaria, por isso, um argumento n\u00e3o acompanha essas afirma\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Por outro lado, Davidson oferece uma teoria da identidade de eventos. Wiseman (2016, p. 67) especula que essa pode ser uma raz\u00e3o pela qual comumente se sup\u00f5e que a teoria de Anscombe pode ser subordinada \u00e0 de Davidson. Ali\u00e1s, \u00e9 comum que a ideia de que eventos t\u00eam diferentes descri\u00e7\u00f5es seja chamada de Davidson-Anscombe. Wiseman sugere que \u00e9 poss\u00edvel que alguns leitores pensem que Anscombe teria apresentado apenas um rascunho da ideia e que Davidson (2001), ent\u00e3o, a desenvolveu como teoria, mas esse n\u00e3o era o caminho que Anscombe estava seguindo, nem o que ela almejava seguir. Ela estava apenas constatando algo elementar; que a\u00e7\u00f5es t\u00eam diferentes descri\u00e7\u00f5es. Equ\u00edvocos similares na aproxima\u00e7\u00e3o entre Anscombe e Davidson s\u00e3o apontados tamb\u00e9m por Jennifer Hornsby (2011) e Naomi Kloosterboer (2022).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"5\">\n<li><b> Outras quest\u00f5es filos\u00f3ficas<\/b><\/li>\n<\/ol>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Anscombe desenvolveu ideias sobre temas diversos da filosofia, como a causa\u00e7\u00e3o (de a\u00e7\u00f5es) ([1983]2005c), verdades pr\u00e1ticas (1999), avalia\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es (2005h), teorias da a\u00e7\u00e3o ([1979]2005a), dentre outros ao longo de sua carreira. Para al\u00e9m das a\u00e7\u00f5es intencionais, Anscombe discutiu diversos assuntos conectados \u00e0 filosofia da mente, como a percep\u00e7\u00e3o ([1965]2002), um dos t\u00f3picos que lhe causou perplexidade desde jovem. Mas ela n\u00e3o se restringiu \u00e0 mente e \u00e0 metaf\u00edsica, \u00e9 famoso tamb\u00e9m o seu artigo sobre a primeira pessoa, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The First Person <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">[A Primeira Pessoa] (1981), em que ela apresenta uma proposta distinta do que habitualmente se encontra na discuss\u00e3o sobre a quest\u00e3o. A fil\u00f3sofa defende que o pronome <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">eu<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> n\u00e3o \u00e9 uma express\u00e3o de refer\u00eancia. Anscombe n\u00e3o acreditava que o uso do pronome pessoal <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">eu <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">fizesse refer\u00eancia, por exemplo, ao seu corpo, pois o demonstrativo n\u00e3o teria ao que se ancorar para referir o corpo (Anscombe, 1981, p. 34; Teichmann, 2008, p. 162; Wiland e Driver, 2022). Como n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel tratar de todas as tem\u00e1ticas filos\u00f3ficas discutidas pela fil\u00f3sofa, um breve panorama do seu tratamento sobre aborto, eutan\u00e1sia e a dignidade humana mostrar\u00e1 parte dos seus variados interesses filos\u00f3ficos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A dignidade humana \u00e9 um tema conectado a algumas das suas preocupa\u00e7\u00f5es morais. Ao discuti-lo, a fil\u00f3sofa defende uma s\u00e9rie de posi\u00e7\u00f5es controversas e embora eu discorde de muitas n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o aqui para argumentar. Anscombe (2005g) explica que h\u00e1 algo que todos os seres humanos compartilham, que \u00e9 a dignidade humana. Essa dignidade n\u00e3o pode ser tomada de um ser humano, embora possa ser violada. Matar algu\u00e9m em vista de um benef\u00edcio para si \u00e9 violar a dignidade humana. Contudo, Anscombe n\u00e3o considera que matar por vingan\u00e7a constitua uma viola\u00e7\u00e3o da mesma natureza em casos em que vingar-se envolve a considera\u00e7\u00e3o de que o outro merece a morte devido a uma a\u00e7\u00e3o pr\u00e9via. Essa ideia fundamenta a sua aceita\u00e7\u00e3o da pena capital, pois, nesse caso, acredita-se que a pessoa merece a morte como puni\u00e7\u00e3o por ter elegido agir de certa maneira, de livre vontade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">J\u00e1 a eutan\u00e1sia, o aborto e experimentos com embri\u00f5es violam a dignidade humana, segundo Anscombe (2005g). A simples interfer\u00eancia na procria\u00e7\u00e3o humana, por meio de contraceptivos e da fertiliza\u00e7\u00e3o<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> in vitro<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> j\u00e1 s\u00e3o considerados pela fil\u00f3sofa abusos, pois a procria\u00e7\u00e3o seria intr\u00ednseca para a cria\u00e7\u00e3o de nova vida humana. Al\u00e9m disso, a procria\u00e7\u00e3o por meio do sexo seria o meio para a reprodu\u00e7\u00e3o que pertence \u00e0 vida humana tal como vida humana. Ela chega a definir a paternidade como procria\u00e7\u00e3o \u2014 defini\u00e7\u00e3o que muitas pessoas certamente consideram restritiva em excesso \u2014 e, portanto, na fertiliza\u00e7\u00e3o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">in vitro<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> n\u00e3o haveria um procriador, apenas um manipulador.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Numa linha de racioc\u00ednio conectada \u00e0 de suas ideias sobre a dignidade humana, a fil\u00f3sofa faz notar sua posi\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria ao aborto em algumas de suas palestras e textos. Resumindo uma de suas ideias, a proibi\u00e7\u00e3o \u00e9 o caso porque os cromossomos e genes do zigoto j\u00e1 determinam materialmente o ser humano que ele vai se tornar. Al\u00e9m disso, o zigoto tem uma alma, que \u00e9 o princ\u00edpio da sua unidade, e \u00e9 ela que governa o seu desenvolvimento, de modo que a unidade permanece (Anscombe 1992, p. 300). O interesse da fil\u00f3sofa pela natureza humana e pela alma datam desde seu esbo\u00e7o do projeto de pesquisa na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o (Cumhaill e Wiseman, 2022, pp. 131-2). Ela conclui que a alma intelectual \u00e9 a <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">forma<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> dos seres humanos (Anscombe, [1985]2005d). Como os seres humanos s\u00e3o individualizados pela sua espacialidade e extens\u00e3o, assim como os animais, isso permite que haja diferentes indiv\u00edduos com a mesma <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">forma <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(2005d). Sendo assim, mesmo o caso de g\u00eameos n\u00e3o causa embara\u00e7o para o seu argumento, j\u00e1 que ela pensa que o zigoto que se separa em dois para virar dois aglomerados de c\u00e9lulas, no caso dos g\u00eameos, \u00e9 o mesmo que as c\u00e9lulas nas quais se separa, mas apenas materialmente, pois trata-se de dois portadores de vida que come\u00e7aram com o zigoto (Anscombe [1985]2005e).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A percep\u00e7\u00e3o<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">do que \u00e9 a vida humana nos leva a trat\u00e1-la com respeito, o que, segundo Anscombe, \u00e9 feito numa luta at\u00e9 a morte ou na pena capital, pois essas s\u00e3o responsabiliza\u00e7\u00f5es por a\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias da pessoa assassinada. Anscombe (2005b) admite tamb\u00e9m matar numa guerra, porque esses s\u00e3o casos em que a justi\u00e7a \u00e9 feita por algum mal feito anteriormente pela pessoa assassinada. Assim, nem todo assassinato \u00e9 proibido e nem toda omiss\u00e3o que leva \u00e0 morte \u00e9 errada.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A mesma aus\u00eancia de proibi\u00e7\u00e3o, contudo, n\u00e3o \u00e9 aceita pela fil\u00f3sofa no caso da eutan\u00e1sia ([1982]2005b). Uma posi\u00e7\u00e3o controversa, sem d\u00favida. Matar uma pessoa inocente apenas porque parece boa ideia \u00e9 proibido, porque uma pessoa assassinada sofre um grande mal. \u00c9 um direito das pessoas n\u00e3o serem assassinadas e para Anscombe esse \u00e9 um direito mais b\u00e1sico do que o direito \u00e0 vida. De acordo com ela, pessoas de idade avan\u00e7ada ou muito jovens devem ser consideradas pessoas (2005b). Ela se op\u00f5e a como alguns fil\u00f3sofos tratam o conceito de pessoa, associado a algumas capacidades que, quando perdidas, perde-se a pessoa. Para ela, todo ser humano \u00e9 uma pessoa. Um ser humano \u00e9 uma pessoa mesmo quando n\u00e3o tem certas capacidades, pois \u00e9 uma pessoa por ser um tipo de criatura caracterizada pela racionalidade, o que garante a sua dignidade. Matar uma pessoa inocente, mesmo que seja pela vontade dessa pessoa, como na eutan\u00e1sia, \u00e9, para a fil\u00f3sofa, fazer-lhe mal.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Anscombe \u00e9 cada vez mais reconhecida como uma grande fil\u00f3sofa. Impressionantemente inteligente e sagaz, ela se posicionava de maneira extremamente honesta sobre quest\u00f5es importantes de seu tempo, conectando filosofia com a vida cotidiana. Fica claro tamb\u00e9m que ela sustentou posi\u00e7\u00f5es controversas, que muitas de n\u00f3s consideramos question\u00e1veis, sobre, por exemplo, a eutan\u00e1sia e o aborto. O mais importante, contudo, \u00e9 que seu legado nos encoraja a pensar sobre as quest\u00f5es filos\u00f3ficas que a motivaram.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Bibliografia prim\u00e1ria<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Anscombe, G. E. M. (1956). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Mr. Truman\u2019s Degree.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [Panfleto].<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Anscombe, E. G. M. (1957a). Does Oxford moral philosophy corrupt youth? [Fala proferida no <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">BBC Third Programme<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e subsequentemente impressa no <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Listener<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Vol. 57, n. 1455, (14 February 1957), pp. 266\u2013271.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Anscombe, E. G. M. (1957b). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Intention<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Cambridge, Mass: Harvard University Press.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Anscombe, G. E. M. (1958). Modern moral philosophy. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Philosophy<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">33 <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(124), pp. 1\u201319. <\/span><a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1017\/s0031819100037943\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/doi.org\/10.1017\/s0031819100037943<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Anscombe, G. E. M. (1959). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">An Introduction to Wittgenstein\u2019s Tractatus<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. London: Hutchinson.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Anscombe, E. G. M. ([1965]2002). The intentionality of sensation: a grammatical feature. In No\u00eb, A. &amp; Thompson, E. (Eds.), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Vision and mind: selected readings in the philosophy of perception<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">; (pp. 55\u201375). Cambridge, MA: MIT Press.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Anscombe, G. E. M. ([1975]1981). The first person. In <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Metaphysics and the philosophy of mind: The collected philosophical papers of G. E. M &#8211; Volume 2. Anscombe<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">; (pp. 21-37). Oxford: Basil Blackwell.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Anscombe, G. E. M. (1982). Medalist\u2019s address: Action, intention and \u201cdouble effect.\u201d <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Proceedings of the American Catholic Philosophical Association<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">56<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, pp. 12\u201325.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Anscombe, G. E. M. (1992). Embryos and final causes. In Follon, J. &amp; McEvoy, J. (Eds.), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Finalit\u00e9 et intentionnalit\u00e9. Doctrine thomiste et perspectives modernes<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">; (pp. 293-303). Paris: Librairie Philosophique J. Vrin &amp; Leuven, \u00c9ditions Peeters.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Anscombe, G. E. M. (1999). Practical truth. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Logos: A Journal of Catholic Thought and Culture<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">2 <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(3), pp. 68\u201375. https:\/\/doi.org\/10.1353\/log.1999.0004<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Anscombe, G. E. M. ([1979]2005a). Chisholm on action. In Geach, M. &amp; Gormally, L. (Eds.), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Human life, action and ethics: essays by G.E.M. Anscombe. St Andrew studies in philosophy and public affairs<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">; (pp. 77-87)<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Exeter: Imprint Academic.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Anscombe, G. E. M. ([1982a]2005b). Murder and the morality of euthanasia. In Geach, M. &amp; Gormally, L. (Eds.), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Human life, action and ethics: essays by G.E.M. Anscombe. St Andrew studies in philosophy and public affairs<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">;<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">(pp. 261-277)<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Exeter: Imprint Academic.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Anscombe, G. E. M. ([1983]2005c). The causation of action. In Geach, M. &amp; Gormally, L. (Eds.), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Human life, action and ethics: essays by G.E.M. Anscombe. St Andrew studies in philosophy and public affairs<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">; (pp. 89-108)<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Exeter: Imprint Academic.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Anscombe, G. E. M. ([1985a]2005d). Has mankind one soul \u2014an angel distributed through many bodies? In Geach, M. &amp; Gormally, L. (Eds.), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Human life, action and ethics: essays by G.E.M. Anscombe. St Andrew studies in philosophy and public affairs<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">; (pp. 17-26)<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Exeter: Imprint Academic.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Anscombe, G. E. M. ([1985b]2005e). Were you a zygote? In Geach, M. &amp; Gormally, L. (Eds.), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Human life, action and ethics: essays by G.E.M. Anscombe. St Andrew studies in philosophy and public affairs<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">; (pp. 39-44)<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Exeter: Imprint Academic.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Anscombe, G. E. M. (2005g). The dignity of the human being. In Geach, M. &amp; Gormally, L. (Eds.), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Human life, action and ethics: essays by G.E.M. Anscombe. St Andrew studies in philosophy and public affairs<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">; (pp. 67-73)<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Exeter: Imprint Academic.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Anscombe, G. E. M. (2005h). Good and bad human action. In Geach, M. &amp; Gormally, L. (Eds.), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Human life, action and ethics: essays by G.E.M. Anscombe. St Andrew studies in philosophy and public affairs<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">; (pp. 195-206)<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Exeter: Imprint Academic.<\/span><\/p>\n<p><b>Tradu\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Anscombe, G. E. M. (2023). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Inten\u00e7\u00e3o. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Tradu\u00e7\u00e3o de Anderson Luis Nakano. S\u00e3o Paulo: Scientiae Studia. (Original publicado em 1957)<\/span><\/p>\n<p><b>Bibliografia secund\u00e1ria<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Austin, J. L. (1962). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">How to do things with words: the William James lectures, delivered at Harvard Univ. in 1955<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Oxford: Clarendon Press.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ayer, A. J. ([1936]1972). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Language, truth and logic.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Harmondsworth: Penguin Books.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Cumhaill, C. M., &amp; Wiseman, R. (2022). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Metaphysical animals: how four women brought philosophy back to life<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. New York: Doubleday.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Davidson, D. (2001). Agency. In <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Essays on actions and events<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">; (pp. 43\u201362). New York: Clarendon Press.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Diamond, C. (2019). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Reading Wittgenstein with Anscombe, going on to ethics<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Cambridge, MA: Harvard University Press.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Hornsby, J. (2011). Actions in their circumstances. In Ford, A., Hornsby, J., Stoutland, F. (Eds.), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Essays on Anscombe\u2019s Intention<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">; (pp. 105\u2013127). Cambridge, Mass: Harvard University Press.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Kloosterboer, N. (2022). Anscombe\u2019s approach to rational capacities. In Peijnenburg, J., Verhaegh, S. (Eds.), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Women in the history of philosophy and sciences: selected papers of the Tilburg \u2013 Groningen Conference, 2019 Volume 15<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">; (pp. 194\u2013217). Switzerland: Springer.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Lipscomb, B. J. (2022). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The women are up to something : how Elizabeth Anscombe, Philippa Foot, Mary Midgley, and Iris Murdoch revolutionized ethics<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. New York, NY: Oxford University Press.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Schwenkler, J. (2019). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Anscombe\u2019s Intention: a guide<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Oxford: Oxford University Press.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Teichmann, R. (2008). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The philosophy of Elizabeth Anscombe<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Oxford: Oxford University Press.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Wiland, E., Driver, J. (2022). Gertrude Elizabeth Margaret Anscombe. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Stanford Encyclopedia of Philosophy<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Dispon\u00edvel em <\/span><a href=\"https:\/\/plato.stanford.edu\/archives\/fall2022\/entries\/anscombe\/\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/plato.stanford.edu\/archives\/fall2022\/entries\/anscombe\/<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Wiseman, R. (2016). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Routledge philosophy guidebook to Anscombe\u2019s Intention<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. 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