{"id":190,"date":"2018-08-30T12:17:07","date_gmt":"2018-08-30T15:17:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/?page_id=190"},"modified":"2019-08-21T11:38:15","modified_gmt":"2019-08-21T14:38:15","slug":"simone-de-beauvoir","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/simone-de-beauvoir\/","title":{"rendered":"Simone de Beauvoir"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-257 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2019\/08\/simone-de-beauvoir-217x300.png\" alt=\"\" width=\"217\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2019\/08\/simone-de-beauvoir-217x300.png 217w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2019\/08\/simone-de-beauvoir.png 414w\" sizes=\"(max-width: 217px) 100vw, 217px\" \/><\/p>\n<h1><span style=\"font-size: 14pt\">Por Heci Regina Candiani (ORCID: 0000-0002-2573-169X)<\/span><\/h1>\n<p>Simone Lucie Ernestine Marie Bertrand de Beauvoir<\/p>\n<p>Nascimento: 9 de janeiro de 1908, Paris, Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Morte: 14 de abril de 1986 (78 anos), Paris, Fran\u00e7a.<\/p>\n<h1>Informa\u00e7\u00f5es biogr\u00e1ficas<\/h1>\n<p>Simone de Beauvoir nasceu em Paris, em uma abastada fam\u00edlia burguesa que perdeu grande parte de seus recursos financeiros ap\u00f3s a Primeira Guerra Mundial. Seu pai, Georges Bertrand de Beauvoir, era advogado e sua m\u00e3e, Fran\u00e7oise Bertrand de Beauvoir (Brasseur, quando solteira) dedicava-se \u00e0 administra\u00e7\u00e3o da casa da fam\u00edlia e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o das duas filhas, Simone e H\u00e9l\u00e8ne (Henriette-H\u00e9l\u00e8ne Bertrand de Beauvoir, 1910-2001, pintora).<\/p>\n<p>Uma das grandes preocupa\u00e7\u00f5es da fam\u00edlia foi investir em uma forma\u00e7\u00e3o tradicional e burguesa para as filhas e ambas foram matriculadas no Institut Ad\u00e9line Desir, escola privada exclusivamente para meninas de sua classe social. Simone de Beauvoir estudou ali at\u00e9 a aprova\u00e7\u00e3o no <em>baccalaur\u00e9at<\/em> de Matem\u00e1tica e Filosofia em 1925. Ao contr\u00e1rio de muitas jovens de sua classe social, ela prosseguiu os estudos licenciando-se em Letras Cl\u00e1ssicas no Institut Sainte-Marie-de-Neuilly e Matem\u00e1tica no Institut Catholique de Paris. Em 1927, iniciou sua forma\u00e7\u00e3o em Filosofia na Sorbonne. Em 1929, foi aprovada em segundo lugar no concurso de <em>agr\u00e9gation<\/em> em Filosofia com uma disserta\u00e7\u00e3o sobre Leibniz. Ela tinha, ent\u00e3o, 21 anos, sendo a estudante mais jovem a obter esta aprova\u00e7\u00e3o e a se tornar professora de filosofia at\u00e9 ent\u00e3o. De 1931 a 1935, ensinou filosofia em liceus femininos nas cidades de Marselha e Rouen, retornando a Paris em 1936 como professora do Liceu Moli\u00e8re.<\/p>\n<p>Beauvoir iniciou a publica\u00e7\u00e3o de seus textos liter\u00e1rios e filos\u00f3ficos durante a Segunda Guerra Mundial e, em 1945, ap\u00f3s o fim da guerra, fundou, junto com Jean-Paul Sartre e Maurice Merleau-Ponty, entre outros intelectuais, a revista <em>Les Temps Modernes<\/em>, dedicada a temas liter\u00e1rios e pol\u00edticos. Na revista, que foi publicada ininterruptamente de outubro de 1945 a meados de 2019, Beauvoir atuou como editora, tradutora e, posteriormente, membro do conselho editorial at\u00e91986.<\/p>\n<p>Suas principais influ\u00eancias filos\u00f3ficas foram: Hegel, Husserl, Heidegger, Marx, Descartes e Bergson. Os principais interlocutores contempor\u00e2neos de Beauvoir foram os fil\u00f3sofos Maurice Merleau-Ponty e Jean-Paul Sartre. Os tr\u00eas intelectuais se conheceram quando eram estudantes de Filosofia nos anos 1920.<\/p>\n<h1>Obra: temas e conceitos<\/h1>\n<p>Fil\u00f3sofa, ativista, feminista, autora de fic\u00e7\u00e3o e n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o, Simone de Beauvoir produziu uma vasta obra composta por ensaios, tratados, uma pe\u00e7a de teatro, um manifesto, romances, contos, novelas, relatos de viagem, mem\u00f3rias, cartas, di\u00e1rios e reportagens. Sua ampla produ\u00e7\u00e3o textual, sua liga\u00e7\u00e3o intelectual e afetiva com Jean-Paul Sartre, bem como o contexto hist\u00f3rico e intelectual franc\u00eas em meados do s\u00e9culo XX, marcado por uma forte resist\u00eancia \u00e0 atua\u00e7\u00e3o das mulheres na esfera p\u00fablica fizeram com que, por muito tempo, Simone de Beauvoir n\u00e3o fosse considerada fil\u00f3sofa. Entretanto, ap\u00f3s sua morte, em 1986, e mais especificamente a partir dos anos 1990, com a publica\u00e7\u00e3o de textos in\u00e9ditos da autora e a libera\u00e7\u00e3o do acesso a seus manuscritos para pesquisa, tem havido um renovado interesse em seu pensamento, especialmente por parte de fil\u00f3sofas feministas. Esses novos estudos, ainda em curso, t\u00eam servido n\u00e3o apenas para reafirmar a import\u00e2ncia de suas contribui\u00e7\u00f5es para o existencialismo, a fenomenologia e a filosofia feminista, mas tamb\u00e9m t\u00eam sido importantes para demonstrar a especificidade do projeto intelectual de Beauvoir, em que a \u00e9tica, a pol\u00edtica e a teoria feminista s\u00e3o temas centrais, e conceitos como situa\u00e7\u00e3o, liberdade, ambiguidade e o Outro s\u00e3o trabalhados de maneira bastante original.<\/p>\n<h2>Primeiros ensaios<\/h2>\n<p>Um dos campos em que a contribui\u00e7\u00e3o de Simone de Beauvoir para o existencialismo tem sido mais amplamente estudada \u00e9 o campo da \u00e9tica. Esse tema, que perpassa toda a obra de Simone de Beauvoir, \u00e9 trabalhado filosoficamente pela autora particularmente em seus primeiros ensaios filos\u00f3ficos, escritos nos anos 1940, na esteira do fim da Segunda Guerra Mundial. Os dilemas \u00e9ticos que a guerra imp\u00f4s \u00e0 Europa e, particularmente \u00e0 Fran\u00e7a, que com a ocupa\u00e7\u00e3o nazista se viu confrontada com quest\u00f5es como a resist\u00eancia, o colaboracionismo, os sentidos do desengajamento ou da \u201cneutralidade\u201d pol\u00edtica, a legitimidade ou n\u00e3o da viol\u00eancia contra invasores e colaboracionistas, a responsabilidade em rela\u00e7\u00e3o aos outros indiv\u00edduos, est\u00e3o claramente presentes nesses ensaios.<\/p>\n<p>No primeiro deles, intitulado \u201cPirro e Cineias\u201d e publicado em 1944, Beauvoir ir\u00e1 abordar justamente o sentido da a\u00e7\u00e3o individual. Para que agir? \u00c9 a pergunta que ela se prop\u00f5e a analisar. Para ela, a \u00fanica justificativa da a\u00e7\u00e3o \u00e9 a liberdade, ampliar os limites da liberdade humana. \u201cDistingui dois aspectos da liberdade: ela \u00e9 a pr\u00f3pria modalidade da exist\u00eancia que, por bem ou por mal, de uma maneira ou de outra, retoma por sua conta tudo que lhe vem de fora; esse movimento interior \u00e9 indivis\u00edvel, logo total em cada um. Em compensa\u00e7\u00e3o, as possibilidades concretas que se abrem para as pessoas s\u00e3o desiguais\u201d (Beauvoir, 2010, p. 540). O fato de existirem desigualdades entre as pessoas faz com que a a\u00e7\u00e3o realmente \u00e9tica seja, ent\u00e3o, n\u00e3o apenas aquela que visa ampliar a liberdade do sujeito, mas que se paute pelo compromisso em ampliar tamb\u00e9m a liberdade dos outros. Beauvoir evoca, assim, a ideia de que liberdade e \u00e9tica se unem por meio da responsabilidade do sujeito com os demais indiv\u00edduos e por um objetivo maior do que sua pr\u00f3pria exist\u00eancia, o objetivo de \u201cliberar a liberdade\u201d (Beauvoir, 2010a, p. 540).<\/p>\n<p>Esse debate \u00e9 retomado pela autora em seus ensaios subsequentes, publicados na revista <em>Les Temps Modernes:<\/em> \u201cIdealismo moral e realismo pol\u00edtico\u201d (1945), \u201cO existencialismo e a sabedoria das na\u00e7\u00f5es\u201d (1945, t\u00edtulo do ensaio e do livro que re\u00fane os textos, 1965a [1948]) e \u201cOlho por olho\u201d (1946) e <em>Por uma moral da ambiguidade<\/em> (2005 [1947]). Para Beauvoir, a ambiguidade \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o inerente a todos os indiv\u00edduos em sua rela\u00e7\u00e3o com os outros, isso porque, embora sejamos, em nossa consci\u00eancia, sujeitos livres, nas rela\u00e7\u00f5es nos vemos objetificados pelos outros. Essa amb\u00edgua condi\u00e7\u00e3o de sujeitos\/objetos \u00e9 relevante para compreender as quest\u00f5es essenciais da a\u00e7\u00e3o \u00e9tica, como a ideia de que os fins justificam os meios (Beauvoir nos diz que n\u00e30) e como podemos agir eticamente quando estamos diante de um mundo marcado pela viol\u00eancia e mesmo diante de um opressor.<\/p>\n<h2><em>O segundo sexo<\/em><\/h2>\n<p>Um dos motivos para o tardio reconhecimento acad\u00eamico e p\u00fablico de Simone de Beauvoir como fil\u00f3sofa foi o fato de que ela n\u00e3o adotou em seu trabalho a metodologia de constru\u00e7\u00e3o de um sistema filos\u00f3fico, que ela considerava abstrata e universalizante. Sua op\u00e7\u00e3o, em termos metodol\u00f3gicos, foi buscar analisar criticamente o conhecimento constru\u00eddo sobre os temas de seu interesse e, a partir dessa cr\u00edtica, analisar as experi\u00eancias vividas das pessoas diretamente implicadas na quest\u00e3o.<\/p>\n<p>A pensadora deu um importante passo nesse sentido e estabeleceu as bases de seu m\u00e9todo em sua obra filos\u00f3fica mais conhecida: <em>O segundo sexo<\/em>. Hoje um texto can\u00f4nico da filosofia feminista, <em>O segundo sexo<\/em> foi escrito a partir de uma extensa pesquisa iniciada em 1946 e conclu\u00eddo em 1949. Mas o texto n\u00e3o foi pensado pela autora como uma obra feminista em si. O que Beauvoir tinha em mente era apresentar uma discuss\u00e3o, com base no existencialismo, na fenomenologia e no marxismo, sobre a condi\u00e7\u00e3o das mulheres nas sociedades ocidentais em meados do s\u00e9culo XX, o livro traz como centrais os conceitos de situa\u00e7\u00e3o e de Outro.<\/p>\n<p>O conceito de situa\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental no existencialismo e se refere basicamente ao fato de estarmos posicionados no tempo, no espa\u00e7o e em rela\u00e7\u00e3o com os outros sobre condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas que n\u00e3o escolhemos nem controlamos (nossa nacionalidade, etnia, idade, classe social, educa\u00e7\u00e3o, o sexo que nos \u00e9 atribu\u00eddo j\u00e1 nas primeiras semanas de gesta\u00e7\u00e3o, nossas limita\u00e7\u00f5es f\u00edsicas, os valores vigentes no momento hist\u00f3rico em que vivemos, as conting\u00eancias da exist\u00eancia). A situa\u00e7\u00e3o expressa o lugar social de indiv\u00edduos ou de coletividades.<\/p>\n<p>Beauvoir inicia seu texto identificando a situa\u00e7\u00e3o das mulheres como uma situa\u00e7\u00e3o de aprisionamento em uma condi\u00e7\u00e3o de inferioriza\u00e7\u00e3o: as mulheres t\u00eam suas a\u00e7\u00f5es no mundo limitadas, s\u00e3o relegadas \u00e0 alteridade absoluta, a condi\u00e7\u00e3o de Outro, e essa condi\u00e7\u00e3o \u00e9 produzida e sustentada, nas sociedades ocidentais patriarcais, pelo modo como as mulheres s\u00e3o retratadas pela ci\u00eancia, a hist\u00f3ria e a psican\u00e1lise. Todo conhecimento produzido historicamente sobre as mulheres convergiu para um ponto que consistiu em justificar, a partir das diferen\u00e7as biol\u00f3gicas, um lugar secund\u00e1rio para as mulheres na vida social. Essa justifica\u00e7\u00e3o se sustenta por meio de uma s\u00e9rie de mitos sobre a biologia, o psiquismo e o papel intelectual, social e econ\u00f4mico das mulheres.<\/p>\n<p>\u00c0s mulheres \u00e9 reservado um lugar secund\u00e1rio n\u00e3o porque elas sejam inferiores aos homens, mas porque o poder de determinar o que significa ser mulher e o que significa ser homem est\u00e1 nas m\u00e3os dos homens. Retomando a ideia da ambiguidade do sujeito, Beauvoir nos diz que nenhum sujeito define a si mesmo como Outro. Porque essa defini\u00e7\u00e3o exige uma objetifica\u00e7\u00e3o que nunca pode recair sobre o pr\u00f3prio sujeito. \u201cPor que as mulheres n\u00e3o contestam a soberania do macho? Nenhum sujeito se define imediata e espontaneamente como o inessencial; n\u00e3o \u00e9 o Outro que se definindo como Outro define o Um; ele \u00e9 posto como Outro pelo Um definindo-se como Um. Mas para que o Outro n\u00e3o se transforme no Um \u00e9 preciso que se sujeite a esse ponto de vista alheio\u201d (Beauvoir, 2009a, p. 18).<\/p>\n<p>Hist\u00f3rica, social, cultural e politicamente, as mulheres s\u00e3o retratadas como seres essencialmente biol\u00f3gicos e submetido \u00e0s leis da natureza em contraposi\u00e7\u00e3o aos homens como seres da raz\u00e3o, do conhecimento, e capazes de transcender sua biologia.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse sentido que a fil\u00f3sofa escreve no texto que \u201cNingu\u00e9m nasce mulher: torna-se mulher\u201d (Beauvoir, 2009a, p. 361). Beauvoir explica o sentido de sua frase nos par\u00e1grafos seguintes, especificando que a f\u00eamea humana n\u00e3o \u00e9 dotada \u201cnaturalmente\u201d de caracter\u00edsticas como \u201cmisteriosos instintos [que] a destinem imediatamente \u00e0 passividade, ao coquetismo, \u00e0 maternidade\u201d (Beauvoir, 2009a, p. 361), mas que essas atribui\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o socialmente associadas \u00e0 feminilidade, s\u00e3o impostas ou ensinadas \u00e0 menina j\u00e1 nos primeiros anos de vida. Essas imposi\u00e7\u00f5es e essa mistifica\u00e7\u00e3o do que \u00e9 \u201cser mulher\u201d constituem as bases da opress\u00e3o patriarcal, que submete as mulheres \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de Outro limitando sua liberdade de a\u00e7\u00e3o, de escolha, e a possibilidade de que ela defina a si mesma.<\/p>\n<p>Um dos aspectos importantes \u00e9 que neste livro Beauvoir estabelece a import\u00e2ncia de retratar e analisar as experi\u00eancias vividas pelas mulheres como parte de seu m\u00e9todo, dando a essas experi\u00eancias sua dimens\u00e3o filos\u00f3fica e pol\u00edtica. Ela se baseia em conversas, di\u00e1rios e narrativas de mulheres sobre suas experi\u00eancias concretas para refletir sobre as formas e as consequ\u00eancias da opress\u00e3o patriarcal, da inf\u00e2ncia at\u00e9 a velhice. Com isso, ela mostra n\u00e3o apenas o impacto da opress\u00e3o patriarcal sobre a vida concreta das mulheres como apresenta as bases para a supera\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o de inferioridade a elas imposta.<\/p>\n<p>Pol\u00eamico ainda hoje, 70 anos depois de sua publica\u00e7\u00e3o original, <em>O segundo sexo<\/em> tornou-se uma obra feminista devido \u00e0 grande pot\u00eancia pol\u00edtica inerente ao pr\u00f3prio conceito de situa\u00e7\u00e3o. Em sociedades profundamente marcadas por desigualdades e injusti\u00e7as, \u00e9 inevit\u00e1vel que a discuss\u00e3o sobre a situa\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos e grupos se torne uma discuss\u00e3o sobre poder.<\/p>\n<p>A vitalidade do conceito de situa\u00e7\u00e3o, a escolha metodol\u00f3gica por privilegiar as experi\u00eancias vividas bem como o modo como Beauvoir apresenta seu discurso em <em>O segundo sexo<\/em> s\u00e3o aspectos que evidenciam a liga\u00e7\u00e3o de Beauvoir com a fenomenologia. Essas caracter\u00edsticas e o retorno ao conceito de Outro ir\u00e3o marcar tamb\u00e9m outro de seus textos mais importantes: <em>A velhice <\/em>(1990a [1970]).<\/p>\n<p>Publicada em 1970, esta obra tamb\u00e9m \u00e9 dividida em duas partes. Na primeira, o tema \u00e9 analisado de fora, pelo conhecimento formal da biologia, da etnografia, da hist\u00f3ria e da sociologia; a segunda parte trata da velhice como experi\u00eancia vivida. Dessa forma, a autora nos mostra como o envelhecimento \u00e9, antes de uma limita\u00e7\u00e3o f\u00edsica ou intelectual, um processo cont\u00ednuo da exist\u00eancia e uma transforma\u00e7\u00e3o pessoal que n\u00e3o se explica apenas por quest\u00f5es biol\u00f3gicas: \u00e9 uma transforma\u00e7\u00e3o no modo como somos objetificados nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais, nas circunst\u00e2ncias econ\u00f4mica e no contexto familiar. A autora investiga ainda, nesse texto, como o processo de envelhecimento n\u00e3o tem as mesmas consequ\u00eancias e sentidos nas experi\u00eancias de homens e mulheres e de pessoas de classes sociais diferentes.<\/p>\n<h2>Para al\u00e9m dos textos filos\u00f3ficos<\/h2>\n<p>Embora conhecida e estudada principalmente por <em>O segundo sexo<\/em>, nem o feminismo nem a filosofia de Simone de Beauvoir se esgotam com essa obra. Em rela\u00e7\u00e3o ao feminismo, estima-se (Z\u00e9phir, 1984, p. 144) que, entre 1949 e 1979, Beauvoir produziu mais de 150 textos feministas, incluindo a\u00ed artigos e entrevistas. Em \u00e0 rela\u00e7\u00e3o ao debate mais estritamente filos\u00f3fico, al\u00e9m dos primeiros ensaios e dos dois tratados j\u00e1 mencionados, a autora produziu cerca de mais duas dezenas de ensaios e artigos publicados principalmente na revista <em>Les Temps Modernes<\/em>. Nesses textos, ela tratou, por exemplo, de temas como o pensamento de grupos pol\u00edticos privilegiados em <em>O pensamento de direita, hoje<\/em> (1967 [1955]), a \u00e9tica e a sexualidade em \u201cDeve-se queimar Sade\u201d (1964 [1955]).<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos textos formal e explicitamente pol\u00edticos, entretanto, Beauvoir fez amplo uso da filosofia para o embasamento e a argumenta\u00e7\u00e3o de toda a sua produ\u00e7\u00e3o textual. Quando escreve sobre o racismo nos Estados Unidos em <em>Am\u00e9rica dia a dia <\/em>(1963 [1948]), fam\u00edlia, g\u00eanero e poder em sua pe\u00e7a <em>Les bouches inutiles<\/em> (1945), colonialismo em <em>Pour Djamila Boupacha<\/em> (1960), por exemplo, ela mobiliza temas e reflex\u00f5es filos\u00f3ficas que ainda requerem an\u00e1lises mais detalhadas. Al\u00e9m disso, ela produziu v\u00e1rios romances de car\u00e1ter claramente metaf\u00edsico como <em>A convidada<\/em> (1985 [1943]), <em>O sangue dos outros<\/em> (1990b [1945]) e <em>Todos os homens s\u00e3o mortais<\/em> (1995 [1946]) nos quais temas como o Outro e a ambiguidade do sujeito ganham concretude nas situa\u00e7\u00f5es vividas pelas personagens. Em suas mem\u00f3rias (publicadas originalmente entre 1958 e 1970) e em <em>Os mandarins<\/em> (1965b [1954]), Beauvoir n\u00e3o s\u00f3 discute alguns dos conceitos filos\u00f3ficos de sua obra como apresenta um v\u00edvido retrato da hist\u00f3ria e dos conflitos intelectuais da Fran\u00e7a em meados do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Todas essas caracter\u00edsticas peculiares da produ\u00e7\u00e3o intelectual da autora bem como sua metodologia particular chamam a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que a compreens\u00e3o e an\u00e1lise do trabalho filos\u00f3fico de Beauvoir passa, necessariamente, pela an\u00e1lise de seu papel como intelectual p\u00fablica preocupada principalmente com a maneira como as marcas sociais da alteridade se entrecruzam na experi\u00eancia individual e coletiva. Sua preocupa\u00e7\u00e3o com a compreens\u00e3o de como diversas situa\u00e7\u00f5es influenciam o acesso a privil\u00e9gios, a experi\u00eancia de opress\u00e3o e a experi\u00eancia fenomenol\u00f3gica e pol\u00edtica do corpo \u00e9 profundamente relevante para os dias atuais. As pesquisas sobre o pensamento de Simone de Beauvoir na atualidade t\u00eam se concentrado em tr\u00eas principais linhas: a compreens\u00e3o de sua metodologia filos\u00f3fica, a an\u00e1lise de seus textos filos\u00f3ficos e dos aspectos filos\u00f3ficos de seus textos liter\u00e1rios e memorial\u00edsticos, importante para a compreens\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es entre filosofia e a literatura e ainda, a recep\u00e7\u00e3o de sua obra em diversos pa\u00edses e culturas. Esta \u00faltima linha de pesquisa se concentra, principalmente, em <em>O segundo sexo<\/em>. Al\u00e9m disso, as pesquisas sobre a biografia de Beauvoir tamb\u00e9m t\u00eam sido importantes para a compreens\u00e3o da trajet\u00f3ria das mulheres na hist\u00f3ria da filosofia.<\/p>\n<h1>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/h1>\n<h2>Obras de Simone de Beauvoir<\/h2>\n<p>Beauvoir, S. de (1945). <em>Les bouches inutiles \u2013 pi\u00e8ce en deux actes et huit tableaux<\/em>. Paris: Gallimard.<\/p>\n<p>______ (1960). Pour Djamila Boupacha. <em>Le Monde<\/em>, 2 juin, p. 5.<\/p>\n<p>______ (1963). <em>A Am\u00e9rica dia a dia<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Em\u00edlia Rodrigues. Lisboa: Arc\u00e1dia.<\/p>\n<p>______ (1964). Faut-il br\u00fbler Sade. In Beauvoir, S.de. <em>Privil\u00e8ges<\/em>. Paris: Gallimard.<\/p>\n<p>______ (1965a). <em>O existencialismo e a sabedoria das na\u00e7\u00f5es<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Bruno da Ponte e Manuel de Lima. Lisboa: Editorial Minotauro.<\/p>\n<p>_____ (1965b). <em>Os mandarins<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de H\u00e9lio de Souza. S\u00e3o Paulo: Difus\u00e3o Europ\u00e9ia do Livro.<\/p>\n<p>______ (1967) <em>O pensamento de direita hoje<\/em>. Rio de Janeiro: Paz e Terra.<\/p>\n<p>______ (1985). <em>A convidada<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Vitor Ramos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.<\/p>\n<p>______ (1990a). <em>A velhice<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Maria Helena Franco Monteiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.<\/p>\n<p>______ (1990b). <em>O sangue dos outros<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Heloysa de Lima Dantas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.<\/p>\n<p>______ (1995). <em>Todos os homens s\u00e3o mortais<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de S\u00e9rgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.<\/p>\n<p>______ (2005). <em>Por uma moral da ambiguidade, seguido de Pirro e Cineias<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Marcelo Jacques de Moraes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.<\/p>\n<p>______ (2009a). <em>O segundo sexo<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de S\u00e9rgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.<\/p>\n<p>______ (2009b). <em>Mem\u00f3rias de uma mo\u00e7a bem-comportada<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de S\u00e9rgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.<\/p>\n<p>______ (2010a). <em>A for\u00e7a da idade<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de S\u00e9rgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.<\/p>\n<p>______(2010b). <em>A for\u00e7a <\/em>das<em> coisas<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Maria Helena Franco Martins. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.<\/p>\n<h2>Obras secund\u00e1rias<\/h2>\n<p>Burawoy, M (2010). As antinomias do feminismo: Beauvoir encontra Bourdieu. In: Burawoy, M. <em>O marxismo encontra Bourdieu<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Fernando Rog\u00e9rio Jardim. Campinas, SP: Editora da Unicamp, pp. 131-158.<\/p>\n<p>Candiani, H.R. (2018). <em>Na tessitura da situa\u00e7\u00e3o: a trama das opress\u00f5es na obra de Simone de Beauvoir<\/em>. (Tese de Doutorado, Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP). Recuperado de http:\/\/repositorio.unicamp.br\/jspui\/handle\/REPOSIP\/332410. Acesso em 19 ago. 2019.<\/p>\n<p>Chaperon, S (1999). Au\u00ea sobre O Segundo Sexo. <em>Cadernos Pagu<\/em>. v.12, pp. 37-53.<\/p>\n<p>______ (2000). A segunda Simone de Beauvoir, <em>Novos Estudos Cebrap<\/em>, n\u00ba 57, p.103-123.<\/p>\n<p>Cyfer, I (2015). Afinal, o que \u00e9 uma mulher? Simone de Beauvoir e \u201ca quest\u00e3o do sujeito\u201d na teoria cr\u00edtica feminista. <em>Lua Nova<\/em>, n\u00ba 94, S\u00e3o Paulo, pp. 41-77.<\/p>\n<p>Daigle, C (2014). Pensando com Simone de Beauvoir e para al\u00e9m, <em>Sapere Aude<\/em>, Belo Horizonte, v.5 \u2013 n.9, pp. 381-392.<\/p>\n<p>Gunella, E. J. (2014). <em>Ontologia e \u00c9tica n&#8217;O Segundo Sexo de Simone de Beauvoir<\/em>. (Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado, Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas, Universidade de S\u00e3o Paulo, S\u00e3o Paulo, SP). Recuperado de https:\/\/www.teses.usp.br\/teses\/disponiveis\/8\/8133\/tde-12122014-195339\/pt-br.php. Acesso em 19 ago. 2019.<\/p>\n<p>Kruks, S (2012). Teorizando a opress\u00e3o, <em>Sapere Aude<\/em>, Belo Horizonte, v.3 \u2013 n.6, pp. 13-56.<\/p>\n<p>Z\u00e9phir, J. J (1984). Importance des \u00c9crits f\u00e9ministes de Simone de Beauvoir post\u00e9rieurs au Deuxi\u00e8me Sexe. <em>Simone de Beauvoir Studies<\/em>, v. 2, pp. 117-147<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Heci Regina Candiani (ORCID: 0000-0002-2573-169X) Simone Lucie Ernestine Marie Bertrand de Beauvoir Nascimento: 9 de janeiro de 1908, Paris,<\/p>\n","protected":false},"author":360,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","inline_featured_image":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"class_list":["post-190","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/190","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/360"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=190"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/190\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":260,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/190\/revisions\/260"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=190"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}