{"id":1939,"date":"2024-05-06T14:49:18","date_gmt":"2024-05-06T17:49:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/?page_id=1939"},"modified":"2024-05-06T14:49:18","modified_gmt":"2024-05-06T17:49:18","slug":"roza-egipciaca","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/roza-egipciaca\/","title":{"rendered":"Roza Egipc\u00edaca"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><b>Roza Maria Egipc\u00edaca da Vera Cruz<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><span style=\"font-weight: 400\">(1719 &#8211; 1771)<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">por Beatriz Santos Lopes,\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">estudante de Filosofia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro &#8211; <\/span><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/2088311266874901\"><span style=\"font-weight: 400\">Lattes<\/span><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: right\">\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">e Ulysses Pinheiro,\u00a0 professor titular<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro &#8211; <\/span><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/8793951581697655\"><span style=\"font-weight: 400\">Lattes<\/span><\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2024\/05\/Verbete-Roza-Egipciaca-PDF.docx.pdf\">Roza Egipc\u00edaca &#8211; PDF<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_1940\" aria-describedby=\"caption-attachment-1940\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-vp_sm wp-image-1940\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2024\/05\/unnamed-500x119.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"119\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2024\/05\/unnamed-500x119.jpg 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2024\/05\/unnamed-300x72.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2024\/05\/unnamed-768x183.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2024\/05\/unnamed-800x191.jpg 800w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2024\/05\/unnamed.jpg 893w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1940\" class=\"wp-caption-text\">Tribunal do Santo Of\u00edcio, Inquisi\u00e7\u00e3o de Lisboa, den\u00fancia de Maria Thereza de Jesus contra Francisco Gon\u00e7alves Lopes e Roza Maria Egipc\u00edaca, Documento 14316, fl. 56v.<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Roza Maria Egipc\u00edaca da Vera Cruz, em uma adapta\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas contempor\u00e2neo, ou Roza Maria Egyciaca da Vera Crus, na grafia que ela usava em sua assinatura (h\u00e1 outras variantes de seu nome ao longo do processo; neste verbete, usaremos a forma h\u00edbrida Roza Egipc\u00edaca), foi uma mulher escravizada e alforriada, sacerdotisa e autora m\u00edstica nascida na \u00c1frica e trazida ao Brasil proveniente da Costa da Mina, de onde veio uma grande parcela das pessoas escravizadas para as Am\u00e9ricas. Ela viveu entre 1719 e 1771 e passou a maior parte de sua exist\u00eancia na col\u00f4nia brasileira, morrendo nos c\u00e1rceres da Inquisi\u00e7\u00e3o de Lisboa, acusada de cumplicidade em embustes, bruxaria e feiti\u00e7aria. Al\u00e9m de redigir o que talvez tenha sido o primeiro livro escrito por uma mulher no Brasil, hoje perdido, Roza Egipc\u00edaca foi uma importante l\u00edder espiritual na sociedade colonial setecentista, fundando e dirigindo \u2014 oficiosamente \u2014 o Recolhimento do Parto, uma institui\u00e7\u00e3o ligada \u00e0 Igreja de Nossa Senhora do Parto, no Rio de Janeiro, destinada a acolher mulheres \u2014 sobretudo ex-prostitutas e desvalidas \u2014 que quisessem seguir o caminho mon\u00e1stico. Embora o fundador oficial do Recolhimento seja o frei Agostinho de S\u00e3o Jos\u00e9, foi de Roza Egipc\u00edaca a iniciativa de criar essa institui\u00e7\u00e3o (cf. Processo 9065, fl. 17r), o que \u00e9 sem d\u00favida um feito extraordin\u00e1rio para uma mulher que tinha sido at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo uma pessoa escravizada. Nem o pr\u00e9dio do Recolhimento nem a Igreja a ele associada continuam de p\u00e9 hoje em dia, mas eles ocupavam um lugar central na capital, bem perto do Convento de Santo Ant\u00f4nio \u2014 esse sim resistiu ao tempo \u2014, no lugar que \u00e9 atualmente nomeado de Largo da Carioca.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Os feitos e o pensamento de Roza Egipc\u00edaca nos foram legados pelo processo da Inquisi\u00e7\u00e3o a que foi submetida, contendo um total de seis depoimentos da r\u00e9 \u2014 de onde as informa\u00e7\u00f5es biogr\u00e1ficas aqui expostas foram retiradas. Foram anexados a estes depoimentos, como de praxe, outros documentos: manuscritos doutrinais compostos por ela (escritos de pr\u00f3prio punho ou ditados), sua correspond\u00eancia, testemunhos e den\u00fancias de pessoas que com ela conviveram e, finalmente, depoimentos de seu principal guia espiritual, o padre portugu\u00eas Francisco Gon\u00e7alves Lopes \u2014 tamb\u00e9m acusado no mesmo processo inquisitorial.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A exposi\u00e7\u00e3o do pensamento de Roza Egipc\u00edaca \u00e9 uma tarefa extremamente complexa, uma vez que sua obra \u00e9 um arquivo que mal foi aberto. Os processos da Inquisi\u00e7\u00e3o nos quais encontramos todas as informa\u00e7\u00f5es a seu respeito foram descobertos pelo antrop\u00f3logo Luiz Mott na se\u00e7\u00e3o destinada aos Documentos do Tribunal do Santo Of\u00edcio (Inquisi\u00e7\u00e3o de Lisboa) do Arquivo Nacional da Torre do Tombo em Portugal. Mott publicou, em 1993, um livro baseado nos dados a\u00ed colhidos (Mott 1993; 2023). Desde ent\u00e3o, o projeto <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Post Scriptum. Arquivo Digital de Escrita Quotidiana em Portugal e Espanha na \u00c9poca Moderna<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> fez uma transcri\u00e7\u00e3o completa de suas cartas (ver item 2 da bibliografia prim\u00e1ria abaixo), mas todos os depoimentos prestados \u00e0 Inquisi\u00e7\u00e3o e os demais documentos anexados aos processos encontram-se na forma manuscrita, exigindo um esfor\u00e7o consider\u00e1vel de paleografia (ver item 1 da bibliografia prim\u00e1ria abaixo). Sob esse aspecto, o livro de Mott, por n\u00e3o fornecer as refer\u00eancias das passagens dos processos que ele cita ou parafraseia, \u00e9 de utilidade bastante limitada. Diante do estado ainda incipiente do estabelecimento dos originais, o que resulta na impossibilidade de uma exposi\u00e7\u00e3o geral de seu pensamento, optamos, neste verbete, por desvelar dois momentos desse amplo territ\u00f3rio ainda mal mapeado. Em primeiro lugar, tratar-se-\u00e1 de apresentar o que \u00e9 talvez o principal tema de seu pensamento, a doutrina dos Sagrados Cora\u00e7\u00f5es, cujas fontes principais s\u00e3o seus depoimentos \u00e0 Inquisi\u00e7\u00e3o e os documentos que ela ditou. Em segundo lugar, ser\u00e1 exposta uma dimens\u00e3o ao mesmo tempo conceitual e pragm\u00e1tica de seus escritos, encontrada nas cartas \u2014 a figura da maternidade espiritual, tema que s\u00f3 pode ser compreendido se quest\u00f5es metodol\u00f3gicas relativas \u00e0 <\/span><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/elisabeth-da-bohemia-epistolografia\/\"><span style=\"font-weight: 400\">epistolografia<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\"> de mulheres fil\u00f3sofas, t\u00e3o importantes na reescrita do c\u00e2none, forem levadas em considera\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Vida<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A vida de Roza Egipc\u00edaca foi t\u00e3o repleta de aventuras, reviravoltas, vit\u00f3rias e derrotas dram\u00e1ticas que pode quase nos levar a colocar em segundo plano seu pensamento. Contra essa tenta\u00e7\u00e3o, por um lado, deve-se admitir que vida e obra s\u00e3o particularmente indiscern\u00edveis em seu caso, mas, por outro lado, n\u00e3o se pode eclipsar suas ideias sob o relato dos fatos que compuseram sua exist\u00eancia excepcional. Seu caso, no entanto, imp\u00f5e um desafio metodol\u00f3gico suplementar, pois deve-se levar em conta que boa parte de sua doutrina foi exposta sob a forma oral, nos autos de um processo, e que essa exposi\u00e7\u00e3o foi mediada justamente por aqueles que se encarregaram de julg\u00e1-la, o corpo eclesi\u00e1stico da Inquisi\u00e7\u00e3o. Por raz\u00f5es \u00f3bvias, esses \u00faltimos n\u00e3o assinalavam quais dos depoimentos por eles registrados tinham sido obtidos sob tortura.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Roza Egipc\u00edaca n\u00e3o deu muitas informa\u00e7\u00f5es sobre sua terra natal, da qual n\u00e3o deveria ter muitas lembran\u00e7as, j\u00e1 que foi raptada da \u00c1frica ainda muito nova. Sabemos que era de na\u00e7\u00e3o cour\u00e1 (ou courana), natural da Costa de Uid\u00e1 (ou Ajud\u00e1), atual Benin (cf. Processo 9065, fl. 3r), e que, ap\u00f3s sobreviver aos desafios da travessia oce\u00e2nica, chegou ao Rio de Janeiro em 1725, tendo ent\u00e3o, segundo afirma em um depoimento, seis anos de idade. Na capital da col\u00f4nia, foi comprada e lhe foi imposto o cognome de Roza \u2014 por quest\u00f5es protocolares relacionadas \u00e0 compra e venda de escravos, eles eram obrigados a trocar de nome, sendo ent\u00e3o batizados pela religi\u00e3o cat\u00f3lica. Oito anos depois, em 1733, quando tinha 14 anos, seu propriet\u00e1rio, Jos\u00e9 de Souza de Azevedo, que a havia violentado e maltratado durante o tempo em que foi seu senhor, a revendeu a Anna Garc\u00eas de Moraes, de Minas Gerais, moradora na regi\u00e3o do Inficionado, ao norte da cidade de Mariana. Como era comum entre mulheres escravizadas naquela \u00e1rea habitada por trabalhadores das minas, passou a se prostituir. Por volta dos 29 anos, em 1748, come\u00e7ou a sofrer de uma s\u00e9rie de convuls\u00f5es, acompanhadas por vis\u00f5es; buscando uma cura, submeteu-se a exorcismos constantes, realizados por padres da regi\u00e3o, especialmente pelo padre Francisco Gon\u00e7alves Lopes \u2014 que n\u00e3o demorou para tornar-se seu confessor e aliado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nessa mesma \u00e9poca, atormentada pelo esp\u00edrito que se identificou algumas vezes como L\u00facifer, foi interrogada pelo vig\u00e1rio da comarca do Rio das Mortes, sendo encaminhada em seguida ao bispo da regi\u00e3o, que a mandou prender. Ao cair nas m\u00e3os da justi\u00e7a secular, foi a\u00e7oitada publicamente por ordem do Juiz de Fora da cidade de Mariana. Algum tempo depois, conseguiu comprar sua alforria, dando em troca de sua liberdade um escravo adquirido com as esmolas recolhidas pelo padre Lopes e por Pedro Rodrigues Arvellos, um amigo que mais tarde seria um de seus denunciantes \u00e0 Inquisi\u00e7\u00e3o. Uma vez livre, dirigiu-se ent\u00e3o, juntamente com o primeiro, para a capital da col\u00f4nia, a cidade do Rio de Janeiro, a\u00ed chegando em 1752. Foi durante essa viagem que, como informa no depoimento prestado \u00e0 Inquisi\u00e7\u00e3o lisboeta, ouviu uma voz que lhe ordenou que aprendesse a ler e a escrever para que pudesse compor um livro. J\u00e1 estabelecida no Rio de Janeiro, enquanto comungava em uma igreja no ano de 1756, ouviu \u201cno interior\u201d uma voz transmitindo-lhe uma vez mais a mesma ordem. Seu novo confessor na cidade, frei Agostinho de S\u00e3o Jos\u00e9, a aconselhou a obedecer a essa instru\u00e7\u00e3o, tornando-se ele mesmo seu mestre na alfabetiza\u00e7\u00e3o, processo que durou um ano e meio (cf. Processo 9065, fl. 16r; ver tamb\u00e9m, no mesmo processo, fl. 8v). A voz lhe d\u00e1 at\u00e9 mesmo, nessa ocasi\u00e3o, o t\u00edtulo da futura obra: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Sagrada teologia do amor de Deus da luz brilhante<\/span><\/i> <i><span style=\"font-weight: 400\">das almas peregrinas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (Processo 9065, fl. 16r) \u2014 no depoimento dado no Rio de Janeiro, o t\u00edtulo do livro \u00e9 mais curto: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Sagrada teologia do amor divino<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (cf. Processo 9065, fl. 73r). Foi tamb\u00e9m uma voz, que ela identifica com a do Cristo crucificado, que, em outro momento, a batizou com seu nome autoral; de fato, \u00e0s v\u00e9speras da viagem para a capital, ela recebe o seguinte batismo, pronunciado, segundo ela afirma, pelo pr\u00f3prio Filho de Deus: \u201cRoza Maria Egypciaca da Vera Crus \u00e9 teu nome, segue-me\u201d (Processo 9065, fl. 14 r). Notemos que seu nome engloba, como um de seus componentes, o nome de Santa Maria Egipc\u00edaca (c.344-c.421), conhecida por ter vivido como prostituta durante sua estada na cidade de Alexandria.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No depoimento prestado \u00e0 comiss\u00e3o instaurada pelo bispado do Rio de Janeiro, motivada por uma den\u00fancia de heresia que vai culminar no processo da Inquisi\u00e7\u00e3o, ela informou que, uma vez completo, o livro tinha mais de meia resma de papel (ou seja, cerca de 250 p\u00e1ginas manuscritas), \u201cexplicando a doutrina crist\u00e3 e dando avisos para a salva\u00e7\u00e3o do homem e outras coisas mais que lhe n\u00e3o lembra, por\u00e9m o especial assunto era a vinda daqueles cora\u00e7\u00f5es de Jesus, Maria, Jos\u00e9, Santa Ana e S\u00e3o Joaquim, e tudo quanto escrevia lhe dizia uma voz no entendimento\u201d. Acrescentou ainda que \u201calgumas vezes lhe sucedeu escrever estando sem sentidos, como fora de si\u201d (Processo 9065, fl. 69v; fl. 73r-73v). Embora haja poucas informa\u00e7\u00f5es sobre a estrutura e o conte\u00fado do livro de Roza Egipc\u00edaca, as passagens em que ele \u00e9 mencionado, nos depoimentos aos representantes da Inquisi\u00e7\u00e3o no Rio de Janeiro e \u00e0 corte inquisicional em Lisboa, s\u00e3o consistentes entre si. Ainda que breves, as refer\u00eancias ao livro s\u00e3o importantes, pois Roza Egipc\u00edaca o menciona espontaneamente nessas duas vezes, sempre associando-o \u00e0 voz \u201cem seu entendimento\u201d e dando-lhe o mesmo t\u00edtulo (com pequenas variantes).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O livro foi conservado durante algum tempo por seu novo confessor e guia espiritual no Rio de Janeiro, frei Agostinho, que, mais tarde, o queimou (cf. Processo 9065, fl. 73v). N\u00e3o \u00e9 preciso assinalar como o destino final do que \u00e9 possivelmente o primeiro livro escrito por uma mulher no Brasil \u00e9 significativo, pois ele foi destru\u00eddo por um homem branco pertencente \u00e0 estrutura eclesi\u00e1stica \u2014 antecipando-se, assim, \u00e0 Inquisi\u00e7\u00e3o. Mesmo que tenha sido provavelmente movido pelo impulso de proteger Roza Egipc\u00edaca da acusa\u00e7\u00e3o de heresia, destruindo as evid\u00eancias contra ela, tal gesto de seu novo confessor e guia espiritual inscreve-se de modo exemplar nos procedimentos gerais destinados ao silenciamento das mulheres negras na col\u00f4nia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">N\u00e3o fora essa, ali\u00e1s, a primeira vez que a Igreja cat\u00f3lica destruiu seus textos. Em 1762, Jozeph Pereira, amigo e correspondente dos r\u00e9us, morador do Rio das Mortes e dono de minas e escravos na regi\u00e3o, indica, em um depoimento escrito dirigido ao Tribunal do Santo Of\u00edcio, que soube, atrav\u00e9s de sua troca epistolar com Roza Egipc\u00edaca e com o padre Lopes, que o Recolhimento do Parto passara por uma crise no tempo da doen\u00e7a que acometeu frei Agostinho, no ano de 1758. Um religioso do Convento de Santo Ant\u00f4nio, aproveitando-se da aus\u00eancia do protetor de Roza Egipc\u00edaca, promoveu uma interven\u00e7\u00e3o na institui\u00e7\u00e3o, afastando-a do seu comando e proibindo-a de habitar no pr\u00e9dio. O interventor examinou \u201co modo de viver e os exerc\u00edcios das Recolhidas\u201d (Processo 2091, fl. 119r) e determinou que os escritos de Roza Egipc\u00edaca fossem todos queimados. Assim que foi restabelecida sua posi\u00e7\u00e3o no Recolhimento, ela passou a reescrever \u201cas mesmas mat\u00e9rias que se haviam queimado\u201d (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">idem<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">ibidem<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Roza Egipc\u00edaca pode ent\u00e3o voltar a sua rotina na cidade: o p\u00e9riplo pelas missas e devo\u00e7\u00f5es nas igrejas, a educa\u00e7\u00e3o m\u00edstica das Recolhidas (composta de v\u00e1rias cerim\u00f4nias religiosas oficiadas por ela e de exerc\u00edcios espirituais severos), a composi\u00e7\u00e3o de versos a serem distribu\u00eddos entre os devotos, e de seus escritos m\u00edsticos, dotados de um car\u00e1ter esot\u00e9rico. Perto de sua den\u00fancia, alarmou parte do Rio de Janeiro com suas previs\u00f5es apocal\u00edpticas, segundo as quais os rios e mares transbordariam e aniquilariam as Minas Gerais e a capital da col\u00f4nia, como castigo pelo abandono das virtudes crist\u00e3s tanto por parte de seus moradores quanto dos habitantes da metr\u00f3pole europeia. Como parte dessa profecia, estava estabelecido que o Recolhimento do Parto seria o \u00fanico lugar a ser poupado pelo dil\u00favio que destruiria a cidade: ele se transformaria em uma esp\u00e9cie de Arca da Reden\u00e7\u00e3o que levaria Roza Egipc\u00edaca e suas disc\u00edpulas ao encontro de dom Sebasti\u00e3o de Portugal. Um matrim\u00f4nio m\u00edstico realizado no oceano Atl\u00e2ntico daria in\u00edcio a uma humanidade regenerada (Processo 2901, fl. 131r, 132r 138r.).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ap\u00f3s o primeiro depoimento prestado aos representantes da Inquisi\u00e7\u00e3o no Rio de Janeiro, em 1762, ela e seu primeiro confessor e guia espiritual, o padre Lopes, foram embarcados para Lisboa, em 1763, onde permaneceram presos no Pa\u00e7o dos Estaus; Roza Egipc\u00edaca tinha ent\u00e3o 44 anos (cf. Processo 9065, fl. 3r). Enquanto o padre Lopes foi condenado, degredado e, alguns anos depois, perdoado, tendo seu processo percorrido de forma completa todo o longo percurso burocr\u00e1tico pr\u00f3prio da Inquisi\u00e7\u00e3o, o processo de Roza Egipc\u00edaca permaneceu inconcluso. Ela morreu na pris\u00e3o em 1771 \u2014 seu corpo foi encontrado j\u00e1 sem vida na cozinha dos Estaus, seis anos ap\u00f3s seu \u00faltimo depoimento. Ela tinha por volta de 52 anos (cf. Documento 18078 anexado ao processo da Inquisi\u00e7\u00e3o).<\/span><\/p>\n<p><b>Obra: temas e conceitos<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Como assinalamos acima, optamos, neste verbete, por expor apenas dois t\u00f3picos do pensamento de Roza Egipc\u00edaca, esperando estimular a\/os pesquisadora\/es a se voltar para a vastid\u00e3o dos documentos ainda a serem mapeados e comentados. Os dois temas escolhidos por n\u00f3s foram a doutrina dos Sagrados Cora\u00e7\u00f5es e a figura da maternidade espiritual.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol>\n<li><b> \u201cComo um inc\u00eandio em meu peito\u201d: A querela do puro amor<\/b><\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Uma das doutrinas teol\u00f3gicas mais importantes de Roza Egipc\u00edaca, e aquela na qual sua contribui\u00e7\u00e3o original foi talvez mais vis\u00edvel, articula-se em torno das vis\u00f5es dos Sagrados Cora\u00e7\u00f5es de Jesus e de sua santa fam\u00edlia. Nos processos da Inquisi\u00e7\u00e3o, ela afirma que teve a primeira vis\u00e3o j\u00e1 adulta, ainda quando habitava Minas Gerais (cf. Processo 9065, fl. 65 r), sendo, em seguida, reportados v\u00e1rios outros epis\u00f3dios da mesma natureza. A doutrina do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o, de origem medieval, faz parte da lenta constru\u00e7\u00e3o de uma certa ideia de subjetividade que se tornar\u00e1 central a partir de fins do s\u00e9culo XVII, na qual a no\u00e7\u00e3o de vida interior passa a adquirir o sentido que lhe damos hoje. Essa concep\u00e7\u00e3o de interioridade mediada pela figura do Cora\u00e7\u00e3o de Jesus encontra na <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Vida<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> de Santa Margarida Maria Alacoque, monja da Visita\u00e7\u00e3o de Paray-le-Monial, seu momento fundador na modernidade. A partir de 1675, quando teve uma vis\u00e3o de Jesus com o peito aberto e o dedo apontando seu cora\u00e7\u00e3o (seguida de outros transportes m\u00edsticos), seu diretor espiritual, o padre de la Colombi\u00e8re, ordenou-lhe que escrevesse as experi\u00eancias envolvendo a apari\u00e7\u00e3o do Cora\u00e7\u00e3o do Cristo, atividade a que se dedica at\u00e9 sua morte, em 1690. Esse conjunto autobiogr\u00e1fico de textos ser\u00e1 rapidamente disseminado pela Europa e pela Am\u00e9rica \u2014 e a rapidez de sua dissemina\u00e7\u00e3o indica que ele articulava conceitualmente uma ideia j\u00e1 bastante difundida na \u00e9poca, embora faltasse-lhe at\u00e9 ent\u00e3o justamente uma s\u00edntese unificadora. No interior da Igreja cat\u00f3lica, foram principalmente os jesu\u00edtas e os franciscanos que adotaram a nova express\u00e3o teol\u00f3gica do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus. Lembremos que o confessor e guia espiritual de Roza Egipc\u00edaca no Rio de Janeiro, frei Agostinho, era franciscano.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Com suas vis\u00f5es, Roza Egipc\u00edaca insere-se nessa tradi\u00e7\u00e3o, especialmente na medida em que ela se manifesta na querela em torno do puro amor a Deus, formulada sobretudo por mulheres m\u00edsticas crist\u00e3s no contexto da Contrarreforma (por exemplo, Madame Guyon, Santa Teresa d\u2019\u00c1vila e a pr\u00f3pria Santa Margarida Maria Alacoque). A essa lista de mulheres v\u00eam se juntar ao debate muitos fil\u00f3sofos e te\u00f3logos, como S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, F\u00e9nelon, Bossuet e Leibniz. Segundo algumas doutrinas teol\u00f3gicas do s\u00e9culo XVII a respeito da querela do puro amor, a experi\u00eancia m\u00edstica de uni\u00e3o com Deus, pensada como modelo ideal da rela\u00e7\u00e3o das pessoas em geral com a Pessoa divina era tomada como uma forma de amor totalmente desinteressado \u2014 a tal ponto que, no limite, o amor se confundiria com a indiferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria salva\u00e7\u00e3o pessoal e com o aniquilamento da individualidade diante da majestade de Deus. Esse movimento m\u00edstico foi caracterizado por muitos, dentre eles Leibniz, como uma forma radical de entusiasmo quietista, sendo muitas vezes censurado pelo pr\u00f3prio Vaticano. No caso dos poderes teol\u00f3gico-pol\u00edticos da col\u00f4nia, pode-se perceber claramente de que forma esse indiferentismo radical amea\u00e7ava anular o reconhecimento devido a suas institui\u00e7\u00f5es locais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A doutrina dos Sagrados Cora\u00e7\u00f5es est\u00e1 muitas vezes, como ocorre no pensamento de Roza Egipc\u00edaca, ligada intimamente \u00e0 exalta\u00e7\u00e3o do puro amor a Deus. Como ocorre com grande parte da cultura contrarreformista, a express\u00e3o dessa doutrina exprime-se atrav\u00e9s de uma forte presen\u00e7a de elementos visuais \u2014 e, no caso dos Sagrados Cora\u00e7\u00f5es, de elementos barrocos fortemente impregnados por uma representa\u00e7\u00e3o carnal da divindade, aproximando-se mesmo de um car\u00e1ter monstruoso, no qual um cora\u00e7\u00e3o sangrando destacado do resto do corpo toma o lugar do pr\u00f3prio Deus. De fato, para a experi\u00eancia m\u00edstica do s\u00e9culo XVII, o retorno reflexivo a si enfatiza o nada interior por seu contraste com o espet\u00e1culo visual barroco da manifesta\u00e7\u00e3o exterior da gl\u00f3ria de Deus \u2014 notemos que o movimento do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o tem uma forte inspira\u00e7\u00e3o no Evangelho de Jo\u00e3o. \u00c9 assim que, em uma carta ao padre Croiset escrita um ano antes de sua morte, Santa Margarida descreve da seguinte forma uma de suas vis\u00f5es: \u201cEu vi o divino Cora\u00e7\u00e3o como em um trono de chamas, mais brilhante que o sol e transparente como cristal\u201d (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">apud<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Morgan, 2008, p. 9).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">As vis\u00f5es m\u00edsticas de Roza Egipc\u00edaca tamb\u00e9m associavam o papel que o esplendor visual da divindade desempenhava na aniquila\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria individualidade, abrindo seu interior para a consci\u00eancia absoluta do Nada. Uma de suas vis\u00f5es mais complexas, ocorrida no ano de 1754, \u00e9 assim transcrita pelo secret\u00e1rio da Mesa de Consci\u00eancia:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">viu o nicho em que estava Nossa Senhora coberto como com espelho, mas muito luzido e claro, tr\u00eamulo assim como de \u00e1guas cristalinas quando nelas reverbera o sol, e, no meio disto, viu tr\u00eas cora\u00e7\u00f5es, um cercado com uma coisa verde como coroa de espinhos e, em cima, uma chama como que lan\u00e7ava fogo, no meio da qual estava uma cruz pequena; e do lado direito deste cora\u00e7\u00e3o estava outro, atravessado com uma espada, que o passava de parte a parte, e, ao lado esquerdo, outro tamb\u00e9m traspassado com uma flor, e todos estes cora\u00e7\u00f5es eram de cor sangu\u00ednea e se moviam juntos com a mesma ordem dentro daquele cristal onde estiveram. (Processo 9065, fl. 71)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A essas vis\u00f5es correspondia um movimento interior de aniquilamento; assim, em uma carta a Maria Thereza de Jesus, datada de 13 de mar\u00e7o de 1759, Roza Egipc\u00edaca resume da seguinte forma o cerne da doutrina do Recolhimento: tratava-se de ensinar as internas \u201ca humilhar-se aos p\u00e9s de todas as criaturas [&#8230;.] porque nesta virtude \u00e9 que consiste a verdadeira vida espiritual, no conhecimento pr\u00f3prio de quem Deus \u00e9 e de quem \u00e9 a criatura. Deus, tudo, a criatura, nada\u201d (Processo 14316, fl. 57r-v). Essa jun\u00e7\u00e3o imediata entre a maior eleva\u00e7\u00e3o e a maior humilha\u00e7\u00e3o, t\u00edpica tanto da teologia paulina quanto da franciscana e da jesu\u00edtica, mostra que o amor puro a Deus consiste na conquista de uma consci\u00eancia aguda da indiferen\u00e7a radical em rela\u00e7\u00e3o a todas as coisas, inclusive \u2014 e talvez principalmente \u2014 a si mesma. At\u00e9 o prazer envolvido na entrega m\u00edstica a Deus n\u00e3o se distingue de um \u201cesquecimento est\u00e1tico de si\u201d, levando o sujeito \u201cna dire\u00e7\u00e3o de uma subjetividade sem desejo\u201d, nas palavras do fil\u00f3sofo belga Paul Moyaert (2000, p. 272). Como escreve Teresa d\u2019\u00c1vila: \u201cA sede \u00e9 t\u00e3o insuport\u00e1vel e severa que n\u00e3o existe nenhuma \u00e1gua que possa saci\u00e1-la. E ela n\u00e3o quer saci\u00e1-la [&#8230;]\u201d (Teresa d\u2019\u00c1vila, 1588, Cap\u00edtulo 11, \u00a7 5). Da mesma forma, Roza Egipc\u00edaca, em seu percurso m\u00edstico, entroniza o pr\u00f3prio vazio do seu ser como objeto de contempla\u00e7\u00e3o devocional \u2014 no s\u00e9culo XX <\/span><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/simone-weil\/\"><span style=\"font-weight: 400\">Simone Weil<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">, entre outras, repetir\u00e1 em parte esse mesmo movimento em que a autorreflex\u00e3o conduz \u00e0 \u201cdescria\u00e7\u00e3o\u201d (Weil, 2020; Nogueira, 2019).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A essa nulifica\u00e7\u00e3o, vivida como experi\u00eancia pr\u00f3pria da interioridade, vem se somar, de maneira paradoxal, o movimento inverso: Roza Egipc\u00edaca deixa de ser o recept\u00e1culo passivo das vis\u00f5es e profecias para passar a fazer parte de seu conte\u00fado, assumindo o centro de suas narrativas escatol\u00f3gicas. De fato, a partir de um certo momento, Roza Egipc\u00edaca relata ter vis\u00f5es que incluem a presen\u00e7a simult\u00e2nea de seis Sagrados Cora\u00e7\u00f5es (Processo do Rio, fl. 71v). \u00c0 voz que, no seu entendimento, lhe nomeava os cora\u00e7\u00f5es, ela perguntou, em uma dessas ocasi\u00f5es, a quem pertencia o sexto, j\u00e1 que os outros cinco pertenciam a Jesus, Maria, Jos\u00e9, Ana e Joaquim \u2014 ao que a voz lhe disse que se \u201cn\u00e3o importasse o saber de quem era, porque podia ser ou do Papa, ou de El Rei, ou do seu confessor Frei Agostinho, ou dela depoente\u201d (Processo do Rio, fl. 71v-72r). Deve-se notar como Roza Egipc\u00edaca se inclui entre tr\u00eas outras possibilidades de identifica\u00e7\u00e3o com o sexto cora\u00e7\u00e3o, todas elas homens representantes do poder teol\u00f3gico-pol\u00edtico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Esse signo visual peculiar \u00e9 associado a uma pr\u00e1tica ritual da qual s\u00f3 temos fontes indiretas: nas acusa\u00e7\u00f5es feitas por residentes do Recolhimento \u00e0 Inquisi\u00e7\u00e3o, foi relatado que Roza Egipc\u00edaca entrava em transe com m\u00fasicas percussivas diante do altar, ocasi\u00f5es em que frequentemente repetia a frase \u201cEu sou Deus\u201d. Tamb\u00e9m \u00e9 dito por outros depoentes, o que \u00e9 confirmado por alguns de seus pr\u00f3prios depoimentos e cartas, que Roza Egipc\u00edaca alegava ter ido mais de uma vez ao Inferno, ser a intercessora privilegiada para resgatar as almas pecadoras do Purgat\u00f3rio, ter morrido e voltado \u00e0 vida e ser a esposa e a m\u00e3e de Deus (ver, por exemplo, Processo 9065, fl. 95r-96v). Uma tal autoposi\u00e7\u00e3o salv\u00edfica parece contrastar com a dimens\u00e3o contemplativa que Roza Egipc\u00edaca partilha com as outras m\u00edsticas aqui mencionadas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A concilia\u00e7\u00e3o entre essas duas tend\u00eancias \u00e9 mediada, no caso de Roza Egipc\u00edaca, pelo car\u00e1ter situado de seu pensamento no contexto colonial. De um modo mais geral, entre os adeptos da tend\u00eancia contemplativa da qual ela tamb\u00e9m faz parte, o desejo de nada desejar coincide com a contempla\u00e7\u00e3o do puro ser de Deus, como ocorre, por exemplo, com as santas m\u00edsticas do s\u00e9culo XVII ou com Weil. De modo similar, mas indo um (grande) passo al\u00e9m, a identifica\u00e7\u00e3o de Roza Egipc\u00edaca, relatada por ela mesma, como sendo o pr\u00f3prio Deus, longe de indicar uma esp\u00e9cie de del\u00edrio de grandeza \u00e9, na verdade, a chave da invers\u00e3o m\u00edstica pela qual o m\u00e1ximo de impot\u00eancia transforma-se imediatamente no m\u00e1ximo de pot\u00eancia. Em particular, a invers\u00e3o dos signos masculinos do poder imperial e eclesi\u00e1stico anunciada pela sua inclus\u00e3o na lista dos candidatos a ocupar o objeto significado pelo sexto cora\u00e7\u00e3o \u00e9 uma peculiaridade de seu pensamento que deve ser compreendida a partir de sua condi\u00e7\u00e3o de escravizada liberta. Ao assumir a posi\u00e7\u00e3o de escrava do Senhor Deus, Roza Egipc\u00edaca penetra no interior do sistema teol\u00f3gico-pol\u00edtico da col\u00f4nia para question\u00e1-lo por dentro, podendo ent\u00e3o enunciar, entre outras coisas, suas previs\u00f5es apocal\u00edpticas. Se ela dizia ser Deus, \u00e9 na medida mesma em que, reduzindo a nada o seu pr\u00f3prio ser, nada al\u00e9m de Deus resta como ser \u2014 e, se ela pode dizer \u201ceu\u201d e atribuir-se uma exist\u00eancia, esse seu ser s\u00f3 pode ser estranho a si mesma, isto \u00e9, s\u00f3 pode ser o pr\u00f3prio ser de Deus. O sexto cora\u00e7\u00e3o simboliza, assim, a completa separa\u00e7\u00e3o de si, ou uma vis\u00e3o de si mesma como um outro. O Deus que se manifesta a\u00ed, por\u00e9m, \u00e9 o Deus do Antigo Testamento, o que dizimou a humanidade salvando No\u00e9 e sua Arca. Nesse sentido, o espet\u00e1culo visual barroco mostra a plenitude do ser absoluto contemplando-se a si mesmo ao punir a humanidade pecaminosa. Nesse estado de \u00eaxtase, Roza Egipc\u00edaca era a escravizada que fora promovida a juiz do mundo e a sua nova Eva. Em suas pr\u00f3prias palavras diante do tribunal da Inquisi\u00e7\u00e3o, durante o tempo em que se encontrava arrebatada por essa exalta\u00e7\u00e3o m\u00edstica, ela sentia \u201ccomo um inc\u00eandio em seu peito\u201d (Processo 9065, fl. 76v).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Esse movimento pendular do pensamento de Roza Egipc\u00edaca, cindido entre duas tend\u00eancias contr\u00e1rias, ter\u00e1 um desdobramento na pr\u00f3xima se\u00e7\u00e3o deste verbete, agora no contexto de sua troca epistolar.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><b> Autossantifica\u00e7\u00e3o epistolar<\/b><\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O conjunto epistolar referente a Roza Egipc\u00edaca a que temos acesso est\u00e1 dispon\u00edvel atrav\u00e9s da \u201cDen\u00fancia de Maria Thereza de Jesus contra Francisco Gon\u00e7alves Lopes e Roza Maria Egiciaca\u201d (ver abaixo o item 4 da bibliografia prim\u00e1ria). Maria Thereza de Jesus, esposa de Pedro Rodrigues Arvellos, amigo e posteriormente filho espiritual e compadre de Roza Egipc\u00edaca, entregou para a Inquisi\u00e7\u00e3o um total de 56 cartas: 25 cartas de Roza Egipc\u00edaca para a fam\u00edlia Arvellos, em um per\u00edodo que vai de 1752 at\u00e9 1762; 23 cartas do padre Francisco Gon\u00e7alves Lopes para Pedro Rodrigues Arvellos; e 8 cartas das filhas do casal, sendo 4 cartas de Faustina Maria do Cora\u00e7\u00e3o de Santa Anna e 4 cartas de Maria Jacinta dos Anjos, quando estavam morando no Recolhimento do Parto sob os cuidados de Roza Egipc\u00edaca. Al\u00e9m dessas, ainda existem outras duas cartas de Roza Egipc\u00edaca anexadas no Processo 9065, uma para o padre Francisco Gon\u00e7alves Lopes e uma para Maria Thereza de Jesus, ambas sem data\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O conte\u00fado das cartas enviadas por Roza Egipc\u00edaca pode ser resumido em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">ora\u00e7\u00f5es<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">peti\u00e7\u00f5es<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, fazendo uso das palavras empregadas por ela em uma de suas missivas (cf. Processo 14316, fl. 55r). De fato, ao longo do corpo das cartas, h\u00e1 uma s\u00e9rie de ora\u00e7\u00f5es para a fam\u00edlia Arvellos e outros de seus conhecidos, algumas profecias \u2014 seguidas de conselhos e pedidos de certas pr\u00e1ticas religiosas estipuladas pela autora para evitar ou fortificar suas profecias \u2014 e pedidos espirituais e materiais \u2014 na sua maioria, esmolas para a melhoria de altares de santos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Na leitura do conjunto da correspond\u00eancia, \u00e9 poss\u00edvel constatar uma s\u00e9rie de transforma\u00e7\u00f5es textuais que paulatinamente afetam as sauda\u00e7\u00f5es, as despedidas e as formas de tratamento dirigidas por Roza Egipc\u00edaca ao casal Pedro Rodrigues Arvellos e Maria Thereza de Jesus. Um exemplo not\u00e1vel \u00e9 a escolha dos termos usados pela autora na despedida de suas cartas, que deixa de assinar como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">escrava<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (Processo 14316, fl. 15v, 35r, 41v, 43v, 45v, 47v, 48v, 55r, 62v, 65v, 69v) e passa a usar o termo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">m\u00e3e<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (Processo 14316, fl. 5v, 15v, 32v, 33v, 52v, 57v, 64v, 67v). De fato, do dia 28 de setembro de 1758 em diante, Roza Egipc\u00edaca torna-se <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">m\u00e3e<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> \u00e0 medida que o reconhecimento de suas filhas no Recolhimento do Parto passa a ser intensificado; essa e outras mudan\u00e7as podem ser enxergadas tamb\u00e9m como o reflexo direto de transi\u00e7\u00f5es progressivas em seu estilo liter\u00e1rio e ret\u00f3rico \u2014 e o estilo, pode-se supor, est\u00e1 intimamente ligado ao significado das doutrinas que s\u00e3o formuladas em seu registro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A mudan\u00e7a das figuras, ambas usadas no cristianismo, de serva a m\u00e3e, aparece pela primeira vez na carta para Pedro Rodrigues Arvellos, em 23 de janeiro de 1758, quando ela se refere a suas filhas: \u201cConsagrando-se ela filha minha de todo o cora\u00e7\u00e3o, \u00e9 cert\u00edssimo ser filhas deles [Sagrados Cora\u00e7\u00f5es]. N\u00e3o s\u00f3 ela, mas de todas que com verdade disserem, sem desprezo nem esc\u00e1rnio: \u2018Eu sou filha de Roza\u2019.\u201d (Processo 14316, fl. 68v). Posteriormente, na missiva enviada a Maria Thereza de Jesus, em 27 de setembro de 1758, Roza Egipc\u00edaca agradece sua carta de alforria: \u201cSobretudo, agrade\u00e7o a VMs muito e muito o mandar-me a carta da minha liberdade. N\u00e3o porque eu queira ser liberta, porque sempre me conto no n\u00famero dos meus parceiros e quero que VMs tamb\u00e9m me conte.\u201d (Processo 14316, fl. 42r). Ap\u00f3s esse evento, ela passa a se despedir como m\u00e3e nas demais correspond\u00eancias destinadas ao casal Arvellos (cf. Processo 14316, fl. 13r-15v) e a trat\u00e1-los como filhos e compadre-comadre. H\u00e1, pois, um progressivo afastamento do lugar de serva depois da posse da carta de alforria, dando lugar para a fun\u00e7\u00e3o de \u201cm\u00e3e e mestra\u201d, como era chamada por suas filhas. As rela\u00e7\u00f5es entre maternidade, liberdade e poder est\u00e3o a\u00ed entrela\u00e7adas. Percebemos que, de serva do Menino Jesus da Porci\u00fancula (cf. Processo 14316, fl. 54r) (esse top\u00f4nimo, pertencente ao vocabul\u00e1rio franciscano, designa o lugar da morte de S\u00e3o Francisco de Assis e do nascimento do franciscanismo), Roza Egipc\u00edaca passa a ocupar uma fun\u00e7\u00e3o an\u00e1loga \u00e0 de Maria, aben\u00e7oando seus filhos a partir de sua autoridade matriarcal e prometendo a prote\u00e7\u00e3o e o amor dos Sagrados Cora\u00e7\u00f5es para todos os que aceitassem a chamar de m\u00e3e. Como a narra\u00e7\u00e3o do que ocorria no Recolhimento do Parto \u00e9 visivelmente cautelosa nos interrogat\u00f3rios da Inquisi\u00e7\u00e3o, \u00e9 a partir da correspond\u00eancia que podemos observar sua rela\u00e7\u00e3o com seus filhos espirituais em um cen\u00e1rio mais \u00edntimo. O <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">ethos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> dessa comunidade singular \u2014 e sobretudo feminina \u2014 encontra nas cartas sua imagem mais fidedigna.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Conhecemos parte dos eventos que aconteciam no Recolhimento do Parto gra\u00e7as \u00e0s descri\u00e7\u00f5es que aparecem em segundo plano na comunica\u00e7\u00e3o de Roza Egipc\u00edaca e de duas de suas seguidoras, Faustina Maria do Cora\u00e7\u00e3o de Santa Anna e Maria Jacinta dos Anjos, com os Arvellos. Algumas passagens revelam experi\u00eancias m\u00edsticas (Processo 14316, fl. 104v), lutas contra dem\u00f4nios (Processo 14316, fl. 43v) e diversas vezes s\u00e3o relatados objetos e alimentos que eram doados e comprados com o dinheiro recebido pelo casal e por terceiros. As cartas de suas seguidoras comprovam a santifica\u00e7\u00e3o e adora\u00e7\u00e3o expostas nas narra\u00e7\u00f5es da m\u00e3e e mestra, que passa a se comportar dessa forma n\u00e3o s\u00f3 na sua rotina no Rio de Janeiro, mas igualmente em sua escrita. Sua maternidade deixa de ser uma fun\u00e7\u00e3o dirigida exclusivamente a suas seguidoras e passa a atingir todas as outras pessoas que entram em contato com sua palavra escrita ou falada. Faustina Maria do Cora\u00e7\u00e3o de Santa Anna afirma: \u201cMaria Sant\u00edssima se apelida m\u00e3e da divina justi\u00e7a, que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 m\u00e3e de miseric\u00f3rdia. E s\u00f3 Rosa Maria Egipc\u00edaca da Vera Cruz \u00e9 m\u00e3e compassiva de todos os filhos de Ad\u00e3o\u201d (Processo 14316, fl. 9v).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Assim, em uma carta de Maria Jacinta dos Anjos, a aceita\u00e7\u00e3o da maternidade de Roza Egipc\u00edaca por meio de sua irm\u00e3, Faustina Maria do Cora\u00e7\u00e3o de Santa Ana, \u00e9 declarada como um parto: \u201cE, tamb\u00e9m, dando-lhe os parab\u00e9ns do bom parto e feliz sucesso que teve minha m\u00e3e e mestra com a sua nova convertida, que \u00e9 a irm\u00e3 Faustina\u201d (Processo 14316, fl. 103r). Lembremos que Nossa Senhora do Parto, a cuja igreja est\u00e1 associado o Recolhimento, \u00e9 invocada pelas mulheres durante sua gravidez ou na hora de dar a crian\u00e7a \u00e0 luz. Esse processo de transi\u00e7\u00e3o e gesta\u00e7\u00e3o est\u00e1 presente na correspond\u00eancia e tamb\u00e9m est\u00e1 conectado aos Sagrados Cora\u00e7\u00f5es: a maternidade de Roza Egipc\u00edaca \u00e9 mais um tra\u00e7o na genealogia que envolve Jesus, seus pais Maria e Jos\u00e9, seus av\u00f3s maternos Joaquim e Ana, podendo retroceder at\u00e9 os pais de Ana, por meio de Santa Emerenciana e S\u00e3o Estolano, e avan\u00e7ar por meio de seus filhos espirituais, formando uma comunidade espiritual divina e terrena. A multiplica\u00e7\u00e3o dos Cora\u00e7\u00f5es sob a forma de uma fam\u00edlia divina \u00e9 algo que n\u00e3o est\u00e1 presente em Santa Margarida Alacoque, embora os nomes dos pais e av\u00f3s de Jesus apare\u00e7am em seus desenhos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Como vimos acima, a pr\u00f3pria Roza Egipc\u00edaca se viu por vezes representada a si mesma por um dos Cora\u00e7\u00f5es. Esse movimento de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">autossantifica\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> iniciou-se quando ela passou a se relacionar mais intimamente com os santos, em uma configura\u00e7\u00e3o familiar na qual todo poder a que ela tinha acesso servia para ser partilhado com suas filhas e filhos. Essa ascens\u00e3o santificadora n\u00e3o \u00e9 dada postumamente, como lemos em algumas hagiografias, mas em vida, sendo, al\u00e9m do mais, autoatribu\u00edda. Os frutos dessa rela\u00e7\u00e3o espiritual tamb\u00e9m eram recebidos em vida. Muitas filhas pareciam obter a posse de uma das figuras dos seus Sagrados Cora\u00e7\u00f5es no momento em que aceitavam a convers\u00e3o aos dogmas de Roza Egipc\u00edaca: assim, lemos na correspond\u00eancia que algumas de suas filhas s\u00e3o nomeadas como Faustina Maria do Cora\u00e7\u00e3o de Santa Ana (cf. Processo 14316, fl. 8r), Maria Roza do Cora\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Jos\u00e9, Ana do Sant\u00edssimo Cora\u00e7\u00e3o de Jesus, Ana do Sant\u00edssimo Cora\u00e7\u00e3o de Maria, etc. (cf. Processo 14316, fl. 52v). \u00c9, pois, atrav\u00e9s da media\u00e7\u00e3o da maternidade que Roza Egipc\u00edaca passa a ser adorada e cultuada por suas seguidoras internadas no Recolhimento e pelos demais disc\u00edpulos espirituais, como o casal Arvellos. Esse percurso pode ser observado, no interior da correspond\u00eancia, tanto no v\u00ednculo que ela prop\u00f4s para os Arvellos quanto nos relatos de suas seguidoras e filhas, os quais comprovam que, por meio de sua pr\u00f3pria palavra, falada e escrita, Roza Egipc\u00edaca enunciava seus poderes como sendo pass\u00edveis de serem concretizados apenas naqueles que aceitavam fazer parte de sua genealogia espiritual.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">As cartas, que foram trocadas de forma t\u00e3o afetiva por tantos anos e que se tornaram instrumentos de viol\u00eancia durante o processo inquisicional, s\u00e3o, portanto, o principal registro no qual podemos vislumbrar outra representa\u00e7\u00e3o de Roza Egipc\u00edaca, enquanto m\u00e3e e mestra, especialmente presente em suas v\u00e1rias profecias apocal\u00edpticas. Segundo essas \u00faltimas, como tamb\u00e9m j\u00e1 mencionamos anteriormente, um apocalipse destruiria o solo colonial do Rio de Janeiro e de Minas Gerais:<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Esse dil\u00favio h\u00e1 de vir dar o mar derrubando todos esses montes e unir-se com esse mar salgado que v\u00eas defronte do pal\u00e1cio e que todos os mais rios se h\u00e3o de soltar e o mar h\u00e1 de sair fora de seus limites ficando toda a cidade dentro das suas entranhas. [&#8230;.] O encoberto est\u00e1 para se descobrir. (Processo 9065, fl. 84. r)<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ora, ao se apresentar, no interior da pr\u00f3pria profecia, como mediadora da salva\u00e7\u00e3o, a maternidade religiosa de Roza Egipc\u00edaca constituiu uma revers\u00e3o dos fundamentos patriarcais do profetismo portugu\u00eas, o qual, na constitui\u00e7\u00e3o de sua identidade imperial, sempre foi povoado por profecias masculinas, tais como as de Ant\u00f4nio Vieira e as que versam sobre d. Sebasti\u00e3o. Essa revers\u00e3o de g\u00eanero se d\u00e1, pois, tanto no aspecto da autoria, que \u00e9 reivindicada por uma mulher negra e ex-escravizada, quanto no conte\u00fado da narrativa prof\u00e9tica, que n\u00e3o tem mais como protagonista do mito da refunda\u00e7\u00e3o um homem. Embora o Cristo e d. Sebasti\u00e3o sejam personagens m\u00edticos das profecias de Roza Egipc\u00edaca, \u00e9 ela quem realiza a media\u00e7\u00e3o salv\u00edfica entre os habitantes da col\u00f4nia e esse estado da humanidade regenerada, constituindo assim um verdadeiro matriarcado. Ao centrar sua prega\u00e7\u00e3o e suas profecias em torno da maternidade espiritual, ela fornece as bases para uma reconfigura\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-metaf\u00edsica da identidade dos oprimidos em solo colonial, na medida em que os valores associados \u00e0s categorias predominantes de g\u00eanero, de ra\u00e7a e de classe social s\u00e3o literalmente revirados em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s diferen\u00e7as minorit\u00e1rias. \u00c9 uma representante dessas minorias que reivindicava o comando espiritual de sua comunidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para ilustrar o modo como a maternidade insere-se em seu pensamento, encerramos este verbete com o trecho de uma carta enviada por Roza Egipc\u00edaca para Pedro Rodrigues Arvellos, missiva em que a autora se proclama como m\u00e3e do destinat\u00e1rio, explica de que forma recebeu o dom de sua maternidade e afirma que esse chamado veio, n\u00e3o de sua vontade, mas de Jesus Cristo \u2014 de quem, notemos, ela afirma ter obtido diretamente essa gra\u00e7a, no contexto de um di\u00e1logo presencial:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">[Jesus Cristo] me promete que, pelos merecimentos de suas sant\u00edssimas chagas, que o h\u00e1 de Ele tomar por filho seu. E perguntando-lhe eu se antes disso todos n\u00e3o eram seus filhos, respondeu-me que sim, mas que pecados que exercitavam nos cora\u00e7\u00f5es ficavam longe desta gra\u00e7a e desmerecedores de sua amizade. E que aqueles que, contritos e arrependidos, sem fingimento, me procurassem a mim por m\u00e3e, que prometia faz\u00ea-los bem aventurados na gl\u00f3ria do seu cora\u00e7\u00e3o. E, desde esta hora que me fez esta promessa para c\u00e1, \u00e9 tal o fervor e impulso que sente o meu cora\u00e7\u00e3o e desejo ardente de ir por esse mundo todo que me tomassem por m\u00e3e. E contritos e arrependidos viessem comigo, que eu lhes prometia da parte do mesmo Deus fazer com eles uma eterna [a]lian\u00e7a do amor de Jesus, Maria, Jos\u00e9, Joaquim e Ana, para assim todos lhe formarmos uma coroa de gl\u00f3ria acidental, unida aos seus sacrat\u00edssimos merecimentos, toda matizada com o infinito pre\u00e7o do seu precioso sangue, para que oferecido nas m\u00e3os da Virgem sacrat\u00edssima e ela oferecendo-a ao seu amant\u00edssimo filho e ele oferecendo-a ao eterno pai por n\u00f3s. Mas, como isto n\u00e3o posso fazer, fica-me s\u00f3 o desejo que lhe ofere\u00e7o todas as horas por mim e por todos. (Processo 14316, fl. 13r)<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/b><\/p>\n<p><b>Obras:<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Documentos do Tribunal do Santo Of\u00edcio, Inquisi\u00e7\u00e3o de Lisboa. Processos 2901, 9065, 18078, 14316. Recuperado de:<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/digitarq.arquivos.pt\/results?t=PROCESSO+DE+ROSA+MARIA+EGIPC%C3%8DACA\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/digitarq.arquivos.pt\/results?t=PROCESSO+DE+ROZA+MARIA+EGIPC%C3%8DACA<\/span><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Apresentamos a seguir a lista dos documentos dispon\u00edveis neste endere\u00e7o eletr\u00f4nico:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">1- Processo 2901 de Francisco Gon\u00e7alves Lopes e Roza Egipc\u00edaca<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">C\u00f3digo de refer\u00eancia: PT\/TT\/TSO-IL\/028\/02901<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Tribunal do Santo Of\u00edcio, Inquisi\u00e7\u00e3o de Lisboa, 200 fl.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">2- Processo 9065 de Roza Maria Egipc\u00edaca<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">C\u00f3digo de refer\u00eancia: PT\/TT\/TSO-IL\/028\/09065<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Tribunal do Santo Of\u00edcio, Inquisi\u00e7\u00e3o de Lisboa, 130 fl.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">3- Documento 18078, Minuta da certid\u00e3o da f\u00e9 de not\u00e1rios e auto de falecimento da r\u00e9 Roza Maria Egipc\u00edaca<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">C\u00f3digo de refer\u00eancia: PT\/TT\/TSO-IL\/028\/18078<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Tribunal do Santo Of\u00edcio, Inquisi\u00e7\u00e3o de Lisboa, 2 fl.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">4- Documento 14316, den\u00fancia de Maria Thereza de Jesus contra Francisco Gon\u00e7alves Lopes e Roza Maria Egipc\u00edaca (encontramos a\u00ed a correspond\u00eancia de Roza Egipc\u00edaca)\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">C\u00f3digo de refer\u00eancia: PT\/TT\/TSO-IL\/028\/CX1587\/14316<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Tribunal do Santo Of\u00edcio, Inquisi\u00e7\u00e3o de Lisboa, 106 fl.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A transcri\u00e7\u00e3o das cartas encontra-se em:<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400\">Post Scriptum <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(CLUL (Ed.). 2014. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">P.S. Post Scriptum. Arquivo Digital de Escrita Quotidiana em Portugal e Espanha na \u00c9poca Moderna<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. [2014]. Recuperado de:<\/span><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/teitok.clul.ul.pt\/postscriptum\/en\/index.php?action=cdd&amp;pid=RME1\"><span style=\"font-weight: 400\">http:\/\/teitok.clul.ul.pt\/postscriptum\/en\/index.php?action=cdd&amp;pid=RME1<\/span><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Literatura secund\u00e1ria:<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Bethencourt, F. (2000). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Hist\u00f3ria das Inquisi\u00e7\u00f5es: Portugal, Espanha e It\u00e1lia. S\u00e9culos XV-XIX<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Feitler, B. (2019). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Nas malhas da consci\u00eancia: Igreja e Inquisi\u00e7\u00e3o no Brasil<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Editora Unifesp.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Godoy, M. H. de. (2005). Um matrim\u00f4nio para a sacraliza\u00e7\u00e3o do mundo: Roza Egipc\u00edaca e Dom Sebasti\u00e3o. In: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Dom Sebasti\u00e3o no Brasil: fatos da cultura e da comunica\u00e7\u00e3o em tempo\/espa\u00e7o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, p. 106-113.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Hann, C. (2014). The Heart of the Matter. Christianity, Materiality, and Modernity [O cora\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria. Cristianismo, materialidade e modernidade]. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Current Anthropology<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Volume 55, Supplement 10, December, p. 182-192.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Kilroy-Ewbank, L. G. (2014). Holy Organ or Unholy Idol? Forming a History of the Sacred Heart in New Spain [\u00d3rg\u00e3o sagrado ou \u00eddolo profano? Formando uma hist\u00f3ria do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o na Nova Espanha]. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Colonial Latin American Review<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Vol. 23, No. 3, 320\u2013359. Recuperado de: <\/span><a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1080\/10609164.2014.972698\"><span style=\"font-weight: 400\">http:\/\/dx.doi.org\/10.1080\/10609164.2014.972698<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Lemos, F. e Pinheiro, U. (2022). Roza Egipc\u00edaca and Estamira: Two Thinkers in a Colonial Society [Roza Egipc\u00edaca e Estamira: duas pensadoras em uma sociedade colonial]. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Latin American Perspectives on Women Philosophers in Modern History<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [Perspectivas latino-americanas sobre fil\u00f3sofas na hist\u00f3ria moderna]. Lopes, C, Ribeiro Peixoto, K., &amp;\u00b7Pricladnitzky, P. (orgs). Cham: Springer.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">______. (2021). Figura\u00e7\u00f5es prof\u00e9ticas e s\u00ednteses m\u00edsticas: ensaio de mitografia em uma teologia pol\u00edtica do seiscentos. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Revista Seiscentos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. G\u00eanero, Feminismos e Fil\u00f3sofas do s\u00e9culo XVII, v. 1 n. 1, p. 216-230.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Maia, M. R. C. (2022). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">De reino traficante a povo traficado: a di\u00e1spora dos cour\u00e1s do golfo do Benin para Minas Gerais (Am\u00e9rica Portuguesa, 1715 &#8211; 1760)<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Margarida Maria [Marguerite-Marie] Alacoque, Santa. <\/span><span style=\"font-weight: 400\">(1880). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Vie de la Bienheureuse Marguerite-Marie Alacoque: tir\u00e9e textuellement d&#8217;un manuscrit \u00e9crit par elle-m\u00eame d&#8217;apr\u00e8s l&#8217;ordre du P. Rolin, son directeur<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [Vida da bem-aventurada Margarida Maria Alacoque: extra\u00edda textualmente de um manuscrito escrito por ela mesma a pedido do Padre Rolin, seu diretor]. Paris: Auteil. Recuperado de:<\/span><a href=\"https:\/\/gallica.bnf.fr\/ark:\/12148\/bpt6k6568865n\/f3.item\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/gallica.bnf.fr\/ark:\/12148\/bpt6k6568865n\/f3.item<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Morgan, D. (2008). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Sacred Heart of Jesus. The Visual Evolution of a Devotion<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [O Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus. A evolu\u00e7\u00e3o visual de uma devo\u00e7\u00e3o]. Amsterdam: Amsterdam University Press.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mott, L. (1993). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Rosa Egipc\u00edaca, uma Santa Africana no Brasil<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. 2<\/span><span style=\"font-weight: 400\">a<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> edi\u00e7\u00e3o: <\/span><span style=\"font-weight: 400\">202<\/span><span style=\"font-weight: 400\">3.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Moyaert, P. (2000) Mysticism: The transformation of a Love Consumed into Desire to a Love without Desire [Misticismo: A transforma\u00e7\u00e3o de um amor consumido em desejo para um amor sem desejo]. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Ethical Perspectives<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> 7. 4, p. 269-278.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nogueira, M. S. M. (2019). Aniquilamento e descria\u00e7\u00e3o: uma aproxima\u00e7\u00e3o entre Marguerite Porete e Simone Weil. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Trans\/Form\/A\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> 42. Recuerado de: <\/span><a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/0101-3173.2019.v42esp.11.p193\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/doi.org\/10.1590\/0101-3173.2019.v42esp.11.p193<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Oliveira, K. e Lobo, T. (2012). O nome dela era Roza: epistolografia de uma ex-escrava no Brasil do s\u00e9culo XVIII. In Lobo, T., Carneiro, Z., Soledade, J., Almeida, A., &amp; Ribeiro, S. (orgs.) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Rozae: lingu\u00edstica hist\u00f3rica, hist\u00f3ria das l\u00ednguas e outras hist\u00f3rias<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [online]. Salvador: EDUFBA, pp. 623-646. Recuperado de: <\/span><a href=\"http:\/\/books.scielo.org\"><span style=\"font-weight: 400\">http:\/\/books.scielo.org<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Rodrigues, A. C.; Maia, M. R. C. (2023). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Sacerdotisas voduns e rainhas do Ros\u00e1rio: Mulheres africanas e Inquisi\u00e7\u00e3o em Minas Gerais (s\u00e9culo XVIII)<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Ch\u00e3o Editora.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Spaulding, R. E. (2017). (Tese de doutorado). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Word and the Flesh: The transformation from female slave subject to mystic agent through performance in the texts of \u00darsula de Jesus (1604-1666), Teresa (Chicaba) de Santo Domingo (1676-1748) and Roza Maria Egipc\u00edaca (1719ca-1771)<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [O Verbo e a Carne: A transforma\u00e7\u00e3o de sujeito escravo feminino em agente m\u00edstica atrav\u00e9s da performance nos textos de \u00darsula de Jesus (1604-1666), Teresa (Chicaba) de Santo Domingo (1676-1748) e Roza Maria Egipc\u00edaca (1719ca-1771)]. The University of New Mexico, Albuquerque, New Mexico. Recuperado de: chrome-extension:\/\/efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj\/https:\/\/digitalrepository.unm.edu\/cgi\/viewcontent.cgi?article=1031&amp;context=span_etds<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">______. Covert Afro-Catholic agency in the mystical visions of early modern Brazil\u2019s Roza Maria Egip\u00e7\u00edaca [Ag\u00eancia afrocat\u00f3lica encoberta nas vis\u00f5es m\u00edsticas de Roza Maria Egip\u00e7\u00edaca na primeira modernidade no Brasil]. In: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Women&#8217;s Negotiations and Textual Agency in Latin America, 1500-1799<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [Negocia\u00e7\u00f5es de mulheres e ag\u00eancia textual na Am\u00e9rica Latina, 1500-1799]. Ed. por M\u00f3nica D\u00edaz, Roc\u00edo Quispe-Agnoli. London &amp; New York: Routledge, p. 38-61.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Teresa d\u2019Avila [Teresa de Jesus], Santa. (1588). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Las Moradas ou El castillo interior.<\/span><\/i> <i><span style=\"font-weight: 400\">Los libros de la madre Teresa de Iesus, fundadora de los monesterios de monjas y frayles Carmelitas descal\u00e7os de la primera regla<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. [As moradas ou Castelo interior. <\/span><span style=\"font-weight: 400\">Os livros de Madre Teresa de Jesus, fundadora dos mosteiros de freiras e frades das carmelitas descal\u00e7as da primeira ordem<\/span><span style=\"font-weight: 400\">]. Barcelona: Iayme Cendrat.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Vainfas, R. (org.). (2000). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Dicion\u00e1rio do Brasil colonial, 1500-1808<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Objetiva.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Weil, S. (2020). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O peso e a gra\u00e7a<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">La pesanteur et la grace<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">]. Tradu\u00e7\u00e3o de Leda Cartum. Belo Horizonte: Ch\u00e3o da Feira.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Roza Maria Egipc\u00edaca da Vera Cruz (1719 &#8211; 1771) &nbsp; por Beatriz Santos Lopes,\u00a0 estudante de Filosofia da Universidade do<\/p>\n","protected":false},"author":360,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","inline_featured_image":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"class_list":["post-1939","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1939","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/360"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1939"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1939\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1943,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1939\/revisions\/1943"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1939"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}