{"id":1998,"date":"2024-08-05T17:31:10","date_gmt":"2024-08-05T20:31:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/?page_id=1998"},"modified":"2024-08-05T17:31:10","modified_gmt":"2024-08-05T20:31:10","slug":"juliana-de-norwich","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/juliana-de-norwich\/","title":{"rendered":"Juliana de Norwich"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><b>Juliana de Norwich<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><span style=\"font-weight: 400\">(c. 1342? \u2013 c. 1416?)<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">por Fernanda Cardoso Nunes, <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">professora Adjunta de<\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0Literaturas de L\u00edngua Inglesa da Universidade Estadual do Cear\u00e1) &#8211; <\/span><a href=\"https:\/\/lattes.cnpq.br\/3129398156367951\"><span style=\"font-weight: 400\">Lattes<\/span><\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2024\/08\/Verbete-Juliana-de-Norwich-PDF.docx.pdf\">Verbete Juliana de Norwich &#8211; PDF<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_1999\" aria-describedby=\"caption-attachment-1999\" style=\"width: 250px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1999\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2024\/08\/norwich.jpg\" alt=\"\" width=\"250\" height=\"388\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2024\/08\/norwich.jpg 250w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2024\/08\/norwich-193x300.jpg 193w\" sizes=\"(max-width: 250px) 100vw, 250px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1999\" class=\"wp-caption-text\">Juliana de Norwich \u2013 Igreja de Saint Julian \u2013 Norwich, UK<br \/>Fonte: https:\/\/www.catholic.org\/saints\/saint.php?saint_id=4124<\/figcaption><\/figure>\n<p><b>Vida<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A obra <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Revelations of Love <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">[<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Revela\u00e7\u00f5es do Amor Divino<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">] (1395) da m\u00edstica Juliana de Norwich (Julian of Norwich) constitui o mais antigo texto conhecido de autoria feminina em l\u00edngua inglesa. Nascida possivelmente na cidade de Norwich, Inglaterra, em aproximadamente 1343 ou 1342, e falecida provavelmente em 1416, a anacoreta relata que teve suas experi\u00eancias m\u00edsticas quando jovem. Segundo Michael Alexander, Juliana de Norwich \u00e9 a primeira grande escritora da prosa inglesa e uma das mais refinadas da Idade M\u00e9dia inglesa (2007, p. 48). Seu estilo demonstra uma autora que devotava grande import\u00e2ncia e cuidado em rela\u00e7\u00e3o ao escrito que produzia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Juliana de Norwich escreveu em ingl\u00eas m\u00e9dio (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Middle English<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">) e n\u00e3o em latim, a l\u00edngua oficial dos escritos cat\u00f3licos do s\u00e9culo XIV, em seu texto <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A<\/span><\/i> <i><span style=\"font-weight: 400\">Revelation of Love<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (tamb\u00e9m conhecido por <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Shewings <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">ou <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Vision<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, em sua vers\u00e3o inicial ou curta), cujas tradu\u00e7\u00f5es em portugu\u00eas t\u00eam o t\u00edtulo de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Revela\u00e7\u00f5es do Amor Divino<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, de aproximadamente 1395, apresenta as vis\u00f5es que teve da divindade durante a recupera\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9ria doen\u00e7a que a teria deixado entre a vida e a morte por \u201ctr\u00eas dias e tr\u00eas noites\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em meio a um contexto de sofrimento, Juliana teve uma s\u00e9rie de vis\u00f5es a partir do dia 8 de maio de 1373 e logo as transcreveu. Na \u00e2nsia de compreender o que acontecia e saber como comunicar todas aquelas revela\u00e7\u00f5es aos outros, foi-lhe permitido que vivesse como reclusa, adotando a vida de anacoreta (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">anchoress<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">), passando a viver numa cela anexa \u00e0 pequena Igreja de Saint Julian of Le Mans em Norwich, da qual ela adotou seu nome de religiosa, Julian of Norwich, ou simplesmente <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Dame Julian<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, como tamb\u00e9m ficou conhecida.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Se pensarmos em Juliana de Norwich, uma mulher talvez leiga, talvez religiosa, escrevendo em vern\u00e1culo em um per\u00edodo de convuls\u00f5es sociais, pol\u00edticas e religiosas acerca de uma vis\u00e3o amorosa e feminina de Jesus Cristo, podemos encarar sua situa\u00e7\u00e3o como, no m\u00ednimo, arriscada. H\u00e1 poucos dados biogr\u00e1ficos sobre a vida de Juliana de Norwich.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Estudiosos discutem se ela entrou para a vida religiosa ap\u00f3s ter as vis\u00f5es ou se j\u00e1 seria uma monja pertencente \u00e0 Ordem beneditina da Carrow Abbey, que se localizava pr\u00f3xima a Norwich. Lembremos que s\u00e3o dessa \u00e9poca a heresia lolarda e suas tradu\u00e7\u00f5es completas da B\u00edblia para o ingl\u00eas m\u00e9dio. Talvez da\u00ed o sil\u00eancio acerca da obra da anacoreta inglesa durante quase tr\u00eas s\u00e9culos, visto que seu primeiro editor conhecido, o monge beneditino Serenus Cressy, editou uma c\u00f3pia do texto em 1623, ou seja, mais de duzentos anos ap\u00f3s sua morte.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Contexto cultural<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ao lado de Christina de Markyate e Margery Kempe, Juliana de Norwich forma a tr\u00edade de m\u00edsticas medievais inglesas. Lembrando que a <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">English Mystical Tradition<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Tradi\u00e7\u00e3o M\u00edstica Inglesa<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">) ainda seria composta pelos m\u00edsticos: Richard Rolle (1290\/1300-c. 1349), o autor de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A Nuvem do N\u00e3o-saber<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Cloud of Unknowing<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">) e Walter Hilton (1340-1396).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Liam Peter Temple (2016) discute a inclus\u00e3o de Juliana nesse grupo; prefere coloc\u00e1-la numa tradi\u00e7\u00e3o continental mais ampla de experi\u00eancia m\u00edstica feminina. Para o estudioso, a obra das m\u00edsticas inglesas estaria mais pr\u00f3xima de suas companheiras continentais, como <\/span><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/filosofas\/marguerite-porete\/\"><span style=\"font-weight: 400\">Marguerite Por\u00e8te<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">, Marie de Oignies, Elizabeth da Hungria, <\/span><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/filosofas\/hildegarda-de-bingen\/\"><span style=\"font-weight: 400\">Hildegarda de Bingen<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">, Br\u00edgida da Su\u00e9cia, Angela de Foligno, Metchild de Hackeborn, Metchild de Magdeburg, entre outras, do que mesmo dos m\u00edsticos ingleses supracitados. Foram influenciadas mais por tradi\u00e7\u00f5es espirituais femininas contemplativas j\u00e1 existentes no restante da Europa. Isso nos remete a uma genealogia de escritos medievais femininos. Juliana de Norwich e sua contempor\u00e2nea Margery Kempe formaram a \u201ccontraparte inglesa\u201d do movimento de produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria feminina de teor m\u00edstico que floresceu no medievo europeu.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Juliana de Norwich apresenta em sua obra uma vis\u00e3o teol\u00f3gica bastante otimista, o que a diferenciou de outros religiosos medievais. Vivendo numa \u00e9poca de pestes (a Peste Negra devastou a Inglaterra v\u00e1rias vezes durante sua vida), guerras (a Revolta dos Camponeses, o in\u00edcio da Guerra dos Cem Anos), o Grande Cisma Cat\u00f3lico, a heresia de John Wycliffe e os lolardos, o enfraquecimento dos monast\u00e9rios, entre outras crises, surpreende a sua vis\u00e3o de que \u201ctudo ficaria bem\u201d (\u201call shall be well\u201d). Al\u00e9m disso, seus escritos apresentam uma \u201ctranscend\u00eancia dos fatos hist\u00f3ricos\u201d, como bem aponta John-Julian (2009, pp. 6-7). Para Juliana, n\u00e3o havia necessidade de lamentar circunst\u00e2ncias e eventos hist\u00f3ricos, pois o que quer que fosse estava dentro da vontade de Deus.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A reclusa da Igreja de St. Julian, portanto, traz uma vis\u00e3o completamente diferente de experi\u00eancia da divindade e de concep\u00e7\u00e3o desta. Embora inserida num contexto adverso, ao manter uma vis\u00e3o otimista do caminho do crist\u00e3o por um mundo marcado por pestes, fome, guerras e desiludido com o papel da Igreja enquanto consoladora, Juliana de Norwich, por meio das dezesseis vis\u00f5es descritas na obra composta por oitenta e seis cap\u00edtulos, apresenta uma vis\u00e3o maternal de Deus atrav\u00e9s da figura de Jesus Cristo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Podemos pensar na rea\u00e7\u00e3o do p\u00fablico da poderosa cidade de Norwich, na regi\u00e3o de Norfolk, que no final do s\u00e9culo XIV era, depois de Londres, a maior cidade inglesa em termos de popula\u00e7\u00e3o total, poderio econ\u00f4mico e religioso. Esse ambiente de grande efervesc\u00eancia cultural e religiosa certamente contribuiu para a forma\u00e7\u00e3o de Juliana. Talvez tenha tido uma educa\u00e7\u00e3o beneditina, o que justifica o reconhecido conhecimento teol\u00f3gico presente em sua obra, mesmo que n\u00e3o saibamos se ela foi monja beneditina ou n\u00e3o antes de receber as revela\u00e7\u00f5es. Essa presen\u00e7a muito intensa da arte sacra na cidade de Norwich tamb\u00e9m deve ter impressionado a anacoreta e treinado seu olhar para a contempla\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, visto que em seu texto as representa\u00e7\u00f5es do corpo de Cristo, outro tema recorrente em sua narrativa, \u00e9 bastante pl\u00e1stica e visual. O fato \u00e9 que, no ano de 1395, ela trouxe a p\u00fablico suas <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Revela\u00e7\u00f5es<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, texto que at\u00e9 hoje tem a capacidade de impressionar e falar aos leitores atuais.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>A obra<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Embora se autodenominasse uma \u201csimples criatura iletrada\u201d, Juliana \u00e9 hoje considerada uma das maiores te\u00f3logas da Idade M\u00e9dia. Uma autora cujas vis\u00f5es se inserem, portanto, dentro de toda uma tradi\u00e7\u00e3o de experi\u00eancias vision\u00e1rias por parte de mulheres entre os s\u00e9culos XI e XV: \u201cPor muito tempo negligenciada fora de um pequeno c\u00edrculo, Juliana vem sendo estudada com grande entusiasmo nos \u00faltimos cem anos tanto por leitores fora da academia, bem como por estudantes e eruditos\u201d (Watson; Jenkins, 2006, p. ix) (Tradu\u00e7\u00e3o minha). Tal fato pode ser claramente percebido nas v\u00e1rias tradu\u00e7\u00f5es para o ingl\u00eas contempor\u00e2neo desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XX, al\u00e9m de estudos acad\u00eamicos, artigos e tradu\u00e7\u00f5es para outras l\u00ednguas, como o espanhol e, recentemente, para a l\u00edngua portuguesa, com duas tradu\u00e7\u00f5es surgidas no ano de 2018 pelas editoras Vozes e Paulus, e uma terceira, publicada em abril de 2023, que al\u00e9m da tradu\u00e7\u00e3o do texto longo, cont\u00e9m a vers\u00e3o in\u00e9dita para o portugu\u00eas do texto curto, de autoria do tradutor Marcelo Musa Cavalari, pela Penguin \u2013 Companhia das Letras. Temos ent\u00e3o tr\u00eas tradu\u00e7\u00f5es brasileiras da obra da m\u00edstica inglesa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A obra de Juliana de Norwich possui duas vers\u00f5es, popularmente chamadas de Texto Curto (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Short Text<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">), escrito logo ap\u00f3s as vis\u00f5es, e o Texto Longo (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Long Text<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">), uma amplia\u00e7\u00e3o do primeiro, feita depois de muitos anos de reflex\u00e3o sobre as revela\u00e7\u00f5es. Os manuscritos da obra conhecidos atualmente s\u00e3o o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Sloane Manuscript<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (c. 1650),<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">da British Library, e o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Paris<\/span><\/i> <i><span style=\"font-weight: 400\">Manuscript<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">,<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">da Biblioth\u00e8que Nationale (c. 1500), ambos contendo a vers\u00e3o longa; um manuscrito contendo a vers\u00e3o curta, tamb\u00e9m da British Library (s\u00e9culo XV); um do St. Joseph\u2019s College (1650); o dos Westminster Archdiocesan Archives (s\u00e9culos XV ou XVI); e a primeira vers\u00e3o impressa, o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Cressy Text<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, de 1623, editado pelo j\u00e1 mencionado Serenus Cressy.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O texto curto, possivelmente uma vers\u00e3o inicial das revela\u00e7\u00f5es, est\u00e1 dividido em vinte e cinco partes numeradas em algarismos romanos e data provavelmente do ano de 1380. A data do manuscrito presente na British Library (MS 37790) \u00e9 de possivelmente 1413, conforme consta na pequena introdu\u00e7\u00e3o que abre o relato.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O texto longo cont\u00e9m 16 revela\u00e7\u00f5es das vis\u00f5es experienciadas pela m\u00edstica e trata de algumas quest\u00f5es teol\u00f3gicas do Cristianismo, tais como o problema do mal, da predestina\u00e7\u00e3o, da salva\u00e7\u00e3o e do inferno. A Paix\u00e3o de Cristo \u00e9 revelada em toda a sua intensidade, mas atrav\u00e9s dela Juliana recebe a certeza da infinita bondade e miseric\u00f3rdia de Deus e do seu amor eterno pela humanidade. Tudo isso \u00e9 apresentado em forma de ideias teol\u00f3gicas originais. Ela descreve Cristo como nossa \u201cm\u00e3e\u201d e tamb\u00e9m como nosso \u201cirm\u00e3o\u201d, e descreve Deus com qualidades femininas e masculinas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O corpo de Jesus na obra de Juliana de Norwich \u00e9 apresentado de forma transgressora em rela\u00e7\u00e3o a como ele \u00e9 representado na obra de outras m\u00edsticas contempor\u00e2neas suas. Uma das caracter\u00edsticas que nos chama logo a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a quest\u00e3o da maternidade de Jesus Cristo, como j\u00e1 mencionado. Cristo \u00e9 representado como \u201coure Moder\u201d, ou seja, \u201cnossa M\u00e3e\u201d, que nos alimenta com o leite que jorra de seu peito (uma refer\u00eancia clara ao momento em que Cristo \u00e9 crucificado e perfurado por um soldado romano e de cuja ferida jorra seu sangue), numa vis\u00e3o amorosa do sacrif\u00edcio de Jesus por todos os seus companheiros crist\u00e3os:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mas quando nossas falhas e nossa desgra\u00e7a nos s\u00e3o apresentadas, ficamos t\u00e3o assustados e t\u00e3o envergonhados de n\u00f3s mesmos que mal sabemos onde nos colocarmos. Por sua vez, nossa m\u00e3e amorosa n\u00e3o quer que fujamos, pois nada poderia ser mais indesej\u00e1vel para ele. Ele quer que nos comportemos como uma crian\u00e7a, que quando est\u00e1 chateada ou assustada corre o mais r\u00e1pido poss\u00edvel para sua m\u00e3e.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">But oftimes when oure falling and oure wretchedness is shewed us, we be so sore adred and so gretly ashamed of oureselfe that unnethis we we with wher that we may holde us. But then wille not oure curtesse moder that we flee away, for him were nothing lother, but he will than that we use use the condition of a childe. For when it is dissesed and adred, it runneth hastely to the moder (Norwich apud Watson; Jenkins, 2006, p. 317).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O diabo se faz presente no final das vis\u00f5es de Juliana e causa-lhe uma dor consider\u00e1vel, mas \u00e9 finalmente vencido pelo poder do amor de Deus na Paix\u00e3o de Cristo, sublinhando a cren\u00e7a central da autora de que n\u00e3o importa os sofrimentos que sofremos nesta vida, Deus ir\u00e1 \u201cfazer todas as coisas bem\u201d no final.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Alguns estudiosos levantam a possibilidade de que Juliana teria se casado muito jovem e tido dois filhos. Teria perdido seu marido e filhos para a peste negra e, ficando sozinha, poderia ter se dedicado \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o, vindo a ter as dezesseis vis\u00f5es. Tudo isso s\u00e3o hip\u00f3teses, mas \u00e9 interessante citarmos aqui e n\u00e3o fecharmos as interpreta\u00e7\u00f5es. Como temos poucas fontes sobre a vida dela, apenas os manuscritos das vers\u00f5es curta e longa, a refer\u00eancia no livro de Margery Kempe e algumas men\u00e7\u00f5es em testamentos, ainda h\u00e1 um longo caminho a se percorrer para se construir a imagem de quem realmente foi Juliana, a m\u00edstica de Norwich.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Sua obra \u00e9 permeada por uma teologia de cunho acolhedor, na qual o pecado original \u00e9 visto como ben\u00e7\u00e3o original, contendo uma espiritualidade n\u00e3o dualista, onde se percebe a import\u00e2ncia da sensualidade humana. Como assinalado por Matthew Fox (2020, p. 15), para Juliana de Norwich, o corpo e a alma formam uma \u201cgloriosa uni\u00e3o\u201d. Da\u00ed sua valoriza\u00e7\u00e3o da sensualidade humana, pois que \u00e9 por meio dela que se recebe os dons divinos. No cap\u00edtulo LVIII da obra, temos a maternidade como um dos aspectos da Trindade: \u201cEu contemplei a obra de toda a Sant\u00edssima Trindade. Nessa contempla\u00e7\u00e3o, eu vi e entendi estas tr\u00eas propriedades: a propriedade da paternidade, a propriedade da maternidade e a propriedade do senhorio, em um Deus\u201d (Norwich, 2018, p. 182). Mais adiante, no mesmo cap\u00edtulo, ela v\u00ea a Segunda Pessoa da Trindade, Jesus Cristo, como \u201cM\u00e3e, Irm\u00e3o e Salvador\u201d. Para Juliana, Jesus \u00e9 nossa M\u00e3e, que \u201c[&#8230;] age na miseric\u00f3rdia para todas as suas crian\u00e7as que s\u00e3o, para ela, submissas e obedientes\u201d (Norwich, 2018, p. 183).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mais uma vez temos a\u00ed o vocabul\u00e1rio referente \u00e0 maternidade, no que se exige do filho obedi\u00eancia e submiss\u00e3o, visto que essa \u201cM\u00e3e\u201d \u00e9 misericordiosa: \u201cE assim nossa M\u00e3e est\u00e1 trabalhando para n\u00f3s de diversas maneiras e nela nossas partes se mant\u00e9m insepar\u00e1veis\u201d (Norwich, 2018, p. 182).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">De acordo com Fox (2020, p. 16), Juliana atribui assim a maternidade a Deus, \u00e0 trindade, a Jesus Cristo e \u00e0 Igreja. Para a anacoreta, a maternidade reflete o lado compassivo e de \u201cterno amor\u201d de Deus. O trabalho da maternidade inclui dar \u00e0 luz, com toda a dor e luta que o parto sempre envolve. A dor, o risco e a coragem fazem parte do lado maternal da divindade. A pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o \u00e9 a atividade materna primordial do Criador.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A imagem de Maria, que recebe em seu ventre Jesus Cristo, \u00e9 evocada logo nos cap\u00edtulos iniciais de sua obra. Ela \u00e9 considerada \u201cnossa M\u00e3e\u201d, pois que \u00e9 \u201cnela que estamos todos encerrados, e \u00e9 dela que nascemos em Cristo (pois como ela \u00e9 a M\u00e3e do nosso Salvador \u00e9 a M\u00e3e de todos aqueles que ser\u00e3o salvos em nosso Salvador) (and out of her we are born in Christ (for she is Mother of our Savior is Mother of all who shall be saved within our Savior).\u201d (John-Julian, 2009, p. 277). Assim, segundo Juliana, a experi\u00eancia de maternidade \u00e9 a experi\u00eancia de se estar \u201cencerrado\u201d no \u00fatero divino. A sacralidade de Maria percorre toda a obra. Como observa Flores, Juliana estaria ligada \u00e0 doutrina do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Cristotokos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, a qual assevera que \u201cMaria \u00e9 genitora da humanidade ou <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">natureza sens\u00edvel<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> de Jesus, mas \u00e9 Cristo, nossa verdadeira M\u00e3e, que em sua Paix\u00e3o, o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">trabalho<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> de parto, pare a nova humanidade redimida\u201d (2013, p. 80) (Grifos do autor).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O aparecimento de textos que se utilizaram da imagem maternal de Jesus ap\u00f3s a \u00e9poca patr\u00edstica data do s\u00e9culo XII, nas obras de v\u00e1rios autores: os monges cistercienses Bernardo de Claraval, Aelred de Rievaulx, Adam de Perseigne e Helinand de Froidmont; William de St. Thierry; e o beneditino Anselmo da Cantu\u00e1ria (Santo Anselmo). Assim, a humanidade de Cristo \u00e9 descrita em imagens que retratam a corporeidade feminina, principalmente a corporeidade da m\u00e3e.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">As imagens femininas do \u201cventre\u201d, do \u201c\u00fatero\u201d, apresentadas na obra, conferem certo cunho de experi\u00eancia pessoal da autora enquanto mulher e m\u00e3e:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Pois, ao mesmo tempo que Deus se uniu a nosso corpo, no \u00fatero da Virgem, assumiu nossa alma sens\u00edvel. E ao assumi-la, fazendo-nos todos inclusos nele, uniu-a \u00e0 nossa subst\u00e2ncia. Nessa uni\u00e3o, ele foi o homem perfeito, pois Cristo unindo-se a cada homem que ser\u00e1 salvo, \u00e9 o homem perfeito (Norwich, 2018, p. 178).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">N\u00e3o podemos esquecer que este \u00e9 um relato de uma viv\u00eancia pessoal com o sagrado. Como podemos perceber, essa experi\u00eancia muitas vezes encontra dificuldades, em termos de linguagem, para ser descrita.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Outro tema recorrente em sua obra \u00e9 a concep\u00e7\u00e3o de um Deus amoroso, compassivo, e n\u00e3o um Deus cheio de ira e \u00f3dio para com seus filhos, pois, para ela, o pecado era algo visto como um passo para o aprendizado e para a f\u00e9. Ela v\u00ea Deus como amig\u00e1vel, familiar, cort\u00eas e incapaz de se enraivecer com seus fi\u00e9is. Uma concep\u00e7\u00e3o feminina de Deus, o que por si s\u00f3 j\u00e1 constitu\u00eda uma transgress\u00e3o dentro da tradi\u00e7\u00e3o de representa\u00e7\u00f5es da divindade nos textos liter\u00e1rios medievais. Podemos dizer que a profundidade com a qual a autora trabalha essas met\u00e1foras n\u00e3o encontra paralelos na tradi\u00e7\u00e3o m\u00edstica anterior. Trata-se de algo realmente inovador, ao pensarmos no contexto hist\u00f3rico no qual ela est\u00e1 inserida, assolado pela peste, guerras e fome. Uma mulher ousando falar de Jesus Cristo como uma m\u00e3e extremamente amorosa e misericordiosa com seus filhos traz, no m\u00ednimo, uma imagem consoladora e esperan\u00e7osa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">E Juliana de Norwich apresenta isso de forma pungente ao relatar suas vis\u00f5es de um Deus consolador e que ao mesmo tempo se apresenta como uma \u201ccort\u00eas M\u00e3e\u201d:<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ent\u00e3o, nossa <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">cort\u00eas M\u00e3e<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> n\u00e3o deseja que fujamos, pois ela nada odiaria mais do que isso; mas deseja que exer\u00e7amos nossa condi\u00e7\u00e3o de crian\u00e7a, pois quando a crian\u00e7a est\u00e1 machucada ou apavorada, corre apressadamente para a m\u00e3e, ou pede ajuda com toda a sua for\u00e7a. Ent\u00e3o, Jesus deseja que fa\u00e7amos como uma d\u00f3cil crian\u00e7a, dizendo assim: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u201cMinha querida M\u00e3e, minha M\u00e3e t\u00e3o cheia de gra\u00e7a, minha honrada M\u00e3e, tem miseric\u00f3rdia de mim: fui tolo e n\u00e3o sou como tu \u00e9s, e n\u00e3o consigo, nem posso, fazer nada sen\u00e3o com tua ajuda e gra\u00e7a.\u201d<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> E mesmo se n\u00e3o nos sentimos aliviados com isso, estamos certos de que <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Jesus usa sua condi\u00e7\u00e3o de M\u00e3e s\u00e1bia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (Norwich, 2018, p. 193) (Grifos meus).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Notamos, na passagem acima, a pr\u00f3pria atribui\u00e7\u00e3o da m\u00e3e como sendo cort\u00eas e am\u00e1vel para com seus filhos. De uma \u201cM\u00e3e\u201d que acolhe seus filhos sem distin\u00e7\u00e3o e que deles cuida com todo o amor que s\u00f3 uma m\u00e3e \u00e9 verdadeiramente capaz de dar. Essa rela\u00e7\u00e3o entre a maternidade e o discurso m\u00edstico de autoria feminina se torna uma marca da obra juliana.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00c9 interessante notarmos na obra o uso do pronome \u201chim\u201d (\u201cele\u201d) em vez de \u201cher\u201d (\u201cela\u201d), como seria de esperar, por conta da concord\u00e2ncia, visto que a autora se refere a Jesus como \u201cm\u00e3e\u201d, mas n\u00e3o altera o g\u00eanero da palavra no texto. Trata-se, claramente, de uma representa\u00e7\u00e3o feminina, maternal e acolhedora de Cristo que \u00e9 descrito pela m\u00edstica de Norwich atrav\u00e9s de uma imagem feminina e de suas caracter\u00edsticas, e \u00e9 precisamente nesse ponto que aparece o interesse dos estudos de g\u00eanero no texto de Juliana de Norwich: no que ele traz para um \u00e2mbito feminino uma imagem tradicionalmente concebida como masculina.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Assim, compreendemos que os relatos m\u00edsticos de Juliana de Norwich sugerem uma reformula\u00e7\u00e3o de conceitos teol\u00f3gicos, no sentido de que o seu tratamento dado a <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Imago Dei<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> proporciona um novo olhar sobre a divindade, tradicionalmente masculinizada e punitiva, agora revelada em seus atributos femininos. Dessa forma, n\u00e3o s\u00f3 a Paternidade de Deus ser\u00e1 valorizada mas teremos tamb\u00e9m, lado a lado, a vis\u00e3o da Maternidade de Deus com todas as suas peculiaridades e, assim, a \u00eanfase na import\u00e2ncia da experi\u00eancia religiosa feminina:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">E assim vi que Deus se alegra por ser nosso Pai, se alegra por ser nossa M\u00e3e e se alegra por ser nosso pr\u00f3prio Esposo e nossa alma a sua amada esposa. Cristo se alegra por ser nosso Irm\u00e3o e se alegra por ser nosso Salvador. E essas s\u00e3o cinco grandes alegrias, como entendo, que ele deseja que desfrutemos, louvando-o, dando-lhe gra\u00e7as, amando-o e aben\u00e7oando-o eternamente (Norwich, 2018, p. 159).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Voltando ao poss\u00edvel cotidiano de Juliana, sabe-se que ela viveu na pequena cela e dedicava-se \u00e0 ora\u00e7\u00e3o, \u00e0 medita\u00e7\u00e3o e aos estudos, e era constantemente visitada por homens e mulheres de todas as idades e classes sociais em busca de aconselhamento espiritual, dentre eles sua conterr\u00e2nea Margery Kempe, fato que ser\u00e1 narrado no cap\u00edtulo 18 de seu livro:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">E ent\u00e3o ela foi ordenada por Nosso Senhor para ir at\u00e9 uma anacoreta na mesma cidade que se chamava Dama Juliana. E assim ela fez, e contou a ela sobre a gra\u00e7a que Deus colocou em sua alma, a compun\u00e7\u00e3o, contri\u00e7\u00e3o, do\u00e7ura e devo\u00e7\u00e3o, a compaix\u00e3o com santa medita\u00e7\u00e3o e alta contempla\u00e7\u00e3o, e muitos discursos sagrados e conversas que Nosso Senhor falou \u00e0 sua alma e tamb\u00e9m muitas revela\u00e7\u00f5es maravilhosas, que ela descreveu \u00e0 anacoreta para descobrir se havia algum engano nelas, pois ela era especialista em tais coisas e poderia dar bons conselhos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">And then she was commanded by our Lord to go to an anchoress in the same city who was called Dame Julian. And so she did, and told her about the grace, that God had put into her soul, compunction, contrition, sweetness and devotion, compassion with holy meditation and high contemplation, and very many holy speeches and converse that our Lord spoke to her soul, and also many wonderful revelations, which she described to the anchoress to find out if there were any deception in them, for she was expert in such things and could give good advice (Kempe, 2004, p. 77) (Tradu\u00e7\u00e3o minha).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Notemos que Margery Kempe considerava Juliana uma \u201cespecialista\u201d em quest\u00f5es espirituais e em dar bons conselhos. Essa passagem do livro de Margery Kempe \u00e9 um dos poucos registros da vida de Juliana de Norwich fora de sua pr\u00f3pria obra. Mas o que podemos constatar \u00e9 que, como afirmado anteriormente, Juliana era considerada uma refer\u00eancia e uma autoridade espiritual na Inglaterra de seu tempo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O apre\u00e7o de seus contempor\u00e2neos era not\u00e1vel. Vale observar na cita\u00e7\u00e3o acima que Juliana tinha o direito, como anacoreta, de possuir uma servi\u00e7al e, caso desejasse, um gato, visto que se tratava da \u00e9poca da peste negra, que era transmitida por ratos. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que na iconografia referente \u00e0 Juliana de Norwich, ela muitas vezes retratava-se acariciando um gato. H\u00e1 tamb\u00e9m a refer\u00eancia a\u00ed ao cemit\u00e9rio da Igreja de St. Julian. N\u00e3o custa lembrar que na \u00e9poca muitas igrejas tinham cemit\u00e9rios ao seu redor. E falando sobre cemit\u00e9rios, \u00e9 interessante trazer aqui a quest\u00e3o do pr\u00f3prio ritual de reclus\u00e3o de uma anacoreta que se assemelhava a uma liturgia f\u00fanebre, incluindo missa de r\u00e9quiem e demais ex\u00e9quias. N\u00e3o podemos esquecer que essas mulheres reclusas se tornavam como que mortas para o mundo externo, e nos Evangelhos se defende o conceito de que a verdadeira vida surge ap\u00f3s a morte.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A obra de Juliana de Norwich e o pouco que conhecemos acerca de sua vida, mas que se nos afigura fascinante, tem atra\u00eddo estudiosas e estudiosos. N\u00e3o podemos esquecer que se trata de uma autora m\u00edstica escrevendo em vern\u00e1culo sobre suas experi\u00eancias, o que pode esclarecer bastante acerca do lugar de onde essa mulher se constr\u00f3i como produtora de sentidos, num texto liter\u00e1rio que rompe com paradigmas conferidos aos textos produzidos por mulheres na Idade M\u00e9dia. Da\u00ed a import\u00e2ncia do estudo da obra da m\u00edstica de Norwich, haja vista o seu pioneirismo na literatura de autoria feminina e no pensamento religioso em l\u00edngua inglesa.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Bibliografia Prim\u00e1ria<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Baker, D. N. (2005). (Ed.). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Showings of Julian of Norwich. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(A Norton Critical Edition). New York: W.W. Norton &amp; Company.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Bale, A. (2015). Introduction. In: KEMPE, Margery. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Book of Margery Kempe<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Tradu\u00e7\u00e3o de Anthony Bale. Oxford: OUP.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Norwich, J. de. (2018). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Revela\u00e7\u00f5es do Amor Divino<\/span><\/i><b>. <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Tradu\u00e7\u00e3o de Marcelo Masson Maroldi. S\u00e3o Paulo: Paulus. (Cole\u00e7\u00e3o Cl\u00e1ssicos do Cristianismo).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Norwich, J. de. (2018). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Revela\u00e7\u00f5es do Amor Divino<\/span><\/i><b>. <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Tradu\u00e7\u00e3o de Maria Eizabeth Hallak Nielsen. Petr\u00f3polis: Vozes. (S\u00e9rie Cl\u00e1ssicos da Espiritualidade).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Norwich, J. de. (2023). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Revela\u00e7\u00f5es sobre o amor divino<\/span><\/i><b>. <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Tradu\u00e7\u00e3o de Marcelo Musa Cavallari. S\u00e3o Paulo: Penguin-Companhia das Letras.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Windeatt, B. (2015). (Trad.). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Revelations of Divine Love. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Oxford: Oxford University Press.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Windeatt, B. (2004). (Ed.). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Book of Margery Kempe<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Annoted Edition. Cambridge: D. S. Brewer.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Bibliografia Secund\u00e1ria<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Alexander, M. (2007). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A History of English Literature. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">2nd ed. London: Palgrave Macmillan.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">John-Julian. (2009). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Complete Julian of Norwich<\/span><\/i><b>.<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Brewster, Massachusetts: Paraclete Press.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Fox, M. (2020). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Julian of Norwich<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">: Wisdom in a Time of Pandemic \u2013 and Beyond. Bloomington: iUniverse.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Temple, L. P. (2016). Returning the English \u201cMystics\u201d to their Medieval Milieu: Julian of Norwich, Margery Kempe and Bridget of Sweden. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Women\u2019s Writing,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> 23:2, p. 141-158.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Watson, N.; Jenkins, J. (2006). (Ed.). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The writings of Julian of Norwich<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">: A vision showed to a devout woman and a revelation of love. Pennsylvania: The Pennsylvania University Press.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Juliana de Norwich (c. 1342? \u2013 c. 1416?) &nbsp; por Fernanda Cardoso Nunes, professora Adjunta de\u00a0Literaturas de L\u00edngua Inglesa da<\/p>\n","protected":false},"author":360,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","inline_featured_image":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"class_list":["post-1998","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1998","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/360"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1998"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1998\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2001,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1998\/revisions\/2001"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1998"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}