{"id":2045,"date":"2024-09-17T18:40:09","date_gmt":"2024-09-17T21:40:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/?page_id=2045"},"modified":"2024-09-17T18:40:09","modified_gmt":"2024-09-17T21:40:09","slug":"flora-tristan","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/flora-tristan\/","title":{"rendered":"Flora Trist\u00e1n"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><b>Flora Tristan\u00a0<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><span style=\"font-weight: 400\">(1803-1844)<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">Luna Ribeiro Campos, <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">professora de Sociologia no Centro\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400\">Federal de Educa\u00e7\u00e3o <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">Tecnol\u00f3gica Celso Suckow da Fonseca (CEFET\/RJ) &#8211; <\/span><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/2034097817055256\"><span style=\"font-weight: 400\">Lattes<\/span><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_2046\" aria-describedby=\"caption-attachment-2046\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2046\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2024\/09\/floraimagem.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"476\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2024\/09\/floraimagem.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2024\/09\/floraimagem-189x300.jpg 189w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2046\" class=\"wp-caption-text\">Retrato de Flora Tristan, por Jules Laure, 1847<br \/>Fonte: wikimedia.org &#8211; Link.<\/figcaption><\/figure>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2024\/09\/Flora-Tristan-PDF.docx.pdf\">Flora Tristan &#8211; PDF<\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Flora Tristan (Flore Celestine Ther\u00e8se Henriette Trist\u00e1n y Moscoso) nasceu em Paris, em 7 de abril de 1803, e morreu em Bordeaux, em 14 de novembro de 1844, aos 41 anos. Era filha de Anne-Pierre Laisnay, francesa, e de Mariano de Trist\u00e1n y Moscoso, peruano, coronel do ex\u00e9rcito espanhol e membro de uma fam\u00edlia rica e influente de Arequipa, no Peru. A uni\u00e3o do casal, realizada de maneira clandestina no norte da Espanha, deixou a fam\u00edlia desamparada quando Mariano morreu, em 1807. Sem direito aos bens e \u00e0 heran\u00e7a, Anne-Pierre foi morar com os filhos no campo, nos arredores de Paris, vivendo em condi\u00e7\u00f5es financeiras bem modestas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Flora Tristan n\u00e3o frequentou nenhum tipo de institui\u00e7\u00e3o escolar e, provavelmente, aprendeu a ler e escrever com a m\u00e3e. O resto de sua educa\u00e7\u00e3o se deu de forma autodidata. Ao voltar a morar em Paris, ela trabalhou como oper\u00e1ria em uma litografia no ateli\u00ea do pintor Andr\u00e9 Chazal, com quem se casou aos 17 anos. A rela\u00e7\u00e3o com o marido, descrito como um homem a quem \u201cn\u00e3o podia amar nem estimar\u201d (Tristan, 2004, p. 50), foi conturbada e o casal se separou logo depois, quando Tristan estava na terceira gravidez. Apenas duas crian\u00e7as sobreviveram. Ap\u00f3s a separa\u00e7\u00e3o, abandonou o nome do marido e assumiu o sobrenome paterno. Nos anos seguintes, deixou os filhos aos cuidados de sua m\u00e3e e trabalhou como dama de companhia para uma fam\u00edlia inglesa, viajando pela Fran\u00e7a, Inglaterra, It\u00e1lia e Su\u00ed\u00e7a (Gordon; Cross 1996).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A primeira biografia de f\u00f4lego de Tristan tentou reconstruir os detalhes de sua trajet\u00f3ria entre 1826-1834, por\u00e9m h\u00e1 pouca informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel sobre esse per\u00edodo (Puech, 1925, p. 18). Assim, a rela\u00e7\u00e3o com os filhos e com a m\u00e3e, ou a confirma\u00e7\u00e3o dos trabalhos que realizou no per\u00edodo, seguem objeto de especula\u00e7\u00e3o. Ficaram marcados, no entanto, os constrangimentos que sofreu por ser uma mulher separada. Ela relatou ter vivido \u201ctudo o que uma mulher est\u00e1 condenada a sofrer quando se separa do marido em meio a uma sociedade que [&#8230;] conservou velhos preconceitos contra as mulheres depois de haver abolido o div\u00f3rcio e tornado quase imposs\u00edvel a separa\u00e7\u00e3o de corpos\u201d (Tristan, 2000, p. 45).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Na trajet\u00f3ria de Flora Tristan, as viagens foram uma pr\u00e1tica constante, fonte de experi\u00eancias e inspira\u00e7\u00e3o para reflex\u00f5es. Ao completar 30 anos, Tristan fez a viagem considerada por muitos int\u00e9rpretes como a mais significativa de sua trajet\u00f3ria: ela foi ao Peru, decidida a reivindicar sua heran\u00e7a e o reconhecimento de sua filia\u00e7\u00e3o paterna. Al\u00e9m disso, a viagem era uma maneira de fugir das persegui\u00e7\u00f5es do marido. Tristan partiu para o Peru em abril de 1833. Apresentando-se como solteira, \u00fanica mulher a bordo do navio, ela embarcou sozinha em uma travessia que durou cerca de cinco meses. Sua filha, Aline, ficou em uma pens\u00e3o em Ango\u00fbleme; o filho, Ernest, estava aos cuidados do pai.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A nega\u00e7\u00e3o do reconhecimento familiar exerceu um grande impacto em sua trajet\u00f3ria, tanto pelas consequ\u00eancias financeiras, como pela frustra\u00e7\u00e3o do desejo de ter uma fam\u00edlia que a amparasse. Da fam\u00edlia paterna, Tristan conseguiu apenas uma pequena pens\u00e3o anual, que lhe permitiu se dedicar \u00e0 escrita, mas por um curto per\u00edodo, visto que seu tio cancelou este apoio financeiro ap\u00f3s Tristan expor sua avareza em seu primeiro livro. O retorno dessa viagem marca o in\u00edcio do ativismo pol\u00edtico e da vida liter\u00e1ria de Flora Tristan.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Imbu\u00edda nos debates sobre reforma social, publicou, em 1835, o op\u00fasculo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">N\u00e9cessit\u00e9 de faire un bon accueil aux femmes \u00e9trang\u00e8res <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">[<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Necessidade de acolher bem as mulheres estrangeiras<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">], em que aborda a condi\u00e7\u00e3o das mulheres estrangeiras que transitavam sozinhas pelas grandes cidades. Em 1837, organizou as notas e mem\u00f3rias da viagem ao Peru e publicou <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Peregrina\u00e7\u00f5es de uma p\u00e1ria<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, um misto de autobiografia, relato de viagem e manifesto pol\u00edtico. No mesmo ano, enviou \u00e0 C\u00e2mara dos Deputados uma peti\u00e7\u00e3o pelo restabelecimento do div\u00f3rcio.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Suas narrativas de viagem a localizam como um dos primeiros exemplos de mulheres que viajaram pela Am\u00e9rica Hisp\u00e2nica e adquiriram notoriedade com seus relatos (Pratt, 1999). Em 1838, publicou seu \u00fanico romance, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">M\u00e9phis<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, e enviou outra peti\u00e7\u00e3o reivindicando a aboli\u00e7\u00e3o da pena de morte. O ano de 1838 tamb\u00e9m ficou marcado pela tentativa de feminic\u00eddio sofrida por Flora Tristan. Seu marido tentou mat\u00e1-la com dois tiros \u00e0 queima roupa ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Peregrina\u00e7\u00f5es de uma p\u00e1ria. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Neste livro, a autora exp\u00f4s seu desprezo por Chazal e relatou uma situa\u00e7\u00e3o amorosa com o capit\u00e3o do navio que a levou ao Peru. Ela sobreviveu ao atentado, mas ficou com duas balas alojadas no peito, o que deixou sua sa\u00fade fr\u00e1gil.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Com as viagens \u00e0 Inglaterra, reuniu material para o livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Promenades dans Londres <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">[<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Passeios em Londres<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">], publicado em 1840. Nessa obra, o olhar da autora se voltou para as condi\u00e7\u00f5es de vida e de trabalho do proletariado ingl\u00eas. Ela documentou suas visitas a f\u00e1bricas, pris\u00f5es, hosp\u00edcios, escolas, orfanatos, casas de prostitui\u00e7\u00e3o e bairros prolet\u00e1rios.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em 1843, publicou o livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Union Ouvri\u00e8re <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">[<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Uni\u00e3o Oper\u00e1ria<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">]<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Nele \u00e9 poss\u00edvel observar uma reflex\u00e3o mais sistem\u00e1tica sobre o proletariado, a partir do entrela\u00e7amento das opress\u00f5es de classe e g\u00eanero. Ao analisar a forma\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora, Tristan dedicou um cap\u00edtulo \u00e0 situa\u00e7\u00e3o das mulheres. Para atingir seu p\u00fablico-alvo, oper\u00e1rios e oper\u00e1rias, empreendeu uma longa viagem por 22 prov\u00edncias francesas, organizando sess\u00f5es de leitura e apresentando suas ideias. O di\u00e1rio mantido durante esse per\u00edodo foi publicado apenas em 1973, sob o t\u00edtulo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Le Tour de France &#8211; \u00e9tat actuel de la classe ouvri\u00e8re sous l\u2019aspect moral, intellectuel, mat\u00e9riel <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">[<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Tour pela Fran\u00e7a. Estado atual da classe oper\u00e1ria sob o aspecto moral, intelectual e material<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">]. Em 1844, adoeceu durante a passagem por Bordeaux, onde faleceu, aos 41 anos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Remontando sua trajet\u00f3ria, os primeiros di\u00e1logos intelectuais e pol\u00edticos se deram a partir da aproxima\u00e7\u00e3o, no in\u00edcio dos anos 1830, dos c\u00edrculos socialistas constru\u00eddos em torno de figuras como Saint-Simon (1760-1825), Charles Fourier (1772-1837) e Robert Owen (1771-1858). Esses intelectuais, que ficaram conhecidos como socialistas ut\u00f3picos a partir da defini\u00e7\u00e3o de Friedrich Engels (1980), tinham vis\u00f5es progressistas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 participa\u00e7\u00e3o das mulheres na sociedade e no mundo do trabalho, o que levou muitas delas a se envolverem com essas correntes te\u00f3ricas (Cross, 1988).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Na primeira metade do s\u00e9culo XIX, houve uma profus\u00e3o de obras ut\u00f3picas. Para Conxa Carmona (2020, p. 24), o que foi chamado de \u201csocialismo ut\u00f3pico\u201d configura a primeira resposta da filosofia aos efeitos nocivos da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial \u2014 a produ\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria, fome e a explora\u00e7\u00e3o do trabalho de maneira completamente nova. Segundo a autora, essas constru\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas tinham em comum \u201cos dois elementos caracter\u00edsticos da utopia: a rejei\u00e7\u00e3o da realidade existente e o desejo e desenho de uma nova realidade, imaginada e pensada como melhor\u201d (Carmona, 2020, p.27). A cr\u00edtica \u00e9tica ao sistema social da \u00e9poca denunciava a imoralidade de poucos se beneficiarem da riqueza produzida pelos trabalhadores, rejeitando a ideologia liberal que justificava os abusos da propriedade privada.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O pensamento de Flora Tristan foi fortemente influenciado pelas ideias saint-simonianas, embora ela nunca tenha aderido formalmente \u00e0 doutrina. Desde os primeiros escritos de Flora Tristan \u00e9 not\u00e1vel a presen\u00e7a de elementos das teorias de Saint-Simon, como a centralidade do princ\u00edpio associativo, a solidariedade, a fraternidade e o internacionalismo. As feministas saint-simonianas tamb\u00e9m foram uma fonte importante na constru\u00e7\u00e3o do pensamento da autora, ao se oporem \u00e0 viol\u00eancia e ao terror associado \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o, adotando uma abordagem mais rom\u00e2ntica, que priorizava a moralidade, os sentimentos e as emo\u00e7\u00f5es (Moses, 1984).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">As mulheres foram uma for\u00e7a consider\u00e1vel no in\u00edcio do socialismo, e sua presen\u00e7a indica que, no socialismo anterior a Marx e Engels, havia uma rela\u00e7\u00e3o estreita entre ideias socialistas e a reivindica\u00e7\u00e3o de um novo status social para as mulheres. De Charles Fourier, Tristan incorporou a ideia de que o grau de emancipa\u00e7\u00e3o da mulher numa sociedade \u00e9 a medida natural pela qual se mede a emancipa\u00e7\u00e3o geral. Tamb\u00e9m teve grande impacto em seus escritos a proposta de cria\u00e7\u00e3o dos falanst\u00e9rios, o modelo de sociedade perfeita idealizado por Fourier baseado na cria\u00e7\u00e3o de pequenas comunidades cooperativas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">De Owen, incorporou principalmente as ideias sobre reforma educacional. No pensamento do reformador ingl\u00eas, a educa\u00e7\u00e3o assumia um lugar central na forma\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter humano, por isso as teorias acerca da educa\u00e7\u00e3o infantil, baseada em atos m\u00fatuos de benevol\u00eancia e bondade, constituem o cerne de seu pensamento.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0Para Flora Tristan, Saint-Simon, Fourier e Owen chegaram, por caminhos distintos, \u00e0 mesma conclus\u00e3o: \u201co trabalho por associa\u00e7\u00e3o \u00e9 o \u00fanico que pode proteger os homens da opress\u00e3o e da fome e resgat\u00e1-los dos v\u00edcios e dos crimes que d\u00e3o origem \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o e \u00e0s lutas internas das nossas sociedades\u201d (Tristan, 1978, p. 318).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Diferentemente dos primeiros socialistas ou de Marx e Engels, Flora Tristan n\u00e3o estava preocupada em construir um grande sistema de ideias, de pensar em comunidades perfeitas ou de desenvolver o socialismo como uma teoria. Seus esfor\u00e7os se direcionavam para uma a\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica, para promover a transforma\u00e7\u00e3o social de maneira gradual e concreta, de modo a mudar a posi\u00e7\u00e3o que a classe oper\u00e1ria ocupava na na\u00e7\u00e3o e a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as frente \u00e0 capacidade de criar leis e exigir direitos. Para Carmona, o pensamento de Flora Tristan se aproximava da abordagem de uma filosofia social de car\u00e1ter pragm\u00e1tico, \u201cbaseada mais na observa\u00e7\u00e3o e no conhecimento direto dos problemas do que no entusiasmo imaginativo\u201d (Carmona, 2020, p. 28).\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Principais temas<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Durante a primeira metade do s\u00e9culo XIX, havia duas quest\u00f5es de primeira ordem na sociedade francesa: de um lado, como equacionar os desdobramentos da Revolu\u00e7\u00e3o de 1789-1799 em termos institucionais e pol\u00edticos; de outro, como lidar com a assim chamada \u201cquest\u00e3o social\u201d que resultava da industrializa\u00e7\u00e3o em curso no continente. N\u00e3o era dado, no entanto, at\u00e9 que ponto as duas quest\u00f5es podiam ser conciliadas, isto \u00e9, se a linguagem de direitos individuais, do constitucionalismo e da unidade nacional era capaz de oferecer respostas satisfat\u00f3rias ao crescente pauperismo e ao conflito industrial.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A posi\u00e7\u00e3o das mulheres na Fran\u00e7a p\u00f3s-revolucion\u00e1ria era delicada. A emancipa\u00e7\u00e3o feminina fora pautada nos anos 1790 por intelectuais como Olympe de Gouges e <\/span><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/filosofas\/mary-wollstonecraft\/\"><span style=\"font-weight: 400\">Mary Wollstonecraft<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">, mas a conquista dos direitos civis foi parcial e ef\u00eamera. O direito ao div\u00f3rcio havia sido estabelecido na Fran\u00e7a em 1792, mas foi abolido ap\u00f3s a Restaura\u00e7\u00e3o, em 1816, s\u00f3 voltando a figurar plenamente na legisla\u00e7\u00e3o francesa no final do s\u00e9culo XIX. O C\u00f3digo Civil de 1804 contribuiu para retardar a emancipa\u00e7\u00e3o feminina, e a depend\u00eancia das esposas frente aos maridos foi vista por muitas mulheres como uma forma de escravid\u00e3o (Offen, 2007).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nos anos 1820 e 1830, a reivindica\u00e7\u00e3o da autonomia das mulheres para o div\u00f3rcio foi tema de diversas peti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e campanhas de imprensa, lideradas por feministas saint-simonianas com as quais Flora Tristan travou interlocu\u00e7\u00e3o direta, como Pauline Roland (Gonz\u00e1lez, 2009). A trajet\u00f3ria de Tristan \u00e9 decisivamente marcada pelo estatuto civil de depend\u00eancia a que foram submetidas as mulheres francesas, consideradas incapazes para a posse e gest\u00e3o da propriedade, para a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e para o livre tr\u00e2nsito nos espa\u00e7os p\u00fablicos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres e da classe trabalhadora constitui o eixo principal da obra de Flora Tristan. Por um lado, sua obra se valeu das viv\u00eancias que a levaram a se definir como p\u00e1ria, marcada pela condi\u00e7\u00e3o de filha bastarda, pobre e mulher separada. Por outro lado, como socialista, expressou algumas preocupa\u00e7\u00f5es de sua gera\u00e7\u00e3o, como o otimismo com a mudan\u00e7a social atrav\u00e9s da coopera\u00e7\u00e3o entre as classes e com a possibilidade de superar o ego\u00edsmo e a mis\u00e9ria com humanitarismo e compaix\u00e3o (Grogan, 1998; Cross, 1988).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Peregrina\u00e7\u00f5es de uma p\u00e1ria<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, destacam-se a defesa do div\u00f3rcio e da liberdade feminina. Tristan percebeu que a perman\u00eancia e legitimidade das rela\u00e7\u00f5es de opress\u00e3o e submiss\u00e3o, seja da mulher no casamento, seja da pessoa escravizada, t\u00eam base institucional, jur\u00eddica e ideol\u00f3gica. Assim, para transform\u00e1-las, seria necess\u00e1rio mudar as condi\u00e7\u00f5es institucionais e legais que as sustentavam (Cross, 1988). Vem da\u00ed os esfor\u00e7os de toda uma gera\u00e7\u00e3o de mulheres para restabelecer o direito ao div\u00f3rcio, dentro de um quadro mais amplo de demanda de direitos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A trajet\u00f3ria pessoal, as experi\u00eancias de viagem e o contato com as ideias socialistas formaram o arcabou\u00e7o das quest\u00f5es desenvolvidas por Flora Tristan em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Passeios em Londres <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(1840) e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Uni\u00e3o Oper\u00e1ria <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(1843). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Uni\u00e3o Oper\u00e1ria<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, livro de car\u00e1ter militante, condensa os principais esfor\u00e7os de Flora Tristan para demonstrar como aspectos de classe e g\u00eanero se articulam e constituem-se mutuamente. Uma das principais contribui\u00e7\u00f5es desta obra \u00e9 a reflex\u00e3o sobre a situa\u00e7\u00e3o das mulheres no interior da fam\u00edlia da classe trabalhadora, apresentada no terceiro cap\u00edtulo, intitulado \u201cPor que eu menciono as mulheres\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Segundo Tristan, as narrativas hist\u00f3ricas elaboradas no \u00e2mbito da religi\u00e3o, das leis e da ci\u00eancia funcionaram para afirmar o falso princ\u00edpio da inferioridade da mulher, resultando que o padre, o legislador e o fil\u00f3sofo a tratassem \u201ccomo uma verdadeira p\u00e1ria\u201d, colocada \u201cfora da<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> igreja<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, fora da<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> lei<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e fora da <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">sociedade<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d (Tristan, 1986, p. 185). Esses pressupostos levaram ao entendimento de que as mulheres n\u00e3o precisavam ser educadas, destinando-as \u00e0 tutela e \u00e0 autoridade do homem, seu mestre:<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Acreditando que \u00e0 mulher, por sua organiza\u00e7\u00e3o, faltava for\u00e7a, intelig\u00eancia e capacidade e que era impr\u00f3pria para trabalhos s\u00e9rios e \u00fateis, se conclui <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">logicamente<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> que seria perda de tempo lhe proporcionar uma educa\u00e7\u00e3o racional, s\u00f3lida, severa, capaz de fazer dela um membro \u00fatil para a sociedade. Ent\u00e3o ela \u00e9 educada para ser uma <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">bonequinha boazinha<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e uma escrava destinada <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">a distrair seu mestre e o servir<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [&#8230;] (Tristan, 1986, p. 191).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A educa\u00e7\u00e3o feminina era vista como um elemento que beneficiaria a sociedade como um todo. Flora Tristan desenvolveu o argumento que a escritora inglesa Mary Wollstonecraft defendeu quase 50 anos antes no livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Reivindica\u00e7\u00e3o dos direitos das mulheres<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1792): um feminismo de igualdade com os homens e que acreditava no potencial civilizat\u00f3rio da educa\u00e7\u00e3o feminina para uma reforma moral da sociedade (Grogan, 1998). E ela acrescenta: para uma melhora na condi\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Tristan defendia que a instru\u00e7\u00e3o das mulheres do povo era a chave para a melhora material, moral e intelectual da classe oper\u00e1ria, uma vez que elas eram as respons\u00e1veis tanto pela educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as, quanto pela organiza\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica da vida do oper\u00e1rio.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Na vida dos oper\u00e1rios a mulher \u00e9 tudo. Ela \u00e9 a \u00fanica provid\u00eancia. Se ela lhe falta, lhe falta tudo [&#8230;] No entanto, que educa\u00e7\u00e3o, que instru\u00e7\u00e3o, que dire\u00e7\u00e3o, que desenvolvimento moral ou f\u00edsico recebe a mulher do povo? Nenhum. (Tristan,1986, p.193)<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A autora sustentava que a emancipa\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios s\u00f3 seria poss\u00edvel quando as mulheres sa\u00edssem do estado de embrutecimento ao qual estavam sujeitas. Em \u201cPor que eu menciono as mulheres\u201d, Tristan se dedicou a convencer n\u00e3o apenas os homens, mas tamb\u00e9m as mulheres oper\u00e1rias da necessidade de se instru\u00edrem. A autora fez uma longa digress\u00e3o sobre os problemas enfrentados pela fam\u00edlia prolet\u00e1ria que poderiam ser contornados, ou mesmo solucionados, se a rela\u00e7\u00e3o conjugal fosse mais igualit\u00e1ria, e as mulheres e meninas n\u00e3o desempenhassem um papel servil no interior da fam\u00edlia. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">As condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de vida e trabalho das classes oper\u00e1rias, somadas \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de inferioridade legal, jur\u00eddica e moral das mulheres, dificultaria a constru\u00e7\u00e3o de uma rela\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel no \u00e2mbito dom\u00e9stico. Ao reconhecer a igualdade de direitos para as mulheres, elas n\u00e3o seriam mais vistas como servas do lar ou concorrentes no trabalho, e passariam a ser companheiras na vida cotidiana e aliadas nos projetos de transforma\u00e7\u00e3o social. Caberia, assim, aos oper\u00e1rios, \u201cque s\u00e3o as <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">v\u00edtimas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> da <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">desigualdade<\/span><\/i> <i><span style=\"font-weight: 400\">de fato<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e da injusti\u00e7a [&#8230;] estabelecer enfim sobre a terra o reino da justi\u00e7a e da <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">igualdade absoluta<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> entre a mulher e o homem\u201d (Tristan, 1986, p. 211).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Oper\u00e1rios, voc\u00eas n\u00e3o t\u00eam o poder de revogar antigas leis e fazer novas \u2014 n\u00e3o, sem d\u00favida \u2014 mas voc\u00eas t\u00eam o poder de protestar contra a iniquidade e o absurdo das leis que entravam o progresso da humanidade e fazem voc\u00eas sofrerem, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">particularmente voc\u00eas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Voc\u00eas podem, \u00e9 at\u00e9 mesmo um <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">dever sagrado<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, protestar energicamente em pensamentos, palavras, escritos contra todas as leis que oprimem a voc\u00eas. Ent\u00e3o, compreendam bem que: a lei que <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">submete a mulher<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e a <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">priva de instru\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> oprime a voc\u00eas, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">homens prolet\u00e1rios<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (Tristan 1986, pp. 209-210).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A proposta de Flora Tristan para tirar a classe trabalhadora da mis\u00e9ria, do isolamento e da ignor\u00e2ncia passa pela compreens\u00e3o de que homens e mulheres s\u00e3o agentes hist\u00f3ricos parceiros da mudan\u00e7a social. Ao mencionar as mulheres no processo de forma\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora, e inclu\u00ed-las ao n\u00edvel da linguagem \u2014 oper\u00e1rias, todas \u2014 a autora antecipa debates sociol\u00f3gicos ainda hoje n\u00e3o superados.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Abordar a quest\u00e3o oper\u00e1ria a partir do princ\u00edpio da igualdade de g\u00eanero transforma a defini\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria, permitindo o reconhecimento e a valoriza\u00e7\u00e3o de formas de trabalho que v\u00e3o al\u00e9m do trabalho fabril e das ocupa\u00e7\u00f5es predominantemente masculinas. Ao incluir as mulheres no discurso, Tristan reafirma a exist\u00eancia e a dignidade da mulher trabalhadora, desafiando vis\u00f5es homog\u00eaneas da classe trabalhadora e destacando a invisibilidade do trabalho dom\u00e9stico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Cr\u00edticas recebidas e atualidade da obra\u00a0<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ap\u00f3s um longo per\u00edodo de esquecimento, a vida e a obra de Flora Tristan receberam interesse renovado no s\u00e9culo XX. O primeiro grande estudo sobre a autora apareceu em 1925, com a biografia feita pelo socialista franc\u00eas Jules Puech. Com acesso a documenta\u00e7\u00e3o in\u00e9dita, Puech desempenhou um papel central na preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria de Tristan ao organizar o que sobrou de seus arquivos, al\u00e9m de ter se tornado fonte hist\u00f3rica obrigat\u00f3ria para quaisquer informa\u00e7\u00f5es sobre a autora. Posteriormente, na d\u00e9cada de 1970, o engajamento de Flora Tristan pelos direitos das mulheres foi resgatado pelos movimentos feministas, e seu nome passou a instigar de pe\u00e7as de teatro a trabalhos acad\u00eamicos, al\u00e9m de nomear ruas, pra\u00e7as e centros de acolhimentos para mulheres.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Alguns trabalhos cr\u00edticos sobre seus escritos, como as edi\u00e7\u00f5es comentadas de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Promenades dans Londres<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Union Ouvri\u00e8re<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> foram publicados no final dos anos 1970 e 1980, assim como as primeiras tradu\u00e7\u00f5es. A publica\u00e7\u00e3o in\u00e9dita do di\u00e1rio de Tristan, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Le Tour de France <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">[Tour pela Fran\u00e7a]<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">saiu em 1973. O op\u00fasculo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">N\u00e9cessit\u00e9 de faire un bon accueil aux femmes \u00e9trang\u00e8res <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">[Necessidade de acolher bem as mulheres estrangeiras]<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> e o romance <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">M\u00e9phis<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> foram reeditados, pela primeira vez, em 1988 e 1995, respectivamente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Desde ent\u00e3o, o interesse na vida e na obra de Flora Tristan tem sido relativamente constante. Ela tem sido recuperada como uma figura significativa na hist\u00f3ria do feminismo e do socialismo, sendo reconhecida como uma das precursoras desses movimentos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No Brasil, ainda que o movimento de reabilita\u00e7\u00e3o da obra de Flora Tristan tenha reverberado, a aus\u00eancia de tradu\u00e7\u00f5es dificultou a divulga\u00e7\u00e3o de seus livros. Isso se reflete no pequeno n\u00famero de trabalhos dedicados \u00e0 autora no pa\u00eds, seja na forma de artigos, livros, disserta\u00e7\u00f5es ou teses. O primeiro livro de que tenho conhecimento sobre Tristan no Brasil foi publicado por Leandro Konder em 1994, uma pequena biografia intitulada <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Flora Tristan &#8211; uma vida de mulher, uma paix\u00e3o socialista<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Todas as suas refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas s\u00e3o franc\u00f3fonas. A primeira tradu\u00e7\u00e3o brasileira s\u00f3 apareceu em 2000, com o livro<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> Peregrina\u00e7\u00f5es de uma p\u00e1ria<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, atrav\u00e9s da extinta Editora Mulheres, respons\u00e1vel pela populariza\u00e7\u00e3o de diversas obras de autoria feminina. Em 2015, a Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo traduziu e publicou <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Uni\u00e3o Oper\u00e1ria<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, cuja vers\u00e3o digital e gratuita facilitou bastante seu alcance.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Segundo Cross (2020), a mem\u00f3ria de Tristan foi mobilizada em diferentes momentos hist\u00f3ricos, conforme as ondas de milit\u00e2ncia do s\u00e9culo XX. Seu reconhecimento como feminista e socialista de primeira hora \u00e9 atribu\u00eddo aos seus escritos sobre a interdepend\u00eancia da emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres e da classe oper\u00e1ria.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">As pesquisas sobre a obra de Flora Tristan e sua presen\u00e7a nos movimentos de reivindica\u00e7\u00e3o social do s\u00e9culo XIX, geralmente enfatizam uma ou ambas as dimens\u00f5es de sua atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, al\u00e9m dos trabalhos que abordaram os di\u00e1logos entre socialismo e feminismo em sua trajet\u00f3ria (Gonz\u00e1lez, 2009; Cross, 1988), \u00e9 poss\u00edvel destacar os que a situam nas origens do feminismo franc\u00eas (Gordon; Cross, 1996; Moses, 1984) e os que real\u00e7am sua faceta de viajante latino americana (Miseres, 2017).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nas leituras contempor\u00e2neas sobre a obra de Flora Tristan, transparecem cr\u00edticas ao eurocentrismo e ao racismo presentes em seus relatos de viagem. Mary Louise Pratt (1992) chamou aten\u00e7\u00e3o para a recorr\u00eancia de estere\u00f3tipos pejorativos na descri\u00e7\u00e3o dos h\u00e1bitos, higiene, roupas e dieta de seus personagens africanos e americanos. Como muitos de seus contempor\u00e2neos, Tristan estava imbu\u00edda de uma vis\u00e3o evolucionista do desenvolvimento das sociedades humanas, ainda que condenasse todos os tipos de opress\u00e3o e fosse abolicionista.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Susan Grogan (1998) salientou as incurs\u00f5es de Tristan nas ci\u00eancias sociais. Segundo a autora, Tristan delineou pela primeira vez sua metodologia como cientista social em seu estudo sobre a sociedade peruana. Ela se valeu de alguns m\u00e9todos pr\u00f3prios \u00e0s ci\u00eancias sociais, como a observa\u00e7\u00e3o participante, o registro de dados matem\u00e1ticos e estat\u00edsticos e a cita\u00e7\u00e3o de outros pesquisadores do tema. Essa metodologia foi aprimorada no estudo da sociedade inglesa, descrito por B\u00e9darida (1978) como uma \u201cetnografia militante\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Com todos os seus limites e possibilidades, as ideias de Flora Tristan seguem potentes e constituem uma refer\u00eancia viva para as lutas contempor\u00e2neas que promovem a igualdade de g\u00eanero.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Obras de Flora Tristan<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Tristan, F. (1835 [1988]). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">N\u00e9cessit\u00e9 de faire un bon accueil aux femmes \u00e9trang\u00e8res<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Paris: Chez Delaunay, Palais-Royal; \u00c9dition pr\u00e9sent\u00e9e et comment\u00e9e par Denys Cuche, postface de St\u00e9phane Michaud. Paris: L\u2019Harmattan.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">______. (1838 [2004]). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">P\u00e9r\u00e9grinations d\u2019une Paria<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Paris: Arthus Bertrand, Libraire-\u00c9diteur; Pr\u00e9face, notes et dossier par St\u00e9phane Michaud. Arles: Actes Sud.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">______. (1838). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">M\u00e9phis ou le prolet\u00e1ire.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> s.e.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">______. (1840 [1978]). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Promenades dans Londres, ou l\u2019aristocratie et les prol\u00e9taries anglais<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Paris: H.L. Delloye, \u00e9diteur; Londres: W. Jeffs, libraire; \u00c9dition \u00e9tablie et comment\u00e9e par Fran\u00e7ois B\u00e9darida. Paris: Fran\u00e7ois Maspero.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">______. (1843 [1986]). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Union Ouvri\u00e8re<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. \u00c9dition populaire. Paris: Pr\u00e9vot et Rouanet libraire; \u00c9dition pr\u00e9par\u00e9e par Daniel Armogathe et Jacques Grandjonc. Paris: \u00c9ditions des Femmes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">______. (1846). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">L&#8217;\u00c9mancipation de la femme, ou le Testament de la paria<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Ouvrage posthume de Mme Flora Tristan, compl\u00e9t\u00e9 d\u2019apr\u00e8s ses notes et publi\u00e9 par A. Constant. Paris: Imprimerie d&#8217;A. Ren\u00e9 et C.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">______. (1973). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Le Tour de France &#8211; \u00e9tat actuel de la classe ouvri\u00e8re sous l\u2019aspect moral &#8211; intellectuel &#8211; mat\u00e9riel<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Journal in\u00e9dit 1843-1844<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Pr\u00e9face de Michel Collinet. Notes de Jules L. Puech. Paris: \u00c9ditions de la T\u00eate de Feuilles.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">______. (2003). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">La Paria et Son R\u00eave.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Correspondance \u00e9tablie par St\u00e9phane Michaud. Pr\u00e9face de Mario Vargas Llosa. Paris: Presses Sorbonne Nouvelle.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Tradu\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Tristan, F. Necessidade de acolher bem as mulheres estrangeiras. (Vogt, L. V. C. &amp; Campos, L. R. Tradutoras). (2021). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Plural<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, 28(2), 159-180. <\/span><a href=\"https:\/\/doi.org\/10.11606\/issn.2176-8099.pcso.2021.185958\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/doi.org\/10.11606\/issn.2176-8099.pcso.2021.185958<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">______. (2000). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Peregrina\u00e7\u00f5es de uma p\u00e1ria<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Florian\u00f3polis: Editora Mulheres.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">______. (2015). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Uni\u00e3o Oper\u00e1ria<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/fpabramo.org.br\/publicacoes\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2017\/05\/Uniao-Oper%C3%A1ria-web.pdf\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/fpabramo.org.br\/publicacoes\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2017\/05\/Uniao-Oper%C3%A1ria-web.pdf<\/span><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Literatura secund\u00e1ria<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Carmona, C. L. (2020). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Flora Trist\u00e1n, una fil\u00f3sofa social<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Barcelona: Edicions de la Universitat de Barcelona. (E-book vers\u00e3o PDF). Recuperado de: <\/span><a href=\"https:\/\/www.edicions.ub.edu\/ficha.aspx?cod=11529\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/www.edicions.ub.edu\/ficha.aspx?cod=11529<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">. Acesso em: 30\/03\/2024<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Cross, M. F. (1988). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The relationship between feminism and socialism in the life and work of Flora Tristan (1803-1844)<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Tese (Doutorado). University of New Castle Upon Tyne, Reino Unido.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Cross, M. F. (2020). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">In the footsteps of Flora Tristan. A political biography<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Liverpool: Liverpool University Press.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Engels, F. (1980). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Do Socialismo Ut\u00f3pico ao Socialismo Cient\u00edfico<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Editora Graal.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Gonz\u00e1lez, M. M. I. (2009). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Flora Trist\u00e1n y la tradici\u00f3n del Feminismo Socialista<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Tese (Doutorado). Universidad Carlos III, Madri.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Gordon, F., Cross, M. F. (1996). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Early french feminisms, 1830-1840: a passion for liberty<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Cheltenham: Edward Elgar Publishing Limited.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Grogan, S. (1998). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Flora Tristan: Life Stories<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. London: Routledge.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Miseres, V. (2017). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Mujeres en tr\u00e1nsito: Viaje, identidad y escritura en Sudam\u00e9rica (1830-1910)<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. North Carolina: University of North Carolina Press.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Moses, C. G. (1984). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">French feminism in the Nineteenth Century<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Albany: State University of N.Y Press.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Offen, K. (2007). How (and Why) the Analogy of Marriage with Slavery Provided the Springboard for Women\u2019s Rights Demands in France, 1640\u20131848. In: Sklar; Stewart (orgs). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Women\u2019s rights and transatlantic antislavery in the era of emancipation<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. New Haven: Yale University Press, pp. 57- 82.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Pratt, M. L. (1992). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Imperial Eyes. Travel Writing and Transculturation<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. London: Routledge.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Puech, J. L. (1925). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">La vie et l\u2019oeuvre de Flora Tristan<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Paris: Marcel Rivi\u00e8re.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Saint-Simon, C. H. (1821). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Du syst\u00e8me industriel. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Paris. <\/span><a href=\"https:\/\/gpthome69.files.wordpress.com\/2020\/05\/saint-simon_systeme-industriel_1821.pdf\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/gpthome69.files.wordpress.com\/2020\/05\/saint-simon_systeme-industriel_1821.pdf<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\"> (acesso em 27\/02\/2024)<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Outros materiais e fontes<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Semin\u00e1rio tem\u00e1tico da ANPOCS &#8211; Pioneiras da Teoria Social<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=YtPeGAgPT7c&amp;pp=ygUNZmxvcmEgdHJpc3Rhbg%3D%3D\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=YtPeGAgPT7c&amp;pp=ygUNZmxvcmEgdHJpc3Rhbg%3D%3D<\/span><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">TV Boitempo\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Flora Tristan, feminismo e classe &#8211; Prof. Maria Lygia Quartim de Moraes<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Pz4Fs-pz3FE&amp;pp=ygUNZmxvcmEgdHJpc3Rhbg%3D%3D\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Pz4Fspz3FE&amp;pp=ygUNZmxvcmEgdHJpc3Rhbg%3D%3D<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Flora Tristan\u00a0 (1803-1844) &nbsp; Luna Ribeiro Campos, professora de Sociologia no Centro\u00a0Federal de Educa\u00e7\u00e3o Tecnol\u00f3gica Celso Suckow da Fonseca (CEFET\/RJ)<\/p>\n","protected":false},"author":360,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","inline_featured_image":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"class_list":["post-2045","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2045","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/360"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2045"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2045\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2048,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2045\/revisions\/2048"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2045"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}