{"id":2137,"date":"2024-10-30T11:21:30","date_gmt":"2024-10-30T14:21:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/?page_id=2137"},"modified":"2024-10-30T12:58:44","modified_gmt":"2024-10-30T15:58:44","slug":"mary-midgley","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/mary-midgley\/","title":{"rendered":"Mary Midgley"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><strong>Mary Midgley<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><span style=\"font-weight: 400\">(1919 &#8211; 2018)<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">por Jos\u00e9 Costa J\u00fanior, professor de Filosofia e Ci\u00eancias Sociais<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0do Instituto Federal de Minas Gerais (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Campus<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Ponte Nova) &#8211; <\/span><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/3501640531722887\"><span style=\"font-weight: 400\">Lattes<\/span><\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2024\/10\/Mary-Midgley-PDF.pdf\">Mary Midgley &#8211; PDF<\/a><\/p>\n<p><b>Biografia e forma\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<figure id=\"attachment_2139\" aria-describedby=\"caption-attachment-2139\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-vp_sm wp-image-2139\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2024\/10\/unnamed-500x375.png\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2024\/10\/unnamed-500x375.png 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2024\/10\/unnamed-300x225.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2024\/10\/unnamed-768x576.png 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2024\/10\/unnamed-800x600.png 800w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2024\/10\/unnamed.png 900w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2139\" class=\"wp-caption-text\">Mary Midgley &#8211; Fonte: https:\/\/cassandravoices.com\/history\/mary-beatrice-midgley-an-appreciation\/<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O objetivo deste verbete \u00e9 apresentar a vida e o trabalho da fil\u00f3sofa brit\u00e2nica Mary Midgley, juntamente com o legado que deixou para a hist\u00f3ria recente da filosofia. Nascida como Mary Beatrice Scrutton em 13 de setembro de 1919 em Londres, no per\u00edodo p\u00f3s-Primeira Guerra, viveu seus primeiros anos numa Inglaterra que vivenciava os \u00faltimos tempos do Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico. Filha de Thomas Scrutton, que fora Capel\u00e3o nas trincheiras da Guerra e, depois, respons\u00e1vel pela Capela do King\u2019s College de Cambridge, e de Lesley Hay, Mary teve uma inf\u00e2ncia pr\u00f3xima do \u00fanico irm\u00e3o, Hugh Scrutton. Aos doze anos foi enviada para estudar em Downe House School, uma escola para meninas inspirada na vis\u00e3o do fil\u00f3sofo John Dewey, com \u00eanfase no di\u00e1logo intergeracional, no est\u00edmulo \u00e0 criatividade e nas atividades ao ar livre. O im\u00f3vel onde funcionava a escola foi resid\u00eancia de Charles Darwin no s\u00e9culo XIX, naturalista que futuramente influenciaria o trabalho da ent\u00e3o fil\u00f3sofa Mary Midgley. A escola proporcionava uma vasta \u00e1rea onde a jovem Mary podia explorar os espa\u00e7os naturais. Sempre \u00e0 vontade com a forma\u00e7\u00e3o familiar anglicana liberal, e estimulada \u00e0 reflex\u00e3o e ao pensamento cr\u00edtico, a jovem Mary nunca sentiu-se necessariamente atra\u00edda pela religi\u00e3o organizada (Kidd &amp; McKinnell, 2016).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Aos 19 anos, Mary Scrutton chegou \u00e0 Universidade de Oxford para cursar \u201cClassics\u201d, no Somerville College, um curso de gradua\u00e7\u00e3o dividido em duas partes (\u201cMods and Greats\u201d) e que envolvia Literatura, Filosofia, Hist\u00f3ria e outros temas ligados \u00e0s Humanidades. Naquele momento, a prestigiosa Universidade havia iniciado um processo de amplia\u00e7\u00e3o do acesso para mulheres, mas restrito a algumas \u00e1reas, num movimento comum ao contexto do ensino superior brit\u00e2nico da \u00e9poca. Lemos na sua biografia, intitulada <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Owl of Minerva: A Memoir<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [A Coruja de Minerva: Uma mem\u00f3ria] (2005), que a escolha do curso havia sido motivada pela leitura de Plat\u00e3o, principalmente o di\u00e1logo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Fedro<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, com sua \u201cvis\u00e3o imaginativa e cativante\u201d, no qual \u201cpensamento e sentimento n\u00e3o pareciam estar em conflito\u201d (Midgley, 2005). Antes do in\u00edcio das atividades acad\u00eamicas, fez uma breve viagem por Viena na primavera de 1938, interrompida pelas tens\u00f5es pol\u00edticas do processo de anexa\u00e7\u00e3o da \u00c1ustria pela Alemanha Nazista.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Os estudos no Somerville College aproximaram Mary Scrutton de outras estudantes do curso, principalmente tr\u00eas jovens com idades comuns: <\/span><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/gertrude-elizabeth-margaret-anscombe\/\"><span style=\"font-weight: 400\">Elizabeth Anscombe<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">, Philippa Foot e <\/span><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/2022\/11\/22\/iris-murdoch\/\"><span style=\"font-weight: 400\">Iris Murdoch<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">, esta \u00faltima de quem seria mais pr\u00f3xima. A proximidade entre as quatro estudantes cresceria e seria fundamental para o desenvolvimento das concep\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas de cada uma delas (Lipscomb, 2021). Em 1939, com o in\u00edcio dos conflitos da Segunda Guerra Mundial, muitos dos estudantes e professores homens foram convocados para a frente de batalha. Consequentemente, a situa\u00e7\u00e3o abriu espa\u00e7o para as vozes femininas, considerando tamb\u00e9m o modo como a filosofia era realizada naquele contexto, pautada por debates intensos sobre temas espec\u00edficos e com pouca abertura para inova\u00e7\u00f5es. Num coment\u00e1rio ao jornal brit\u00e2nico <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Guardian<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> em 2013, a pr\u00f3pria Midgley, respondendo a uma quest\u00e3o sobre a proemin\u00eancia de mulheres fil\u00f3sofas daquele per\u00edodo, afirma: \u201cDesculpe, mas a raz\u00e3o era de fato que havia menos homens naquela \u00e9poca\u201d. Criticou tamb\u00e9m o incisivo modo pelo qual a filosofia era praticada ali: \u201cO problema n\u00e3o s\u00e3o, \u00e9 claro, os homens como tais <\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u2014 <\/span><span style=\"font-weight: 400\">os homens fizeram filosofia boa o suficiente no passado. O que est\u00e1 errado \u00e9 um estilo particular de filosofar que resulta do incentivo a muitos jovens inteligentes para competir em argumentos vencedores\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A ortodoxia a ser criticada por Midgley envolvia a concep\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica do positivismo l\u00f3gico, uma posi\u00e7\u00e3o que compartilhava com as outras integrantes do grupo que passou a ser chamado de \u201cQuarteto de Oxford\u201d ou \u201cQuarteto da Guerra\u201d (Lipscomb, 2021). Foram cr\u00edticas da vis\u00e3o positivista do C\u00edrculo de Viena, cada vez mais influente nos modos de filosofar e que tinha cada vez mais adeptos em Oxford e Cambridge. Tal posicionamento tamb\u00e9m seria fundamental para o desenvolvimento dos trabalhos das quatro fil\u00f3sofas, principalmente no \u00e2mbito da filosofia moral. Uma grande influ\u00eancia filos\u00f3fica foi o te\u00f3logo e fil\u00f3sofo Donald McKinnon (1913-1994), um dos tutores de Midgley e das fil\u00f3sofas do Quarteto em Oxford, que estimulou a leitura e o di\u00e1logo com a tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, al\u00e9m de estimular d\u00favidas acerca da posi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica \u00e0 metaf\u00edsica defendida pelo C\u00edrculo de Viena (Lipscomb, 2021).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em 1942, Mary Scrutton concluiu o curso de gradua\u00e7\u00e3o com destaque no Sommerville College e passou a trabalhar como funcion\u00e1ria p\u00fablica junto ao Minist\u00e9rio da Produ\u00e7\u00e3o em Londres. Assim como suas colegas, fez parte do esfor\u00e7o de guerra, durante a dif\u00edcil situa\u00e7\u00e3o imposta naquele momento. Ap\u00f3s o final do conflito, iniciou um Doutorado em Filosofia em Oxford, sob a orienta\u00e7\u00e3o de E. R. Doods, cujo tema era a filosofia de Plotino. No entanto, dois anos depois do in\u00edcio, o trabalho foi interrompido devido \u00e0 dificuldades de elabora\u00e7\u00e3o da tese e por \u201cn\u00e3o ter a disciplina normal do doutorado\u201d (Midgley, 2005). Mesmo sem a conclus\u00e3o da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, o per\u00edodo do p\u00f3s-Guerra foi de ricos di\u00e1logos sobre filosofia moral com as outras fil\u00f3sofas do Quarteto (Mac Cumhaill &amp; Wiseman, 2022). Al\u00e9m da influ\u00eancia de McKinnon, a proximidade de Elizabeth Anscombe com a filosofia de Ludwig Wittgenstein tamb\u00e9m influenciou Midgley, Foot e Murdoch, principalmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s considera\u00e7\u00f5es sobre o papel da filosofia para a compreens\u00e3o da vida comum.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mary Midgley obteve esse nome ao casar-se com o tamb\u00e9m fil\u00f3sofo Geoff Midgley (1921-1997) em 1950. Depois de uma breve passagem como Professora na Universidade de Reading, foi morar em Newcastle, onde o marido lecionava na Universidade local, e onde criou seus tr\u00eas filhos: Tom (1952), David (1953) e Martin (1958). Entre as d\u00e9cadas de 1950 e 1970, foi colaboradora regular do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Third Programme<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> da r\u00e1dio BBC, abordando temas ligados \u00e0 filosofia, e escreveu resenhas para a revista <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">New Statesman<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Num dos roteiros propostos \u00e0 emissora, intitulado \u201cRings &amp; Books\u201d, Midgley argumentou que o problema com o c\u00e2none filos\u00f3fico \u00e9 que dificilmente qualquer um dos grandes fil\u00f3sofos tenha sido casado e tido filhos. E aponta que a tend\u00eancia \u00e0 introspec\u00e7\u00e3o e ao fechamento ao mundo, pr\u00f3prios da tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, talvez possa se dever a essa falta de vida com outras pessoas. O roteiro foi negado, como uma \u201cintrus\u00e3o trivial e irrelevante de assuntos dom\u00e9sticos na vida intelectual\u201d, conforme consta numa republica\u00e7\u00e3o desse roteiro em 2022.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley tornou-se Professora na Universidade de Newcastle em meados da d\u00e9cada de 1960 e publicou um relevante artigo em 1973 (\u201cThe Concept of Beastliness\u201d [\u201cO conceito de bestialidade\u201d]). Este trabalho deu origem ao seu primeiro livro, intitulado <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Beast and Man: The roots of human nature<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [Besta e Homem: As ra\u00edzes da natureza humana], publicado em 1978, e que \u00e9 considerado por ela mesma como seu livro mais importante (Midgley, 2002). Nesse per\u00edodo, ampliou seus interesses por \u00e1reas como biologia, psicologia, ci\u00eancias comportamentais e etologia, construindo di\u00e1logos (muitas vezes pol\u00eamicos) entre filosofia, ci\u00eancia e religi\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ap\u00f3s a sua aposentadoria, Midgley continuou publicando artigos e livros, al\u00e9m de participar ativamente de debates p\u00fablicos, como na sua cr\u00edtica \u00e0s pol\u00edticas de austeridade do governo de Margareth Thatcher, que levaria ao encerramento das atividades do Departamento de Filosofia da Universidade de Newcastle. Tamb\u00e9m se envolveu numa discuss\u00e3o p\u00fablica realizada em publica\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas com o bi\u00f3logo Richard Dawkins, sobre o conceito de \u201cgene ego\u00edsta\u201d e suas implica\u00e7\u00f5es. Seu marido Geoffrey Midgley morreu em 1997 e Mary Midgley continuou seu trabalho, ampliando suas contribui\u00e7\u00f5es para jornais e revistas, como o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Guardian<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">New Scientist<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Now Philosophy<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, tornando-se definitivamente uma \u201cintelectual p\u00fablica\u201d, para quem a filosofia n\u00e3o era um luxo, mas \u201calgo que todos n\u00f3s precisamos em nossas vidas para construirmos imagens coerentes do mundo e de n\u00f3s mesmos\u201d (Midgley, 2018).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ap\u00f3s d\u00e9cadas de contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 filosofia, Mary Midgley morreu aos 99 anos em 10 de outubro de 2018, em Newcastle, poucas semanas ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">What Is Philosophy for?<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, [Para que serve a Filosofia?] seu \u00faltimo livro. Com centenas de artigos e dezenas de livros publicados, Mary Midgley deixou uma vasta obra filos\u00f3fica, que dialoga com muitos dos desafios do nosso tempo. Tendo participado de movimentos e transi\u00e7\u00f5es importantes ao longo do s\u00e9culo XX, vivenciado circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas e promovido di\u00e1logos com diferentes tradi\u00e7\u00f5es e perspectivas, o trabalho diversificado e amplo de Mary Midgley promove importantes est\u00edmulos reflexivos sobre nosso lugar na realidade e sobre nossa curiosa forma de vida.<\/span><\/p>\n<p><b>Trabalho filos\u00f3fico<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00c9 comum descrevermos o trabalho de fil\u00f3sofas e fil\u00f3sofos partindo de sua \u00e1rea de especializa\u00e7\u00e3o e seus interesses diretos. Entretanto, Mary Midgley \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o a esse tipo de especializa\u00e7\u00e3o e esse tamb\u00e9m \u00e9 um dos motivos pelos quais seu trabalho seja t\u00e3o distinto. Nesse sentido, \u00e9 dif\u00edcil realizar um levantamento sistem\u00e1tico do seu trabalho, uma vez que interliga quest\u00f5es de ci\u00eancia, literatura, \u00e9tica, pol\u00edtica, hist\u00f3ria da filosofia, meio ambiente, entre outros. No entanto, al\u00e9m dessa amplitude de temas, existe no trabalho de Midgley uma preocupa\u00e7\u00e3o constante em relacionar todos esses temas e aspectos dentro de uma vis\u00e3o mais ampla do nosso lugar na realidade (Kidd &amp; McKinnell, 2016) e em como a filosofia pode nos ajudar a compreend\u00ea-lo. H\u00e1 tamb\u00e9m uma preocupa\u00e7\u00e3o constante com os m\u00e9todos e pr\u00e1ticas utilizados pela filosofia, isto \u00e9, uma metafilosofia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley desenvolveu sua concep\u00e7\u00e3o de filosofia num artigo publicado em 1992, intitulado \u201cPhilosophical Plumbing\u201d [Encanamento filos\u00f3fico]. Nele, promove an\u00e1lises acerca dos m\u00e9todos e do alcance da filosofia, que, ao lidar com os conceitos mais b\u00e1sicos que circunscrevem nossas vidas, n\u00e3o se trata de uma atividade \u201celevada\u201d ou \u201cdistintiva\u201d, mas sim de uma pr\u00e1tica fundamental e necess\u00e1ria. Para isso, tra\u00e7a uma analogia: pede que imaginemos que moramos num local abastecido por \u00e1gua e equipado por processos de esgotamento sanit\u00e1rio; no entanto, em algum momento, esse complexo sistema de encanamentos que faz com que tudo funcione come\u00e7a a apresentar problemas. Como s\u00e3o muitos tubos e conex\u00f5es, alguns mais recentes e outros mais antigos, alguns j\u00e1 passaram por consertos e outros continuam com vazamentos, maiores ou menores, que demandam reparos urgentes. Como se trata de uma rede vital para a manuten\u00e7\u00e3o do nosso conforto e da funcionalidade de aspectos banais da sua vida, quando alguma parte ou a totalidade do sistema falha, sentimos seu efeito: falta de \u00e1gua em fun\u00e7\u00e3o de rompimentos de canos, mau cheiro devido a problemas no esgoto, \u00e1gua suja em fun\u00e7\u00e3o de algum problema na chegada da \u00e1gua. Trata-se ent\u00e3o de um sistema complexo, amplo e vital, elaborado por seres humanos ao longo do tempo e de acordo com as nossas necessidades mais b\u00e1sicas. Quando falham, demandam reparos e revis\u00f5es sob o risco de impactar decisivamente nossas vidas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Segundo Midgley, \u00e9 poss\u00edvel tra\u00e7ar uma analogia entre o papel da filosofia e as situa\u00e7\u00f5es do problema hidr\u00e1ulico descrito. Os complexos sistemas de pensamento com os quais vivemos s\u00e3o como as redes e tubula\u00e7\u00f5es hidr\u00e1ulicas de nossas resid\u00eancias: enquanto funcionam bem, trazem estabilidade, seguran\u00e7a e conforto. No entanto, em algum momento, podem come\u00e7ar a funcionar mal, apresentar problemas e demandarem revis\u00e3o e reparos. E essa seria a tarefa da filosofia: reparar e reestruturar nossos sistemas de pensamento, que muitas vezes possuem problemas que nos passam desapercebidos, mas que impactam decisivamente o modo como pensamos e lidamos com a realidade. Nesse sentido, a filosofia se parece com o \u201cof\u00edcio de reparar sistemas hidr\u00e1ulicos e conex\u00f5es\u201d (Midgley, 1992) que formam nossos sistemas de pensamento. Sem tais reparos e revis\u00f5es, corremos o risco de considerar e organizar as nossas vidas a partir de sistemas de pensamento pouco estruturados, que podem nos manter em situa\u00e7\u00f5es insustent\u00e1veis.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Um exemplo para ilustrar a concep\u00e7\u00e3o de Midgley pode ser a nossa rela\u00e7\u00e3o com os outros animais e com o meio ambiente: durante s\u00e9culos, consideramos que o mundo natural estava completamente ao nosso dispor, numa vis\u00e3o da realidade que envolvia a superioridade e o dom\u00ednio humano sobre o mundo. Assim, desenvolvemos modos de vida pautados numa estranha forma de extrativismo e no consumo dos recursos naturais. Por\u00e9m, em algum momento, esse sistema de pensamento e o conjunto de cren\u00e7as que sustenta passaram a ser, literalmente, insustent\u00e1veis, devido tanto \u00e0s suas consequ\u00eancias (o crescente impacto ambiental), quanto \u00e0 sua base (o alegado fato de que a humanidade possui uma superioridade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras formas vivas). Assim, uma revis\u00e3o se faz necess\u00e1ria, uma reforma das bases do sistema de pensamento, que promova repara\u00e7\u00f5es conceituais b\u00e1sicas, e que produzir\u00e1 mudan\u00e7a sobre nossas cren\u00e7as e pr\u00e1ticas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Outro tra\u00e7o distintivo do trabalho filos\u00f3fico de Midgley \u00e9 seu apelo constante ao fato de que nossas vidas est\u00e3o profundamente enraizadas e relacionadas com outras criaturas, lugares e ideias (McElwain, 2019). Tais \u201cfios de relacionalidade\u201d apontam que estamos relacionados com os animais humanos e n\u00e3o humanos com quem partilhamos o mundo e com o ambiente social e natural, por mais emaranhados e distantes que sejam. Tamb\u00e9m estamos relacionados com as estruturas mais amplas de conceitos e ideias que nos cercam e, mesmo que n\u00e3o o reconhe\u00e7amos, tais elementos organizam o nosso pensamento, a nossa experi\u00eancia e a nossa valora\u00e7\u00e3o, numa mistura de recursos cient\u00edficos, \u00e9ticos e imaginativos que convergem e guiam nossas exist\u00eancias. Esse apelo \u00e0 rede de rela\u00e7\u00f5es e ideias que fornecem a base de nosso pensamento e modo de vida tamb\u00e9m est\u00e3o ligados \u00e0 concep\u00e7\u00e3o de filosofia de Mary Midgley: muitos estudiosos dessa disciplina consideram que sua atividade envolve um distanciamento das circunst\u00e2ncias em que estamos inseridos, por\u00e9m, seria imposs\u00edvel compreender a realidade e a n\u00f3s mesmos sem considerar a vasta teia de rela\u00e7\u00f5es na qual estamos inseridos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Outro tra\u00e7o da ampla gama de interesses filos\u00f3ficos de Midgley envolve a preocupa\u00e7\u00e3o com as diversas fragmenta\u00e7\u00f5es produzidas no retrato comum de nossa natureza e condi\u00e7\u00e3o. Distin\u00e7\u00f5es entre <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">raz\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">emo\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">eu<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">outro<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">mente<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">corpo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">cultura<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">natureza<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">humano<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">animal<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, entre outras, produziram um estranho retrato da humanidade, uma forma de vida cindida entre guerras internas e externas. Acabamos por nos afastar de n\u00f3s mesmos, do outro e do mundo natural, a partir de uma concep\u00e7\u00e3o question\u00e1vel daquilo que somos e de nossas experi\u00eancias. Boa parte do seu trabalho como fil\u00f3sofa envolveu a tentativa de supera\u00e7\u00e3o de tais enquadramentos, promovendo um retrato mais amplo e coerente do que somos e como vivemos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Considerando tais caracter\u00edsticas mais gerais do trabalho da fil\u00f3sofa, no que segue seguimos a divis\u00e3o hist\u00f3rico-tem\u00e1tica proposta por David Midgley (2005) em sua an\u00e1lise e compila\u00e7\u00e3o das obras de Mary Midgley para apresentar suas hip\u00f3teses. Conforme apontado acima, n\u00e3o se trata de uma divis\u00e3o tem\u00e1tica rigorosa, como \u00e9 comum na pr\u00e1tica filos\u00f3fica, dividida por \u00e1reas. Nesse sentido, tal divis\u00e3o envolve mais recortes temporais, considerando as preocupa\u00e7\u00f5es mais diretas em cada momento, do que necessariamente uma divis\u00e3o por \u00e1reas que n\u00e3o dialogam entre si <\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u2014 <\/span><span style=\"font-weight: 400\">mas sempre buscando uma aproxima\u00e7\u00e3o, mesmo quando as tem\u00e1ticas parecem distantes entre si. Em cada uma dessas divis\u00f5es s\u00e3o apresentadas algumas das publica\u00e7\u00f5es sobre os temas, al\u00e9m de uma apresenta\u00e7\u00e3o mais geral das hip\u00f3teses envolvidas.<\/span><\/p>\n<p><strong>\u00a0 \u00a0 \u00a0 1. Ra\u00edzes da natureza humana<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O ponto de partida da filosofia de Mary Midgley \u00e9 o efeito prejudicial que sistemas unidimensionais de pensamento t\u00eam sobre o nosso pensamento em geral e sobre o pensamento moral em espec\u00edfico (Midgley, 2005). Conforme apontado, Midgley \u00e9 parte de um grupo de fil\u00f3sofas formado a partir da tradi\u00e7\u00e3o de Oxford na d\u00e9cada de 1940, tradi\u00e7\u00e3o contra a qual o \u201cQuarteto de Oxford\u201d produziu cr\u00edticas, tanto por sua tend\u00eancia estreita e reducionista, influenciada pelo positivismo l\u00f3gico, quanto pelo car\u00e1ter hiperespecializado e distante da vida comum. Nesse sentido, Midgley e as integrantes do Quarteto promovem sua cr\u00edtica, ao mesmo tempo em que estimulam um reconhecimento da riqueza e da diversidade humana e do mundo natural, circunst\u00e2ncias \u00e0s quais os pontos de vista redutivos e monol\u00edticos n\u00e3o poderiam fazer justi\u00e7a. No caso da filosofia da \u00e9poca, voltada para preocupa\u00e7\u00f5es de ordem l\u00f3gica e lingu\u00edstica, a filosofia moral n\u00e3o possu\u00eda o prest\u00edgio de outras \u00e1reas e muitos trabalhos realizados na \u00e1rea eram muito abstratos e distantes dos problemas da vida comum.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nesse sentido, em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Beast and Man: The roots of human nature<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [Besta e homem: As ra\u00edzes da natureza humana], 1978) Midgley desenvolveu com clareza e profundidade um novo tipo de abordagem para a filosofia moral, sem se restringir a formas de discutir problemas fragmentados e locais ou oferecer simplifica\u00e7\u00f5es, reducionismos ou princ\u00edpios \u00fanicos e universais. Seu objetivo aqui \u00e9 considerar um retrato mais equilibrado da vida social humana, inserindo-a num cen\u00e1rio mais amplo da vida como um todo. Essa busca nos ajuda a adquirir uma melhor consci\u00eancia do nosso \u201clugar no mundo\u201d, uma quest\u00e3o vista como central para o projeto da filosofia desde as suas origens. No entanto, em grande parte da filosofia do s\u00e9culo XX, esse projeto foi abandonado em favor de uma teoriza\u00e7\u00e3o cada vez mais abstrata e especializada, contribuindo para graves confus\u00f5es e enganos. Assim, al\u00e9m de colocar o conceito de natureza humana como centro das preocupa\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas, este primeiro livro de Midgley busca mostrar como as tentativas de colocar a humanidade como separada de suas origens naturais conduziu a grandes confus\u00f5es. Busca tamb\u00e9m evidenciar a necessidade de abordar as quest\u00f5es filos\u00f3ficas, notadamente em filosofia moral, em di\u00e1logo com a compreens\u00e3o da nossa natureza como um tipo particular de mam\u00edfero social, e n\u00e3o como uma forma de intelecto racional puro, inserido num corpo maquinal.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No entanto, \u00e9 importante distinguir essa abordagem naturalista e evolutiva de Midgley em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Beast and Man<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [Besta e Homem] de outras abordagens, como a sociobiologia <\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u2014<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> contra qual a pr\u00f3pria fil\u00f3sofa levanta obje\u00e7\u00f5es no livro \u2013 e a psicologia evolucionista <\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u2014<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> concep\u00e7\u00e3o mais recente, mas que envolve muitos dos pressupostos da sociobiologia. Os trabalhos de Edward O. Wilson e, mais recentemente, de Steven Pinker, embora tenham o m\u00e9rito de reconhecer nossa continuidade com as outras esp\u00e9cies e conex\u00e3o com o mundo natural, t\u00eam em suas bases concep\u00e7\u00f5es fortemente reducionistas, que distorcem a an\u00e1lise sobre a estrutura motivacional comum dos animais humanos e n\u00e3o humanos. Um exemplo disso \u00e9 o modo como o ego\u00edsmo \u00e9 tomado como elemento central das motiva\u00e7\u00f5es humanas em tais abordagens, funcionando como um princ\u00edpio fundamental da evolu\u00e7\u00e3o. Tal premissa tamb\u00e9m foi a base do darwinismo social <\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u2014<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> que Midgley faz quest\u00e3o de destacar que n\u00e3o era uma posi\u00e7\u00e3o de Charles Darwin, mas sim de Herbert Spencer, cujas suposi\u00e7\u00f5es <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">a priori <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">envolviam no\u00e7\u00f5es m\u00edsticas e estranhas ao pr\u00f3prio racioc\u00ednio evolutivo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Al\u00e9m de ampliar as possibilidades do debate em filosofia moral, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Beast and Man<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> busca oferecer uma compreens\u00e3o empiricamente informada daquilo que somos <\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u2014<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> mais uma esp\u00e9cie \u00fanica, em cont\u00ednuo com o mundo e com a natureza, assim como todas as outras. Ao mesmo tempo, critica e escapa das facilidades reducionistas das ci\u00eancias influenciadas pelas perspectivas darwinianas, como a sociobiologia e psicologia evolucionista e suas explica\u00e7\u00f5es. Seu trabalho cuidadoso nos estimula a repensar nossa rela\u00e7\u00e3o com o mundo natural, ampliando a sugest\u00e3o feita por Darwin de que n\u00f3s e os outros animais n\u00e3o somos t\u00e3o diferentes assim. Tamb\u00e9m promove cr\u00edticas relevantes para os debates \u00e9ticos, principalmente em rela\u00e7\u00e3o ao alcance de dicotomias como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">fatos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">valores<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">raz\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">emo\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">humano<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">animal<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, etc.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Outro livro de Midgley, que d\u00e1 continuidade ao projeto iniciado em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Beast and Man<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> de compreender a natureza humana que seja consistente com nossas origens evolutivas, \u00e9 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Wickedness: A Philosophical Essay<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [Maldade: Um ensaio filos\u00f3fico] (1984). Por\u00e9m, seu foco aqui \u00e9 uma explora\u00e7\u00e3o \u201cdo lado mais sombrio de nossa natureza\u201d, abordando o tradicional problema filos\u00f3fico do mal. Nesse sentido, a fil\u00f3sofa busca compreender a natureza da maldade humana a partir dos pressupostos j\u00e1 explorados no livro anterior, defendendo que a maldade \u00e9 essencialmente um fen\u00f4meno negativo, que envolve uma falha no acesso a alguns dos elementos positivos da nossa natureza. Em termos gerais, \u00e9 essa falta de motivos complementares de equil\u00edbrio de autoconsci\u00eancia, simpatia ou humildade que possibilita pr\u00e1ticas de viol\u00eancia e destrui\u00e7\u00e3o t\u00e3o comuns em nossas vidas e hist\u00f3ria.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mais dois livros podem ser inseridos nessa fase inicial do trabalho de Midgley. Em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Animals and Why They Matter: A Journey Around the Species Barrier<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [Animais e por que s\u00e3o importantes: Uma jornada ao redor da barreira das esp\u00e9cies] (1983), ela amplia o relato da rela\u00e7\u00e3o entre a natureza humana e a animal oferecido em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Beast and M<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">a<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">n,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> com implica\u00e7\u00f5es para uma gama de quest\u00f5es \u00e9ticas e pr\u00e1ticas que envolvem as nossas rela\u00e7\u00f5es com outras esp\u00e9cies. Essa neglig\u00eancia \u00e9 um efeito \u00f3bvio da suposi\u00e7\u00e3o de uma oposi\u00e7\u00e3o radical entre a natureza humana e a animal, outra das fragmenta\u00e7\u00f5es que Midgley busca superar. J\u00e1 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Women\u2019s Choices: Philosophical Problems Facing Feminism<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [Escolhas das Mulheres: Problemas Filos\u00f3ficos Enfrentados pelo Feminismo] (1983), escrito em co-autoria com Judith Hughes, defende, entre outros pontos, que vis\u00f5es femininas e feministas devem ser incorporadas ao pensamento filos\u00f3fico, considerando suas diferen\u00e7as, perspectivas e viv\u00eancias. Como tais perspectivas e concep\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o comuns nos debates sobre problemas filos\u00f3ficos tradicionalmente abordados na tradi\u00e7\u00e3o fortemente masculina do debate filos\u00f3fico, as autoras promovem uma defesa da diversidade, que ser\u00e1 cada vez mais comum e necess\u00e1ria no nosso tempo<\/span><\/p>\n<p><b>\u00a0 \u00a0 \u00a0 2. Cr\u00edticas \u00e0 fragmenta\u00e7\u00e3o e ao cientificismo<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em 1981, Mary Midgley publicou alguns de seus artigos e textos in\u00e9ditos na forma de livro, intitulado <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Heart and Mind: The Varieties of Moral Experience <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">[Cora\u00e7\u00e3o e Mente: As variedades da experi\u00eancia moral]. Al\u00e9m de revisitar as quest\u00f5es da natureza humana, a fil\u00f3sofa busca se contrapor a uma vis\u00e3o comum da raz\u00e3o na hist\u00f3ria da filosofia, concebida essencialmente como uma capacidade de dedu\u00e7\u00e3o l\u00f3gica e como caracter\u00edstica definitiva da constitui\u00e7\u00e3o mental humana, al\u00e9m de ser aquilo que nos diferiria dos outros animais <\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u2014 <\/span><span style=\"font-weight: 400\">possuidores de percep\u00e7\u00e3o e emo\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o de raz\u00e3o. Tal quadro era central no clima intelectual restritivo do entorno de Midgley, que levou a uma insatisfa\u00e7\u00e3o da fil\u00f3sofa com o quadro da humanidade que emergia de tais pressupostos. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 irrelevante que se trata de uma vis\u00e3o que contrasta os homens com as mulheres <\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u2014<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> muitas vezes proposta ao longo da hist\u00f3ria <\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u2014<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> na qual as mulheres estariam mais pr\u00f3ximas das emo\u00e7\u00f5es e os homens mais ligados \u00e0 raz\u00e3o. Tais divis\u00f5es, principalmente a fragmenta\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria entre raz\u00e3o e sentimento, levantam dif\u00edceis problemas para o \u00e2mbito da filosofia moral e \u00e9 contra elas que Midgley direciona sua aten\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nesse sentido, Midgley busca mais uma vez enfatizar a unidade de nossa natureza, principalmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s estruturas mais b\u00e1sicas de nossas motiva\u00e7\u00f5es, que envolvem tanto a raz\u00e3o quanto a emo\u00e7\u00e3o. Tais motiva\u00e7\u00f5es e seus elementos podem muitas vezes entrar em conflito, mas podemos lidar com tais circunst\u00e2ncias tamb\u00e9m a partir de condi\u00e7\u00f5es de nossa pr\u00f3pria natureza. As divis\u00f5es artificiais de tais processos, al\u00e9m de infrut\u00edferas, n\u00e3o podem ser percebidas na pr\u00e1tica e remetem a expectativas de um projeto reducionista, que visa a compreens\u00e3o da realidade a partir de partes menores constituintes que se juntam e formam o todo <\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u2014<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> assim como outras divis\u00f5es, como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">cultura <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">natureza<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">fato<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">valor<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">humano<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">animal<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">pensamento<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">sensa\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">racional<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">irracional<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, etc. A fonte dessas vis\u00f5es fragmentadoras e reducionistas na filosofia \u00e9, conforme Midgley sugere, a tend\u00eancia generalizada de considerar a ci\u00eancia, e em particular a f\u00edsica matem\u00e1tica, como o modelo para todo o pensamento racional. Tais quest\u00f5es tamb\u00e9m s\u00e3o abordadas por Midgley em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Can\u2019t We Make Moral Judgements? <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">[Podemos fazer julgamentos morais] (1989) e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Ethical Primate: Humans, Freedom and Morality <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">[O primata \u00e9tico: Humanos, liberdade e moralidade] (1994).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Outro alvo das reflex\u00f5es e cr\u00edticas de Mary Midgley s\u00e3o as iniciativas de investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica que promovem discursos abrangentes sobre diversos temas, desconsiderando as limita\u00e7\u00f5es da pr\u00f3pria natureza da ci\u00eancia e que acabam por abordar temas e quest\u00f5es que est\u00e3o al\u00e9m de seu escopo. Midgley descreve essa tend\u00eancia como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">cientificismo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, abordada em dois de seus mais conhecidos livros: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Evolution as a Religion: Strange Hopes and Stranger Fears <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">[Evolu\u00e7\u00e3o como uma religi\u00e3o: Estranhas esperan\u00e7as e estranhos medos] (1985) e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Science As Salvation: A Modern Myth and Its Meaning <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">[Ci\u00eancia como salva\u00e7\u00e3o: O mito moderno e seu sentido] (1992). Neles, mostra que, muitas vezes, a ci\u00eancia torna-se uma esp\u00e9cie de \u201cdivindade\u201d, capaz de conceder respostas e salva\u00e7\u00f5es milagrosas, mas que n\u00e3o est\u00e3o ligadas \u00e0s respostas oferecidas pela pr\u00f3pria ci\u00eancia. Aqui, Midgley chama a aten\u00e7\u00e3o para os excessos da vis\u00e3o cientificista, e as difere da pr\u00e1tica cient\u00edfica tradicional, valorizada pela fil\u00f3sofa, cuja obra tem como caracter\u00edstica principal o fato de ser empiricamente informada.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para Midgley, essa situa\u00e7\u00e3o se deve \u00e0 tend\u00eancia para a especializa\u00e7\u00e3o na educa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica nos \u00faltimos s\u00e9culos, que levou a uma valoriza\u00e7\u00e3o cada vez maior daquilo que \u00e9 \u201ccient\u00edfico\u201d em detrimento daquilo que n\u00e3o \u00e9. Assim, essa tend\u00eancia \u00e0 fragmenta\u00e7\u00e3o e \u00e0 atomiza\u00e7\u00e3o se espalhou pelos diversos campos de investiga\u00e7\u00e3o, inclusive pela filosofia, cujos praticantes buscam enquadrar-se em crit\u00e9rios cada vez mais restritos acerca do que seria rigoroso e do que vale a pena ou n\u00e3o ser investigado <\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u2014<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> como no caso da posi\u00e7\u00e3o do positivismo l\u00f3gico e sua valoriza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia. As causas e efeitos dessa estrutura\u00e7\u00e3o do conhecimento tamb\u00e9m s\u00e3o tratados em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Wisdom, Information and Wonder: What Is Knowledge For?<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [Sabedoria, informa\u00e7\u00e3o e admira\u00e7\u00e3o: Para que serve o conhecimento?] (1989) e, dialogando com quest\u00f5es contempor\u00e2neas, em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Utopias, Dolphins and Computers: Problems of Philosophical Plumbing<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [Utopias, Golfinhos e Computadores: Problemas de Hidr\u00e1ulica Filos\u00f3fica] (1996).<\/span><\/p>\n<p><b>\u00a0 \u00a0 \u00a0 3. Imagina\u00e7\u00e3o, natureza e humanidade<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para al\u00e9m das concep\u00e7\u00f5es fragmentadas e dos limites de vis\u00f5es de mundo unidimensionais, no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI Mary Midgley passa a abordar a diversidade das formas de ver a realidade, e um dos pontos fundamentais de seus interesses \u00e9 o papel da imagina\u00e7\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o de nossas concep\u00e7\u00f5es. Aqui, imagina\u00e7\u00e3o n\u00e3o se refere \u00e0 capacidade de representar coisas e situa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o existem, mas \u00e0 capacidade de formar uma vis\u00e3o conectada de uma s\u00e9rie de fen\u00f4menos, do quadro de rela\u00e7\u00e3o entre eles e dos princ\u00edpios envolvidos. Midgley aborda este t\u00f3pico nos livros <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Science and Poetry<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [Ci\u00eancia e Poesia] (2001) e em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Myths We Live<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [A presen\u00e7a dos mitos em nossas vidas] (2003). Partindo novamente de uma cis\u00e3o de vi\u00e9s cartesiano, agora entre imagina\u00e7\u00e3o e raz\u00e3o, Midgley aborda o elemento fundante de uma tradi\u00e7\u00e3o que tendeu a minimizar a import\u00e2ncia da imagina\u00e7\u00e3o, equiparando-a \u00e0 fantasia e \u00e0 desraz\u00e3o e distante de formas v\u00e1lidas de conhecimento.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Segundo sua concep\u00e7\u00e3o, a imagina\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve ser considerada como um elemento acess\u00f3rio do nosso equipamento mental, mas como elemento essencial para o nosso conhecimento do mundo, principalmente na tentativa de atribuir sentido a qualquer aspecto do mundo que nos rodeia. Nesse sentido, \u201cmitos\u201d s\u00e3o fundamentais na elabora\u00e7\u00e3o da nossa compreens\u00e3o da realidade, uma vez que oferecem sentido e coes\u00e3o para os v\u00e1rios elementos do mundo, e n\u00e3o simples elucubra\u00e7\u00f5es fantasiosas, distantes da verdade e do conhecimento, como aponta a tradi\u00e7\u00e3o dita racionalista. Al\u00e9m disso, a imagina\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 muito importante porque molda os nossos valores e motiva\u00e7\u00f5es, nossas posi\u00e7\u00f5es e concep\u00e7\u00f5es de mundo. Desprezar tais elementos seria desconsiderar elementos fundamentais da humanidade, numa vis\u00e3o cindida da nossa natureza pr\u00f3pria de enquadramentos fragmentadores t\u00e3o comuns na compreens\u00e3o que temos de n\u00f3s mesmos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Outros tra\u00e7os dessa fragmenta\u00e7\u00e3o est\u00e3o nas origens dos diversos problemas graves das sociedades atuais, principalmente nas rela\u00e7\u00f5es entre humanidade e natureza. A \u00eanfase excessiva nas satisfa\u00e7\u00f5es individuais, pr\u00f3prias de um mundo atomizado, construiu um modo de vida pautado em isolamentos. Para Midgley, a concep\u00e7\u00e3o individualista t\u00e3o comum no nosso modo de vida distorce as rela\u00e7\u00f5es sociais, pois implica uma vis\u00e3o da natureza humana como fundamentalmente ego\u00edsta. Juntamente com vis\u00f5es atom\u00edsticas do mundo natural, que concebem a natureza como um elemento em separado e distante de n\u00f3s, surgem vis\u00f5es de mundo que neglig\u00eanciam de forma catastr\u00f3fica a dimens\u00e3o da totalidade e das rela\u00e7\u00f5es org\u00e2nicas que constituem o sistema no qual estamos inseridos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Tais quest\u00f5es foram abordadas tamb\u00e9m em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Earthy Realism: The Meaning of Gaia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [Realismo Terrestre: a Teoria de Gaia] (2007), livro que Midgley organizou e no qual revisita a Teoria de Gaia, uma vis\u00e3o hol\u00edstica do planeta promovida por James Lovelock, que chama a aten\u00e7\u00e3o para as rela\u00e7\u00f5es de equil\u00edbrio entre os processos f\u00edsicos e qu\u00edmicos e os organismos viventes do planeta. A vis\u00e3o imaginativa que a no\u00e7\u00e3o de Gaia envolve se enquadra na vis\u00e3o mais abrangente que Midgley nos prop\u00f5e, al\u00e9m de evitar fragmenta\u00e7\u00f5es e separa\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias de um pensamento cient\u00edfico pouco pluralista, dito anal\u00edtico, atomista e reducionista e, incapaz de ver o todo. Nesse sentido, al\u00e9m de criticar os pressupostos metaf\u00edsicos subjacentes \u00e0 ci\u00eancia reducionista, a Teoria de Gaia apresenta um desafio \u00e9tico fundamental \u00e0s vis\u00f5es individualistas projetadas na esfera social. Essa proposta de reintegra\u00e7\u00e3o da nossa compreens\u00e3o da sociedade humana na nossa vis\u00e3o do nosso lar terrestre pode ser entendida tamb\u00e9m como uma continuidade da tarefa iniciada em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Beast and Man<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, mostrando a import\u00e2ncia de uma compreens\u00e3o s\u00f3lida da natureza humana relacionada com suas origens no mundo natural.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em obras mais recentes, Midgley passou a abordar a natureza de nossa constitui\u00e7\u00e3o moral para desafiar a vis\u00e3o que reduz a motiva\u00e7\u00e3o humana ao interesse pr\u00f3prio. Em<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> The Solitary Self: Darwin and the Selfish Gene<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [O Eu Solit\u00e1rio: Darwin e o Gene Ego\u00edsta] (2010), Midgley argumenta que relatos simples e unilaterais da motiva\u00e7\u00e3o humana, como a hip\u00f3tese do \u201cgene ego\u00edsta\u201d pr\u00f3pria do pensamento neodarwinista recente, buscam oferecer descri\u00e7\u00f5es cientificamente informadas da nossa natureza, mas s\u00e3o irrealistas e implicam em formas de individualismo reducionista pouco adequadas. J\u00e1 em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Are you an Illusion?<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [Voc\u00ea \u00e9 uma ilus\u00e3o?] (2014), Midgley promove uma defesa da import\u00e2ncia dos nossos pensamentos, sentimentos e experi\u00eancias e de que somos muito mais do que a \u201cconfus\u00e3o de c\u00e9lulas cerebrais\u201d que certo retrato reducionista tenta nos impor. A rica variedade de nossa vida imaginativa n\u00e3o pode ser contida nos limites de um materialismo ing\u00eanuo que muitas vezes equipara o c\u00e9rebro ao rico e complexo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">eu<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. E mostra tamb\u00e9m que as fontes subjetivas de pensamento <\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u2014<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> as nossas pr\u00f3prias experi\u00eancias <\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u2014<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> s\u00e3o t\u00e3o importantes para ajudar a explicar a realidade como as fontes objetivas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Aos 99 anos e alguns meses antes de falecer, Midgley publicou seu \u00faltimo livro, um manifesto em defesa da filosofia intitulado <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">What Is Philosophy For? <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">[Para que serve a filosofia?] (2018). A proposta do livro \u00e9 mais uma vez a cr\u00edtica do conjunto de cren\u00e7as que envolve o reducionismo, o cientificismo e o mecanicismo e que continua a distorcer constantemente a imagem do mundo de muitos de n\u00f3s. Esse credo muitas vezes ainda ostenta o lisonjeiro nome de mentalidade \u201cmoderna\u201d e \u00e9 reverenciado como alternativa \u00fanica, situa\u00e7\u00e3o que limita o nosso pensamento e que pode, muitas vezes, desprezar o questionamento e a reflex\u00e3o t\u00e3o pr\u00f3prios da filosofia. No entanto, \u00e9 prov\u00e1vel que o racioc\u00ednio filos\u00f3fico se manter\u00e1, na medida em que ningu\u00e9m nem algo pensar\u00e1 por n\u00f3s. Ser\u00e1 preciso pensar na forma de melhor pensar acerca destes novos e dif\u00edceis t\u00f3picos e desafios que envolvem nosso tempo <\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u2014<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> como imagin\u00e1-los, como visualiz\u00e1-los, como inseri-los numa imagem do mundo coerente e estruturada. Assim, mesmo \u00e0 sombra dos desenvolvimentos cient\u00edficos e tecnol\u00f3gicos, ainda precisamos da filosofia para nos ajudar a pensar sobre as grandes quest\u00f5es de significado, conhecimento e valor.<\/span><\/p>\n<p><b>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/b><\/p>\n<ol>\n<li><b> Livros de Mary Midgley (ano de publica\u00e7\u00e3o original entre colchetes):<\/b><\/li>\n<\/ol>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (2002) [1978] <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Beast and human: The roots of human nature<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Londres: Routledge.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (2003) [1981] <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Heart and mind: The varieties of moral experience<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Londres: Routledge.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (1983) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Animals and why they matter: A Journey Around the Species Barrier<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">.\u00a0 Londres: Penguin.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M.; HUGHES, J. (1983) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Women\u2019s choices: Philosophical problems facing feminism<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Londres: Weidenfeld and Nicolson.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (2001) [1984]. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Wickedness: A Philosophical Essay<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Londres: Routledge.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (2002) [1985] <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Evolution as a religion: Strange hopes and stranger fears<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Londres: Routledge.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (2017) [1989] <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Can\u2019t We Make Moral Judgements?<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Londres: Bloomsbury.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (2002) [1986] <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Wisdom, information and wonder: What is knowledge for?<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Londres: Routledge.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (2013) [1992] <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Science as salvation: A modern myth and its meaning<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Londres: Routledge.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (1994) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Ethical Primate. Humans: Freedom and Morality<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Londres: Routledge.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (2003) [1996] <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Utopias, Dolphins and Computers: Problems in Philosophical Plumbing<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Londres: Routledge.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (2013) [2001] <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Science and poetry<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Londres: Routledge.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (2003) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The myths we live by<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Londres: Routledge.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (2005) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Owl of Minerva: A Memoir<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Nova York: Routledge.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (Ed.). (2007) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Earthy Realism: The Meaning of Gaia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Londres: Societas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (2014) [2010] <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The solitary self: Darwin and the selfish gene<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Routledge.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (2015) [2014] <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Are you an illusion?<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Routledge.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (2018) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">What is Philosophy For?<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Bloomsbury.<\/span><\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><b> Livros de Mary Midgley traduzidos para portugu\u00eas e espanhol:<\/b><\/li>\n<\/ol>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (1989) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Bestia y Hombre: Las ra\u00edces de la naturaleza humana<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Tradu\u00e7\u00e3o de Roberto Mazzoni. M\u00e9xico: Fondo de Cultura Econ\u00f3nima.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (2002). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Delfines, sexo y utop\u00edas. Doce ensayos para sacar la filosof\u00eda a la calle<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Tradu\u00e7\u00e3o de Jes\u00fas Izquierdo. Madrid: Turner.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (2014) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A presen\u00e7a dos mitos em nossas vidas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Tradu\u00e7\u00e3o de Alzira Allegro. S\u00e3o Paulo: EdUnesp.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (2019) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u00bfPodemos formular juicios morales?<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Tradu\u00e7\u00e3o de Pepa Linares. Madrid: Alianza Editorial.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (2019) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Para que serve a filosofia? Um manifesto<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Tradu\u00e7\u00e3o de Pedro Vidal. Temas &amp; Debates: Lisboa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (2023) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Ci\u00eancia como salval\u00e7\u00e3o: O mito moderno e seu sentido<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Tradu\u00e7\u00e3o de Lucas Bernardes. Campinas: Vide Editorial.<\/span><\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><b> Cap\u00edtulos e artigos de destaque de Mary Midgley:<\/b><\/li>\n<\/ol>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (1972) \u201cIs \u2018Moral\u2019 Dirty Word?\u201d. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Philosophy,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Vol. 47 , n. 181, pp. 206-228.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (1973) \u201cThe concept of beastliness: Philosophy, ethics and animal behaviour.\u201d <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Philosophy<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Vol. 48, n. 184, pp. 111-135.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (1974) \u201cThe Game Game\u201d. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Philosophy<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Vol. 49, n. 189 pp. 231-53.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (1974) \u201cThe Neutrality of the Moral Philosopher\u201d. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Supplementary Volume of the Aristotelian Society<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, pp. 211-229.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (1979) \u201cGene Juggling\u201d. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Philosophy<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Vol. 54, n. 210, pp. 439-458.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M; Clark, Stephen. (1980) \u201cThe\u00a0 Absence\u00a0 of\u00a0 a\u00a0 Gap\u00a0 between\u00a0 Facts\u00a0 and\u00a0 Values\u201d. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Supplementary Volume of the Aristotelian Society<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, pp. 207\u2013223.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (1983) \u201cSelfish Genes and Social Darwinian\u201d, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Philosophy<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Vol. 58, no. 225, pp. 365\u201077.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (1983) \u201cHuman Ideals and Human Needs\u201d. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Philosophy<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Vol. 58, n. 223, pp. 89-94.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (1991) \u201cThe Origin of Ethics\u201d, in: SINGER, Peter (Ed.). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A Companion to Ethics<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Oxford: Blackwell.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (1992) \u201cPhilosophical plumbing\u201d. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Royal Institute of Philosophy Supplements<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Vol. 33, pp. 139-151.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (1994) \u201cThe End of Anthropocentrism?\u201d, in: ATTFIELD &amp; BELSEY (Ed.). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Philosophy and the Natural Environment<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Cambridge: Cambridge University Press.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (1994) \u201cDarwinism\u00a0 and\u00a0 Ethics\u201d, in: Fulfor et al (Eds.). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Medicine and Moral Reasoning<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Cambridge: Cambridge University Press.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (1995) \u201cThe Mixed Community\u201d, in: Sterba, James (Ed.). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Earth Ethics, Environmental Ethics, Animal Rights and Practical Applications<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Nova Jersey: Prentice Hall.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (1996) \u201cCan Education be Moral?\u201d <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Res Publica,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Vol. 2, n. 1, pp. 77-85.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (2000) \u201cHuman Nature, Human Variety, Human Freedom\u201d, in: Roughley, N. (Ed.). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Being Humans: Anthropological Universality and Particularity in Transdisciplinary Perspectives<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Berlin: Walter De Gruyter.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (2000) \u201cWhy Memes?\u201d, in: Rose &amp; Rose (Eds.). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Alas, Poor Darwin: Arguments Against Evolutionary <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Psychology. Londres: Jonathan Cape Rosenthal.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (2009) \u201cPurpose, Meaning and Darwinism\u201d, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Philosophy Now,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Vol. 71, pp. 16-19.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (2011) \u201cWhy The Idea of Purpose Won\u2019t Go Away\u201d. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Philosophy<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Vol. 86, pp. 545\u201061.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (2011) \u201cThe Mythology of Selfishness\u201d, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Philosophers\u2019Magazine<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Vol. 53, pp. 35\u201045.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, M. (2022) [1950] \u201cRings and books\u201d. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Raven<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Issue 2, Primavera de 2022.<\/span><\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li><b> Livros e trabalhos sobre Mary Midgley:<\/b><\/li>\n<\/ol>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Costa Jr, J. (2024) \u201cAlgu\u00e9m (ou algo) pensa por n\u00f3s?: Resenha de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">What is Philosophy For?,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> de Mary Midgley\u201d. In: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Revista Cr\u00edtica na Rede<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, Dispon\u00edvel em:\u00a0<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/criticanarede.com\/naturfilosofia.html\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/criticanarede.com\/naturfilosofia.html<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Kidd, J. &amp; McKinnell, L. (2016) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Science and the Self: Animals, Evolution, and Ethics: Essays in Honour of Mary Midgley<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Nova York: Routlegde.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">McElwain, G. (2020) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Mary Midgley: An introduction<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Nova York: Bloomsbury.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Midgley, D. (Ed.) (2005) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The essential Mary Midgley<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Nova York: Routledge.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Rivera, N. (2016) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Earth is Our Home: Mary Midgley\u2019s Critique and Reconstruction of Evolution and Its Meanings<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Londres: Andrews.<\/span><\/p>\n<ol start=\"5\">\n<li><b> Sobre o \u201cQuarteto de Oxford\u201d:<\/b><\/li>\n<\/ol>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Costa Jr, J. (2024) \u201cHist\u00f3rias de animais metaf\u00edsicos: Resenha de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Women Are Up to Something: How Elizabeth Anscombe, Philippa Foot, Mary Midgley, and Iris Murdoch Revolutionized Ethics<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Metaphysical Animals: How Four Women Brought Philosophy Back to Life<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u201d. In: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Revista Cr\u00edtica na Rede<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Dispon\u00edvel em:\u00a0<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/criticanarede.com\/animaismetafisicos.html\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/criticanarede.com\/animaismetafisicos.html<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mac Cumhaill, C.; Wiseman, R. (2022) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Metaphysical animals: How four women brought philosophy back to life<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Doubleday, Nova York.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Krishnan, N. (2023) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A Terribly Serious Adventure: Philosophy at Oxford 1900-1960<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Londres: Profile Books.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Lipscomb, B. (2021) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The women are up to something: How Elizabeth Anscombe, Philippa Foot, Mary Midgley, and Iris Murdoch revolutionized ethics<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Oxford: Oxford University Press.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mary Midgley (1919 &#8211; 2018) por Jos\u00e9 Costa J\u00fanior, professor de Filosofia e Ci\u00eancias Sociais \u00a0do Instituto Federal de Minas<\/p>\n","protected":false},"author":360,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","inline_featured_image":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"class_list":["post-2137","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2137","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/360"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2137"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2137\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2151,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2137\/revisions\/2151"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2137"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}