{"id":2864,"date":"2026-03-23T14:14:00","date_gmt":"2026-03-23T17:14:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/?page_id=2864"},"modified":"2026-03-30T16:51:25","modified_gmt":"2026-03-30T19:51:25","slug":"heterossexualidade-compulsoria","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/heterossexualidade-compulsoria\/","title":{"rendered":"Heterossexualidade Compuls\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><b>Heterossexualidade Compuls\u00f3ria<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">Por Juliana Aggio,<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">Professora Associada de Filosofia na Universidade Federal da Bahia (UFBA)<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/5290499042057589\"><span style=\"font-weight: 400\">Lattes<\/span><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2026\/03\/Heterossexualidade-Compulsoria-PDF.docx.pdf\">PDF &#8211; Heterossexualidade Compuls\u00f3ria<\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Neste verbete, apresentarei a leitura l\u00e9sbica da heterossexualidade compuls\u00f3ria, articulando-a \u00e0s cr\u00edticas decoloniais. O argumento central \u00e9 que a heterossexualidade deve ser compreendida como uma institui\u00e7\u00e3o social, pol\u00edtica e econ\u00f4mica, segundo Adrienne Rich; um regime pol\u00edtico que institui um modo hegem\u00f4nico de pensar, segundo Monique Wittig; e um padr\u00e3o normatizante que determina o binarismo de g\u00eanero, segundo <\/span><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/judith-butler\/\"><span style=\"font-weight: 400\">Judith Butler<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">. Por fim, pretendo mostrar que a leitura l\u00e9sbica contribui de forma potente para a concep\u00e7\u00e3o de g\u00eanero a partir da heterossexualidade, mas revela uma limita\u00e7\u00e3o significativa segundo a feminista decolonial <\/span><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/maria-lugones\/\"><span style=\"font-weight: 400\">Mar\u00eda Lugones<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">: a desconsidera\u00e7\u00e3o da colonialidade como eixo estruturante do pr\u00f3prio regime heterossexual.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Introdu\u00e7\u00e3o\u00a0<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A grande maioria nunca se perguntou por que deseja algu\u00e9m do sexo oposto. Mas quem deseja algu\u00e9m do mesmo sexo foi perguntado ou j\u00e1 se perguntou a raz\u00e3o de seu desejo. A pergunta chega ao homossexual como uma demanda moral, como se fosse realmente necess\u00e1rio justificar esse \u201cdesvio\u201d ou \u201canomalia\u201d. Assim, sutil e insidiosamente, o homossexual busca por um desejo secreto e uma raz\u00e3o que tenha motivado sua orienta\u00e7\u00e3o sexual. A querela intermin\u00e1vel e infrut\u00edfera se imp\u00f5e: a homossexualidade \u00e9 biol\u00f3gica (gen\u00e9tica) ou social, ou seja, se nasce ou se torna homossexual? Ora, ningu\u00e9m se pergunta: se nasce ou se torna heterossexual? O ponto aqui n\u00e3o \u00e9 optar por uma ou outra resposta, mas compreender por que insistimos tanto em saber a resposta apenas no caso da homossexualidade, reservando um sil\u00eancio consensual e aceita\u00e7\u00e3o t\u00e1cita \u00e0 heterossexualidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Esse fen\u00f4meno, para quem n\u00e3o sabe, chama-se heterossexualidade compuls\u00f3ria e marcou definitivamente o campo feminista, nos obrigando a revisitar o g\u00eanero pelo vi\u00e9s da heterossexualidade. Afinal, ningu\u00e9m nasce mulher, torna-se, como disse <\/span><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/simone-de-beauvoir\/\"><span style=\"font-weight: 400\">Simone de Beauvoir<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">. Mas torna-se por qu\u00ea e para quem? Para os homens ou em benef\u00edcio deles. Tornar-se mulher, como mostraram as feministas l\u00e9sbicas, \u00e9 tornar-se h\u00e9tera, compreendendo a heterossexualidade n\u00e3o como uma pr\u00e1tica sexual, mas um modo de existir apropriado pelos homens: n\u00e3o apenas o trabalho reprodutivo, sexual e do cuidado, mas nossos corpos, nossas mentes e nosso tempo de vida incomensur\u00e1vel e irrecuper\u00e1vel passam a existir em benef\u00edcio dos homens.<\/span><\/p>\n<p><b>1. Origem da express\u00e3o \u201cheterossexualidade institucional\u201d<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O conceito, inicialmente, como mostrou Steven Seidman em seu texto <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Critique of Compulsory Heterosexuality<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [Cr\u00edtica \u00e0 Heterossexualidade Compuls\u00f3ria] (2009), permitiu uma mudan\u00e7a na an\u00e1lise da heterossexualidade de uma mera pr\u00e1tica sexual de um indiv\u00edduo para o entendimento de uma condi\u00e7\u00e3o social estrutural da normatividade heterossexual. Esse conceito surge em plena \u00e9poca de libera\u00e7\u00e3o sexual dos anos 60 e 70 como um contraponto \u00e0 hip\u00f3tese repressiva da sexualidade. A pergunta que se coloca \u00e9 a seguinte: afinal, a sexualidade \u00e9 livre ou produzida? \u00c9 fruto de uma escolha livre individual ou constrangida pelo regime heteronormativo dominante? Se Foucault estiver correto em seu primeiro volume da <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Hist\u00f3ria da Sexualidade<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, publicado em 1975, a sexualidade \u00e9 antes produzida do que reprimida, logo, a libera\u00e7\u00e3o sexual se fundamenta na ilus\u00f3ria hip\u00f3tese repressiva. Disso decorre que a sexualidade n\u00e3o seria livremente praticada conforme a escolha de cada um, mas antes produzida em termos heterossexuais, pela sua afirma\u00e7\u00e3o ou nega\u00e7\u00e3o, e as escolhas individuais estariam, em verdade, fortemente constrangidas por esse regime heteronormativo dominante.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O ganho de se ler a heterossexualidade como uma institui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e n\u00e3o como uma mera pr\u00e1tica sexual \u00e9 transpor esse fen\u00f4meno do \u00e2mbito individual para o estrutural e mostrar que (i) a heterossexualidade n\u00e3o \u00e9 simplesmente fruto de uma escolha livre, mas da imposi\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o social de exist\u00eancia e (ii) que a constitui\u00e7\u00e3o do g\u00eanero em termos bin\u00e1rios hier\u00e1rquicos decorre da heterossexualiza\u00e7\u00e3o dos \u201ccorpos\u201d com a finalidade de tornar a \u201cmulher\u201d uma categoria de sexo pertencente ao homem, portanto explorada no trabalho produtivo e reprodutivo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ochy Curiel, em seu livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A na\u00e7\u00e3o heterossexual<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (2024), mostra que a antropologia abordou a heterossexualidade antes como uma pr\u00e1tica sexual vinculada a institui\u00e7\u00f5es sociais, como a fam\u00edlia, do que como uma institui\u00e7\u00e3o ou um regime pol\u00edtico, como fizeram, respectivamente, Adrienne Rich e Monique Wittig. Ser\u00e1 o feminismo l\u00e9sbico que far\u00e1 essa abordagem mais profunda e completa da heterossexualidade para al\u00e9m de uma mera pr\u00e1tica sexual. A primeira autora feminista a especular sobre o aspecto pol\u00edtico dessa pr\u00e1tica sexual foi Anne Koedt, em seu texto <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Myth of the Vaginal Orgasm<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [O mito do orgasmo vaginal] (1968), no qual ela mostra que h\u00e1 uma naturaliza\u00e7\u00e3o da heterossexualidade e suas bases er\u00f3ticas com vistas \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o. No texto <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Woman-Identified Woman<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [A mulher identificada como mulher<\/span><span style=\"font-weight: 400\">] <\/span><span style=\"font-weight: 400\">(1972), as L\u00e9sbicas Radicais (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Radicalesbians<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">) afirmaram que a l\u00e9sbica deveria transcender a pr\u00e1tica sexual e propor uma a\u00e7\u00e3o coletiva que combata o sexismo e a heterossexualidade. Outras feministas, como a italiana Carla Lonzi e a norte-americana Jill Johnson, tamb\u00e9m procuraram mostrar que a mulher se constitui pelo olhar do homem e que sua feminilidade e submiss\u00e3o tem uma rela\u00e7\u00e3o direta com a heterossexualiza\u00e7\u00e3o, logo, deveria ser central para o feminismo combater o heterossexismo. O coletivo de l\u00e9sbicas feministas <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Purple September Staff<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> contestou que a escolha por ser heterossexual seria livre ou sem contrangimento algum: \u201c\u00c9 verdade que h\u00e1 feministas que afirmam que ser heterossexual \u00e9 uma quest\u00e3o de prefer\u00eancia pessoal. O problema \u00e9 que vivemos em uma cultura que sanciona apenas a heterossexualidade. Como resultado, voc\u00ea n\u00e3o pode convencer ningu\u00e9m de que voc\u00ea \u00e9 heterossexual por op\u00e7\u00e3o\u201d (Purple September Staff<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">1975, p. 81).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ao que tudo indica, a formula\u00e7\u00e3o mais antiga de heterossexualidade enquanto institui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica se encontra no jornal l\u00e9sbico-feminista <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Furies Collective<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, em 1975 e no texto de Charlotte Bunch, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Learning from Lesbian Separatism<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [Aprendendo com o separatismo l\u00e9sbico]<\/span><span style=\"font-weight: 400\">,<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> de 1976. Segundo o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Furies<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, \u201ca pol\u00edtica feminista l\u00e9sbica \u00e9 uma cr\u00edtica pol\u00edtica da institui\u00e7\u00e3o e da ideologia da heterossexualidade como a principal pedra angular da supremacia masculina\u201d (Myron &amp; Bunch, 1975, p. 10, 83). Adiante, na mesma p\u00e1gina, o coletivo afirma que \u201ca norma h\u00e9tera n\u00e3o \u00e9 uma norma sexual, mas um poderoso instrumento para perpetua\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a entre os sexos\u201d (Ibidem).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Apesar de n\u00e3o atribuir \u00e0 heterossexualidade um car\u00e1ter de institui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, o primeiro ataque contra a sua suposta naturalidade foi feito em 1975, pela antrop\u00f3loga Gayle Rubin, em seu ensaio <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O tr\u00e1fico de mulheres<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Procurando compreender a origem da opress\u00e3o das mulheres para al\u00e9m das sociedades capitalistas, a antrop\u00f3loga concebe um sistema sexo\/g\u00eanero que transforma a sexualidade biol\u00f3gica em atividades humanas a serem satisfeitas de modo que a opress\u00e3o seria antes um produto das rela\u00e7\u00f5es sociais e n\u00e3o algo inevit\u00e1vel da ordem da biologia (Rubin, 2017, p. 11).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O ponto crucial, segundo a antrop\u00f3loga, \u00e9 que a cria\u00e7\u00e3o de um sistema heterossexual oprime em termos sociais, como bem descreveu L\u00e9vi-Strauss com o conceito de troca de mulheres para explicar o tabu do incesto enquanto mito fundador da sociedade, e, em termos psicol\u00f3gicos, com a transmiss\u00e3o do poder masculino por meio da mulher para o filho homem. Se, do ponto de vista social, a transmiss\u00e3o do falo se faz pela troca de mulheres entre fam\u00edlias, do ponto de vista psicol\u00f3gico, a mulher castrada desde sempre n\u00e3o teria outra fun\u00e7\u00e3o sen\u00e3o a de transmitir o falo por meio da reprodu\u00e7\u00e3o. Diante de tais constata\u00e7\u00f5es, para Rubin, \u201ca heterossexualidade compuls\u00f3ria \u00e9 produto do parentesco. A fase ed\u00edpica institui o desejo heterossexual\u201d (Idem, p. 49), isso significa que \u201cn\u00f3s n\u00e3o apenas sofremos opress\u00e3o como mulher, n\u00f3s somos oprimidas por termos de ser mulheres \u2013 ou homens, conforme o caso\u201d (Idem, p. 55). O problema da psican\u00e1lise freudiana\/lacaniana e da antropologia l\u00e9vi-straussiana est\u00e1 em se reduzir ao papel de anal\u00edtica e se eximir de ser cr\u00edtica e propositiva diante das opress\u00f5es, ou seja, ambas as teorias racionalizam a opress\u00e3o, mas n\u00e3o defendem novas disposi\u00e7\u00f5es de enfrentamento. \u00c9 preciso, como prop\u00f4s a fil\u00f3sofa, \u201cse empenhar em defender uma revolu\u00e7\u00e3o no sistema de parentesco\u201d (Idem, p. 50).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Como se pode notar, a discuss\u00e3o trazida por Rich se encontra num contexto mais amplo do movimento feminista l\u00e9sbico da d\u00e9cada de 70. Seu texto, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Heterossexualidade compuls\u00f3ria e exist\u00eancia l\u00e9sbica<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, de 1980, foi marcante no movimento feminista l\u00e9sbico, com repercurs\u00f5es para o feminismo em geral. Rich foi uma feminista, branca, l\u00e9sbica, estadunidense que teve tr\u00eas filhos e foi casada com um homem por dezessete anos antes de se tornar l\u00e9sbica. Digo isso apenas para ressaltar que ela soube, na pr\u00f3pria pele, o que significava viver a heterossexualidade, romper com tal modo de vida para passar a viver uma exist\u00eancia l\u00e9sbica.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para Rich, resumidamente, a heterossexualidade possui um car\u00e1ter compuls\u00f3rio, embora tal compulsoriedade n\u00e3o seja absoluta, do contr\u00e1rio, n\u00e3o haveria l\u00e9sbicas. O car\u00e1ter compuls\u00f3rio se explica pelo fato de a heterossexualidade ser \u201calgo imposto, administrado, organizado, propagandeado e mantido por for\u00e7a\u201d (Rich, 2010, p. 35), portanto, por ser uma imposi\u00e7\u00e3o social e n\u00e3o um dado da natureza. Isso significa que n\u00e3o podemos pressupor um desejo inato das mulheres dirigidos aos homens, nem que tal desejo seja fruto de uma prefer\u00eancia ou escolha livre e aut\u00f4noma. Podemos antes vislumbrar que haveria uma imposi\u00e7\u00e3o de um modo hegem\u00f4nico heterossexual de desejar. A m\u00edstica do amor rom\u00e2ntico heterossexual tem como fun\u00e7\u00e3o direcionar e naturalizar o desejo das mulheres pelos homens. Trata-se de um fen\u00f4meno que preserva a apar\u00eancia de imutabilidade como estrat\u00e9gia pol\u00edtica para que ningu\u00e9m pense que n\u00e3o se nasce h\u00e9tera, torna-se.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A heterossexualidade n\u00e3o poderia ser compreendida se a reduz\u00edssemos a uma pr\u00e1tica sexual com o sexo oposto, o que seria apenas uma descri\u00e7\u00e3o denotativa, e n\u00e3o revelaria suas implica\u00e7\u00f5es socias, econ\u00f4micas, pol\u00edticas e existenciais de nossas rela\u00e7\u00f5es com a vida, conoscos mesmas e com os demais. Isso significa que a heterossexualidade deva ser compreendida como uma institui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica opressora que constitui, define e controla as mulheres por meio da divis\u00e3o sexual do trabalho produtivo e da explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do trabalho reprodutivo, sobretudo no que se refere \u00e0 maternidade vivida num ambiente familiar nuclear e cisheteropatriarcal. Ser mulher \u00e9 ser compulsoriamente heterossexual, ou seja, \u00e9 ter de ser feminina o suficiente para reproduzir e cuidar da casa, dos filhos e do marido, sem sequer ser remunerada por essas fun\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Os primeiros argumentos de Rich pretendem demonstrar que a heterossexualidade, embora tenha uma for\u00e7a impositiva cultural, n\u00e3o \u00e9 natural nem teleologicamente determinante, a saber: (i) n\u00e3o h\u00e1 determinismo natural heterossexual, pois o amor das mulheres se direciona para outras mulheres; (ii) n\u00e3o h\u00e1 determinismo teleol\u00f3gico de preserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie, ou seja, a sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie n\u00e3o depende de haver rela\u00e7\u00f5es heterossexuais, j\u00e1 que \u00e9 poss\u00edvel reproduzir sendo l\u00e9sbica, sobretudo com as possibilidades atuais de reprodu\u00e7\u00e3o assistida; (iii) se fosse naturalmente determinante, n\u00e3o haveria tantos dispositivos de controle da sexualidade das mulheres necess\u00e1rios a fim de \u201crefor\u00e7ar a subservi\u00eancia e a total lealdade er\u00f3tico-emocional das mulheres frente aos homens\u201d (Idem, p. 22). Resumidamente, se \u00e9 compuls\u00f3ria, n\u00e3o \u00e9 natural e nem poderia ser fruto de uma escolha livre. N\u00e3o h\u00e1 liberdade absoluta. Tampouco haveria determinismo absoluto em termos biol\u00f3gicos ou sociol\u00f3gicos. H\u00e1 certa liberdade em meio \u00e0s determina\u00e7\u00f5es do poder cisheteropatriarcal.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Por fim, a gravidade desse fen\u00f4meno da heterossexualidade como institui\u00e7\u00e3o de controle das mulheres n\u00e3o poderia ser desconsiderado pelo feminismo at\u00e9 ent\u00e3o focado na desigualdade de g\u00eanero. Como diz Rich: \u201ca suposi\u00e7\u00e3o de que a maioria das mulheres s\u00e3o heterossexuais de modo inato coloca-se como um obst\u00e1culo te\u00f3rico e pol\u00edtico para o feminismo\u201d (Idem, p. 35). Pressupor o car\u00e1ter inato da heterossexualidade nega o seu car\u00e1ter compuls\u00f3rio. E se n\u00e3o \u00e9 inata, mas compuls\u00f3ria, \u00e9 preciso, de certo, questionar o significa ser heterossexual e o qu\u00e3o livres s\u00e3o as mulheres para escolherem serem h\u00e9teras.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Como toda feminista, uma vez feito o diagn\u00f3stico da opress\u00e3o, Rich se pergunta pelas estrat\u00e9gias de resist\u00eancia. Em primeiro lugar, devemos conhecer as opress\u00f5es para conseguir nomear a experi\u00eancia opressiva vivida e, assim, poder lutar por um mundo que a evite. Em segundo lugar, a pr\u00f3pria exist\u00eancia l\u00e9sbica \u00e9 um ato de resist\u00eancia, pois ela \u201cinclui tanto a ruptura de um tabu quanto a rejei\u00e7\u00e3o de um modo compuls\u00f3rio de vida. \u00c9 tamb\u00e9m um ataque direto e indireto ao direito masculino de ter acesso \u00e0s mulheres\u201d (Idem, p. 36). Por outro lado, o apagamento da exist\u00eancia l\u00e9sbica \u00e9 a prova inequ\u00edvoca de que ser mulher \u00e9 ser em rela\u00e7\u00e3o com e a servi\u00e7o dos homens (Ibidem).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em suma, a exist\u00eancia l\u00e9sbica mostra (i) que a heterossexualidade n\u00e3o \u00e9 compuls\u00f3ria em termos absolutos, mas antes se apoia na mentira de ser natural e absolutamente\u00a0 compuls\u00f3ria, (ii) que a tentativa de elimin\u00e1-la \u00e9 a prova de que a heterossexualidade insiste em sustentar tal mentira, (iii) e que o seu apagamento enfraquece todas as mulheres, sobretudo aquelas que se dizem h\u00e9teras, pois todas as mulheres sofrem heterossexualiza\u00e7\u00e3o constante, e a mulher h\u00e9tera naturaliza sua sexualidade com homens e a vive como se n\u00e3o tivesse outra escolha, portanto, acreditando no car\u00e1ter absolutamente compuls\u00f3rio da heterossexualidade e de seu desejo heteressexual.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>2. Monique Wittig: torna-se mulher tornando-se h\u00e9tera<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Apesar de Rich ter dado notoriedade ao conceito de heterossexualidade compuls\u00f3ria e \u00e0 resist\u00eancia l\u00e9sbica, foi com Monique Wittig, que a exist\u00eancia l\u00e9sbica ganha uma radicalidade te\u00f3rica e pol\u00edtica sem precedentes. Rich e Wittig criticaram o feminismo feito at\u00e9 ent\u00e3o que exclu\u00eda a tem\u00e1tica da sexualidade, apagava a exist\u00eancia l\u00e9sbica, e desconsiderava o poder da heterossexualidade na manuten\u00e7\u00e3o da supremacia masculina e opress\u00e3o das mulheres.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Wittig, feminista l\u00e9sbica francesa radicada nos Estados Unidos, denominava de \u201cheterofeminismos\u201d os feminismos franceses da d\u00e9cada de 70 que apostavam num sujeito pol\u00edtico como \u201ca mulher essencial\u201d, ou seja, partiam de uma vis\u00e3o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">heterocentrada<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, ou, em suas palavras, do \u201cpensamento h\u00e9tero\u201d. Com tal conceito, Wittig questiona n\u00e3o apenas o pensamento e as pr\u00e1ticas pol\u00edticas feministas, mas a pr\u00f3pria linguagem, a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento e a organiza\u00e7\u00e3o social, pol\u00edtica, econ\u00f4mica do mundo ocidental. Ela acusa, sem pudores, o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Mouvement de Lib\u00e9ration des Femmes<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (MLF) [Movimento de Liberta\u00e7\u00e3o das Mulheres], bem como o feminismo hegem\u00f4nico desta \u00e9poca de marginalizar as l\u00e9sbicas e de endossar o poder heteropatriarcal. Como leitora de Rich, ela enfatiza que a heterossexualidade (i) n\u00e3o \u00e9 nem natural nem absolutamente compuls\u00f3ria, mas social, (ii) que n\u00e3o \u00e9 meramente uma pr\u00e1tica sexual, mas, sobretudo, uma ideologia heterossexualizante, um modo de pensar, falar e sentir que heterossexualiza e oprime as mulheres, e, por fim, (iii) que este modo de pensar mant\u00e9m o poder heteropatriarcal sob a roupagem de uma naturaliza\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7a dos sexos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Como havia dito, do mesmo modo que n\u00e3o se nasce mulher, tampouco se nasce h\u00e9tera, mas se torna e sob muita indu\u00e7\u00e3o e coer\u00e7\u00e3o, tanto f\u00edsica como mental. Se nos tornamos h\u00e9teras, isso significa que podemos deixar de ser, nos tornando l\u00e9sbicas. Agora, a pergunta mais profunda \u00e9 a seguinte: para se tornar mulher \u00e9 preciso se tornar h\u00e9tera? Sem d\u00favida. Logo, a l\u00e9sbica n\u00e3o \u00e9 mulher. Essa afirma\u00e7\u00e3o de Wittig feita na d\u00e9cada de 80 \u00e9 pol\u00eamica e chocante mesmo aos nossos ouvidos atuais, e tem um efeito impressionante de colocar em quest\u00e3o a defini\u00e7\u00e3o de \u201cmulher\u201d, evidenciando como tal defini\u00e7\u00e3o est\u00e1 atrelada \u00e0 heterossexualidade. Para ser mulher \u00e9 preciso ser heterossexual, portanto, a l\u00e9sbica n\u00e3o seria mulher. A mulher, enquanto categoria pol\u00edtica dentro do regime da heterossexualidade compuls\u00f3ria, s\u00f3 poderia ser definida como um corpo capaz de reproduzir e que deseja o sexo oposto para efetivar a reprodu\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para al\u00e9m da determina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, a heterossexualidade incide sobre nosso modo de pensar, o que faz com que a viabilidade de resist\u00eancia tenha que ser, segundo Wittig, a mais radical poss\u00edvel, a saber: fundar uma nova sociedade sem g\u00eaneros. Wittig, em seu ensaio <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Do contrato social<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1989), afirma que quando Rich disse que a heterossexualidade \u00e9 compuls\u00f3ria, \u201cela deu um grande passo na compreens\u00e3o do tipo de contrato social com o qual estamos lidando [&#8230;], um contrato social que nos reduz, por obriga\u00e7\u00e3o, a seres sexuais que s\u00f3 t\u00eam significado por suas atividades reprodutivas\u201d (Wittig, 2022, p. 129). Neste ensaio, Wittig argumenta que a heterossexualidade \u00e9 um contrato firmado entre os homens e aceito, por obriga\u00e7\u00e3o, pelas mulheres, o que deflagra seu car\u00e1ter compuls\u00f3rio. Isso pressup\u00f5e, segundo Teresa de Lauretis, \u201cque a heterossexualidade seja n\u00e3o apenas um dentre os mecanismos de domina\u00e7\u00e3o masculino, mas que esteja intimamente implicada em cada um deles: trata-se de uma estrutura sustentadora do pacto social e fundamento das normas culturais\u201d (2000, p. 129).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No famoso ensaio <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O pensamento h\u00e9tero<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, temos que a heterossexualidade, antes entendida como institui\u00e7\u00e3o, passa para a al\u00e7ada de regime pol\u00edtico que governa nosso modo de pensar. Depois de ter analisado os discursos cient\u00edficos dominantes de base estruturalista e demonstrado que eles operam sob a chave conceitual heterossexual e possuem efeitos pr\u00e1ticos materiais opressivos, Wittig define o que ela denominou de pensamento h\u00e9tero, nome do ensaio e do livro publicado em ingl\u00eas <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Straight Mind<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e, em franc\u00eas, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">La pens\u00e9e straight<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. A palavra h\u00e9tero, em portugu\u00eas, n\u00e3o d\u00e1 conta da complexidade do termo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">straight<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, que significa tanto h\u00e9tero como reto, estreito, correto, padr\u00e3o, fazendo uma remiss\u00e3o ao fato de tal pensamento ser hegem\u00f4nico e operar como fator normatizante.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em resumo, o pensamento h\u00e9tero possui as seguintes caracter\u00edsticas: (i) car\u00e1ter irrefut\u00e1vel, tend\u00eancia \u00e0 universaliza\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o totalizante, (ii) atribui sentido absoluto aos seus conceitos, quando s\u00e3o apenas categorias fundadas na heterossexualidade, (iii) seu efeito \u00e9 opressor, pois tende a transformar seus conceitos em leis universais de vi\u00e9s normativo e imperativo, (iv) al\u00e9m de produzir as diferen\u00e7as bin\u00e1rias entre os marcadores de identidade como se fossem entidades naturais e ideologias dogm\u00e1ticas; (v) por fim, \u00e9 um tipo de pensamento que se funda na necessidade de haver um outro apresentado como diferente para que seja dominado: como as l\u00e9sbicas e gays em rela\u00e7\u00e3o aos h\u00e9teros, as mulheres em rela\u00e7\u00e3o aos homens, os negros em rela\u00e7\u00e3o aos brancos (Idem, p. 63).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Na medida em que tal pensamento rejeita a possibilidade de o outro se constituir por ele mesmo, numa outra ordem simb\u00f3lica e numa outra linguagem, podemos dizer que ele fornece, com suas categorias, a inteligibilidade que possibilita a exist\u00eancia em termos bin\u00e1rios e hier\u00e1rquicos. Tudo o mais que lhe escapa n\u00e3o teria lugar de exist\u00eancia ou seria violentado na sua tentativa de existir por outra gram\u00e1tica que n\u00e3o a hegem\u00f4nica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Por fim, a luta feminista, para Wittig, consiste na destrui\u00e7\u00e3o da classe das mulheres, o que s\u00f3 pode ocorrer \u201cdestruindo a heterossexualidade como sistema social fundado na opress\u00e3o das mulheres pelos homens e que produz a doutrina da diferen\u00e7a entre os sexos para justificar essa opress\u00e3o\u201d (Idem, p. 54). O binarismo existe como justificativa da opress\u00e3o de sexo\/g\u00eanero e a opress\u00e3o \u00e9 a heterossexualiza\u00e7\u00e3o das mulheres com vista \u00e0 sua vulnerabiliza\u00e7\u00e3o e consequente explora\u00e7\u00e3o m\u00e1xima de seu trabalho, produtivo e reprodutivo.<\/span><\/p>\n<p><b>3. Judith Butler: da heterossexualidade compuls\u00f3ria \u00e0 heteronormatividade\u00a0<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Enquanto Wittig aposta em uma sociedade sem g\u00eaneros, mas com diversas sexualidades, Butler recusa tal aposta no ideal de humanidade sem marcas, como se a sexualidade n\u00e3o fosse ela tamb\u00e9m determinada pelo g\u00eanero. Ela argumentou que n\u00e3o basta se tornar l\u00e9sbica para deixar de reproduzir algo que \u00e9 estrutural: a heterossexualidade em termos normativos, ao que ela denominou heteronormatividade (Butler, 2016, pp. 193-222). Cabe aqui fazer uma observa\u00e7\u00e3o: Butler n\u00e3o nega a heterossexualidade compuls\u00f3ria, mas a concebe como estruturalmente normativa, isto \u00e9, como inscrita no tecido normativo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para a fil\u00f3sofa estadunidense, n\u00e3o se trata de combater a heterossexualidade, mas de ir \u201ccontra seu car\u00e1ter compuls\u00f3rio\u201d (Idem, p. 182). O ponto \u00e9 que, para Wittig, a heterossexualidade enquanto regime pol\u00edtico n\u00e3o poderia ser sen\u00e3o compuls\u00f3ria, ou seja, \u00e9 preciso refundar a sociedade e nosso modo de existir. Ao passo que Butler prop\u00f5e n\u00e3o refundar a sociedade, mas encontrar, nessa sociedade estruturalmente heterossexual, possibilidades de resist\u00eancia e subvers\u00e3o, a saber: tornar evidente que as identidades de g\u00eanero s\u00e3o constructos sociais e n\u00e3o dados da natureza, bem como defender a prolifera\u00e7\u00e3o radical de g\u00eaneros tendo como base uma pol\u00edtica pela n\u00e3o fixidez das identidades. Tal prolifera\u00e7\u00e3o, certamente, enfraqueceria o binarismo e, consequentemente, a pr\u00f3pria heteronormatividade.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Homens e mulheres n\u00e3o s\u00e3o naturalmente dados, s\u00e3o constructos sociais determinados teleologicamente pela heterossexualidade, ou seja, para Butler, inspirada por Wittig, h\u00e1 uma determina\u00e7\u00e3o teleol\u00f3gica da heterossexualidade sobre o binarismo de g\u00eanero e de sexo. S\u00f3 existe o binarismo de g\u00eanero \u2013 homens e mulheres \u2013 e uma leitura generificada dos corpos \u2013 masculino e feminino \u2013 tendo em vista o direcionamento heterossexual do desejo para que, assim, a heterossexualidade se efetive.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em poucas palavras, as categorias bin\u00e1rias s\u00e3o forjadas em um sistema de heterossexualidade compuls\u00f3ria que configura materialmente os corpos ao generificar os sexos, isto \u00e9, ao produzirem os corpos a partir de uma leitura bin\u00e1ria da apar\u00eancia f\u00edsica dos \u00f3rg\u00e3os genitais. \u00c9 o binarismo que configura nossos corpos, sexos e g\u00eaneros e assim o faz em fun\u00e7\u00e3o da determina\u00e7\u00e3o heterossexual, ou seja, \u00e9 para que o desejo heteronormativo se realize que o binarismo precisa ser mantido (Idem, p. 41). A heterossexualidade compuls\u00f3ria deve ser compreendida como uma matriz heterossexual constituidora do sistema sexo\/g\u00eanero. Ela usa o termo matriz heterossexual para explicar a inteligibilidade dos g\u00eaneros, bem como sua coer\u00eancia em termos oposicionais bin\u00e1rios e hier\u00e1rquicos, o que pode ser compreendido como uma releitura do fen\u00f4meno da heterossexualidade compuls\u00f3ria em termos normativos (Idem, nota 6, p. 200).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Por fim, a leitura de Butler sobre o tornar-se mulher de Beauvoir \u00e9 a de que o termo \u201cmulher\u201d \u00e9 uma pr\u00e1tica discursiva corporificada aberta a interven\u00e7\u00f5es e ressignifica\u00e7\u00f5es. Enquanto o objetivo de Butler \u00e9 desconstruir a apar\u00eancia substantiva do g\u00eanero por meio de uma genealogia pol\u00edtica das ontologias de g\u00eanero, o objetivo de Wittig \u00e9 eliminar a classe de mulheres e fundar uma nova sociedade com outro contrato que n\u00e3o o atual heterossexual. Se, para Wittig, a l\u00e9sbica n\u00e3o \u00e9 nem homem nem mulher e teria rompido radicalmente com a estrutura heterossexual, para Butler, a lesbianidade, a bissexualidade e mesmo a amb\u00edgua e falha heterossexualidade s\u00e3o desvios poss\u00edveis na estrutura, mas n\u00e3o uma \u201cfora\u201d dela, s\u00e3o deslocamentos no poder e n\u00e3o supress\u00e3o do mesmo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para Butler (Idem, p. 53), por um lado, existem pr\u00e1ticas subversivas, por outro, o policiamento da apar\u00eancia social do binarismo de g\u00eanero por meio da heterossexualidade compuls\u00f3ria. Se o prop\u00f3sito da heterossexualidade compuls\u00f3ria \u00e9 uniformizar, naturalizar e substancializar o binarismo de g\u00eanero, as sexualidades desviantes e as incoer\u00eancias entre as qualifica\u00e7\u00f5es femininas\/masculinas enquanto atributos do g\u00eanero \u201cmulher\u201d\/\u201dhomem\u201d desnaturalizam e dessubstancializam o pr\u00f3prio g\u00eanero. A tens\u00e3o est\u00e1 posta no jogo de for\u00e7a entre identidade \u201coriginal\u201d bin\u00e1ria e suas c\u00f3pias imperfeitas (cisheteros) e simulacros desviantes (LGBTQIA+).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em suma, Butler faz uma cr\u00edtica \u00e0 aposta de Wittig na figura da l\u00e9sbica como a solu\u00e7\u00e3o para elimina\u00e7\u00e3o do binarismo e da pr\u00f3pria matriz heterossexual. Ela acha que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ser l\u00e9sbica e estar completamente alheia ao sistema heterossexual. Assim, ao inv\u00e9s de apostar na l\u00e9sbica como a grande solu\u00e7\u00e3o, Butler se pergunta: \u201cque tipo de repeti\u00e7\u00e3o subversiva poderia questionar a pr\u00f3pria pr\u00e1tica reguladora da identidade?\u201d (Ibidem). N\u00e3o bastaria ser l\u00e9sbica para subverter, a \u00eanfase incorre sobre quais pr\u00e1ticas subversivas da identidade de g\u00eanero a l\u00e9sbica pratica, assim como o\/a heterossexual, o gay, o queer etc. A pergunta posta \u00e9 a seguinte: quais pr\u00e1ticas s\u00e3o capazes de \u201csubverter e deslocar as no\u00e7\u00f5es naturalizadas e rei\ufb01cadas do g\u00eanero que d\u00e3o suporte \u00e0 hegemonia masculina e ao poder heterossexista\u201d? (Idem, p. 55).\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>4. Mar\u00eda Lugones: heterossexualidade compuls\u00f3ria como projeto colonial<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Se o feminismo l\u00e9sbico denunciou a desconsidera\u00e7\u00e3o do elemento da heterossexualidade para pensar o g\u00eanero e o apagamento da exist\u00eancia l\u00e9sbica, o feminismo decolonial denunciou o racismo presente no feminismo hegem\u00f4nico que parte da premissa do sujeito \u201cmulher\u201d como universal identificado, em verdade, com as mulheres brancas. Ou seja, o feminismo hegem\u00f4nico branco burgu\u00eas euro-norte-americano, ao universalizar o sujeito mulher, se mostra racista, classista e heteroc\u00eantrico porque pensa exclusivamente o g\u00eanero e n\u00e3o o g\u00eanero em termos raciais, de modo que a \u201cmulher\u201d n\u00e3o \u00e9 concebida pela \u00f3tica da interseccionalidade, mas se assimila \u00e0 pr\u00f3pria mulher branca, excluindo as racializadas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Se a heterossexualiza\u00e7\u00e3o nos torna mulheres, como nos mostraram as feministas l\u00e9sbicas, n\u00e3o poder\u00edamos compreender adequadamente esse tornar-se sem considerar o elemento da ra\u00e7a, como nos mostra o feminismo decolonial. Afinal, o processo mesmo de tornar-se mulher \u00e9 muito distinto quando se trata de uma pessoa branca e de uma n\u00e3o-branca. Se, para uma mulher branca, o processo de heterossexualiza\u00e7\u00e3o \u00e9 violento, para uma mulher negra ou ind\u00edgena \u00e9 brutalmente mais violento porque ele reatualiza a desumaniza\u00e7\u00e3o infringida sobre tais corpos desde a coloniza\u00e7\u00e3o. Se, nesse regime heterossexual, a mulher branca deve servir por ser mulher, a racializada deve servir duplamente, por ser mulher e por ser negra ou ind\u00edgena. Se a mulher branca \u00e9 inferiorizada por ser mulher, a racializada \u00e9 inferiorizada por ser mulher e desumanizada por ser negra ou ind\u00edgena. Se o patriarcado \u00e9 um modo de opress\u00e3o de g\u00eanero em que ser mulher significa ser menos humana do que o homem, a colonialidade \u00e9 um modo de opress\u00e3o de ra\u00e7a em que n\u00e3o ser branca significa n\u00e3o ser humana.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A cr\u00edtica decolonial \u00e0 leitura l\u00e9sbica pode ser resumida da seguinte maneira: o argumento sobre a heterossexualidade compuls\u00f3ria \u00e9 bastante potente, mas peca por tratar as mulheres como um bloco homog\u00eaneo, como fizeram Rich, Wittig e Butler, desconsiderando o elemento da ra\u00e7a como definit\u00f3rio de g\u00eanero. A cr\u00edtica decolonial tem sua import\u00e2ncia nesse furo da leitura l\u00e9sbica sobre a heterossexualidade. \u00c9 preciso, portanto, questionar a universaliza\u00e7\u00e3o do g\u00eanero \u201cmulheres\u201d e do fen\u00f4meno da heterossexualiza\u00e7\u00e3o. Ocorreria do mesmo modo para mulheres brancas e para negras ou ind\u00edgenas? Embora Rich, Wittig e mesmo Butler mencionem a quest\u00e3o da ra\u00e7a e da intersec\u00e7\u00e3o de opress\u00f5es, n\u00e3o conceberam a imbrica\u00e7\u00e3o fundante da ra\u00e7a sobre o g\u00eanero, como o fez Mar\u00eda Lugones.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Lugones, com seu conceito de c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">olonialidade de g\u00eanero<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, diz o seguinte: como h\u00e1 um processo de redu\u00e7\u00e3o ativa ou desumaniza\u00e7\u00e3o dos colonizados, \u201ca \u2018mulher colonizada\u2019 \u00e9 uma categoria vazia: nenhuma mulher \u00e9 colonizada; nenhuma f\u00eamea colonizada \u00e9 mulher\u201d (Lugones, 2014, p. 939), visto que ter um g\u00eanero \u00e9 sinal inequ\u00edvoco de humanidade e a f\u00eamea colonizada n\u00e3o foi considerada um ser humano. Ou seja, \u201co sistema de g\u00eanero \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 hier\u00e1rquico, mas racialmente diferenciado, e a diferencia\u00e7\u00e3o racial nega humanidade e, portanto, g\u00eanero \u00e0s colonizadas\u201d (Idem, p. 942).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Finda a coloniza\u00e7\u00e3o, permanece o poder colonial que atravessa a atribui\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, fazendo com que, mesmo na atualidade, ser mulher seja muito diferente a depender de sua ra\u00e7a ou etnia. Mesmo depois das f\u00eameas colonizadas serem consideradas mulheres, elas n\u00e3o ganharam o mesmo status e privil\u00e9gio das mulheres brancas. A heterossexualiza\u00e7\u00e3o \u00e9 incomensuravelmente mais opressora para as mulheres n\u00e3o brancas do que para as brancas. Se, no interior da ordem colonial, as mulheres brancas eram identificadas com a natureza, as crian\u00e7as e os animais pequenos, as n\u00e3o brancas n\u00e3o eram sequer consideradas mulheres, mas sim f\u00eameas tais quais os animais e sem caracter\u00edsticas da feminilidade. Essa animaliza\u00e7\u00e3o brutal das mulheres colonizadas comparativamente \u00e0 fragilidade atribu\u00edda \u00e0s mulheres brancas coloca as primeiras numa condi\u00e7\u00e3o de ser capaz de aguentar todo tipo de viol\u00eancia no trabalho e de agress\u00e3o sexual.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Resumidamente, podemos dizer que, em primeiro lugar, o feminismo l\u00e9sbico n\u00e3o havia afirmado que a heterossexualidade compuls\u00f3ria \u00e9 um poder colonial que constitui o g\u00eanero; em segundo lugar, que h\u00e1 uma diferen\u00e7a marcante entre a imposi\u00e7\u00e3o da heterossexualiza\u00e7\u00e3o na constitui\u00e7\u00e3o de g\u00eanero para as mulheres brancas e para as n\u00e3o brancas. Certamente, a heterossexualidade como pr\u00e1tica sexual \u00e9 anterior \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o, mas enquanto regime pol\u00edtico e modo de pensar, ela \u00e9, segundo Lugones, um mecanismo de coer\u00e7\u00e3o para forjar a atribui\u00e7\u00e3o do g\u00eanero para as mulheres brancas e a priva\u00e7\u00e3o para as racializadas. Retirar a possibilidade de ter um g\u00eanero \u00e9 retirar a humanidade: essa \u00e9 a estrat\u00e9gia do poder colonial branco racista de domina\u00e7\u00e3o dos corpos racializados n\u00e3o brancos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Se o g\u00eanero, para o feminismo l\u00e9sbico, \u00e9 um modo de domina\u00e7\u00e3o por meio do trabalho e da apropria\u00e7\u00e3o das mulheres pelos homens; para o feminismo decolonial, o g\u00eanero serve como um modo de organiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, de propriedade, de cosmologia e de saberes em benef\u00edcio dos brancos. \u00c9 preciso sair da an\u00e1lise simplista de que o patriarcado, com seu binarismo hier\u00e1rquico e opressivo, forma o g\u00eanero de modo a garantir a supremacia masculina sobre as mulheres. Segundo Lugones, o g\u00eanero se explica a partir da imbrica\u00e7\u00e3o entre heterossexualidade, capitalismo e racismo. Assim, procurando fazer uma an\u00e1lise sobre o g\u00eanero n\u00e3o reduzido a ele mesmo, mas na imbrica\u00e7\u00e3o com ra\u00e7a, sexualidade e classe, a fil\u00f3sofa formula a seguinte pergunta para repensarmos o papel central dado \u00e0 heterossexualidade pelas feministas l\u00e9sbicas e revisitarmos o g\u00eanero pelo vi\u00e9s da colonialidade: como pensar a heterossexualidade fora de um sistema colonial de g\u00eanero que incide violentamente de modo diferenciado sobre os corpos livres e n\u00e3o livres, colonizadores e colonizados, brancos e n\u00e3o-brancos?\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Conclus\u00f5es: entre concord\u00e2ncias e discord\u00e2ncias\u00a0<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para concluir, podemos dizer que as feministas l\u00e9sbicas, em geral, concordam que a heterossexualidade compuls\u00f3ria sustenta o binarismo hier\u00e1rquico de g\u00eanero, ou seja, a heterossexualidade n\u00e3o faz sentido sem o binarismo de g\u00eanero e o binarismo eclodiria sem a heterossexualidade cuja finalidade \u00e9 vulnerabilizar para explorar corpos femininos. Outro ponto de concord\u00e2ncia \u00e9 que, embora a heterossexualidade seja estrutural e compuls\u00f3ria, a ag\u00eancia humana n\u00e3o \u00e9 absolutamente determinada por ela, sen\u00e3o n\u00e3o existiriam as l\u00e9sbicas, como apontaram Rich e Wittig, nem a incoer\u00eancia interna ou fluidez de g\u00eanero, como argumentou Butler.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A discord\u00e2ncia, por\u00e9m, \u00e9 sobre o que sustenta a diferen\u00e7a sexual hier\u00e1rquica: n\u00e3o \u00e9 simplesmente a restri\u00e7\u00e3o ao binarismo, como parece propor Butler, mas a explora\u00e7\u00e3o das mulheres em benef\u00edcio dos homens e do lucro capitalista, como propuseram as feministas materialistas l\u00e9sbicas. Outra discord\u00e2ncia tamb\u00e9m significativa \u00e9 que a heterossexualiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser entendida para as mulheres em termos homog\u00eaneos e universais, como parecem fazer as feministas l\u00e9sbicas brancas, mas com a devida diferencia\u00e7\u00e3o racial; do contr\u00e1rio, se ocultaria a opress\u00e3o racial presente na constitui\u00e7\u00e3o de g\u00eanero que perdura sob a forma da colonialidade de g\u00eanero, como nos mostrou Lugones.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Diante dessas reflex\u00f5es trazidas pelo feminismo l\u00e9sbico e decolonial, pensar o g\u00eanero por ele mesmo ou isolado n\u00e3o faz nenhum sentido. A constitui\u00e7\u00e3o de g\u00eanero se faz num regime heterossexual e colonial desde a modernidade at\u00e9 a atualidade. Nesse sentido, o g\u00eanero \u00e9 uma categoria atravessada pela sexualidade e pela ra\u00e7a, ou seja, h\u00e1 uma imbrica\u00e7\u00e3o entre g\u00eanero, sexualidade e ra\u00e7a que n\u00e3o pode mais ser ignorada se quisermos pensar tanto na opress\u00e3o, como nas possibilidades de resist\u00eancia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/b><\/p>\n<p><b>Principal<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Butler, J. (1987). Varia\u00e7\u00f5es sobre sexo e g\u00eanero: Beauvoir, Wittig e Foucault. In Cornell, D. &amp; Benhabib, S. (coords.). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Feminismo como cr\u00edtica da modernidade<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (pp. 139-154). Tradu\u00e7\u00e3o de Mariuccia Giacomini. Rio de Janeiro: Ed. Rosa dos Tempos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Butler, J. (1999). 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(2007). Heterosexualism and the colonial\/modern gender system. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Hypatia, vol. 22<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1), winter, pp. 186-209.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Lugones, M. (2014). Rumo a um feminismo descolonial. Tradu\u00e7\u00e3o de Juliana de Faria e Claudia de Lima Costa.\u00a0 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Revista Estudos Feministas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">vol. 22<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (3), set.-dez., pp. 935-952.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Lugones, M. (2020). Colonialidade e g\u00eanero. In Hollanda, H. B. de (org.). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Pensamento feminista hoje: perspectivas decoloniais <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(pp. 52-83). Tradu\u00e7\u00e3o de Jamille Pinheiro Dias. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Lugones, Mar\u00eda. (2021). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Peregrinajes: Teorizar una coalici\u00f3n contra m\u00faltiples opresiones<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Buenos Aires: Ediciones del Signo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Rich, Adrienne. (2010). Heterossexualidade compuls\u00f3ria e exist\u00eancia l\u00e9sbica. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Bagoas: estudos gays, g\u00eaneros e sexualidades<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">vol. 4<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (5), jan.\/jun., pp. 17-44. Tradu\u00e7\u00e3o de Arlindo Rebechi Junior. Recuperado de:<\/span><a href=\"https:\/\/periodicos.ufrn.br\/bagoas\/article\/view\/2309\"><span style=\"font-weight: 400\"> https:\/\/periodicos.ufrn.br\/bagoas\/article\/view\/2309<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Wittig, Monique. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O pensamento heterossexual.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Tradu\u00e7\u00e3o de \u00c9rica de Lima e Felipe Victor. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2022.<\/span><\/p>\n<p><b>Complementar<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Aggio, J. (2024). Revisitando o conceito de g\u00eanero pelo vi\u00e9s da heteronormatividade: a marca incontorn\u00e1vel do feminismo l\u00e9sbico. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Revista de Filosofia Aurora<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">vol. 31<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, pp. 1-15. Recuperado de <\/span><a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/2965-1557.036.e202431354\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/doi.org\/10.1590\/2965-1557.036.e202431354<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Aggio, J. (2025). Colonialidade do poder e colonialidade de g\u00eanero: um di\u00e1logo entre Mar\u00eda Lugones e An\u00edbal Quijano. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Revista N\u00d3S, n. 2,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> pp. 24-40. Recuperado de <\/span><a href=\"https:\/\/revistanos.org\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/colonialidade-do-poder-e-colonialidade-de-genero_julianaaggio.pdf?utm_source=chatgpt.com\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/revistanos.org\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/colonialidade-do-poder-e-colonialidade-de-genero_julianaaggio.pdf?utm_source=chatgpt.com<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Carneiro, S. (2019). Enegrecer o feminismo: a situa\u00e7\u00e3o da mulher negra na Am\u00e9rica Latina a partir de uma perspectiva de g\u00eanero. In: Hollanda, H. B. de (org.), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Pensamento feminista: conceitos fundamentais<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (pp. 313-322). Rio de Janeiro: Bazar do Tempo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Curiel, O. (2020). Construindo metodologias feministas a partir do feminismo decolonial. In: Hollanda, H. 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Recuperado de <\/span><a href=\"https:\/\/biblioteca-repositorio.clacso.edu.ar\/bitstream\/CLACSO\/14350\/1\/5_Dussel.pdf\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/biblioteca-repositorio.clacso.edu.ar\/bitstream\/CLACSO\/14350\/1\/5_Dussel.pdf<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Falquet, J. (2012). Romper o tabu da heterossexualidade: contribui\u00e7\u00f5es da lesbianidade como movimento social e teoria pol\u00edtica. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Cadernos de Cr\u00edtica Feminista<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">ano VI<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (5), dez., pp. 8-31. Recuperado de <\/span><a href=\"https:\/\/julesfalquet.wordpress.com\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/art-port-romper-o-tabu-da-heterosexualidade.pdf\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/julesfalquet.wordpress.com\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/art-port-romper-o-tabu-da-heterosexualidade.pdf<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Foucault, M. (2007). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Hist\u00f3ria da sexualidade I: A vontade de saber<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Tradu\u00e7\u00e3o de Maria Albuquerque. Rio de Janeiro: Graal.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Furies Collective. (1975). Introduction. In N. Myron &amp; C. Bunch (Eds.), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Lesbianism and the women\u2019s movement<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (pp. 9\u201313). 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