{"id":3156,"date":"2026-09-28T12:06:13","date_gmt":"2026-09-28T15:06:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/?page_id=3156"},"modified":"2026-09-30T12:11:04","modified_gmt":"2026-09-30T15:11:04","slug":"susan-buck-morss","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/susan-buck-morss\/","title":{"rendered":"Susan Buck-Morss"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><b>Susan Buck-Morss<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><span style=\"font-weight: 400\">(1942-)\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">Juliana de Moraes Monteiro,\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-weight: 400\">Professora assistente no Departamento de Teoria do Teatro da Universidade\u00a0 Federal do Estado do Rio de Janeiro<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/4226265449559821\"><span style=\"font-weight: 400\">Lattes<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2026\/09\/PDF-Susan-Buck-Morss.pdf\">PDF &#8211; Susan Buck-Morss<\/a><\/p>\n<figure id=\"attachment_3158\" aria-describedby=\"caption-attachment-3158\" style=\"width: 282px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-3158\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2026\/09\/unnamed-282x300.jpg\" alt=\"\" width=\"282\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2026\/09\/unnamed-282x300.jpg 282w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2026\/09\/unnamed-768x816.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2026\/09\/unnamed-500x531.jpg 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2026\/09\/unnamed-800x850.jpg 800w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2026\/09\/unnamed.jpg 893w\" sizes=\"(max-width: 282px) 100vw, 282px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3158\" class=\"wp-caption-text\">Fonte: CUNY Graduate Center, NY.<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>VIDA\u00a0\u00a0<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Susan Felmly Buck nasceu em 8 de agosto de 1942, nos Estados Unidos. Em 1972, casou-se\u00a0 com Elliott Reed Morss, do qual se divorciou cinco anos depois, tendo adotado e optado por manter\u00a0 seu sobrenome, que j\u00e1 a identificava em sua carreira acad\u00eamica. Buck-Morss fez sua forma\u00e7\u00e3o\u00a0 escolar ao longo de 13 anos em uma institui\u00e7\u00e3o tradicional de Nova Jersey chamada St. John\u2019s School, que foi dirigida por Theresa L. Wilson, vi\u00fava do fundador. Este local de ensino caracterizava-se por ter turmas reduzidas, conduzidas majoritariamente por professoras com forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria, o que foi considerada como uma das marcas distintivas da escola, rebatizada como Wilson School.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Buck-Morss graduou-se em Hist\u00f3ria Intelectual Europeia pelo Vassar College e,\u00a0 posteriormente, fez mestrado em Hist\u00f3ria pela Universidade de Yale, onde estudou Hist\u00f3ria dos\u00a0 Estados Unidos. Entre 1968 e 1969, foi contemplada com uma bolsa Fulbright\u2013DAAD, que lhe\u00a0 permitiu realizar um interc\u00e2mbio de um ano em T\u00fcbingen, na Alemanha, antes de ingressar no\u00a0 doutorado, desenvolvido na Universidade de Georgetown. Seu orientador foi o historiador de\u00a0 origem palestina Hisham Sharabi.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em 1971, retornou \u00e0 Alemanha para desenvolver a pesquisa de sua tese de doutorado, intitulada <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Origin of Negative Dialectics: Theodor W. Adorno, Walter Benjamin, and the Frankfurt Institute <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">[A origem da Dial\u00e9tica Negativa: Theodor W. Adorno, Walter Benjamin e a Escola de Frankfurt],<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">e posteriormente publicada em livro em 1977, ainda n\u00e3o traduzido para o portugu\u00eas. No prestigiado Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt, trabalhou com Rolf Tiedemann, diretor dos arquivos de Adorno e Benjamin, e mais tarde editou o volume 20 das <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Gesammelte Schriften <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">[Obras Completas] de Adorno. Nesse per\u00edodo, tamb\u00e9m frequentou a Universidade Goethe de Frankfurt, onde assistiu aos cursos de J\u00fcrgen Habermas, a quem ela expressa admira\u00e7\u00e3o e agradecimento.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em 1978, Buck-Morss ingressou no corpo docente da Universidade Cornell, onde lecionou teoria pol\u00edtica por mais de tr\u00eas d\u00e9cadas no Departamento de Governo, tendo se tornado professora<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">titular em 1990. Na universidade, tamb\u00e9m atuou nos programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Literatura Comparada, Estudos Germ\u00e2nicos, Hist\u00f3ria da Arte, Estudos Rom\u00e2nicos e na Escola de Arte, Arquitetura e Planejamento Urbano. Al\u00e9m disso, exerceu, por um mandato, a dire\u00e7\u00e3o do Programa de Estudos Visuais. Durante esse per\u00edodo, prosseguiu suas pesquisas e atividades de ensino no campo da Teoria Cr\u00edtica da Escola de Frankfurt, publicando, em 1989, uma de suas obras mais influentes, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The Dialectics of Seeing: Walter Benjamin and the Arcades Project <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">[A dial\u00e9tica do olhar: Walter Benjamin e o projeto das Passagens].\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Durante os anos 80, j\u00e1 com sua forma\u00e7\u00e3o consolidada, conheceu o f\u00edsico Eric Dean Siggia, com quem se casou em 1984. At\u00e9 onde constam em fontes p\u00fablicas dispon\u00edveis a respeito da sua vida pessoal, n\u00e3o h\u00e1 qualquer informa\u00e7\u00e3o sobre filhos, deste ou de seu relacionamento anterior. Por conta do trabalho de Siggia, convidado para pesquisar no Instituto Landau de F\u00edsica Te\u00f3rica, realiza, em 1987, sua primeira viagem a Moscou, o que acaba por determinar novos rumos para a sua trajet\u00f3ria. Um dos resultados da parceria de Buck-Morss com fil\u00f3sofos moscovitas \u00e9 seu livro\u00a0 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Dreamworld and Catastrophe: The Passing of Mass Utopia in East and West<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [Mundo de sonho e cat\u00e1strofe: o desaparecimento da utopia de massas na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e nos Estados Unidos], lan\u00e7ado em 2000.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Desde 2010, Buck-Morss \u00e9 Professora Em\u00e9rita do Departamento de Ci\u00eancia Pol\u00edtica da\u00a0 Universidade Cornell, atuando tamb\u00e9m no Centro de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o da Universidade da Cidade de\u00a0 Nova York (CUNY), onde participa do Comit\u00ea sobre Globaliza\u00e7\u00e3o e Mudan\u00e7a Social.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em 2011, recebeu o aclamado Pr\u00eamio Frantz Fanon, concedido pela Associa\u00e7\u00e3o Filos\u00f3fica Caribenha, por seu livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Hegel, Haiti and Universal History <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(2009) [Hegel e o Haiti]. A l\u00e1urea denota reconhecimento ao m\u00e9rito de sua obra para a formula\u00e7\u00e3o do pensamento cr\u00edtico contempor\u00e2neo.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>OBRA\u00a0<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Embora possa ser descrita como uma das principais representantes da Teoria Cr\u00edtica, por\u00a0 conta da contribui\u00e7\u00e3o de seus coment\u00e1rios a respeito de Benjamin e Adorno, notadamente presente nos livros <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A dial\u00e9tica do olhar <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A origem da Dial\u00e9tica Negativa<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, \u00e9 dif\u00edcil circunscrever e reduzir o\u00a0 trabalho filos\u00f3fico de Buck-Morss a um campo espec\u00edfico. Profundamente interessada por\u00a0 quest\u00f5es pol\u00edticas que atravessam desde o marxismo at\u00e9 debates inseridos em estudos p\u00f3s-coloniais ou de g\u00eanero, passando tamb\u00e9m por investiga\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas sobre visualidade e cultura, a autora\u00a0 estadunidense tem como um de seus principais procedimentos metodol\u00f3gicos a capacidade de\u00a0 articula\u00e7\u00e3o por tem\u00e1ticas que parecem refrat\u00e1rias a qualquer tipo de conex\u00e3o, seja porque se\u00a0 encontram apartadas em \u00e1reas disciplinares muito distantes entre si, seja porque dizem respeito a conceitos e categorias que n\u00e3o foram necessariamente trabalhados por determinado autor ou autora\u00a0 que lhe sirvam de refer\u00eancia.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>1. Caminhos indiretos: sobre o m\u00e9todo\u00a0<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">H\u00e1, certamente, diversas formas para abordar uma autora t\u00e3o multifacetada quanto Buck-Morss, sendo a possibilidade mais l\u00f3gica compreend\u00ea-la como um dos principais nomes da Teoria\u00a0 Cr\u00edtica no presente, enquanto herdeira direta das vias abertas pelos fil\u00f3sofos da Escola de Frankfurt, ela mesma tendo trabalhado por alguns anos como pesquisadora no instituto que consagrou\u00a0 gera\u00e7\u00f5es de pensadores ao longo do s\u00e9culo passado.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Todavia, gostaria de apresent\u00e1-la aos leitores por um aspecto distinto, menos enquanto uma\u00a0 especialista no interior de um campo espec\u00edfico e sim como uma fil\u00f3sofa que, talvez mais\u00a0 radicalmente, tenha adquirido um <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">m\u00e9todo <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">benjaminiano \u2014 a partir das formula\u00e7\u00f5es do Pr\u00f3logo\u00a0 Epistemol\u00f3gico-Cr\u00edtico da <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Origem do drama tr\u00e1gico alem\u00e3o \u2014 <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">como meio de elabora\u00e7\u00e3o de suas\u00a0 ideias que, a meu ver, s\u00e3o atravessadas pela\u00a0 concep\u00e7\u00e3o de m\u00e9todo como \u201ccaminho\u00a0 indireto\u201d e da categoria de \u201cconstela\u00e7\u00e3o\u201d que o autor alem\u00e3o fez resplandecer no seio da filosofia\u00a0 alem\u00e3 dos anos 20 do s\u00e9culo passado.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No Pr\u00f3logo da tese de habilita\u00e7\u00e3o, publicada em 1925, Benjamin inaugura uma proposi\u00e7\u00e3o\u00a0 sobre em que consistiria a atividade filos\u00f3fica, concebendo a Filosofia n\u00e3o como o acesso privilegiado \u00e0 Verdade, enquanto Ideia ou Conceito, mas sim como uma exposi\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica determinada por sua pr\u00f3pria forma. Ao anunciar, no bojo desse novo programa, que \u201cm\u00e9todo \u00e9 caminho n\u00e3o direto\u201d (Benjamin, 2011, p. 16), constitui-se uma maneira singular de apresenta\u00e7\u00e3o das ideias de Buck-Morss na medida em que, al\u00e9m dessa desorienta\u00e7\u00e3o espacial implicada na ideia do fazer filos\u00f3fico enquanto um bailado desviante, h\u00e1 tamb\u00e9m uma proposta disruptiva com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 linearidade temporal.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Assim, o pensamento n\u00e3o obedeceria ao curso ininterrupto e cont\u00ednuo do fluxo de ideias, mas se manifestaria, de maneira an\u00e1loga, a uma constela\u00e7\u00e3o. \u201cAs ideias relacionam-se com as coisas como as constela\u00e7\u00f5es com as estrelas\u201d, escreve ele (Benjamin, 2011, p. 22).\u00a0 A imagem de uma constela\u00e7\u00e3o \u00e9 dada a partir de linhas imagin\u00e1rias que, ao conectar pontos\u00a0 da extremidade e manter o centro vazio, apresenta uma estrutura cujos componentes, embora dispersos e temporalmente distantes um do outro, s\u00e3o capazes de produzirem legibilidade. A alegoria benjaminiana intui uma possibilidade de ver como elementos aparentemente isolados e\u00a0 heterog\u00eaneos conseguem ser dotados de signific\u00e2ncia ao serem recolhidos atrav\u00e9s dos movimentos do pr\u00f3prio pensar.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No decorrer do texto, proponho que Buck-Morss assume com rigor uma metodologia desviante e constelar, tensionando tanto a espacialidade quanto a temporalidade dos seus\u00a0 objetos de interesse, no intuito de revirar a coer\u00eancia de certas narrativas, seja por alian\u00e7as tem\u00e1ticas ou por proximidade cronol\u00f3gica, e torn\u00e1-las mais indisciplinadas e menos sujeitas ao conformismo e conex\u00f5es est\u00e9reis em nome de uma suposta adequa\u00e7\u00e3o sem falhas na constru\u00e7\u00e3o do\u00a0 conhecimento. O brilho do arranjo constelar das ideias emanaria das rela\u00e7\u00f5es estabelecidas entre fen\u00f4menos emp\u00edricos situados em diferentes extratos temporais e em lugares n\u00e3o cont\u00edguos. Ambas as perspectivas cr\u00edticas\u00a0 orientam o trabalho de Buck-Morss como um farol.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A dial\u00e9tica do olhar: Walter Benjamin e o projeto das Passagens<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, a pensadora mergulha\u00a0 nos arquivos de Benjamin na Alemanha para apresentar a riqueza de seu procedimento construtivo,\u00a0 onde imagem e texto colidem, fatos do passado encontram eventos do presente, fragmentos s\u00e3o\u00a0 apresentados sem qualquer determina\u00e7\u00e3o pr\u00e9via. A fil\u00f3sofa explicita sua pr\u00f3pria intui\u00e7\u00e3o a respeito da pr\u00e1tica filos\u00f3fica a partir do gesto de lidar com esses cacos estra\u00e7alhados da hist\u00f3ria que a modernidade n\u00e3o cessou de acumular e empilhar:<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><i><span style=\"font-weight: 400\">Espartilhos, espanadores, pentes vermelhos e verdes, fotografias antigas, r\u00e9plicas de lembran\u00e7a da V\u00e9nus de Milo, bot\u00f5es de colarinho de camisas h\u00e1 muito descartadas \u2014 estes sobreviventes hist\u00f3ricos maltratados do alvorecer da cultura industrial, que apareciam juntos nas galerias em decl\u00ednio como \u2018um mundo de afinidades secreta\u2019, eram as ideias filos\u00f3ficas, enquanto uma constela\u00e7\u00e3o de referentes concretos e hist\u00f3ricos.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (Buck-Morss, 1991, p. 4)<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O gesto faz parte do interesse de Buck-Morss em legitimar um tipo de fazer filos\u00f3fico que n\u00e3o se rende \u00e0 objetividade do m\u00e9todo e busca proteg\u00ea-lo da cr\u00edtica \u00e0 n\u00e3o ortodoxia das suas diretrizes.\u00a0 Na se\u00e7\u00e3o \u201cIsso \u00e9 filosofia?\u201d, ela aponta que um dos seus objetivos \u00e9 recontar a montagem\u00a0 dessa obra [<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">As passagens<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">] , caracterizada \u201cpelo estudo minucioso e detalhado de textos do passado, pelo cuidadoso\u00a0 invent\u00e1rio dos fragmentos deles extra\u00eddos e pelo uso planejado desses fragmentos em \u2018constela\u00e7\u00f5es\u2019 deliberadamente constru\u00eddas\u201d, cujos \u201cprocedimentos s\u00f3brios e autorreflexivos\u201d foram exemplares\u00a0 para \u201ctornar vis\u00edvel uma imagem da verdade que as fic\u00e7\u00f5es da historiografia convencional\u00a0 encobriam\u201d. (Buck-Morss, 1991, p. 220)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ao desvelar as vicissitudes desses dispositivos inovadores, ela postula que \u00e9 \u201cnesses\u00a0 extremos aparentemente paradoxais do m\u00e9todo benjaminiano que se encontra a origem de um\u00a0 dilema interpretativo\u201d (Buck-Morss, 1991, p. 222), no qual reside justamente a dificuldade de\u00a0 encaixe do pensador por parte dos estudiosos de sua obra nos meios institucionais a partir dos anos\u00a0 70. N\u00e3o s\u00f3 Buck-Morss \u00e9 uma das autoras que mais obteve sucesso em\u00a0 esclarecer a complexidade deste procedimento, como tamb\u00e9m fez dele o pr\u00f3prio princ\u00edpio organizador da sua reflex\u00e3o, tamb\u00e9m singular, sobre o mundo.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>2. Anest\u00e9tica: novas constela\u00e7\u00f5es\u00a0<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Come\u00e7o por um texto da autora publicado na revista October em 1992, \u201cEst\u00e9tica e\u00a0 anest\u00e9tica: uma reconsidera\u00e7\u00e3o de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A obra de arte <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">de Walter Benjamin\u201d. Sinteticamente, o texto de Benjamin, escrito entre 1935 e 1936, busca compreender as transforma\u00e7\u00f5es no campo da arte e da pol\u00edtica derivadas da reprodutibilidade t\u00e9cnica, uma condi\u00e7\u00e3o moderna advinda das inven\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas que propiciaram o surgimento da fotografia e do cinema. Logo na abertura do ensaio, Benjamin diz que as categorias da Est\u00e9tica tradicional \u2014 criatividade e g\u00eanio, validade\u00a0 eterna e estilo, forma e conte\u00fado \u2014 seriam insuficientes para pensar este novo cen\u00e1rio, uma vez que\u00a0 poderiam ser apreendidas pelos regimes totalit\u00e1rios. Ele almeja, ent\u00e3o, apresentar novos conceitos,\u00a0 que seriam imunes \u00e0s capturas desses sistemas de governo. Vemos aqui a principal oposi\u00e7\u00e3o\u00a0 trabalhada pelo fil\u00f3sofo no texto: contra a estetiza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, inerente ao fascismo, o autor\u00a0 contrap\u00f5e a politiza\u00e7\u00e3o da arte e as\u00a0 \u201cexig\u00eancias revolucion\u00e1rias na pol\u00edtica art\u00edstica\u201d.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O t\u00edtulo do ensaio de Buck-Morss nos conduz a um engano, uma vez que ela n\u00e3o vai\u00a0 simplesmente reconsiderar o texto de Benjamin, mas vai reler a hist\u00f3ria da pr\u00f3pria disciplina\u00a0 Est\u00e9tica, fundada por Alexander Baumgarten no s\u00e9culo XVIII, classificando-a como uma forma de\u00a0 domestica\u00e7\u00e3o dos sentidos do corpo. Em \u201cCoisas indignas para um fil\u00f3sofo: da anest\u00e9tica \u00e0 est\u00e9tica\u00a0 em Susan Buck-Morss\u201d artigo publicado na Revista Viso: Cadernos de Est\u00e9tica Aplicada, trabalhei\u00a0 essa quest\u00e3o da seguinte forma:<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><i><span style=\"font-weight: 400\">\u00c9 essa oposi\u00e7\u00e3o benjaminiana \u2013 estetiza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica X politiza\u00e7\u00e3o da arte \u2013\u00a0 que guia o coment\u00e1rio de Buck-Morss. Ela enfatiza a tese de que a introdu\u00e7\u00e3o da\u00a0 est\u00e9tica na vida pol\u00edtica teria como consequ\u00eancia a aliena\u00e7\u00e3o sensorial. Isso\u00a0 permite que a fil\u00f3sofa repense o estatuto da sensibilidade a partir da\u00a0 modernidade como uma anestesia provocada pela pr\u00f3pria Est\u00e9tica moderna.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (Monteiro, 2025, p. 242) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span><\/i><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">De acordo com ela, a Est\u00e9tica, descrita na <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Aesthetica <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">enquanto \u201cci\u00eancia do conhecimento\u00a0 sens\u00edvel\u201d seria, na verdade, uma \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">a\u00edsthesis <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">anestesiada\u201d, atrofiada pela tentativa filos\u00f3fica de conter o dom\u00ednio da sensibilidade por meio de faculdades intelig\u00edveis e cognitivas. Ao afirmar que n\u00e3o tentar\u00e1 \u201cconduzir os leitores por toda a hist\u00f3ria da metaf\u00edsica ocidental, para demonstrar as permuta\u00e7\u00f5es dessa constela\u00e7\u00e3o em termos de desenvolvimento hist\u00f3rico intr\u00ednseco da filosofia, de uma \u2018vida mental\u2019 descontextualizada\u201d(Buck-Morss, 2012, p. 175), ela ir\u00e1 recuperar \u201csignificado etimol\u00f3gico original da palavra \u2018est\u00e9tica\u2019 (Buck-Morss, 2012, p. 175) para reposicion\u00e1-la em sua \u00edntima proximidade com o corpo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Segundo Buck-Morss, \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">aisthitikos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> \u00e9 a antiga palavra grega que designa o que \u00e9 \u2018percebido pela sensa\u00e7\u00e3o. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Aisthisis<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> \u00e9 a experi\u00eancia sensorial da percep\u00e7\u00e3o. O campo original da est\u00e9tica n\u00e3o \u00e9 a arte, mas a realidade &#8211; a natureza material, corp\u00f3rea\u201d (Buck-Morss, 2012, p. 175). Para ela, o diagn\u00f3stico de Benjamin sobre as rela\u00e7\u00f5es entre\u00a0 t\u00e9cnicas de reprodu\u00e7\u00e3o de imagem na modernidade e dados fascistas deveria ser interpretado da\u00a0 seguinte forma: politizar \u00e9 \u201cdesfazer a aliena\u00e7\u00e3o do sens\u00f3rio corporal, restaurar a for\u00e7a instintiva dos sentidos corporais humanos em prol da autopreserva\u00e7\u00e3o da humanidade\u201d (Buck-Morss, 2012, p. 174).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A fim de produzir interlocu\u00e7\u00f5es para a formula\u00e7\u00e3o de seu conceito <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">anest\u00e9tica, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">o qual permite\u00a0 reinterpretar estetiza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de Benjamin como aliena\u00e7\u00e3o da sensibilidade, condi\u00e7\u00e3o\u00a0 incapacitante do agir pol\u00edtico, Buck-Morss n\u00e3o nos envereda por toda a narrativa metaf\u00edsica que validou os usos da raz\u00e3o em detrimento dos sentidos, mas\u00a0 lan\u00e7a m\u00e3o de um inusitado fato hist\u00f3rico que, sendo concomitante ao nascimento da Est\u00e9tica, permite visualizar o desenho imagin\u00e1rio formado por elementos aparentemente inconcili\u00e1veis que apresentamos tendo em vista o conceito de\u00a0 constela\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Desse modo, ela vislumbra na descoberta da anestesia como t\u00e9cnica cir\u00fargica, de 1846, evento cuja rela\u00e7\u00e3o com o surgimento\u00a0 da Est\u00e9tica seria impens\u00e1vel, uma nova pressuposi\u00e7\u00e3o. Para ela, a Est\u00e9tica emerge como uma tentativa de domesticar os sentidos corporais, na medida em que, por n\u00e3o conseguir mais barrar a esfera da sensibilidade do \u00e2mbito que outorgou para si pr\u00f3prio o acesso privilegiado ao dom\u00ednio da inteligibilidade, foi preciso que, para figurar como leg\u00edtimo objeto filos\u00f3fico, o sens\u00edvel fosse apaziguado e protegido da sua rela\u00e7\u00e3o com \u201co campo dos sentidos animais\u201d (Buck-Morss, 2012, p. 176). Como ela pontua, a <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">aisthesis<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, enquanto experi\u00eancia sensorial, \u00e9\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><i><span style=\"font-weight: 400\">uma forma de cogni\u00e7\u00e3o obtida por meio do paladar, do tato, da audi\u00e7\u00e3o, da vis\u00e3o\u00a0 e do olfato &#8211; de todo o sens\u00f3rio corporal. Os terminais de todos esses sentidos &#8211;\u00a0 nariz, olhos ouvidos, boca e algumas \u00e1reas mais sens\u00edveis da pele &#8211; localizam -se\u00a0 na superf\u00edcie do corpo (\u2026) \u00c9 claro que todos esses sentidos podem ser\u00a0 aculturados &#8211; essa \u00e9 a ideia do interesse filos\u00f3fico pela \u201cest\u00e9tica\u201d na era moderna. Contudo, por mais rigorosamente que se treinem os sentidos (como\u00a0 sensibilidade moral, refinamento do gosto, sensibilidade \u00e0s normas culturais da\u00a0 beleza), tudo isso vem a posteriori. Os sentidos conservam um tra\u00e7o incivilizado e\u00a0 inciviliz\u00e1vel.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (Buck-Morss, 2012, p. 176)\u00a0<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nesse sentido, as articula\u00e7\u00f5es propostas pela autora s\u00f3 podem ser\u00a0 conduzidas a partir de uma metodologia espec\u00edfica que, ao ligar extremidades, permite forjar\u00a0 imagens para um pensamento que opera segundo constela\u00e7\u00f5es de sentido. Ao recontar o percurso que conduziu at\u00e9 a inven\u00e7\u00e3o da anestesia geral e conect\u00e1-la com a publica\u00e7\u00e3o do estudo basilar de Baumgarten, ela reconfigura o passado da filosofia ocidental e assevera que, se\u00a0 o discurso filos\u00f3fico almeja se tornar fundamental para a pr\u00e1xis pol\u00edtica, ser\u00e1 necess\u00e1rio negociar com o corpo, reinvestindo-o enquanto aparato sens\u00f3rio dotado de potencialidades indispens\u00e1veis, e n\u00e3o apenas entendendo-o como um epifen\u00f4meno exterior ao intelecto. Essa voca\u00e7\u00e3o para erguer outras legibilidades a partir de componentes divergentes nos fornece as coordenadas errantes atrav\u00e9s das quais se fundamenta a pesquisa constelar de Susan Buck-Morss.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>3. Uma mulher nas margens\u00a0\u00a0<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Publicado primeiro como artigo \u2014 \u201cHegel e o Haiti\u201d\u2014 na revista Critical Inquiry em 2000,\u00a0 o texto ganhou uma vers\u00e3o expandida intitulada <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Hegel, Haiti and Universal History, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">publicada em\u00a0 2009. Nele, Buck-Morss se debru\u00e7a sobre uma das p\u00e1ginas mais comentadas da filosofia moderna,\u00a0 a c\u00e9lebre dial\u00e9tica do senhor e do escravo que aparece no cap\u00edtulo IV da segunda se\u00e7\u00e3o da\u00a0 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Fenomenologia do esp\u00edrito <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">de G. W. F. Hegel, publicada em 1807.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em leituras contempor\u00e2neas e situadas no interior dos debates propostos pelos estudos p\u00f3s-coloniais, Hegel tornou-se um autor problem\u00e1tico devido \u00e0s declara\u00e7\u00f5es de cunho abertamente racista encontradas em escritos de sua \u00e9poca berlinense. Embora Buck-Morss n\u00e3o se esquive dessa constata\u00e7\u00e3o e observe a devida gravidade desses textos, o desejo de\u00a0 investiga\u00e7\u00e3o de<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> Hegel e o Haiti<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> \u00e9 complexificar outro aspecto da obra hegeliana.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ao optar por reler Hegel, a fil\u00f3sofa estadunidense escapar\u00e1 de duas posi\u00e7\u00f5es antin\u00f4micas\u00a0 para encontrar uma posi\u00e7\u00e3o original no encontro com a <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Fenonomelogia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, engendrando uma\u00a0 sofisticada argumenta\u00e7\u00e3o que foge tanto \u00e0 posi\u00e7\u00e3o mais segura: 1) o discurso universalista de Hegel\u00a0 seria falso e nele n\u00e3o haveria sen\u00e3o um desejo inconfess\u00e1vel de domina\u00e7\u00e3o e repress\u00e3o,\u00a0 corroborando a vis\u00e3o euroc\u00eantrica e racista do autor; quanto a mais distanciada: 2) a escravid\u00e3o abordada por Hegel \u00e9 apenas metaf\u00f3rica, n\u00e3o diz respeito a figuras concretas, salvaguardando Hegel\u00a0 como um fil\u00f3sofo do Esclarecimento alem\u00e3o e que, no m\u00e1ximo, poderia estar escrevendo sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, tal como \u201ch\u00e1 plena concord\u00e2ncia dos especialistas em reconhecer no texto a presen\u00e7a da rebeli\u00e3o dos franceses\u201d (Buck-Morss, 2017, p. 78), e n\u00e3o sobre assuntos coloniais, ou seja, n\u00e3o haveria como pensar em senhores e escravos que respondem a processos sociopol\u00edticos decisivos e factuais.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O m\u00e9todo Buck-Morss abre uma chave de leitura que v\u00ea na teoria do reconhecimento hegeliana uma das entradas do problema da escravid\u00e3o moderna na cena filos\u00f3fica, mas vai fazer isso a partir de fontes documentais que costumam ser deixadas \u00e0 margem por fil\u00f3sofos: a imprensa da \u00e9poca, jornais e revistas que, segundo ela, eram lidos por Hegel, bem como a troca de\u00a0 correspond\u00eancia entre Hegel e demais autores, al\u00e9m de biografias e dados historiogr\u00e1ficos do contexto alem\u00e3o do s\u00e9culo XVIII e XIX:\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><i><span style=\"font-weight: 400\">Ou Hegel era o mais cego de todos os fil\u00f3sofos da liberdade na Europa\u00a0 iluminista, deixando Locke e Rousseau para tr\u00e1s em sua capacidade de negar a realidade debaixo do seu nariz (a realidade impressa debaixo do seu nariz sobre a\u00a0 mesa do caf\u00e9 da manh\u00e3), ou Hegel sabia \u2014 dos escravos reais que foram vitoriosos do senhorio e da servid\u00e3o deliberadamente no \u00e2mbito de seu contexto contempor\u00e2neo.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (Buck-Morss, 2017, p. 78)\u00a0<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ao n\u00e3o hierarquizar esse material em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 letra da <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Fenomenologia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e n\u00e3o invalidar\u00a0 registros cujo estatuto \u00e9 inferiorizado face \u00e0 produ\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, a autora\u00a0 demonstra primeiramente que as informa\u00e7\u00f5es sobre o Haiti \u2014 tais como a quantidade do enorme contingente da massa de rebelados, a influ\u00eancia dos ideais da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa para o levante, a atua\u00e7\u00e3o militar bem-sucedida de Toussaint Louverture na incita\u00e7\u00e3o da revolta e de Jean-Jacques Dessalines, general que efetivamente proclamou a independ\u00eancia da ex-col\u00f4nia ap\u00f3s a pris\u00e3o do primeiro l\u00edder \u2014 circularam intensamente na imprensa europeia e, em segundo lugar, que Hegel era um leitor de jornais e peri\u00f3dicos, acompanhando com bastante interesse o que acontecia no Caribe.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0No cap\u00edtulo quatro do livro, ela critica a \u201cneutralidade moral\u201d como \u201cinerente aos m\u00e9todos disciplinares\u201d (Buck-Morss, 2017, p. 53), que tendem a fazer com que \u201cfatos inc\u00f4modos desapare\u00e7am furtivamente\u201d. Todavia, segundo a pensadora, \u201celes se mant\u00eam vis\u00edveis,\u00a0 contudo, nas hist\u00f3rias gerais da \u00e9poca, nas quais n\u00e3o podem deixar de ser mencionados\u201d (Buck-Morss, 2017, p. 53). Saber e querer ler o mal-estar \u00e9 parte da obra dessa fil\u00f3sofa que se orienta permanentemente por narrar \u201chist\u00f3rias indisciplinadas\u201d (Buck-Morss, 2017, p. 118).\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Baseada na biografia can\u00f4nica do autor, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Georg Wilhelm Friedrich Hegels Leben<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, de Karl\u00a0 Rosenkranz, ela lan\u00e7a sua suspei\u00e7\u00e3o da seguinte maneira:\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><i><span style=\"font-weight: 400\">Ningu\u00e9m ousou sugerir que a ideia para a dial\u00e9tica do senhorio e da escravid\u00e3o\u00a0 pudesse ter ocorrido a Hegel em Jena, entre os anos 1803 e 1805, a partir da leitura da imprensa &#8211; revistas e jornais. Por\u00e9m esse mesmo Hegel, nesse mesmo\u00a0 per\u00edodo de Jena, durante o qual a dial\u00e9tica do senhor e do escravo foi concebida pela primeira vez, fez a seguinte anota\u00e7\u00e3o: Ler o jornal no in\u00edcio da manh\u00e3 \u00e9 uma\u00a0 esp\u00e9cie de prece matinal realista. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(Buck-Morss, 2017, p. 77)\u00a0<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Quais seriam os peri\u00f3dicos lidos por Hegel que oferecem provas contundentes do seu\u00a0 conhecimento a respeito do que acontecia no Haiti? \u201cOs olhos do mundo estavam agora em Saint Domingue\u201d(<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Archenvolz<\/span><\/i> <i><span style=\"font-weight: 400\">apud<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Buck-Morss, 2017, p. 68): dessa forma, iniciava-se o artigo de Johann Wilhelm von Archenvolz, publicado na revista <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Minerva<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> em 1894, no qual narrava sua\u00a0 desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 viabilidade e o logro do processo revolucion\u00e1rio haitiano. Como ela comprova,\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><i><span style=\"font-weight: 400\">por um ano inteiro, do outono de 1804 ao fim de 1805, Minerva publicou uma\u00a0 s\u00e9rie cont\u00ednua, totalizando mais de cem p\u00e1ginas, incluindo fontes documentais, sum\u00e1rios de imprensa e relatos testemunhais, relatando aos leitores n\u00e3o apenas a luta final pela independ\u00eancia dessa col\u00f4nia francesa \u2014 sobre a bandeira de\u00a0 Liberdade ou morte! \u2014 mas tamb\u00e9m os eventos dos dez anos que a precederam.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (Buck-Morss, 2017, p. 69)\u00a0<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ao descortinar uma fortuna cr\u00edtica ainda n\u00e3o mobilizada em rela\u00e7\u00e3o ao tema, ela aponta que\u00a0 \u201cMinerva era o \u2018mais importante peri\u00f3dico pol\u00edtico da virada do s\u00e9culo\u2019\u201d e \u201clido por algumas das\u00a0 pessoas mais influentes na Alemanha\u201d (Buck-Morrs, 2017, p. 72). Ao citar uma carta de Hegel para\u00a0 Schelling, presente em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Hegel: The letters<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, v\u00eam \u00e0 luz, nesses elementos muitas vezes exclu\u00eddos do\u00a0 rigor cient\u00edfico do exerc\u00edcio filos\u00f3fico, os encadeamentos do pensamento da autora, que incorpora e se apropria do material descartado por uma metodologia ortodoxa para encontrar na imprensa e na comunica\u00e7\u00e3o epistolar uma forma leg\u00edtima de filosofar : \u201cDe maneira\u00a0 acidental, falei h\u00e1 alguns dias com o autor das cartas assinadas por \u2018O\u2019 na Minerva de Archenvolz. Sem d\u00favida, voc\u00ea sabe de quais estou falando\u201d, escreve Hegel em dezembro de 1794, aludindo ao conhecimento que tinha da Revolu\u00e7\u00e3o Haitiana.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Assim, a contribui\u00e7\u00e3o te\u00f3rica buckmorrssiana, ao integrar pe\u00e7as normalmente colocadas \u00e0 margem do debate filos\u00f3fico central, enfrenta a dificuldade de estabelecer correspond\u00eancias\u00a0 inauditas entre a <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Fenomenologia do esp\u00edrito <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">e a discuss\u00e3o colonial, n\u00e3o (s\u00f3) no sentido de encontrar\u00a0 em Hegel aquilo que o identifica plenamente como um autor da modernidade euroc\u00eantrica, mas de\u00a0 encontrar na filosofia hegeliana o ponto de desajuste, frente ao qual um Hegel n\u00e3o dialetizado, cujo\u00a0 pensamento \u00e9 isento de contradi\u00e7\u00f5es, seja, na verdade, uma impossibilidade.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Com isso, permitiu desmontar a dicotomia do problema racial\u00a0 \u2014 obra ou autor racista\/n\u00e3o racista \u2014 na filosofia moderna, acolhendo, em um texto que recentemente vem sendo lido criticamente do ponto de vista da condena\u00e7\u00e3o, uma perspectiva original na qual a universalidade pleiteada por Hegel, entendida como limitada a partir do Esclarecimento, movimento de vi\u00e9s inegavelmente colonialista, seja, de fato, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">universal<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, leitura essa que garantiu a ela o prestigiado pr\u00eamio Frantz Fanon, como mencionado anteriormente.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>4. Susan Buck-Morss, uma fil\u00f3sofa indisciplinada\u00a0<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Year 1: a philosophical recounting [Ano 1: uma narrativa filos\u00f3fica]<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, publicado por ela\u00a0 em 2021, h\u00e1 uma forma de resumir como ela estabelece eticamente as bases de uma pr\u00e1tica filos\u00f3fica comprometida politicamente com a tarefa de construir uma filosofia indisciplinada,\u00a0 que n\u00e3o se furta em recolher fragmentos dispersos do nosso passado comum, patrim\u00f4nio que reivindica como algo que se conecta com a hist\u00f3ria universal da humanidade. Ao apresentar suas refer\u00eancias para reconstituir a hist\u00f3ria da disciplina filos\u00f3fica, Buck-Morss diz:\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><i><span style=\"font-weight: 400\">Nossas principais fontes s\u00e3o tr\u00eas autores do s\u00e9culo I que raramente s\u00e3o\u00a0 considerados em conjunto e, na verdade, raramente sequer s\u00e3o inclu\u00eddos nas narrativas historiogr\u00e1ficas convencionais: Fl\u00e1vio Josefo, historiador da Guerra\u00a0 da Judeia; F\u00edlon de Alexandria, fil\u00f3sofo neoplat\u00f4nico; e Jo\u00e3o de Patmos, autor do\u00a0 Apocalipse (Apocalypsis), o \u00faltimo livro da B\u00edblia crist\u00e3. Muitos leitores talvez\u00a0 n\u00e3o estejam familiarizados com nenhum deles, e mesmo aqueles que conhecem\u00a0 um desses autores podem desconhecer os demais. Contudo, quando tomados\u00a0 seriamente em seus pr\u00f3prios termos, esses autores conduzem a dire\u00e7\u00f5es\u00a0 surpreendentes, que contradizem de maneira profunda aquilo que supomos saber, oferecendo chaves para uma reviravolta radical das pressuposi\u00e7\u00f5es\u00a0 epistemol\u00f3gicas de nosso tempo. Quando isso ocorre, torna-se poss\u00edvel uma\u00a0 profus\u00e3o de interconex\u00f5es, \u00e0 medida que personagens separados temporalmente\u00a0 s\u00e3o atra\u00eddos para o v\u00f3rtice de uma reconfigura\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Ant\u00edgona e John\u00a0 Coltrane, Plat\u00e3o e Bulwer-Lytton, Nicolau de Cusa e Zora Neale Hurston, al Farabi e Jean Anouilh surgem nesse cen\u00e1rio, sem mencionar Descartes, Kant,\u00a0 Hegel, Kristeva e Derrida. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(Buck-Morss, 2021, p. 12-13)\u00a0<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Essa miscel\u00e2nea que atrai \u201cpara o v\u00f3rtice de uma reconfigura\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica\u201d obedece a\u00a0 prerrogativa de que \u201ca humanidade global merece uma hist\u00f3ria comum\u201d e que seu livro \u201c\u00e9 uma\u00a0 contribui\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento da mesma\u201d (Buck-Morss, 2021, p. 19), ao arquitetar \u201cnovas\u00a0 constela\u00e7\u00f5es entre passado e presente, nas quais o material \u00e9 libertado das restri\u00e7\u00f5es ordenadoras da\u00a0 modernidade, evidenciando o potencial filos\u00f3fico de uma rela\u00e7\u00e3o transformada com o passado\u201d (Buck-Morss, 2021, p. 19).\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em uma de suas mais afiadas intui\u00e7\u00f5es, ela nos indica que \u201c\u00e9 poss\u00edvel colonizar o tempo tanto quanto o territ\u00f3rio\u201d (Buck-Morss, 2021, p.13). O tempo que \u00e9 colonizado, tal como o espa\u00e7o,\u00a0 precisa ser desapropriado de uma titularidade espec\u00edfica, sem o \u201crecorte vertical\u201d da hist\u00f3ria ou\u00a0 \u201cbandeira de perten\u00e7a nacional ou religiosa\u201d (Buck-Morss, 2021, p. 13). Assim, ela escreve:\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Ao investigar o passado distante, somos estrangeiros que adentram um territ\u00f3rio\u00a0 alheio. Os habitantes desse passado compartilham formas de compreens\u00e3o que\u00a0 nos permanecem inacess\u00edveis sem o trabalho da tradu\u00e7\u00e3o. Ainda que, do ponto de\u00a0 vista lingu\u00edstico, conhe\u00e7amos suas palavras, n\u00e3o podemos presumir direitos de\u00a0 propriedade sobre os significados que elas veiculam. E, mesmo que sejamos\u00a0 capazes de reconstruir o percurso irregular por meio do qual esses significados\u00a0 foram preservados ao longo do tempo e chegaram at\u00e9 n\u00f3s, as leis privatizantes da\u00a0 heran\u00e7a n\u00e3o lhes s\u00e3o aplic\u00e1veis. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(Buck-Morss, 2021, p. 13)<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span><\/i><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Saber trafegar por percursos irregulares foi a escolha que optei para apresentar uma fil\u00f3sofa contempor\u00e2nea incontorn\u00e1vel e que carece de maior amplia\u00e7\u00e3o da sua obra ao p\u00fablico brasileiro. Em 24 de mar\u00e7o de 2022, a pesquisadora brasileira Bruna Della Torre, refer\u00eancia no campo da Teoria Cr\u00edtica, publicou no blog da Editora Boitempo uma entrevista realizada com Buck-Morss, um dos esfor\u00e7os, parte de muitas das iniciativas do M\u00eas das Mulheres, de suprir lacunas da presen\u00e7a feminina no campo da filosofia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">J\u00e1 no t\u00edtulo, anunciava-se esta inten\u00e7\u00e3o ao nomear as \u201cfrankfurtianas\u201d. Em uma de suas\u00a0 perguntas endere\u00e7adas \u00e0 fil\u00f3sofa, ela afirma que a \u201crela\u00e7\u00e3o da Escola de Frankfurt com o feminismo\u00a0 e com as mulheres \u00e9 complicada. As mulheres sempre ocuparam um lugar secund\u00e1rio em seus\u00a0 projetos e n\u00e3o aparecem em muitos dos livros que contam a hist\u00f3ria do Instituto\u201d (Della Torre, 2022, s.p.). Menciona tamb\u00e9m que \u201cpara al\u00e9m da invisibiliza\u00e7\u00e3o do trabalho e da participa\u00e7\u00e3o das\u00a0 mulheres no Instituto, \u00e9 poss\u00edvel dizer que a aus\u00eancia de mulheres teve um custo alto tamb\u00e9m do\u00a0 ponto de vista te\u00f3rico\u201d, deixando claro a limita\u00e7\u00e3o de uma an\u00e1lise quando todo um segmento de\u00a0 pensadoras \u00e9 desqualificado.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">H\u00e1 muitos momentos preciosos na troca do debate e da reflex\u00e3o entre as duas que valeriam\u00a0 serem ressaltados. A respeito do seu\u00a0 m\u00e9todo filos\u00f3fico, ela diz o seguinte:<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><i><span style=\"font-weight: 400\">Sempre foi muito claro para mim que o pensamento centrado no homem distorceu\u00a0 <\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400\">a filosofia. Voc\u00ea n\u00e3o pode pensar com clareza quando a supress\u00e3o de g\u00eanero<\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0 <\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400\">torna seu argumento enviesado. \u00c9 como o pensamento racista, como tentar teorizar sobre o capitalismo sem levar em conta a escravid\u00e3o<\/span><\/i> <i><span style=\"font-weight: 400\">nas plantations como sua pedra de toque. Voc\u00ea vai errar a teoria. A teoria cr\u00edtica n\u00e3o pode funcionar hoje se n\u00e3o reconhecer isso. Ent\u00e3o, em certo sentido, tudo que escrevi \u00e9 feminista e marxista. Eu tamb\u00e9m gostaria de ressaltar que meu <\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400\">trabalho sempre foi mais profundamente influenciado por Walter Benjamin, uma <\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400\">fi<\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400\">gura marginal no Instituto de Pesquisa Social. Benjamin pode n\u00e3o ter encampado o feminismo como uma posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e pode ser que tenha sido <\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400\">menos marxista do que a forma como o interpretei, mas seu m\u00e9todo \u00e9 n\u00e3o autorit\u00e1rio, n\u00e3o-masculinista e n\u00e3o-dogm\u00e1tico de uma forma \u00fanica. Isso deixa o <\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400\">p<\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400\">ensamento vulner\u00e1vel, aberto ao uso compartilhado e \u00e0 apropria\u00e7\u00e3o criativa. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(Buck-Morss apud Della Torre, 2022, s. p.)<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span><\/i><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nesse momento, espero que se esclare\u00e7a a op\u00e7\u00e3o de introduzir Buck-Morss a partir da ades\u00e3o original a uma metodologia n\u00e3o-autorit\u00e1ria, n\u00e3o-masculinista e n\u00e3o dogm\u00e1tica, capaz de produzir imagens constelares a fim de \u201cnos libertar das disciplinas estabelecidas, passadas a n\u00f3s pelos vencedores da hist\u00f3ria, que est\u00e3o em conson\u00e2ncia com o mau estado das coisas\u201d (Buck-Morss <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">apud <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Della Torre, 2022, s.p.).\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em um ensaio intitulado \u201cO presente do passado\u201d, a autora deixa entrever como seu particular interesse filos\u00f3fico nunca se afastou da real e concreta materialidade dos acontecimentos da hist\u00f3ria, deixando na opacidade se ela faz Hist\u00f3ria da Filosofia ou Filosofia da Hist\u00f3ria e para cuja d\u00favida espero que os leitores que a acompanharam at\u00e9 aqui compreendam que a sua indisciplina diz respeito a operar precisamente nos espa\u00e7os lim\u00edtrofes\u00a0 e fronteiri\u00e7os das imagens do pensamento que, tal como as narrativas hist\u00f3ricas, s\u00e3o compostas por camadas. Como ela salienta, \u201cas camadas n\u00e3o est\u00e3o empilhadas em ordem\u201d (Buck-Morss, 2018, p.\u00a0 5). Ela conclui este escrito da seguinte forma:\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><i><span style=\"font-weight: 400\">O passado ricocheteia no presente e se espalha em territ\u00f3rio inimigo. Os\u00a0 f<\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400\">ragmentos hist\u00f3ricos s\u00e3o o resto de uma explos\u00e3o. Liberados pela explos\u00e3o da<\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0 <\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400\">mem\u00f3ria oficial, os fragmentos da hist\u00f3ria s\u00e3o preservados em imagens. Eles <\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400\">ret\u00eam a proximidade da experi\u00eancia original e, com ela, a ambiguidade. Seu <\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400\">significado \u00e9 liberado somente em uma constela\u00e7\u00e3o com o presente. Eles trazem <\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400\">guardado um aviso de perigo. O presente do passado \u00e9 um cavalo de Tr\u00f3ia. A <\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400\">gente acha que sabe de onde ele vem e a quem pertence. Mas a d\u00e1diva \u00e9 para <\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400\">outros, aqueles que os assim chamados herdeiros leg\u00edtimos est\u00e3o destruindo no <\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0p<\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400\">resente. N\u00e3o h\u00e1 nada na hist\u00f3ria humana que nos seja alheio. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(Buck-Morss, 2018,<\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0 p. 28)\u00a0<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>REFER\u00caNCIAS<\/b><\/p>\n<ol>\n<li><b> Obras mais relevantes e as tradu\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis<\/b><\/li>\n<\/ol>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Buck-Morss, S. (1977). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The origin of negative dialectics: Theodor W. Adorno, Walter Benjamin, and the Frankfurt Institute<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [A origem da Dial\u00e9tica Negativa: Theodor W. Adorno, Walter Benjamin e a Escola de Frankfurt]. Nova York: The Free Press.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Buck-Morss, S. (1986). The flaneur, the sandwichman and the whore: the politics of loitering [O fl\u00e2neur, o homem-sandu\u00edche e a prostituta: a pol\u00edtica da vadiagem]. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">New German Critique<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, (39), pp. 99\u2013140.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Buck-Morss, S. (1991). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">The dialectics of seeing: Walter Benjamin and the Arcades Project<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [A dial\u00e9tica do olhar: Walter Benjamin e o projeto das Passagens]. Massachusetts: MIT Press.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Buck-Morss, S. (2000). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Dreamworld and catastrophe: the passing of mass utopia in East and West<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [Mundo de sonho e cat\u00e1strofe: o desaparecimento das utopias de massas na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e nos Estados Unidos]. Tradu\u00e7\u00e3o de Ana Luiza Andrade, Rodrigo Lopes de Barros &amp; Ana Carolina Cernicchiaro. Massachusetts: MIT Press. [Tradu\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas: Santa Catarina: Editora UFSC, 2018].<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Buck-Morss, S. (2002). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Thinking past terror: Islamism and critical theory on the Left<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [Pensando al\u00e9m do terror: islamismo e teoria cr\u00edtica na esquerda]. Londres: Verso.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Buck-Morss, S. (2009). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Hegel, Haiti, and universal history<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [Hegel e o Haiti]. Tradu\u00e7\u00e3o de Sebasti\u00e3o Nascimento. Pittsburgh: University of Pittsburgh. [Tradu\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas: S\u00e3o Paulo: n-1edi\u00e7\u00f5es, 2017].<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Buck-Morss, S. (2009). A tela como pr\u00f3tese de percep\u00e7\u00e3o. Tradu\u00e7\u00e3o de Ana Lu\u00edza Andrade. Florian\u00f3polis: Cultura e Barb\u00e1rie.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Buck-Morss, S. (2012). Est\u00e9tica e anest\u00e9tica: uma reconsidera\u00e7\u00e3o de A obra de arte de Walter Benjamin. In Capistrano, T. (org.), <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Benjamin e a obra de arte: t\u00e9cnica, imagem, percep\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Tradu\u00e7\u00e3o de Marijane Lisboa. Rio de Janeiro: Contraponto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Buck-Morss, S. (2014). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Walter Benjamin, escritor revolucionario<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [Walter Benjamin, escritor revolucion\u00e1rio]. Ciudad Aut\u00f3noma de Buenos Aires: la marca editora.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Buck-Morss, S. (2018). O presente do passado. Tradu\u00e7\u00e3o de Ana Luiza Andrade &amp; Adriana Varandas. Florian\u00f3polis: Cultura e Barb\u00e1rie.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Buck-Morss, S. (2019). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Revolution today<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [Revolu\u00e7\u00e3o hoje]. Chicago: Haymarket Books.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Buck-Morss, S. (2021). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Year one: a philosophical recounting<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> [Ano um: uma narrativa filos\u00f3fica]. Massachusetts: MIT Press.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><b> Literatura secund\u00e1ria<\/b><\/li>\n<\/ol>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mickus, R. Z. (2025). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A constela\u00e7\u00e3o anest\u00e9tica da moderniza\u00e7\u00e3o capitalista em Susan Buck Morss<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (Disserta\u00e7\u00e3o de mestrado). Universidade Federal do Paran\u00e1, Curitiba. Recuperado de: https:\/\/hdl.handle.net\/1884\/96799. Acesso em: 21 jul. 2026.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Monteiro, J. M. (2025). Coisas indignas para um fil\u00f3sofo: da anest\u00e9tica \u00e0 est\u00e9tica em Susan Buck Morss. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Viso: Cadernos de Est\u00e9tica Aplicada<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, 19 (36), pp. 224-253.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><b> Outros materiais e fontes<\/b><\/li>\n<\/ol>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Benjamin, W. (1994). A obra de arte na era de sua reprodutibilidade t\u00e9cnica. In Benjamin, W., <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Magia e t\u00e9cnica, arte e pol\u00edtica: ensaios sobre literatura e hist\u00f3ria da cultura<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Tradu\u00e7\u00e3o de S\u00e9rgio Paulo Rouanet. S\u00e3o Paulo: Brasiliense.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Benjamin, W. (2018). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Passagens<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Organiza\u00e7\u00e3o de Willi Bolle &amp; Olg\u00e1ria F\u00e9res Matos. Tradu\u00e7\u00e3o de Irene Aron &amp; Cleonice Paes Barreto Mour\u00e3o. Belo Horizonte: Editora UFMG.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Buck-Morss, S. (s.d.). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Site da fil\u00f3sofa com informa\u00e7\u00f5es e textos em ingl\u00eas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Recuperado de: https:\/\/www.susanbuckmorss.info\/. Acesso em: 21 jul. 2026.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Della Torre, B. (2022). As frankfurtianas: a cr\u00edtica imanente continua sendo uma ferramenta anal\u00edtica inestim\u00e1vel [Entrevista concedida a S. Buck-Morss]. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Blog da Boitempo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Recuperado de: https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2022\/03\/24\/as-frankfurtianas-a-critica-imanente-continua-sendo-uma-ferramenta-analitica-inestimavel-entrevista-com-susan-buck-morss\/. Acesso em: 21 jul. 2026.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Hegel, G. W. F. (2014). <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Fenomenologia do esp\u00edrito<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Tradu\u00e7\u00e3o de Paulo Meneses, Karl-Heinz Efken &amp; Jos\u00e9 Nogueira Machado. Petr\u00f3polis: Vozes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Kester, G. (1997). Est\u00e9tica depois do fim da arte [Entrevista concedida a S. Buck-Morss]. Tradu\u00e7\u00e3o de Adele Motta. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Art Journal<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, 56 (1), pp. 38-45. Recuperado de: https:\/\/dazibao.cc\/textos\/estetica-depois-do-fim-da-arte-uma-entrevista-com-susan-buck-morss\/. 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