{"id":358,"date":"2020-02-28T15:47:31","date_gmt":"2020-02-28T18:47:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/?page_id=358"},"modified":"2022-04-26T18:23:35","modified_gmt":"2022-04-26T21:23:35","slug":"genero","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/genero\/","title":{"rendered":"G\u00eanero"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-family: Helvetica\"><b>Por Heloisa Buarque de Almeida<\/b>&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Professora do Departamento de Antropologia da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) &#8211;&nbsp;<\/span><span style=\"font-family: Helvetica\"><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/6266708108766748\">Lattes<\/a><\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2020\/03\/PDF-G\u00eanero.pdf\">PDF &#8211; G\u00eanero<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-family: Helvetica\"><i>G\u00eanero \u00e9 um conceito desenvolvido para contestar a naturaliza\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a sexual em m\u00faltiplas arenas de luta.<\/i>&nbsp;<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-family: Helvetica\">(Haraway, 2011, p. 211)&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">G\u00eanero tornou-se&nbsp;um conceito muito usado nas ci\u00eancias humanas, marcadamente desde a \u00faltima d\u00e9cada do s\u00e9culo XX.&nbsp;Este&nbsp;conceito derivou do esfor\u00e7o de&nbsp;<i>desnaturalizar<\/i>&nbsp;a compreens\u00e3o da vida social, ideia muito cara&nbsp;\u00e0s ci\u00eancias humanas, particularmente \u00e0 antropologia e \u00e0 hist\u00f3ria, em di\u00e1logo com as teorias feministas que discutiam o processo de \u201cse tornar\u201d uma mulher.&nbsp;Segundo o esfor\u00e7o de revis\u00e3o feito pela bi\u00f3loga Donna&nbsp;Haraway&nbsp;em \u201cG\u00eanero para um dicion\u00e1rio marxista\u201d, a&nbsp;frase mais lembrada do livro de Simone de Beauvoir,&nbsp;<i>O Segundo Sexo<\/i>,&nbsp;\u201cn\u00e3o se nasce, mas torna-se mulher\u201d,&nbsp;remete a uma ideia fundamental do conceito:&nbsp;n\u00e3o \u00e9 a biologia&nbsp;e nem&nbsp;o corpo, mas a vida social e a experi\u00eancia&nbsp;individual moldada pelo contexto&nbsp;que constitui o ser mulher.&nbsp;<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_423\" aria-describedby=\"caption-attachment-423\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-423 size-medium\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2020\/03\/blog-300x200.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2020\/03\/blog-300x200.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2020\/03\/blog.png 438w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-423\" class=\"wp-caption-text\">Madame Sat\u00e3, Ilustra\u00e7\u00e3o de Lucas Melo (@d1ficio)<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Neste&nbsp;verbete, busco retomar uma trajet\u00f3ria de teorias sociais para discutir o que \u00e9 g\u00eanero, ou seja, trago uma vis\u00e3o parcial da hist\u00f3ria deste conceito, que permite compreender do que estamos falando, quando falamos \u201cg\u00eanero\u201d.&nbsp;Trata-se de um conceito que atravessa v\u00e1rias disciplinas, mas certamente terei um vi\u00e9s antropol\u00f3gico aqui, considerando a minha forma\u00e7\u00e3o&nbsp;e o limite do espa\u00e7o.&nbsp;Por outro lado, minha escolha vai na vertente dos estudos anglo-estadunidenses, mas veremos que alguns&nbsp;autores franceses ser\u00e3o parte deste trajeto.&nbsp;\u00c9&nbsp;preciso ter em mente que esse conceito existe num forte di\u00e1logo entre&nbsp;a&nbsp;filosofia e&nbsp;as&nbsp;ci\u00eancias humanas,&nbsp;envolvendo&nbsp;tamb\u00e9m&nbsp;a psicologia,&nbsp;semi\u00f3tica e lingu\u00edstica.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Neste texto, retomo uma leitura do conceito de g\u00eanero em dois momentos; primeiro, aquele em que o termo g\u00eanero surge a partir da distin\u00e7\u00e3o entre natureza e cultura, ou seja, o sexo seria uma base biol\u00f3gica a partir da qual as diferentes culturas\/\u00e9pocas&nbsp;elaborariam o que elas consideram feminino ou masculino, e consequentemente as categorias de homem e de mulher (que variam cultural e historicamente, sendo a base universal o dimorfismo sexual dos corpos).&nbsp;Tal sugest\u00e3o&nbsp;\u00e9 marcante na bibliografia dos anos 1970-80.&nbsp;Num segundo momento, a partir da revis\u00e3o da pr\u00f3pria categoria natureza, a teoria de g\u00eanero vai&nbsp;deslocar&nbsp;a base biol\u00f3gica&nbsp;de sua aparente substancialidade, ou seja,&nbsp;o dimorfismo sexual.&nbsp;Veremos que desde sempre o sexo j\u00e1 \u00e9 g\u00eanero,&nbsp;nesta concep\u00e7\u00e3o&nbsp;butleriana&nbsp;do termo,&nbsp;considerando que a suposta base natural sempre foi um construto do pr\u00f3prio saber ocidental. Numa certa medida,&nbsp;a no\u00e7\u00e3o de natureza, uma inven\u00e7\u00e3o do iluminismo, sup\u00f4s que o corpo marcado pela genit\u00e1lia seria um substrato do g\u00eanero, mas este substrato e&nbsp;seu suposto binarismo&nbsp;foram&nbsp;questionados nos anos 1990.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\" data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559740&quot;:276}\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\"><b>Precursores: desnaturalizar o pensamento<\/b>&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Pode-se&nbsp;remeter a trabalhos pioneiros&nbsp;\u2013&nbsp;anteriores&nbsp;ao uso do&nbsp;termo g\u00eanero&nbsp;\u2013&nbsp;que&nbsp;discutiam&nbsp;como&nbsp;a diferen\u00e7a sexual era&nbsp;culturalmente produzida&nbsp;de modos diversos em sociedades distintas. O&nbsp;cl\u00e1ssico trabalho de Margaret&nbsp;Mead&nbsp;em&nbsp;\u201cSexo e Temperamento\u201d&nbsp;que compara etnografias&nbsp;de&nbsp;tr\u00eas culturas na Nova Guin\u00e9, nos anos 1930, foi pioneiro em demonstrar que&nbsp;temperamentos associados a&nbsp;mulheres&nbsp;e&nbsp;homens&nbsp;eram&nbsp;constitu\u00eddos&nbsp;de modos&nbsp;diversos nas culturas&nbsp;Arapesh,&nbsp;Mundugumor&nbsp;e&nbsp;Tchambuli. Duas dessas culturas n\u00e3o imaginavam homens e mulheres com temperamentos distintos, os&nbsp;Arapesh&nbsp;valorizavam um temperamento&nbsp;afetivo, gentil&nbsp;e colaborativo, ao passo que&nbsp;os&nbsp;Mundugumor&nbsp;valorizavam&nbsp;os&nbsp;competitivos e agressivos&nbsp;\u2013 mas nestas&nbsp;sociedades&nbsp;esse temperamento era&nbsp;culturalmente aprendido&nbsp;tanto para pessoas do sexo feminino como masculino. Entre os&nbsp;Tchambuli, haveria uma esp\u00e9cie de invers\u00e3o daquilo que era visto como \u201cnatural\u201d na sociedade&nbsp;estadunidense de sua \u00e9poca: os homens eram afetivos, as mulheres competitivas e mais agressivas. Com esta compara\u00e7\u00e3o,&nbsp;Mead&nbsp;buscou rebater o&nbsp;essencialismo&nbsp;de senso comum que prevalecia nos Estados Unidos:&nbsp;de que as mulheres seriam&nbsp;<i>naturalmente<\/i>&nbsp;mais aptas a cuidar de crian\u00e7as, por exemplo.&nbsp;Nos termos&nbsp;do&nbsp;culturalismo de sua \u00e9poca,&nbsp;Mead&nbsp;afirmava que&nbsp;a&nbsp;cultura&nbsp;<i>moldava<\/i>&nbsp;os temperamentos, as personalidades, concluindo que n\u00e3o era a base biol\u00f3gica&nbsp;\u2013&nbsp;o corpo, nem&nbsp;uma parte dele, como&nbsp;os horm\u00f4nios&nbsp;\u2013&nbsp;que explicaria as personalidades de homens e mulheres&nbsp;em&nbsp;diferentes culturas: o&nbsp;fator&nbsp;determinante seria o aprendizado cultural.&nbsp;&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Ideia semelhante&nbsp;questionando os limites da&nbsp;biologia aparece na&nbsp;no\u00e7\u00e3o de Marcel&nbsp;Mauss&nbsp;(em \u201cAs t\u00e9cnicas do corpo\u201d de 1934)&nbsp;de que o corpo seria socialmente&nbsp;educado e treinado,&nbsp;mesmo&nbsp;em&nbsp;pr\u00e1ticas&nbsp;nas quais n\u00e3o percebemos esse treinamento,&nbsp;como&nbsp;os atos de&nbsp;caminhar,&nbsp;comer,&nbsp;dormir, ou nas pr\u00e1ticas sexuais&nbsp;(ver&nbsp;Mauss, 2017). Essa limita\u00e7\u00e3o da natureza ou biologia&nbsp;constitui o cerne de outras vertentes te\u00f3ricas&nbsp;s\u00f3cio-antropol\u00f3gicas&nbsp;que tamb\u00e9m remetem \u00e0 ideia de&nbsp;que a diferen\u00e7a sexual n\u00e3o \u00e9 um&nbsp;simples efeito da natureza do corpo, mas sofre uma s\u00e9rie de interven\u00e7\u00f5es sociais e culturais que moldam o corpo.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Por tr\u00e1s de alguns&nbsp;desses&nbsp;trabalhos, h\u00e1&nbsp;um fundo l\u00f3gico&nbsp;calcado na oposi\u00e7\u00e3o&nbsp;entre&nbsp;natureza&nbsp;e&nbsp;cultura, como&nbsp;explorada&nbsp;no trabalho de&nbsp;Claude&nbsp;L\u00e9vi-Strauss&nbsp;em&nbsp;\u201cEstruturas&nbsp;Elementares&nbsp;do Parentesco\u201d, publicado&nbsp;originalmente&nbsp;em&nbsp;1949.&nbsp;L\u00e9vi-Strauss abre o&nbsp;livro colocando um problema de ordem filos\u00f3fica:&nbsp;como elaborar conceitualmente&nbsp;a distin\u00e7\u00e3o&nbsp;entre natureza e cultura. E o faz atrav\u00e9s do estudo do parentesco,&nbsp;propondo um modelo em que a sociedade \u00e9 fundada pela troca (de mulheres, de bens e de mensagens).&nbsp;Na ideia de que o que \u00e9 universal no ser humano \u00e9 da ordem da natureza, e o particular,&nbsp;as regras que&nbsp;variam&nbsp;em cada sociedade, \u00e9 da ordem da cultura, o tabu do incesto \u00e9 definido como fundante da cultura: universal na humanidade, na medida em que todas as&nbsp;sociedades&nbsp;t\u00eam&nbsp;normas de proibi\u00e7\u00e3o do&nbsp;casamento com pessoas que s\u00e3o classificadas como aparentadas; particular na medida em que o que \u00e9 visto como parente pr\u00f3ximo \u2013 e proibido \u2013 varia muito pelo modo como cada cultura classifica o parentesco.&nbsp;L\u00e9vi-Strauss considera que, por ser a \u00fanica regra universal, o tabu do incesto institui a cultura ao produzir a troca de mulheres \u2013 seus exemplos remetem \u00e0 ideia de que um homem n\u00e3o pode nem casar com sua filha, nem permitir que os irm\u00e3os se casem; de que ela deve ser dada em casamento a outra fam\u00edlia, o que garantir\u00e1 tamb\u00e9m ao seu irm\u00e3o receber uma mulher de outro grupo. Sendo assim, essa \u00e9 a troca mais fundamental da vida social.&nbsp;&nbsp;A proibi\u00e7\u00e3o do incesto&nbsp;\u2013 que interdita rela\u00e7\u00f5es com algumas mulheres&nbsp;\u2013&nbsp;no limite produziria as rela\u00e7\u00f5es sociais.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Esta&nbsp;oposi\u00e7\u00e3o&nbsp;est\u00e1 por tr\u00e1s do ensaio de&nbsp;Gayle&nbsp;Rubin&nbsp;considerado&nbsp;como fundante do uso do termo&nbsp;<i>g\u00eanero<\/i>&nbsp;nas ci\u00eancias humanas, \u201cO Tr\u00e1fico de mulheres\u201d.&nbsp;Neste texto, publicado pela primeira vez em 1973,&nbsp;Rubin prop\u00f5e-se responder em termos de uma revis\u00e3o te\u00f3rica das ci\u00eancias sociais uma pergunta muito comum \u00e0 antropologia de sua \u00e9poca: em que medida a opress\u00e3o das mulheres nas sociedades ocidentais, como tinha sido denunciada pelos movimentos feministas dos anos 1960, poderia ser vista como uma desigualdade&nbsp;universal.&nbsp;Retomando assim a pretens\u00e3o&nbsp;universalizante&nbsp;da antropologia&nbsp;estruturalista de L\u00e9vi-Strauss,&nbsp;Gayle&nbsp;Rubin retoma o racioc\u00ednio de autores cl\u00e1ssicos para se perguntar: se a desigualdade n\u00e3o \u00e9 natural, de onde ela vem, e como se reproduz socialmente?&nbsp;Revendo e problematizando autores can\u00f4nicos \u2013 as tr\u00eas partes do texto&nbsp;s\u00e3o&nbsp;dedicadas a Marx e Engels, L\u00e9vi-Strauss, Freud e Lacan \u2013 Rubin utiliza pela primeira vez o termo g\u00eanero num texto de teoria antropol\u00f3gica, afirmando a exist\u00eancia de um&nbsp;<i>sistema de sexo-g\u00eanero<\/i>, associado&nbsp;\u00e0&nbsp;pr\u00f3pria passagem da natureza para a cultura.&nbsp;&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Na discuss\u00e3o com o marxismo, n\u00e3o encontra uma reflex\u00e3o adequada para o problema da opress\u00e3o feminina, pois ali trata-se de um modelo que visa desmascarar&nbsp;a desigualdade do capitalismo.&nbsp;Ela nota como a oposi\u00e7\u00e3o entre&nbsp;o&nbsp;modo de produ\u00e7\u00e3o e a esfera da reprodu\u00e7\u00e3o n\u00e3o permite ao marxismo perceber como estes dois modos se interconectam de forma intensa.&nbsp;Sendo a esfera da reprodu\u00e7\u00e3o&nbsp;socialmente&nbsp;produtiva,&nbsp;n\u00e3o se restringe ao universo da vida privada, mas se conecta de modo intenso com o modo de produ\u00e7\u00e3o.&nbsp;Rubin tamb\u00e9m recha\u00e7a o uso do termo&nbsp;<i>patriarcado<\/i><b>,<\/b>&nbsp;pois este seria&nbsp;apenas um dos modos hist\u00f3ricos de exercer a domina\u00e7\u00e3o masculina, e defende o termo&nbsp;<i>sistema de sexo-g\u00eanero<\/i><b>,&nbsp;<\/b>que&nbsp;permite ver como a desigualdade se forma em diversas sociedades e \u00e9pocas distintas. Para ela, usar o termo patriarcado como sin\u00f4nimo de opress\u00e3o feminina \u00e9 um equ\u00edvoco conceitual do pr\u00f3prio feminismo.&nbsp;&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Na segunda parte, retomando o racioc\u00ednio de L\u00e9vi-Strauss sobre o tabu do incesto, aponta que o autor sup\u00f4s em&nbsp;seu modelo que o desejo seria sempre heterossexual, e que antes do tabu do incesto, haveria um tabu da homossexualidade. Questiona&nbsp;assim&nbsp;a linguagem de L\u00e9vi-Strauss da \u201ctroca de mulheres\u201d, na medida em que ela expressa o fato de que as mulheres seriam os objetos trocados e os homens seriam os agentes da troca:&nbsp;a troca&nbsp;de mulheres fundaria a cultura&nbsp;e produziria igualmente&nbsp;a opress\u00e3o&nbsp;sexual&nbsp;das mulheres, pois as obrigam&nbsp;\u00e0&nbsp;heterossexualidade&nbsp;e ao controle da sexualidade.&nbsp;Aqui aparece&nbsp;a&nbsp;no\u00e7\u00e3o da&nbsp;<i>heterossexualidade compuls\u00f3ria<\/i>, vinculando nesse texto a quest\u00e3o&nbsp;de g\u00eanero a&nbsp;outro campo: os estudos sobre&nbsp;sexualidade.&nbsp;Ademais,&nbsp;na medida em que a troca&nbsp;de mulheres gerada pelo tabu do incesto funda a fam\u00edlia e forma&nbsp;o casal&nbsp;heterossexual como base,&nbsp;que&nbsp;se desdobra em atividades&nbsp;femininas e masculinas diferentes como meio de&nbsp;subsist\u00eancia&nbsp;das&nbsp;fam\u00edlias,&nbsp;d\u00e1-se&nbsp;a impress\u00e3o de uma necess\u00e1ria complementaridade. Assim,&nbsp;ela&nbsp;busca&nbsp;demonstrar que&nbsp;o parentesco produz o g\u00eanero ao gerar uma divis\u00e3o assim\u00e9trica&nbsp;das tarefas.&nbsp;Em seu modelo<i>,<\/i><i>&nbsp;a divis\u00e3o sexual do trabalho&nbsp;<\/i><i>cria<\/i><i>&nbsp;o g\u00eanero<\/i>, ou seja, produz a sensa\u00e7\u00e3o de que pessoas do sexo masculino e do sexo feminino teriam aptid\u00f5es diversas. Todo o seu ponto \u00e9 mostrar&nbsp;que&nbsp;a&nbsp;diferen\u00e7a&nbsp;entre homens e mulheres&nbsp;n\u00e3o&nbsp;vem da natureza,&nbsp;mas do arranjo gerado na funda\u00e7\u00e3o da cultura.&nbsp;Argumenta que g\u00eanero e sexualidade devem ser pensados em intera\u00e7\u00e3o, sugerindo que \u00e9 o pr\u00f3prio arranjo do parentesco&nbsp;e sua divis\u00e3o sexual do trabalho&nbsp;que produz socialmente o g\u00eanero, uma vez que por meio do casamento se institui a diferen\u00e7a entre homens e mulheres.&nbsp;&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Na terceira parte do texto,&nbsp;Rubin&nbsp;retoma Freud e Lacan para pensar como as crian\u00e7as, originalmente andr\u00f3ginas, se transformam em meninos e meninas, ou seja, como na cria\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as se produz homens e mulheres com desejos heterossexuais.&nbsp;Retomo o problema da forma\u00e7\u00e3o subjetiva da identidade de g\u00eanero&nbsp;adiante.&nbsp;&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\" data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:720,&quot;335559740&quot;:276}\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\"><b>G\u00eanero<\/b><b>&nbsp;como categoria&nbsp;<\/b><b>de<\/b><b>&nbsp;diferen\u00e7a e desigualdade<\/b>&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Nos anos 1970 e 1980, o termo \u201cg\u00eanero\u201d&nbsp;difunde-se&nbsp;no campo das humanidades,&nbsp;como modo de&nbsp;sair de qualquer naturaliza\u00e7\u00e3o ligada ao termo sexo ou diferen\u00e7a sexual,&nbsp;e mesmo para ir al\u00e9m dos estudos sobre mulheres. De certo modo, nos anos 1980 evidencia-se&nbsp;a ideia de que&nbsp;o&nbsp;g\u00eanero \u00e9 da esfera da&nbsp;<i>cultura<\/i>, ao passo que sexo seria o dado, a materialidade da&nbsp;<i>natureza<\/i>, a partir da qual a diferen\u00e7a social, cultural, hist\u00f3rica e pol\u00edtica se constituiria.&nbsp;Assim, naturaliza-se a ideia de que&nbsp;o&nbsp;sexo est\u00e1 para o g\u00eanero assim como a natureza para a cultura.&nbsp;&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Outro trabalho&nbsp;central&nbsp;nessa concep\u00e7\u00e3o&nbsp;foi o artigo de Joan Scott, \u201cG\u00eanero: uma&nbsp;categoria \u00fatil&nbsp;para&nbsp;an\u00e1lise hist\u00f3rica\u201d&nbsp;(publicado pela primeira vez em 1986), que destaca a origem gramatical do termo g\u00eanero, seu sentido relacional&nbsp;(homens e mulheres vivem em rela\u00e7\u00f5es sociais),&nbsp;e&nbsp;a import\u00e2ncia de rebater qualquer&nbsp;determinismo biol\u00f3gico. O&nbsp;trabalho de Scott nos anos 1980&nbsp;busca ir al\u00e9m dos&nbsp;ent\u00e3o&nbsp;chamados estudos sobre mulheres&nbsp;e refor\u00e7a que g\u00eanero vai al\u00e9m da no\u00e7\u00e3o de patriarcado, pois&nbsp;nesta&nbsp;abordagem&nbsp;a desigualdade est\u00e1 baseada nas rela\u00e7\u00f5es familiares, o que pode&nbsp;desembocar&nbsp;na ideia de que&nbsp;\u00e9 gerada como consequ\u00eancia do corpo reprodutivo feminino e sua restri\u00e7\u00e3o ao mundo dom\u00e9stico (ou&nbsp;\u201cda reprodu\u00e7\u00e3o\u201d), recaindo numa&nbsp;armadilha:&nbsp;origem biol\u00f3gica&nbsp;como&nbsp;anterior \u00e0s causas propriamente sociais, a capacidade de engravidar reconstru\u00edda no sentido da \u201cbiologia como destino\u201d. Diversamente de Rubin nos anos 1970, Scott quer separar a teoria de g\u00eanero dos estudos de sexualidade, e ainda sair do espectro bin\u00e1rio homem X mulher.&nbsp;&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Scott retoma&nbsp;a no\u00e7\u00e3o de poder como definida por Foucault&nbsp;como \u201cconstela\u00e7\u00f5es dispersas de rela\u00e7\u00f5es&nbsp;desiguais, constitu\u00eddas pelo discurso\u201d&nbsp;(Scott, 2019,&nbsp;p. 66),&nbsp;evitando a ideia&nbsp;do poder como lei, proibi\u00e7\u00e3o, ou como algo que se&nbsp;possui. Define g\u00eanero como \u201celemento constitutivo de rela\u00e7\u00f5es sociais fundadas sobre diferen\u00e7as&nbsp;<i>socialmente percebidas<\/i>&nbsp;entre os sexos\u201d.&nbsp;G\u00eanero refere-se a&nbsp;diversas esferas&nbsp;relacionadas: (1) s\u00edmbolos culturalmente dispon\u00edveis; (2) conceitos normativos que evidenciam certas interpreta\u00e7\u00f5es desses s\u00edmbolos, definindo socialmente masculinidades e feminilidades&nbsp;apropriadas em determinados contextos hist\u00f3ricos e sociais; (3)&nbsp;no\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que organiza institui\u00e7\u00f5es e organiza\u00e7\u00f5es sociais; (4) identidade subjetiva dos sujeitos constitu\u00edda na vida social, em rela\u00e7\u00e3o com os s\u00edmbolos, normas e institui\u00e7\u00f5es, e na vida social.&nbsp;Por fim, ela afirma que g\u00eanero d\u00e1 significado \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de poder.&nbsp;&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Com esta defini\u00e7\u00e3o,&nbsp;Scott elabora&nbsp;em outro texto&nbsp;(\u201cA Invisibilidade da experi\u00eancia\u201d)&nbsp;como essa identidade se constitui, ao lembrar que \u201cn\u00e3o s\u00e3o os indiv\u00edduos que t\u00eam experi\u00eancia, mas sim os sujeitos que s\u00e3o constitu\u00eddos pela experi\u00eancia\u201d&nbsp;(1998, p.&nbsp;304),&nbsp;&nbsp;ou seja, essa identidade \u00e9 socialmente produzida dentro das possibilidades&nbsp;culturais vigentes e das normas de g\u00eanero de cada \u00e9poca e contexto social, para al\u00e9m do universo dom\u00e9stico e familiar. Nesse sentido, Scott&nbsp;\u2013 entre&nbsp;outras autoras&nbsp;\u2013 busca&nbsp;trazer um sentido importante&nbsp;\u00e0 no\u00e7\u00e3o de&nbsp;g\u00eanero:&nbsp;n\u00e3o&nbsp;se&nbsp;trata apenas&nbsp;de mulheres, ou de mulheres e homens em suas&nbsp;rela\u00e7\u00f5es, mas da produ\u00e7\u00e3o de&nbsp;<i>sentidos simb\u00f3licos de masculino e feminino<\/i>, sentidos que s\u00e3o social e historicamente vari\u00e1veis, que constrangem as possibilidades de identifica\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o dos sujeitos&nbsp;(como veremos abaixo), e sentidos que tamb\u00e9m circulam socialmente de modos desiguais.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">\u00c9 a partir daqui que fica mais evidente que, ao falar de g\u00eanero, \u00e9 preciso considerar que n\u00e3o existe \u201ca mulher\u201d como uma categoria universal, mas mulheres vivendo em condi\u00e7\u00f5es sociais variadas em termos de ra\u00e7a, classe social, idade\/gera\u00e7\u00e3o, orienta\u00e7\u00e3o sexual, entre outros marcadores sociais da diferen\u00e7a. Ou seja, quando se inclui a categoria g\u00eanero, a identidade comum entre as mulheres torna-se tamb\u00e9m abalada pelo fato de nossas experi\u00eancias e identidades estarem atravessadas por outras diferen\u00e7as sociais,&nbsp;que tamb\u00e9m nos constituem enquanto sujeitos.&nbsp;Por este motivo, por algum tempo houve um certo conflito entre a teoria de g\u00eanero e um ideal do feminismo universalista, que n\u00e3o levava em conta a diferen\u00e7a entre mulheres, ou que imagina a identidade feminina como calcada na biologia ou numa experi\u00eancia<i>&nbsp;<\/i>corporal&nbsp;comum a todas as mulheres&nbsp;(universalizante).&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Este ponto&nbsp;permite-nos chegar&nbsp;\u00e0&nbsp;\u00faltima contribui\u00e7\u00e3o fundamental para&nbsp;a&nbsp;teoria: os escritos de Judith&nbsp;Butler,&nbsp;ainda no final do s\u00e9culo XX.&nbsp;Seu livro,&nbsp;<i>Problemas de g\u00eanero<\/i>&nbsp;(publicado em&nbsp;1991),&nbsp;come\u00e7a ao questionar&nbsp;a no\u00e7\u00e3o&nbsp;unificadora&nbsp;da identidade&nbsp;da&nbsp;mulher.&nbsp;Retomando que a&nbsp;categoria&nbsp;mulher \u00e9 atravessada por outras diferen\u00e7as sociais, como aparente nas demandas dos movimentos feministas negro e l\u00e9sbico, Judith&nbsp;Butler&nbsp;problematiza a busca de uma&nbsp;identidade comum&nbsp;como base ao movimento pol\u00edtico.&nbsp;Butler&nbsp;retoma a ideia da oposi\u00e7\u00e3o entre natureza e cultura como base da distin\u00e7\u00e3o entre sexo e g\u00eanero, e mostra que todo o saber sobre o sexo \u00e9&nbsp;j\u00e1 de&nbsp;partida uma&nbsp;concep\u00e7\u00e3o sobre a diferen\u00e7a sexual. N\u00e3o h\u00e1 uma base natural, pois o masculino e o feminino, o homem&nbsp;e a mulher&nbsp;s\u00e3o&nbsp;constru\u00e7\u00f5es&nbsp;culturais simb\u00f3licas de seu pr\u00f3prio tempo. N\u00e3o h\u00e1 uma base&nbsp;material,&nbsp;pr\u00e9-discursiva,&nbsp;a partir da qual o g\u00eanero inventa o bin\u00e1rio \u2013 a base \u00e9 sempre um saber poder socialmente constitu\u00eddo (como o saber m\u00e9dico).&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Para entender este ponto de&nbsp;Butler, vale retomar a&nbsp;proposta de Foucault no primeiro volume de&nbsp;<i>A Hist\u00f3ria da Sexualidade<\/i>, ressaltando como o saber-poder constitui o que se passou a conhecer como \u201csexualidade\u201d. O sexo \u2013 mais precisamente as pr\u00e1ticas sexuais \u2013 teria sido escrutinado pelos saberes&nbsp;disciplinares do s\u00e9culo XIX,&nbsp;como&nbsp;a&nbsp;medicina (psiquiatria e psican\u00e1lise), demografia, pedagogia e&nbsp;a justi\u00e7a penal, produzindo uma&nbsp;ideia de sexualidade que precisa ser regulada&nbsp;e colocada&nbsp;dentro de certos limites, excluindo o que \u00e9 visto como desvio. S\u00e3o os desviantes t\u00edpicos destes saberes a mulher hist\u00e9rica, o casal malthusiano&nbsp;(que se reproduz sem controle), a crian\u00e7a que se masturba&nbsp;e o pervertido sexual.&nbsp;Mas ao contr\u00e1rio da hip\u00f3tese repressiva, Foucault&nbsp;considera que n\u00e3o h\u00e1 uma natureza anterior, que \u00e9 ent\u00e3o reprimida,&nbsp;expondo que&nbsp;h\u00e1 uma&nbsp;produ\u00e7\u00e3o intensa de saberes sobre a sexualidade que busca disciplinar as pr\u00e1ticas, mas que paradoxalmente produz o desejo&nbsp;e uma profus\u00e3o de discursos acerca do sexo.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Com a mesma ideia de questionar a exist\u00eancia de uma&nbsp;base,&nbsp;Butler&nbsp;prop\u00f5e que todo o saber sobre o dimorfismo sexual \u00e9,&nbsp;desde&nbsp;o&nbsp;in\u00edcio,&nbsp;g\u00eanero \u2013 discursos que produzem o sexo como se fosse \u201cnatural\u201d, como se fosse a base&nbsp;material. Dialogando com um questionamento radical do saber ocidental sobre natureza (o que se encontra em outras autoras, como Donna&nbsp;Haraway, com quem efetivamente&nbsp;ela&nbsp;dialoga),&nbsp;Butler&nbsp;retoma tamb\u00e9m autores cl\u00e1ssicos (como L\u00e9vi-Strauss e Lacan) e te\u00f3ricas&nbsp;feministas&nbsp;(como&nbsp;Wittig&nbsp;e&nbsp;Irigaray)&nbsp;para propor&nbsp;algumas no\u00e7\u00f5es que se tornaram centrais nos estudos de g\u00eanero e sexualidade,&nbsp;e&nbsp;posteriormente na chamada&nbsp;\u201cteoria&nbsp;queer\u201d.&nbsp;&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Ao retomar a no\u00e7\u00e3o de Rubin de heterossexualidade compuls\u00f3ria contida no saber ocidental&nbsp;falogoc\u00eantrico&nbsp;sobre a diferen\u00e7a sexual,&nbsp;Butler&nbsp;desenvolve a ideia de&nbsp;<i>matriz heterossexual<\/i>&nbsp;(depois tamb\u00e9m nomeada de&nbsp;<i>heteronormativ<\/i><i>idade<\/i>) que imagina sempre uma&nbsp;coer\u00eancia entre sexo, g\u00eanero, desejo e pr\u00e1tica sexual. O exemplo da&nbsp;drag&nbsp;queen&nbsp;\u2013 uma pessoa do sexo masculino, com tra\u00e7os masculinos que visivelmente constr\u00f3i uma personagem feminina exagerada com certas marcas da feminilidade&nbsp;\u2013&nbsp;permite&nbsp;construir&nbsp;a no\u00e7\u00e3o de&nbsp;performatividade. G\u00eanero n\u00e3o passa de uma estiliza\u00e7\u00e3o repetida e cotidiana da norma heterossexual,&nbsp;um ato que acaba por constituir o sujeito que age, como se fosse anterior ao sujeito; uma&nbsp;estiliza\u00e7\u00e3o que nos constitui enquanto&nbsp;sujeitos desde que somos interpelados ao nascimento como menina ou menino, sendo que o contexto social define as normas e os limites de nossas representa\u00e7\u00f5es.&nbsp;&nbsp;Ao ser acusada de imaginar um sujeito que \u201cescolhe\u201d o seu sexo,&nbsp;Butler&nbsp;destaca que o sexo&nbsp;\u00e9 a&nbsp;norma&nbsp;a partir&nbsp;da qual se&nbsp;performa&nbsp;o g\u00eanero. Em&nbsp;<i>Corpos que&nbsp;<\/i><i>importam&nbsp;<\/i><i>&nbsp;<\/i>(publicado&nbsp;originalmente em 1993), ela afirma&nbsp;que o sexo e sua&nbsp;binaridade&nbsp;\u00e9 o ideal regulat\u00f3rio que preside as&nbsp;performatividades&nbsp;cotidianas, e a necessidade de reiterar esses atos mostra a dificuldade de conter os corpos nas normas. Na repeti\u00e7\u00e3o \u201cerrada\u201d, as normas tamb\u00e9m s\u00e3o transgredidas, e \u00e9 a partir da\u00ed que se pode ver corpos assignados como masculinos assumirem caracter\u00edsticas femininas e vice-versa, transformando as fronteiras do socialmente aceito.&nbsp;Para&nbsp;Butler, o masculino e o feminino s\u00e3o formas classificat\u00f3rias que circulam socialmente al\u00e9m de demarcar os corpos de homens e mulheres.&nbsp;&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Para entender finalmente como essa norma opera, vale retomar a discuss\u00e3o sobre a forma\u00e7\u00e3o da subjetividade,&nbsp;lembrando&nbsp;a frase acima de&nbsp;Joan&nbsp;Scott que&nbsp;n\u00e3o devemos&nbsp;imaginar que os sujeitos passam pelas experi\u00eancias<i>&nbsp;<\/i>e as relatam de forma verdadeira porque a viveram<i>,&nbsp;<\/i>mas ao contr\u00e1rio,&nbsp;os sujeitos s\u00e3o constitu\u00eddos pela experi\u00eancia.&nbsp;Ou, citando Teresa De&nbsp;Lauretis:&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">(&#8230;) a experi\u00eancia \u00e9 o processo&nbsp;pelo qual a subjetividade \u00e9 constru\u00edda para todos os seres sociais. Atrav\u00e9s desse processo uma pessoa se coloca ou \u00e9 colocada na realidade social e, assim, percebe e compreende como subjetivas (referindo-se e originando-se em si mesma) essas rela\u00e7\u00f5es \u2013 materiais, econ\u00f4micas e interpessoais \u2013 que de fato&nbsp;s\u00e3o&nbsp;sociais e, numa perspectiva mais ampla, hist\u00f3ricas. (De&nbsp;Lauretis,&nbsp;<i>Alice&nbsp;<\/i><i>Doesn\u2019t<\/i>, pg. 159, apud Scott).&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Se somos formados e constitu\u00eddos nas rela\u00e7\u00f5es&nbsp;sociais, nosso&nbsp;g\u00eanero&nbsp;\u00e9 constru\u00eddo pela forma como somos qualificados ao nascer (ou antes mesmo de nascer, pela t\u00e9cnica do ultrassom).&nbsp;Nesse sentido,&nbsp;nosso&nbsp;g\u00eanero \u00e9 apenas uma parte dessa&nbsp;experi\u00eancia que nos constitui;&nbsp;a subjetividade \u00e9,&nbsp;portanto,&nbsp;afetada por todos os outros marcadores sociais da diferen\u00e7a, como ra\u00e7a, classe social,&nbsp;idade, contexto cultural, entre outros.&nbsp;Assim,&nbsp;o conceito de g\u00eanero se imbrica com o de interseccionalidade que, igualmente, teve que desnaturalizar uma s\u00e9rie de categorias,&nbsp;como ra\u00e7a,&nbsp;sexualidade e&nbsp;at\u00e9&nbsp;mesmo idade.&nbsp;&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\" data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\"><b>Bibliografia citada<\/b>&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">BUTLER, Judith (2003)&nbsp;<i>Problemas de G\u00eanero.<\/i>&nbsp;Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">BUTLER, Judith (2017)&nbsp;<i>Corpos que importam<\/i>, S\u00e3o Paulo, Edi\u00e7\u00f5es N-1\/Crocodilo.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">FOUCAULT, Michel (1977)&nbsp;<i>Hist\u00f3ria da Sexualidade \u2013 A vontade de saber<\/i>&nbsp;Vol. 1, Rio de Janeiro: Graal.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">HARAWAY, Donna: (2011)&nbsp;\u201c\u2018G\u00eanero\u2019 para um dicion\u00e1rio marxista\u201d,&nbsp;<i>cadernos&nbsp;<\/i><i>pagu<\/i>, 22, pp. 201-246.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">L\u00c9VI-STRAUSS, Claude. (2012):&nbsp;<i>Estruturas Elementares do Parentesco<\/i>. Petr\u00f3polis: Vozes (7a&nbsp;edi\u00e7\u00e3o).&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">MAUSS, Marcel. (2017).&nbsp;\u201cAs T\u00e9cnicas do Corpo\u201d in:&nbsp;<i>Sociologia e Antropologia<\/i>, S\u00e3o Paulo: Editora&nbsp;Ubu.&nbsp;&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">MEAD, Margaret. (1999)&nbsp;<i>Sexo e Temperamento.&nbsp;<\/i>S\u00e3o Paulo: Ed. Perspectiva.&nbsp;&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">RUBIN,&nbsp;Gayle&nbsp;(2017) \u201cO Tr\u00e1fico de Mulheres: notas sobre a \u2018economia pol\u00edtica\u2019 do sexo\u201d, in&nbsp;<i>Pol\u00edticas do sexo<\/i>. Cole\u00e7\u00e3o Argonautas. S\u00e3o Paulo:&nbsp;Ubu&nbsp;Editora,&nbsp;pp. 9-61.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">SCOTT, Joan. (2019) \u201cG\u00eanero: uma categoria \u00fatil para an\u00e1lise hist\u00f3rica\u201d, in&nbsp;Hollanda, Heloisa B. (org.):&nbsp;<i>Pensamento Feminista: conceitos fundamentais<\/i>. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">SCOTT, Joan.&nbsp;(1998) \u201cA Invisibilidade da Experi\u00eancia\u201d&nbsp;<i>Projeto Hist\u00f3ria<\/i>&nbsp;(16) fev. 1998, pag. 304.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\"><b>Fonte, literatura secund\u00e1ria e outros materiais<\/b>&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\"><b>Sobre g\u00eanero<\/b>&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">PISCITELLI, Adriana.&nbsp;(2009)&nbsp;\u201cG\u00eanero: a hist\u00f3ria de um conceito\u201d in:&nbsp;ALMEIDA, H. B. e SZWAKO, J. (orgs.):&nbsp;<i>Diferen\u00e7as, Igualdade<\/i>. Col. Sociedade em Foco. S\u00e3o Paulo:&nbsp;Berlendis&nbsp;Editores&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">MAZZARIELLO, Carolina Cordeiro &amp; FERREIRA, Lucas&nbsp;Bulgarelli.\u202f(2015).\u202f&#8221;G\u00eanero&#8221;. In:\u202f<i>Enciclop\u00e9dia de Antropologia.<\/i>\u202fS\u00e3o Paulo: Universidade de S\u00e3o Paulo, Departamento de Antropologia. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/ea.fflch.usp.br\/conceito\/g%C3%AAnero\">http:\/\/ea.fflch.usp.br\/conceito\/g\u00eanero<\/a>&gt;&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">STOLCKE,&nbsp;Verena&nbsp;(1991)&nbsp;\u201cSexo est\u00e1 para g\u00eanero assim como ra\u00e7a para&nbsp;etnicidade?\u201d,&nbsp;<i>Estudos Afro-Asi\u00e1ticos<\/i>, n. 20,&nbsp;pp.101-119&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">CORR\u00caA, Mariza. (2001).&nbsp;\u201cDo feminismo aos estudos de g\u00eanero no Brasil: um exemplo pessoal\u201d&nbsp;<i>cadernos&nbsp;<\/i><i>pagu<\/i>, 16, pp. 13-30&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\"><b>Sobre Marcel&nbsp;<\/b><b>Mauss<\/b>&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">HAIBARA, Alice\u202f&amp; SANTOS, Val\u00e9ria Oliveira.&nbsp;(2016). &#8220;As t\u00e9cnicas do corpo&#8221;. In:\u202f<i>Enciclop\u00e9dia de Antropologia.<\/i>\u202fS\u00e3o Paulo: Universidade de S\u00e3o Paulo, Departamento de Antropologia. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/ea.fflch.usp.br\/obra\/t%C3%A9cnicas-do-corpo\">http:\/\/ea.fflch.usp.br\/obra\/t\u00e9cnicas-do-corpo<\/a>&gt;&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">ANDRADE, Fabiana de;\u202fOLIVEIRA J\u00daNIOR, Jorge Gon\u00e7alves &amp; CIRNE, Michelle.\u202f(2016). &#8220;Marcel&nbsp;Mauss&#8221;. In:\u202f<i>Enciclop\u00e9dia de Antropologia.<\/i>\u202fS\u00e3o Paulo:&nbsp;Universidade de S\u00e3o Paulo, Departamento de Antropologia. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/ea.fflch.usp.br\/autor\/marcel-mauss\">http:\/\/ea.fflch.usp.br\/autor\/marcel-mauss<\/a>&gt;&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\"><b>Sobre Margaret&nbsp;<\/b><b>Mead<\/b>&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">FELIPPE, Mariana&nbsp;Boujikian&nbsp;&amp; OLIVEIRA-MACEDO,&nbsp;Shisleni&nbsp;de&nbsp;(2018). &#8220;Margareth&nbsp;Mead&#8221;. In:\u202f<i>Enciclop\u00e9dia de Antropologia.<\/i>\u202fS\u00e3o Paulo: Universidade de S\u00e3o Paulo, Departamento de Antropologia. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/ea.fflch.usp.br\/autor\/margaret-mead\">http:\/\/ea.fflch.usp.br\/autor\/margaret-mead<\/a>&gt;\u202f&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">FELIPPE, Mariana&nbsp;Boujikian&nbsp;&amp; OLIVEIRA-MACEDO,&nbsp;Shisleni&nbsp;de.&nbsp;(2018). &#8220;Sexo e Temperamento em Tr\u00eas Sociedades Primitivas&#8221;. In:\u202f<i>Enciclop\u00e9dia de Antropologia.<\/i>\u202fS\u00e3o Paulo: Universidade de S\u00e3o Paulo, Departamento de Antropologia. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/ea.fflch.usp.br\/obra\/sexo-e-temperamento-em-tr%C3%AAs-sociedades-primitivas\">http:\/\/ea.fflch.usp.br\/obra\/sexo-e-temperamento-em-tr%C3%AAs-sociedades-primitivas<\/a>&gt;&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\" data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6}\">&nbsp;<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Heloisa Buarque de Almeida&nbsp; Professora do Departamento de Antropologia da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) &#8211;&nbsp;Lattes PDF &#8211; G\u00eanero<\/p>\n","protected":false},"author":360,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","inline_featured_image":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"class_list":["post-358","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/358","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/360"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=358"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/358\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1306,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/358\/revisions\/1306"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=358"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}