{"id":417,"date":"2020-03-06T16:14:36","date_gmt":"2020-03-06T19:14:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/?page_id=417"},"modified":"2022-04-25T18:22:43","modified_gmt":"2022-04-25T21:22:43","slug":"etica-do-cuidado","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/etica-do-cuidado\/","title":{"rendered":"\u00c9tica do cuidado"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-family: Helvetica\"><strong>Duas formula\u00e7\u00f5es e suas obje\u00e7\u00f5es<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\"><strong>Por Juliana Missaggia<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Professora do Departamento de Filosofia\u00a0\u00a0da Universidade Federal de Santa Maria (EFSM) &#8211;\u00a0<\/span><span style=\"font-family: Helvetica\"><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/0477980802909030\">Lattes<\/a>\u00a0<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2020\/03\/PDF-E\u0301tica-do-cuidado.pdf\">PDF &#8211; E\u0301tica do cuidado<\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">A \u00e9tica do cuidado apresenta-se como uma das mais importantes \u00e1reas de estudos dentro da filosofia moral, contribuindo para uma revis\u00e3o significativa de diversos elementos e conceitos tidos como fundamentais para o debate sobre a a\u00e7\u00e3o moral. A formula\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, do que se convencionou chamar de \u201c\u00e9tica do cuidado\u201d (\u201cethics of care\u201d ou \u201ccare ethics\u201d) varia dependendo da autoria e das bases epistemol\u00f3gicas que a fundamentam. De modo semelhante, as diferentes propostas para a \u00e9tica do cuidado motivaram uma s\u00e9rie de cr\u00edticas, tamb\u00e9m bastante distintas entre si, algumas das quais pretendem indicar falhas pontuais, enquanto outras atacam fundamentos significativos para a teoria. Na breve exposi\u00e7\u00e3o que se segue, pretendo indicar em linhas gerais as principais caracter\u00edsticas de duas propostas j\u00e1 cl\u00e1ssicas, de Carol Gilligan e Nel Noddings, para com isso ter oportunidade de expor um panorama de obje\u00e7\u00f5es \u00e0 \u00e9tica do cuidado em suas diferentes abordagens.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_418\" aria-describedby=\"caption-attachment-418\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-418 size-medium\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2020\/03\/blog-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2020\/03\/blog-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2020\/03\/blog-1020x1024.jpg 1020w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2020\/03\/blog-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2020\/03\/blog-768x771.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2020\/03\/blog-24x24.jpg 24w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2020\/03\/blog-48x48.jpg 48w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2020\/03\/blog-96x96.jpg 96w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2020\/03\/blog.jpg 1471w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-418\" class=\"wp-caption-text\">Touched by another N. 4, de Amanda Tonkin-Hill<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">\u00a0<\/span><span style=\"font-family: Helvetica\">Come\u00e7ando por uma breve an\u00e1lise das duas propostas para \u00e9tica do cuidado que v\u00e3o ser aqui analisadas, parto de uma das algumas considera\u00e7\u00f5es gerais sobre a\u00a0abordagem de\u00a0Carol\u00a0Gilligan, a partir de sua obra \u201c<i>In a\u00a0<\/i><i>Different<\/i><i>\u00a0<\/i><i>Voice<\/i><i>:\u00a0<\/i><i>Psychological<\/i><i>\u00a0<\/i><i>Theory<\/i><i>\u00a0<\/i><i>and<\/i><i>\u00a0<\/i><i>Women\u2019s<\/i><i>\u00a0<\/i><i>Development<\/i>\u201d.\u00a0Por vezes\u00a0Gilligan\u00a0\u00e9 apontada como a principal precursora da \u00e9tica do cuidado, ainda que outros textos do chamado \u201cpensamento maternal\u201d j\u00e1 apontassem para a mesma dire\u00e7\u00e3o por ela indicada\u00a0(ver\u00a0Ruddick, 1989).\u00a0Uma das grandes contribui\u00e7\u00f5es do trabalho de\u00a0Gilligan\u00a0foi justamente o car\u00e1ter precursor de seus estudos dentro do campo em que eles surgem, que \u00e9 o grande campo das pesquisas em teoria do desenvolvimento moral. As origens da pesquisa de\u00a0Gilligan\u00a0no campo da psicologia, portanto, s\u00e3o estudos emp\u00edricos que pretendem apontar para uma falha em certos pressupostos epistemol\u00f3gicos presentes em teorias do desenvolvimento moral bastante influentes, como\u00a0a de\u00a0\u00a0Lawrence\u00a0Kohlberg.\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">A autora parte da an\u00e1lise de diferen\u00e7as na resposta moral de meninos e meninas ao longo de certo tempo, bem como de mulheres em diferentes faixas et\u00e1rias, a partir de entrevistas com esses grupos. Como resultado,\u00a0Gilligan\u00a0constata existir uma diferen\u00e7a no desenvolvimento moral de cada um dos g\u00eaneros por ela estudados, mesmo resultado presente nas pesquisas de\u00a0Kohlberg\u00a0(Gilligan, 1982, p. 10-18).\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">O aspecto mais relevante na especificidade do trabalho de\u00a0Gilligan, por\u00e9m, \u00e9 que o resultado de suas pesquisas a levam a constatar que as chamadas teorias do desenvolvimento moral \u201ctradicionais\u201d resultam em um silenciamento do que ela reconhece como\u00a0sendo\u00a0a moralidade da &#8220;voz feminina&#8221;.\u00a0Gilligan\u00a0chega \u00e0 conclus\u00e3o de que tais teorias partem de uma base filos\u00f3fica que d\u00e1 aten\u00e7\u00e3o para certos termos e conceitos que s\u00e3o relevantes para perceber as diferen\u00e7as entre os g\u00eaneros. A autora procura, portanto, desenvolver uma cr\u00edtica ao que ela reconhece como uma &#8220;voz masculina&#8221; hegem\u00f4nica na filosofia e que se manifesta tamb\u00e9m nas teorias do desenvolvimento moral, uma vez que estas s\u00e3o elaboradas com base na filosofia moral dita tradicional.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Conforme j\u00e1 mencionado, um dos alvos da cr\u00edtica de\u00a0Gilligan\u00a0\u00e9\u00a0Kohlberg. O interessante do trabalho de\u00a0Kohlberg\u00a0\u00e9 que ele \u00e9 especialmente ilustrativo do que\u00a0Gilligan\u00a0aponta em rela\u00e7\u00e3o ao problema do fundamento epistemol\u00f3gico que guia as pesquisas emp\u00edricas em torno do desenvolvimento moral. Falando de modo geral e bastante resumido,\u00a0Kohlberg\u00a0elabora uma teoria que tem por base seis est\u00e1gios morais. No primeiro est\u00e1gio, ocorre o que ele entende como &#8220;moralidade heter\u00f4noma&#8221;, que seria uma moralidade baseada na puni\u00e7\u00e3o e obedi\u00eancia. Esse tipo de concep\u00e7\u00e3o de moralidade, que seria t\u00edpica de crian\u00e7as, envolve a ideia de obedecer a determinadas regras apenas pelo medo da puni\u00e7\u00e3o; tem-se, portanto, uma concep\u00e7\u00e3o heter\u00f4noma de moralidade, porque n\u00e3o se parte de uma internaliza\u00e7\u00e3o do reconhecimento das raz\u00f5es da regra mas, simplesmente, da obedi\u00eancia \u00e0 regra para evitar penalidade.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">No segundo est\u00e1gio, teremos a orienta\u00e7\u00e3o relativista instrumental, que diz respeito a uma concep\u00e7\u00e3o individualista de moralidade, na qual a pessoa procura obedecer a determinadas regras ou expectativas morais apenas para melhor se adequar ao meio. H\u00e1 nesse caso o interesse individual de estar bem situado dentro de um contexto social e n\u00e3o propriamente o interesse em agir bem pela moralidade em si. Nesse contexto seria comum, portanto, uma moralidade relativista, que muda constantemente, de modo a se adequar ao que parece ser mais favor\u00e1vel de acordo com a circunst\u00e2ncia particular.\u00a0O terceiro est\u00e1gio, por vezes chamado de &#8220;orienta\u00e7\u00e3o bom garoto\/boa garota&#8221;, tem por foco a ideia de conformidade interpessoal. Trata-se primariamente do desejo de agradar \u00e0s pessoas pr\u00f3ximas; portanto n\u00e3o h\u00e1 o entendimento sofisticado sobre a a\u00e7\u00e3o ser boa ou n\u00e3o moralmente, mas apenas um desejo de estar em conformidade com as expectativas do entorno social, procurando manter uma coer\u00eancia na a\u00e7\u00e3o de acordo com as expectativas de sua fam\u00edlia ou comunidade. Seria um tipo de est\u00e1gio moral comum, por exemplo, entre adolescentes.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">O quarto est\u00e1gio, por sua vez, diz respeito a uma amplia\u00e7\u00e3o mais significativa da compreens\u00e3o da moralidade. Nesse contexto, h\u00e1 um maior conhecimento do sistema social e o surgimento de uma consci\u00eancia moral mais complexa. De fato, no quarto est\u00e1gio a orienta\u00e7\u00e3o se d\u00e1 em termos de obriga\u00e7\u00e3o moral. O sujeito moral, nesse caso, busca agir de acordo com o que considera ser sua obriga\u00e7\u00e3o: mas n\u00e3o h\u00e1 aqui, ainda, uma maior compreens\u00e3o das raz\u00f5es pelas quais uma determinada conduta moral obrigat\u00f3ria seria adequada ou fundamentada moralmente.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">O quinto est\u00e1gio diz respeito \u00e0 chamada &#8220;orienta\u00e7\u00e3o legalista&#8221;. Nesse caso, o sujeito moral estaria ciente de raz\u00f5es mais amplas a respeito da fundamenta\u00e7\u00e3o de sua conduta moral, tendo como pano de fundo o contrato social e os direitos individuais. Agora o sujeito reconhece raz\u00f5es mais amplas em virtude das quais determinada\u00a0conduta \u00e9 necess\u00e1ria socialmente. H\u00e1, portanto, uma tentativa de fundamentar a moralidade com base tamb\u00e9m em suas consequ\u00eancias, levando em considera\u00e7\u00e3o a sociedade em um sentido mais amplo. Tal vem a ser, assim, uma amplia\u00e7\u00e3o significativa em rela\u00e7\u00e3o a est\u00e1gios anteriores nos quais a conduta moral estava centrada essencialmente em uma concep\u00e7\u00e3o ainda restrita da alteridade, por exemplo no \u00e2mbito familiar ou das rela\u00e7\u00f5es mais pr\u00f3ximas. Por fim, no sexto est\u00e1gio, chegamos aos princ\u00edpios \u00e9ticos universais. Nesse momento, segundo\u00a0Kohlberg, o sujeito moral estaria no grau m\u00e1ximo de seu desenvolvimento, baseando a tomada de decis\u00e3o moral em princ\u00edpios \u00e9ticos universalmente fundamentados (Gilligan, 1982, p. 18 et\u00a0seq).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Os questionamentos de\u00a0Gilligan\u00a0em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho de\u00a0Kohlberg\u00a0partem em grande medida dos resultados aos quais este autor chegou por meio de suas pesquisas emp\u00edricas. Nessas pesquisas, as mulheres n\u00e3o atingiam graus de desenvolvimento moral t\u00e3o altos quanto os dos homens. Era comum, por exemplo, que muitas mulheres estivessem, de acordo com a tabela de est\u00e1gios, no terceiro patamar do desenvolvimento moral. Estariam, portanto, no est\u00e1gio de conformidade interpessoal, tendo por foco agradar \u00e0s pessoas de suas rela\u00e7\u00f5es mais pr\u00f3ximas (Gilligan, 1982, p. 18-20).\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">A partir de uma an\u00e1lise cr\u00edtica da base epistemol\u00f3gica presente na concep\u00e7\u00e3o de desenvolvimento moral de\u00a0Kohlberg,\u00a0Gilligan\u00a0conclui o seguinte: o que se pode constatar seria n\u00e3o uma falha no desenvolvimento moral feminino, mas sim, justamente, uma base epistemol\u00f3gica tendenciosa operando na pesquisa empreendida pelo psic\u00f3logo. De fato, o estudo de\u00a0Kohlberg\u00a0seria excessivamente centrado na vis\u00e3o masculina da moral, t\u00edpica da tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, com foco em regras e direitos e com base na no\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a, em detrimento de outras concep\u00e7\u00f5es possivelmente importantes para a moralidade, tais como a empatia, os sentimentos ou as rela\u00e7\u00f5es (Gilligan, 1982, p. 82 et\u00a0seq).\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Por fim, a partir n\u00e3o s\u00f3 da an\u00e1lise do fundamento dos estudos de\u00a0Kohlberg, mas tamb\u00e9m a partir de seus pr\u00f3prios estudos aut\u00f4nomos,\u00a0Gilligan\u00a0chega \u00e0 conclus\u00e3o de que h\u00e1 uma diferen\u00e7a significativa nas bases que fundamentam a moralidade masculina e a moralidade feminina mais t\u00edpicas. No caso da moralidade masculina, haveria uma \u00eanfase em direitos e princ\u00edpios universais e imparciais; a moralidade feminina, por outro lado, acabaria por enfatizar quest\u00f5es como cuidado, relacionamentos, sentimentos, comprometimento e prote\u00e7\u00e3o,\u00a0dando menos aten\u00e7\u00e3o a\u00a0no\u00e7\u00f5es mais abstratas tais como princ\u00edpios universais e justi\u00e7a imparcial (Gilligan, 1982, p. 98 et\u00a0seq).\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">A partir disso,\u00a0Gilligan\u00a0procura defender que a moralidade feminina, a despeito de em grande medida negligenciar os conceitos mais amplamente trabalhados e valorizados na filosofia moral tradicional, seria um tipo de moralidade igualmente fundamental para a sociedade humana.\u00a0Gilligan\u00a0defende, por essa raz\u00e3o, a busca por sua valoriza\u00e7\u00e3o e inclus\u00e3o na teoria moral. Sua defesa n\u00e3o envolve a ideia de uma incompatibilidade entre a \u00e9tica do cuidado, manifesta mais claramente na moralidade tipicamente feminina, e a \u00e9tica de princ\u00edpios, da qual a modalidade masculina seria a representante.\u00a0Gilligan\u00a0acredita, ao inv\u00e9s, que \u00e9 poss\u00edvel haver uma complementaridade entre as duas \u00e9ticas, de modo que sua proposta aponta n\u00e3o para a substitui\u00e7\u00e3o de uma por outra, mas sim para uma conviv\u00eancia, que tenha por resultado te\u00f3rico uma substantiva amplia\u00e7\u00e3o da teoria moral, bem como a valoriza\u00e7\u00e3o de categorias morais normalmente negligenciadas ou\u00a0sub-tematizadas\u00a0(Gilligan, 1982, p. 130 et\u00a0seq).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">A segunda proposta a ser analisada, defendida por\u00a0Nel\u00a0Noddings, surge em parte da rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 possibilidade de universaliza\u00e7\u00e3o abstrata dos julgamentos morais.\u00a0Noddings\u00a0sustenta que s\u00e3o os sentimentos e o envolvimento afetivo os fundamentos\u00a0de toda a moralidade. A \u00e9tica, portanto, surgiria como um desdobramento das rela\u00e7\u00f5es mais pr\u00f3ximas, nas quais existem la\u00e7os afetivos, e o fundamento da moral teria por base a reciprocidade presente sobretudo nas rela\u00e7\u00f5es de cuidado. Para\u00a0Noddings, o cuidado \u00e9tico \u00e9 derivado do cuidado natural de tais rela\u00e7\u00f5es mais imediatas (Noddings, 1986, p. 79 et\u00a0seq).\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">A fil\u00f3sofa reconhece que h\u00e1 um desejo humano b\u00e1sico e universal de cuidar e ser cuidado. N\u00e3o h\u00e1, em verdade, sequer a possibilidade de sobreviv\u00eancia de nossa esp\u00e9cie sem cuidado parental. O fato de a filosofia moral tradicional ter negligenciado elementos como o cuidado se deveria em parte a tal tarefa ser tomada como algo absolutamente natural \u2013 embora exercida em maior parte, tradicionalmente, por grupos sociais espec\u00edficos, como mulheres (Noddings, 1986, p. 104 et\u00a0seq).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Em sentido mais amplo h\u00e1, tamb\u00e9m, segundo\u00a0Noddings, um sentimento natural de &#8220;se importar com&#8221;, algo que seria comum a qualquer ser humano, com exce\u00e7\u00e3o de casos patol\u00f3gicos (de pessoas, por exemplo, incapazes de se conectar emocionalmente com seus semelhantes). Tal sentimento de &#8220;importar-se com&#8221; faria parte da nossa sociabilidade mais b\u00e1sica e a moralidade, portanto, seria um desenvolvimento de tal sentimento natural (Noddings, 1986, p. 79 et\u00a0seq).\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">De acordo com\u00a0Noddings, ent\u00e3o, o desejo de ser moral ou agir de modo moralmente correto est\u00e1 fundamentado na necessidade de estar conectado aos outros, a\u00a0qual \u00e9, como j\u00e1 mencionado, em parte uma necessidade oriunda tamb\u00e9m das condi\u00e7\u00f5es da nossa pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia enquanto esp\u00e9cie. A fonte de obriga\u00e7\u00e3o moral, portanto, surge do valor atribu\u00eddo \u00e0s rela\u00e7\u00f5es cotidianas de cuidado e n\u00e3o de imperativos abstratos, defendidos por boa parte da filosofia moral (Noddings, 1986, p. 94 et\u00a0seq).\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Desse modo, tendo tais fundamentos para a obriga\u00e7\u00e3o e a justifica\u00e7\u00e3o moral, o trabalho de\u00a0Noddings\u00a0aponta de maneira bastante contundente para os limites dos princ\u00edpios \u00e9ticos abstratos. Segundo a autora, a abstra\u00e7\u00e3o das particularidades de toda a situa\u00e7\u00e3o concreta, t\u00edpica de uma \u00e9tica baseada em princ\u00edpios universais, acaba por gerar uma desconex\u00e3o com o que haveria de propriamente moral em tal situa\u00e7\u00e3o, como, por exemplo, suas particularidades, os sentimentos envolvidos, os relacionamentos, as pessoas espec\u00edficas, etc. N\u00e3o seria poss\u00edvel, por exemplo, encontrar uma regra para um dilema moral concreto, pois a resposta necessariamente dependeria do sujeito moral particular e da situa\u00e7\u00e3o em que as pessoas envolvidas se encontram (Noddings, 1986, p. 90 et\u00a0seq).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">A cr\u00edtica de\u00a0Noddings, desse modo, envolve a ideia de que princ\u00edpios morais abstratos s\u00e3o limitados em sua aplica\u00e7\u00e3o e s\u00e3o, portanto, pouco informativos. Assim, para ela, n\u00e3o pode ser atrav\u00e9s de tais princ\u00edpios que iremos encontrar os crit\u00e9rios para o certo e o errado do ponto de vista da moralidade.\u00a0Noddings\u00a0acredita que tais crit\u00e9rios s\u00e3o oriundos das rela\u00e7\u00f5es afetivas pr\u00f3ximas e do j\u00e1 mencionado sentimento natural que envolve a necessidade de oferecer e receber cuidado. Nesse sentido, a autora d\u00e1 especial aten\u00e7\u00e3o \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de \u201cimportar-se com\u201d oriundas do cuidado parental, particularmente da rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e e filha ou filho. De fato, o modelo paradigm\u00e1tico da rela\u00e7\u00e3o de cuidado est\u00e1 pautado na no\u00e7\u00e3o de maternidade, sobretudo do amor maternal (Noddings, 1986, p. 40 et\u00a0seq).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Buscando, por\u00e9m, encontrar um ant\u00eddoto para as poss\u00edveis cr\u00edticas de relativismo,\u00a0Noddings\u00a0sustenta que tal inclina\u00e7\u00e3o natural ao sentimento de cuidado seria\u00a0algo quase universal na esp\u00e9cie humana. Como mencionado anteriormente, tal sentimento surge do pr\u00f3prio papel desempenhado pelas rela\u00e7\u00f5es de cuidado no que diz respeito \u00e0 nossa sobreviv\u00eancia enquanto esp\u00e9cie. O argumento gira em torno, essencialmente, da ideia de que o cuidado de que fomos objeto, sobretudo na inf\u00e2ncia, envolve sentimentos e afetos que servem de base para o que compreendemos como \u201ccerto\u201d ou \u201cerrado\u201d no trato humano. Embora tais no\u00e7\u00f5es possam evidentemente variar de acordo com a cultura da sociedade de determinado indiv\u00edduo, o cuidado e o \u201cimportar-se com\u201d, em suas diferentes manifesta\u00e7\u00f5es, seriam\u00a0um fen\u00f4meno universal.\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Assim, apesar de estabelecer como fundamento da moral um sentimento natural que seria considerado em grande medida universal,\u00a0Noddings\u00a0reconhece que haveria limites para a obriga\u00e7\u00e3o moral. Uma vez que a autora busca estabelecer uma cr\u00edtica \u00e0s concep\u00e7\u00f5es abstratas de moralidade, ela reconhece que tampouco poderia defender uma no\u00e7\u00e3o abstrata para a ideia de obriga\u00e7\u00e3o moral. Para a fil\u00f3sofa, \u00e9 um fato de simples constata\u00e7\u00e3o que n\u00e3o temos sentimento de cuidado por toda e qualquer pessoa. Seria natural, portanto, importar-se com pessoas pr\u00f3ximas mais do que com desconhecidos ou pessoas mais distantes. O que ocorre, segundo\u00a0Noddings, \u00e9 que,\u00a0dada nossa humanidade compartilhada e tal sentimento natural de &#8220;importar-se com&#8221;,\u00a0h\u00e1 sempre a possibilidade do surgimento de rela\u00e7\u00f5es em potencial. Seria com base em tais rela\u00e7\u00f5es potenciais que a obriga\u00e7\u00e3o moral poderia se ampliar para al\u00e9m das rela\u00e7\u00f5es pessoais mais pr\u00f3ximas. Ainda assim, a autora defende que n\u00e3o apenas \u00e9 natural, como tamb\u00e9m correto do ponto de vista moral,\u00a0dar prioridade\u00a0\u00e0s rela\u00e7\u00f5es afetivas pr\u00f3ximas e ter, portanto, mais obriga\u00e7\u00e3o moral com as pessoas do nosso contato imediato (Noddings, 1986, p. 81 et\u00a0seq).\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Dessa maneira, os crit\u00e9rios para obriga\u00e7\u00e3o moral envolvem rela\u00e7\u00f5es atuais nas quais estejam presentes sentimentos e reciprocidade. A obriga\u00e7\u00e3o moral estende-se de maneira mais ampla quando se projeta o potencial de estabelecimento ou crescimento de rela\u00e7\u00f5es. A obriga\u00e7\u00e3o moral para aqueles &#8220;mais distantes&#8221; ou desconhecidos, ou mesmo, em sentido amplo, a obriga\u00e7\u00e3o moral que se estende para a sociedade, envolve o reconhecimento de outros seres como tamb\u00e9m semelhantes a n\u00f3s no que diz respeito \u00e0 necessidade de dar e receber cuidado. Aplicamos, portanto, ainda que de maneira menos direta, uma proje\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos sentimentos que de fato temos pelas pessoas de nossos relacionamentos mais pr\u00f3ximos. A obriga\u00e7\u00e3o moral, no entanto, n\u00e3o ocorre de maneira igualit\u00e1ria, havendo graus para obriga\u00e7\u00e3o. Para\u00a0Noddings, quanto maior a reciprocidade maior ser\u00e1 a obriga\u00e7\u00e3o moral dentro do relacionamento.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">A partir da an\u00e1lise dessas duas propostas para \u00e9tica do cuidado, \u00e9 poss\u00edvel desenvolver, ainda que em linhas gerais, algumas das cr\u00edticas que\u00a0elas\u00a0suscitaram. As cr\u00edticas que aqui procurarei sistematizar s\u00e3o principalmente as obje\u00e7\u00f5es oriundas da teoria feminista. A inten\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 a de estabelecer uma an\u00e1lise exaustiva sobre elas, mas sim reuni-las com vistas a resumir os principais argumentos que apresentam.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Come\u00e7ando pelas obje\u00e7\u00f5es da teoria cr\u00edtica, verificamos a defesa de que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel utilizar a categoria g\u00eanero sem avaliar os fatores sociais de sua constitui\u00e7\u00e3o. Esse seria, por exemplo, um equ\u00edvoco cometido nos trabalhos de\u00a0Gilligan, nos quais o\u00a0g\u00eanero estaria reduzido \u00e0 teoria psicol\u00f3gica, sem um maior detalhamento das raz\u00f5es de sua origem. Como vimos, ao procurar descrever as diferen\u00e7as e peculiaridades da resposta moral das mulheres, mas sem procurar explicitar detidamente seus fundamentos sociais,\u00a0Gilligan\u00a0acabaria por apresentar o fen\u00f4meno da \u201cvoz diferente\u201d feminina de maneira incompleta e superficial, uma vez que n\u00e3o\u00a0se\u00a0preocupa em explicitar justamente um dos elementos tidos como determinantes para qualquer estudo que fa\u00e7a um recorte de g\u00eanero (Benhabib, 1992, p. 190 et\u00a0seq).\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Nesse sentido, poderia se verificar\u00a0a\u00a0falta de um maior desenvolvimento da no\u00e7\u00e3o de interseccionalidade, que aponta para a necessidade de analisar n\u00e3o apenas o g\u00eanero, mas tamb\u00e9m outros marcadores sociais, como ra\u00e7a e classe social, que afetam profundamente a experi\u00eancia concreta dos sujeitos, determinando em grande medida, inclusive, como ser\u00e1 vivida a experi\u00eancia de ser mulher e a compreens\u00e3o da pr\u00f3pria feminilidade. Nos estudos da \u00e9tica do cuidado de\u00a0Gilligan\u00a0e\u00a0Noddings\u00a0faltaria, por exemplo, um maior desenvolvimento sobre a diferen\u00e7a de classe e o impacto que tal diferen\u00e7a tem nas atividades do trabalho de cuidado. Como se sabe, as tarefas dom\u00e9sticas e do cuidado de crian\u00e7as e doentes s\u00e3o largamente vari\u00e1veis de acordo com a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da mulher, de modo que muitas mulheres de classes altas, mesmo que sofram a press\u00e3o social de serem responsabilizadas de maneira desigual por tais tarefas, podem, muitas vezes, deleg\u00e1-las a mulheres mais pobres (para uma an\u00e1lise\u00a0 dessa cr\u00edtica\u00a0 conferir\u00a0Benhabib, 1992, p. 192 et\u00a0seq).\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Partindo das obje\u00e7\u00f5es oriundas da teoria marxista, uma das principais\u00a0cr\u00edticas\u00a0diz respeito\u00a0\u00e0 identifica\u00e7\u00e3o de\u00a0uma concep\u00e7\u00e3o que peca pela ingenuidade pol\u00edtica, ao n\u00e3o dar o devido destaque aos fatores de opress\u00e3o que permeiam as constru\u00e7\u00f5es de g\u00eanero. Uma das manifesta\u00e7\u00f5es de tal falta de aporte pol\u00edtico cr\u00edtico seria, por exemplo, a omiss\u00e3o de uma an\u00e1lise do cuidado como trabalho, sobretudo, como destacar\u00e3o algumas autoras, enquanto trabalho feminino n\u00e3o remunerado \u2013 cr\u00edtica essa \u00e0 qual o trabalho de\u00a0Noddings\u00a0estaria igualmente sujeita. De fato, isso se manifestaria de uma maneira bastante expl\u00edcita nos trabalhos de\u00a0Noddings, por exemplo, no caso de diversas passagens nas quais a rela\u00e7\u00e3o de cuidado da m\u00e3e para com o filho \u00e9 o grande exemplo de moralidade (MacKinnon, 1985, p. 20 et\u00a0seq).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Outro exemplo relativo \u00e0 dificuldade em estabelecer uma moralidade pautada na no\u00e7\u00e3o de cuidado seria o perigo de refor\u00e7ar e elogiar a submiss\u00e3o feminina. Justamente levando em considera\u00e7\u00e3o o contexto pol\u00edtico no qual a atribui\u00e7\u00e3o das tarefas de cuidado \u00e0s mulheres \u00e9 estabelecida, ao menos em parte, atrav\u00e9s de uma imposi\u00e7\u00e3o social, seria\u00a0preciso questionar em que medida a conex\u00e3o entre \u00e9tica do cuidado e moralidade\u00a0<i>tipicamente feminina<\/i>\u00a0n\u00e3o seria perigosa. Dada a seriedade das consequ\u00eancias pol\u00edticas indicadas em rela\u00e7\u00e3o a isso, trata-se de um dos pontos mais fortes das cr\u00edticas endere\u00e7adas \u00e0s propostas de \u00e9tica pautadas na no\u00e7\u00e3o de cuidado (MacKinnon, 1985, p. 21 et\u00a0seq).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Continuando a sistematiza\u00e7\u00e3o das cr\u00edticas \u00e0 \u00e9tica do cuidado, partimos agora para um resumo dos principais argumentos das obje\u00e7\u00f5es oriundas do feminismo l\u00e9sbico.\u00a0Uma das primeiras quest\u00f5es que s\u00e3o apontadas pelas autoras dessa corrente diz respeito \u00e0 no\u00e7\u00e3o da mulher como \u201ccuidadora\u201d, a qual envolve, dentre outros elementos, um estere\u00f3tipo da feminilidade heterossexual. Tamb\u00e9m aqui aparece a no\u00e7\u00e3o do cuidado como ao menos em parte uma imposi\u00e7\u00e3o social, a qual \u00e9, inclusive, muitas vezes um fardo inconfess\u00e1vel para as mulheres, de modo que seria altamente problem\u00e1tico basear uma \u00e9tica na no\u00e7\u00e3o de cuidado sem levar em considera\u00e7\u00e3o de maneira atenta o contexto pol\u00edtico e social (Hoagland, 1991, p. 246 et\u00a0seq).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Outro ponto importante desse conjunto de cr\u00edticas \u00e0 \u00e9tica do cuidado diz respeito \u00e0 no\u00e7\u00e3o de maternidade como principal modelo para a moralidade, como aparece sobretudo no trabalho de\u00a0Noddings. Isso seria problem\u00e1tico uma vez que no relacionamento entre m\u00e3e e filho existe, ao menos durante muito tempo, uma rela\u00e7\u00e3o necessariamente desigual. Haveria, nesse ponto, algo especialmente problem\u00e1tico na argumenta\u00e7\u00e3o de\u00a0Noddings, uma vez que a autora estabelece como um dos crit\u00e9rios para a obriga\u00e7\u00e3o moral justamente a reciprocidade presente no relacionamento. Ora, no caso da rela\u00e7\u00e3o de maternidade trata-se justamente de uma reciprocidade necessariamente limitada e desigual, de modo que mesmo nos termos defendidos por\u00a0Noddings\u00a0haveria um problema em estabelecer a maternidade como modelo moral (Card, 2010, p. 49 et\u00a0seq).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Uma das consequ\u00eancias dessa concep\u00e7\u00e3o diz respeito a correr o risco de refor\u00e7ar a maternidade compuls\u00f3ria. Conforme \u00e9 largamente discutido dentro da teoria feminista, muitas vezes a escolha de ser m\u00e3e n\u00e3o ocorre de maneira inteiramente livre, pois h\u00e1 uma press\u00e3o social bastante forte para que as mulheres decidam em favor da maternidade, do mesmo modo que \u00e9 bastante comum verificar a tend\u00eancia a criticar as mulheres que decidem por n\u00e3o ter filhos. Assim, levando em considera\u00e7\u00e3o tal contexto problem\u00e1tico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 maternidade, seria um problema tratar dessa no\u00e7\u00e3o sem um desenvolvimento maior da quest\u00e3o pol\u00edtica que permeia o tema (Hoagland, 1991, p. 252 et\u00a0seq).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Outro elemento, tamb\u00e9m j\u00e1 indicado pelas autoras ligadas ao marxismo e \u00e0 teoria cr\u00edtica, como vimos, diz respeito \u00e0 no\u00e7\u00e3o de cuidado enquanto trabalho. Especialmente autoras ligadas ao feminismo latino v\u00e3o apontar para o fato de que o trabalho de cuidado deve ser analisado n\u00e3o apenas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tend\u00eancia de ser mal remunerado, mas tamb\u00e9m a partir do recorte de ra\u00e7a e classe necess\u00e1rio para sua compreens\u00e3o. Em rela\u00e7\u00e3o a isso, elas apontam para o fato facilmente verific\u00e1vel de que na maior parte dos casos o trabalho de cuidado \u00e9 realizado por mulheres negras,\u00a0africanas, latinas, asi\u00e1ticas\u00a0e pobres. Al\u00e9m disso, h\u00e1 todo um contexto bastante complicado do ponto de vista da moralidade, uma vez que\u00a0ocorre com frequ\u00eancia\u00a0que\u00a0rela\u00e7\u00f5es de afeto desiguais\u00a0sejam\u00a0estabelecidas nessas atividades, de modo que a separa\u00e7\u00e3o entre o pessoal e o profissional fica dilu\u00edda, por vezes gerando um contexto de explora\u00e7\u00e3o que se utiliza dos sentimentos que foram estabelecidos (Williams, 2001, p. 467 et\u00a0seq).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Outra cr\u00edtica digna de nota diz respeito \u00e0 no\u00e7\u00e3o de reciprocidade e o foco nas rela\u00e7\u00f5es pessoais conforme estabelecido por\u00a0Noddings. Haveria, nesse caso, o risco de individualismo e de exclus\u00e3o de pessoas distantes, uma vez que, como vimos, a autora estabelece de maneira bastante expl\u00edcita ser natural importar-se mais e ter mais obriga\u00e7\u00e3o moral em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas mais pr\u00f3ximas de n\u00f3s. Ora, levando em considera\u00e7\u00e3o o contexto pol\u00edtico de um mundo globalizado com rela\u00e7\u00f5es de trabalho altamente desiguais e explorat\u00f3rias, com problemas envolvendo imigra\u00e7\u00f5es e refugiados e com todo um hist\u00f3rico de coloniza\u00e7\u00e3o, dentre outros fatores, chama aten\u00e7\u00e3o o fato de que uma das consequ\u00eancias poss\u00edveis da interpreta\u00e7\u00e3o do que\u00a0Noddings\u00a0defende \u00e9 a ideia de que seria natural importar-se menos ou ter menos obriga\u00e7\u00e3o moral para com pessoas distantes do nosso entorno imediato, como, por exemplo, estrangeiros, pessoas de outras etnias e ra\u00e7as, praticantes de outras religi\u00f5es, etc. Desse modo, surgem consequ\u00eancias pol\u00edticas bastante nocivas dependendo da maneira como se interpreta a no\u00e7\u00e3o de obriga\u00e7\u00e3o moral a partir do trabalho de\u00a0Noddings\u00a0(Card, 2010, p. 73 et\u00a0seq).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Passando, por fim, para as chamadas \u201ccr\u00edticas p\u00f3s-modernas\u201d, encontramos alguns elementos dignos de nota nas obje\u00e7\u00f5es apresentadas, as quais em parte englobam considera\u00e7\u00f5es mais gerais sobre as bases e fundamentos filos\u00f3ficos assumidos nas formula\u00e7\u00f5es da \u00e9tica do cuidado. A primeira delas diz respeito a um aparente compromisso com uma concep\u00e7\u00e3o r\u00edgida da no\u00e7\u00e3o de \u201cmulher\u201d e de \u201csujeito\u201d. Haveria, por tr\u00e1s das propostas da \u00e9tica do cuidado, uma discuss\u00e3o que gira em torno da chamada\u00a0\u201cl\u00f3gica da identidade\u201d, que pressup\u00f5e a no\u00e7\u00e3o de feminilidade como algo muito mais est\u00e1vel, unit\u00e1rio e identific\u00e1vel do que ela de fato seria (Young, 1986, p. 3 et\u00a0seq).\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">A \u00e9tica do cuidado, portanto, consistiria em uma teoria comprometida com a ideia de uma estabilidade, em verdade artificial, da categoria \u201cmulher\u201d. Tal no\u00e7\u00e3o estaria constitu\u00edda sobretudo a partir do estere\u00f3tipo euroc\u00eantrico de feminilidade, marcado justamente pelos pressupostos da filosofia desenvolvida na Europa. A pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o de\u00a0Gilligan\u00a0de uma \u00e9tica pr\u00f3pria da \u201cvoz feminina\u201d, sem questionar suficientemente em quais grupos sociais suas pesquisas est\u00e3o centradas, demonstra um problema metodol\u00f3gico bastante grave, especialmente se levar em considera\u00e7\u00e3o a falta, como j\u00e1 foi indicado, de um recorte preciso de ra\u00e7a e classe (Flax, 1987, p. 621 et\u00a0seq).\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Assim, o que poderia se verificar tanto nos estudos de\u00a0Gilligan, como tamb\u00e9m no trabalho de\u00a0Noddings\u00a0\u00e9 a falta de uma maior sofistica\u00e7\u00e3o do ponto de vista conceitual em rela\u00e7\u00e3o aos pap\u00e9is de g\u00eanero e ao perigo da\u00a0essencializa\u00e7\u00e3o\u00a0de tais modelos. O fato de n\u00e3o haver uma problematiza\u00e7\u00e3o suficiente desse elemento teria consequ\u00eancias graves para\u00a0a\u00a0teoria da \u00e9tica do cuidado, pois independentemente de as autoras defenderem tal concep\u00e7\u00e3o de moralidade como sendo poss\u00edvel de ser atribu\u00edda tamb\u00e9m a homens, o fato \u00e9 que toda a discuss\u00e3o desenvolvida por elas acabaria por separar a moralidade em \u201cfeminina\u201d e \u201cmasculina\u201d\u00a0refor\u00e7ando, portanto, os estere\u00f3tipos de g\u00eanero e\u00a0essencializar\u00a0as no\u00e7\u00f5es de homem e mulher.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">As defensoras da \u00e9tica do cuidado, por\u00e9m, argumentam\u00a0que\u00a0suas eventuais limita\u00e7\u00f5es seriam falhas pass\u00edveis de corre\u00e7\u00e3o, sem que a base mesma da teoria fosse afetada.\u00a0Para\u00a0elas, a \u00e9tica do cuidado\u00a0surge como uma alternativa,\u00a0ou,\u00a0ao menos,\u00a0um complemento\u00a0significativo diante\u00a0do reducionismo da teoria moral tradicional.\u00a0As diferentes vers\u00f5es da \u00e9tica com base no cuidado\u00a0\u2013 como as duas aqui analisadas \u2013,\u00a0teriam em comum o m\u00e9rito\u00a0de valorizar\u00a0tra\u00e7os morais normalmente negligenciados ou minimizados, como a empatia,\u00a0as emo\u00e7\u00f5es\u00a0e a\u00a0an\u00e1lise contextual\u00a0dos dilemas \u00e9ticos, garantindo\u00a0uma amplia\u00e7\u00e3o\u00a0e maior democratiza\u00e7\u00e3o\u00a0da filosofia moral.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\" data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559731&quot;:708,&quot;335559739&quot;:160,&quot;335559740&quot;:360}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\"><b>Bibliografia<\/b>\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">BENHABIB,\u00a0Seyla.\u00a0(1992). 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