{"id":431,"date":"2020-03-07T01:49:59","date_gmt":"2020-03-07T04:49:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/?page_id=431"},"modified":"2022-04-25T17:45:30","modified_gmt":"2022-04-25T20:45:30","slug":"amy-allen-e-as-reconciliacoes-do-feminismo","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/amy-allen-e-as-reconciliacoes-do-feminismo\/","title":{"rendered":"Amy Allen e as reconcilia\u00e7\u00f5es do feminismo"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-family: Helvetica\"><strong>Por Ingrid Cyfer\u00a0<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Professora do Curso de Ci\u00eancias Sociais da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo\u00a0(UNIFESP) &#8211;\u00a0<a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/7880008426446782\">Lattes<\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\"><strong>E Felipe Gon\u00e7alves Silva\u00a0<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Professor do Departamento de Filosofia da\u00a0\u00a0Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGRS)\u00a0 &#8211;\u00a0<a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/7755019887381708\">Lattes<\/a><\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2020\/03\/PDF-Amy-Allen-e-as-reconcilia\u00e7\u00f5es-do-feminismo.pdf\">PDF &#8211; Amy Allen e as reconcilia\u00e7\u00f5es do feminismo<\/a><\/p>\n<figure id=\"attachment_471\" aria-describedby=\"caption-attachment-471\" style=\"width: 235px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-471 size-medium\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2020\/03\/Allen_BOARESOLU\u00e7\u00c3O-235x300.jpg\" alt=\"\" width=\"235\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2020\/03\/Allen_BOARESOLU\u00e7\u00c3O-235x300.jpg 235w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2020\/03\/Allen_BOARESOLU\u00e7\u00c3O-801x1024.jpg 801w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2020\/03\/Allen_BOARESOLU\u00e7\u00c3O-768x982.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2020\/03\/Allen_BOARESOLU\u00e7\u00c3O.jpg 1040w\" sizes=\"(max-width: 235px) 100vw, 235px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-471\" class=\"wp-caption-text\">Foto dispon\u00edvel no site da Washington State University,<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Amy\u00a0Allen\u00a0(1970)\u00a0\u00e9 professora de filosofia e estudos de g\u00eanero na Universidade Estadual da Pensilv\u00e2nia, sendo considerada uma das fil\u00f3sofas feministas de maior destaque na\u00a0teoria cr\u00edtica\u00a0contempor\u00e2nea. Sua obra encontra-se profundamente marcada pela tentativa de superar cis\u00f5es consideradas intranspon\u00edveis tanto no pensamento feminista quanto na cr\u00edtica social em sentido amplo. Ao inv\u00e9s de concentrar seus esfor\u00e7os no desenvolvimento de um\u00a0sistema\u00a0te\u00f3rico\u00a0inteiramente\u00a0novo e abrangente, a autora busca pavimentar caminhos multilaterais que\u00a0permitam integrar contribui\u00e7\u00f5es\u00a0j\u00e1 existentes, mas tradicionalmente\u00a0conflitantes,\u00a0no interior da teoria e\u00a0da\u00a0pr\u00e1xis feminista.\u00a0 <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Isso pode ser observado em suas principais obras. Em\u00a0<i>The Power\u00a0of\u00a0Feminist\u00a0Theory:\u00a0Domination,\u00a0Resistence\u00a0and\u00a0Solidarity<\/i>\u00a0(1999), Allen busca integrar uma rica variedade de concep\u00e7\u00f5es de poder desenvolvidas no interior do debate te\u00f3rico\u00a0feminista, tecendo interpreta\u00e7\u00f5es capazes de reduzir antagonismos fortes e incompatibilidades consideradas\u00a0at\u00e9 ent\u00e3o\u00a0insuper\u00e1veis. Nesse sentido, a autora procura\u00a0agregar\u00a0posturas te\u00f3ricas t\u00e3o diversas como a teoria da domina\u00e7\u00e3o desenvolvida pelo feminismo radical de\u00a0Carole\u00a0Pateman\u00a0e\u00a0Catharine\u00a0MacKinnon, a \u00e9tica do cuidado de Carol\u00a0Gilligan, o feminismo liberal de Susan\u00a0Okin, a teoria da\u00a0performatividade\u00a0de Judith Butler e a teoria da a\u00e7\u00e3o de Hannah Arendt. Ao longo desse percurso, a autora defende a complementaridade das contribui\u00e7\u00f5es particulares\u00a0de cada uma dessas posturas te\u00f3ricas\u00a0e a supera\u00e7\u00e3o de seus limites\u00a0espec\u00edficos, tendo por resultado a agrega\u00e7\u00e3o dos in\u00fameros modelos observados\u00a0como componentes de uma orienta\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica ecl\u00e9tica e plural, necess\u00e1ria \u00e0 apreens\u00e3o mais rica da experi\u00eancia do poder vivida por mulheres.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Em\u202f<i>The\u00a0Politics\u00a0of\u00a0Ourselves: Power,\u00a0Autonomy\u00a0and\u00a0Gender\u00a0in\u00a0Contemporary\u00a0Critical\u00a0Theory<\/i>\u00a0(2008), encontramos a tentativa de integrar a teoria do poder desenvolvida na obra anterior com preocupa\u00e7\u00f5es te\u00f3rico-normativas centradas na ideia de autonomia. Com isso, Amy Allen procura n\u00e3o apenas conjugar impulsos te\u00f3ricos desagregados na hist\u00f3ria do pensamento feminista como tamb\u00e9m reabilitar um debate te\u00f3rico-pol\u00edtico que, segundo\u00a0sua avalia\u00e7\u00e3o, encontra-se h\u00e1 d\u00e9cadas paralisado por cis\u00f5es perseverantes entre cr\u00edtica normativa e p\u00f3s-estruturalista. A despeito do ecletismo de\u00a0<i>The Power\u00a0of\u00a0Feminist\u00a0Theory<\/i>, Allen concentra-se aqui na dimens\u00e3o subjetiva do poder\u00a0\u2013\u00a0vale dizer,\u00a0no poder como\u00a0<i>sujei\u00e7\u00e3o<\/i>, entendido como o processo ambivalente por meio do qual o sujeito \u00e9 constitu\u00eddo pela \u201csubordina\u00e7\u00e3o a normas disciplinares\u201d, ao mesmo tempo em que nele adquire sua \u201ccapacidade de agir\u201d. (Allen,\u00a02008,\u00a072) A\u00a0autora\u00a0atribui a Judith Butler o impulso definitivo para compreender a sujei\u00e7\u00e3o como processo formador das identidades de g\u00eanero; sobretudo, s\u00e3o encontrados em Butler os recursos te\u00f3ricos melhor\u00a0acabados\u00a0para \u201cum diagn\u00f3stico plaus\u00edvel sobre a subordina\u00e7\u00e3o\u00a0recalcitrante de mulheres\u00a0depois de d\u00e9cadas de\u00a0cr\u00edtica feminista e\u00a0ativismo\u00a0pol\u00edtico\u201d\u00a0(Allen, 2008,\u00a080).\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Entretanto, se Butler confere os recursos te\u00f3ricos mais apropriados a\u00a0um\u00a0<i>diagn\u00f3stico<\/i>\u00a0da subordina\u00e7\u00e3o\u00a0de g\u00eanero,\u00a0atento\u00a0sobretudo\u00a0aos motivos de\u00a0fixa\u00e7\u00e3o da identidade pessoal a normas subordinantes, ele \u00e9 visto como limitado naquilo que se refere ao \u201cesclarecimento das condi\u00e7\u00f5es de possibilidade necess\u00e1rias a uma pr\u00e1tica feminista efetiva de resist\u00eancia individual e coletiva \u00e0 sujei\u00e7\u00e3o\u201d (Allen, 2008,\u00a074). Vale dizer,\u00a0a\u00a0teoria\u00a0butleriana\u00a0do poder acabaria\u00a0transformando sujei\u00e7\u00e3o e subordina\u00e7\u00e3o em categorias indistintas, tratando a subordina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero como uma\u00a0necessidade inelut\u00e1vel e a resist\u00eancia feminista, por sua vez, como uma pr\u00e1tica\u00a0improv\u00e1vel\u00a0ou\u00a0fundamentalmente\u00a0ineficaz. Nesse sentido, Allen defende a necessidade de se combinar o modelo da sujei\u00e7\u00e3o com referenciais normativos dedicados ao delineamento de formas n\u00e3o subordinantes de\u00a0reconhecimento e, sobretudo, \u00e0 expectativa de\u00a0<i>autonomia<\/i>\u00a0delas decorrentes. Para combin\u00e1-las \u00e0 compreens\u00e3o do poder como sujei\u00e7\u00e3o, entretanto, as heran\u00e7as normativas\u00a0dedicadas \u00e0 autonomia pessoal\u00a0t\u00eam de ser depuradas de seus excessos racionalistas \u2013 evitando a expectativa de\u00a0controle\u00a0racional pleno sobre normas, valores e significados que dirigem o comportamento, bem como um modo de\u00a0exerc\u00edcio\u00a0desse controle que sup\u00f5e o distanciamento reflexivo dos sujeito em rela\u00e7\u00e3o a\u00a0seus respectivos\u00a0corpos e\u00a0contextos\u00a0de forma\u00e7\u00e3o. Em fun\u00e7\u00e3o disso, a autora ir\u00e1 se voltar \u00e0\u00a0concep\u00e7\u00e3o de\u00a0<i>Self narrativo<\/i>\u00a0de\u00a0Seyla\u00a0Benhabib,\u00a0cujos desenvolvimentos permitiriam\u00a0manter\u00a0o\u00a0projeto\u00a0de situar e corporificar o self sem\u00a0a anula\u00e7\u00e3o de\u00a0suas\u00a0capacidades\u00a0de\u00a0a\u00e7\u00e3o e\u00a0ju\u00edzo pr\u00e1tico.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Segundo essa concep\u00e7\u00e3o, o\u00a0self \u00e9 considerado n\u00e3o uma ag\u00eancia racional que determina seus campos de a\u00e7\u00e3o por meio de um ju\u00edzo independente de seus corpos e contextos, mas como a\u00a0gera\u00e7\u00e3o de sentido na\u00a0composi\u00e7\u00e3o de uma narrativa pessoal\u00a0que parte\u00a0de recursos simb\u00f3licos que n\u00e3o se domina plenamente. Ao interpretar a c\u00e9lebre frase de Freud \u201co\u00a0eu n\u00e3o \u00e9\u00a0mestre em sua pr\u00f3pria casa\u201d como \u201cnossa casa n\u00e3o \u00e9 apenas habitada por n\u00f3s\u201d (Benhabib,\u00a02017,\u00a0p.\u00a0159),\u00a0Benhabib\u00a0assinala o car\u00e1ter radicalmente intersubjetivo do processo de subjetiva\u00e7\u00e3o. Para Allen, por\u00e9m, o modelo narrativo de\u00a0Benhabib\u00a0n\u00e3o cumpriria completamente a tarefa a que se prop\u00f4s, pois, se de um lado, \u201cconstr\u00f3i o n\u00facleo da identidade como uma habilidade de fazer sentido e n\u00e3o como uma subst\u00e2ncia\u201d, de outro, permaneceria\u00a0preso a resqu\u00edcios racionalistas, uma vez que o n\u00facleo do self seria entendido como uma capacidade de narrar que n\u00e3o \u00e9 ela pr\u00f3pria\u00a0generificada\u00a0(Allen, 2008,\u00a0pp.\u00a0162-3).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Apesar dessas\u00a0cr\u00edticas, Allen n\u00e3o pretende descartar as\u00a0contribui\u00e7\u00f5es\u00a0de\u00a0Benhabib\u00a0e Butler\u00a0para\u00a0suas\u00a0reflex\u00f5es.\u00a0Conforme dito anteriormente, seu projeto \u00e9 antes o de buscar uma reconcilia\u00e7\u00e3o entre\u00a0posi\u00e7\u00f5es a seu ver complementares\u00a0\u2013\u00a0neste caso,\u00a0o potencial explicativo da teoria da subordina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero\u00a0com o \u00edmpeto emancipat\u00f3rio das teorias feministas normativas, retomando um programa que Nancy Fraser havia iniciado na d\u00e9cada de 1980 com seu artigo \u201cFoucault\u00a0on\u00a0Modern\u00a0Power:\u00a0Empirical\u00a0Insights\u00a0and\u00a0Normative\u00a0Confusions\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Em sua obra seguinte,\u00a0<i>The\u00a0End\u00a0of\u00a0Progress:\u00a0Decolonizing\u00a0the\u00a0Normative\u00a0<\/i><i>Foundations\u00a0of\u00a0Critical\u00a0Theory<\/i><i>\u00a0<\/i>(2016), Allen parece se distanciar do tipo de s\u00edntese que buscou em\u00a0<i>The\u00a0Politics\u00a0of\u00a0Ourselves\u00a0<\/i>para<i>\u00a0<\/i>defender uma incorpora\u00e7\u00e3o mais efetiva do pensamento p\u00f3s- e\u00a0decolonial\u00a0na teoria cr\u00edtica contempor\u00e2nea. Mais especificamente, trata-se de combater a ideia de\u00a0<i>progresso<\/i>\u00a0como pressuposto central aos principais modelos normativos da teoria cr\u00edtica mais recente, denunciando nele a persist\u00eancia de resqu\u00edcios imperialistas que alimentariam a compreens\u00e3o de povos\u00a0n\u00e3o-brancos e\u00a0n\u00e3o-europeus como\u00a0civilizatoriamente\u00a0atrasados,\u00a0o que\u00a0justificaria a\u00a0persist\u00eancia\u00a0\u00a0de sua opress\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica: \u201ca linguagem do progresso e do desenvolvimento \u00e9 a linguagem da opress\u00e3o e da domina\u00e7\u00e3o para dois ter\u00e7os da popula\u00e7\u00e3o mundial\u201d (Allen, 2016,\u00a0p.\u00a03).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Apesar de denunciar o imperialismo colonial\u00a0na\u00a0teoria cr\u00edtica, Allen encontra recursos te\u00f3ricos para subvert\u00ea-lo\u00a0no interior dessa mesma heran\u00e7a intelectual, especialmente\u00a0na figura do fil\u00f3sofo\u00a0Theodor\u00a0Adorno.\u00a0Sua leitura de Adorno,\u00a0feita\u00a0\u00e0 luz do pensamento p\u00f3s-colonial,\u00a0busca\u00a0levar adiante\u00a0uma\u00a0concep\u00e7\u00e3o de liberdade que\u00a0nos\u00a0remete\u00a0n\u00e3o \u00e0\u00a0\u201ccapacidade de perseguir um fim\u201d, mas\u00a0\u00e0\u00a0\u201cabertura ao desconhecido\u201d<i>.<\/i>\u00a0Com base nessa concep\u00e7\u00e3o de liberdade, Allen prop\u00f5e um novo m\u00e9todo para a teoria cr\u00edtica: a\u00a0<i>genealogia problematizadora<\/i>\u00a0(Allen, 2016,\u00a0pp.\u00a0204-205). Trata-se de um m\u00e9todo comprometido com o que chama de uma\u00a0\u201cdisposi\u00e7\u00e3o de problematizar nosso ponto de vista\u201d, uma disposi\u00e7\u00e3o de aprender a desaprender, de cultivar uma atitude cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o a nossos pr\u00f3prios comprometimentos normativos.\u00a0Nesse sentido, nem mesmo Adorno e Foucault,\u00a0utilizados como refer\u00eancias\u00a0valiosas\u00a0nesse projeto,\u00a0s\u00e3o poupados da problematiza\u00e7\u00e3o geneal\u00f3gica de seus pressupostos euroc\u00eantricos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Em paralelo ao\u00a0projeto de \u201cdescolonizar a\u00a0teoria cr\u00edtica\u201d, Allen tem direcionado sua pesquisa para\u00a0a\u00a0rela\u00e7\u00e3o entre\u00a0teoria\u00a0cr\u00edtica\u00a0e psican\u00e1lise.\u00a0Partindo da obra de\u00a0Honneth\u00a0(2007), Allen sustenta que a\u00a0teoria cr\u00edtica\u00a0precisa da psican\u00e1lise por duas raz\u00f5es\u00a0fundamentais. A primeira \u00e9 de ordem\u00a0metanormativa\u00a0ou filos\u00f3fico-antropol\u00f3gica, ou seja, diz respeito \u00e0 necessidade de poder contar com uma no\u00e7\u00e3o de pessoa que considere seus conflitos inconscientes, evitando com isso\u00a0\u201ctend\u00eancias direcionadas a um racionalismo excessivo e\u00a0ao\u00a0idealismo moral\u201d (Allen, 2017,\u00a0p.\u00a0201). A segunda raz\u00e3o, por sua vez, \u00e9 de car\u00e1ter explicativo, uma vez que considerada essa no\u00e7\u00e3o\u00a0realista\u00a0de pessoa que a psican\u00e1lise contribui para conceber, a motiva\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica ter\u00e1 de ser\u00a0desenvolvida\u00a0com um repert\u00f3rio\u00a0apropriado a\u00a0sua ambival\u00eancia\u00a0constitutiva, ou seja, de apreender o conflito entre \u201cas for\u00e7as ps\u00edquicas que vinculam\u00a0sujeitos subordinados a modos de identidade (&#8230;) que os subordinam e ferem\u201d (Allen, 2017,\u00a0pp.\u00a0202-3).\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Embora seu modo de compreender o papel da psican\u00e1lise na Teoria Cr\u00edtica seja fortemente inspirado em\u00a0Honneth, Allen distancia-se dele no que se refere \u00e0 escolha da teoria psicanal\u00edtica para esse fim,\u00a0defendendo a\u00a0teoria de\u00a0Melanie Klein\u00a0como a mais produtiva para\u00a0seu modelo cr\u00edtico. Isso porque Allen encontra em Klein uma teoria pulsional em que puls\u00f5es s\u00e3o concebidas \u201ccomo predisposi\u00e7\u00f5es a se relacionar com os outros de certas maneiras \u2013 seja amorosa ou destrutivamente\u201d\u00a0(Allen,\u00a02017).\u00a0Assim, al\u00e9m de n\u00e3o ser reduzida a impulsos antissociais biologicamente determinados, a concep\u00e7\u00e3o\u00a0kleiniana\u00a0de pessoa\u00a0seria\u00a0mais realista,\u00a0na medida em que \u201cseu foco na ambival\u00eancia (&#8230;) nos permite entender as for\u00e7as psicol\u00f3gicas e motivacionais que sustentam tanto o desejo de dominar os outros como o desejo de se submeter \u00e0 domina\u00e7\u00e3o\u201d (Allen, 2017,\u00a0p.\u00a0230).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">A contribui\u00e7\u00e3o de Allen para a Teoria Cr\u00edtica feminista, como se v\u00ea, concentra-se sobretudo em reflex\u00f5es sobre subjetiva\u00e7\u00e3o em um percurso marcado por projetos interdisciplinares que desafiam as fronteiras entre perspectivas epistemol\u00f3gicas rivais. Mas sua porta de entrada nessas discuss\u00f5es foram as teorias feministas sobre poder, nunca efetivamente abandonadas ao longo de sua obra e a partir das quais passaria a problematizar res\u00edduos sexistas, racionalistas e imperialistas na pr\u00f3pria Teoria Cr\u00edtica, explorando com isso novos sentidos e desafios para a continuidade de seu compromisso emancipat\u00f3rio (p<span class=\"TextRun SCXW210977832 BCX0\" lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\" data-contrast=\"auto\"><span class=\"NormalTextRun SCXW210977832 BCX0\" data-ccp-parastyle=\"footnote text\">ara uma recente, mas j\u00e1 acalorada recep\u00e7\u00e3o da autora no Brasil, cf. Frateschi, 2018; Marin, Cyfer, 2018; Mazzei, 2019.)<\/span><\/span>\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\" data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559740&quot;:360}\" data-wac-het=\"1\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\"><b>Bibliografia<\/b>\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Allen, A.\u00a0(1999)\u00a0<i>The Power of Feminist Theory<\/i>. Boulder: Westview Press.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">_____\u00a0<i>The Politics of Our Selves: Power, Autonomy, and Gender in Contemporary Critical Theory<\/i>.\u00a0(2008)\u00a0New York: Columbia University Press.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">_____\u00a0<i>The End of Progress: Decolonizing\u00a0The\u00a0Normativ<\/i><i>e\u00a0Fundations\u00a0of Critical Theor<\/i><i>y\u00a0<\/i>(2016).\u00a0Nova York: Columbia University Press.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">_____. \u201cSomos movidos por puls\u00f5es? Teoria Cr\u00edtica e Psican\u00e1lise Reconsideradas\u201d\u00a0(2017).\u00a0in\u00a0<i>Disson\u00e2ncia<\/i><i>: Revista de Teoria Cr\u00edtica<\/i><i>\u00a0(Dossi\u00ea Teoria Cr\u00edtica e Psican\u00e1lise)<\/i>, n. 1.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Frateschi, Y.\u00a0\u201cSujei\u00e7\u00e3o, emancipa\u00e7\u00e3o e poder: os limites da teoria\u00a0feminista de Amy Allen e da sua alian\u00e7a com Foucault\u201d.\u00a0(2018)\u00a0in Schmidt, A. R., Secco, G.,\u00a0Zanuzzi, I. (orgs.)\u00a0<i>Vozes\u00a0Femininas\u00a0na\u00a0Filosofia<\/i>.\u00a0Porto Alegre, Ed. UFRGS.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Fraser, N.\u00a0\u201cFoucault on Modern Power: Empirical Insights and Normative Confusions\u201d\u00a0[1981] in\u00a0<i>Unruly Practices: Power, Discourse and Gender in Contemporary Social Theory<\/i>.\u00a0University\u00a0of\u00a0Minnesota Press, 1989,\u00a033 .\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Benhabib, S.\u00a0\u201cDiferen\u00e7a\u00a0 sexual\u00a0 e\u00a0 identidades\u00a0 coletivas:\u00a0 a\u00a0 nova\u00a0 constela\u00e7\u00e3o global.\u201d\u00a0(2017).\u00a0Tradu\u00e7\u00e3o de Ana Claudia Lopes.\u00a0<i>Cadernos de Filosofia Alem\u00e3<\/i>, V. 22, n. 4.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Honneth, A. \u201cThe Work of Negativity: A Psychoanalytical\u00a0Revision of the Theory of Recognition.\u201d\u00a0(2007).\u00a0In\u00a0<i>Recognition, Work and Politics: New Directions in French Critical Theory<\/i>, edited by J-P.\u00a0Deranty, D.\u00a0Petherbridge, J. Rundell, and R.\u00a0Sinnerbrink. Leiden: Brill.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Marin, I.; Cyfer, Ingrid (org.)\u00a0<i>Dossi\u00ea Amy Allen<\/i>, in\u00a0<i>Disson\u00e2ncia<\/i><i>: Revista de Teoria Cr\u00edtica.\u00a0<\/i><i>\u00a0<\/i>V. 2, 2018.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\">Mazzei, G. A.,\u00a0<i>O sujeito pol\u00edtico na teoria feminista: articula\u00e7\u00f5es entre poder e autonomia<\/i>.\u00a0(2019).\u00a0Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Filosofia) &#8211;\u00a0UFRGS. Porto Alegre.\u00a0<\/span><span style=\"font-family: Helvetica\"><a href=\"https:\/\/lume.ufrgs.br\/bitstream\/handle\/10183\/196050\/001094605.pdf?sequence=1&amp;isAllowed=y\">https:\/\/lume.ufrgs.br\/bitstream\/handle\/10183\/196050\/001094605.pdf?sequence=1&amp;isAllowed=y<\/a>\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Helvetica\" data-ccp-props=\"{&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559685&quot;:426,&quot;335559991&quot;:426}\" data-wac-het=\"1\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ingrid Cyfer\u00a0 Professora do Curso de Ci\u00eancias Sociais da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo\u00a0(UNIFESP) &#8211;\u00a0Lattes E Felipe Gon\u00e7alves Silva\u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":360,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","inline_featured_image":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"class_list":["post-431","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/431","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/360"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=431"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/431\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":504,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/431\/revisions\/504"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=431"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}