{"id":636,"date":"2020-10-13T19:37:35","date_gmt":"2020-10-13T22:37:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/?page_id=636"},"modified":"2022-04-25T18:05:30","modified_gmt":"2022-04-25T21:05:30","slug":"elisabeth-da-bohemia","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/elisabeth-da-bohemia\/","title":{"rendered":"Elisabeth da Bohemia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(1618 &#8211; 1680)<\/strong> <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Katarina Ribeiro Peixoto, pesquisadora em Hist\u00f3ria da Filosofia no In\u00edcio do Per\u00edodo Moderno (Early Modern Philosophy), vinculada ao Departamento de Filosofia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro &#8211; UERJ &#8211; <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/2097301021486201\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Lattes<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2020\/10\/Verbete-Elisabeth-da-Bohemia.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-656\" style=\"width: NaNpx\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2020\/10\/Verbete-Elisabeth-da-Bohemia.pdf\" alt=\"\">PDF &#8211; Elisabeth da Bohemia<\/a><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"332\" height=\"400\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2020\/10\/image.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-646\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2020\/10\/image.png 332w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2020\/10\/image-249x300.png 249w\" sizes=\"(max-width: 332px) 100vw, 332px\" \/><figcaption>Princesa do Palatinato. The British Museum. n.d. <br>Crispijn van Queborn<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Varia\u00e7\u00f5es no nome: Elisabeth von der Pfalz; Elisabeth von Herford; Princess of The Palatinate; Elisabeth Simmern Van Pallandt; Princesa do Palatinato e Abadessa de Herford. Nascida em Heidelberg, em 26 de dezembro de 1618 e falecida em Herford, em 08 de fevereiro de 1680.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Elisabeth da Bohemia \u00e9 uma fil\u00f3sofa do in\u00edcio do Per\u00edodo Moderno. Nascida em fam\u00edlia real e calvinista, afetada pelos conflitos religiosos e pol\u00edticos que conflagram na Europa nesse per\u00edodo, Elisabeth compartilhou cartas com o c\u00edrculo intelectual vinculado \u00e0 sua fam\u00edlia e ao ambiente de Haia, uma das cidades em que habitou. O tra\u00e7o filos\u00f3fico de seu pensamento aparece na Correspond\u00eancia que manteve com Ren\u00e9 Descartes. Ela passou a ser reconhecida como fil\u00f3sofa h\u00e1 poucos anos, gra\u00e7as ao trabalho de algumas fil\u00f3sofas e historiadoras contempor\u00e2neas da filosofia \u2013 especialmente Lisa Shapiro, Sabrina Ebbersmeyer e Lilli Alanen \u2013 que se dedicaram a estudar o legado de Elisabeth, bem como \u00e0 tarefa de recupera\u00e7\u00e3o das mulheres na Hist\u00f3ria da Filosofia. Elisabeth da Bohemia manteve com Ren\u00e9 Descartes uma correspond\u00eancia longeva, entre 1643 e 1649, que foi chamada por Antonia Lolordo de <em>Oitavas Obje\u00e7\u00f5es e Respostas <\/em>(Lolordo, 2019, p. 69). Descartes dedica a Elisabeth sua obra de maturidade metaf\u00edsica, <em>Princ\u00edpios da Filosofia Primeira<\/em> (1644), e redige o <em>Tratado das Paix\u00f5es da Alma<\/em> (1649) como resultado inconteste da busca por respostas consistentes \u00e0s quest\u00f5es oferecidas por ela ap\u00f3s sua leitura das <em>Medita\u00e7\u00f5es Metaf\u00edsicas<\/em> (1641). Embora pudesse parecer, esta n\u00e3o \u00e9 uma informa\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria, posto que <em>Paix\u00f5es da Alma<\/em> n\u00e3o existiria sem a interlocu\u00e7\u00e3o com Elisabeth \u2013 e, quanto a isso, n\u00e3o h\u00e1 discuss\u00e3o na literatura. A dedicat\u00f3ria ocupa a troca epistolar e marca a virada pr\u00e1tica, de ordem conceitual, que lhe \u00e9 constitutiva. Elisabeth da Bohemia \u00e9 possivelmente a \u00fanica express\u00e3o filos\u00f3fica que realmente influencia Descartes, na troca epistolar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Vida e Forma\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Elisabeth recebeu forma\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica da alta nobreza e se destacou, entre seus doze irm\u00e3os (sendo ela a terceira), como \u201ca grega\u201d, dado o seu interesse em ci\u00eancias e na filosofia grega cl\u00e1ssica. Assumiu fun\u00e7\u00f5es de dirigente do legado familiar e de lideran\u00e7a pol\u00edtica, defendendo minorias religiosas tomadas como alvo das intoler\u00e2ncias clericais da \u00e9poca, como Quakers e Labadistas. Formou-se nos anos em que parte da fam\u00edlia se exilou em Haia, e desenvolveu intensa interlocu\u00e7\u00e3o com um ciclo intelectual ativo e din\u00e2mico na Holanda. Sua express\u00e3o filos\u00f3fica ocorre de maneira inconteste na interlocu\u00e7\u00e3o com Descartes, ap\u00f3s o estudo das <em>Medita\u00e7\u00f5es Metaf\u00edsicas <\/em>(1641), e em fun\u00e7\u00e3o de um quadro de doen\u00e7a. Elisabeth e Descartes se conheceram em Haia e se encontraram regularmente entre os anos de 1643 e 1646, quando ela se viu obrigada a deixar a Holanda. Algumas de suas cartas foram perdidas; a extens\u00e3o da correspond\u00eancia dispon\u00edvel compreende 59 cartas, sendo 33 de Descartes para Elisabeth e 26 cartas da fil\u00f3sofa ao fil\u00f3sofo (Ebbersmeyer 2020, p. 4). Neste verbete, a interlocu\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica de Elisabeth com Descartes foi priorizada. A discuss\u00e3o sobre o c\u00edrculo de Haia ocupou ao menos 2 livros, sobre os quais se pode informar melhor no verbete de Ebbersmeyer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O estudo das Cartas de Descartes a Elisabeth ocupou a literatura, ao passo que a fortuna da contribui\u00e7\u00e3o de Elisabeth foi soterrada pela historiografia. Essa neglig\u00eancia intelectual merece registro, visto que as cartas de Elisabeth foram descobertas no S\u00e9culo XIX e publicadas pela primeira vez em 1876 (Ebbersmeyer 2020, p. 4). O fato de que Elisabeth tenha sido ignorada pela historiografia explicita a precariedade a que o vi\u00e9s pode condenar uma narrativa, e torna o estudo sobre Elisabeth da Bohemia dif\u00edcil. Como se sabe, de 1876 para c\u00e1 a hist\u00f3ria do racionalismo moderno levou muito a s\u00e9rio as Respostas de Descartes a Elisabeth, sobretudo quando foram estudados os problemas da intera\u00e7\u00e3o entre mente e corpo, da uni\u00e3o substancial e as concep\u00e7\u00f5es de movimento. Assim, uma relevante literatura resultou do estudo de respostas a quest\u00f5es ignoradas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Somente a partir da d\u00e9cada de noventa do S\u00e9culo XX, historiadoras da filosofia come\u00e7aram a levar a s\u00e9rio que Descartes n\u00e3o estava em um solil\u00f3quio diante de Elisabeth. Em um per\u00edodo de intensa troca epistolar, no qual as cartas veicularam larga medida a nova filosofia (tanto do racionalismo como do empirismo), n\u00e3o era comum, estranhamente, a mudan\u00e7a de posi\u00e7\u00f5es. Este n\u00e3o foi o caso do impacto que as quest\u00f5es de Elisabeth causaram em Descartes e, por isso, a literatura sobre as Respostas de Descartes \u00e0 fil\u00f3sofa configura um caso paradigm\u00e1tico do vi\u00e9s mis\u00f3gino que contaminou a hist\u00f3ria da filosofia, desafiando a sua seriedade e rigor. Isto ficar\u00e1 demonstrado a seguir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Temas e Conceitos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>1. Explorando o que n\u00e3o est\u00e1 dado: a filosofia de Elisabeth<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Elisabeth n\u00e3o desenvolveu conceitos nem escreveu livros ou poemas. O seu legado intelectual est\u00e1 nas cartas que trocou e na hist\u00f3ria do c\u00edrculo intelectual de Haia. Entretanto, o olhar atencioso para a troca epistolar entre ela e Ren\u00e9 Descartes reconhece nela uma express\u00e3o filos\u00f3fica pr\u00f3pria. E o fato de Elisabeth da Bohemia ter sido a \u00fanica interlocutora que levou Descartes a, sinceramente, dedicar-lhe uma obra, <em>Princ\u00edpios da Filosofia<\/em>, trabalho de maturidade metaf\u00edsica (e n\u00e3o como recurso ir\u00f4nico semelhante \u00e0quele da apresenta\u00e7\u00e3o das <em>Medita\u00e7\u00f5es Metaf\u00edsicas<\/em> ou nos coment\u00e1rios sard\u00f4nicos da abertura do <em>Discurso do M\u00e9todo<\/em>), bem como a fazer um texto no qual busca enfrentar a descoberta e as interpela\u00e7\u00f5es da Princesa \u00e0s implica\u00e7\u00f5es de seu m\u00e9todo, n\u00e3o \u00e9 apenas o que nos deve chamar a aten\u00e7\u00e3o. Elisabeth da Bohemia \u00e9 uma fil\u00f3sofa com envergadura pr\u00f3pria embora n\u00e3o represente uma escola de pensamento nem seja uma cientista. A sua quest\u00e3o, por\u00e9m, revela um achado: uma dificuldade de natureza conceitual das implica\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas do cartesianismo. Ao longo da troca epistolar, na medida em que o di\u00e1logo se torna uma conversa entre pares \u2013 e n\u00e3o um aconselhamento de mestre a disc\u00edpula ou aluna \u2013, os temas fundamentais do pensamento de Elisabeth tornam-se mais claros: a origem da a\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria, a natureza ambivalente das paix\u00f5es da alma e o exerc\u00edcio da liberdade como generosidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>1.1 O \u201cachado\u201d de Elisabeth da Bohemia: qual a natureza das a\u00e7\u00f5es volunt\u00e1rias nas <em>Medita\u00e7\u00f5es<\/em>?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O primeiro tema a ser explorado \u00e9 o \u201cachado\u201d de Elisabeth de uma dificuldade nas implica\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas do m\u00e9todo cartesiano. Isso se torna claro j\u00e1 na primeira carta que origina a troca epistolar. H\u00e1 ao menos duas etapas, at\u00e9 o momento identificadas, na Correspond\u00eancia: a primeira se inicia em 6 de maio de 1643 e a segunda etapa se inicia em agosto de 1645, quando a dedicat\u00f3ria dos Princ\u00edpios come\u00e7a a ser discutida. Elisabeth expressa uma posi\u00e7\u00e3o cartesiana, na medida em que oferece a Descartes duas quest\u00f5es derivadas do seu projeto fundacionalista (Lennon 2011, p. 456) tal como apresentado nas <em>Medita\u00e7\u00f5es<\/em>. Por um lado, n\u00e3o \u00e9 falso dizer que Elisabeth oferece duas quest\u00f5es que podem ser traduzidas assim: \u201cQual a origem da vontade?\u201d e \u201cQual o crit\u00e9rio moral para as minhas a\u00e7\u00f5es?\u201d. Por outro lado, proceder assim pode acarretar um empobrecimento anal\u00edtico, quando n\u00e3o uma perda conceitual, dada a aus\u00eancia de um contexto em que a participa\u00e7\u00e3o dos interlocutores \u00e9 considerada. E, se a hist\u00f3ria da filosofia n\u00e3o pode ser reduzida ao que os fil\u00f3sofos disseram, tampouco se pode pretender faz\u00ea-la recorrendo a uma \u00fanica tecnologia argumentativa. O primeiro tema que Elisabeth da Bohemia introduz \u00e9 o do modo como podemos entender a origem das a\u00e7\u00f5es volunt\u00e1rias sob o dualismo substancial (Ebbersmeyer 2020, p. 5):<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO Senhor poderia por favor me responder como a alma de um ser humano (sendo apenas uma subst\u00e2ncia pensante) pode determinar os esp\u00edritos corp\u00f3reos a fim de levar a cabo a\u00e7\u00f5es volunt\u00e1rias. Pois parece que toda determina\u00e7\u00e3o do movimento \u00e9 feita ou pelo impulso sobre a coisa movida ou [o movimento] \u00e9 impulsionado por aquilo que a move ou, ainda, por qualidades particulares e formas de superf\u00edcies da \u00faltima. O contato f\u00edsico \u00e9 requerido para as primeiras duas condi\u00e7\u00f5es, a extens\u00e3o, para a terceira. Voc\u00ea exclui inteiramente uma da no\u00e7\u00e3o que tem da alma, e as outras parecem incompat\u00edveis com uma coisa imaterial\u201d. (16 de maio de 1643, ATIII, 661, p. 62)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na literatura do s\u00e9culo passado, o sentido dessa quest\u00e3o foi, quando mencionado, posto a servi\u00e7o do esclarecimento do programa de Descartes. Quem teve a oportunidade de entrar em contato com a filosofia cartesiana e com a literatura sabe que as Respostas de Descartes a Elisabeth alimentaram discuss\u00f5es, livros, disserta\u00e7\u00f5es e teses, sobre \u201cno\u00e7\u00f5es primitivas\u201d, intera\u00e7\u00e3o entre mente e corpo e dualismo substancial. \u00c9 como se a pergunta de Elisabeth n\u00e3o apenas fosse irrelevante (ao ponto de n\u00e3o merecer aten\u00e7\u00e3o), como alheia ao que Descartes respondeu. De fato, o que se passou \u00e9 que, na primeira etapa da correspond\u00eancia, Descartes revelou-se alheio a essa quest\u00e3o e Elisabeth dedicou-se a aproveitar todas as respostas que o fil\u00f3sofo deu, mesmo quando n\u00e3o respondeu \u00e0 dificuldade por ela apresentada. Para Lisa Shapiro, a primeira fil\u00f3sofa a investigar o pensamento da pr\u00f3pria Elisabeth, a quest\u00e3o da fil\u00f3sofa est\u00e1 voltada ao problema da uni\u00e3o entre mente e corpo. A partir da primeira carta, a Princesa da Bohemia teria deixado claro que o que est\u00e1 em jogo \u00e9 como alguma coisa imaterial e n\u00e3o extensa pode mover algo material e extenso. Shapiro identifica a posi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica pr\u00f3pria de Elisabeth como nem materialista nem dualista, mas voltada a \u201cencontrar um caminho de respeito da autonomia do pensamento sem negar que essa faculdade da raz\u00e3o \u00e9 em algum modo especialmente dependente de nossa condi\u00e7\u00e3o corporificada (Shapiro 1999, p. 504)\u201d. Para Sabrina Ebbersmeyer, a quest\u00e3o feita por Elisabeth \u00e9 esta: \u201ccomo se pode abordar o problema da intera\u00e7\u00e3o sob as condi\u00e7\u00f5es do dualismo substancial cartesiano?\u201d (Ebbersmeyer 2020, p. 5). O problema seria o da intera\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o o da inteligibilidade da rela\u00e7\u00e3o entre corpo e mente, visto que Elisabeth alinha os pressupostos de sua primeira quest\u00e3o ao mecanicismo cartesiano, que admite o movimento dos corpos por impulso e pela qualidade ou forma ou superf\u00edcie da coisa material.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Daniel Garber, na sua proposta de leitura da intera\u00e7\u00e3o, reformula a quest\u00e3o de Elisabeth como um inqu\u00e9rito sobre a conceptibilidade da rela\u00e7\u00e3o motriz entre alma e corpo, a partir da no\u00e7\u00e3o de movimento na metaf\u00edsica cartesiana, especialmente no <em>Tratado do Mundo<\/em>. Antes de apresentar o seu ponto, entretanto, ele formula a quest\u00e3o assim: \u201cComo \u00e9 poss\u00edvel que uma subst\u00e2ncia imaterial, como a mente, possa concebivelmente agir sobre uma subst\u00e2ncia extensa como o corpo humano?\u201d (Garber 2001, p. 170). O tratamento de Garber fornece uma perspectiva para Descartes responder de maneira consistente \u00e0 quest\u00e3o de Elisabeth que, segundo ele, \u00e9 uma quest\u00e3o sobre a inteligibilidade da intera\u00e7\u00e3o; o fato de que Elisabeth n\u00e3o menciona a teoria cartesiana das ideias parece irrelevante nesta an\u00e1lise. Para Thomas Lennon, de maneira mais pr\u00f3xima ao que Elisabeth parece ter dito, a quest\u00e3o \u00e9 a de como, por meio da <strong>voli\u00e7\u00e3o<\/strong>, a mente \u00e9 capaz de mover o corpo (Lennon 2011, p. 456). Seja como for, o que Elisabeth entendeu e o que ela pensa ser a quest\u00e3o da intera\u00e7\u00e3o entre mente e corpo \u2013 e se e como esta \u00e9 o caso \u2013 s\u00e3o quest\u00f5es que est\u00e3o come\u00e7ando a ser investigadas na literatura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fato de, em mais de cem anos de descoberta das cartas, ter-se quatro leituras distintas da primeira quest\u00e3o de Elisabeth parece sugerir que a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 \u00f3bvia. De fato, a perspectiva de Elisabeth desempenha um papel importante no esclarecimento e na interpreta\u00e7\u00e3o da sua pergunta. Pois ela n\u00e3o inaugura uma discuss\u00e3o doutrin\u00e1ria, ou um inqu\u00e9rito ontol\u00f3gico comum, ou de mesmo tipo daquele levado a cabo nas demais <em>Obje\u00e7\u00f5es e Respostas<\/em>. A dificuldade de Elisabeth \u00e9 compreender, no dom\u00ednio em que a explica\u00e7\u00e3o mecanicista n\u00e3o se aplica \u2013 visto que n\u00e3o h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o de impacto entre corpos em jogo \u2013, o que explica a origem da a\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria. Esta \u00e9 uma quest\u00e3o em acep\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria e n\u00e3o uma d\u00favida ou uma interpela\u00e7\u00e3o doutrin\u00e1ria, digamos, sobre a materialidade da mente ou das ideias (como Gassendi e Hobbes questionam, nas <em>Segundas e Terceiras Obje\u00e7\u00f5es<\/em>, por exemplo). H\u00e1 algumas dificuldades suplementares que comprometem a pacifica\u00e7\u00e3o da literatura quanto ao significado da quest\u00e3o oferecida a Descartes por Elisabeth. A origem das a\u00e7\u00f5es volunt\u00e1rias, no modo como Elisabeth parece dirigir sua investiga\u00e7\u00e3o, parece requerer uma teoria das ideias ou uma representa\u00e7\u00e3o do objeto da vontade. Entretanto, ela n\u00e3o convoca uma teoria das ideias para questionar a origem da a\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria, nem na primeira carta, nem ao longo da correspond\u00eancia. O seu \u201cachado\u201d \u00e9 a identifica\u00e7\u00e3o de um problema que Descartes levar\u00e1 mais de dois anos para reconhecer como tal: qual a rela\u00e7\u00e3o entre minha consci\u00eancia e as minhas a\u00e7\u00f5es volunt\u00e1rias?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>1.2 A natureza ambivalente das paix\u00f5es da alma<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a>A resposta de Descartes n\u00e3o satisfaz a Elisabeth, embora tenha alimentado a ind\u00fastria de coment\u00e1rios internos ao Cartesianismo. \u00c9 poss\u00edvel traduzir a quest\u00e3o de Elisabeth de v\u00e1rias maneiras. <\/a>Em fins de maio de 1643, Descartes responde \u00e0 fil\u00f3sofa com uma teoria das \u201cno\u00e7\u00f5es primitivas\u201d: haveria duas coisas a respeito da mente humana das quais todo o conhecimento que podemos ter de sua natureza dependeria: 1) ela pensa e 2) o fato de estar unida ao corpo faz com que possa agir sobre ele e vice-versa. A resposta de Descartes n\u00e3o satisfaz a Elisabeth, embora tenha alimentado a ind\u00fastria de coment\u00e1rios internos ao Cartesianismo. \u00c9 poss\u00edvel traduzir a quest\u00e3o de Elisabeth de v\u00e1rias maneiras. A a\u00e7\u00e3o do corpo sobre a mente n\u00e3o parece ser o problema que mobiliza Elisabeth, aos olhos de Descartes, mas como a mente tem o poder de mover o corpo. Ent\u00e3o, a resposta se encaminha para o estabelecimento de distin\u00e7\u00f5es entre padr\u00f5es a partir dos quais formamos o nosso conhecimento (AT, III, 665, p. 65). Cada padr\u00e3o lastreia uma no\u00e7\u00e3o primitiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cH\u00e1 apenas muito poucas dessas no\u00e7\u00f5es\u201d, afirma Descartes. \u201cPois, depois das mais gerais \u2013 aquelas de ser, n\u00famero, dura\u00e7\u00e3o, etc. \u2013 as quais se aplicam a tudo o que podemos conceber, n\u00f3s temos, para o corpo em particular, unicamente, a no\u00e7\u00e3o de extens\u00e3o, da qual se seguem as no\u00e7\u00f5es de forma e movimento, e para a alma somente, temos unicamente a no\u00e7\u00e3o de pensamento, na qual est\u00e3o inclu\u00eddas as de percep\u00e7\u00f5es do entendimento e as inclina\u00e7\u00f5es da vontade, e, finalmente, para a alma e o corpo juntos, temos apenas a de sua uni\u00e3o, da qual depende aquela que o poder da alma tem de mover o corpo e o corpo de agir sobre a alma, causando suas sensa\u00e7\u00f5es e paix\u00f5es\u201d. (AT, III, 665, p. 65)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Salvo melhor ju\u00edzo, a\u00ed est\u00e1 a primeira men\u00e7\u00e3o expl\u00edcita de Descartes \u00e0s paix\u00f5es como de alguma maneira correlacionadas ou pertencentes ao mesmo dom\u00ednio que as sensa\u00e7\u00f5es. Ao faz\u00ea-lo, por\u00e9m, Descartes define a paix\u00e3o como o resultado de uma a\u00e7\u00e3o do corpo sobre a alma, demarcando, assim, um dom\u00ednio do que Elisabeth deveria questionar e do que ela n\u00e3o teria entendido. \u00c9 como se a fil\u00f3sofa tivesse, ao usar a express\u00e3o \u201cesp\u00edritos corp\u00f3reos\u201d, confundido os \u201cpadr\u00f5es a partir dos quais se forma o conhecimento\u201d, ao atribuir um modo \u2013 corp\u00f3reo \u2013 a um atributo \u2013 imaterial \u2013, sugerindo uma intera\u00e7\u00e3o n\u00e3o autorizada nas <em>Medita\u00e7\u00f5es<\/em>. A quest\u00e3o da raz\u00e3o pela qual Descartes n\u00e3o foi consistente com o pr\u00f3prio m\u00e9todo ao responder a Elisabeth resta, entretanto, em aberto (para Garber, Descartes n\u00e3o teria sido condescendente, ao passo que para Shapiro, sim). Ele poderia ter respondido seguindo o caminho do sentido do movimento da a\u00e7\u00e3o sobre o corpo como origin\u00e1rio e n\u00e3o lan\u00e7ar m\u00e3o de \u201cno\u00e7\u00f5es primitivas\u201d, um expediente de apar\u00eancia <em>ad hoc<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A literatura secund\u00e1ria costuma passar da carta sobre as no\u00e7\u00f5es primitivas para a abordagem do \u201cproblema dos tr\u00eas c\u00edrculos\u201d. Este problema, que, na \u00e9poca, ocupava os fil\u00f3sofos e ge\u00f4metras, foi enfrentado por Elisabeth. Aqui, a men\u00e7\u00e3o a esta resposta mal endere\u00e7ada deve ser feita porque Elisabeth, em que pese Descartes tenha julgado que exigiu demais dela, ofereceu uma solu\u00e7\u00e3o alg\u00e9brica para o problema (Ebbersmeyer 2020, p. 6; Verbeek et.al. 2003, pp. 206-211). A). A solu\u00e7\u00e3o, reconstru\u00edda por Verbeek, \u00e9 levada a cabo indiretamente, visto que sua fonte origin\u00e1ria foi perdida e o autor conta com a informa\u00e7\u00e3o relativa \u00e0 forma\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica da Princesa (Ebbersmeyer 220, p. 6). Com efeito, se ela respondeu e ofereceu uma solu\u00e7\u00e3o alg\u00e9brica para o problema da intersec\u00e7\u00e3o que faria as vezes da uni\u00e3o como no\u00e7\u00e3o primitiva (o que, de resto, aniquilaria as dificuldades do dualismo substancial, no que concerne \u00e0 possibilidade de intera\u00e7\u00e3o, em um inqu\u00e9rito ontol\u00f3gico), isso \u00e9 irrelevante diante do fato de que a sua quest\u00e3o n\u00e3o versa sobre a intera\u00e7\u00e3o <em>per se<\/em>, mas sobre as paix\u00f5es da alma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Elisabeth introduz um adjetivo: ela menciona \u201cesp\u00edritos corp\u00f3reos\u201d. Se o uso deste adjetivo est\u00e1, ou n\u00e3o, mal situado, \u00e9 um problema que restou em aberto e que ainda ocupa a literatura; afinal, esta discuss\u00e3o se inscreve no programa metaf\u00edsico racionalista e requer uma leitura do argumento da distin\u00e7\u00e3o real (AT, VII, 78) na Sexta Medita\u00e7\u00e3o. O argumento da distin\u00e7\u00e3o real \u00e9 este: \u201cEu sei que tudo aquilo que concebo clara e distintamente \u00e9 capaz de ser criado por Deus de maneira que corresponda exatamente ao meu entendimento disso. Portanto, o fato de que eu posso clara e distintamente entender uma coisa apartada da outra \u00e9 o suficiente para me tornar certo de que as duas coisas s\u00e3o distintas, na medida em que ambas podem ser separadas, ao menos por Deus\u201d. Este racioc\u00ednio abre caminhos de interpreta\u00e7\u00e3o. A distin\u00e7\u00e3o entre mente e corpo \u00e9 uma distin\u00e7\u00e3o entre o modo como os concebemos ou \u00e9 uma distin\u00e7\u00e3o real, quer dizer, entre coisas distintas fora e independentemente do pensamento? Qual o sentido de \u201creal\u201d, a\u00ed empregado? O que \u00e9 distin\u00e7\u00e3o? Essas s\u00e3o quest\u00f5es t\u00e9cnicas que a quest\u00e3o de Elisabeth suscita, e ainda est\u00e1 para ser feita uma reconstru\u00e7\u00e3o desse argumento de acordo com a sua perspectiva. O que parece ser relevante \u00e9 que a quest\u00e3o de Elisabeth revela, ao menos at\u00e9 agosto de 1645, que h\u00e1 um grau de incomensurabilidade operando entre os interlocutores nesta primeira etapa da troca epistolar, o qual, n\u00e3o sem raz\u00e3o, levanta a suspeita da exist\u00eancia mesma de um di\u00e1logo filos\u00f3fico em curso (Alanen 2004).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na carta de 10 de junho de 1643, ap\u00f3s ponderar sobre a teoria cartesiana das tr\u00eas no\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m sobre em que teria fracassado, ela insiste ao dizer que aguarda que ele lhe responda qual a \u201cnatureza de uma subst\u00e2ncia imaterial e dos modos de suas a\u00e7\u00f5es e paix\u00f5es no corpo\u201d (AT, III, 685, p. 8). E, em 01 de julho do mesmo ano, Elisabeth parece reformular, com \u00eanfase epist\u00eamica, a sua primeira quest\u00e3o, considerando e tirando proveito das no\u00e7\u00f5es primitivas:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEu tamb\u00e9m penso que os sentidos me mostram que a alma move o corpo, <strong>mas eles n\u00e3o me ensinam nada<\/strong> (n\u00e3o mais do que o entendimento e a imagina\u00e7\u00e3o) a respeito do modo como o fazem. Por esta raz\u00e3o, eu penso que h\u00e1 algumas propriedades da mente, as quais s\u00e3o desconhecidas por n\u00f3s, que poderiam talvez inverter o que as suas <em>Medita\u00e7\u00f5es Metaf\u00edsicas<\/em> me persuadiram por esta boa raz\u00e3o: a <em>n\u00e3o-extensionalidade<\/em> da mente. Esta d\u00favida parece ser encontrada na regra que voc\u00ea fornece l\u00e1, ao falar do verdadeiro e do falso, de que todo erro nos ocorre ao formar ju\u00edzos a respeito daquilo que n\u00e3o percebemos bem o suficiente\u201d. (AT, IV, 2-3, p. 72, minha \u00eanfase)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A afirma\u00e7\u00e3o acima abre o caminho para o tratamento da natureza das paix\u00f5es como uma quest\u00e3o mental e pr\u00e1tica. Na carta de julho de 1644, Descartes envia a Elisabeth a dedicat\u00f3ria dos <em>Princ\u00edpios<\/em>, a ela endere\u00e7ada. E, em sua resposta, mais do que um gesto de gratid\u00e3o, pode-se apreender a natureza pr\u00e1tica de seu pensamento:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cOs pedantes v\u00e3o dizer que voc\u00ea foi for\u00e7ado a construir uma nova moralidade a fim de me tornar digna dela. Mas <em>eu tomo esta moralidade como uma regra de minha vida, sentindo-me apenas no primeiro est\u00e1gio do que voc\u00ea aprova l\u00e1, a vontade de informar meu entendimento e de seguir o bem que ele conhece. <\/em>(&#8230;)\u201d (AT, IV, 132, p. 83, minha \u00eanfase)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este agradecimento articula as duas etapas da troca epistolar. A primeira \u00e9 aquela que Elisabeth chama de \u201cregra de vida\u201d, informar o entendimento, e a segunda, seguir o bem que ele conhece. \u00c9 preciso, todavia, prestar aten\u00e7\u00e3o ao papel que a perspectiva de Elisabeth tem na articula\u00e7\u00e3o dessas duas etapas, para que o modo como ela concebe as paix\u00f5es n\u00e3o se confunda com uma sensa\u00e7\u00e3o. O fato \u00e9 que somente ap\u00f3s dois anos de troca epistolar Descartes leva a s\u00e9rio um dado que lhe foi informado pela fil\u00f3sofa j\u00e1 na primeira carta. Na carta de maio de 1645, Descartes diz que recebeu com surpresa as cartas de Pollot, na qual constava a informa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 expl\u00edcita no fim da primeira carta, de Elisabeth estava doente h\u00e1 bastante tempo. A fil\u00f3sofa se despede assim, ap\u00f3s elaborar a sua primeira quest\u00e3o: \u201cSabendo que voc\u00ea \u00e9 <strong>o melhor m\u00e9dico para a minha alma<\/strong>, eu lhe exponho com bastante liberdade a fraqueza das especula\u00e7\u00f5es dela, e espero que, em observ\u00e2ncia ao <strong>juramento hipocr\u00e1tico<\/strong>, voc\u00ea venha a me suprir com rem\u00e9dios sem torn\u00e1-las p\u00fablicas, de modo que lhe pe\u00e7o discri\u00e7\u00e3o e que as guarde para si.\u201d (AT, III, 662, p. 62, minhas \u00eanfases)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em junho de 1645 Descartes menciona que o principal contentamento depende apenas da pr\u00f3pria pessoa (AT, IV, 224, p. 93). A discuss\u00e3o se segue com digress\u00f5es sobre o estado de sa\u00fade de Elisabeth, at\u00e9 que Descartes, em 21 de julho de 1645, recomenda a leitura de <em>A Vida Beata<\/em>, de S\u00eaneca. A presen\u00e7a do estoicismo latino (ou do neoestoicismo) no in\u00edcio do per\u00edodo moderno \u00e9 incontroversa (Schliesser 2017; Sellars 2020) e, como o programa filos\u00f3fico de Descartes n\u00e3o \u00e9 <em>prima facie<\/em> de natureza moral, o fil\u00f3sofo pode ter considerado este um caminho poss\u00edvel de ajuda a sua amiga. Isso quer dizer que Descartes n\u00e3o estava, durante mais de dois anos de troca epistolar, atento ao escopo das implica\u00e7\u00f5es conceituais pr\u00e1ticas de seu m\u00e9todo, at\u00e9 ser convocado a faz\u00ea-lo, por Elisabeth. Pois, em 16 de agosto de 1645, a filosofia de Elisabeth come\u00e7a a se manifestar em toda a sua clareza, quando ela responde \u00e0 sugest\u00e3o de Descartes:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cAo examinar o livro que voc\u00ea me recomendou, encontrei algumas partes boas e senten\u00e7as bem concebidas para me dar um tema para uma medita\u00e7\u00e3o agrad\u00e1vel, <strong>mas n\u00e3o para me instruir a respeito daquilo que pretende tratar. Pois elas s\u00e3o escritas sem m\u00e9todo,<\/strong> e o autor faz outra coisa que aquela com a qual se compromete. Em vez de demonstrar o caminho mais curto para a verdadeira felicidade, ele se contenta em revelar que sua riqueza e lux\u00faria n\u00e3o o impedem de alcan\u00e7\u00e1-la. Isso sou obrigada a escrever para voc\u00ea, assim voc\u00ea n\u00e3o achar\u00e1 que tenho esta opini\u00e3o por pregui\u00e7a ou preconceito. Eu n\u00e3o pe\u00e7o sen\u00e3o que voc\u00ea continue a corrigir S\u00eaneca. <em>Eu o fa\u00e7o, n\u00e3o porque a sua maneira de raciocinar \u00e9 a mais extraordin\u00e1ria, mas porque \u00e9 a mais natural<\/em> que encontrei e parece ensinar-me nada de novo, mas, em vez disso, permite-me tirar de minha mente os peda\u00e7os de conhecimento que ainda n\u00e3o apreendi\u201d, (AT, IV, 269, minhas \u00eanfases)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s contrapor o seu tratamento das paix\u00f5es \u00e0quele que atribui a S\u00eaneca, recorrendo \u00e0 moral provis\u00f3ria da Terceira Parte do <em>Discurso do M\u00e9todo<\/em>, Descartes introduz uma distin\u00e7\u00e3o. A busca da felicidade, segundo o fil\u00f3sofo, depende de uma certa indiferen\u00e7a dos eventos externos e dos pensamentos negativos. Livrar-se das paix\u00f5es e dos apetites seria condi\u00e7\u00e3o do exerc\u00edcio da racionalidade. Em 13 de setembro de 1645, Elisabeth pondera sobre o v\u00ednculo entre o conhecimento racional que teria de ser suficiente para a a\u00e7\u00e3o virtuosa e a perfectibilidade dessa a\u00e7\u00e3o. Se o que \u00e9 requerido \u00e9 um conhecimento ou um uso refletido da raz\u00e3o, quando n\u00e3o seria necess\u00e1rio ter uma \u201cci\u00eancia infinita\u201d para agir virtuosamente? Essa busca por um crit\u00e9rio pr\u00e1tico est\u00e1 na raiz da busca por uma defini\u00e7\u00e3o de paix\u00e3o, a partir da pondera\u00e7\u00e3o sobre o seu estatuto ambivalente, que Elisabeth faz ao final desta carta:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEu tamb\u00e9m gostaria de ver voc\u00ea definir as paix\u00f5es, a fim de conhec\u00ea-las melhor. Pois aqueles que chamam as paix\u00f5es perturba\u00e7\u00f5es da mente persuadiriam a mim que a for\u00e7a das paix\u00f5es consiste apenas em sobrepujar e sujeitar a raz\u00e3o, caso a experi\u00eancia n\u00e3o me mostrasse que <strong>h\u00e1 paix\u00f5es que nos levam a a\u00e7\u00f5es racionais<\/strong>. Mas estou segura que o senhor lan\u00e7ar\u00e1 mais luz a esse respeito, quando explicar como a for\u00e7a das paix\u00f5es as torna mais \u00fatil quando elas est\u00e3o sujeitas \u00e0 raz\u00e3o\u201d (AT, IV, 290, minha \u00eanfase).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>1.3 Liberdade como generosidade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A descoberta de um eventual tra\u00e7o construtivo nas <em>Paix\u00f5es da Alma<\/em> leva Elisabeth e Descartes ao di\u00e1logo sobre a rela\u00e7\u00e3o entre vontade, paix\u00e3o e liberdade. Agora, com as posi\u00e7\u00f5es e perspectivas entre ambos demarcadas e reconhecidas, \u00e9 poss\u00edvel e filosoficamente promissor olhar de volta para a primeira quest\u00e3o e encontrar o elo entre a natureza da vontade e a rela\u00e7\u00e3o desta com as paix\u00f5es e com o conhecimento e, com mais for\u00e7a, a eventual presen\u00e7a, no cartesianismo, de uma teoria da prud\u00eancia, derivada ou incitada por Elisabeth. Al\u00e9m do lamento e da tristeza com os destinos de sua fam\u00edlia, a fil\u00f3sofa da Bohemia est\u00e1 presa a afazeres que a impedem de exercer livremente os preceitos de apar\u00eancia neoestoicas que requerem uma indiferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao mundo exterior. Elisabeth parece considerar que n\u00e3o \u00e9 pr\u00e1tico dissociar-se dos sentidos e da imagina\u00e7\u00e3o, porque em momento algum, apesar da envergadura de suas reflex\u00f5es filos\u00f3ficas, desloca-se de sua posi\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica. (AT, IV, 233). A discuss\u00e3o sobre a vontade \u00e9, al\u00e9m de uma discuss\u00e3o sobre a a\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria, um debate de fundo sobre a natureza e o horizonte da liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas <em>Paix\u00f5es da Alma<\/em>, Descartes aborda de maneira consistente a rela\u00e7\u00e3o entre paix\u00e3o e raz\u00e3o, na linha aberta por Elisabeth. Ele o faz por meio da no\u00e7\u00e3o de generosidade. A generosidade \u00e9 definida como o sentimento apaixonado de autoestima que deriva de nosso conhecimento de nossa vontade sob o controle de nossa vontade livre, quando decidimos agir de acordo com a raz\u00e3o (AT, XI, 446). A formula\u00e7\u00e3o de Descartes \u00e9 amb\u00edgua e pede reflex\u00e3o e pesquisa. A generosidade \u00e9 origin\u00e1ria ou \u00e9 derivada da liberdade? N\u00e3o h\u00e1 acordo algum na literatura a esse respeito (Shapiro 2011), esta \u00e9 uma quest\u00e3o em aberto. Elisabeth lega esta quest\u00e3o, <em>qua<\/em> quest\u00e3o, do problema da objetividade moral no racionalismo do per\u00edodo moderno inicial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>2. Horizontes de pesquisa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Elisabeth da Bohemia abriu uma via de tratamento do projeto cartesiano no dom\u00ednio pr\u00e1tico, epist\u00eamico e psicol\u00f3gico, sem precedentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>2.1. Na filosofia do in\u00edcio do per\u00edodo moderno<\/strong>, que vai de Justus Lipsius (1547\u20131606) a Immanuel Kant (1724\u20131804) (Sellars 2020), a Correspond\u00eancia de Elisabeth da Bohemia com Ren\u00e9 Descartes (1643-1649) oferece um manancial de temas e conceitos a serem pesquisados. Entre eles est\u00e3o: a rela\u00e7\u00e3o entre entendimento e vontade; a rela\u00e7\u00e3o entre vontade e liberdade, na Quarta Medita\u00e7\u00e3o, a partir da leitura de Elisabeth; a rela\u00e7\u00e3o entre mente e corpo e a constitui\u00e7\u00e3o de um conceito de autoconsci\u00eancia, no Racionalismo; a origem de uma concep\u00e7\u00e3o fenomenol\u00f3gica de consci\u00eancia, no pensamento de Elisabeth; a intencionalidade em Elisabeth da Bohemia; a rela\u00e7\u00e3o entre generosidade e liberdade; o conflito entre liberdade como indiferen\u00e7a e delibera\u00e7\u00e3o; a extens\u00e3o da mente e as paix\u00f5es, no Cartesianismo; a origem ou o nascimento da psicologia como terap\u00eautica, no Cartesianismo; a rela\u00e7\u00e3o entre o neoestoicismo ou o epicurismo, em Elisabeth da Bohemia. Tamb\u00e9m merece aten\u00e7\u00e3o a discuss\u00e3o sobre lux\u00faria e moralidade na riqueza, um tema que contribui para a recusa de Elisabeth do programa \u00e9tico de S\u00eaneca. A concep\u00e7\u00e3o contextualista de moralidade e a teoria da prud\u00eancia que a Princesa da Bohemia parece advogar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>2.2 Na filosofia do feminismo<\/strong> a Correspond\u00eancia de Elisabeth e Descartes \u00e9 um caso paradigm\u00e1tico de investiga\u00e7\u00e3o. \u00c9 incontorn\u00e1vel o ceticismo diante de uma literatura voltada a analisar respostas a quest\u00f5es ignoradas, como a literatura cartesiana do S\u00e9culo XX. O ceticismo, neste caso, \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o feminista em acep\u00e7\u00e3o rigorosa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>2.3 No ativismo feminista<\/strong>, vale considerar o esfor\u00e7o que intelectuais mulheres ou intelectuais que n\u00e3o caem sob os crit\u00e9rios de ser homem, branco, cis e europeu, tiveram de empreender, na hist\u00f3ria, para serem levadaos a s\u00e9rio. E n\u00e3o apenas quando vivem sob condi\u00e7\u00f5es materiais prec\u00e1rias. Como se p\u00f4de ler acima, Elisabeth da Bohemia, mesmo sob intensas priva\u00e7\u00f5es, nunca foi pobre e n\u00e3o lhe faltou acesso ao que o seu intelecto buscou. Ainda assim, ela levou mais de dois anos respondendo, analisando, resolvendo problemas, sem que Descartes tenha se dado conta da perspectiva dela. E foi preciso um outro homem, Pollot, comunicar a Descartes acerca da condi\u00e7\u00e3o de sa\u00fade de Elisabeth, que ela comunicara dois anos antes, para o di\u00e1logo de fato se tornar uma conversa entre pares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>3. Bibliografia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Descartes, R. (1964-76).<em> Ouvres de Descartes<\/em>, ed. Charles Adam e Paul Tannery, 12 vols. Paris: CNRS\/Vrin.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>___________. <\/em>(2007)<em> The Correspondence Between Princess Elisabeth of Bohemia and Ren\u00e9 Descartes.<\/em> L. Shapiro (Ed. e Trad), Chicago, Chicago University Press.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alanen, L. (2004). Descartes and Elisabeth: a Philosophical Dialogue?<em> In: L. Alanen &amp; C. Witt (Eds), Feminist Reflections on the History of Philosophy <\/em>(pp. 193-218), Dordrecht, Holland, Kluwer Academic Publishers.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ebbersmeyer, S. (2020) <em>Bohemia, Elisabeth of<\/em>. Entry, In: D. Jalobeanu, C.T.Wolfe (Eds) Encyclopedia of Early Modern Philosohpy and the Sciences, Springer DOI: https:\/\/doi.org\/10.1007\/978-3-319-20791-9_409-1<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Garber, D. (2001). Understanding Interaction: What Descartes Should Have Told Elisabeth<em>. <\/em>In:<em> Descartes Embodied: Reading Cartesian Philosophy through Cartesian <\/em>Science (pp. 168-188), Cambridge, Cambridge University Press.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lennon, T. (2011). O Legado de Descartes no S\u00e9culo XVII: problemas e pol\u00eamicas.In:J. Bourghton e J. Carriero (Eds)<em> Descartes.<\/em> (pp. 452-465) Porto Alegre, Penso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lolordo, A. (2019). Descarte\u2019s Philosophy of Mind and its Early Critics<em>. <\/em>In: R. Copenhaver (Ed), <em>Philosophy in the Early Modern and Modern Ages: The history of Philosophy of Mind<\/em>, 4. (pp. 69-90) New York, Routledge.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Shapiro, L. (1999). Princesss Elizabeth and Descartes: The Union of Soul and Body and the Practice of Philosophy<em>. British Journal for the History of Philosophy,<\/em> 7 (pp. 503-520).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">________. (2011) A \u00c9tica de Descartes<em>. <\/em>In:J. Bourghton e J. Carriero (Eds)<em> Descartes.<\/em> (pp. 433-451). Porto Alegre, Penso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Schliesser, E. (2017). On four methods of doing history of philosophy and the way Spinozism encouraged them.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">In: <a href=\"https:\/\/digressionsnimpressions.typepad.com\/digressionsimpressions\/2017\/08\/on-four-methods-of-doing-history-of-philososphy-and-the-way-spinozism-encouraged-them.html\">https:\/\/digressionsnimpressions.typepad.com\/digressionsimpressions\/2017\/08\/on-four-methods-of-doing-history-of-philososphy-and-the-way-spinozism-encouraged-them.html<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sellars, J. (2020) Stoicism. In: D. Jalobeanu, C.T.Wolfe (Eds), <em>Encyclopedia of Early Modern Philosophy and the Sciences<\/em>., Springer. https:\/\/doi.org\/10.1007\/978-3-319-20791-9_10-1<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Verbeek. T., Bos E-J, van de Ven J. (2003). <em>The Correspondence of Ren\u00e9 Descartes 1643<\/em>. Zeno Institute for Philosophy, Ultrecht.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(1618 &#8211; 1680) Por Katarina Ribeiro Peixoto, pesquisadora em Hist\u00f3ria da Filosofia no In\u00edcio do Per\u00edodo Moderno (Early Modern Philosophy),<\/p>\n","protected":false},"author":360,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","inline_featured_image":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"class_list":["post-636","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/636","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/360"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=636"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/636\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":666,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/636\/revisions\/666"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=636"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}