{"id":716,"date":"2020-11-05T13:25:16","date_gmt":"2020-11-05T16:25:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/?page_id=716"},"modified":"2020-11-05T18:09:06","modified_gmt":"2020-11-05T21:09:06","slug":"sonia-viegas","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/sonia-viegas\/","title":{"rendered":"S\u00f4nia Viegas"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>(1945 \u2013 1989)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por Miriam Campolina Diniz Peixoto<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Professora do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) \u2013 <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/4876806532896462\">Lattes<\/a>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2020\/11\/Sonia-Viegas.pdf\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-721\" style=\"width: NaNpx\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2020\/11\/Sonia-Viegas.pdf\" alt=\"\">PDF &#8211; S\u00f4nia Viegas<\/a><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"321\" height=\"157\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2020\/11\/sonia.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-717\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2020\/11\/sonia.jpg 321w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2020\/11\/sonia-300x147.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 321px) 100vw, 321px\" \/><figcaption>Arquivo: foto de fam\u00edlia<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>S\u00f4nia Maria Viegas de Andrade, ou simplesmente S\u00f4nia Viegas, como era mais conhecida, nasceu em Belo Horizonte, em 7 de agosto do ano de 1944. Quarta filha de uma fam\u00edlia de 7 filhos, seu pai, Geraldo Viegas, era dentista, e sua m\u00e3e, Maria da Concei\u00e7\u00e3o Viegas, dividia seu tempo entre os afazeres dom\u00e9sticos e a costura. Desde muito pequena, ela j\u00e1 demonstrava os tra\u00e7os de uma personalidade ao mesmo tempo reflexiva e perspicaz, como testemunha um epis\u00f3dio ocorrido nos seus primeiros anos de escola, quando tinha seis anos de idade. Quando foi solicitado aos alunos que ilustrassem um milagre de Jesus ainda menino, sem se deixar intimidar perante o desafio, S\u00f4nia Viegas contentou-se em desenhar uma \u2018trouxinha\u2019 de gente enfaixada e colorida de azul e amarelo num pequeno c\u00edrculo que disse ser a cama do menino Jesus. E sob o desenho escreveu: \u2018\u00c9 muito pequeno. Ainda n\u00e3o pode fazer milagres\u2019.\u201d (VIEGAS, 2009a, p. 185). Leitora voraz de Monteiro Lobato, S\u00f4nia venceu um concurso promovido pela TV Itacolomi, ao responder ao vivo a uma s\u00e9rie de perguntas sobre o autor e sua obra. Esses s\u00e3o alguns flashes de sua inf\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1963, aos dezoito anos de idade, ela ingressou no curso de Filosofia da Faculdade de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais, e no ano de 1966 obteve concluiu o bacharelado e a licenciatura em Filosofia. Neste per\u00edodo conheceu Lu\u00eds Aureliano Gama de Andrade, seu colega, com quem se casou em 1966 e viveu at\u00e9 1974, quando se separaram. Com ele teve duas filhas g\u00eameas, \u00c2ngela e M\u00f4nica.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo de sua forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, S\u00f4nia Viegas teve contato com o pensamento de grandes fil\u00f3sofos e com as principais tradi\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria da filosofia. Neste per\u00edodo, a jovem estudante p\u00f4de assentar a s\u00f3lida base que deu suporte \u00e0s investidas da intelectual perspicaz que a singularizou entre seus pares. Estes anos de forma\u00e7\u00e3o vieram a incrementar a sensibilidade \u00edmpar e grande capacidade de compreens\u00e3o que lhe eram pr\u00f3prias, conformando a refinada int\u00e9rprete e desenvolvendo sua compet\u00eancia argumentativa, que a qualificaram a ocupar o lugar de destaque que foi o seu nos meios acad\u00eamico e cultural da cidade.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Dois professores exerceram sobre ela uma forte influ\u00eancia. Henrique Cl\u00e1udio de Lima Vaz, o Padre Vaz, que veio a se tornar um grande amigo e um fiel interlocutor durante toda a sua vida, despertou o seu interesse pela Fenomenologia e orientou seu pensamento na dire\u00e7\u00e3o&nbsp; dos horizontes descortinados pelas suas reflex\u00f5es no campo da filosofia da cultura e da antropologia. Moacyr Laterza, professor que viria a orientar sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado e a tornar-se seu companheiro, proporcionou a S\u00f4nia Viegas o contato com a est\u00e9tica, com a filosofia da arte e com o pensamento dos fil\u00f3sofos existencialistas. Essas duas figuras, de personalidades t\u00e3o diferentes, forneceram a S\u00f4nia Viegas os ingredientes fundamentais que engendraram o seu pensamento, concorreram para que ela definisse o seu campo de investiga\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o e elaborasse uma concep\u00e7\u00e3o pessoal do exerc\u00edcio e do ensino da filosofia. Ela acreditava na pot\u00eancia e no alcance da interroga\u00e7\u00e3o e da reflex\u00e3o filos\u00f3ficas como experi\u00eancias capazes de fomentar a vida humana e a cultura em geral.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo de sua trajet\u00f3ria acad\u00eamica, S\u00f4nia Viegas percorreu as veredas abertas por mais de 2500 anos de hist\u00f3ria da filosofia, experimentando-se como pensadora e se deixando interpelar por obras e tradi\u00e7\u00f5es. Ela recolheu tudo aquilo que lhe pareceu \u00fatil para ampliar a sua percep\u00e7\u00e3o e compreens\u00e3o do mundo e desenvolver as compet\u00eancias e habilidades necess\u00e1rias ao exerc\u00edcio da filosofia e da doc\u00eancia. Empreendeu um di\u00e1logo vivo e radical com a cultura de todos os tempos e as suas mais variadas express\u00f5es, aliando sempre \u00e0 lucidez e rigor, a intui\u00e7\u00e3o e a criatividade, na abordagem das grandes e recorrentes quest\u00f5es que povoam o universo da experi\u00eancia e da exist\u00eancia humanas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1977, ela defendeu sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado: A palavra po\u00e9tica e a palavra filos\u00f3fica no Grande Sert\u00e3o: Veredas. Sua disserta\u00e7\u00e3o recebeu em 1984, em um Concurso Nacional de Literatura promovido pela prefeitura de Belo Horizonte, o pr\u00eamio \u201cCidade de Belo Horizonte\u201d na categoria \u201cEnsaio\u201d. Em 1985, ap\u00f3s um lento e intenso per\u00edodo de \u201cfermenta\u00e7\u00e3o\u201d que resultou no aprimoramento possibilitado pela permanente reflex\u00e3o sobre o tema, ela foi publicada com o t\u00edtulo: A vereda tr\u00e1gica do Grande Sert\u00e3o: Veredas (Edi\u00e7\u00f5es Loyola).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1986 foi diagnosticada com um c\u00e2ncer. Os \u00faltimos anos de sua vida foram marcados pela luta contra essa doen\u00e7a que, embora tenha debilitado o seu vigor f\u00edsico, n\u00e3o reduziu a energia e a vitalidade com que se entregava ao trabalho intelectual. A sua sensibilidade, lucidez e perspic\u00e1cia intelectuais eram a cada dia mais not\u00e1veis. Ap\u00f3s mais de um ano de tratamento, veio a recidiva da doen\u00e7a. Nesta ocasi\u00e3o ela compartilhou em carta a um amigo o seu sentimento e as suas resolu\u00e7\u00f5es diante da doen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Vou aprender a selecionar as coisas essenciais, os momentos essenciais, os prazeres essenciais, as ocupa\u00e7\u00f5es essenciais. Vou fazer dessa dif\u00edcil caminhada que come\u00e7o agora uma aprendizagem de melhoria de qualidade de vida e de depura\u00e7\u00e3o do sentimento em verdade. [&#8230;] As perspectivas s\u00e3o de muito sofrimento \u2013 quimioterapia pesada \u2013, mas h\u00e1 possibilidade de sucesso. Estou muito saud\u00e1vel fisicamente e num momento de plenitude, em que pensar na morte, ou na doen\u00e7a, significa, para mim, trilhar um caminho mais estreito e mais sutil \u2013 e, por isto, mais precioso \u2013 de depura\u00e7\u00e3o da <em>vida<\/em>. N\u00e3o estou com medo, apesar de saber que vou sentir medo, des\u00e2nimo e raiva muitas vezes. N\u00e3o me importo em pensar quantitativamente em meu tempo, mas qualitativamente, para que eu e todos que me cercam possam usufruir do que se passa comigo. (Viegas, 2009a, p. 104-105).<\/p>\n\n\n\n<p>Os seus escritos foram reunidos e publicados em tr\u00eas volumes no ano de 2009 pelo seu ex-aluno e colega, o professor Marcelo Pimenta Marques: <em>Vida filos\u00f3fica; Filosofia Viva<\/em>; e <em>Filosofia e Arte<\/em>. Entre outras coisas, encontram-se a\u00ed reunidas muitas cartas escritas aos seus pr\u00f3ximos, nas quais suas reflex\u00f5es demonstram a mesma densidade filos\u00f3fica que o conjunto dos seus escritos. Em uma destas cartas, quando a doen\u00e7a j\u00e1 se encontrava em estado bastante avan\u00e7ado, ela escrevia a um amigo:<\/p>\n\n\n\n<p>Minha doen\u00e7a n\u00e3o me tira a liberdade nem o desejo de viver. \u00c9, de princ\u00edpio, uma forma de me submeter \u00e0 fatalidade, \u00e0 necessidade, melhor dizendo, e tento filtrar, atrav\u00e9s dela e com o seu suporte, o meu desejo. Eu n\u00e3o pedi nem escolhi esse limite, mas tenho de reconhecer que ele \u00e9 um firme e s\u00f3lido limite; \u00e9 uma plataforma de pedra em que me assento, e abro as asas do meu desejo. (Viegas, 2009a, p. 117).<\/p>\n\n\n\n<p>A morte sobreveio para ela aos 45 anos de idade, em 22 de outubro de 1989, no auge de sua vida pessoal, profissional e intelectual. O seu pouco tempo de vida foi vivido intensamente e radicalmente. Diante de sua extensa e densa obra filos\u00f3fica, \u00e9 dif\u00edcil crer que tenha sido produzida em t\u00e3o pouco tempo. Al\u00e9m disso, vale notar que isso se deu sem que ela se privasse em sua vida de seus pap\u00e9is de filha, companheira, m\u00e3e, amiga e professora. A filosofia lhe infundia vida, e a vida nutria a sua atividade filos\u00f3fica. De cada um dos segmentos de sua exist\u00eancia, ela soube extrair a mat\u00e9ria-prima, se inspirou em suas diversas atividades e plasmou o seu pensamento e sua vida. N\u00e3o fosse a sua precoce morte, quem sabe o que ela ainda n\u00e3o teria feito. Atrav\u00e9s de seus escritos ela continua instigando e convocando a todos ao exerc\u00edcio da filosofia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A professora<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A sua atividade docente se iniciou no ensino m\u00e9dio em 1965 no Col\u00e9gio Universit\u00e1rio da UFMG, quando era aluna do \u00faltimo ano do curso de Filosofia. Essa etapa foi marcada por experi\u00eancias que fomentaram suas reflex\u00f5es posteriores sobre a educa\u00e7\u00e3o e, mais especialmente, sobre o ensino da Filosofia. Aos seus olhos, o contato de adolescentes e jovens com a filosofia poderia proporcionar uma rica experi\u00eancia nesta importante fase da vida. Suas reflex\u00f5es neste \u00e2mbito se encontram registradas nos seguintes artigos: \u201cEnsino e desenvolvimento rural\u201d (1977); \u201cReflex\u00f5es sobre a educa\u00e7\u00e3o\u201d (1979); \u201cFilosofia J\u00e1\u201d (1987); \u201cA necessidade da Filosofia\u201d (1988); \u201cS\u00f3crates, a espontaneidade do saber\u201d (1989).<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1967, S\u00f4nia Viegas se tornou professora do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da UFMG, onde exerceu suas atividades de professora e pesquisadora. Entre os seus colegas e alunos deixou sua marca distintiva: uma intelectual de grande envergadura, capaz de abordar com erudi\u00e7\u00e3o e criatividade os mais variados temas, nos mais diferentes campos da investiga\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica e per\u00edodos de sua hist\u00f3ria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ela n\u00e3o fazia distin\u00e7\u00e3o entre os alunos regulares da Faculdade de Filosofia e aqueles vindos de fora. \u00c0s suas aulas acorriam alunos de diferentes cursos e \u00e1reas de conhecimento da Universidade, al\u00e9m de pessoas de diferentes forma\u00e7\u00f5es e setores da sociedade, todos atra\u00eddos pela experi\u00eancia do exerc\u00edcio filos\u00f3fico proporcionado pelas suas exposi\u00e7\u00f5es e reflex\u00f5es e, principalmente, pelo esp\u00edrito de di\u00e1logo que as animava. Este di\u00e1logo era para ela a via por excel\u00eancia para o desenvolvimento do pensamento e para o aprendizado da interpreta\u00e7\u00e3o dos textos cl\u00e1ssicos. Ela encarava, sem evasivas ou sa\u00eddas f\u00e1ceis, o desafio de equacionar de modo radical toda sorte de quest\u00f5es, das mais simples \u00e0s mais complexas, que acompanham o desenrolar da hist\u00f3ria humana. Experimentava caminhos e impelia os seus ouvintes a percorr\u00ea-los ao seu lado. Em seus cursos, se experimentava uma din\u00e2mica de interfecunda\u00e7\u00e3o (o termo \u00e9 de E. Morin no artigo \u201cSociologie du pr\u00e9sent\u201d, in&nbsp;<em>Sociologie<\/em>, Paris, Fayard, 1984, p. 157-337) entre universidade e sociedade. Atrav\u00e9s de seus alunos, os saberes e reflex\u00f5es produzidos no espa\u00e7o da universidade se difundiam nos mais variados espa\u00e7os da cidade, ao mesmo tempo que as quest\u00f5es e os impasses recolhidos do cotidiano das pessoas e da cidade vinham a nutrir, provocar e incrementar a investiga\u00e7\u00e3o e a reflex\u00e3o desenvolvidas na universidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o passar do tempo, a experi\u00eancia luminosa que se desenrolava em suas aulas e cativava seus alunos come\u00e7ou a transbordar para fora da Universidade. Ela era cada vez mais solicitada fora meio acad\u00eamico. Foi assim que, em 1985, ela criou com colegas e amigos o&nbsp; N\u00facleo de Filosofia: um espa\u00e7o que tinha por objetivo oferecer a um p\u00fablico externo \u00e0 universidade um contato com a filosofia e o acesso \u00e0 experi\u00eancia filos\u00f3fica, seja atrav\u00e9s de cursos de introdu\u00e7\u00e3o e de filosofia da arte, seja atrav\u00e9s de cursos que abordavam um ou outro de seus grandes temas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Filosofia e cultura<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As indaga\u00e7\u00f5es que pulsavam na cidade e se materializavam nas mais variadas express\u00f5es da cultura estimulavam o pensamento de S\u00f4nia e lhe enredavam pelas vias da interroga\u00e7\u00e3o e da especula\u00e7\u00e3o filos\u00f3ficas. Seu nome era comumente associado \u00e0s mais variadas manifesta\u00e7\u00f5es das artes pl\u00e1sticas e c\u00eanicas de Belo Horizonte, que receberam dela um n\u00famero significativo de coment\u00e1rios e an\u00e1lises de cunho filos\u00f3fico. Os seus cursos de hist\u00f3ria e filosofia da arte eram concorrid\u00edssimos, assim como as visitas guiadas que ela organizava a exposi\u00e7\u00f5es de arte.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um de seus projetos, o \u201cCinema Comentado\u201d, foi um marco das artes visuais em Belo Horizonte no final da d\u00e9cada de 1980. Para cada sess\u00e3o, ela escolhia um filme que era exibido e dava ensejo a um coment\u00e1rio e a uma reflex\u00e3o, imbu\u00eddos de filosofia. Ao que se seguia um animado di\u00e1logo com o audit\u00f3rio. Entre os filmes contemplados destacamos: <em>Gritos e sussurros <\/em>(I. Bergman, 1972), <em>Esse obscuro objeto do desejo<\/em> (L. Bu\u00f1uel, 1977), <em>S\u00e3o Bernardo <\/em>e <em>Imagens do inconsciente<\/em> (L. Hirszman, 1972 e 1983-86), <em>A queda<\/em> (R. Guerra e N. Xavier, 1975), <em>Li\u00e7\u00e3o de amor<\/em> (E. Escorel, 1975), <em>Os visitantes da noite<\/em> (M. Carn\u00e9, 1942), <em>O eclipse <\/em>(M. Antonioni, 1962), <em>A rosa p\u00farpura do Cairo <\/em>(W. Allen, 1985), <em>Ran<\/em> (A. Kurosawa, 1985), <em>O sacrif\u00edcio <\/em>(A. Tarkovski, 1986), <em>A hora da estrela <\/em>(S. Amaral, 1985), <em>A festa de Babette<\/em> (G. Axel, 1987), <em>Um dia muito especial<\/em> e <em>Casanova e a revolu\u00e7\u00e3o <\/em>(E. Scola, 1977 e 1982), <em>O selvagem da motocicleta<\/em> (F.F. Coppola, 1983), <em>Alice nas cidades <\/em>&nbsp;e <em>Asas do desejo <\/em>(W. Wenders, 1974 e 1987) e <em>A balada de Narayama <\/em>(S. Imamura, 1983). Boa parte de seus coment\u00e1rios deram origem a ensaios que foram postumamente reunidos e publicados no volume intitulado <em>Cinema Comentado <\/em>(e tamb\u00e9m em Marques, 2009a, 2009b e 2009c).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Obra: temas e conceitos&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em tr\u00eas \u00e2mbitos de investiga\u00e7\u00e3o se desenvolveu de modo mais significativo o pensamento de S\u00f4nia Viegas: (1) o da reflex\u00e3o antropol\u00f3gica, (2) o do di\u00e1logo com a literatura e com as demais manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas e, enfim, (3) o da via de acesso \u00e0 experi\u00eancia filos\u00f3fica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No campo de sua reflex\u00e3o antropol\u00f3gica, a tese principal consiste na identifica\u00e7\u00e3o do papel das experi\u00eancias da alteridade, da linguagem, das afec\u00e7\u00f5es e no reconhecimento da dimens\u00e3o tr\u00e1gica da exist\u00eancia como motores de toda a\u00e7\u00e3o e de toda atividade humanas, fonte e mat\u00e9ria-prima de toda atividade criadora.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ela experimentava no di\u00e1logo com a literatura e com as artes um enorme potencial reflexivo nos confrontos dos grandes temas da experi\u00eancia humana. A arte, em seu pensamento, n\u00e3o era apenas o lugar de um objeto da hist\u00f3ria da arte, da filosofia da arte ou da est\u00e9tica, mas se apresentava antes como um caudal de quest\u00f5es existenciais, e, mais do que isso, atuava como um coadjuvante no exerc\u00edcio do pensar. Ela se deixava interpelar pela literatura, pelas artes pl\u00e1sticas e visuais, pela m\u00fasica e pelo teatro, e encontrava nessas express\u00f5es da cultura um ponto de partida para abordar aquelas quest\u00f5es que em sua radicalidade mobilizam a especula\u00e7\u00e3o e a reflex\u00e3o humanas desde a noite dos tempos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma outra faceta do pensamento de S\u00f4nia Viegas residia na sua compreens\u00e3o do potencial presente nas experi\u00eancias existenciais e na esfera das afec\u00e7\u00f5es para o engendramento da interroga\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica. Tal compreens\u00e3o serviu de base para que ela tra\u00e7asse um caminho e desenvolvesse um programa espec\u00edfico para os cursos de \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o a Filosofia\u201d que ministrava tanto no \u00e2mbito da Universidade quanto fora dela. Afec\u00e7\u00f5es como a admira\u00e7\u00e3o, a d\u00favida, o desejo, a ang\u00fastia, o amor e a alegria eram por ela consideradas \u201cportas de ingresso\u201d ao filosofar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A travessia das veredas tr\u00e1gicas do <\/strong><strong><em>Grande sert\u00e3o<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Um marco fundamental e fundante do pensamento de S\u00f4nia Viegas foi a leitura de <em>Grande Sert\u00e3o: Veredas <\/em>(a partir de agora, \u00ab&nbsp;GSV&nbsp;\u00bb)<em>, <\/em>&nbsp;obra do grande escritor mineiro Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa, a partir da qual ela elaborou um pensamento de grande fecundidade e consist\u00eancia filos\u00f3fica, cujos reflexos podem ser notados em todos os seus escritos. Nos confrontos desta obra foram se delineando os contornos de uma tese antropol\u00f3gica que desemboca numa reflex\u00e3o sobre a natureza da linguagem e de seu papel fundador na constitui\u00e7\u00e3o do sujeito e no car\u00e1ter tr\u00e1gico da condi\u00e7\u00e3o humana. Ao percorrer o itiner\u00e1rio de Riobaldo Tatarana, figura central da obra de Rosa, protagonista e aedo de sua pr\u00f3pria epopeia, Em sua disserta\u00e7\u00e3o ela evidencia a trama na qual se entrela\u00e7am, na narrativa do personagem, sua travessia interior e exterior do sert\u00e3o. Em uma travessia em que se confundem o tempo do vivido e o tempo da narrativa, ela mostra como ao longo das andan\u00e7as e das metamorfoses de Riobaldo vai se manifestando o dilema que \u00e9, ao mesmo tempo, singular a cada sujeito e universal, porque comum a toda experi\u00eancia humana. A leitura de S\u00f4nia Viegas se desenrola em dois eixos principais: de um lado, a compreens\u00e3o do qu\u00e3o fundamental \u00e9 para o homem sua rela\u00e7\u00e3o com o outro para o conhecer a si mesmo e na determina\u00e7\u00e3o de sua abertura para o mundo. A seu ver, h\u00e1 uma conex\u00e3o direta entre o modo como nos posicionamos diante do mundo e como nos relacionamos com o outro: \u201chomem, sujeito e mundo, sujeito e outros sujeitos s\u00e3o coisas que acontecem juntas\u201d (Viegas, 2009b, p. 57). A figura de Riobaldo revela esta identidade. O seu amor por Diadorim, observa S\u00f4nia, \u201cpermite a Riobaldo abrir-se para o mundo, descobrir o mundo\u201d, experi\u00eancia que ela denomina \u201ca grande cria\u00e7\u00e3o\u201d:<\/p>\n\n\n\n<p>A grande cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 incorporar alguma coisa; \u00e9 simplesmente tirar algo, que est\u00e1 encoberto, da sua letargia, e revel\u00e1-lo. E Riobaldo tem uma consci\u00eancia muito clara disso, pois ele mesmo diz que Diadorim foi quem o ensinou a ver as \u201cquisquilhas\u201d da natureza, quer dizer, as coisas que a natureza revela, tudo aquilo que \u00e9 bonito no mundo. (Viegas, 2009b, p. 57-58).<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa abertura para o outro e para o mundo instaura-se a ruptura com a esfera estreita de uma exist\u00eancia individual e particular, e emerge a consci\u00eancia do universal, condi\u00e7\u00e3o de possibilidade para uma efetiva realiza\u00e7\u00e3o humana. E neste processo a linguagem atua como inst\u00e2ncia de manifesta\u00e7\u00e3o do sujeito em sua rela\u00e7\u00e3o com o outro e com o mundo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f4nia Viegas evidencia a refinada reflex\u00e3o sobre a linguagem e sobre a intrincada rela\u00e7\u00e3o linguagem-mundo na constitui\u00e7\u00e3o do sujeito. Riobaldo somente compreende a si mesmo e se d\u00e1 conta do vivido quando ele se torna, ele mesmo, objeto da narrativa.&nbsp; Na trama que entrela\u00e7a a narrativa e o vivido a experi\u00eancia humana ganha sentido. A linguagem deixa de ser apenas um movimento de aproxima\u00e7\u00e3o ou descri\u00e7\u00e3o do vivido. \u00c9 ao contar a sua hist\u00f3ria que, de fato, o vivido se efetiva para Riobaldo: o vivido \u00e9 \u201cdom\u00ednio instaurado na e pela palavra humana\u201d (Viegas, 2009b). Para ela, a palavra po\u00e9tica exerce uma fun\u00e7\u00e3o mediadora \u201centre a singularidade das ocorr\u00eancias e sua universaliza\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da mem\u00f3ria\u201d (Andrade, 1985a; Marques, 2009b). A import\u00e2ncia atribu\u00edda \u00e0 palavra viria a ser um ponto de partida recorrente em suas investiga\u00e7\u00f5es e reflex\u00f5es. Como eu escrevi em seu perfil bibliogr\u00e1fico (Peixoto, 2019, p. 57), interessava-lhe n\u00e3o tanto encontrar uma defini\u00e7\u00e3o ou forjar um conceito, mas \u201cresponder ao est\u00edmulo que prov\u00e9m das palavras que se apresentam \u00e0 considera\u00e7\u00e3o, que provocam, que convidam a irromper-se contra as malhas fixas do conceito e a partir em busca de suas origens mais remotas, acompanhando-as em suas sucessivas muta\u00e7\u00f5es\u201d, e isso porque para ela, como para Rosa, \u201cas palavras s\u00e3o escorregadias, passeiam entre sentidos, esquivam-se de cristaliza\u00e7\u00f5es redutoras\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f4nia Viegas compartilhava com Guimar\u00e3es Rosa o gosto pelo \u201cfrescor das palavras rec\u00e9m-nascidas\u201d, ainda n\u00e3o esmaecidas em sua riqueza sem\u00e2ntica. Em uma entrevista citada por S\u00f4nia em sua disserta\u00e7\u00e3o, o escritor dizia:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230; eu utilizo cada palavra como se ela acabasse de nascer, (&#8230;) libero a palavra das impurezas da linguagem falada e a reconduzo ao seu sentido original; (&#8230;) mais importante para mim \u00e9 (&#8230;) o aspecto metaf\u00edsico da l\u00edngua, que antes de tudo faz da minha linguagem a minha l\u00edngua. (Rosa, 1971, p. 291-293, <em>apud<\/em> Viegas, 2009b, p. 339).<\/p>\n\n\n\n<p>Um outro tema que ocupa um espa\u00e7o importante no di\u00e1logo com Rosa \u00e9 o exame das emo\u00e7\u00f5es e do seu entendimento do tr\u00e1gico como express\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o humana. <em>A vereda tr\u00e1gica do <\/em>Grande Sert\u00e3o: Veredas foi o t\u00edtulo que ela escolheu para a publica\u00e7\u00e3o de sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado. Inspirada pelas considera\u00e7\u00f5es de Hegel e Schaerer sobre a figura do her\u00f3i nas epopeias hom\u00e9ricas, ela reconhece a a\u00e7\u00e3o heroica como resultado da tens\u00e3o entre o arb\u00edtrio, o poder de decis\u00e3o e a eternidade dos valores. \u00c9 nesta chave que ela examina as emo\u00e7\u00f5es de Riobaldo ao longo de sua travessia do sert\u00e3o, nos combates travados consigo mesmo e com o mundo \u00e0 sua volta e nas andan\u00e7as que operam a sua metamorfose em Urutu Branco, o chefe dos jagun\u00e7os. E nestes embates que n\u00e3o conhecem tr\u00e9gua, Riobaldo se v\u00ea enredado pelas divaga\u00e7\u00f5es de seu esp\u00edrito entre Deus e o Diabo (Viegas, 2009b, p.354). S\u00f4nia Viegas&nbsp; enxerga a\u00ed o que entende por tens\u00e3o tr\u00e1gica, e que se manifesta em tr\u00eas eixos principais. Primeiramente, na identidade jagun\u00e7o-sert\u00e3o, identidade do \u201cplano subjetivo de sua intimidade com a infinidade indom\u00e1vel que se estende \u00e0 sua volta\u201d &#8211; \u201cO jagun\u00e7o \u00e9 o sert\u00e3o\u201d (Viegas, 2009b, p. 354-355). Em seguida, na sua condi\u00e7\u00e3o de expatriado. O jagun\u00e7o deve a duras penas \u201cconquistar o seu lugar no mundo\u201d, sem que exista um meio-termo. \u201cO jagun\u00e7o n\u00e3o pode retroceder a uma condi\u00e7\u00e3o natural de sertanejo\u201d, o seu \u00e9 um caminho sem volta (Viegas, 2009B, p. 355). O jagun\u00e7o, observa S\u00f4nia,&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230; j\u00e1 nasce extraviado no sert\u00e3o, condenado a uma vida provis\u00f3ria na qual consome tempo e emo\u00e7\u00f5es, apenas saindo do anonimato quando se suprime na personalidade de um her\u00f3i, sendo reconhecido sob o nome de seus chefes: os medeiro-vazes, os joca-ramiros, os Herm\u00f3genes. (Viegas, 2009b, p. 355).<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 precisamente nesta impossibilidade de um meio-termo, de uma dissolu\u00e7\u00e3o da tens\u00e3o, que se revela aos seus olhos o car\u00e1ter tr\u00e1gico de toda a\u00e7\u00e3o humana. O que singulariza o her\u00f3i \u2013 e o mesmo valeria aos seus olhos para toda realiza\u00e7\u00e3o humana \u2013 \u00e9 a maneira como ele estabelece a sintonia entre \u201ca dimens\u00e3o particular de sua exist\u00eancia, a singularidade de sua interioridade, e a sua dimens\u00e3o universal\u201d (Peixoto, 2019, p. 63). E, como \u00faltimo eixo, a tens\u00e3o homem-mundo, a qual se exprime para ela na convic\u00e7\u00e3o \u201cde que existe um valor pelo qual vale a pena morrer\u201d, convic\u00e7\u00e3o essa \u201cque desloca a a\u00e7\u00e3o \u00e9pica do her\u00f3i para a utopia do sert\u00e3o inteiramente transformado pelas suas m\u00e3os\u201d:<\/p>\n\n\n\n<p>O jagun\u00e7o luta no mundo provis\u00f3rio, mas tem o olhar voltado para um outro mundo. Ele n\u00e3o sabe, de princ\u00edpio, o que seja esse sert\u00e3o transfigurado. \u00c9, contudo, a partir de sua posi\u00e7\u00e3o como utopia que ele vai realizando a travessia do sert\u00e3o real, como que ultrapassando o espa\u00e7o de ambiguidade, n\u00e3o-ser e vazio em que se dimensiona sua exist\u00eancia. [&#8230;] o sert\u00e3o est\u00e1 no limiar da utopia, aqu\u00e9m da certeza que impulsiona a penetra\u00e7\u00e3o do jagun\u00e7o em seus mist\u00e9rios e em suas possibilidades. O cavaleiro andante n\u00e3o mais confunde moinhos de vento com gigantes, n\u00e3o modela sua utopia nos eventos da vida cotidiana, mas alimenta sua certeza com a semente de n\u00e3o-ser \u2013 de ainda n\u00e3o-ser \u2013 que descobre nos vastos espa\u00e7os que atravessa procurando um fim (VIEGAS, 2009b, p. 357).<\/p>\n\n\n\n<p>Para Riobaldo vai se agu\u00e7ando a percep\u00e7\u00e3o de sua condi\u00e7\u00e3o e aos poucos ele vai desvelando a si mesmo, como vemos no passo emblem\u00e1tico que se segue:<\/p>\n\n\n\n<p>O jagun\u00e7o Riobaldo. Fui eu? Fui e n\u00e3o fui. N\u00e3o fui! \u2013 porque n\u00e3o sou, n\u00e3o quero ser. Deus esteja! [&#8230;] Eu n\u00e3o era eu. Respirei os pesos. [&#8230;] Eu comecei a tremeluzir em mim. [&#8230;] O que eu agora queria! Ah, acho que o que era meu, mas que o desconhecido era, duvid\u00e1vel. Eu queria ser mais do que eu. Ah, eu queria, eu podia. [&#8230;] Eu e eu. [&#8230;] Eu era dois, diversos? (ROSA, 1972, 166, 246, 303, 318, 248, 369).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para S\u00f4nia Viegas, a instaura\u00e7\u00e3o da d\u00favida inaugura o momento de autoconhecimento como consci\u00eancia do dilema interior, do car\u00e1ter tensional que se encontra na origem do que somos e do que fazemos. \u201cFui e n\u00e3o fui eu\u201d, \u201cEu e eu\u201d. Nessa percep\u00e7\u00e3o de uma alteridade interior, ela vislumbra a convers\u00e3o da \u201caventura \u00e9pica em aventura tr\u00e1gica\u201d e percebe identifica nessa tens\u00e3o&nbsp; o tra\u00e7o mais propriamente humano. A trag\u00e9dia grega \u00e9 a express\u00e3o do questionamento que engendra o discurso humano e desvela a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o humana. \u201cA situa\u00e7\u00e3o do homem no universo \u00e9 tr\u00e1gica na medida em que produz uma ambival\u00eancia insuper\u00e1vel\u201d e, neste cen\u00e1rio, ela conclui que \u201ca liberdade emerge como possibilidade de transgress\u00e3o da ordem\u201d (Viegas, 2009b, p. 370). Para ela a travessia de Riobaldo, em seu duplo e contiguo \u00e2mbito, \u00e9 uma dupla travessia, interior e exterior. Nela a natureza se transfigura e nela se manifesta o car\u00e1ter tr\u00e1gico da vida humana. Nesse processo, o ser humano pode se encontrar ou se perder se n\u00e3o for capaz de conferir sentido \u00e0 sua experi\u00eancia \u2013 \u201cviver \u00e9 perigoso\u201d, vaticina Riobaldo! A obra de Rosa evidencia o entrela\u00e7amento dos planos do vivido, do narrado e do sentido, o qual resulta precisamente do ato de narrar o vivido. A ordem cronol\u00f3gica dos fatos importa menos. O que realmente conta \u00e9 a escolha do que \u00e9 significativo para a mem\u00f3ria, pois \u00e9 isso que torna poss\u00edvel \u00e0 individualidade de Riobaldo se transfigurar na universalidade do sert\u00e3o (cf. Viegas, 2009b, p. 360).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para S\u00f4nia Viegas, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel ao ser humano perceber o mundo como um outro quando se experimenta a dist\u00e2ncia que lhe separa dele e quando se restitui a natureza a ela mesma. N\u00e3o \u00e9 nas grandes \u201cextens\u00f5es horizontais\u201d do sert\u00e3o que Riobaldo se perde, \u201cmas nos vazios de sentido que se multiplicam a cada momento que ele pretende traduzir conceitualmente sua rela\u00e7\u00e3o com o mundo (Viegas, 2009b, p.359). E esses vazios de sentido, como um grande nada, s\u00e3o \u201ca pedra no meio do caminho\u201d que se interp\u00f5e entre o ser humano e o real; sua supera\u00e7\u00e3o se traduz nas palavras que inauguram a obra de Rosa: \u201c<em>Nonada<\/em>.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fontes, literatura secund\u00e1ria e outros materiais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Disserta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1977). <em>A palavra po\u00e9tica e a palavra filos\u00f3fica no <\/em>Grande Sert\u00e3o: Veredas. (Disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, Faculdade de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas, Departamento de Filosofia, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Edi\u00e7\u00e3o dos escritos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Marques, M. P. (Ed.)&nbsp; (2009a). <em>S\u00f4nia Viegas. Escritos: vida filos\u00f3fica.<\/em> Belo Horizonte: Tessitura.<\/p>\n\n\n\n<p>Marques, M. P. (Ed.) (2009b). <em>S\u00f4nia Viegas. Escritos: filosofia viva.<\/em> Belo Horizonte: Tessitura.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Marques, M. P. (Ed.) (2009c). <em>S\u00f4nia Viegas. Escritos: filosofia e arte.<\/em> Belo Horizonte: Tessitura.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Livros&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de.&nbsp; (1990). <em>Cinema Comentado: cr\u00f4nicas e ensaios. <\/em>Organizado por M\u00f4nica Viegas com a colabora\u00e7\u00e3o de Anna Maria Viegas. Belo Horizonte: N\u00facleo de Filosofia S\u00f4nia Viegas.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1985a). <em>A vereda tr\u00e1gica do <\/em>Grande Sert\u00e3o: Veredas<em>.<\/em> S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Loyola.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cap\u00edtulos de livros<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1982). Considera\u00e7\u00f5es em torno de <em>A reflex\u00e3o sobre a hist\u00f3ria<\/em>, de Henrique Vaz. In Pal\u00e1cio, C., S. J. (Org.). <em>Cristianismo e hist\u00f3ria<\/em>. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Loyola.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de.&nbsp; (1983). Fundamentos filos\u00f3ficos da obra de Cam\u00f5es. In Duarte, L. P. (Org.). <em>Estudos camonianos<\/em>. (pp. 35-54). Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Artigos em revistas e anais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1961). O velho e o mar. Revista do Col\u00e9gio de Aplica\u00e7\u00e3o da UFMG, Belo Horizonte, 1 (1).<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1969). A f\u00e1brica do absoluto. Arxe. Revista do Col\u00e9gio Universit\u00e1rio da UFMG, Belo Horizonte.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1975). Sobre um op\u00fasculo de Kant. S\u00edntese, 2 (4), pp. 103-110.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1976). Maquiavel: a execra\u00e7\u00e3o da tirania. S\u00edntese, 3 (7), pp. 79-90.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de.&nbsp; (1976). M\u00fasica e sabedoria no Banquete. Kriterion, Belo Horizonte, Ed. Impressa da UFMG, 69, pp. 28-51<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1977). De Descartes a Hegel: destino da moral provis\u00f3ria. S\u00edntese, 4 (10), p. 45-60.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1977). A cr\u00edtica do direito natural na primeira filosofia do direito de Hegel. Kriterion, 70, pp. 27-39.<\/p>\n\n\n\n<p>Van Reeth, C. (1977). O Banquete ou a ilus\u00e3o amorosa: leitura de Freud \u00e0 luz do Banquete. Trad. de Andrade, S. M. V. de. Kriterion, 23, pp. 107-123.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1978). A cidade grega. Kriterion, 24, pp. 20-44.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1978). Gritos e sussurros: a interdi\u00e7\u00e3o da linguagem. Boletim Informativo da Sociedade Mineira de Psicologia, 1.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1979). A experi\u00eancia do absoluto em Fernando Pessoa. Boletim do Centro de Estudos Portugueses da FALE-UFMG, 1 (1), pp. 21-47.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1979). Reflex\u00f5es sobre a educa\u00e7\u00e3o. Revista do Conselho Estadual de Cultura de Minas Gerais, 9.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1980). Resenha de Philia: la notion d\u2019amiti\u00e9 dans la philosophie antique, de Jean-Claude Fraisse. S\u00edntese, 19.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1981). Fernando Pessoa e a consci\u00eancia infeliz. Boletim do Centro de Estudos Portugueses da FALE-UFMG, 4.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1982). De Hegel a Kierkegaard: o problema existencial e a consci\u00eancia infeliz. Boletim da SEAF, 1.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1982). O universo \u00e9pico-tr\u00e1gico do Grande Sert\u00e3o: Veredas. Belo Horizonte, Laborat\u00f3rio de Est\u00e9tica da FAFICH\/UFMG.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de; Laterza, M.&nbsp; (1983). O Aleijadinho e o barroco da alegria. Revista do Conselho Estadual de Cultura de Minas Gerais, n\u00famero especial.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1987). Ran. Uma luta contra o caos. In: Anais do Simp\u00f3sio de Literatura Comparada da UFMG, Belo Horizonte: UFMG, pp. 644-649.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1988). O mito de Pandora. Kriterion, 79\/80.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1989). Superf\u00edcies virtuais. Revista Isso &#8211; Despensa Freudiana, 1.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Artigos em jornais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1972). A morte de D.J. em Paris. Coment\u00e1rio do livro de Roberto Drummond. <em>Minas Gerais &#8211; Suplemento Liter\u00e1rio<\/em>, 8 de janeiro<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1973). De um quadro de Vel\u00e1squez. <em>Estado de Minas<\/em>,<em> <\/em>1973.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1974). <em>O Peixe e o P\u00e1ssaro<\/em>. Resenha. <em>Estado de Minas<\/em>, 23 de abril.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1976). Minas: paisagem metaf\u00edsica. <em>Minas Gerais &#8211; Suplemento Pedag\u00f3gico<\/em>, maio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1977). Ensino e desenvolvimento rural.<em> Minas Gerais &#8211;<\/em> <em>Suplemento Pedag\u00f3gico<\/em>, outubro.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1979). Resenha de <em>O poeta e a consci\u00eancia cr\u00edtica,<\/em> de Affonso \u00c1vila. <em>Jornal de Casa<\/em>, 13 de janeiro. p. 7.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1980). Fundamentos filos\u00f3ficos da obra de Cam\u00f5es. <em>Minas Gerais &#8211; Suplemento Liter\u00e1rio,<\/em> 14 de junho.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1981). <em>Esse obscuro objeto do desejo<\/em>. Coment\u00e1rio do filme de Bu\u00f1uel. <em>Estado de Minas<\/em>, 14 de abril.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1981). Em torno de um conceito de cultura. <em>Minas Gerais &#8211;<\/em> <em>Suplemento Pedag\u00f3gico<\/em>, 65, novembro.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1985b). <em>A rosa p\u00farpura do Cairo<\/em>. Coment\u00e1rio. Jornal <em>Estado de Minas<\/em>, 2 de novembro.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1986). A aprendizagem do instante. Jornal <em>Estado de Minas<\/em>, 21 de junho.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1987). A Macab\u00e9a de Clarice Lispector e a outra de Suzana Amaral. Jornal <em>Estado de Minas<\/em>, 18 de fevereiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1987). De como a esquizofrenia se expressa pela Arte. Jornal <em>Estado de Minas<\/em>, 8 de novembro.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1988). A afirma\u00e7\u00e3o do homem pelo n\u00e3o. Jornal <em>Estado de Minas<\/em>, 23 de abril.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1988). A necessidade da filosofia. <em>Jornal em Frente<\/em>, outubro\/novembro. Republicado em: Jornal <em>Hoje em Dia<\/em>, de 27 de novembro de 1988; <em>Mito. Caderno de Textos<\/em>, 2. Belo Horizonte: N\u00facleo de Filosofia S\u00f4nia Viegas, 1994, pp. 17-23.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1988). Um bom come\u00e7o para a reflex\u00e3o. <em>Sala de aula<\/em>, Maio.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1988). O sorriso e a Esfinge. Jornal <em>Hoje em Dia<\/em>, 4 de dezembro.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1988). A heran\u00e7a prometeica. Jornal <em>Hoje em Dia<\/em>, 11 de dezembro.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1988). A celebra\u00e7\u00e3o da Alegria. Jornal <em>Hoje em Dia<\/em>, 18 de dezembro.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1988). A celebra\u00e7\u00e3o da Alegria II. Jornal <em>Hoje em Dia<\/em>, 25 de dezembro.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1989). Rito de passagem para 1989. Jornal <em>Hoje em Dia<\/em>, 8 de janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1989). S\u00f3crates, a espontaneidade do saber. Jornal <em>Hoje em Dia, <\/em>15 de janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1989). A sabedoria socr\u00e1tica e a busca do conhecimento de si mesmo.<em> <\/em>Jornal <em>Hoje em Dia<\/em>, 22 de janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1989). O dilema do fil\u00f3sofo S\u00f3crates entre a convic\u00e7\u00e3o e a raz\u00e3o. Jornal<em> Hoje em <\/em>Dia, 29 de janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1989). O amor e a <em>Festa de Babette<\/em>. Jornal <em>Hoje em Dia,<\/em> 5 de fevereiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1989). Carta a Bartolomeu. <em>Estado de Minas<\/em>, 28 de mar\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1989). Med\u00e9ia. Coment\u00e1rio. Jornal <em>Estado de Minas<\/em>, 1 de julho.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1994). Amor e criatividade. In <em>Caderno de Textos<\/em> <em>do N\u00facleo de Filosofia S\u00f4nia Viegas<\/em>, 1, pp. 27-71.<\/p>\n\n\n\n<p>Andrade, S. M. V. de. (1994). O tempo na Filosofia. In <em>Mito<\/em>. <em>Caderno de Textos N\u00facleo de Filosofia&nbsp;S\u00f4nia Viegas<\/em>, 2, pp. 67-82 .<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Biografia<\/strong>Peixoto, M. C. D. (2019). <em>S\u00f4nia Viegas, uma pensadora da cultura<\/em>. Belo Horizonte: Editorial Conceito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(1945 \u2013 1989) Por Miriam Campolina Diniz Peixoto Professora do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)<\/p>\n","protected":false},"author":360,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"class_list":["post-716","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/716","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/360"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=716"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/716\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":729,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/716\/revisions\/729"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=716"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}