{"id":765,"date":"2020-12-03T07:37:25","date_gmt":"2020-12-03T10:37:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/?page_id=765"},"modified":"2020-12-04T17:53:04","modified_gmt":"2020-12-04T20:53:04","slug":"mulheres-raca-e-classe","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/mulheres-raca-e-classe\/","title":{"rendered":"Mulheres, ra\u00e7a e classe"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por La\u00edssa Ferreira <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Doutoranda no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Filosofia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e integrante do Grupo de Pesquisa em Filosofia Pol\u00edtica &#8211; CNPq &#8211; <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/9674615367140379\">Lattes<\/a><br><br><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2020\/12\/Resenha-Davis.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-772\" style=\"width: NaNpx\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2020\/12\/Resenha-Davis.pdf\" alt=\"\">PDF &#8211; Resenha &#8220;Mulheres, ra\u00e7a e classe&#8221;<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mulheres, ra\u00e7a e classe: DAVIS, Angela. <strong>Mulheres, ra\u00e7a e classe<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o: Heci Regina Candiani (1 Ed.). S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2016, 248 pp. ISBN 978-85-7559-503-9 [Tamb\u00e9m dispon\u00edvel em vers\u00e3o eletr\u00f4nica].<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A fil\u00f3sofa e ativista pelos direitos civis Angela Davis (1944-) \u00e9 autora da obra <em>Mulheres, ra\u00e7a e classe<\/em>, publicada em 1981 nos Estados Unidos e no Brasil em 2016 pela Editora Boitempo, em tradu\u00e7\u00e3o de Heci Regina Candiani. Nascida no Estado do Alabama, Estados Unidos, durante o per\u00edodo de segrega\u00e7\u00e3o racial das leis <a href=\"https:\/\/www.geledes.org.br\/consideracoes-sobre-a-segregacao-racial-nos-estados-unidos-eua\/?gclid=CjwKCAjwyo36BRAXEiwA24CwGWjurbMQ5jpT1UM7xvhp2WEbWhaVDJ2_Q76-u5uk_cv1e9Uujahk6xoCmjUQAvD_BwE\"><em>Jim Crow<\/em><\/a>, Davis cresceu em um bairro apelidado de Colina Dinamite (<em>Dynamite Hill<\/em>) devido aos constantes bombardeios \u00e0s casas de fam\u00edlias negras. N\u00e3o foi, ent\u00e3o, inesperado seu envolvimento na luta pelos direitos civis, sua trajet\u00f3ria acad\u00eamica sempre esteve relacionada ao envolvimento com o ativismo e alimentado pelo seu estudo sobre o socialismo a partir de sua adolesc\u00eancia durante as aulas de hist\u00f3ria que frequentou em Nova York (1958). Segundo Davis,<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez tenha sido o tra\u00e7o rom\u00e2ntico dentro de mim que me aproximou do socialismo ut\u00f3pico. [&#8230;] O <em>Manifesto Comunista<\/em> me atingiu como um raio. Li-o com avidez, encontrando nele respostas a muitos dos dilemas aparentemente irrespond\u00edveis que me atormentavam. [&#8230;] Comecei a ver os problemas do povo negro dentro do contexto de um amplo movimento da classe trabalhadora. (DAVIS, 2019, p. 275)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E foi com essa vis\u00e3o que Davis graduou-se em Literatura Francesa na Universidade de Brandeis \u2013 Massachusetts no ano de 1965. Logo depois iniciou a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em filosofia na Universidade de Goethe em Frankfurt, na Alemanha, sob a orienta\u00e7\u00e3o de T. Adorno. Durante esse per\u00edodo, o movimento pelos Direitos Civis ganhava for\u00e7a nos Estados Unidos, o que foi determinante para que Davis interrompesse seus estudos e retornasse ao seu pa\u00eds de origem em 1967.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Declarando-se abertamente comunista, Angela Davis se envolveu em a\u00e7\u00f5es do movimento pela Liberta\u00e7\u00e3o Negra e, consequentemente, sofreu persegui\u00e7\u00f5es. Ao mesmo tempo em que militava pelos Direitos Civis, Davis trabalhava no projeto de sua tese de doutorado sob orienta\u00e7\u00e3o de Hebert Marcuse na Universidade da Calif\u00f3rnia (UCLA) em San Diego. Como um dos requisitos para adquirir o t\u00edtulo, ela tornou-se professora assistente no Departamento de Filosofia na Universidade da Calif\u00f3rnia em Los Angeles. Ao ocupar este cargo, foi perseguida at\u00e9 ser demitida em 1969. Em seguida, foi acusada de assassinato, sequestro e conspira\u00e7\u00e3o e, consequentemente, Davis foi colocada na lista das pessoas mais procuradas pelo FBI. No ano de 1970, Angela Davis permaneceu cativa por 18 meses e durante esse per\u00edodo uma grande campanha foi realizada pela sua liberta\u00e7\u00e3o: \u201cLibertem Angela Davis e todos os prisioneiros pol\u00edticos.\u201d Em 1972, Angela Davis recebeu o t\u00edtulo honor\u00e1rio de doutorado pela Universidade de L\u00eanin (International Lenin School &#8211; ILS), ela n\u00e3o defendeu sua tese de doutorado na UCLA devido ao fato de n\u00e3o ter conseguido recuperar sua pesquisa, apreendida pelo FBI ap\u00f3s a comprova\u00e7\u00e3o de sua inoc\u00eancia. Angela Davis atualmente \u00e9 professora em\u00e9rita do Departamento de Estudos Feministas da Universidade da Calif\u00f3rnia. Autora de <em>Uma autobiografia<\/em> (1974 \u2013 2019), <em>Mulheres, ra\u00e7a e classe<\/em> (1981 \u2013 2016), <em>Mulheres, cultura e pol\u00edtica<\/em> (1989 &#8211; 2016), <em>Blues Legacies and Black Feminism: Gertrude \u201cMa\u201d Rayne, Bessie Smith, and Billie Holiday<\/em> (1999), <em>Estar\u00e3o as pris\u00f5es obsoletas?<\/em> (2003 &#8211; 2018), <em>A Democracia da Aboli\u00e7\u00e3o: para al\u00e9m do imp\u00e9rio das pris\u00f5es e da tortura<\/em> (2005 &#8211; 2009) e <em>A liberdade \u00e9 uma luta constante<\/em> (2015 \u2013 2018).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria de vida de Angela Davis a levou a escrever <em>Mulheres, ra\u00e7a e classe <\/em>em 1981. Embora esta obra tenha sido publicada h\u00e1 mais de 35 anos, seu conte\u00fado permanece atual, o tema da opress\u00e3o e seu sistema interligado (ra\u00e7a, g\u00eanero e classe) percebido pelo olhar marginal das mulheres negras, e exposto por Davis nesta obra, ainda gera grandes discuss\u00f5es. Al\u00e9m de ser uma rica fonte para a compreens\u00e3o da hist\u00f3ria da mulher negra estadunidense, a obra proporciona perspicazes an\u00e1lises e reflex\u00f5es aprofundadas de temas relacionados ao que posteriormente ser\u00e1 denominado como <em>interseccionalidade<\/em> pela te\u00f3rica Kimberl\u00e9 Crenshaw (1989).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Davis apresenta neste livro uma <em>perspectiva interseccional<\/em> a partir das experi\u00eancias comuns das mulheres negras, de forma subversiva com rela\u00e7\u00e3o aos padr\u00f5es da intelectualidade acad\u00eamica. Seu livro n\u00e3o possui uma introdu\u00e7\u00e3o e uma conclus\u00e3o, o que n\u00e3o significa que a obra n\u00e3o possua come\u00e7o, meio e fim. Talvez este formato seja uma provoca\u00e7\u00e3o, uma reivindica\u00e7\u00e3o para que a academia reconhe\u00e7a saberes oriundos de outros contextos e com outras estruturas, e neste caso, trata-se de um conhecimento espec\u00edfico oriundo da experi\u00eancia comum da mulher negra. <em>Mulheres, ra\u00e7a e classe<\/em> \u00e9 composto por 13 cap\u00edtulos que posicionam as mulheres negras como protagonistas de suas hist\u00f3rias, assim como revelam que elas contribu\u00edram significativamente para a forma\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria do povo negro estadunidense. Nestes cap\u00edtulos as opress\u00f5es de ra\u00e7a, g\u00eanero e classe vivenciadas simultaneamente pelas mulheres negras revelam a dificuldade que \u00e9, para n\u00f3s, mulheres negras, eleger uma opress\u00e3o espec\u00edfica como a mais importante. Nossas realidades revelam que as opress\u00f5es que vivenciamos s\u00e3o simult\u00e2neas, h\u00edbridas e, por isso, n\u00e3o podem ser analisadas ou combatidas individualmente. Davis demonstra, pela reconstru\u00e7\u00e3o de acontecimentos hist\u00f3ricos, como o racismo contribui para a constru\u00e7\u00e3o do sexismo e da explora\u00e7\u00e3o de classe; como o sexismo contribui para a perpetua\u00e7\u00e3o do racismo e da explora\u00e7\u00e3o de classe; e, finalmente, como a explora\u00e7\u00e3o de classe \u00e9 mantida pelo racismo e pelo sexismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sendo assim, Angela Davis constr\u00f3i uma narrativa que desloca as mulheres negras para o centro da an\u00e1lise em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 posi\u00e7\u00e3o marginal que ocupamos nas discuss\u00f5es sobre racismo, sexismo e explora\u00e7\u00e3o de classe. Este deslocamento nos convida \u00e0 redefini\u00e7\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es raciais, sociais e econ\u00f4micas a partir da perspectiva das mulheres negras estadunidenses e revela como esse saber marginal possui um potencial real de transforma\u00e7\u00e3o. A experi\u00eancia interseccional das mulheres negras auxilia na constru\u00e7\u00e3o de uma vis\u00e3o mais ampla sobre o modo como essas opress\u00f5es operam e, consequentemente, auxilia na cria\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias mais efetivas de luta e na cria\u00e7\u00e3o de uma teoria da opress\u00e3o mais complexa e realista. Esta obra tamb\u00e9m deve ser vista como um convite para que a sua leitora e o seu leitor ampliem seu olhar, ou seja, que a intersec\u00e7\u00e3o de opress\u00f5es seja admitida como um meio para a compreens\u00e3o da busca por emancipa\u00e7\u00e3o e liberta\u00e7\u00e3o. \u00c9 essa uma das riquezas da obra: ser um aux\u00edlio na compreens\u00e3o dos problemas enfrentados na atualidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u00eanfase dada \u00e0 experi\u00eancia das mulheres negras deve-se n\u00e3o apenas \u00e0s suas viv\u00eancias, mas tamb\u00e9m \u00e0 aus\u00eancia de an\u00e1lises realistas sobre a situa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica dessas mulheres nos Estados Unidos desde o per\u00edodo da escravid\u00e3o. &#8220;A situa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica das mulheres escravas permanecia incompreendida&#8221; (p. 15), n\u00e3o havia nada espec\u00edfico sobre o tema, muito menos algo que explorasse &#8220;o papel multidimensional das mulheres negras no interior da fam\u00edlia e da comunidade escrava como um todo&#8221; (p.17).Para a fil\u00f3sofa, um estudo historiogr\u00e1fico sobre a mulher negra era urgente e necess\u00e1rio. De acordo com Davis,<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se, e quando algu\u00e9m conseguir acabar, do ponto de vista hist\u00f3rico, com os mal-entendidos sobre as experi\u00eancias das mulheres negras escravizadas, ela (ou ele) ter\u00e1 prestado um servi\u00e7o inestim\u00e1vel. N\u00e3o \u00e9 apenas pela precis\u00e3o hist\u00f3rica que um estudo desses deve ser realizado; <em>as li\u00e7\u00f5es que ele pode reunir sobre a era escravista trar\u00e3o esclarecimentos sobre a luta atual das mulheres negras e de todas as mulheres em busca de emancipa\u00e7\u00e3o<\/em>. (grifo meu) (DAVIS, 2016, p. 17)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 sem a pretens\u00e3o de afirmar certezas que Davis se coloca no papel inovador de reescrever a hist\u00f3ria das mulheres negras, ao mesmo tempo em que introduz uma percep\u00e7\u00e3o do papel ocupado por essas mulheres na luta por igualdade e justi\u00e7a social. Al\u00e9m desta vis\u00e3o historiogr\u00e1fica necess\u00e1ria sobre a mulher negra, a obra tamb\u00e9m oferece uma cr\u00edtica ao feminismo hegem\u00f4nico e \u00e0 categoria <em>mulher<\/em>. O movimento feminista se iniciou como uma organiza\u00e7\u00e3o de mulheres que se colocava como representante de todas as mulheres. Entretanto, na pr\u00e1tica, ele acabava por estabelecer um modelo ideal limitado e excludente, uma vez que considerava a realidade e as demandas de apenas um tipo de mulher: branca e de classe m\u00e9dia. Davis problematiza esse modelo que exclui as mulheres negras e questiona os requisitos que esta categoria mulher exige, atravessados pelo ideal de feminilidade. Por fim, Davis denuncia como estas condi\u00e7\u00f5es revelavam o racismo end\u00f3geno de um movimento que se dizia universal e representante de toda a categoria. A autora mostra que o ideal universal n\u00e3o funcionava na pr\u00e1tica, principalmente quando as mulheres negras se deparavam com o racismo e o cinismo das suas companheiras de luta quanto \u00e0s suas experi\u00eancias h\u00edbridas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 opress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao mesmo tempo em que isso acontecia, as mulheres negras precisavam enfrentar outro movimento estabelecido como universal: o movimento pela liberta\u00e7\u00e3o negra, cuja imagem representativa era a do homem negro. Este movimento n\u00e3o se diferenciou no fundamental do movimento de mulheres e tamb\u00e9m negligenciou a experi\u00eancia h\u00edbrida das mulheres negras, pois da sua perspectiva, as quest\u00f5es de ra\u00e7a, em detrimento das de sexo e classe, eram as mais importantes na luta contra a opress\u00e3o. Outro grupo que tamb\u00e9m n\u00e3o reconhecia as necessidades h\u00edbridas das mulheres negras era o movimento de mulheres trabalhadoras, que com muito esfor\u00e7o conseguiu formar uma for\u00e7a consolidada entre os movimentos oper\u00e1rios majoritariamente masculino. Embora as mulheres trabalhadoras reconhecessem que elas mesmas vivenciavam uma dupla opress\u00e3o (cap. 9), elas tinham dificuldade em compreender a realidade h\u00edbrida das mulheres negras. Para elas, o objetivo principal que se deveria ter na busca por emancipa\u00e7\u00e3o eram as quest\u00f5es de classe. Pois pensavam, resolvidos os problemas em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho, consequentemente, as quest\u00f5es de ra\u00e7a e g\u00eanero seriam resolvidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o da neglig\u00eancia do movimento de mulheres, do movimento pela liberta\u00e7\u00e3o negra e do movimento de mulheres trabalhadoras quanto \u00e0s demandas h\u00edbridas das mulheres negras, apontada por Davis, \u00e9 a formaliza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e conceitual de uma demanda das mulheres negras desde o nascimento desses movimentos. Para eles, os movimentos e a composi\u00e7\u00e3o de opress\u00f5es significavam uma desarticula\u00e7\u00e3o de demandas exclusivas. Eles n\u00e3o compreendiam realidades outras que n\u00e3o a pr\u00f3pria o que, consequentemente, levava a uma neglig\u00eancia generalizada das opress\u00f5es espec\u00edficas que as mulheres negras experimentavam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A neglig\u00eancia quanto \u00e0s viv\u00eancias das mulheres negras \u00e9 um tra\u00e7o marcante dos movimentos sociais citados. No entanto, h\u00e1 momentos em que alian\u00e7as podem surgir entre mulheres negras e os movimentos organizados. Algumas dessas alian\u00e7as se mostraram superficiais e logo foram dissolvidas, por exemplo, quando o sufr\u00e1gio negro surge como uma pauta a ser discutida antes do sufr\u00e1gio feminino. Esse acontecimento revelou o racismo como uma barreira intranspon\u00edvel dentro do movimento organizado de mulheres (cap. 4). De acordo com Davis: &#8220;na defesa dos pr\u00f3prios interesses enquanto mulheres brancas de classe m\u00e9dia, elas explicitavam frequentemente de modo ego\u00edsta e elitista &#8211; seu relacionamento fraco e superficial com a campanha pela igualdade negra do p\u00f3s-guerra&#8221; (p.84). Contudo, houve situa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas de alian\u00e7as notavelmente potentes, como aqueles que envolvem os acontecimentos que circundaram a busca por educa\u00e7\u00e3o para a popula\u00e7\u00e3o negra durante o per\u00edodo de Reconstru\u00e7\u00e3o (cap. 6). Neste per\u00edodo, mulheres brancas e mulheres negras formaram uma alian\u00e7a concreta e com potencial efetivo de luta contra a opress\u00e3o, unindo-se para findar com o alto n\u00famero de analfabetismo da popula\u00e7\u00e3o negra logo ap\u00f3s a emancipa\u00e7\u00e3o do povo negro. Segundo Davis, \u201ca sororidade entre mulheres negras e brancas \u00e9 de fato poss\u00edvel [&#8230;], desde que erguida sobre uma base firme\u201d (p.112).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Da mesma forma que \u00e9 poss\u00edvel criar uma alian\u00e7a forte contra a opress\u00e3o, Davis revela que as pr\u00f3prias opress\u00f5es tamb\u00e9m formam alian\u00e7as e se mostram intimamente interconectadas, de modo a se retroalimentarem. As opress\u00f5es se revelam conectadas e s\u00e3o constantemente afetadas por componentes ideol\u00f3gicos que se ressignificam de acordo com cada per\u00edodo hist\u00f3rico como forma de consolidar as hierarquias vigentes. Nas palavras de Davis existe um \u201cprofundo v\u00ednculo ideol\u00f3gico entre racismo, vi\u00e9s de classe e supremacia masculina\u201d (p.81), embora os movimentos organizados da \u00e9poca tivessem dificuldades em reconhecer esta liga\u00e7\u00e3o. Mas, gra\u00e7as \u00e0s nossas experi\u00eancias interseccionais, n\u00f3s, mulheres negras, identificamos esse v\u00ednculo ideol\u00f3gico entre as opress\u00f5es e, assim, reivindicamos esse reconhecimento atrav\u00e9s de nossas lutas por emancipa\u00e7\u00e3o e liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tendo isso em vista, os cap\u00edtulos de <em>Mulheres, ra\u00e7a e classe<\/em> revelam marcas e cicatrizes deixadas como um legado da escravid\u00e3o. Este legado pode ser visto na estrutura das rela\u00e7\u00f5es de trabalho, nas rela\u00e7\u00f5es sociais e nas rela\u00e7\u00f5es raciais. Este legado pode ser visto na aus\u00eancia de bibliografias que narram a hist\u00f3ria real do povo negro. Este legado pode ser visto nos lugares que o povo negro e outros grupos oprimidos ocupam no imagin\u00e1rio de uma sociedade que se revela racista, machista e classista. Este legado pode ser visto na abordagem que Davis faz ao narrar acontecimentos hist\u00f3ricos que envolvem n\u00e3o s\u00f3 as mulheres negras, mas os movimentos sociais e as lutas que representam repletas de contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para construir esta narrativa cr\u00edtica dos principais movimentos de sua \u00e9poca, assim como revelar o que as mulheres negras estavam discutindo, Davis recorre a um extenso n\u00famero de fontes bibliogr\u00e1ficas, dentre os quais obras como as do historiador Hebert Aptheker, do soci\u00f3logo W. E. B. Du Bois, do abolicionista Frederick Douglass e das feministas Elizabeth Candy Stanton, Susan B. Anthony e Ida B. Wells, as quais n\u00e3o lidavam diretamente com a condi\u00e7\u00e3o espec\u00edfica da mulher negra e n\u00e3o necessariamente analisavam a condi\u00e7\u00e3o concreta do povo negro estadunidense. Angela Davis recorre a estas fontes para tornar vis\u00edvel, para construir a narrativa de um fen\u00f4meno a ser analisado com a sua interpreta\u00e7\u00e3o interseccional das opress\u00f5es, sem romantiza\u00e7\u00f5es ou camuflagens da realidade concreta da vida das mulheres negras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com isso em mente, pode-se dizer que a compreens\u00e3o da hist\u00f3ria das mulheres negras estadunidenses desde o in\u00edcio da escraviza\u00e7\u00e3o e seu hist\u00f3rico de sobreviv\u00eancia e resist\u00eancia s\u00e3o o ponto de partida para remontar a hist\u00f3rica luta por emancipa\u00e7\u00e3o dos grupos oprimidos. A fil\u00f3sofa Angela Davis executa uma an\u00e1lise da opress\u00e3o a partir do modo como os movimentos sociais se organizam e como acolhem (ou n\u00e3o) as diferentes experi\u00eancias. Foram as experi\u00eancias das mulheres negras como <em>mulheres <\/em>(g\u00eanero), <em>negras<\/em> (ra\u00e7a) e <em>trabalhadoras <\/em>(classe), simultaneamente, e suas rela\u00e7\u00f5es com os movimentos que buscavam liberta\u00e7\u00e3o, que pavimentou o caminho para a forma\u00e7\u00e3o do entendimento concreto de como as opress\u00f5es de ra\u00e7a, classe e g\u00eanero operam simultaneamente. Como dito acima, o trabalho realizado por Davis foge completamente aos padr\u00f5es da academia, ele \u00e9 o resultado de um processo vivenciado por ela mesma, assim como por outras mulheres que at\u00e9 ent\u00e3o se viram incapacitadas de falar para serem ouvidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atrav\u00e9s do seu profundo compromisso com a justi\u00e7a social e a liberta\u00e7\u00e3o, Angela Davis mostra como as vidas das mulheres negras podem ser fontes inestim\u00e1veis de conhecimento sobre a pluralidade de mulheres, a\u00e7\u00f5es coletivas e sobre como o pr\u00f3prio coletivo pode ser um meio eficiente de resist\u00eancia. &#8220;&#8221;Quando as mulheres negras se movem, toda a estrutura pol\u00edtica social se movimenta na sociedade&#8221;, exatamente porque, estando na base, o movimento das mulheres negras desestrutura e desestabiliza as r\u00edgidas e consolidadas rela\u00e7\u00f5es desiguais de poder no sistema capitalista&#8221; (Davis <em>apud<\/em> Figueiredo, 2018). A cr\u00edtica social trazida pela fil\u00f3sofa possibilita engendrar uma mudan\u00e7a real da sociedade, uma mudan\u00e7a que une movimentos sociais, ao mesmo tempo em que mostra para os intelectuais da academia que esse saber das mulheres negras oriundo das suas pr\u00f3prias experi\u00eancias \u00e9 uma forma leg\u00edtima de conhecimento. Por fim, ao trazer a mulher negra da margem para o centro das an\u00e1lises, Davis ilumina a estrutura e as rela\u00e7\u00f5es do sistema interligado, m\u00faltiplo e simult\u00e2neo das opress\u00f5es de ra\u00e7a, g\u00eanero e classe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta proposta de Davis e de outras mulheres negras e n\u00e3o negras, de olhar para as experi\u00eancias das mulheres negras, criou um novo campo de investiga\u00e7\u00e3o com novas teorias, que &#8220;ilustrou as maneiras pelas quais ra\u00e7a, g\u00eanero e classe se cruzam tanto nas experi\u00eancias cotidianas dos indiv\u00edduos quanto na estrutura social da sociedade e de todas as suas institui\u00e7\u00f5es&#8221; (Bernett, p.17). Esse novo campo auxilia na compreens\u00e3o de quest\u00f5es referentes n\u00e3o somente ao passado, mas ao presente. Assim, o reconhecimento de um sistema interligado de opress\u00e3o, o que nomeamos de <em>interseccionalidade<\/em>, promove uma busca concreta por liberdade, que \u00e9, antes de tudo, uma busca concreta por liberta\u00e7\u00e3o e pelo fim da opress\u00e3o como um todo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A obra <em>Mulheres, ra\u00e7a e classe<\/em> foi um dos primeiros livros que articulou teoria, an\u00e1lise da simultaneidade e interrela\u00e7\u00e3o dos sistemas de poder e opress\u00e3o de ra\u00e7a, g\u00eanero e classe. Segundo a fil\u00f3sofa, esta obra \u00e9 &#8220;o reflexo n\u00e3o de uma an\u00e1lise individual, e sim de uma percep\u00e7\u00e3o, no interior de movimentos e coletivos&#8221; (DAVIS, 2018, p.33) que consegue de forma efetiva mostrar os caminhos de uma luta concreta por liberta\u00e7\u00e3o. Sendo assim, <em>Mulheres, ra\u00e7a e classe<\/em> \u00e9 leitura obrigat\u00f3ria para aquelas e aqueles que desejam compreender a partir de uma perspectiva n\u00e3o tradicional conceitos como: liberdade, emancipa\u00e7\u00e3o, liberta\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o. Perspectiva esta, oriunda da experi\u00eancia coletiva das mulheres negras. Al\u00e9m disso, esta obra por conter um grande referencial hist\u00f3rico, e que \u00e9 utilizado por Davis como uma eficiente metodologia para escapar das romantiza\u00e7\u00f5es e camuflagens, contribui para o seu objetivo inicial: construir uma narrativa concreta da hist\u00f3ria do povo negro que auxilie a compreens\u00e3o de problemas de opress\u00e3o enfrentados na atualidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Bibliografia:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BARNETT, Bernice McNair. <strong>Angela Davis and Women, Race &amp; Class<\/strong>: A Pioneer in Integrative RGC Studies.\u201d In: <em>Race, Gender &amp; Class<\/em>, Vol. 10, N. 3, Interdisciplinary Topics in Race, Gender, and Class (2003), p. 9 \u2013 22.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">DAVIS, Angela Yvonne. <strong>A liberdade \u00e9 uma luta constante<\/strong>. Organiza\u00e7\u00e3o de Frank Barat. Tradu\u00e7\u00e3o de Heci Regina Candiani. S\u00e3o Paulo, SP: Boitempo, 2018.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">DAVIS, Angela Y. <strong>Uma autobiografia<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o de Heci Regina Candiani. Pref\u00e1cio de Raquel Goulart Barreto. S\u00e3o Paulo, SP: Boitempo, 2019. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Yanci, George. <strong>African-American Philosophers: 17 conversations<\/strong>. New York, NY: Routledge, 1998<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por La\u00edssa Ferreira Doutoranda no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Filosofia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e integrante do Grupo<\/p>\n","protected":false},"author":360,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","inline_featured_image":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"class_list":["post-765","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/765","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/360"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=765"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/765\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":774,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/765\/revisions\/774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=765"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}