{"id":779,"date":"2021-01-20T15:23:58","date_gmt":"2021-01-20T18:23:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/?page_id=779"},"modified":"2021-01-25T12:38:09","modified_gmt":"2021-01-25T15:38:09","slug":"rosa-luxemburgo","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/rosa-luxemburgo\/","title":{"rendered":"Rosa Luxemburgo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(1871-1919)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Por Isabel Loureiro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Doutora em Filosofia pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) &#8211; <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/1957958130949248\">Lattes<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/01\/Rosa-Luxemburgo-2.pdf\">PDF &#8211; Rosa Luxemburgo<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/6FU8ovyK-R8EukbjTQnSd2aKjcQ_O9um_pIUWxW10IsxqZ-8va_b9p34G3RMKLs1xZT-UM4yDQtbpMnJPBZ4iS7mu8SwV2m4lz7iZ1wFss6nlygAfk0ZpBRHq5jxpLVtrnnBCQ8\" width=\"384\" height=\"453\"><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns has-1-columns has-desktop-equal-layout has-tablet-equal-layout has-mobile-equal-layout has-default-gap has-vertical-unset\" id=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns-f4da4e21\"><div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns-overlay\"><\/div><div class=\"innerblocks-wrap\">\n<div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-column\" id=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-column-445f1003\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Vida<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Rosa (Rosalie, Rosalia, R\u00f3\u017ca) Luxemburgo (Luksenburg, Luxemburg) nasceu em 5 de mar\u00e7o de 1871, em Zamo\u015b\u0107, pequena cidade na parte sudoeste da Pol\u00f4nia anexada pelo imp\u00e9rio russo. O pai, Eliasch Luksenburg, comerciante, e a m\u00e3e, Lina (de solteira L\u00f6wenstein), ligados ao iluminismo judaico, prezavam acima de tudo a educa\u00e7\u00e3o dos filhos e a alta cultura. Rosa Luxemburgo era a \u00faltima de tr\u00eas irm\u00e3os e uma irm\u00e3.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1873, a fam\u00edlia mudou-se para Vars\u00f3via.&nbsp; Aos cinco anos, para tratar de uma doen\u00e7a do quadril, Rosa passou um ano na cama com a perna engessada. Foi quando aprendeu a ler e escrever. Como resultado do tratamento, a perna esquerda ficou mais curta, levando-a a coxear por toda a vida. Educada em casa at\u00e9 os nove anos, entrou pelo sistema de quotas para meninas judias no II Gin\u00e1sio Feminino de Vars\u00f3via, col\u00e9gio russo onde era proibido falar polon\u00eas.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em fevereiro de 1889, foi para a Universidade de Zurique onde se matriculou em ci\u00eancias naturais. Pouco depois, abandonou essa carreira ao conhecer Leo Jogiches, de Vilna (Litu\u00e2nia), seu companheiro por 15 anos, que a convenceu a estudar economia, filosofia e direito. Na universidade, Rosa Luxemburgo se torna ex\u00edmia conhecedora da obra de Marx, com quem estabeleceu um di\u00e1logo frut\u00edfero avesso a qualquer forma de dogmatismo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1893, com Leo Jogiches e outros revolucion\u00e1rios poloneses, fundou a Social-Democracia do Reino da Pol\u00f4nia, partido de base marxista, fortemente inspirado na social-democracia alem\u00e3, que em 1899, com a ades\u00e3o dos socialistas da Litu\u00e2nia, foi rebatizada de Social-Democracia do Reino da Pol\u00f4nia e Litu\u00e2nia (SDKPiL), nome com que passou \u00e0 hist\u00f3ria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1897, defendeu a tese de doutorado em economia pol\u00edtica, <em>O desenvolvimento industrial da Pol\u00f4nia<\/em>, publicada logo em seguida por uma grande editora de Leipzig. Em 1898, mudou-se para Berlim, onde fez carreira no Partido Social-Democrata Alem\u00e3o (SPD) como jornalista, oradora e professora da escola de quadros do partido. De 1904 a 1914, representou a SDKPiL no Bureau da Internacional Socialista em Bruxelas. Ela teve sempre uma dupla milit\u00e2ncia, no movimento socialista alem\u00e3o e no polon\u00eas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em mar\u00e7o de 1906 foi detida junto com Leo Jogiches em Vars\u00f3via, onde ambos se encontravam por conta da Revolu\u00e7\u00e3o Russa que havia come\u00e7ado um ano antes. Suas reflex\u00f5es sobre esse per\u00edodo resultaram num de seus escritos mais famosos, <em>Greve de massas, partido e sindicatos<\/em> (1906).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De 1907 a 1914, lecionou na escola do SPD, \u00fanica professora mulher. Desse trabalho pedag\u00f3gico sa\u00edram suas obras de economia pol\u00edtica, <em>A acumula\u00e7\u00e3o do capital<\/em> (1913) e a <em>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 economia pol\u00edtica<\/em> (1925). Em 1907, rompeu com Leo Jogiches, mas o v\u00ednculo pol\u00edtico manteve-se at\u00e9 o fim da vida. Nessa \u00e9poca, come\u00e7ou um relacionamento com Constantin Zetkin, filho mais novo de sua amiga Clara Zetkin, que durou at\u00e9 1912.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1914, com a ades\u00e3o do SPD \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o do governo imperial em prol da guerra, Rosa e seus companheiros da ala esquerda do partido fundaram o Grupo Internacional que, posteriormente, adotaria o nome de Liga Spartakus. Presa durante um ano (fevereiro de 1915 a fevereiro de 1916), acusada de agita\u00e7\u00e3o antimilitarista, ela redigiu <em>A crise da social-democracia<\/em>, publicada em abril de 1916, com o pseud\u00f4nimo Junius. Por causa da atividade contra a guerra foi novamente encarcerada em julho de 1916. Na pris\u00e3o, entre muitos outros artigos, escreveu as notas cr\u00edticas aos bolcheviques que ficaram conhecidas como <em>A revolu\u00e7\u00e3o russa<\/em>, al\u00e9m de cartas aos amigos e amigas, publicadas postumamente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a derrota da Alemanha na guerra, a Rep\u00fablica foi proclamada. Posta em liberdade (8\/11\/1918), Rosa voltou a Berlim, onde passou a dirigir o jornal spartakista <em>Die Rote Fahne<\/em> [<em>A Bandeira Vermelha<\/em>] em que publicava artigos corrosivos contra o governo de seus antigos companheiros social-democratas, acusando-o de sufocar a revolu\u00e7\u00e3o iniciada com o fim da monarquia (Luxemburgo, 2017b). No final de dezembro de 1918 participou da funda\u00e7\u00e3o do Partido Comunista Alem\u00e3o (KPD). Foi presa, junto com Karl Liebknecht, durante a \u201cinsurrei\u00e7\u00e3o de janeiro\u201d em Berlim. Ambos foram brutalmente assassinados em 15 de janeiro de 1919, por soldados de uma mil\u00edcia protofascista criada para reprimir os revolucion\u00e1rios. Rosa tinha 47 anos. Seu corpo, lan\u00e7ado ao canal Landwehr, que atravessa o Tiergarten (parque central de Berlim), s\u00f3 foi encontrado em 31 de maio e sepultado em 13 de junho daquele ano.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Obra: temas e conceitos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A obra de Rosa Luxemburgo se dedica a dois grandes temas, que se iluminam reciprocamente: economia e pol\u00edtica. Ao n\u00e3o separar uma da outra em polos estanques, o empreendimento intelectual de Rosa, insepar\u00e1vel de sua milit\u00e2ncia socialista, se estrutura em torno do conceito de totalidade (Luk\u00e1cs, 1970, p.94).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por um lado, Luxemburgo faz an\u00e1lise do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista com suas contradi\u00e7\u00f5es: trata-se de um modo de produ\u00e7\u00e3o que cria necessariamente a desigualdade entre os seres humanos, as classes e os pa\u00edses; que para se reproduzir precisa acumular indefinidamente, destruindo antigos modos de vida, a natureza, os v\u00ednculos sociais; \u00e9 racista e sexista. Desta an\u00e1lise decorre logicamente a necessidade da transforma\u00e7\u00e3o radical desse modo de produ\u00e7\u00e3o disfuncional. Ou, nos termos de Rosa Luxemburgo, a necessidade da revolu\u00e7\u00e3o socialista. Aqui nos deparamos com sua obra de economia pol\u00edtica, <em>A acumula\u00e7\u00e3o do capital<\/em> (1913) e <em>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 economia pol\u00edtica<\/em> (1925), para citar apenas os textos mais importantes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, ela estuda a hist\u00f3ria das lutas de classes, das revolu\u00e7\u00f5es, do protagonismo da classe trabalhadora, de suas vit\u00f3rias e derrotas, para aprender tanto com as vit\u00f3rias quanto com as derrotas. Aqui Luxemburgo enfatiza o papel da experi\u00eancia como a grande mestra dos oprimidos. Neste terreno encontramos, entre outros, escritos pol\u00edticos como <em>Quest\u00f5es de organiza\u00e7\u00e3o da social-democracia russa (1904), Greve de massas, partido e sindicatos <\/em>(1906), <em>A crise da social-democracia <\/em>(1916), <em>A revolu\u00e7\u00e3o russa <\/em>(1918). Deste conjunto de textos podemos extrair sua filosofia pol\u00edtica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ademais, Luxemburgo \u00e9 autora de vasta correspond\u00eancia com interlocutores do campo socialista europeu, de cartas de cunho estritamente pessoal com amores, amigos e amigas, al\u00e9m de pequenos ensaios sobre a literatura russa, Tolst\u00f3i e Korolenko em particular. Nestes textos \u00e9 percept\u00edvel uma esp\u00e9cie de filosofia de vida, que mais do que fruto de reflex\u00e3o elaborada e sistem\u00e1tica, \u00e9 antes produto espont\u00e2neo do seu modo de ser.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Imperialismo e cr\u00edtica do progresso<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reconhecida como a grande herdeira de Marx da primeira gera\u00e7\u00e3o que se seguiu \u00e0 morte dele, Luxemburgo foi a primeira te\u00f3rica marxista a analisar o capitalismo como sistema global em sua obra magna de economia pol\u00edtica, <em>A acumula\u00e7\u00e3o do capital<\/em> (1913). Por natureza antidogm\u00e1tica e profundamente independente, Rosa n\u00e3o temia apontar insufici\u00eancias na teoria de Marx, que considerava inacabada. No seu entender, ele n\u00e3o expunha de maneira adequada o desenvolvimento do capitalismo e Rosa pensava continuar a obra do mestre nesse sentido. Ela foi muito criticada pelos especialistas em economia pol\u00edtica, segundo os quais a revolucion\u00e1ria polonesa n\u00e3o havia entendido Marx, e suas cr\u00edticas eram erradas. Seu livro recebeu cr\u00edticas de todos os tipos: de ordem t\u00e9cnica, que apontavam contradi\u00e7\u00f5es e lacunas na argumenta\u00e7\u00e3o; de ordem te\u00f3rica, que rejeitavam a ideia da impossibilidade da acumula\u00e7\u00e3o numa economia capitalista fechada; de ordem pessoal, que consideravam inaceit\u00e1vel que uma mulher inteligente se pusesse a corrigir Marx.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muito tempo se passou at\u00e9 que seu empreendimento te\u00f3rico original fosse avaliado de maneira justa. Independentemente dos erros, reconhecidos mesmo por seus simpatizantes, hoje \u00e9 evidente a enorme atualidade da parte hist\u00f3rica de <em>A acumula\u00e7\u00e3o do capital<\/em>. A\u00ed Rosa Luxemburgo mostra que o capitalismo na metr\u00f3pole s\u00f3 p\u00f4de se desenvolver \u00e0s custas da espolia\u00e7\u00e3o da periferia, num processo que come\u00e7ou h\u00e1 s\u00e9culos e continua at\u00e9 o presente. Ela enfatiza o reverso sangrento da moderniza\u00e7\u00e3o capitalista com seu conhecido s\u00e9quito de horrores: genoc\u00eddio dos povos primitivos e seus modos de vida comunit\u00e1rios pelo capitalismo europeu, a fim de submet\u00ea-los aos mecanismos de mercado; guerra do \u00f3pio na China com o mesmo objetivo; com\u00e9rcio de escravos; enriquecimento da metr\u00f3pole \u00e0s custas do endividamento da periferia; acumula\u00e7\u00e3o de capital mediante compras de armas pelo Estado, o que favorece o militarismo e as guerras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Numa postura distante do eurocentrismo da social-democracia alem\u00e3 e da II Internacional, Rosa demonstra grande simpatia pelas culturas \u201ctradicionais\u201d, que foram aniquiladas pelo rolo compressor do capital. A moderniza\u00e7\u00e3o capitalista n\u00e3o significa progresso em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo anterior, mas apenas a ru\u00edna econ\u00f4mica e cultural dos povos origin\u00e1rios. Diferentemente de uma concep\u00e7\u00e3o iluminista do progresso, segundo a qual a viol\u00eancia capitalista \u00e9 vista como mal \u201cnecess\u00e1rio\u201d no caminho que leva ao socialismo, Rosa acredita que os povos origin\u00e1rios podem ensinar aos \u201ccivilizados\u201d formas de sociabilidade mais igualit\u00e1rias e n\u00e3o predadoras, determinadas pelos interesses da coletividade. Rosa Luxemburgo, origin\u00e1ria da Pol\u00f4nia perif\u00e9rica na Europa do come\u00e7o do s\u00e9culo XX, tem <em>insights<\/em> que apontam para uma concep\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria distinta da do marxismo ortodoxo de seu tempo, caracterizado por uma f\u00e9 ing\u00eanua no desenvolvimento das for\u00e7as produtivas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No come\u00e7o da Primeira Guerra Mundial, ao p\u00f4r na ordem do dia a consigna socialismo ou barb\u00e1rie, Rosa Luxemburgo se afasta do progressismo t\u00edpico da II Internacional, segundo o qual o socialismo resultaria, mais cedo ou mais tarde, das contradi\u00e7\u00f5es imanentes ao modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. Assim procedendo ela refor\u00e7a a perspectiva de uma hist\u00f3ria indeterminada, aberta \u00e0 experi\u00eancia, dando assim a entender que o socialismo deixou de ser uma garantia e passou a ser uma aposta, que s\u00f3 pode ser vencida se houver o engajamento das classes populares, aqui e agora, contra a barb\u00e1rie. Essa perspectiva de uma hist\u00f3ria aberta adquire cada vez mais atualidade numa \u00e9poca de crise civilizat\u00f3ria como a que estamos atravessando, no \u00e2mago da qual ecoa a pergunta j\u00e1 formulada por Rosa, que continua n\u00e3o querendo calar: a barb\u00e1rie capitalista \u00e9 mesmo o horizonte inelut\u00e1vel da humanidade?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Socialismo democr\u00e1tico&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A concep\u00e7\u00e3o de socialismo de Rosa Luxemburgo, que ela identificava com uma sociedade igualit\u00e1ria de seres humanos livres, rompe duplamente com a vis\u00e3o autorit\u00e1ria da corrente hegem\u00f4nica da esquerda no s\u00e9culo XX, o marxismo-leninismo. Para Rosa, n\u00e3o se trata primeiro de tomar o poder e s\u00f3 depois mudar o mundo: \u201cA democracia socialista n\u00e3o come\u00e7a somente na Terra prometida, quando tiver sido criada a infraestrutura da economia socialista, como um presente de Natal, j\u00e1 pronto, para o bom povo que, entretanto, apoiou fielmente o punhado de ditadores socialistas. A democracia socialista come\u00e7a com a destrui\u00e7\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o de classe e a constru\u00e7\u00e3o do socialismo. Ela come\u00e7a no momento da conquista do poder pelo partido socialista.\u201d (Luxemburgo, 2017b, p.210).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;Socialismo e democracia s\u00e3o insepar\u00e1veis, assim como liberdade e igualdade. O socialismo s\u00f3 pode resultar da a\u00e7\u00e3o livre das massas populares e o caminho para l\u00e1 chegar precisa necessariamente ser democr\u00e1tico. Meios e fins se condicionam reciprocamente. Justamente porque uma sociedade socialista s\u00f3 pode ser institu\u00edda a partir da experi\u00eancia vivida de todos os atingidos pela ordem reinante \u00e9 que ela defende incisivamente a manuten\u00e7\u00e3o das liberdades democr\u00e1ticas na transi\u00e7\u00e3o ao socialismo. Rosa sempre argumentou com ardor em prol das liberdades democr\u00e1ticas, fruto das revolu\u00e7\u00f5es burguesas no ocidente. Tendo vivido a inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia na Pol\u00f4nia dominada pela autocracia tzarista, conhecia bem a vida sem liberdade de imprensa, associa\u00e7\u00e3o, reuni\u00e3o; sem liberdade religiosa; sem direitos de nenhuma esp\u00e9cie para trabalhadores, mulheres, crian\u00e7as prolet\u00e1rias etc. (Luxemburgo, 2017<sup> <\/sup>a, p.218-262). Da\u00ed a cr\u00edtica \u00e0 dissolu\u00e7\u00e3o da Assembleia Constituinte pelos bolcheviques:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cSem elei\u00e7\u00f5es gerais, sem liberdade ilimitada de imprensa e de reuni\u00e3o, sem livre debate de opini\u00f5es, a vida se estiola em qualquer institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica, torna-se uma vida aparente em que s\u00f3 a burocracia subsiste como o \u00fanico elemento ativo. A vida p\u00fablica adormece progressivamente, algumas d\u00fazias de chefes partid\u00e1rios, de uma energia inesgot\u00e1vel e de um idealismo sem limites, dirigem e governam; entre eles, na realidade, uma d\u00fazia de cabe\u00e7as eminentes dirige, e a elite do operariado \u00e9 convocada de tempos em tempos para reuni\u00f5es, para aplaudir os discursos dos chefes e votar unanimemente as resolu\u00e7\u00f5es propostas; portanto, no fundo, \u00e9 um grupinho que governa (&#8230;)\u201d (Luxemburgo, 2017 b, p.208-209).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 por acreditar na criatividade das massas que Rosa apoia com energia os conselhos de trabalhadores e soldados surgidos espontaneamente no come\u00e7o da Revolu\u00e7\u00e3o Alem\u00e3 de 1918, vendo neles uma nova forma de soberania popular no plano pol\u00edtico, econ\u00f4mico e cultural (Luxemburgo, 2017 b, p.289, 294-96). Esses organismos democr\u00e1ticos e suprapartid\u00e1rios, express\u00e3o da auto-organiza\u00e7\u00e3o das massas, seriam a base de uma democracia popular ativa. Al\u00e9m disso, tinham papel pedag\u00f3gico fundamental na forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos trabalhadores: \u201cExercendo o poder [nos conselhos], a massa deve aprender a exercer o poder. N\u00e3o h\u00e1 nenhum outro meio de lhe ensinar isso.\u201d (Luxemburgo, 2017 b, p.369).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em suma, para Rosa Luxemburgo, contempor\u00e2nea dos conselhos, a democracia socialista se funda na multiplica\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os de democracia direta e de autogoverno e, nesse sentido, engloba e supera a democracia representativa burguesa e o Estado de direito burgu\u00eas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Revolu\u00e7\u00e3o e autonomia das massas populares&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A revolu\u00e7\u00e3o imaginada por Luxemburgo n\u00e3o consistia na troca de grupos no poder, e sim na mudan\u00e7a estrutural da sociedade em termos econ\u00f4micos, pol\u00edticos, sociais e culturais. Isso implicava mudan\u00e7a de valores dos indiv\u00edduos e das coletividades, ou seja, uma revolu\u00e7\u00e3o como processo, e, portanto, lenta (Luxemburgo, 2017 b, p.343-370). Ao mesmo tempo, ela n\u00e3o rejeitava a conquista do poder pol\u00edtico pelos trabalhadores \u2013 revolu\u00e7\u00e3o como ruptura r\u00e1pida das rela\u00e7\u00f5es de poder existentes, que permitiria acelerar o processo de mudan\u00e7a estrutural (Luxemburgo, 2017 a, p.67-77). Embora n\u00e3o diga com clareza como isso se realizaria na pr\u00e1tica, ela sempre afirma de maneira contundente que n\u00e3o seria por meio do golpe de uma minoria convertida em substituta das massas (Luxemburgo, 2017 b, p.291).&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em suma, o que subjaz \u00e0 no\u00e7\u00e3o de revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica de Luxemburgo \u00e9 a ideia de que a transforma\u00e7\u00e3o da sociedade capitalista em dire\u00e7\u00e3o ao socialismo s\u00f3 pode resultar da atividade aut\u00f4noma das massas populares<em>. <\/em>Essa \u00e9 sua contribui\u00e7\u00e3o original \u00e0 teoria pol\u00edtica. A consci\u00eancia pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 introduzida de fora por uma vanguarda esclarecida de intelectuais que supostamente sabem melhor o que os de baixo devem pensar, sentir e fazer, mas resulta da participa\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma dos pr\u00f3prios concernidos, tanto na luta quotidiana pela amplia\u00e7\u00e3o de direitos, quanto para transformar de maneira radical o estado de coisas vigente. Rosa Luxemburgo sempre foi decididamente contra a ideia de vanguarda substituta das massas (Luxemburgo, 2017 a, p.151-175). Para ela, o verdadeiro l\u00edder pol\u00edtico socialista \u00e9 aquele que esclarece, destr\u00f3i as ilus\u00f5es dos trabalhadores, transforma a massa em lideran\u00e7a de si mesma, acaba com a separa\u00e7\u00e3o entre dirigentes e dirigidos e, assim, contribui para formar o que ela considera o pr\u00e9-requisito fundamental de uma humanidade emancipada: a \u201cautonomia intelectual\u201d, \u201cautodetermina\u00e7\u00e3o e iniciativa\u201d, \u201cpensamento cr\u00edtico\u201d (Luxemburgo, 2017 a, p.419, 421-2), o \u00fanico ant\u00eddoto contra a burocratiza\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es de esquerda (Luxemburgo, 2017 b, p. 205-210).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A revolu\u00e7\u00e3o socialista \u00e9 obra da a\u00e7\u00e3o livre, espont\u00e2nea, dos trabalhadores, ou n\u00e3o \u00e9 revolu\u00e7\u00e3o. Rosa Luxemburgo chega a essa ideia analisando as lutas de classes de sua \u00e9poca, sobretudo na R\u00fassia de 1905-1907, durante a primeira Revolu\u00e7\u00e3o Russa (Luxemburgo, 2017 a, p.263-349). Mas, ao mesmo tempo, s\u00f3 espontaneidade n\u00e3o basta: o trabalho organizativo \u00e9 fundamental para estruturar e dar continuidade \u00e0s explos\u00f5es contra-hegem\u00f4nicas dos de baixo, que irrompem de tempos em tempos na rotina da vida quotidiana. Na obra de Luxemburgo h\u00e1 sempre essa rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre espontaneidade e organiza\u00e7\u00e3o, de tal maneira que a acusa\u00e7\u00e3o de espontane\u00edsmo \u2013 como se ela negasse a necessidade da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos trabalhadores \u2013 que lhe foi endere\u00e7ada pelo stalinismo n\u00e3o faz o menor sentido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A arte da vida<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos \u00faltimos anos renovou-se a tend\u00eancia a valorizar a correspond\u00eancia privada de Rosa Luxemburgo como fonte indispens\u00e1vel para a compreens\u00e3o do conjunto de sua obra (Caysa, 2017, Brie, 2019). Vida pol\u00edtica e vida pessoal s\u00e3o insepar\u00e1veis nessa personagem que, mais do que qualquer outra, uniu teoria e pr\u00e1tica. Luk\u00e1cs, em uma das obras filos\u00f3ficas fundamentais do s\u00e9culo XX, <em>Hist\u00f3ria e consci\u00eancia de classe<\/em>, j\u00e1 o havia constatado: \u201c\u00c9 sinal da unidade de teoria e pr\u00e1tica na obra da vida de Rosa Luxemburgo que essa unidade de vit\u00f3ria e derrota, destino individual e processo total tenha formado o fio condutor de sua teoria e modo de vida.\u201d (Luk\u00e1cs, 1970, p.117). \u2028<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Rosa Luxemburgo foi interpretada como aquela que exerce \u201ca arte da vida\u201d (Kautsky, s\/d, p.41; Caysa, 2017, p.36-41), compreendida como \u201cuma forma de vida filos\u00f3fica caracterizada pela identidade concreta entre vida e pensamento e na qual se trata de configurar e dirigir a vida de modo autoconsciente de acordo com uma ideia.\u201d (Caysa, 2017, p.37). Assim, aplica-se a ela a sugest\u00e3o de Antonio Candido a respeito de Florestan Fernandes. Para al\u00e9m da obra de soci\u00f3logo e de sua atua\u00e7\u00e3o como intelectual, professor e pesquisador, \u201cele realizou outra obra n\u00e3o menos admir\u00e1vel: <em>a constru\u00e7\u00e3o de si mesmo<\/em>.\u201d (Candido, 2001, p.65).&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Do mesmo modo, Rosa Luxemburgo, para al\u00e9m do jornalismo, da doc\u00eancia, da milit\u00e2ncia revolucion\u00e1ria, dedicou-se \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de si mesma. Qual seria ent\u00e3o a ideia fundamental que a orientava como m\u00e1xima de vida e que aparece nas cartas da pris\u00e3o escritas durante a guerra? Antes de mais nada, tinha em alta conta uma concep\u00e7\u00e3o de vida interior centrada em valores como harmonia, equil\u00edbrio, estoicismo, recusa a lamenta\u00e7\u00f5es diante das adversidades: \u201c\u2018assim\u2019 \u00e9 a vida desde sempre, tudo faz parte dela: sofrimento e separa\u00e7\u00e3o e saudade. Temos de aceit\u00e1-la com tudo isso e achar <em>tudo<\/em> belo e bom. Eu pelo menos fa\u00e7o assim. N\u00e3o por meio de uma sabedoria artificial, mas simplesmente por minha natureza.\u201d (Luxemburgo, 2017 c, p.267)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;A carta \u00e0 amiga Luise Kautsky, de 26 de janeiro de 1917, \u00e9 esclarecedora:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEssa entrega total \u00e0 mis\u00e9ria de nossos dias \u00e9 absolutamente incompreens\u00edvel e insuport\u00e1vel para mim. Veja como um Goethe, por exemplo, mantinha uma fria serenidade diante das coisas. Mas pense em tudo o que ele teve de passar: a grande Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, que, vista de perto, certamente parecia uma farsa sangrenta e completamente sem sentido, depois, de 1793 a 1815 uma s\u00e9rie ininterrupta de guerras em que o mundo novamente parecia um hosp\u00edcio desembestado. E com que tranquilidade, com que equil\u00edbrio espiritual ele realizou simultaneamente a tudo isso os seus estudos sobre a metamorfose das plantas, sobre a teoria das cores e mil outras coisas. Eu n\u00e3o exijo de voc\u00ea que escreva poemas como Goethe, mas a concep\u00e7\u00e3o de vida dele \u2013 o universalismo dos interesses, a harmonia interior \u2013 podem todos adquirir ou ao menos almejar.\u201d (Luxemburgo, 2017 c, p.223)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto \u2013 e essa \u00e9 uma das facetas que fazem a riqueza da nossa personagem \u2013, ao mesmo tempo, ela nunca quis renunciar aos prazeres da vida. Fazia sua a m\u00e1xima do escritor russo Vladimir Korolenko, que traduziu na pris\u00e3o: \u201co homem \u00e9 criado para ser feliz como o p\u00e1ssaro para voar.\u201d (Kautsky, 1973, p.61).&nbsp; Por isso mesmo, nunca se contentou com uma vida consagrada unicamente \u00e0 milit\u00e2ncia pol\u00edtica: se dirigia \u00e0s massas como jornalista e oradora, e voltava inteira para si mesma, para a solid\u00e3o criativa, dedicando-se \u00e0 pintura, ao desenho, \u00e0 m\u00fasica, \u00e0 bot\u00e2nica, \u00e0 geologia. No isolamento da cela relembrava momentos de alegria com os amigos, quando bebiam champanhe e \u201ca vida nos formiga na ponta dos dedos e estamos sempre prontas para qualquer loucura\u201d (Luxemburgo, 2017 c, p.221). Mesmo aprisionada, n\u00e3o desistia de ser feliz e mantinha um amor plat\u00f4nico com seu amigo Hans Diefenbach; se apegava aos sinais da natureza que chegavam esparsos \u00e0 pris\u00e3o: cultivava um pequeno jardim, herborizava, observava as nuvens, as plantas, os animais; alegrava-se com o canto dos p\u00e1ssaros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa maneira de ser se alicer\u00e7ava numa concep\u00e7\u00e3o org\u00e2nica do mundo, fortemente inspirada no amor \u00e0 natureza: \u201cEm mim, a fus\u00e3o \u00edntima com a natureza org\u00e2nica (&#8230;) toma formas quase doentias\u201d (Luxemburgo, 2017 c, p.340). Ela procurou ajustar \u201co sentimento espont\u00e2neo da vida, que nunca reprimiu\u201d (Roland Holst, 1937, p.24) \u00e0 teoria de Marx, interpretada de maneira n\u00e3o dogm\u00e1tica:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO pr\u00f3prio marxismo \u00e9, por ess\u00eancia, o pensamento mais universal, mais fecundo que dota o esp\u00edrito de uma teoria vasta como o mundo, flex\u00edvel, rica de cores e de nuances como a natureza, incitando \u00e0 a\u00e7\u00e3o, transbordante de vida como a pr\u00f3pria juventude.\u201d (Luxemburgo, apud Laschitza,1986, p.129).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em muitas passagens encontramos refer\u00eancia \u00e0 vida, ao org\u00e2nico, n\u00e3o burocr\u00e1tico:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cN\u00e3o \u00e9 a letra do estatuto, mas o sentido e o esp\u00edrito nela introduzidos pelos militantes ativos que determinam o valor de uma forma de organiza\u00e7\u00e3o.\u201d (Luxemburgo, 2017 a, p.164).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;\u201cSeria um engano desastroso imaginar que, desde ent\u00e3o [desde a funda\u00e7\u00e3o da social-democracia], tamb\u00e9m toda a capacidade hist\u00f3rica de a\u00e7\u00e3o do povo tivesse se transferido unicamente para a organiza\u00e7\u00e3o social-democrata, que a massa desorganizada do proletariado teria se tornado um mingau disforme, um peso morto da hist\u00f3ria. Pelo contr\u00e1rio. Apesar da social-democracia, a mat\u00e9ria viva da hist\u00f3ria mundial permanece sendo a massa popular, e apenas se existir uma circula\u00e7\u00e3o sangu\u00ednea viva entre o n\u00facleo organizado e a massa popular, quando a mesma pulsa\u00e7\u00e3o der vida a ambos, poder\u00e1 a social-democracia mostrar-se qualificada para realizar grandes a\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas.\u201d (Idem, p.465).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cS\u00f3 uma vida fervilhante e sem entraves chega a mil formas novas, improvisa\u00e7\u00f5es, mant\u00e9m a <em>for\u00e7a criadora<\/em>, corrige ela mesma todos os seus erros.\u201d (Luxemburgo, 2017 b, p.207).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;E quando se refere \u00e0 greve de massas, que n\u00e3o pode ser executada por um decreto do partido, com hora marcada, vemos a mesma \u00eanfase na vida:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO absolutismo na R\u00fassia precisa ser derrubado pelo proletariado. Mas, para isso, o proletariado precisa de um alto grau de educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, de consci\u00eancia de classe e de organiza\u00e7\u00e3o. Todas essas condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem ser adquiridas em brochuras e panfletos, mas apenas na escola pol\u00edtica viva, na luta e pela luta, no andamento progressivo da revolu\u00e7\u00e3o.\u201d (Luxemburgo, 2017 a, p.285-286).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m o socialismo n\u00e3o pode ser introduzido por decreto, a partir de uma receita j\u00e1 pronta, mas \u00e9 cria\u00e7\u00e3o livre das massas que, levando em conta suas experi\u00eancias, exercem quotidianamente a criatividade para resolver os milhares de problemas que se colocam diante delas. Rosa se recusa a pensar a pol\u00edtica nos termos da pol\u00edtica burguesa, em que existe um plano tra\u00e7ado de antem\u00e3o para que a m\u00e1quina funcione racionalmente e o mais eficazmente poss\u00edvel e com consequ\u00eancias calcul\u00e1veis, tudo isso sem a inc\u00f4moda participa\u00e7\u00e3o das classes populares que, com suas reivindica\u00e7\u00f5es \u201cextempor\u00e2neas\u201d, bagun\u00e7am o que foi planejado pelos dirigentes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao se contrapor \u00e0 concep\u00e7\u00e3o leninista de partido como vanguarda de revolucion\u00e1rios profissionais, ela acusa Lenin de ter uma vis\u00e3o mecanicista do partido e da revolu\u00e7\u00e3o. \u00c9 justamente essa recusa do mec\u00e2nico, sem vida, burocr\u00e1tico que aparece tamb\u00e9m na correspond\u00eancia da jovem Rosa com seu amado Leo Jogiches. Enquanto ela fala de sua vida, de seus sentimentos, ele s\u00f3 tem olhos para a pol\u00edtica e a causa revolucion\u00e1ria (Luxemburgo, 2017 c, p.6, 30-31, 110-11). Ela, em contrapartida, quer conciliar a pol\u00edtica com a felicidade pessoal, a luta coletiva por uma sociedade justa e igualit\u00e1ria com a alegria das pequenas coisas quotidianas. Ela luta por uma vida plena, n\u00e3o compartimentada, multifacetada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seu ideal \u00e9 resumido de maneira l\u00edmpida numa carta \u00e0 amiga Mathilde Wurm, de 28 de dezembro de 1916, em plena guerra:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEnt\u00e3o cuide de permanecer sendo <em>um ser humano<\/em>. Ser humano \u00e9 o mais importante de tudo. E isso significa: ser firme, claro e <em>alegre<\/em>, sim, alegre apesar de tudo e de todos, pois choramingar \u00e9 ocupa\u00e7\u00e3o para os fracos. Ser humano significa atirar com alegria sua vida inteira \u2018na grande balan\u00e7a do destino\u2019 se for preciso, mas ao mesmo tempo se alegrar a cada dia claro, a cada bela nuvem, ah, eu n\u00e3o sei dar uma receita de como ser humano, eu s\u00f3 sei como se pode s\u00ea-lo, e voc\u00ea tamb\u00e9m sempre soube quando passe\u00e1vamos por algumas horas juntas no campo em S\u00fcdende e a luz rosada da tarde ca\u00eda sobre as searas. O mundo \u00e9 t\u00e3o belo, com todo o seu horror, e seria ainda mais belo se n\u00e3o houvesse nele os fracos e covardes.\u201d (idem, p.214).&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desse ideal de ser humano completo tamb\u00e9m fazia parte a generosidade com os \u201chumilhados e ofendidos\u201d: presos comuns, prostitutas, sem-teto, crian\u00e7as maltratadas, temas de alguns de seus artigos. No come\u00e7o da Revolu\u00e7\u00e3o Alem\u00e3, uma semana depois de sair da pris\u00e3o, Rosa escreve no jornal spartakista <em>Die Rote Fahne<\/em>:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA mais violenta atividade revolucion\u00e1ria e a mais generosa humanidade \u2013 eis o \u00fanico e verdadeiro alento do socialismo. Um mundo precisa ser revirado, mas cada l\u00e1grima que cai, embora possa ser enxugada, \u00e9 uma acusa\u00e7\u00e3o; e aquele que, para realizar algo importante, de maneira apressada e com brutal descuido esmaga um pobre verme, comete um crime.\u201d (Luxemburgo, 2017 b, p.242).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora herdeira do Iluminismo, marxista que era, Rosa desejava um mundo em que coubessem v\u00e1rios mundos. Sua cr\u00edtica do capitalismo levava, com uma l\u00f3gica implac\u00e1vel, \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o do colonialismo, do imperialismo, militarismo, nacionalismo, racismo, assim como \u00e0 recusa da desvaloriza\u00e7\u00e3o das mulheres, das crian\u00e7as e da natureza. Socialismo democr\u00e1tico, humanista e internacionalista, sem d\u00favida. Mas mais que isso. Sua liga\u00e7\u00e3o com a natureza, testemunhada pelas cartas da pris\u00e3o, mais do que aned\u00f3tica, d\u00e1 elementos que permitem ver em Rosa Luxemburgo uma precursora da milit\u00e2ncia socioambiental. Por tudo isso, suas ideias continuam a frutificar, sobretudo na Am\u00e9rica Latina, mais uma vez condenada ao eterno retorno do mesmo (Ouvi\u00f1a, 2019).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Obras de Rosa Luxemburgo<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Luxemburgo, R. (2017a). <em>Textos escolhidos<\/em>, vol. I (1899-1914).<em> <\/em>Organiza\u00e7\u00e3o de Isabel Loureiro. Tradu\u00e7\u00e3o de Stefan Fornos Klein, Bogna T. Pierzynski, Grazyna Maria A. da Costa, Pedro Le\u00e3o da Costa Neto. 2<sup>a<\/sup> edi\u00e7\u00e3o, S\u00e3o Paulo: Editora UNESP.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013\u2013\u2013\u2013\u2013 (2017b). <em>Textos escolhidos<\/em>, vol. II (1914-1919). Organiza\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o de Isabel Loureiro. 2<sup>a<\/sup> edi\u00e7\u00e3o, S\u00e3o Paulo: Editora UNESP.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013\u2013\u2013\u2013\u2013 (2017c). <em>Cartas<\/em>, vol. III. Organiza\u00e7\u00e3o de Isabel Loureiro. Tradu\u00e7\u00e3o de M\u00e1rio Luiz Frungillo. 2<sup>a<\/sup> edi\u00e7\u00e3o, S\u00e3o Paulo: Editora UNESP.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Luxemburg, R. (1979-2017)<em>. Gesammelte <\/em>Werke. Berlim: Dietz, 7v.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;_____ (1982-1993). <em>Gesammelte Briefe<\/em>. Berlim: Dietz, 6v.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;_____ (1985). <em>A acumula\u00e7\u00e3o do capital<\/em> (1985). S\u00e3o Paulo: Nova Cultural.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Luxemburgo, R. (s\/d). <em>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 economia pol\u00edtica<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Carlos Leite. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Literatura secund\u00e1ria<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Brie, M. (2019). Mu\u00e9stranos tu milagro! D\u00f3nde est\u00e1 tu milagro? <em>Herramienta<\/em>, <em>62<\/em>, p.19-33.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Candido, A. (2001). <em>Florestan Fernandes<\/em>. S\u00e3o Paulo: Perseu Abramo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Caysa, V. (2017). <em>Rosa Luxemburg \u2013 Die Philosophin<\/em>. Leipzig: Rosa-Luxemburg-Stiftung Sachsen.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Evans, Kate. (2017).<em> Rosa Vermelha<\/em>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Kautsky, L. (s\/d). <em>Mon amie Rosa Luxembourg<\/em>. Paris: Spartacus.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Laschitza, A. (1986). Une marxiste \u00e9minente. In Badia, G., Weill, C. <em>Rosa Luxemburg aujourd\u2019hui<\/em> (p.123-139). Paris: Presses Universitaires de Vincennes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Loureiro, I. (2019). <em>Rosa Luxemburgo \u2013 os dilemas da a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria<\/em>. 3<sup>a<\/sup> edi\u00e7\u00e3o, S\u00e3o Paulo: Editora UNESP.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">_____. (org., 2018). <em>Rosa Luxemburgo e o protagonismo das lutas de massa<\/em>. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Luk\u00e1cs, G. (1970). <em>Geschichte und Klassenbewu\u00dftsein<\/em>. Darmstadt: Luchterhand. Tradu\u00e7\u00e3o de Telma Costa (1974): <em>Hist\u00f3ria e consci\u00eancia de classe<\/em>. Lisboa: Escorpi\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ouvi\u00f1a, H. (2019). Rosa Luxemburgo y la reinvenci\u00f3n de la pol\u00edtica \u2013 una lectura desde Am\u00e9rica Latina. Bogot\u00e1: La Fogata; Lanzas e Letras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Roland Holst-Van der Schalk, H. (1937). <em>Rosa Luxemburg, Ihr Leben und Wirken<\/em>. Zurique: Jean-Christoph Verlag.&nbsp;Sch\u00fctrumpf, J. (org., 2015). <em>Rosa Luxemburgo ou o pre\u00e7o da liberdade<\/em>. 2a edi\u00e7\u00e3o, S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular.<\/p>\n<\/div>\n<\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(1871-1919) Por Isabel Loureiro Doutora em Filosofia pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) &#8211; Lattes PDF &#8211; Rosa Luxemburgo<\/p>\n","protected":false},"author":360,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","inline_featured_image":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"class_list":["post-779","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/779","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/360"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=779"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/779\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":796,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/779\/revisions\/796"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=779"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}