{"id":847,"date":"2021-03-17T12:51:05","date_gmt":"2021-03-17T15:51:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/?page_id=847"},"modified":"2021-03-17T13:58:24","modified_gmt":"2021-03-17T16:58:24","slug":"ondas-do-feminismo","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/ondas-do-feminismo\/","title":{"rendered":"Ondas do Feminismo"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns has-1-columns has-desktop-equal-layout has-tablet-equal-layout has-mobile-equal-layout has-default-gap has-vertical-unset\" id=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns-8526660d\"><div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns-overlay\"><\/div><div class=\"innerblocks-wrap\">\n<div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-column\" id=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-column-079e08b5\">\n<p>Por Ilze Zirbel<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Doutora em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Catarina &#8211; <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/8740728758861601\">Lattes<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/03\/Ondas-do-Feminismo.pdf\">PDF &#8211; Ondas do Feminismo<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"577\" height=\"378\" class=\"wp-image-852 aligncenter\" style=\"width: 600px\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/03\/blog1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/03\/blog1.jpg 577w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/03\/blog1-300x197.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 577px) 100vw, 577px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em><span style=\"font-weight: 400\">Mulheres feministas se manifestam em Santiago do Chile, pedindo por democracia durante o governo militar de Augusto Pinochet. Fotografia de Kena Lorenzini doada ao Museo de la Memoria y los Derechos Humanos. Dispon\u00edvel em: https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/File:Feministas_en_lucha_anti_Pinochet_%28de_Kena_Lorenzini%29.jpg<\/span><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A met\u00e1fora da onda<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No ano de 1968, a feminista Martha Weinman Lear escreveu um pequeno artigo em um famoso jornal dos estados Unidos (New York Times) com o t\u00edtulo \u201cA segunda onda feminista\u201d. No texto, &nbsp; Lear fazia refer\u00eancia \u00e0 luta de milhares de mulheres pelo direito de votar, no final do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do XX, como uma esp\u00e9cie de onda de feminismo e anunciava que outra havia se formado ou estava em forma\u00e7\u00e3o. Algumas d\u00e9cadas depois, Rebecca Walker (1992) publicou o ensaio \u201cTornando-se a terceira onda\u201d, no qual defendia que as lutas feministas estavam longe de acabar e comprometia-se em seguir com elas. A met\u00e1fora das ondas consolidou-se, ent\u00e3o, como forma de nomear momentos de grande mobiliza\u00e7\u00e3o feminista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Inicialmente, as narrativas sobre as ondas privilegiaram a a\u00e7\u00e3o de feministas brancas da classe m\u00e9dia estadunidense e ativistas brancas inglesas e francesas. Ou, pelo menos, estas foram as narrativas que mais se espalharam. E elas podem e devem ser contestadas, como veremos ao longo deste verbete, uma vez que ocultam a forte atua\u00e7\u00e3o das mulheres da classe oper\u00e1ria e das mulheres negras \u2013 para dar apenas dois exemplos \u2013 dentro e fora dos limites fronteiri\u00e7os desses pa\u00edses. Sem elas, as ondas n\u00e3o teriam sido realmente ondas, pois n\u00e3o haveria for\u00e7a suficiente para fazer a press\u00e3o necess\u00e1ria \u00e0s mudan\u00e7as que reivindicavam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por muito tempo, tamb\u00e9m, a met\u00e1fora da onda foi usada para dar visibilidade a certas pautas ou momentos hist\u00f3ricos espec\u00edficos. Tais momentos representariam o \u201cponto alto\u201d ou de maior for\u00e7a de cada onda. No entanto, assim como uma onda mar\u00edtima \u00e9 formada por um conjunto de fen\u00f4menos,&nbsp; podemos pensar as ondas do feminismo de maneira mais org\u00e2nica e n\u00e3o como algo que desponta, repentinamente, na realidade social e, certo tempo depois, desaparece. Podemos pens\u00e1-las de maneira mais cont\u00ednua, geradas pela a\u00e7\u00e3o de milhares de mulheres, de diferentes locais, etnias, gera\u00e7\u00f5es e vis\u00f5es de mundo. \u00c9 desta maneira que ser\u00e3o descritas aqui.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>As ondas feministas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Podemos abordar a tem\u00e1tica das ondas partindo de diversos pontos, questionando, inclusive, quem foram suas protagonistas, em quais locais despontaram, qual tempo hist\u00f3rico, com quais demandas e qual a dura\u00e7\u00e3o de cada uma. As respostas n\u00e3o s\u00e3o simples e s\u00e3o constantemente enriquecidas com novos dados e narrativas oriundos de pesquisas e discuss\u00f5es feministas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um estudo mais amplo das lutas feministas pelo mundo e ao longo do tempo nos mostra que mulheres de variadas etnias e classes, de diferentes gera\u00e7\u00f5es, nacionalidades, orienta\u00e7\u00e3o sexual, constitui\u00e7\u00e3o f\u00edsica (etc.) estiveram em di\u00e1logo umas com as outras ao longo dos s\u00e9culos, embora nem sempre tenham articulado o mesmo conjunto de prioridades ou concordado entre si (Molony e Nelson, 2017). Al\u00e9m disso, uma variedade de perspectivas marcou e marca o que hoje chamamos de feminismo, uma vez que suas protagonistas enfrentaram variadas formas de opress\u00e3o e marginaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nenhuma onda formou-se por conta de uma \u00fanica perspectiva ou por meio da a\u00e7\u00e3o de um \u00fanico grupo, ainda que, em algum dado momento, v\u00e1rios grupos de mulheres tenham decidido lutar em conjunto para potencializar algum ponto presente em suas pautas. Este \u00e9 considerado o caso das manifesta\u00e7\u00f5es sufragistas do final do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Muitos dos grupos que impulsionaram as manifesta\u00e7\u00f5es formaram-se na segunda metade do s\u00e9culo XIX, ganhando as ruas em v\u00e1rios pa\u00edses dali em diante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em geral, afirma-se que o ocidente vivenciou pelo menos tr\u00eas momentos de grande movimenta\u00e7\u00e3o e articula\u00e7\u00e3o feminista n\u00e3o restritos a um \u00fanico espa\u00e7o geogr\u00e1fico e que poderiam ser chamados de ondas feministas, em uma perspectiva mais global. A primeira dessas ondas formou-se na segunda metade do s\u00e9culo XIX, em diferentes pa\u00edses, impulsionando in\u00fameras demandas at\u00e9 o in\u00edcio da I Guerra Mundial, quando milhares de mulheres viram-se obrigadas a lidar com a devasta\u00e7\u00e3o e os problemas gerados pelos contextos da guerra. A segunda onda despontou em meados da d\u00e9cada de 1960, intensificando-se na d\u00e9cada de 1970 e espalhando-se por v\u00e1rios contextos sociais nas d\u00e9cadas seguintes. Quanto \u00e0 terceira onda, h\u00e1 controv\u00e9rsias sobre a sua periodiza\u00e7\u00e3o e caracteriza\u00e7\u00e3o. Essa controv\u00e9rsia implica a exist\u00eancia ou n\u00e3o de uma quarta onda. De qualquer forma, no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI tornou-se percept\u00edvel, em v\u00e1rios pontos do globo, uma nova onda feminista, seja ela a terceira ou a quarta onda, e cujos efeitos e rumos ainda n\u00e3o s\u00e3o de todo conhecidos. Trataremos dessa quest\u00e3o na \u00faltima parte deste texto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A primeira onda<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primeira grande onda feminista, de um ponto de vista mais global, \u00e9 identificada com os movimentos em massa de mulheres que irromperam na cena p\u00fablica de v\u00e1rios pa\u00edses no final do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do s\u00e9culo XX, identificados com a luta pela isonomia e pelo sufr\u00e1gio (voto). Tal identifica\u00e7\u00e3o \u00e9 correta, mas, igualmente, reducionista, uma vez que deixa de apontar a riqueza das pautas e lutas de in\u00fameros grupos de mulheres daquele per\u00edodo.<\/p>\n\n\n\n<p><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-853 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/03\/blog2-280x300.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/03\/blog2-280x300.jpg 280w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/03\/blog2.jpg 453w\" sizes=\"(max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: center\"><em>Ida B. Wells Barnett, feminista sufragista estadunidense, co-fundadora do The\u00a0National Association of Colored Women\u00a0\u2013\u00a0NACW, 1896, e do\u00a0Alpha Suffrage Club \u2013\u00a01913). Defendia o sufr\u00e1gio como uma forma das mulheres negras se envolverem politicamente em suas comunidades e usarem o voto para elegerem pessoas negras para cargos pol\u00edticos influentes. Fotografia de Mary Garrity de c. 1893.\u00a0 Dispon\u00edvel em: https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Ida_B._Wells#\/media\/File:Mary_Garrity_-_Ida_B._Wells-Barnett_-_Google_Art_Project_-_restoration_crop.jpg<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As mudan\u00e7as pol\u00edticas, jur\u00eddicas e trabalhistas que vinham ocorrendo na Europa no in\u00edcio da modernidade estabeleceram sociedades chamadas de democr\u00e1ticas que beneficiaram, no entanto, pequenos grupos de homens brancos e donos de propriedades em detrimento do restante da popula\u00e7\u00e3o. Tais grupos estabeleceram as regras dos mais variados setores sociais e negaram a todas as mulheres a possibilidade de tomarem decis\u00f5es em qualquer \u00e2mbito da vida social e, consequentemente, sobre suas pr\u00f3prias vidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um sistema econ\u00f4mico pautado na valoriza\u00e7\u00e3o do capital e na explora\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra da popula\u00e7\u00e3o foi igualmente estabelecido, o capitalismo. Tal sistema beneficia-se do trabalho gratuito das mulheres nos n\u00facleos familiares e da diferen\u00e7a salarial entre os sexos para gerar e ampliar lucros. A sociedade e os indiv\u00edduos dependem do trabalho dom\u00e9stico e das variadas atividades de cuidado realizadas pelas mulheres, mas n\u00e3o lhes atribuem valor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Explora\u00e7\u00e3o e controle da vida, das atividades e da sexualidade das mulheres veio a ser a regra, mantida pelos discursos religiosos, filos\u00f3ficos, econ\u00f4micos e pol\u00edticos da Europa no s\u00e9culo XIX. A indigna\u00e7\u00e3o das mulheres aumentou e a id\u00e9ia de \u201cfeminismo\u201d como uma luta de mulheres contra injusti\u00e7as e por melhoria das suas condi\u00e7\u00f5es de vida foi se impondo (Fraisse, 1989; Offen, 1988).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que hoje chamamos de primeira onda feminista foi se formando aos poucos em muitos pa\u00edses da Europa e das Am\u00e9ricas, assim como da Austr\u00e1lia, Nova Zel\u00e2ndia, R\u00fassia, Bulg\u00e1ria, Ucr\u00e2nia, Hungria, Tchecoslov\u00e1quia, etc. E essa forma\u00e7\u00e3o deu-se em meio a um processo intenso de lutas, materializadas em associa\u00e7\u00f5es de mulheres, panfletagens, publica\u00e7\u00f5es em jornais, manifesta\u00e7\u00f5es, greves, congressos, passeatas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os temas de discuss\u00e3o e as reivindica\u00e7\u00f5es das feministas eram bastante diversos e diziam respeito \u00e0&nbsp; autodetermina\u00e7\u00e3o sexual, ao acesso a algumas profiss\u00f5es e melhorias das condi\u00e7\u00f5es de trabalho assalariado, ao acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o formal e a um curr\u00edculo escolar que n\u00e3o fosse voltado \u00e0s atividades dom\u00e9sticas, \u00e0 reforma do direito matrimonial (que subjugava as esposas aos maridos, permitia a expropria\u00e7\u00e3o dos bens das mulheres pelos esposos e um tratamento desigual diante do adult\u00e9rio, impossibilitava o div\u00f3rcio etc.) dentre outros. Muitas feministas tamb\u00e9m estiveram envolvidas em outros movimentos sociais defendendo causas socialistas ou liberais, anarquistas, religiosas, higienistas, pacifistas, anti-escravistas etc. (Offen, 1988; Briatte, 2016; Bard, 2017; Rochefort, 2018).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">V\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es e congressos internacionais foram criados, como a Alian\u00e7a Internacional para o Sufr\u00e1gio Feminino e o Conselho Internacional de Mulheres, que chegou a ter 7 milh\u00f5es de membros distribu\u00eddos por 24 pa\u00edses.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No final do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do s\u00e9culo XX era poss\u00edvel encontrar grupos de mulheres que se intitulavam feministas &#8216;crist\u00e3s&#8217;, &#8216;socialistas&#8217;, &#8216;familiares&#8217;, &#8216;cat\u00f3licas&#8217; ou mesmo &#8216;homens feministas&#8217; (Turgeon, 1902; Offen, 1988). De igual forma, um termo equivalente a feminismo aparecia em textos \u00e1rabes (Badran e Cooke, 1990).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas organizadas por mulheres tamb\u00e9m ocorriam fora do eixo EUA-Europa. Na cidade do Cairo, por exemplo, em mar\u00e7o de 1919 ocorreu a \u201cmarcha das mulheres veladas\u201d, de cunho anti-colonial. Quatro anos depois a Uni\u00e3o Feminista Eg\u00edpcia foi criada para lutar pela reformula\u00e7\u00e3o das leis civis, pela educa\u00e7\u00e3o das mulheres e pelo voto (Rachidi, 2019).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar de n\u00e3o formarem um grupo homog\u00eaneo e defenderem diferentes opini\u00f5es pol\u00edticas, milhares de mulheres, em diferentes pa\u00edses e momentos distintos, em um dado momento, uniram-se em torno da luta pelo sufr\u00e1gio. Por meio dela, pretendia-se acessar direitos civis b\u00e1sicos. Em alguns pa\u00edses, as manifesta\u00e7\u00f5es de rua alcan\u00e7aram n\u00fameros impressionantes, como ocorreu na Inglaterra em 1908 onde 500 mil mulheres reuniram-se no Hyde Park; nesse pa\u00eds foi formado, no ano seguinte, um movimento de homens anti-sufr\u00e1gio e mais de mil mulheres entraram em greve de fome para pressionar as mudan\u00e7as nas leis vigentes (Museum and Heritage, 2018).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 comumente afirmado que as protagonistas da primeira onda eram mulheres de classe m\u00e9dia. No entanto, a maioria das manifestantes presentes nas grandes manifesta\u00e7\u00f5es que deram visibilidade a essa onda era da classe trabalhadora, lutando contra as p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de vida e trabalho a que estavam submetidas. Em comum, partilhavam com as feministas de outras classes a esperan\u00e7a de que, uma vez obtido o direito de votar e o acesso aos lugares de decis\u00e3o pol\u00edtica, seria poss\u00edvel alterar as leis e institui\u00e7\u00f5es que as exploravam e oprimiam como mulheres e como trabalhadoras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As guerras desencadeadas entre diversos pa\u00edses durante a segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo XX afetaram as pautas e mobiliza\u00e7\u00f5es feministas nos pa\u00edses envolvidos, arrefecendo suas lutas. No entanto, na Am\u00e9rica Latina, em pa\u00edses como o Brasil, Chile, Argentina, M\u00e9xico, Peru e Costa Rica, distantes do <em>front<\/em> de guerra e nos quais tamb\u00e9m havia sido iniciada uma luta pelo sufr\u00e1gio, muitos grupos seguiram focados nessa luta e em suas pautas locais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A segunda onda<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No per\u00edodo das duas guerras mundiais, milhares de mulheres assumiram postos de trabalho considerados masculinos, tanto na Europa quanto nos EUA. Atuaram como bombeiras, mineiras, condutoras de transporte p\u00fablico, mec\u00e2nicas, metal\u00fargicas, al\u00e9m de produzirem alimentos, atuarem na ind\u00fastria t\u00eaxtil e no campo da sa\u00fade. No intervalo entre as guerras, pol\u00edticas natalistas foram implementadas e o tema da maternidade ocupou um lugar central nas discuss\u00f5es p\u00fablicas e feministas de muitos pa\u00edses, dividindo opini\u00f5es. As lutas feministas ora avan\u00e7avam, ora estagnavam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s a segunda guerra, alguns Estados cederam \u00e0 press\u00e3o das mulheres e reconheceram-lhes alguns direitos, como o de votar (Fran\u00e7a, 1944; It\u00e1lia, 1945; B\u00e9lgica, 1948; Cro\u00e1cia e Eslov\u00eania 1945; Alb\u00e2nia, 1946; Iugosl\u00e1via, 1947). Em 1948, a Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos reconheceu a igualdade entre os sexos, assim como a igualdade entre os c\u00f4njuges. No entanto, campanhas foram realizadas para convencer as mulheres, em especial as de classe m\u00e9dia e brancas, a retomarem suas posi\u00e7\u00f5es de esposas submissas e &#8216;do lar&#8217;. Al\u00e9m disso, as inst\u00e2ncias decis\u00f3rias (na pol\u00edtica, nas igrejas, nas ind\u00fastrias, nas ci\u00eancias, na justi\u00e7a, etc.) seguiam sob o controle de homens, na maioria brancos e com maior poder aquisitivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em muitos pa\u00edses da \u00c1frica, do Caribe e do sudoeste asi\u00e1tico, lutas por emancipa\u00e7\u00e3o do jugo colonialista intensificaram-se, resultando na independ\u00eancia de muitos deles. Na d\u00e9cada de 1960, os l\u00edderes pol\u00edticos dos Estados Unidos e as parcelas mais racistas e sexistas da popula\u00e7\u00e3o estadunidense foram sacudidas pela luta pelos direitos civis, protagonizada por uma grande parte da sua popula\u00e7\u00e3o (mulheres e negros). Na Am\u00e9rica Latina, por sua vez, golpes de Estado deram origem a governos militares e ditatoriais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Paralelamente, algo in\u00e9dito ocorria nos pa\u00edses que investiram em um projeto de ensino universal e no qual in\u00fameras mulheres haviam se inserido: uma nova gera\u00e7\u00e3o de mo\u00e7as minimamente ou muito instru\u00eddas circulava por essas realidades sociais. Livros e textos com conte\u00fado feminista atingiam um n\u00famero crescente de pessoas. Estudos sobre as mulheres e Estudos Feministas come\u00e7avam a ser organizados, propondo novos temas e questionando os conte\u00fados tradicionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A obra <em>O segundo sexo<\/em>, publicada por Simone de Beauvoir em 1949 e traduzida para outras l\u00ednguas, circulava. Nela evidenciava-se o fato de alguns intelectuais homens terem designado a si mesmos como representantes da humanidade e definido \u201ca mulher\u201d como algo diferente de si e inferior. Al\u00e9m disso, Beauvoir denunciava ser produto da domina\u00e7\u00e3o masculina aquilo que se acreditava ser a ess\u00eancia de uma mulher. Em 1963, Betty Friedan publicou <em>A m\u00edstica feminina<\/em>,<em> <\/em>apontando o papel da publicidade e do sistema educacional no convencimento e restri\u00e7\u00e3o das mulheres \u00e0s tarefas dom\u00e9sticas. Friedan discutia, igualmente, o \u201cmal que n\u00e3o tem nome\u201d, vivido como um sentimento de perda de sentido da vida e identidade pelas mulheres restritas ao modelo da mulher \u201cdo lar\u201d. O livro foi editado in\u00fameras vezes e traduzido para outras l\u00ednguas. Nas d\u00e9cadas seguintes houve uma explos\u00e3o de livros e textos feministas em v\u00e1rios pa\u00edses, abordando temas distintos e variados. A arte feminista tamb\u00e9m irrompeu na forma de filmes, m\u00fasicas, pe\u00e7as de teatro, instala\u00e7\u00f5es\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ideia de que a sororiedade entre mulheres era algo necess\u00e1rio e importante come\u00e7ou a difundir-se. Kathie Sarachild a defendeu em um panfleto de 1968 contendo um discurso para a primeira a\u00e7\u00e3o p\u00fablica do grupo \u201cMulheres Radicais de Nova York\u201d. Nele, cunhou a express\u00e3o \u201ca irmandade de mulheres \u00e9 poderosa\u201d (<em>sisterhood is powerful<\/em>). Dois anos depois, Robin Morgan editou uma colet\u00e2nea de textos feministas sob esse t\u00edtulo, disseminando de vez essa express\u00e3o quanto a id\u00e9ia contida nela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante as d\u00e9cadas de 1970 e 1980, milhares de mulheres ressurgiram na cena p\u00fablica dos Estados Unidos e da Europa, nos mais variados contextos, com organiza\u00e7\u00f5es feministas locais, estaduais e federais criadas ou fortalecidas naquele per\u00edodo. Um importante jornal da Fran\u00e7a noticiou que \u201cPor toda a Europa Ocidental, de maneira simult\u00e2nea, por mais de dois anos, na Inglaterra, Holanda, Su\u00e9cia, Dinamarca, Alemanha, Fran\u00e7a e agora na It\u00e1lia, grupos de mulheres se formaram espontaneamente para pensar em maneiras de lutar contra a sua opress\u00e3o\u201d (<em>La Liberation,<\/em> 1970).<\/p>\n\n\n\n<p><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-854 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/03\/blog3-300x195.jpg\" alt=\"\" width=\"448\" height=\"291\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/03\/blog3-300x195.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/03\/blog3.jpg 577w\" sizes=\"(max-width: 448px) 100vw, 448px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em>Dispon\u00edvel em: https:\/\/liberationschool.org\/feminism-and-the-mass-movements-1960-1990\/<\/em><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em outras partes do mundo, o colonialismo havia relegado, por meio de suas leis e pol\u00edticas, a uma condi\u00e7\u00e3o de inferioridade as mulheres dos pa\u00edses que explorava, al\u00e9m de ter forjado uma separa\u00e7\u00e3o entre as esferas p\u00fablica e privada (Nakayi, Twesiime-Kirya e Kwagala, 2005, p. 267). In\u00fameros grupos de mulheres organizaram-se e, em meio \u00e0s lutas anti-coloniais, questionaram o sexismo e o racismo a que eram submetidas (Blain, 2016; Monqid, 2016).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As ditaduras militares implantadas na Am\u00e9rica Latina (Paraguai, Uruguai, Argentina, Chile, Peru, Bolivia, Guatemala, Rep\u00fablica Dominicana, Brasil), intensificaram o conservadorismo e a viol\u00eancia, assim como a censura. Reuni\u00f5es p\u00fablicas foram proibidas ou eram vigiadas, impedindo a organiza\u00e7\u00e3o de muitos grupos. Por conta disto, a luta contra a ditadura foi um dos elementos centrais dos feminismos latino-americanos, assim como a luta por melhoria das condi\u00e7\u00f5es materiais da vida das mulheres (creches, transporte p\u00fablico, luta contra a carestia etc.).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como consequ\u00eancia das mobiliza\u00e7\u00f5es protagonizadas em dezenas de pa\u00edses, a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas decretou o ano de 1975 como o \u201cAno Internacional da Mulher\u201d e a cidade do M\u00e9xico foi escolhida para realizar a Primeira Confer\u00eancia Mundial sobre as Mulheres. No ano seguinte estabeleceu-se a D\u00e9cada das Mulheres (1976-1985) para enfrentar as profundas desigualdades entre os sexos no campo da educa\u00e7\u00e3o, da pol\u00edtica, dos direitos civis, do acesso ao trabalho, das atividades dom\u00e9sticas. O fato repercutiu em muitos pa\u00edses, inclusive no Brasil, onde grupos de mulheres fizeram avan\u00e7ar quest\u00f5es feministas mesmo sob a vigil\u00e2ncia dos \u00f3rg\u00e3os estatais da ditadura militar (Zirbel, 2007 e Tabak, 1985).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Grupos de conscientiza\u00e7\u00e3o e atividades coletivas foram organizados em praticamente todos os continentes a fim de apoiar mulheres e motiv\u00e1-las \u00e0 lutar por melhorias de suas condi\u00e7\u00f5es de vida. As pautas dos grupos foram ricas e diversas: anticolonialismo, luta anti-racista, valoriza\u00e7\u00e3o do trabalho dom\u00e9stico, seguran\u00e7a no trabalho, educa\u00e7\u00e3o, creches, licen\u00e7a-maternidade, lesbianismo, direitos reprodutivos (acesso a m\u00e9todos contraceptivos, direito a aborto seguro, lutas contra programas de esteriliza\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria de mulheres negras e pobres), viol\u00eancia dom\u00e9stica, ass\u00e9dio, estupro, etc. Em meio a essa diversidade, \u00e9 poss\u00edvel perceber dois pontos comuns, como bem pontuou Jo Freeman (1972): a cr\u00edtica feminista da sociedade e a ideia de opress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em sua cr\u00edtica \u00e0 sociedade, os variados feminismos partiam da premissa de que mulheres e homens possuem as mesmas capacidades humanas e deveriam, por isso, ser igualmente respeitados e ter os mesmos direitos sociais, o que n\u00e3o ocorria. Havia, ainda, o forte sentimento de que as opress\u00f5es vivenciadas nos espa\u00e7os privados se entrela\u00e7avam com as desigualdades e opress\u00f5es pol\u00edticas. O slogan \u201cO Pessoal \u00e9 Pol\u00edtico\u201d, cunhado por Carol Hanisch em um texto de 1969, exemplificava a consci\u00eancia desse fen\u00f4meno.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No plano da a\u00e7\u00e3o, a ideia geral passar\u00e1 a ser: libertar-se da opress\u00e3o. No entanto, para as diferentes mulheres, em suas diferentes posi\u00e7\u00f5es sociais e experi\u00eancias de vida, a opress\u00e3o era vivenciada de maneiras distintas. Para muitas, a liberta\u00e7\u00e3o no plano da sexualidade (poder ter prazer, ter mais de um parceiro sexual ou expressar sua homoafetividade, por exemplo) era central e urgente. Para outras, a quest\u00e3o da opress\u00e3o estava atrelada ao casamento e ao universo dom\u00e9stico, assim como a impossibilidade de estudar ou ter uma profiss\u00e3o. Para milhares de trabalhadoras, no entanto, o cerne do problema seguia sendo o sistema econ\u00f4mico que as explorava: o capitalismo. E para a maioria delas, o racismo intensificava ainda mais a situa\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No cen\u00e1rio europeu e estadunidense, formas de interpretar as causas das diferentes opress\u00f5es e a melhor maneira de enfrent\u00e1-las deram origem a diferentes reflex\u00f5es e pr\u00e1ticas feministas. O feminismo radical, o feminismo socialista e o feminismo liberal costumam ser identificados como as tr\u00eas grandes linhas de elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica da segunda onda, o que \u00e9 verdadeiro apenas em parte, uma vez que feministas negras, latinas, l\u00e9sbicas, anarquistas e ecologistas tamb\u00e9m estavam produzindo suas ferramentas te\u00f3ricas e reflex\u00f5es sobre a realidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para as feministas radicais da d\u00e9cada de 1970, a raiz da opress\u00e3o das mulheres estava no patriarcado, um sistema de cren\u00e7as e organiza\u00e7\u00e3o da sociedade em que os homens, enquanto categoria social, exercem poder e domina\u00e7\u00e3o sobre todas as mulheres, explorando-as de diversas maneiras. A fam\u00edlia e o papel da mulher na procria\u00e7\u00e3o seriam a fonte prim\u00e1ria da subordina\u00e7\u00e3o feminina (Millet, 1971).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por sua vez, as feministas socialistas e marxistas apontavam o capitalismo como o sistema respons\u00e1vel pela explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o, identificando o advento da propriedade privada como a base da opress\u00e3o das mulheres, implicando a sua subordina\u00e7\u00e3o dentro da fam\u00edlia e a explora\u00e7\u00e3o tripla de suas capacidades produtivas: na reprodu\u00e7\u00e3o de seres humanos, nas atividades dom\u00e9sticas e na for\u00e7a de trabalho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar de nenhum grupo de feministas identificar-se como &#8216;feminista liberal&#8217; no in\u00edcio da segunda onda, esta terminologia passou a ser utilizada na d\u00e9cada de 1980. Ela designou feministas ou grupos de mulheres que lutaram por mudan\u00e7as pol\u00edtico-jur\u00eddicas-culturais como forma de enfrentamento da opress\u00e3o e que acreditavam que a liberdade (sexual, do dom\u00ednio masculino no casamento, na escolha de modos de viver, etc.) era essencial, podendo ser alcan\u00e7ada por meio da a\u00e7\u00e3o estatal e com pol\u00edticas que atendessem \u00e0s necessidades das mulheres (punindo a viol\u00eancia, criando apoios \u00e0 maternidade, eliminando a desigualdade salarial).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muitas feministas negras e latinas da segunda onda apontaram para o entrela\u00e7amento de diversas formas de opress\u00e3o que inclu\u00edam o racismo e a explora\u00e7\u00e3o dos corpos de pessoas racializadas. Assim, o Coletivo Combahee River (1974), para dar apenas um exemplo, argumentava que a liberta\u00e7\u00e3o das mulheres negras implicaria a liberdade de todas as pessoas, uma vez que exigia o fim do racismo, do sexismo e da opress\u00e3o de classe. O coletivo assumia o compromisso de \u201clutar contra a opress\u00e3o racial, sexual, heterossexual e classista\u201d, tendo como tarefa \u201co desenvolvimento de uma an\u00e1lise e uma pr\u00e1tica integradas, baseadas no fato de que os maiores sistemas de opress\u00e3o se encadeiam\u201d (La Colectiva, 1977\/1988).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Feministas l\u00e9sbicas, por sua vez, questionavam a imposi\u00e7\u00e3o da heterossexualidade como norma e refletiam sobre a sua rela\u00e7\u00e3o com o patriarcado, o capitalismo e o colonialismo. A heterossocialidade, assim como a heterossexualidade, foram tidas como aspectos de um hetero-poder a ser confrontado e resistido (Rich, 1986, p. 23). Nesse sentido, o lesbianismo era uma resposta pol\u00edtica \u00e0 opress\u00e3o e \u00e0 aliena\u00e7\u00e3o produzidas por esse hetero-poder e suas institui\u00e7\u00f5es sociais. Alguns grupos propuseram a cria\u00e7\u00e3o de comunidades separatistas a fim de implantar uma vida livre da domina\u00e7\u00e3o masculina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma reflex\u00e3o de cunho ecofeminista tamb\u00e9m \u00e9 percept\u00edvel no per\u00edodo, estabelecendo conex\u00f5es entre a opress\u00e3o das mulheres e a explora\u00e7\u00e3o da natureza. Entre essas conex\u00f5es estava um sistema de pensamento dualista, racionalista e hier\u00e1rquico que opera por meio de oposi\u00e7\u00f5es que posicionam as mulheres, a natureza e os povos nativos de um lado (considerados inferiores) e os homens, a cultura e os colonizadores de outro (considerados superiores).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A terceira onda?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos EUA, durante a d\u00e9cada de 1980, a m\u00eddia come\u00e7ou a rotular mulheres adolescentes e na casa dos vinte anos como uma gera\u00e7\u00e3o \u201cp\u00f3s-feminista\u201d, que desfrutava de certos ganhos sociais (acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, a diferentes tipos de emprego\u2026), dando a entender, igualmente, que os objetivos do feminismo haviam sido alcan\u00e7ados. Sob esta \u00f3tica, o feminismo deixava de ser algo necess\u00e1rio. O ensaio de Rebecca Walker (1992), no entanto, documentava o sexismo persistente do in\u00edcio dos anos 1990 e convocava as jovens a se unirem \u00e0 luta feminista. Nesse sentido, ela invocava uma terceira onda, ao mesmo tempo que identificava-se com ela. A partir dali, feministas estadunidenses passaram a descrever as d\u00e9cadas seguintes como pertencentes a esta terceira onda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 comum descrever a nova fase, pelo menos nos EUA, como marcada por discuss\u00f5es e disputas internas, contrastando com as d\u00e9cadas anteriores, que teriam agrupado diferentes grupos de mulheres em torno de uma identidade comum (de mulher). No entanto, essa narrativa simplifica as discuss\u00f5es e os debates que acompanham a hist\u00f3ria do feminismo, ao mesmo tempo que fixa a cr\u00edtica racial e sexual protagonizada por in\u00fameras mulheres em uma d\u00e9cada espec\u00edfica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como pontuou Claire Hemmings (2009, p. 216), a desconstru\u00e7\u00e3o da categoria mulher n\u00e3o \u00e9 algo que ocorre a partir dos anos 90, mas \u00e9 uma das preocupa\u00e7\u00f5es mais duradouras para a maioria das feministas, de distintas \u00e9pocas. Confrontos e discuss\u00f5es entre feministas sobre o que hoje chamamos de &#8216;pautas identit\u00e1rias&#8217; (ou sobre a defini\u00e7\u00e3o de mulher) acompanharam o feminismo desde antes da primeira onda. No entanto, esse fato foi apagado ou minimizado por meio da a\u00e7\u00e3o da m\u00eddia, que sempre deu destaque para as experi\u00eancias e narrativas de mulheres brancas de classe m\u00e9dia, como apontou hooks (hooks, 2015 e 2018, cap. 2).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Feministas latinas, negras, revolucion\u00e1rias, prolet\u00e1rias, l\u00e9sbicas, pr\u00f3-sexo, antipornografia (dentre outras) fomentaram o debate feminista por todo o s\u00e9culo XX, evidenciando a grande diversidade do feminismo (de indiv\u00edduos, grupos, pautas, estrat\u00e9gias). \u00c9 poss\u00edvel dizer que, com o avan\u00e7o das novas tecnologias da comunica\u00e7\u00e3o, esses grupos conquistaram maior visibilidade no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990, ao lado das feministas brancas e de classe m\u00e9dia que as m\u00eddias tradicionais colocavam em evid\u00eancia. Al\u00e9m disso, as ferramentas conceituais elaboradas na d\u00e9cada anterior, como os conceitos de g\u00eanero, interseccionalidade, consubstancialidade do poder, conhecimento situado, e v\u00e1rios outros, ultrapassavam as barreiras da academia, onde haviam sido cunhados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quest\u00f5es que eram pensadas em pequenos grupos (como os problemas atrelados ao capacitismo e ao etarismo ou enfrentados por pessoas trans e feministas comunitaristas e ind\u00edgenas) entraram na pauta de variados grupos de feministas. As ferramentas te\u00f3ricas possibilitaram um aprofundamento da an\u00e1lise das variadas e simult\u00e2neas formas de opress\u00e3o vivenciadas por uma mesma mulher, assim como da quest\u00e3o das diferen\u00e7as e da diversidade internas ao movimento feminista. As novas m\u00eddias, por sua vez, possibilitaram a dissemina\u00e7\u00e3o dessas an\u00e1lises e ideias para al\u00e9m das fronteiras locais de uma maneira acelerada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao inv\u00e9s de pensar o que ocorria nos grupos de mulheres (feministas ou n\u00e3o) do final do s\u00e9culo XX como uma terceira onda do feminismo, podemos pensar esse fen\u00f4meno como formativo da terceira onda, que surge uma ou duas d\u00e9cadas depois na forma de grandes mobiliza\u00e7\u00f5es transnacionais. Esta \u00e9 a vis\u00e3o de feministas como Cinzia Arruzza (2019), Barbara Molony e Jennifer Nelson (2017), com as quais tamb\u00e9m me alinho. Apesar de Walker ter reivindicado fazer parte de uma terceira onda feminista em seu pa\u00eds, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990, podemos pensar que este era o seu desejo, mas a onda ainda n\u00e3o estava formada, vindo a formar-se apenas d\u00e9cadas mais tarde. Se usarmos o crit\u00e9rio das \u201cmanifesta\u00e7\u00f5es em massa\u201d para tipificar uma onda, isso fica ainda mais evidente, inclusive para os Estados Unidos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em uma escala mais global, a segunda onda pode ser pensada como estendendo-se por um longo per\u00edodo (de 1940 at\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo XXI), assim como ocorrera com a primeira. Talvez seu ponto mais vis\u00edvel tenha sido as manifesta\u00e7\u00f5es de rua das d\u00e9cadas de 1960 e 1970, em determinados pa\u00edses, mas ela seguiu refletindo no campo das artes, na forma\u00e7\u00e3o de centros de pesquisa sobre a condi\u00e7\u00e3o das mulheres, em milhares de publica\u00e7\u00f5es, no ingresso de feministas em variadas inst\u00e2ncias de poder, na mudan\u00e7a de leis e costumes, no amadurecimento de discuss\u00f5es e teorias etc.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na virada do s\u00e9culo XX para o XXI havia uma forte presen\u00e7a do feminismo em todos os continentes e uma forte atua\u00e7\u00e3o de feministas jovens, muitas delas engajadas nas m\u00eddias sociais (Facebook, Twitter, Instagram, Tumblr, YouTube e blogs). O uso das m\u00eddias sociais para mobiliza\u00e7\u00e3o ou conscientiza\u00e7\u00e3o tem sido uma caracter\u00edstica marcante dessa nova onda.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pautas antigas foram acentuadas, de acordo com o contexto das jovens feministas. Para aquelas a quem o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, ao saneamento, ao aborto seguro, ao div\u00f3rcio, \u00e0 mobilidade b\u00e1sica estavam garantidos por lei, foi poss\u00edvel focar mais intensamente em outras quest\u00f5es. Para as que n\u00e3o viviam esse tipo de realidade, foi necess\u00e1rio seguir lutando por direitos m\u00ednimos de cidadania. Outras pautas seguiram sendo comuns \u00e0 maioria: a luta contra a explora\u00e7\u00e3o, a viol\u00eancia f\u00edsica e psicol\u00f3gica, o feminic\u00eddio, a discrimina\u00e7\u00e3o no trabalho, as jornadas duplas ou triplas, os privil\u00e9gios masculinos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No ano de 2000, foi organizada a Marcha Mundial de Mulheres, um movimento feminista internacional que contou com a ades\u00e3o de seis mil grupos de mais de 150 pa\u00edses e que produziram um documento assinado por 5 milh\u00f5es de pessoas, entregue de forma simb\u00f3lica \u00e0 ONU. Dentre as principais reivindica\u00e7\u00f5es estavam o enfrentamento da pobreza e da viol\u00eancia contra as mulheres. A Marcha seguiu, desde ent\u00e3o, organizada de forma global e com atividades nacionais. No Brasil, este ano tamb\u00e9m marcou a primeira Marcha das Margaridas, que reuniu cerca de 20 mil agricultoras, quilombolas, ind\u00edgenas, pescadoras e extrativistas que lutam contra a fome, a pobreza e a viol\u00eancia sexista e defendem o desenvolvimento sustent\u00e1vel, a justi\u00e7a social e a democracia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As quest\u00f5es do ass\u00e9dio (na rua, no trabalho, no transporte p\u00fablico, nos espa\u00e7os de lazer), da misoginia, das agress\u00f5es sexuais e dos estupros apareceram como motor de v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es virtuais e de rua pelo mundo (\u00cdndia, Canad\u00e1, Chile, EUA, China, Filipinas). No Brasil foram exemplo disso as campanhas #MeuPrimeiroAss\u00e9dio, #MeuAmigoSecreto e #Agora\u00c9QueS\u00e3oElas e no plano mais global pode-se citar o movimento #MeToo, que resultou em mais de 12 milh\u00f5es de postagens virtuais em apenas vinte e quatro horas, em abril de 2017. As postagens incentivaram o debate sobre o ass\u00e9dio e a cultura do estupro. Apesar da \u00eanfase dada a importantes figuras da m\u00eddia, trata-se de um problema generalizado e agudo vivido por mulheres dos mais variados segmentos, nos lares e nos ambientes de lazer e trabalho, submetidas, muitas vezes, a rela\u00e7\u00f5es abusivas por seus familiares, chefes e colegas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Manifesta\u00e7\u00f5es contra a viol\u00eancia sexual e o feminic\u00eddio despontaram nas ruas de in\u00fameros pa\u00edses, como ocorreu em 03 de junho de 2015 em oitenta cidades argentinas sob a bandeira \u201cNenhuma a Menos\u201d. As manifesta\u00e7\u00f5es repetiram-se nos anos seguintes e estenderam-se pela Am\u00e9rica Latina (Uruguai, Chile, Brasil, Equador, Col\u00f4mbia, Venezuela, Per\u00fa, Nicar\u00e1gua), atingindo tamb\u00e9m a Europa (It\u00e1lia, Fran\u00e7a, Alemanha, Turquia, B\u00e9lgica). Da mesma forma, a luta pela garantia de direitos reprodutivos levou \u00e0s ruas de S\u00e3o Paulo 15 mil brasileiras para barrar um Projeto de Lei (5069\/2013) visando restringir o direito ao aborto previsto em lei. O epis\u00f3dio passou a ser conhecido como \u201cprimavera feminista\u201d ou \u201ca primavera das mulheres\u201d e foi organizado nas redes sociais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No dia 08 de mar\u00e7o de 2017, um dia global de mobiliza\u00e7\u00e3o e greves de mulheres foi organizado por um feminismo transnacional, vindo a chamada a se repetir nos anos seguintes. A Espanha registrou uma enorme manifesta\u00e7\u00e3o em 2018, assim como a Argentina e a It\u00e1lia. As greves pontuaram, em especial, a precariza\u00e7\u00e3o crescente do trabalho, a desigualdade salarial, as atividades de cuidado n\u00e3o pagas, os feminic\u00eddios, a viol\u00eancia de g\u00eanero, os encarceramentos em massa, o racismo, a destrui\u00e7\u00e3o dos ecossistemas e a mudan\u00e7a clim\u00e1tica, dentre outros. Defenderam, igualmente, a autodetermina\u00e7\u00e3o, a liberdade sexual e o acesso ao aborto seguro e legal nos pa\u00edses em que isso n\u00e3o ocorria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em junho 2018, uma \u201cmar\u00e9 verde\u201d formou-se em torno do congresso argentino, com cerca de um milh\u00e3o de pessoas, na grande maioria mulheres, demandando o aborto legal, seguro e gratuito. No mesmo ano ocorreu o que pode ter sido a maior manifesta\u00e7\u00e3o de rua da hist\u00f3ria do Brasil protagonizada por mulheres, resultante de uma mobiliza\u00e7\u00e3o feminista em rede. Sob o <em>slogan<\/em> #EleN\u00e3o, as brasileiras manifestaram-se em 160 cidades, incluindo as maiores capitais do pa\u00eds (S\u00e3o Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Salvador), com o intuito de impedir o avan\u00e7o de um candidato \u00e0 presid\u00eancia abertamente mis\u00f3gino, homof\u00f3bico, racista e antidemocr\u00e1tico. No facebook, o grupo \u201cMulheres Unidas contra Bolsonaro\u201d chegou a contar com mais de tr\u00eas milh\u00f5es de integrantes. Em mar\u00e7o de 2020, uma manifesta\u00e7\u00e3o de quase dois milh\u00f5es de mulheres ocupou a pra\u00e7a central de Santiago, no Chile, denunciando e posicionando-se contra a viol\u00eancia sexual.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A irrup\u00e7\u00e3o da pandemia causada pelo coronav\u00edrus no ano de 2020 levou \u00e0 brusca diminui\u00e7\u00e3o das grandes manifesta\u00e7\u00f5es de rua que vinham marcando as duas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XXI, mas a onda feminista que se formou segue ativa nas redes sociais. O uso de blogs, sites, p\u00e1ginas e perfis nas redes sociais segue em funcionamento para criar conscientiza\u00e7\u00e3o e aprofundar debates.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar das diferen\u00e7as de contexto e de experi\u00eancia de milit\u00e2ncia, v\u00e1rios grupos de feministas t\u00eam produzido uma agenda interseccional pautada nas lutas anti-sexistas, anti-racistas, anti-capitalistas, anti-homof\u00f3bicas, decolonialistas e ecofeministas. Possuem em comum o enfrentamento de formas complexas e entrela\u00e7adas de viol\u00eancia e opress\u00e3o perpetradas por um sistema que poder\u00edamos chamar de patriarco-capitalo-racista de domina\u00e7\u00e3o. Para enfrent\u00e1-lo, uma articula\u00e7\u00e3o internacional tem sido organizada e fortalecida a cada ano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quais ser\u00e3o os rumos dessa terceira onda ainda \u00e9 dif\u00edcil prever. Possivelmente novos arranjos e ideias surgir\u00e3o em seu bojo, assim como pautas antigas seguir\u00e3o revisitadas visto a realidade social seguir marcada por desigualdades, opress\u00f5es, explora\u00e7\u00f5es e viol\u00eancias que afetam profundamente a vida de milh\u00f5es de mulheres.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A met\u00e1fora da onda nos \u00e9 \u00fatil?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Narrar as movimenta\u00e7\u00f5es feministas pelo mundo por meio da met\u00e1fora da onda pode suscitar problemas, dependendo da maneira como essas narrativas s\u00e3o constru\u00eddas. Al\u00e9m do que j\u00e1 foi citado na primeira se\u00e7\u00e3o deste texto, e que diz respeito \u00e0 uma narrativa focada apenas em um grupo de mulheres brancas, de determinada classe e local geogr\u00e1fico, Nancy Hewitt (2010) aponta para um outro perigo: o das narrativas que produzem \u201czonas livres de feministas\u201d, ao focarem apenas em determinadas d\u00e9cadas consideradas as d\u00e9cadas \u201cda onda\u201d. Uma outra quest\u00e3o importante diz respeito \u00e0 cren\u00e7a em um \u201cprogresso\u201d do pensamento ou das posturas feministas. Tal cren\u00e7a tende a diminuir ou desqualificar a a\u00e7\u00e3o de feministas de tempos passados ao mesmo tempo que corre o risco de considerar as suas pautas como superadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar dos problemas apontados &#8211; e, com certeza, poderemos nomear outros -, a met\u00e1fora da onda possui uma for\u00e7a imag\u00e9tica capaz de criar conex\u00f5es com o passado e com o futuro em meio \u00e0 luta de variadas gera\u00e7\u00f5es de feministas, em sua grande diversidade, resist\u00eancia, criatividade e for\u00e7a. Ela nos permite inscrever diferentes gera\u00e7\u00f5es de feministas &#8211; e seus esfor\u00e7os &#8211; em uma longa e cont\u00ednua hist\u00f3ria de lutas contra a discrimina\u00e7\u00e3o, a opress\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o, assim como pela melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida e aquisi\u00e7\u00e3o ou manuten\u00e7\u00e3o de direitos civis. Muitas vezes essas lutas avan\u00e7am pelo tecido social de forma arrebatadora e, em determinados momentos, recuam ou diminuem em for\u00e7a &#8211; como ocorre nos momentos de refluxo da \u00e1gua do mar. Contudo, a met\u00e1fora da onda nos permite pensar, igualmente, que o feminismo n\u00e3o desaparece nos momentos em que n\u00e3o h\u00e1 grande movimenta\u00e7\u00e3o na cena p\u00fablica, mas segue em atividade, possivelmente re-organizando-se e ganhando suficiente for\u00e7a para um novo e significativo avan\u00e7o. Tempos de \u201ccalmaria\u201d (ou de persegui\u00e7\u00e3o e silenciamento) n\u00e3o implicam, necessariamente, o fim da indigna\u00e7\u00e3o, da esperan\u00e7a e do desejo de melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida materiais e simb\u00f3licas nas quais nos encontramos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Bibliografia citada<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ANAND, Tara (2018). A Brief Summary of the First Wave of Feminism. <em>Feminism in India<\/em>. Intersectional Feminism \u2013 Desi Style. 24 de abril de 2018. Recuperado de:&nbsp; &lt;https:\/\/feminisminindia.com\/2018\/04\/24\/summary-first-wave-of-feminism\/&gt;. Acesso em: 10 de setembro de 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ARRUZA, Cinzia (2019). Das Greves de Mulheres para um Novo Movimento de Classe: A Terceira Onda Feminista. <em>Desacato<\/em>, 04 de fevereiro de 2019. Recuperado de: &lt;http:\/\/desacato.info\/das-greves-de-mulheres-para-um-novo-movimento-de-classe-a-terceira-onda-feminista\/&gt;. Acesso em: 23 de setembro de 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BADRAN, Margot &amp; COOKE, Myriam (orgs.) (1990). <em>Opening the Gates, a Century of Arab Feminist Writing<\/em>, Londres, Virago Press.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BARD, Christine &amp; CHAPERON, Sylvie (dir.) (2007). <em>Dictionnaire des f\u00e9ministes<\/em>, <em>France, xviiie-xxie si\u00e8cle,<\/em> Paris.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BASU, Amrita (2013). Globalization of the Local\/Localization of the Global: Mapping Transnational Women&#8217;s Movements. In: McCann, C. R. &amp; Kim, S.-K. (eds.). <em>Feminist Theory Reader: Local and Global Perspectives<\/em>, (3rd ed.). New York: Routledge.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BLAIN, Keisha (2016). Emerging Feminisms. A Historical Note: Pan-African Feminist Adelaide Casely Hayford. <em>The feminist wire<\/em>. 28 de mar\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BRIATTE, Anne-Laure (2020). F\u00e9minismes et mouvements f\u00e9ministes en Europe. <em>Encyclop\u00e9die pour une histoire nomerique de l&#8217;Europe. <\/em>Recuperado de:<em> &lt;<\/em><a href=\"https:\/\/ehne.fr\/node\/175\">https:\/\/ehne.fr\/node\/1<\/a>2314&gt;.<strong> <\/strong>Acesso em: 10 de setembro de 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FRAISSE, Genevi\u00e8ve (1989). <em>Muse de la raison: la d\u00e9mocratie exclusive et la diff\u00e9rence des sexes.<\/em> Paris: Gallimard.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FREEMAN, Jo (1972). The Women&#8217;s Liberation Movement: Its Origins, Structures and Ideas. <em>Recent Sociology,<\/em> n<sup>o<\/sup>4: Family, Marriage, and the Struggle of the Sexes. New York: The Macmillan Co., pp. 201-216.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">GRADY, Constance (2018). The waves of feminism, and why people keep fighting over them, explained. <em>Vox.<\/em> Recuperado de: &lt;htps:\/\/www.vox.com\/2018\/3\/20\/16955588\/feminism-waves-explained-first-second-third-fourth&gt;. Acesso em: 10 de setembro de 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">GOODMAN, Donna (2019). The untold side of second wave feminism: a multinational, politically diverse movement. <em>Liberation School.<\/em> 21 de mar\u00e7o de 2019. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/liberationschool.org\/feminism-and-the-mass-movements-1960-1990\/\">https:\/\/liberationschool.org\/feminism-and-the-mass-movements-1960-1990\/<\/a>&gt;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">HEMMINGS, Clare (2009). Contando Est\u00f3rias Feministas. <em>Estudos Feministas<\/em>, Florian\u00f3polis, 17(1), janeiro-abril, pp.215-241. Recuperado de: &lt;file:\/\/\/Users\/ilze\/Downloads\/11690-Texto%20do%20Artigo-35706-1-10-20091013.pdf&gt;. Acesso em: 7 de outubro de 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">HEWITT, Nancy A. (ed.) (2010). <em>No Permanent Waves: Recasting Histories of U.S. Feminism.<\/em> Nova Jersey\/London: Rutgers University Press.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">HOOKS, bell (2015). Mulheres negras: moldando a teoria feminista. <em>Revista Brasileira de Ci\u00eancia Pol\u00edtica<\/em>, n<sup>o<\/sup>16, pp. 193-210.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">HOOKS, bell (2018). <em>O feminismo \u00e9 para todo mundo: Pol\u00edticas arrebatadoras.<\/em> S\u00e3o Paulo: Rosa dos tempos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LA COLECTIVA del Rio Combahee. Una declaraci\u00f3n feminista negra (1977\/1988). In: Moraga, C. &amp; Castillo, A. <em>Esta puente, mi espalda: voces de mujeres tercermundistas en los Estados Unidos<\/em>. San Francisco: Ism Press.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LA LIB\u00c9RATION des Femmes: Ann\u00e9e Z\u00e9ro (1970). <em>Partisans<\/em>, n<sup>o <\/sup>54-55.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MARCELINO, Giovanna Henrique (2016). Especial Juntas: As Sufragistas e a Primeira Onda do Feminismo. <em>Juntos. Coletivo de juventude.<\/em> 13 de janeiro de 2016. Recuperado de: &lt;https:\/\/juntos.org.br\/2016\/01\/especial-juntas-as-sufragistas-e-a-primeira-onda-do-feminismo\/&gt;. Acesso em: 12 de setembro de 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MOLONY, Barbara &amp; NELSON, Jennifer (org.) (2017). Women\u2019s Activism and \u201cSecond Wave\u201d Feminism. London\/New York: Bloomsbury.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MONQID, Safaa (2016). Mouvements f\u00e9minins et f\u00e9ministes en \u00c9gypte: r\u00e9trospective et histoire d\u2019une \u00e9volution (fin XIX\u00e8me si\u00e8cle \u00e0 nos jours), <em>Insaniyat, <\/em>17, pp. 73-49. Recuperado de:&nbsp; &lt;https:\/\/journals.openedition.org\/insaniyat\/16591&gt;. Acesso em: 12 de setembro de 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MUSEUM and Heritage (2018). Women and Power: The struggle for women\u2019s suffrage in the UK. 06 de fevereiro de 2018. Recuperado de: &lt;https:\/\/advisor.museumsandheritage.com\/features\/women-power-struggle-womens-suffrage-uk\/&gt;. Acessado em: 12 de agosto de 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">NAKAYI, Rose; TWESIIME-KIRYA, Monica &amp; KWAGALA, Dorothy (2005). The Women&#8217;s movement in Africa: creative initiatives and lessons learnt. <em>East African Journal of Peace and Human Rights<\/em>, vol.11, n<sup>o<\/sup>2, pp. 265-302.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">OFFEN, Karen (1988). Defining Feminism: A Comparative Historical Approach.<em> Signs<\/em>, vol.14, n<sup>o<\/sup>1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">RACHIDI, Soukaina (2019). Huda Sharawi: A Remarkable Egyptian Feminist Pioneer. <em>Inside Arabia. Voice of the Arab People.<\/em> 06 de julho. Recuperado de: &lt;https:\/\/insidearabia.com\/huda-sharawi-a-remarkable-egyptian-feminist-pioneer\/&gt;. Acesso em: 12 de setembro de 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">RAMDANI, Nabila (2013). Women in the 1919 Egyptian Revolution: From Feminist Awakening to Nationalist Political Activism. Journal of International Women&#8217;s Studies. Vol. 14, n<sup>o<\/sup>2, p. 39-52, mar\u00e7o de 2013. Recuperado de: &lt;http:\/\/vc.bridgew.edu\/jiws\/vol14\/iss2\/5&gt;. Acesso: 03 de outubro de 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">RICH, Adrienne (1986). Compulsory Heterosexuality and Lesbian Existence. In: Rich, A. <em>Blood, Bread, and Poetry : Selected Prose 1979-1985.<\/em> W.W. Norton &amp; Company.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ROCHEFORT, Florence (2018). <em>Histoire mondiale des f\u00e9minismes. <\/em>Paris: PUF (cole\u00e7\u00e3o \u201c<em>Que sais-je<\/em>?\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">TABAK, Fanny (1985). A D\u00e9cada da Mulher como forma de participa\u00e7\u00e3o e press\u00e3o pol\u00edtica \u2013 Avalia\u00e7\u00e3o e Balan\u00e7o. Trabalho apresentado na IX Reuni\u00e3o Anual da ANPOCS, GT Mulher e Pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">TURGEON, Charles (1902). <em>L&#8217;\u00c9mancipation politique et familiale de la femme <\/em>&nbsp;(vol. 1) e&nbsp; <em>L&#8217;\u00c9mancipation individuelle et sociale de la femme<\/em> (vol.2). Paris: Larose.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">WALKER, Rebecca (1992). Becoming the Third Wave.<em> Ms.,<\/em> pp. 39-41.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ZIRBEL, Ilze (2007). <em>Estudos feministas e estudos de g\u00eanero no Brasil<\/em>. (Disserta\u00e7\u00e3o de mestrado<em>.<\/em> Universidade Federal de Santa Catarina, Florian\u00f3polis). Recuperado de: &lt;https:\/\/www.academia.edu\/3598911\/Estudos_feministas_e_estudos_de_g%C3%AAnero_no_Brasil&gt;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Bibliografia complementar<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ADICHIE, Chimamanda Ngozi (2019). <em>O perigo de uma hist\u00f3ria \u00fanica<\/em>. Companhia das Letras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CAZARR\u00c9, M. (2015). A quarta onda do feminismo nasce em 2015. <em>Revista Brasileiros<\/em>. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/brasileiros.com.br\/2016\/01\/quarta-onda-feminismo-nasce-em-2015&gt;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">DE LE\u00d3N, Victoria Send\u00f3n (2019). Nosotras las mujeres: El feminismo postg\u00e9nero de la Cuarta ola. <em>Mujeres en Red<\/em>, Claves de feminismo. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/www.mujeresenred.net\/spip.php?article2355\">http:\/\/www.mujeresenred.net\/spip.php?article2355<\/a>&gt;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">EVANS, Elizabeth (2015). <em>The Politics of Third Wave Feminisms: Neoliberalism, Intersectionality, and the State in Britain and the US<\/em>. London: Palgrave Macmillan.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FRANCHINI, B. S. (2017). O que s\u00e3o as ondas do feminismo?<em> In: Revista QG Feminista<\/em>. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/medium.com\/qg-feminista\/o-que-s%C3%A3o-as-ondas-do-feminismoeeed092dae3a&gt;. Acesso em: 12 de agosto de 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">GONZALES, Mariana (2017). Quarta onda do feminismo \u00e9 tipicamente latino-americana, diz fundadora do Ni Una Menos. <em>Revista Cult<\/em>, novembro de 2017.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">KIRA, Cochrane (2013). The Fourth Wave of Feminism: Meet the Rebel Women. <em>The Guardian<\/em>, 10 de dezembro de 2013.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MATOS, Marlise (2014). Quarta onda feminista e o Campo cr\u00edtico-emancipat\u00f3rio das diferen\u00e7as no Brasil: entre a destradicionaliza\u00e7\u00e3o social e o neoconservadorismo pol\u00edtico. <em>Encontro Anual da ANPOCS<\/em>, 2014. Anais. Caxambu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MONTES, Rocio; CENTENERA, Mar; BRE\u00d1A, Carmen Mor\u00e1n; SINGER, Florantonia e MIRANDA, Wilfredo Miranda (2020). Feminismo finca ra\u00edzes na pol\u00edtica da Am\u00e9rica Latina. El Pa\u00eds. 08 de mar\u00e7o de 2020. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/brasil.elpais.com\/internacional\/2020-03-08\/feminismo-finca-raizes-na-politica-da-america-latina.html&gt;. Acessado em: 12 de agosto de 2020.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">NICHOLSON, Linda (2013). Feminism in \u201cWaves\u201d: Useful Metaphor or Not?\u201d. In: McCann, C. R. &amp; Kim, S.-K. (eds.). <em>Feminist Theory Reader: Local and Global Perspectives<\/em>, (3rd ed.). New York: Routledge.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">PEREZ, Ol\u00edvia e RICOLDI, Arlene (2018). A quarta onda do feminismo? Reflex\u00f5es sobre movimentos feministas contempor\u00e2neos. Comunica\u00e7\u00e3o, GT8 &#8211; Democracia e desigualdades, 42\u00ba <em>Encontro Anual da ANPOCS<\/em>, Caxambu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">RODRIGUES, Carla (2017). Dossi\u00ea: A quarta onda do feminismo. <em>Revista Cult<\/em>, junho de 2017.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">WALKER, Rebecca (1992). \u201cBecoming the Third Wave\u201d, <em>Ms<\/em>. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/msmagazine.com\/2002\/05\/04\/becoming-the-third-wave\/&gt;.<\/p>\n<\/div>\n<\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":360,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","inline_featured_image":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"class_list":["post-847","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/847","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/360"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=847"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/847\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":856,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/847\/revisions\/856"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=847"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}