{"id":918,"date":"2021-05-12T13:59:58","date_gmt":"2021-05-12T16:59:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/?page_id=918"},"modified":"2021-05-26T17:49:36","modified_gmt":"2021-05-26T20:49:36","slug":"queer","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/queer\/","title":{"rendered":"Queer"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns has-1-columns has-desktop-equal-layout has-tablet-equal-layout has-mobile-equal-layout has-default-gap has-vertical-unset\" id=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns-b7081571\"><div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns-overlay\"><\/div><div class=\"innerblocks-wrap\">\n<div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-column\" id=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-column-10af97e3\">\n<p class=\"has-text-align-left\">por <strong>Al\u00e9xia Bretas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Professora de Filosofia na Universidade Federal do ABC (UFABC), mestre e doutora em Filosofia pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). \u00c9 autora dos livros: <em>A Constela\u00e7\u00e3o do Sonho em Walter Benjamin <\/em>(Humanitas\/Fapesp, 2008), <em>Do Romance de Artista \u00e0 Perman\u00eancia da Arte<\/em> (Annablume\/Fapesp, 2013) e <em>Fantasmagorias da Modernidade<\/em> (Ed. UNIFESP, 2017). \u00c9 integrante da Rede Brasileira de Mulheres Fil\u00f3sofas e do GT de Filosofia e G\u00eanero da ANPOF &#8211; <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/9013594251646942\">Lattes<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-923\" style=\"width: NaNpx\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/05\/Queer-Ale\u0301xia-Bretas.pdf\" alt=\"\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/05\/Queer-Ale\u0301xia-Bretas-1.pdf\">PDF &#8211; Queer<\/a><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-952\" style=\"width: NaNpx\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/05\/Queer-Ale\u0301xia-Bretas-1.pdf\" alt=\"\"><\/p>\n<\/div>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"680\" height=\"453\" class=\"wp-image-919\" style=\"width: 500px\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/05\/crianccca7a-viada-1.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/05\/crianccca7a-viada-1.jpeg 680w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/05\/crianccca7a-viada-1-300x200.jpeg 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" \/><\/p>\n\n\n\n<p>Imagem: Exposi\u00e7\u00e3o Queermuseu, Porto Alegre, 2017. Bia Leite \/ Reprodu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Escrever um verbete sobre <em>queer<\/em> tem qualquer coisa de desconcertante. Pois o nome porta em si uma genealogia e uma voca\u00e7\u00e3o fortemente antinormativa<s>s<\/s> que v\u00e3o de encontro a toda e qualquer tentativa de defini\u00e7\u00e3o r\u00edgida, substantiva ou essencialista \u2013 seja de teor enciclop\u00e9dico, m\u00e9dico ou jur\u00eddico. Por outro lado, causar estranhamento \u00e9 algo bastante pr\u00f3prio \u00e0 express\u00e3o, que surge umbilicalmente ligada a qualidades, digamos, fora da curva. Sua hist\u00f3ria e suas est\u00f3rias (Hemmings, 2011) s\u00e3o seculares e, n\u00e3o obstante, feitas de fracassos (Halberstam, 2019), \u201c<em>interruq\u00e7\u00f5es\u201d<\/em> (flores, 2013) e lacunas. De proveni\u00eancia inglesa, a palavra <em>queer<\/em> foi cunhada em torno de 1513 como sin\u00f4nimo de estranho, esquisito, peculiar e exc\u00eantrico. \u201cAi, ai! Como est\u00e1 tudo esquisito [<em>queer<\/em>] hoje! E ontem as coisas aconteciam exatamente como de costume\u201d, exclamava a Alice de Lewis Carroll, em 1865 (Carroll, 2010, p. 25). No Pa\u00eds das Maravilhas, ela ir\u00e1 se deparar com \u201cformas esquisitas\u201d [<em>queer-like shapes<\/em>] como a da Lagarta, encontrar-se com um grupo singular ou \u201cestramb\u00f3tico\u201d [<em>queer-party<\/em>] de aves e animais peludos indispostos, at\u00e9 que depois de uma sucess\u00e3o de vertigens, deslocamentos e metamorfoses, finalmente se acostumar a ver \u201ccoisas esquisitas\u201d [<em>queer things<\/em>] acontecerem.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 meados do s\u00e9culo XIX parece n\u00e3o haver qualquer atribui\u00e7\u00e3o de valor \u2013 seja positivo ou negativo \u2013 ao adjetivo empregado para descrever criaturas bizarras, atitudes anormais e\/ou eventos ins\u00f3litos. Algo semelhante ocorre com o voc\u00e1bulo alem\u00e3o <em>quer<\/em>, que significa transversal, diagonal, obl\u00edquo, formando palavras como <em>der<\/em> <em>Querdenker \/ die Querdenkerin<\/em> \u2013 pensador \/ pensadora original, fora dos padr\u00f5es. Ratificando sua predisposi\u00e7\u00e3o a ambiguidades, tor\u00e7\u00f5es de sentido e apropria\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas, o nome do movimento de ultradireita composto por extremistas contr\u00e1rios \u00e0s medidas de conten\u00e7\u00e3o \u00e0 Covid-19 adotadas pelo governo alem\u00e3o em 2020 \u00e9 precisamente <em>Querdenken<\/em> \u2013 em tradu\u00e7\u00e3o literal, \u201cpensar de outro modo\u201d. Em todo caso, ainda no s\u00e9culo XIX angl\u00f3fono, a express\u00e3o \u201cQueer Street\u201d \u2013 ainda n\u00e3o patologizada, mas j\u00e1 pejorativa \u2013 chegaria a ser utilizada no Reino Unido para se referir a pessoas falidas, quebradas ou \u201cfodidas\u201d, possivelmente sob inspira\u00e7\u00e3o dos romances de Charles Dickens. Com o passar dos anos, a dita esc\u00f3ria da sociedade \u2013 que inclu\u00eda malandros, ladr\u00f5es, b\u00eabados, prostitutas, \u201covelhas negras\u201d, \u201cma\u00e7\u00e3s podres\u201d e <em>freaks<\/em> de toda esp\u00e9cie \u2013 era abrigada pelo guarda-chuva queer dos perdedores [<em>losers<\/em>] (Halberstam, 2020).<\/p>\n\n\n\n<p>Mas \u00e9 na passagem para o s\u00e9culo XX, notadamente ap\u00f3s o famigerado julgamento seguido da condena\u00e7\u00e3o do escritor Oscar Wilde por \u201csodomia\u201d, em 1894-5, que o termo <em>queer<\/em> iria adquirir conota\u00e7\u00f5es mais diretamente associadas aos estigmas dos g\u00eaneros e\/ou sexualidades \u201cinvertidas\u201d ou disf\u00f3ricas. A partir de ent\u00e3o, seriam identificadas, agrupadas e depreciadas (Haddock-Lobo, 2018) em seu nome todas aquelas express\u00f5es de variabilidade de g\u00eanero (Halberstam, 2018) estranhas \u00e0 grade bin\u00e1ria encarregada de enquadr\u00e1-las como \u201chomem\u201d ou \u201cmulher\u201d \u2013 exclusivamente. Ao comentar sobre a incr\u00edvel plasticidade desta palavra mutante, (Paul) Beatriz Preciado observa que em fins do s\u00e9culo XIX, na austera Inglaterra vitoriana da qual tamb\u00e9m nos fala Foucault (Foucault, 2007), era percebido e tratado como queer qualquer corpo humano que, de algum modo, colocasse em risco o bom funcionamento de uma sociedade \u201ch\u00e9tero\u201d, \u201ccorreta\u201d ou \u201cdireita\u201d (<em>straight<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEram \u2018queer\u2019 os invertidos: a bicha, a l\u00e9sbica, a travesti, o fetichista, o sadomasoquista e o zo\u00f3fila. O insulto \u2018queer\u2019 n\u00e3o tinha um conte\u00fado espec\u00edfico: pretendia reunir todas as cifras do abjeto. Mas a palavra, na verdade, serviu para tra\u00e7ar um limite para o horizonte democr\u00e1tico: aquele que chamou outro de \u2018queer\u2019 colocou-se confortavelmente sentado em um sof\u00e1 imagin\u00e1rio na esfera p\u00fablica, em uma troca comunicativa silenciosa com seus pares heterossexuais, enquanto expulsava o \u2018queer\u2019 para al\u00e9m dos limites do humano. Deslocado para fora do espa\u00e7o social, o \u2018queer\u2019 foi condenado ao segredo e \u00e0 vergonha\u201d (Preciado, 2009, p. 15).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, quase um s\u00e9culo depois de sua circunscri\u00e7\u00e3o \u00e0 invisibilidade e ao sil\u00eancio, a palavra <em>queer <\/em>seria ressignificada e mobilizada pelos movimentos sociais em prol dos direitos civis das minorias sexuais, notadamente a partir da eclos\u00e3o da aids em fins dos anos 1980 \u2013 a qual resultaria em uma verdadeira persegui\u00e7\u00e3o \u00e0 comunidade gay, acusada de disseminar o v\u00edrus pela sociedade h\u00e9tero atrav\u00e9s de pr\u00e1ticas sexuais \u201cabjetas\u201d, que estariam, no limite, levando a humanidade ao exterm\u00ednio. Nesse contexto pand\u00eamico, os protestos dos militantes gays e l\u00e9sbicas estadunidenses n\u00e3o clamavam por respeito \u00e0 sua vida privada, isto \u00e9, n\u00e3o pleiteavam o direito de as rela\u00e7\u00f5es homoafetivas e homoer\u00f3ticas serem mantidas entre quatro paredes, sen\u00e3o exigiam o direito de sobreviver, ocupar e circular pelos lugares p\u00fablicos, sem vetos ou restri\u00e7\u00f5es, fossem elas legais ou morais. Nesse sentido, o texto de interven\u00e7\u00e3o \u201c<em>Queers read this<\/em>\u201d [Queers leiam isso], publicado anonimamente pelo coletivo Queer Nation, ligado ao grupo de a\u00e7\u00e3o direta ACT UP, e distribu\u00eddo na Marcha do Orgulho Gay em New York, em junho de 1990, \u00e9 uma das primeiras ocorr\u00eancias da express\u00e3o <em>queer<\/em>, a partir de ent\u00e3o, transvalorada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cComo posso lhe dizer? Como posso convenc\u00ea-la, irm\u00e3o, irm\u00e3, de que a sua vida est\u00e1 em perigo? Que todo dia que voc\u00ea acorda, viva, relativamente feliz e saud\u00e1vel, voc\u00ea est\u00e1 praticando um ato de rebeli\u00e3o. Voc\u00ea, uma queer viva e em bom estado de sa\u00fade, \u00e9 uma revolucion\u00e1ria. N\u00e3o h\u00e1 nada neste planeta que valide, proteja ou encoraje a sua exist\u00eancia. \u00c9 um milagre que voc\u00ea esteja aqui lendo estas palavras! Voc\u00ea deveria, para todos os efeitos, j\u00e1 estar morta.\u201d (Manifesto Queer Nation, 1990\/2016).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Redigido em tom de urg\u00eancia diante de uma crise sanit\u00e1ria e humanit\u00e1ria sem precedentes a se abater sobre a sa\u00fade e mesmo as condi\u00e7\u00f5es de vida de pessoas bissexuais e, especialmente, homossexuais masculinos, o pr\u00f3prio panfleto explica o por qu\u00ea do uso do voc\u00e1bulo queer, e n\u00e3o simplesmente gay, chamando aten\u00e7\u00e3o para os estere\u00f3tipos de g\u00eanero, bem como para a viol\u00eancia antiqueer em ascens\u00e3o nos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cBem, sim, \u2018gay\u2019 \u00e9 lindo. Tem seu lugar. Mas quando muitos homens e mulheres gays acordam, pela manh\u00e3, sentimos raiva e desgosto, n\u00e3o alegria. Por isso escolhemos nos chamarmos \u2018queer\u2019. Usar \u2018queer\u2019 \u00e9 uma maneira de lembrarmos como somos percebidas pelo resto do mundo. \u00c9 uma maneira de dizermos que n\u00e3o precisamos ser pessoas empolgadas e charmosas, que levam suas vidas discretamente e \u00e0 margem do mundo h\u00e9tero. Usamos queer como homens gays que amam l\u00e9sbicas e l\u00e9sbicas que amam ser queer\u201d (Manifesto Queer Nation, 1990\/2016).<\/p>\n\n\n\n<p>Publicado em 2018, um n\u00famero especial da revista Gay and Lesbian Literature (Fawaz; Smalls, 2018) discute o valor deste \u201cmanifesto\u201d j\u00e1 hist\u00f3rico, chamando aten\u00e7\u00e3o para a irredut\u00edvel diversidade de concep\u00e7\u00f5es, viv\u00eancias e reflex\u00f5es ligadas ao queer, seja como experi\u00eancia de vida, cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, disciplina acad\u00eamica ou ativismo pol\u00edtico \u2013 em seus m\u00faltiplos entrela\u00e7amentos. O dossi\u00ea ainda destaca a relev\u00e2ncia e a urg\u00eancia de quest\u00f5es prementes a serem enfrentadas, nos dias de hoje, pelas pessoas e coletividades LGBTQ (Colling, 2015) \u2013 como o racismo, a transfobia, a assimila\u00e7\u00e3o pelo mercado, o tokenismo, o <em>pink washing<\/em>, o combate \u00e0 \u201cideologia de g\u00eanero\u201d (Miskolci; Campana, 2018), al\u00e9m da ascens\u00e3o da extrema direita em diversas partes do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, mas se o queer, como algo positivo e digno de orgulho, surge nas ruas nas pegadas dos movimentos de libera\u00e7\u00e3o gays e l\u00e9sbicos dos anos 1970 e 1980, como exatamente se deu sua entrada e dissemina\u00e7\u00e3o pelo mundo acad\u00eamico? H\u00e1 quem considere que a escritora e ativista chicana Gloria Anzald\u00faa tenha sido a primeira a utilizar o termo \u201cqueer\u201d em seu livro <em>Borderlands \/ La frontera<\/em>, publicado originalmente em 1987 (Rea; Amancio, 2018, p. 12).<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cComo mestiza, eu n\u00e3o tenho pa\u00eds, minha terra natal me despejou; no entanto, todos os pa\u00edses s\u00e3o meus porque eu sou a irm\u00e3 ou a amante em potencial de todas as mulheres. (Como uma l\u00e9sbica n\u00e3o tenho ra\u00e7a, meu pr\u00f3prio povo me rejeita; mas sou de todas as ra\u00e7as porque a <em>queer <\/em>em mim existe em todas as ra\u00e7as)\u201d (Anzald\u00faa, 2005, pp. 707-8).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Antes dela, tamb\u00e9m a autora e poeta negra Audre Lorde j\u00e1 havia reportado, em entrevista a Adrienne Rich, ainda em 1979, o desconforto por parte de editores e militantes negros em rela\u00e7\u00e3o a sua homossexualidade, chegando a utilizar explicitamente o termo \u201cqueer\u201d para se referir ao modo como era percebida e tolerada por aqueles que nunca foram capazes de realmente aceitar seu modo de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu nunca tinha tido esse tipo de relacionamento com pessoas negras antes. Nunca. Houve um di\u00e1logo bastante desconfort\u00e1vel com a Harlem Writers Guild \u2013 onde eu me sentia tolerada, mas nunca aceita de verdade. Para eles, eu era louca e transviada [<em>crazy and queer<\/em>], mas tinha potencial para amadurecer e superar tudo isso\u201d (Lorde, 2020, p. 113).<\/p>\n\n\n\n<p>Seja como for, embora a obra <em>Problemas de g\u00eanero<\/em> (1990) de Judith Butler seja citada com frequ\u00eancia como marco ou mesmo \u201cB\u00edblia\u201d da \u201cteoria queer\u201d, foi a italiana Teresa de Lauretis quem utilizou a express\u00e3o pela primeira vez \u2013 ainda que, antes dela, v\u00e1rias outras autoras estivessem igualmente empenhadas em dar corpo a cr\u00edticas semelhantes, ainda que n\u00e3o tenham se reportado literalmente ao nome composto \u201cQueer Theory\u201d, como \u00e9 o caso de Monique Wittig, Audre Lorde, Gayle Rubin, Eve K. Sedgwick, Adrienne Rich e Gloria Anzald\u00faa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA express\u00e3o \u2018teoria queer\u2019 nasceu em 1990 como tema de um <em>workshop <\/em>que organizei na Universidade da Calif\u00f3rnia em Santa Cruz. (&#8230;) Como as palavras gay e l\u00e9sbica, o queer designou, em primeiro lugar, um protesto social e, apenas em segundo lugar, uma identidade pessoal. Meu projeto de \u2018teoria queer\u2019 consistia em iniciar um di\u00e1logo entre l\u00e9sbicas e gays sobre sexualidade e sobre nossas respectivas hist\u00f3rias sexuais. Eu esperava que, juntos, quebr\u00e1ssemos os sil\u00eancios que haviam sido constru\u00eddos nos \u2018Estudos l\u00e9sbicos e gays\u2019 sobre a sexualidade e sua interrela\u00e7\u00e3o com sexo e ra\u00e7a. (Lauretis, 2015, p. 109).<\/p>\n\n\n\n<p>Atenta \u00e0 tens\u00e3o entre os voc\u00e1bulos \u201cteoria\u201d \u2013 como algo s\u00e9rio, rigoroso e institucionalizado \u2013 e \u201cqueer\u201d \u2013 como algo vulgar, irreverente e marginal \u2013, Lauretis destaca os desafios e contradi\u00e7\u00f5es inerentes \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o de um termo em si mesmo heterog\u00eaneo e, at\u00e9 certo ponto, paradoxal. Ela ainda ressalta a necessidade dos coletivos na constru\u00e7\u00e3o de um horizonte discursivo em que as reflex\u00f5es sobre o campo sexual sejam vi\u00e1veis e produtivas desde uma perspectiva colaborativa, interdisciplinar e interseccional.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Seja como for, do ponto de vista estritamente filos\u00f3fico, a teoria queer surge da leitura e tradu\u00e7\u00e3o (Canseco, 2020) de pensadores europeus associados ao p\u00f3s-estruturalismo franc\u00eas, como Foucault, Derrida e Deleuze, realizadas por feministas norte-americanas como Judith Butler \u2013 que viria, inclusive, a questionar a categoria \u201cmulheres\u201d como \u201co sujeito\u201d do feminismo. Para isso, ela se vale de um di\u00e1logo cr\u00edtico com te\u00f3ricas como Simone de Beauvoir, Luce Irigaray, Monique Wittig, Julia Kristeva e Esther Newton para pensar sobre as quest\u00f5es, respectivamente, da alteridade, da diferen\u00e7a, do pensamento h\u00e9tero <em>(straight&nbsp; mind)<\/em>, do abjeto e da performatividade. Ao analisar as t\u00e9cnicas de constru\u00e7\u00e3o de si da <em>drag <\/em>Divine no filme <em>Hairspray \u2013 \u00c9ramos todos jovens<\/em>, Butler desmistifica o suposto fundamento \u201cnatural\u201d do g\u00eanero \u2013 e n\u00e3o apenas para as pessoas identificadas como n\u00e3o bin\u00e1rias. \u201cSeria a <em>drag<\/em> uma imita\u00e7\u00e3o de g\u00eanero ou dramatizaria os gestos significantes mediante os quais o g\u00eanero se estabelece?\u201d (Butler, 2016, p. 9). E, mais adiante, questiona: \u201cSer mulher constituiria um \u2018fato natural\u2019 ou uma performance cultural, ou seria a \u2018naturalidade\u2019 constitu\u00edda mediante atos performativos discursivamente compelidos, que produzem o corpo no interior das categorias do sexo e por meio delas?\u201d (Butler, 2016, p. 9).<\/p>\n\n\n\n<p>Tais inquieta\u00e7\u00f5es orbitam em torno daquele que talvez seja o principal objetivo desta obra t\u00e3o pol\u00eamica: explicar as categorias fundacionais de sexo, g\u00eanero e desejo n\u00e3o como dadas pela natureza, nem tampouco como escolhidas livremente pelo sujeito transparente, sen\u00e3o como resultado de uma forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica de poder. Para isso, ela recorre \u00e0 cr\u00edtica geneal\u00f3gica de Nietzsche apropriada por Foucault, a qual ir\u00e1 desfazer, ou melhor, desconstruir uma certa cren\u00e7a tr\u00edplice na origem \u201cbiol\u00f3gica\u201d do g\u00eanero, na verdade \u00edntima do desejo \u201cfeminino\u201d e na identidade sexual \u201caut\u00eantica\u201d. Segundo ela, o que existem, em vez disso, s\u00e3o <em>efeitos <\/em>de pr\u00e1ticas e discursos que, ao serem repetidos, se encorpam e se espraiam capilarmente pelas rela\u00e7\u00f5es e formas de vida a partir de duas institui\u00e7\u00f5es ub\u00edquas: o falocentrismo e a \u201cheterossexualidade compuls\u00f3ria\u201d (Rich, 2010). Butler, contudo, n\u00e3o pretende apenas designar as coisas como \u201celas s\u00e3o\u201d, sen\u00e3o criar condi\u00e7\u00f5es para desestabiliz\u00e1-las ou transform\u00e1-las \u2013 ou, pelo menos, contribuir para isso. Assim, movida pelo <em>p\u00e1thos<\/em> de insurg\u00eancia dos corpos queer, ela busca indicar ou mesmo abrir poros ou fissuras no sistema de gest\u00e3o da sexualidade como dispositivo biopol\u00edtico (Foucault, 2007). Quais performances ou \u201cpr\u00e1ticas culturais produzem uma descontinuidade e uma disson\u00e2ncia subversivas entre sexo, g\u00eanero e desejo e questionam suas supostas rela\u00e7\u00f5es?\u201d, ela indaga (Butler, 2016, p. 11).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, um aspecto bastante controvertido de <em>Problemas de g\u00eanero <\/em>\u00e9 precisamente a concep\u00e7\u00e3o de g\u00eanero como performance (Rodrigues, 2020, p. 64). Autoproclamado bio-hacker do sistema sexo-g\u00eanero, (Paul) Beatriz Preciado vislumbra a\u00ed um dos pontos mais interessantes e mais problem\u00e1ticos da teoria de Butler. Em <em>Manifesto Contrassexual<\/em>, ele observa: \u201cA no\u00e7\u00e3o butleriana de \u2018performance de g\u00eanero\u2019, assim como a ainda mais sofisticada \u2018identidade performativa\u2019, desfazem-se prematuramente do corpo e da sexualidade, tornando imposs\u00edvel uma an\u00e1lise cr\u00edtica dos processos tecnol\u00f3gicos de inscri\u00e7\u00e3o que possibilitam que as performances \u2018passem\u2019 por naturais ou n\u00e3o\u201d (Preciado, 2014, p. 93). Diante das novas tecnologias do g\u00eanero acess\u00edveis na era farmacopornogr\u00e1fica, suas pesquisas sobre sexualidade t\u00eam sido realizadas \u00e0 flor da pele (Preciado, 2018). Em <em>Testo Junkie<\/em>, por exemplo, o fil\u00f3sofo antiacad\u00eamico realiza seu \u201censaio corporal\u201d como \u201cautoteoria\u201d, na qual se coloca como \u201cautocobaia\u201d de um experimento \u00e0 base de testosterona em gel, o qual coincide com seu encontro fulminante com a escritora e feminista porn\u00f4-punk Virginie Despentes \u2013 com quem foi casado por dez anos (Bretas, 2019a). Convidada a escrever o pref\u00e1cio de <em>Um apartamento em Urano<\/em>, a autora de <em>Teoria King Kong<\/em> (Despentes, 2016) resume: \u201ca hist\u00f3ria da sua transi\u00e7\u00e3o [de Preciado] n\u00e3o \u00e9 a passagem de um ponto a outro, mas a da err\u00e2ncia e do interl\u00fadio como lugar de vida. Uma transforma\u00e7\u00e3o constante, sem identidade fixa, sem atividade fixa, sem endere\u00e7o fixo, sem pa\u00eds\u201d (Despentes, in: Preciado, 2020, p. 14). Traduzidas e publicadas no Brasil em 2020, \u201cas cr\u00f4nicas da travessia\u201d (Preciado, 2020) acompanham todo o processo de redesigna\u00e7\u00e3o de g\u00eanero pelo qual o fil\u00f3sofo passou e deixou registrado em dezenas de colunas divulgadas quinzenalmente pelo jornal franc\u00eas Lib\u00e9ration, entre 2010 e 2018. Nelas, seu pr\u00f3prio corpo \u2013 n\u00f4made, mutante, \u201cinexistente\u201d \u2013 \u00e9 o centro virtual de grande parte do p\u00e9riplo que o levaria a se tornar um homem trans, isto \u00e9, um \u201ccontrabandista\u201d entre o mundo das mulheres e o dos homens.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMeu corpo trans \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o insurgente sem constitui\u00e7\u00e3o. Um paradoxo epistemol\u00f3gico e administrativo. Devir sem teleologia nem referente, sua exist\u00eancia inexistente \u00e9 a destitui\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo da diferen\u00e7a sexual e da oposi\u00e7\u00e3o homossexual-heterossexual. Meu corpo trans volta-se contra a l\u00edngua daqueles que o nomeiam para neg\u00e1-lo. Meu corpo trans existe como realidade material, como trama de desejos e pr\u00e1ticas, e sua inexistente exist\u00eancia coloca tudo em xeque: a na\u00e7\u00e3o, o j\u00fari, o arquivo, o mapa, o documento, a fam\u00edlia, a lei, o livro, o centro de interna\u00e7\u00e3o, a psiquiatria, a fronteira, a ci\u00eancia, deus. Meu corpo trans existe\u201d (Preciado, 2020, p. 225).<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta cr\u00f4nica de 2014, Preciado chama aten\u00e7\u00e3o para os paradoxos de existir e, ao mesmo tempo, n\u00e3o existir completamente de acordo com a cis-heteronorma. Na vida \u201creal\u201d, para ser reconhecido como cidad\u00e3o pelo estado espanhol, Paul Beatriz consente em ser diagnosticado e tratado como disf\u00f3rico \u2013 num certo sentido como Galileu Galilei, que contradiz sua teoria mesmo sabendo que tem raz\u00e3o.&nbsp; Ainda que tenha mantido o \u201cB\u201d de Beatriz em seu novo nome, Paul B. Preciado, ele assina seu novo contrato social, passando a habitar e a circular, sem ser importunado, pelo mundo dos \u201chomens\u201d. Teria ele \u201ctra\u00eddo\u201d sua forma\u00e7\u00e3o feminista, bem como seu passado rebelde como l\u00e9sbica radical? Quais desdobramentos de sua decis\u00e3o pessoal se refletem na pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o do queer como expediente de recusa e estranhamento ao binarismo de g\u00eanero? Dialeticamente, teria o \u00eaxito do queer precipitado sua pr\u00f3pria destrui\u00e7\u00e3o? Dito de outro modo, \u00e0 medida em que mais e mais pessoas n\u00e3o bin\u00e1rias t\u00eam os seus direitos reconhecidos e acatados pela sociedade <em>straight<\/em>, estaria o queer fadado a ser assimilado pela mesma norma \u2013 m\u00e9dica, jur\u00eddica e pol\u00edtica \u2013 \u00e0 qual critica? Seria a inclus\u00e3o do \u201cQ\u201d na sigla LGBTQ um sinal claro de que os dias do queer como movimento p\u00f3s-identit\u00e1rio de contesta\u00e7\u00e3o estariam contados? Bastante l\u00facida quando ao car\u00e1ter irredutivelmente din\u00e2mico desta palavra, em \u201cCriticamente queer\u201d, Judith Butler chama aten\u00e7\u00e3o para a tend\u00eancia \u00e0 incorpora\u00e7\u00e3o de pautas interseccionais, mais tradicionalmente associadas a pol\u00edticas consideradas \u201cidentit\u00e1rias\u201d como algumas vers\u00f5es de feminismo e certas vertentes do movimento negro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPode ser que a cr\u00edtica do termo acabe por iniciar um ressurgimento das mobiliza\u00e7\u00f5es feministas e antirracistas dentro da pol\u00edtica l\u00e9sbica e gay, ou acabe por abrir novas possibilidades para formar alian\u00e7as ou coliga\u00e7\u00f5es que n\u00e3o pressuponham que esses grupos sociais sejam radicalmente distintos um do outro. O termo ser\u00e1 revisto, dissipado e tornado obsoleto na medida em que resista \u00e0s demandas que se op\u00f5em a ele justamente por causa das exclus\u00f5es que o mobilizam\u201d (Butler, 2019, pp. 378-379).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>KUIR, CUIR, CU<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cCriticamente queer\u201d, ali\u00e1s, \u00e9 uma boa express\u00e3o para se referir \u00e0 atitude daqueles e daquelas que abra\u00e7aram o movimento e a teoria queer como estrat\u00e9gia de desconstru\u00e7\u00e3o da matriz heteronormativa, sem deixar de reconhecer suas insufici\u00eancias e contradi\u00e7\u00f5es internas. Esse \u00e9 o caso das cr\u00edticas dos Queer of Colour nos Estados Unidos, que denunciaram seu vi\u00e9s \u201cimperialista\u201d ao ignorar perspectivas, autores e autoras n\u00e3o brancas do sul global em suas teorias \/ pr\u00e1ticas desconstrutivas (Rea; Amancio, 2018). J\u00e1 na Am\u00e9rica Latina, pelo menos desde os anos 2000, acad\u00eamicos e ativistas decoloniais n\u00e3o t\u00eam poupado esfor\u00e7os para expressar suas obje\u00e7\u00f5es quanto ao uso de um termo estrangeiro ou angl\u00f3fono para se referir \u00e0s realidades locais, de pessoas vivendo no hemisf\u00e9rio sul \u2013 portanto, mais suscet\u00edveis \u00e0 indu\u00e7\u00e3o program\u00e1tica de sua condi\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria do que seus pares europeus ou norte-americanos. O brasileiro Pedro Paulo Pereira questiona:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDistante do contexto de enuncia\u00e7\u00e3o e sem aten\u00e7\u00e3o devida \u00e0 singularidade de cada <em>corpus<\/em> te\u00f3rico, corremos sempre o risco de nublar a densidade das proposi\u00e7\u00f5es <em>queer <\/em>\u2013 que necessitam de um movimento autorreflexivo intenso e cont\u00ednuo \u2013, o que conduziria \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o pura e simples de teorias, sem que haja a resist\u00eancia das realidades analisadas. A teoria se torna, nesse caso, dissociada das realidades locais e, sem esse confronto, acabamos por entrar num c\u00edrculo que induz \u00e0 eterna repeti\u00e7\u00e3o (perif\u00e9rica) de teorias (centrais). Seria este o fardo do <em>queer <\/em>nos tr\u00f3picos?\u201d (Pereira, 2012, p. 374).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Outra cr\u00edtica bastante frequente diz respeito ao amortecimento do vetor dissonante e combativo de uma palavra que, entre n\u00f3s, n\u00e3o \u00e9 ouvida ou sequer proferida como ofensa ou xingamento. A esse respeito, Larissa Pelucio pondera:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTamb\u00e9m em portugu\u00eas \u2018queer\u2019 nada quer dizer ao senso comum. Quando pronunciado em ambiente acad\u00eamico n\u00e3o fere o ouvido de ningu\u00e9m, ao contr\u00e1rio, soa suave (cuier), quase um afago, nunca uma ofensa. N\u00e3o h\u00e1 rubores nas faces nem vozes embargadas quando em um congresso cient\u00edfico lemos, escrevemos ou pronunciamos queer. Assim, o desconforto que o termo causa em pa\u00edses de l\u00edngua inglesa se dissolve aqui na maciez das vogais que n\u00f3s brasileiros insistimos em colocar por toda parte. De maneira que a inten\u00e7\u00e3o inaugural desta vertente te\u00f3rica norte-americana, de se apropriar de um termo desqualificador para politiz\u00e1-lo, perdeu-se no Brasil\u201d. (Pelucio, 2014).<\/p>\n\n\n\n<p>Buscando salvaguadar a verve disruptiva e contestadora tanto da teoria, quanto do movimento, Berenice Bento segue autores sul-americanos\/as que passaram a nome\u00e1-la \u201cteoria cuir\u201d ou simplesmente \u201cteoria cu\u201d, propondo uma coerente alternativa \u201cbrazuca\u201d: estudos transviados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEm alguns textos, eu tenho trabalhado com a express\u00e3o \u2018estudos transviados\u2019. A minha l\u00edngua tem que fazer muita gin\u00e1stica para dizer <em>queer <\/em>e n\u00e3o sei se quem est\u00e1 me escutando compartilha os mesmos sentidos. Ser um transviado no Brasil pode ser \u2018uma bicha louca\u2019, \u2018um viado\u2019, \u2018um travesti\u2019, \u2018um traveco\u2019, \u2018um sapat\u00e3o\u2019. Talvez n\u00e3o tiv\u00e9ssemos que enfrentar o debate da tradu\u00e7\u00e3o cultural se reduz\u00edssemos os estudos transviados ao \u00e2mbito (muitas vezes) bolorento da academia, transformando-o em um debate para iniciados, mas a\u00ed seria a pr\u00f3pria nega\u00e7\u00e3o desse campo de estudos que nasce com o ativismo, tensiona os limites do considerado normal e abre espa\u00e7o para uma pr\u00e1xis epistemol\u00f3gica que pensa novas concep\u00e7\u00f5es de humanidade\u201d (Bento, 2017, p. 249).<\/p>\n\n\n\n<p>Fato \u00e9 que \u00e0 medida em que deixa evidente suas origens inglesas, o queer se torna mais palat\u00e1vel e atrativo para ser consumido como mercadoria importada oferecida naquilo que a chilena Hija de Perra se refere como \u201cshopping queer\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cHoje em dia gra\u00e7as a Deus temos todo o necess\u00e1rio para tomar o estandarte queer dentro da metr\u00f3pole: mil produtos para nos transformar em seres amb\u00edguos de dif\u00edcil leitura sexual e perfomar pela vida como transgress\u00e3o identit\u00e1ria, hoje \u00e9 poss\u00edvel estudar esta teoria em Universidades e receber informa\u00e7\u00e3o fidedigna do tema, hoje temos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o a compra e venda de livros que traduzem e levam essa mensagem esperan\u00e7osa at\u00e9 o criado-mudo da sua cama, hoje existem as possibilidades de lugares de encontro multissexuais, bares, discotecas, etc. Hoje existem bandas de m\u00fasica com est\u00e9tica queer que voc\u00ea tamb\u00e9m pode adquirir e desfrutar, hoje existem lojas de artefatos contrassexuais para nossa estimula\u00e7\u00e3o plural ciber-carnal. Um mundo de fabulosas oportunidades para levar a cabo o discurso e o desborde est\u00e9tico necess\u00e1rios para nos sentirmos envolvidos e santificados pelo tema\u201d (De Perra, 2015).<\/p>\n\n\n\n<p>A despeito das cr\u00edticas, h\u00e1 pessoas como a argentina val flores \u2013 sapat\u00e3o, ativista da dissid\u00eancia sexual, heterodoxa, pr\u00f3-sexo, \u00e0 margem das institui\u00e7\u00f5es (flores, 2013) \u2013 que ir\u00e3o defender, apesar de tudo, um \u201ccuir\u201d situado abaixo da linha do Equador. Da\u00ed o sentido do imperativo de descoloniza\u00e7\u00e3o como pr\u00e1tica epistemol\u00f3gica e pol\u00edtica da maior import\u00e2ncia para a efetividade e o futuro de uma teoria que surgiu pela voz dos corpos anormais ou \u201cabjetos\u201d reunidos nas ruas por uma vida viv\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p><br>\u201cContra as leituras cuir das pr\u00e1ticas art\u00edsticas e pol\u00edticas que o situam, seja nas geografias de Buenos Aires ou do Norte ianque ou europeu, paradoxalmente estabelecendo (&#8230;) novas formas de domina\u00e7\u00e3o internacional, aqui o cuir \u00e9 disputado como o lugar de inconformidade com as hegemonias n\u00e3o apenas identit\u00e1rias, mas tamb\u00e9m geopol\u00edticas. Descoloniza\u00e7\u00e3o do c\u00e2none cuir, transformado em emblema do mercado. Contratextos capazes de desnaturalizar as rotinas da compet\u00eancia do saber e combater os c\u00f3digos que decretam e sancionam o poder de representa\u00e7\u00e3o, a tutela de quem fala. Cuir n\u00e3o como marca, sen\u00e3o como pr\u00e1tica, em que a escrita se move como lugar de contrapoder frente \u00e0s linguagens hegem\u00f4nicas e bin\u00e1rias da fala cotidiana subsumidas na matriz do manual escolar. Escrita bastarda em que o pr\u00f3prio sil\u00eancio \u00e9 ruptura, resist\u00eancia a um sistema de signos, que pensa por subtra\u00e7\u00e3o, nas p\u00e1ginas em branco, nas lacunas, nas fronteiras, nos espa\u00e7os, nos buracos do discurso (flores, 2017, p. 55).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; J\u00e1 no Brasil, Jota Momba\u00e7a \u00e9 uma das vozes \u201ckuir\u201d mais eloquentes. Diante de uma certa disputa entre as comunidades LGBTs e o queer, ela n\u00e3o hesita em se posicionar como \u201cbicha n\u00e3o bin\u00e1ria, nascida e criada no nordeste do Brasil, que escreve, performa e faz estudos acad\u00eamicos em torno das rela\u00e7\u00f5es entre monstruosidade e humanidade, estudos kuir, giros descoloniais, interseccionalidade pol\u00edtica, justi\u00e7a anticolonial, redistribui\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, fic\u00e7\u00e3o vision\u00e1ria e tens\u00f5es entre \u00e9tica, est\u00e9tica, arte e pol\u00edtica nas produ\u00e7\u00f5es de conhecimento do sul-do-sul global\u201d (Momba\u00e7a, 2017). Ao falar sobre a redistribui\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, Momba\u00e7a se refere ao \u201cestado molecular\u201d (Momba\u00e7a, 2017) e destaca a urg\u00eancia da luta interseccional contra uma certa \u201cmachul\u00eancia\u201d (Ek\u00e9 \u2013 Candombl\u00e9 Sound System) ou \u201cmasculinidade t\u00f3xica\u201d como fic\u00e7\u00e3o de poder.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO estado, assim como as pol\u00edticas, move-se com e pelo desejo. Quando o movimento LGBT brasileiro luta pela criminaliza\u00e7\u00e3o da homofobia, ele est\u00e1 lutando, no limite, por esse desejo. O desejo de ser protegido pela pol\u00edtica e neutralizado pelo estado n\u00e3o importa a que pre\u00e7o. N\u00e3o se considera, por exemplo, a dimens\u00e3o racista estruturante do sistema prisional, cujo maior alvo segue sendo as pessoas pretas e empobrecidas, inclusive aquelas cujas posi\u00e7\u00f5es de g\u00eanero e sexualidade poderiam ser compreendidas no espectro LGBT. A aposta nessas estruturas normativas como fonte de conforto e seguran\u00e7a para as comunidades agrupadas em torno da sigla LGBT \u00e9 um sinal evidente da falta de imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica interseccional desses ativismos, que est\u00e3o limitados a lutar no interior do projeto de mundo do qual temos sido reiteradamente exclu\u00eddas\u201d (Momba\u00e7a, 2017, p. 303).<\/p>\n\n\n\n<p>Ao chamar aten\u00e7\u00e3o para as tens\u00f5es recorrentes entre os movimentos LGBTs e os coletivos queer brasileiros, argentinos, chilenos, portugueses e espanh\u00f3is, Leandro Colling destaca alguns divisores de \u00e1guas entre as duas vertentes (Colling, 2015). Em linhas gerais, enquanto aqueles primeiros focam nas pol\u00edticas da igualdade, estes \u00faltimos se det\u00eam nas pol\u00edticas da diferen\u00e7a. Disso resulta que enquanto os LGBTs atuam no \u00e2mbito macropol\u00edtico das institui\u00e7\u00f5es, os queer agem prioritariamente na dimens\u00e3o micropol\u00edtica da cultura. Se pautas como casamento igualit\u00e1rio, ado\u00e7\u00e3o homoparental e identidade de g\u00eanero, por exemplo, s\u00e3o bastante caras aos movimentos LGBTs, os dissidentes queer preferem agir em prol da sensibiliza\u00e7\u00e3o das pessoas por meio de performances e a\u00e7\u00f5es culturais, e n\u00e3o apenas via reformas pontuais a institui\u00e7\u00f5es tradicionalmente repressoras. Outro diferencial entre os dois grupos s\u00e3o as a\u00e7\u00f5es de desobedi\u00eancia civil. Enquanto o movimento LGBT tende a optar pela press\u00e3o ao campo pol\u00edtico atrav\u00e9s de manifesta\u00e7\u00f5es, abaixo-assinados, comunicados \u00e0 imprensa etc, os coletivos queer preferem lan\u00e7ar m\u00e3o de t\u00e1ticas arriscadas que, n\u00e3o raro, terminam com ativistas presos e\/ou respondendo a processos judiciais. Finalmente, Colling menciona uma diferen\u00e7a, para ele, fundamental: a interseccionalidade. Enquanto os coletivos queer t\u00eam se mostrado mais engajados em estabelecer interfaces com outros movimentos \u2013 feministas, antirracistas, ecol\u00f3gicos, anticapitalistas e decoloniais \u2013 os movimentos LGBTs t\u00eam se revelado mais resistentes a tais coaliz\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, n\u00e3o obstante as heterogeneidades e os atritos, ambas as vertentes t\u00eam conseguido trabalhar juntas, apoiando-se em converg\u00eancias estrat\u00e9gicas na luta comum contra a viol\u00eancia antiqueer e anti-LGBT em escalada, sobretudo, em governos mis\u00f3ginos, masculinistas e trans-lesbo-homof\u00f3bicos como o governo Bolsonaro. Nesse contexto pand\u00eamico e necropol\u00edtico, que este verbete seja lido n\u00e3o como parte de uma enciclop\u00e9dia escrita por e para o sujeito transparente do p\u00f3s-iluminismo europeu, mas como verbo pulsante de um \u201cfemin\u00e1rio\u201d queer a reverberar, coletivamente, pelos corpos e pelas mentes das guerrilheiras de Monique Wittig. \u201cElas dizem que se veem em movimento, com vigor e felicidade. Dizem que se ouvem gritar e cantar: o sol pode brilhar \/ o mundo pertence a n\u00f3s\u201d (Wittig, 2019, p. 87).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>ANZALD\u00daA, Gloria. La consci\u00eancia de la mestiza\/Rumo a uma nova consci\u00eancia. <em>Revista Estudos Feministas <\/em>13(3), Florian\u00f3polis, 2005, pp.704-719. DOI: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/S0104-026X2005000300015\">https:\/\/doi.org\/10.1590\/S0104-026X2005000300015<\/a>. Acesso em: 15\/2\/2021.<\/p>\n\n\n\n<p>_______. 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