{"id":933,"date":"2021-05-26T14:45:07","date_gmt":"2021-05-26T17:45:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/?page_id=933"},"modified":"2022-04-25T18:01:50","modified_gmt":"2022-04-25T21:01:50","slug":"ecofeminismos","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/ecofeminismos\/","title":{"rendered":"Ecofeminismos"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns has-1-columns has-desktop-equal-layout has-tablet-equal-layout has-mobile-equal-layout has-default-gap has-vertical-unset\" id=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns-b89e295e\"><div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns-overlay\"><\/div><div class=\"innerblocks-wrap\">\n<div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-column\" id=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-column-95881232\">\n<p><strong>T\u00e2nia A. Kuhnen<\/strong><\/p>\n<p>Professora do Centro das Humanidades da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB) &#8211; <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/8881089112935588\">Lattes<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Daniela Rosendo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>P\u00f3s-doutoranda no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) &#8211; <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/6194417517821583\">Lattes.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/05\/Ecofeminismos.docx.pdf\">PDF &#8211; Ecofeminismos<\/a><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/1N1cAhiMCwljC0RR3ga2jcbC3vZIu8gM9c18TXWUwWcBi8G7T1BKXDIsBcLNOFJMhe4lBdh1oUGwppD06qJ-HlRHn7Ke8I-7K1M2hLVhPUNrqMR5GEtEMyMUL0mTDlcdarDZzgE\" alt=\"\" \/><figcaption>Movimento Chipko. Fonte: https:\/\/www.britannica.com\/topic\/Chipko-movement<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><strong>Defini\u00e7\u00e3o&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Ecofeminismo, conhecido tamb\u00e9m inicialmente por feminismo ecol\u00f3gico, \u00e9 um conjunto de teorias e pr\u00e1ticas que abarca tr\u00eas \u00e1reas: os estudos feminista, ambientalista e, em alguns casos, o animalista. Esse \u00faltimo tem sido chamado de ecofeminismo vegetariano, feminismo ecoanimalista ou, ainda, ecofeminismo animalista. Dessa forma, esse campo te\u00f3rico e pr\u00e1tico pode ser associado a diferentes \u00e1reas de conhecimento e articula pelo menos tr\u00eas categorias fundamentais em suas abordagens, quais sejam, as mulheres, a natureza e os animais (Rosendo e Kuhnen, 2019). Tendo em vista os elementos que comp\u00f5em o ecofeminismo, originados na teoria e na pr\u00e1tica situadas e vinculadas a contextos distintos de promo\u00e7\u00e3o da subjuga\u00e7\u00e3o e a opress\u00e3o, podemos afirmar que ele existe de forma plural e, por isso, nos referimos aos &#8220;ecofeminismos&#8221;. A pluralidade \u00e9 ent\u00e3o reflexo do aspecto contextual dos ecofeminismos e da forma como o conhecimento \u00e9 percebido, ou seja, sem presumir neutralidade, objetividade e abstra\u00e7\u00e3o. A partir disso, \u00e9 poss\u00edvel afirmar que os ecofeminismos abrangem diferentes abordagens epistemol\u00f3gicas, categorias e metodologias, al\u00e9m de terem potencial para serem desenvolvidos em conjunto com distintas teorias pol\u00edticas e vertentes feministas (radical, marxista, anarquista etc.).<\/p>\n\n\n\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre as categorias mulheres, natureza e animais \u00e9 estabelecida a partir da compreens\u00e3o de que diferentes formas de domina\u00e7\u00e3o, explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o est\u00e3o interconectadas, de modo a refor\u00e7\u00e1-las mutuamente. Nos sistemas capitalista e patriarcal, essa rela\u00e7\u00e3o se d\u00e1 entre as minorias pol\u00edticas de forma estrutural e estruturante. Justamente por isso, ainda que a vulnerabilidade seja entendida como uma carater\u00edstica geral, abrangente e fundamental dos seres vivos (Rosendo e Zirbel, 2019), diferentes indiv\u00edduos e grupos s\u00e3o mais afetados negativamente (causando-lhes dor, danos e sofrimento) em raz\u00e3o desses sistemas de opress\u00e3o estabelecidos a partir de categorias como g\u00eanero e classe, ainda que n\u00e3o se restrinja a elas. Para confrontar os sistemas de opress\u00e3o, Vandana Shiva e Maria Mies (1993) defendem que uma perspectiva ecofeminista deve desenvolver uma nova cosmologia que reconhe\u00e7a as diferentes formas de vida como dependentes da coopera\u00e7\u00e3o e de rela\u00e7\u00f5es de cuidado m\u00fatuas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto de patriarcado e capitalismo, al\u00e9m da rela\u00e7\u00e3o entre a opress\u00e3o das mulheres, dos animais e da natureza ser identificada como oriunda da mesma estrutura dualista, as an\u00e1lises ecofeministas compreendem a interseccionalidade que permeia diferentes sistemas de opress\u00e3o. A crise ambiental e clim\u00e1tica, por exemplo, resulta do refor\u00e7o m\u00fatuo entre as formas de preconceito mais conhecidas e abordadas nas teorias cr\u00edticas, como&nbsp; racismo, sexismo, classismo, imperialismo, colonialismo, e formas de preconceito que mais recentemente vem sendo reivindicadas como parte dos sistemas de opress\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o, a exemplo do capacitismo (discrimina\u00e7\u00e3o contra pessoas com defici\u00eancia), naturismo (domina\u00e7\u00e3o injustificada da natureza), especismo (discrimina\u00e7\u00e3o com base no pertencimento&nbsp; \u00e0 esp\u00e9cie) e heterossexismo (preconceito baseado na suposi\u00e7\u00e3o do binarismo sexual) (Gaard e Gruen, 2005). \u00c9 por isso que os diferentes movimentos e campos de estudo \u2013 de g\u00eanero e feministas, ambientalistas e animalistas \u2013 devem levar em conta a interseccionalidade, tendo em vista que os diferentes \u201cismos\u201d de domina\u00e7\u00e3o t\u00eam por tr\u00e1s a mesma l\u00f3gica de domina\u00e7\u00e3o (Warren 1998; 2000).<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de poderem ser trabalhados a partir de uma perspectiva disciplinar, os ecofeminismos s\u00e3o inerentemente interdisciplinares e n\u00e3o se restringem ao conhecimento te\u00f3rico\/acad\u00eamico, como afirmamos inicialmente. Eles, inclusive, refletem diferentes posturas feministas e compreens\u00f5es diversas da condi\u00e7\u00e3o e da solu\u00e7\u00e3o dos problemas de g\u00eanero e ambientais (Warren, 2003). \u00c9 importante ressaltar que os ecofeminismos \u2013 ainda que muitas vezes sua genealogia seja associada aos feminismos radical e da diferen\u00e7a \u2013, podem estar relacionados a diferentes feminismos (radical, socialista, marxista, descolonial etc.).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A pr\u00e1xis, entendida como a rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre pensamento e a\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma caracter\u00edstica fundamental dos ecofeminismos. Teoria e pr\u00e1tica se integram mutuamente de modo a compreender e sistematizar, a partir de ferramentas conceituais e metodol\u00f3gicas, tanto a rela\u00e7\u00e3o entre as diferentes formas de opress\u00e3o quanto as experi\u00eancias das mulheres que revelam modos n\u00e3o hier\u00e1rquico-dualistas e n\u00e3o explorat\u00f3rios de estabelecer as rela\u00e7\u00f5es sociais, ambientais e interesp\u00e9cies.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para realizar essa tarefa, podemos nos valer de diferentes categorias, metodologias e abordagens epistemol\u00f3gicas &#8220;a partir das quais ser\u00e1 poss\u00edvel estabelecer os conceitos, os m\u00e9todos e o modo de compreender os conhecimentos e as vozes que tradicionalmente n\u00e3o s\u00e3o levados em considera\u00e7\u00e3o pelo pensamento hegem\u00f4nico na constru\u00e7\u00e3o de variados campos&#8221; (Rosendo, 2019, p. 33). Por isso, os ecofeminismos permitem justamente pensar al\u00e9m dos limites tradicionalmente estabelecidos e experimentar outras formas, n\u00e3o can\u00f4nicas, de pensar quest\u00f5es epistemol\u00f3gicas, \u00e9ticas e de justi\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Origens e filia\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A origem dos ecofeminismos n\u00e3o pode ser tra\u00e7ada a partir de um \u00fanico ponto isolado que corresponda a uma pessoa ou a um movimento de um lugar espec\u00edfico, tampouco a um texto fundacional. Trata-se de um conjunto te\u00f3rico e pr\u00e1tico com fontes diversas. Gaard e Gruen (2005) compreendem que o termo ecofeminismo resulta de um fen\u00f4meno de abrang\u00eancia internacional, combinando movimentos sociais das d\u00e9cadas de 60, 70 e princ\u00edpios dos anos 80, do s\u00e9culo XX, com escritos feministas voltados para quest\u00f5es ecol\u00f3gicas e ambientais produzidos na d\u00e9cada de 80. Inclusive, ainda que o termo ecofeminismo tenha predominado para se referir a esse conjunto de teorias e pr\u00e1ticas, outras express\u00f5es tamb\u00e9m aparecem para nome\u00e1-lo, como feminismo ecol\u00f3gico, ecologia feminista, g\u00eanero e meio ambiente. Em sentido an\u00e1logo, Niamh Moore (2016) realiza uma discuss\u00e3o geneal\u00f3gica sobre as origens do ecofeminismo e procura destacar sua diversidade de posi\u00e7\u00f5es, vozes, formas e localiza\u00e7\u00f5es, que lhe conferem um car\u00e1ter n\u00e3o dogm\u00e1tico, apesar das tentativas posteriores de tipologizar os ecofeminismos. Para a autora, todavia, \u00e9 poss\u00edvel situar a origem dos ecofeminismos tamb\u00e9m a partir do reconhecimento de uma tens\u00e3o entre pr\u00e1tica e ativismo ecofeministas, de um lado, e teoria e academia, de outro. Apesar da tens\u00e3o que se traduz em um dilema de autoria, \u00e9 poss\u00edvel sustentar que teoria e pr\u00e1tica formam uma teia de rela\u00e7\u00f5es para originar os ecofeminismos. Por isso, seria equivocado afirmar que \u201co ecofeminismo\u201d surge na academia, como uma teoria singular, pois no mesmo per\u00edodo em que as intelectuais estavam desenvolvendo articula\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas a partir das reflex\u00f5es sobre a materialidade das opress\u00f5es interconectadas, movimentos de mulheres em diferentes lugares do mundo tamb\u00e9m percebiam a conex\u00e3o entre as diferentes formas de explora\u00e7\u00e3o e a import\u00e2ncia de lutarem pelos territ\u00f3rios e bens comuns. Pode-se exemplificar com o Movimento Chipko, na \u00cdndia, e o Green Belt Movement, fundado pela queniana Wangari Maathai. O que evidenciamos, portanto, \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o hier\u00e1rquica entre teoria e pr\u00e1tica, entre uma origem intelectual ou de um movimento de base, na medida em que justamente uma das caracter\u00edsticas dos ecofeminismos \u00e9 a pr\u00e1xis, como ser\u00e1 exposto adiante.<\/p>\n\n\n\n<p>Diversos movimentos ativistas liderados por mulheres a partir do final da d\u00e9cada de 60 podem ser relacionados \u00e0 origem do ecofeminismo. Elas passaram a protagonizar de forma mais contundente movimentos pela paz, anti-nucleares, contra o lixo t\u00f3xico e a polui\u00e7\u00e3o nos EUA e na Europa. No Sul Global, salientam Shiva e Mies (1993), tamb\u00e9m se constitu\u00edram diferentes movimentos, destacando-se pautas como: uma gest\u00e3o mais justa do acesso \u00e0 \u00e1gua, conserva\u00e7\u00e3o dos solos, utiliza\u00e7\u00e3o da terra e manuten\u00e7\u00e3o da base de sobreviv\u00eancia das mulheres, a exemplo das florestas, contra os interesses industriais. Nesse contexto, merece destaque o movimento do abra\u00e7o \u00e0s \u00e1rvores das mulheres de Chipko na regi\u00e3o o Himalaia, na \u00cdndia. Nos anos 70 e 80, mulheres daquela regi\u00e3o iniciaram a\u00e7\u00f5es n\u00e3o violentas contra companhias mineradoras internacionais, cuja a\u00e7\u00e3o estava resultando na destrui\u00e7\u00e3o de florestas que constitu\u00edam a fonte de sustento das comunidades ali situadas. Conforme Shiva e Mies (1993), as mulheres de Chipko reconheciam suas rela\u00e7\u00f5es de depend\u00eancia com a natureza e possu\u00edam um senso local de prosperidade, liberdade e qualidade de vida associado \u00e0 sua capacidade de produzir e coletar localmente, que vinha sendo destru\u00eddo pelas companhias. Embora as mulheres envolvidas em diferentes movimentos sociais n\u00e3o criaram ou usaram o termo \u2018ecofeminismo\u2019, suas lutas demonstram que \u00e9 poss\u00edvel situar mulheres e crian\u00e7as em primeiro lugar, reverter a l\u00f3gica patriarcal, colonial e capitalista de aliena\u00e7\u00e3o das interconex\u00f5es entre as formas de vida e promover rela\u00e7\u00f5es \u00e9tico-pol\u00edticas baseadas no cuidado e na justi\u00e7a em diferentes n\u00edveis &#8211; entre os sexos, g\u00eaneros, comunidades humanas e n\u00e3o humanas, diferentes gera\u00e7\u00f5es e o meio ambiente.<\/p>\n\n\n\n<p>No que diz respeito \u00e0 origem te\u00f3rica dos ecofeminismos, muitas autoras e relatos no campo dos estudos feministas apontam para o trabalho pioneiro da acad\u00eamica Fran\u00e7oise D\u2019Eaubonne, em <em>Le F\u00e9minisme ou la Mort<\/em> (1974), a quem se atribui a autoria da palavra \u2018ecofeminismo\u2019. A autora apontou para a exist\u00eancia de uma liga\u00e7\u00e3o entre a opress\u00e3o das mulheres e da natureza. Entretanto, Moore (2016) apresenta as disputas em torno da relev\u00e2ncia do trabalho de D\u2019Eaubonne \u00e0 medida que dar a ela a centralidade da autoria na hist\u00f3ria poderia colocar em quest\u00e3o a pr\u00f3pria base ativista internacional e a diversidade de fontes associada \u00e0 origem dos ecofeminismos. Al\u00e9m disso, o fato de o livro de D\u2019Eaubonne ter sido traduzido para o ingl\u00eas mais tarde, permite indagar sobre a extens\u00e3o da influ\u00eancia de seu pensamento no desenvolvimento dos ecofeminismos nos EUA.<\/p>\n\n\n\n<p>Shiva e Mies (1993) tamb\u00e9m pontuam que embora D\u2019Eaubonne seja reconhecida por ter usado o termo \u2018ecofeminismo\u2019 pela primeira vez, a populariza\u00e7\u00e3o da palavra \u00e9 consequ\u00eancia de protestos diante da destrui\u00e7\u00e3o e dos desastres ambientais, culminando em uma confer\u00eancia feminista, em mar\u00e7o de 1980, nos EUA, chamada <em>As mulheres e a vida na Terra: uma confer\u00eancia sobre o eco-feminismo na d\u00e9cada de 80<\/em>, que teve Ynestra King como uma de suas organizadoras. Nesse sentido, hist\u00f3rias alternativas para a origem do ecofeminismo apontam para a relev\u00e2ncia do trabalho de King nos EUA por aproximar o campo dos estudos feministas das quest\u00f5es ecol\u00f3gicas por meio de seu trabalho no Instituto de Ecologia Social, em Vermont (EUA). Como resultado da problematiza\u00e7\u00e3o do feminismo a partir de problemas ambientais emergentes, King (1997, p. 126-127) se questiona: \u201cO que adianta partilhar com igualdade um sistema que est\u00e1 matando a n\u00f3s todos? [&#8230;] A crise ecol\u00f3gica est\u00e1 relacionada com sistemas de avers\u00e3o a tudo o que \u00e9 natural e feminino por parte de formuladores brancos, masculinos, ocidentais, de filosofia, tecnologia e inven\u00e7\u00f5es mort\u00edferas\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Outras autoras tamb\u00e9m possuem trabalhos influentes no contexto de emerg\u00eancia e consolida\u00e7\u00e3o do ecofeminismo: <em>Gyn\/Ecology<\/em> (1978), de Mary Daly, <em>Green Paradise Lost<\/em> (1979), de Elizabeth Dodson Gray e <em>The Death of Nature <\/em>(1980), de Carolyn Merchant (Gaard e Gruen, 2005; Tong, 2014; Moore, 2016).<\/p>\n\n\n\n<p>As motiva\u00e7\u00f5es situadas na origem do movimento te\u00f3rico dos ecofeminismos giram em torno de uma insatisfa\u00e7\u00e3o com a falta de espa\u00e7o para a categoria de g\u00eanero no contexto dos movimentos ambientalistas, ainda marcados pelo sexismo, e a preocupa\u00e7\u00e3o emergente das acad\u00eamicas feministas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 explora\u00e7\u00e3o do ambiente natural para manter o sistema de domina\u00e7\u00e3o patriarcal. Isso continua sendo fundamental para pensadoras ecofeministas, pois cada vez mais se reconhece a necessidade de distanciamento de sistemas que negam a vida e a interdepend\u00eancia, respons\u00e1veis pelo aprofundamento de condi\u00e7\u00f5es de injusti\u00e7a e explora\u00e7\u00e3o ambiental, econ\u00f4mica, social e pol\u00edtica. Apesar das conquistas realizadas por mulheres e outras minorias pol\u00edticas, a degrada\u00e7\u00e3o ambiental continua acelerada por estilos de vida consumistas impulsionados, sobretudo, pelo Norte Global, que, concomitantemente, explora, domina e coloniza os pa\u00edses do sul. Por isso, o ecofeminismo contempor\u00e2neo atravessa fronteiras disciplinares e geopol\u00edticas, abordando diferentes problemas que emergem da interconex\u00e3o entre humanos e a natureza (Phillips e Rumens, 2016).<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante aqui pontuar que n\u00e3o se defende uma separa\u00e7\u00e3o entre a abordagem pr\u00e1tica e a te\u00f3rica dos ecofeminismos, ainda que ambas possam apresentar tens\u00f5es. Pelo contr\u00e1rio, o ecofeminismo te\u00f3rico possui uma rela\u00e7\u00e3o de interdepend\u00eancia com a pr\u00e1tica, uma vez que o di\u00e1logo \u00e9 essencial para uma pr\u00e1xis informada de combate \u00e0 l\u00f3gica da domina\u00e7\u00e3o no campo pol\u00edtico. Se a origem do ecofeminismo esteve ligada \u00e0 reflex\u00e3o feminista aplicada a problemas ambientais por meio do ativismo e da academia, a continuidade dos ecofeminismos depende justamente da manuten\u00e7\u00e3o dessa integra\u00e7\u00e3o criativa, n\u00e3o dogm\u00e1tica, de modo a construir um outro mundo poss\u00edvel, com redes de sustenta\u00e7\u00e3o e apoio \u00e0 vida, justi\u00e7a de g\u00eanero, racial, \u00e9tnica e ambiental para todos os seres vivos. \u00c9 nesse sentido que Karen Warren (2000) defende que o ecofeminismo se constitui como uma teoria em processo, que pode ser explicada pelo recurso \u00e0 met\u00e1fora do <em>quilt <\/em>\u2013 teorias constru\u00eddas de maneira conjunta, que representam a particularidade das perspectivas de <em>quilters <\/em>de diferentes idades, etnias, ra\u00e7a, g\u00eanero, origens, classes.<\/p>\n\n\n\n<p>Na hist\u00f3ria dos ecofeminismos, cabe destacar, conforme analisam Phillips e Rumens (2016) e Moore (2016), a tentativa de reduzir sua import\u00e2ncia a partir de uma acusa\u00e7\u00e3o de essencialismo. Essa acusa\u00e7\u00e3o est\u00e1 centrada na ideia de que, \u00e0 medida que se estabelecem associa\u00e7\u00f5es entre mulheres e natureza, ainda que tais associa\u00e7\u00f5es tenham um car\u00e1ter mais sociohist\u00f3rico e cultural do que propriamente biol\u00f3gico ou espiritual, isto \u00e9, assentado na valoriza\u00e7\u00e3o da capacidade de gerar novas vidas e na simbologia do ciclo menstrual das mulheres, por exemplo, haveria um risco de sustentar que mulheres s\u00e3o seres naturais, guardi\u00e3s da \u201cm\u00e3e natureza\u201d e, por serem parte da natureza, tamb\u00e9m inferiores. Mas o ponto central dessa acusa\u00e7\u00e3o emerge quando essas associa\u00e7\u00f5es s\u00e3o reivindicadas como universais que definem o \u201cser mulher\u201d, o que resulta no erro de tamb\u00e9m homogeneizar experi\u00eancias diversas de mulheres e o modo como se entendem pr\u00f3ximas &#8211; ou n\u00e3o &#8211; da natureza. Essas acusa\u00e7\u00f5es no \u00e2mbito acad\u00eamico ganharam amplitude de modo a resultar numa recusa das pr\u00f3prias autoras a serem chamadas ecofeministas. O resultado foi uma redu\u00e7\u00e3o no n\u00famero de publica\u00e7\u00f5es no \u00e2mbito internacional de livros e artigos cient\u00edficos que fizessem uso da denomina\u00e7\u00e3o ap\u00f3s os anos 2000. Recentemente, todavia, conforme Adams e Gruen (2014), o interesse pelos ecofeminismos tem se renovado \u00e0 medida que o impacto das atividades humanas sobre o mundo mais do que humano ou para al\u00e9m dos humanos, isto \u00e9, o mundo compreendido como um todo de rela\u00e7\u00f5es de interdepend\u00eancia cuja centralidade n\u00e3o est\u00e1 nos integrantes da esp\u00e9cie humana, tornam-se cada vez mais evidentes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ecofeminismos e sua hist\u00f3ria no Brasil<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, h\u00e1 poucos estudos que catalogam as publica\u00e7\u00f5es ecofeministas. O trabalho de an\u00e1lise do conte\u00fado de duas revistas voltadas para quest\u00f5es feministas e de g\u00eanero, quais sejam, <em>Cadernos Pagu<\/em> (UNICAMP) e <em>Revista Estudos Feministas<\/em> (UFSC), desenvolvido por Daniel Kirjner (2019), aponta para a pouca representatividade no espa\u00e7o acad\u00eamico de tem\u00e1ticas ecofeministas, com refer\u00eancias limitadas a um certo perfil de autoras ecofeministas do Norte Global, al\u00e9m de se destacar a aus\u00eancia de artigos que tratem do ecofeminismo animalista e de uma perspectiva feminista interesp\u00e9cies, no per\u00edodo analisado em ambos os peri\u00f3dicos entre 1992 e 2015 .&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma exce\u00e7\u00e3o \u00e9 o trabalho e obra da fil\u00f3sofa e te\u00f3loga feminista brasileira Ivone Gebara, refer\u00eancia da teologia da liberta\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o latinoamericana. Reconhecidamente ecofeminista, Gebara desafiou o eurocentrismo, o androcentrismo e o antropocentrismo presentes na teologia dogm\u00e1tica e defendeu sua transforma\u00e7\u00e3o de modo a perceber os diferentes contextos e realidades, especialmente as marginais (Gebara, 2000 apud Kirjner, 2019). Contudo, o pr\u00f3prio ecofeminismo da te\u00f3loga permaneceu \u00e0 margem dos movimentos feminista e ecol\u00f3gico. Na nossa percep\u00e7\u00e3o, v\u00e1rios fatores certamente influenciaram essa invisibiliza\u00e7\u00e3o ou falta de di\u00e1logo, inclusive em raz\u00e3o das cr\u00edticas das feministas ao conservadorismo da Igreja, dificultando o di\u00e1logo com as te\u00f3logas, mesmo que feministas e defensoras dos direitos das mulheres, em especial quanto \u00e0 sa\u00fade sexual e reprodutiva.&nbsp; Por isso, \u00e9 preciso situar a produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de Gebara sobre o ecofeminismo na d\u00e9cada de 1990, quando o movimento feminista no Brasil se concentrava nas quest\u00f5es de identidade e empoderamento (Kirjner, 2019). O movimento ecol\u00f3gico, por sua vez, apresentava pouca consci\u00eancia das quest\u00f5es de g\u00eanero e, como caracter\u00edstica mais espec\u00edfica do Brasil, neste per\u00edodo estava mais ocupado com a derrubada das florestas para a expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio do que com quest\u00f5es ambientais caracter\u00edsticas do espa\u00e7o urbano, a exemplo do problema do lixo, entre outras tratadas por Gebara a partir da periferia das grandes cidades. Al\u00e9m disso, os traumas da ditadura militar ainda eram bastante recentes. Tendo em vista a viola\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica dos direitos civis e pol\u00edticos por mais de duas d\u00e9cadas, em um regime autorit\u00e1rio, a necessidade de restabelecer os processos democr\u00e1ticos e os direitos fundamentais individuais parecem ter dificultado o avan\u00e7o dos direitos de outras dimens\u00f5es \u2013 coletiva e difusa \u2013, como os econ\u00f4micos, sociais, culturais e ambientais.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem preju\u00edzo de outras produ\u00e7\u00f5es que ainda n\u00e3o tenhamos alcan\u00e7ado e que remetam a quest\u00f5es e pensadoras ecofeministas, cabe salientar, tamb\u00e9m na d\u00e9cada de 1990, o livro de Regina C\u00e9lia Di Ciommo, <em>Ecofeminismo e educa\u00e7\u00e3o ambiental<\/em> (1999). Mais recentemente, dentre outros trabalhos, tem-se a produ\u00e7\u00e3o de Loreley Garcia, em especial o livro <em>Meio Ambiente &amp; G\u00eanero<\/em> (2012), a obra de Emma Siliprandi, com destaque para <em>Mulheres e agroecologia: transformando o campo, as florestas e as pessoas<\/em> (2015), as publica\u00e7\u00f5es de Daniela Rosendo, entre elas o livro <em>Sens\u00edvel ao Cuidado: uma perspectiva \u00e9tica ecofeminista<\/em> (2015), a colet\u00e2nea <em>Ecofeminismos: fundamentos te\u00f3ricos e pr\u00e1xis interseccionais <\/em>(2019), organizada por Daniela Rosendo, F\u00e1bio A. G. Oliveira, Pr\u00edscila Carvalho e T\u00e2nia A. Kuhnen e o <em>Guia ecofeminista: mulheres, direito, ecologia<\/em>, de Vanessa Lemgruber (2020).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m dessas obras que comp\u00f5em a literatura ecofeminista brasileira refletindo a diversidade dos ecofeminismos, ressalta-se tamb\u00e9m a produ\u00e7\u00e3o espec\u00edfica de uma de suas vertentes, ainda que seus t\u00edtulos n\u00e3o denotem explicitamente o conte\u00fado ecofeminista. O ecofeminismo animalista que, por vezes, se identifica a partir da rela\u00e7\u00e3o entre feminismos, animalismos e veganismos, inclui n\u00e3o s\u00f3 a rela\u00e7\u00e3o entre mulheres, g\u00eanero e meio ambiente, mas tamb\u00e9m interesp\u00e9cies. Tal abordagem compreende que o especismo \u00e9 mais um &#8220;ismo&#8221; de domina\u00e7\u00e3o que deve ser superado, assim como o sexismo, racismo, capacitismo e todas as outras formas de discrimina\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o. Dentre as refer\u00eancias dessa bibliografia, identifica-se o livro <em>Rela\u00e7\u00f5es multiesp\u00e9cies em rede: feminismos, animalismos e veganismo<\/em> (2017), organizado por Patr\u00edcia Lessa e Dolores Galindo, cujo projeto foi desenvolvido a partir das apresenta\u00e7\u00f5es do primeiro Simp\u00f3sio Tem\u00e1tico sobre ecofeminismo realizado no Semin\u00e1rio Internacional Fazendo G\u00eanero 10 (2013) &#8211; ST 26 Desafios atuais dos ecofeminismos: aproxima\u00e7\u00f5es entre o sexismo e o especismo, proposto por Patr\u00edcia Lessa e Thiago Santanna; e o livro <em>Rela\u00e7\u00f5es interseccionais em rede: feminismos, animalismos e veganismos<\/em> (2019), organizado por Patricia Lessa, Roberta Stubs e Marta Bellini.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo dos anos mais recentes, pode-se identificar um interesse aparentemente crescente pelos ecofeminismos na academia brasileira por meio da presen\u00e7a da literatura ecofeminista em disserta\u00e7\u00f5es e teses de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o <em>stricto sensu<\/em>. Al\u00e9m disso, apesar da pouca presen\u00e7a dos ecofeminismos no debate e produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamicas na grande \u00e1rea das Humanidades (Kirjner, 2019), pode-se encontrar princ\u00edpios ecofeministas no ativismo de mulheres do espa\u00e7o rural, conforme as an\u00e1lises contidas em diferentes produ\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas, a exemplo do referido livro de Emma Siliprandi (2015). Maria da Gra\u00e7a Costa (2019) destaca aspectos hist\u00f3ricos da luta das mulheres brasileiras e latinas organizadas no Movimento das Mulheres Campesinas (MMC) em defesa de uma agroecologia. A pesquisa de Maria Ignez Paulilo, em <em>Mulheres Rurais: quatro d\u00e9cadas de di\u00e1logo<\/em> (2016), tamb\u00e9m \u00e9 uma importante refer\u00eancia no tema, al\u00e9m do recente artigo sobre a Marcha das Margaridas e os ecofeminismos, em que T\u00e2nia A. Kuhnen (2020) procura evidenciar como as abordagens ecofeministas ajudam a&nbsp; pensar a intersec\u00e7\u00e3o entre quest\u00f5es de g\u00eanero e ambientais, o que seria central para o fazer e o pensar feminista das mulheres integrantes da Marcha das Margaridas, ainda que essas mulheres, em sua diversidade de formas de vida no espa\u00e7o rural, n\u00e3o se denominem ecofeministas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A Marcha das Margaridas \u00e9 um movimento socioambiental unificado de mulheres do campo de todo o Brasil, que recebe apoio de diferentes organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil, com destaque para o apoio da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (CONTAG). O nome do movimento \u00e9 inspirado na l\u00edder sindical paraibana assassinada em 1983, Margarida Alves, precursora na luta pelos direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras do campo. Uma caracter\u00edstica central desse movimento de mulheres \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o de uma marcha na cidade de Bras\u00edlia, que j\u00e1 contou com seis edi\u00e7\u00f5es at\u00e9 o presente, destacando-se a \u00faltima delas ocorrida em 2019, reunindo em torno de 100 mil mulheres, entre 13 e 14 de agosto, em Bras\u00edlia, sob o lema \u201cMargaridas na luta por um Brasil com soberania popular, democracia, justi\u00e7a, igualdade e livre de viol\u00eancia\u201d. Tais mulheres lutam contra diferentes sistemas de domina\u00e7\u00e3o que as atingem. Em suas&nbsp; lutas, saberes, fazeres e reivindica\u00e7\u00f5es, com destaque para a agricultura familiar e a agroecologia, tem-se um ecofeminismo latino-americano.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um momento marcante para o ativismo de mulheres relacionado a quest\u00f5es ambientais no Brasil e, por conseguinte, para a pr\u00f3pria hist\u00f3ria do ecofeminismo aqui e o encontro entre teoria e pr\u00e1tica, foi o da Eco-92. O evento contou com a presen\u00e7a de pensadoras importantes dos estudos ecofeministas. Na ocasi\u00e3o, realizou-se o Planeta F\u00eamea, segundo Rodriguez (2013, p. 40), um \u201cespa\u00e7o de reflex\u00e3o das mulheres na Eco 92, criado sob a influ\u00eancia das ideias ecofeministas propiciadas por Vandana Shiva, Maria Mies, Carolyn Merchant e redes e organiza\u00e7\u00f5es sociais\u201d. No entanto, conforme a autora, a for\u00e7a do movimento feminista mais \u2018tradicional\u2019 da d\u00e9cada de 1980 se sobressaiu aos prop\u00f3sitos ecofeministas. Em outras palavras, houve pouca acolhida da tentativa de incluir a perspectiva ecol\u00f3gica na demanda dos movimentos de mulheres na \u00e9poca. Tamb\u00e9m a partir da Eco-92, portanto, as correntes ecofeministas no Brasil conquistaram pouco espa\u00e7o e foram reduzidas pela atribui\u00e7\u00e3o do adjetivo \u201cessencialistas\u201d, como afirmado anteriormente.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 em 2012, com a realiza\u00e7\u00e3o da Rio+20, percebe-se mais espa\u00e7o para repensar a rela\u00e7\u00e3o das mulheres e do feminismo com a natureza. Nesse per\u00edodo, os ecofeminismos j\u00e1 haviam expandido suas an\u00e1lises, reconhecendo a complexidade dos diferentes tipos de experi\u00eancias de mulheres, mediadas por classe, etnia, sexualidade, capacidades, que n\u00e3o poderiam ser reduzidas a uma leitura simplificada da proximidade entre mulheres e natureza. Se, para algumas mulheres, seria importante celebrar essa aproxima\u00e7\u00e3o, a exemplo, do trabalho das parteiras, das rezadeiras e benzedeiras, com amplo conhecimento sobre o uso de ervas medicinais, para outras, os valores femininos aproximados da natureza precisavam ser contestados como espa\u00e7os de dom\u00ednio, pois \u00e0s tornavam suscet\u00edveis a serem consideradas menos racionais e objetificadas. Outras mulheres ainda, cujas atividades de reprodu\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o dependiam da rela\u00e7\u00e3o social de proximidade com a natureza, sentiram a necessidade de colocar em quest\u00e3o o modelo de desenvolvimento patriarcal, capitalista e colonial, que amea\u00e7ava seus modos de vida. Para Moore (2016), focar apenas na discuss\u00e3o entre essencialismo e anti-essencialismo desvia os ecofeminismos de seu verdadeiro potencial: um tipo de filosofia e pr\u00e1tica anti-dualista que pode buscar, por meio de metodologias geneal\u00f3gicas, outros sentidos para a natureza, para o ser mulher e pensar outras rela\u00e7\u00f5es poss\u00edveis entre seres humanos e natureza.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda no ano de 2012, ressalta-se a publica\u00e7\u00e3o de dois livros no Brasil que relacionam \u00e0s conex\u00f5es distintas entre mulheres, animais e natureza produzidas na sociedade patriarcal e androc\u00eantrica: <em>Galactolatria: mau deleite<\/em>, da fil\u00f3sofa S\u00f4nia T. Felipe, no qual a autora aborda as implica\u00e7\u00f5es \u00e9ticas, ambientais e nutricionais do consumo de leite bovino, subsidiando as teorias e cr\u00edticas ecofeministas que denunciam a explora\u00e7\u00e3o das f\u00eameas; e a tradu\u00e7\u00e3o de <em>A Pol\u00edtica Sexual da Carne<\/em>, da escritora e ativista estadunidense Carol J. Adams, publicado originalmente em 1990, no qual a autora desenvolve uma teoria cr\u00edtica feminista-vegetariana, introduzindo o debate sobre a quest\u00e3o animalista nos ecofeminismos. Tais obras permitem tamb\u00e9m refletir que, enquanto sociedade e corpo pol\u00edtico, priorizamos um distanciamento da natureza, o que nos torna pouco conscientes do modo como nosso modo de vida impacta e destr\u00f3i grupos humanos minorit\u00e1rios e a natureza. Nesse sentido, a quest\u00e3o central n\u00e3o seria tanto de apontar para proximidades e associa\u00e7\u00f5es entre mulheres e natureza, mas sim como nosso distanciamento dualista do mundo natural, f\u00edsico e emocional, inviabiliza a prote\u00e7\u00e3o da vida, humana e n\u00e3o humana.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando aos movimentos sociais mais recentes, Rodriguez (2013) pontua que mulheres brasileiras est\u00e3o cada vez mais engajadas nas lutas em defesa da natureza no contexto brasileiro e em muitos territ\u00f3rios no mundo:<\/p>\n\n\n\n<p>As lutas das altivas mulheres de Altamira e regi\u00e3o contra a privatiza\u00e7\u00e3o e barragem do Rio Xingu em Belo Monte, contra a privatiza\u00e7\u00e3o da \u00e1gua na cidade de Manaus, no cora\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, pelo livre acesso aos baba\u00e7uais, especialmente na pioneira luta das bravas maranhenses, contra as florestas de monocultivo de eucalipto no Esp\u00edrito Santo e Paran\u00e1, contra a pesca de arrast\u00e3o no Cear\u00e1, e as muitas outras lutas em que quase sempre encontramos as mulheres \u00e0 frente, nos chamaram para a necessidade de renovar as reflex\u00f5es de modo a permitir a compreens\u00e3o da ess\u00eancia de tais lutas (Rodriguez, 2013, p. 42).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Em parte, esse engajamento que se evidencia no \u00e2mbito mundial \u00e9 resultado dos impactos mais evidentes das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, associadas \u00e0s quest\u00f5es controversas em torno dos efeitos das t\u00e9cnicas gen\u00e9ticas de produ\u00e7\u00e3o da vida vegetal e animal e da cont\u00ednua expans\u00e3o das monoculturas do agroneg\u00f3cio para novas regi\u00f5es no interior do Brasil. Nesse sentido, um marco na defesa dos corpos e territ\u00f3rios \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o da 1\u00aa Marcha das Mulheres Ind\u00edgenas, em 2019, junto a 6\u00aa edi\u00e7\u00e3o da Marcha das Margaridas, em Bras\u00edlia.,&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Neste momento em que a mercantiliza\u00e7\u00e3o e financeiriza\u00e7\u00e3o das diferentes formas de vida t\u00eam sido levadas ao extremo, os ecofeminismos se apresentam como uma alternativa para a atualiza\u00e7\u00e3o dos feminismos (Rodriguez, 2013). No entanto, pode-se afirmar que o n\u00e3o-lugar dos animais objetificados e homogeneizados na produ\u00e7\u00e3o em confinamento de massa para o consumo de certos grupos humanos, ainda continua sendo, em grande medida, um tema de pouca relev\u00e2ncia dentro dos feminismos em geral e do modelo de sociedade estruturalmente especista. \u00c9 preciso entender a conex\u00e3o entre a explora\u00e7\u00e3o das mulheres, dos animais e da natureza, e analis\u00e1-la em profundidade. A explora\u00e7\u00e3o da capacidade reprodutiva das galinhas e vacas para a produ\u00e7\u00e3o de ovos e leite, o que inclui muitas vezes o uso da insemina\u00e7\u00e3o artificial para acelerar o processo de reprodu\u00e7\u00e3o no sistema das fazendas industriais do capitalismo, a destrui\u00e7\u00e3o ambiental decorrente da expans\u00e3o das \u00e1reas de pastagens para o gado, a contamina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua e a polui\u00e7\u00e3o dos solos com agrot\u00f3xicos para produzir gr\u00e3os que alimentam os animais confinados para consumo humano e a consequente redu\u00e7\u00e3o das \u00e1reas florestais, que viola o direito \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel, afetam desproporcionalmente as mulheres, majoritariamente respons\u00e1veis pela reprodu\u00e7\u00e3o social e pelas tarefas do cuidado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Contribui\u00e7\u00f5es originais dos ecofeminismos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;As te\u00f3ricas ecofeministas auxiliam a compreender o funcionamento dos sistemas de domina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o assentados em dualismos hier\u00e1rquicos de valor. Plumwood (1993, p. 42) conceitua os dualismos como \u201cformas alienadas de diferencia\u00e7\u00e3o\u201d constru\u00eddas e interpretadas com base no poder sistematizado e institucionalizado, que estabelece o que pertence a um reino inferior e estranho. Na concep\u00e7\u00e3o dualista de mundo, os pares de cada um dos lados se inter-relacionam: mulheres e natureza s\u00e3o aproximadas do lado inferior ao serem consideradas territ\u00f3rios de invas\u00e3o, subordinadas e sem poder, distanciando-se do lado superior do dualismo \u2013 do racionalismo, da cultura e dos homens. Com isso, tem-se que, apesar do sentido plural do termo ecofeminismo, a cr\u00edtica aos dualismos que estruturam o modelo de sociedade ocidental \u00e9 uma quest\u00e3o central.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem pretender esgotar aqui as diferentes contribui\u00e7\u00f5es dos ecofeminismos ativistas e acad\u00eamicos, algumas abordagens permitem entender como a subordina\u00e7\u00e3o, domina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o das mulheres, dos animais, da natureza e de outras minorias pol\u00edticas \u00e9 sustentada. Nesse sentido, destacam-se, por um lado, duas ferramentas te\u00f3ricas: 1) identidade mestre, de Val Plumwood; e 2) estrutura conceitual opressora, de Karen J. Warren. Por outro lado, a partir das ferramentas te\u00f3ricas apresentadas, as contribui\u00e7\u00f5es voltam-se para reconceber as rela\u00e7\u00f5es de forma n\u00e3o opressiva:&nbsp; 1) defesa da \u00e9tica do cuidado por parte de Marti Kheel e Alicia Puleo, por exemplo; e 2) ado\u00e7\u00e3o da perspectiva de subsist\u00eancia para a comunidade de vida na Terra, por Maria Mies e Vandana Shiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Plumwood (1993) aprofunda a an\u00e1lise sobre os dualismos hier\u00e1rquicos e os associa com a forma\u00e7\u00e3o da \u201cidentidade mestre\u201d, que se refere ao modo hegem\u00f4nico pelo qual a identidade masculina \u00e9 constru\u00edda sobretudo nas sociedades patriarcais. Mesmo com varia\u00e7\u00f5es regionais e temporais, bem como a influ\u00eancia de categorias como ra\u00e7a, etnia, sexualidade etc., espera-se que homens desenvolvam e exercitem certas caracter\u00edsticas: racionalidade, imparcialidade, agressividade, competitividade, autonomia e liberdade. Essas caracter\u00edsticas s\u00e3o constru\u00eddas em oposi\u00e7\u00e3o, de modo dualista e hier\u00e1rquico, a tra\u00e7os estabelecidos como femininos: falta de racionalidade ou prioriza\u00e7\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es, parcialidade, passividade, depend\u00eancia. Aqueles que n\u00e3o t\u00eam os mesmos atributos do mestre s\u00e3o tidos como \u201cdeficientes\u201d em rela\u00e7\u00e3o ao masculino dominante e, portanto, s\u00e3o posicionados abaixo do padr\u00e3o ou considerados o \u201coutro\u201d a ser controlado. O elemento central desse modelo de identidade \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de uma ideia de racionalidade enquanto privil\u00e9gio do \u201cmestre\u201d na sociedade ocidental, que tamb\u00e9m concebe a natureza como a materialidade subordinada e o feminino como separado e abaixo dele. N\u00e3o se trata, assim, meramente de uma identidade masculina, mas de um mestre e protagonista super-her\u00f3i assentado em m\u00faltiplas exclus\u00f5es e elimina\u00e7\u00f5es de quaisquer outras identidades, cujas aventuras de conquista e domina\u00e7\u00e3o formam a hist\u00f3ria intelectual ocidental. Os \u201cmestres\u201d encontram-se na elite branca, predominantemente masculina e formada no contexto de privil\u00e9gios de classe, ra\u00e7a, g\u00eanero e tamb\u00e9m esp\u00e9cie.<\/p>\n\n\n\n<p>Na mesma linha do conceito de \u201cidentidade mestre\u201d, Warren (2000) amplia a leitura de mundo ao caracterizar a \u201cestrutura conceitual opressora\u201d, que se apresenta como \u201cum conjunto de cren\u00e7as, valores, atitudes e suposi\u00e7\u00f5es que moldam e refletem como a pessoa v\u00ea a si e ao seu mundo\u201d (Warren, 2000, p. 46, tradu\u00e7\u00e3o nossa). Quando esse conjunto se associa a contextos opressores, a exemplo do patriarcado, passa a ser usado para justificar a subordina\u00e7\u00e3o de grupos. Sob uma estrutura conceitual patriarcal, ent\u00e3o, a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento e a organiza\u00e7\u00e3o do pensamento humano de car\u00e1ter euroc\u00eantrico se baseiam na constru\u00e7\u00e3o de hierarquias opressoras, as quais estabelecem quem s\u00e3o os de cima (e possuem mais valor) e os de baixo (que possuem menos valor). Ao inv\u00e9s de as diferen\u00e7as serem entendidas como complementares, s\u00e3o categorizadas como pares excludentes e opostos. Isso envolve tamb\u00e9m o estabelecimento de rela\u00e7\u00f5es nas quais o poder \u00e9 exercido sobre algu\u00e9m, de cima para baixo. Com isso, privil\u00e9gios de grupo s\u00e3o mantidos, criados e perpetuados. Por fim, toda essa estrutura de rela\u00e7\u00f5es hier\u00e1rquicas e excludentes, associada a um discurso que justifica a domina\u00e7\u00e3o, sanciona a \u201cl\u00f3gica da domina\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma vez que a l\u00f3gica da domina\u00e7\u00e3o passa a ser utilizada na regula\u00e7\u00e3o das inter-rela\u00e7\u00f5es, tem-se consequ\u00eancias como o tratamento destrutivo da natureza, o desrespeito \u00e0s demandas e formas de vida de minorias pol\u00edticas, prejudicando a pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o da identidade desses indiv\u00edduos, em nome da manuten\u00e7\u00e3o intencional de privil\u00e9gios de grupos dominantes. As estruturas conceituais que est\u00e3o na base dessa l\u00f3gica s\u00e3o usadas para justificar diversos sistemas de domina\u00e7\u00e3o a partir de diferentes categorias constru<s>\u00ed<\/s>das socialmente \u2013 racismo, sexismo, especismo, capacitismo, naturismo, cisheterossexismo<strong> <\/strong>\u2013 as quais est\u00e3o entrela\u00e7adas e se refor\u00e7am mutuamente (Warren, 2000).<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m do ferramental te\u00f3rico-anal\u00edtico que permite compreender a estrutura excludente e opressora que perdura tamb\u00e9m nas sociedades democr\u00e1ticas contempor\u00e2neas, apesar da igualdade formal estabelecida, e est\u00e1 na base de diferentes formas de injusti\u00e7a, as autoras ecofeministas prop\u00f5em reflex\u00f5es no campo da filosofia moral, destacando-se a expans\u00e3o da abordagem da \u00e9tica do cuidado para al\u00e9m da esp\u00e9cie humana. Kheel (2008, 2019) e Puleo (2019) desenvolvem a abordagem do cuidado a partir de cr\u00edticas \u00e0s limita\u00e7\u00f5es das perspectivas tradicionais de expans\u00e3o da comunidade moral com base no reconhecimento de direitos animais e ambientais. Na compreens\u00e3o de Kheel (2019), uma \u00e9tica do cuidado ecofeminista entende que a destrui\u00e7\u00e3o da natureza externa est\u00e1 conectada com a destrui\u00e7\u00e3o da natureza interna do ser humano. Por isso, \u201c[d]a mesma forma que ambientalistas est\u00e3o recuperando as paisagens devastadas, n\u00f3s precisamos regenerar nossas \u2018paisagens\u2019 internas, incluindo nossa capacidade de empatia pelos outros animais\u201d (Kheel, 2019, p. 41). Para construir uma ecologia do cuidado, \u00e9 necess\u00e1rio que o ser humano remova fatores mentais que o impossibilitam de fazer florescer a capacidade de empatia, que permite transformar as intera\u00e7\u00f5es com o mundo natural, \u201caproximando-nos de um mundo de paz e n\u00e3o viol\u00eancia para todos os seres vivos\u201d (Kheel, 2019, p. 41).<\/p>\n\n\n\n<p>Puleo (2019) entende que o cuidado atento \u00e9 um dos elementos que permite pensar um caminho alternativo \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o androantropoc\u00eantrica. Todavia, a valoriza\u00e7\u00e3o do cuidado e da empatia n\u00e3o pode se dar alheia a uma cr\u00edtica aos estere\u00f3tipos de g\u00eanero subjacentes \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o patriarcal, promotora do exterm\u00ednio e da competitividade do mercado. A valoriza\u00e7\u00e3o, o ensino e o compartilhamento de atitudes e condutas de cuidado como um ideal universaliz\u00e1vel precisam se dar concomitantemente \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade n\u00e3o mais ordenada por dualismos hier\u00e1rquicos de g\u00eanero. \u00c9 necess\u00e1ria uma reconcep\u00e7\u00e3o do ser humano que integre raz\u00e3o e emo\u00e7\u00e3o e a partir da qual o humano deixe de se perceber como o protagonista na hist\u00f3ria para se compreender como parte de uma imensa rede de vida na terra.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;Se Kheel e Puleo prop\u00f5em o cuidado nas inter-rela\u00e7\u00f5es entre todas as formas de vida como express\u00e3o do agir \u00e9tico, Shiva e Mies se preocupam em repensar o cen\u00e1rio da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica de explora\u00e7\u00e3o da natureza, das mulheres e das na\u00e7\u00f5es do Sul Global, levado adiante pela \u201cidentidade mestre\u201d. O capitalismo e suas falsas promessas de bem-estar ao alcance de todos, de desenvolvimento inclusivo e sustent\u00e1vel defendidas no Norte Global, est\u00e1 na raiz da destrui\u00e7\u00e3o ambiental e dos modos de vida de comunidades humanas mais integradas ao meio ambiente no Sul Global.<\/p>\n\n\n\n<p>Como contraproposta a esse modelo desenvolvimentista patriarcal e neoliberal, Shiva e Mies (1993, p. 15) reivindicam a necessidade de uma nova cosmologia que \u201creconhece que a vida na natureza (incluindo os seres humanos) mant\u00e9m-se por meio da coopera\u00e7\u00e3o, cuidado e amor m\u00fatuos\u201d. Nesse sentido, para respeitar a diversidade de todas as formas de vida, incluindo suas express\u00f5es culturais, uma economia de subsist\u00eancia deve ocupar o lugar. Os esfor\u00e7os humanos precisam se concentrar em promover um sentido de liberdade n\u00e3o apoiado no consumismo e ac\u00famulo material, mas numa \u201cvis\u00e3o da liberdade, da felicidade, a \u2018boa vida\u2019, dentro dos limites da necessidade, da natureza\u201d (Idem, p. 17). A perspectiva da subsist\u00eancia desenvolvida pelas autoras, inspirada nas lutas pela sobreviv\u00eancia de movimentos locais, permite ampliar a liberdade para todos, humanos e n\u00e3o humanos, e n\u00e3o apenas para aqueles que configuram o grupo da \u201cidentidade mestre\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Bibliografia citada&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Adams, C. J., Gruen, L. (2014). Groundwork. In Adams, C. J., Gruen, L. (Eds.), <em>Ecofeminism<\/em>: <em>feminist intersections with other animals and the Earth<\/em> (pp. 7-36). New York\/London: Bloomsbury.<\/p>\n\n\n\n<p>Gaard, G., Gruen L. (2005). Ecofeminism: toward global justice and planetary health. In Zimmerman, M. E. et al (Eds.), <em>Environmental philosophy<\/em>: <em>from animal rights to radical ecology<\/em> (pp. 155-177). 4th edn. Upper Saddle River: Pearson Prentice Hall.<\/p>\n\n\n\n<p>Kheel, M. (2019). A contribui\u00e7\u00e3o do ecofeminismo para a \u00e9tica animal. In Rosendo, D., Oliveira, F. A. G., Carvalho, P., Kuhnen, T. A. (Orgs.), <em>Ecofeminismos: fundamentos te\u00f3ricos e pr\u00e1xis interseccionais<\/em> (pp. 29-42). Rio de Janeiro: Ape\u2019Ku.<\/p>\n\n\n\n<p>________. (2008). <em>Nature Ethics<\/em>:<strong> <\/strong>an ecofeminist perspective. Lanham: Rowman &amp; Littlefield.<\/p>\n\n\n\n<p>King, Y. (1997). Curando as feridas: feminismo, ecologia e dualismo natureza\/cultura. In Jaggar, A. M., Bordo, S. R (Orgs.), <em>G\u00eanero, corpo, conhecimento<\/em> (pp. 126-154)<em>.<\/em> Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos.<\/p>\n\n\n\n<p>Kirjner, D. (2019). A inser\u00e7\u00e3o do ecofeminismo no contexto acad\u00eamico brasileiro. In<strong> <\/strong>Rosendo, D., Oliveira, F. A. G., Carvalho, P., Kuhnen, T. A. (Orgs.), <em>Ecofeminismos: fundamentos te\u00f3ricos e pr\u00e1xis interseccionais <\/em>(pp. 135-166). Rio de Janeiro: Ape\u2019Ku.<\/p>\n\n\n\n<p>Moore, N. (2016). Eco\/feminists Genealogies: renewing promises and new possibilities. In Phillips, M., Rumens, N. (Eds), <em>Contemporary perspectives on ecofeminism<\/em> (pp. 19-37). New York: Routledge.<\/p>\n\n\n\n<p>Phillips, M., Rumens, N. (2016). Introducing contemporary ecofeminism. In Phillips, M., Rumens, N. (Eds), <em>Contemporary perspectives on ecofeminism<\/em> (pp. 1-16). New York: Routledge.<\/p>\n\n\n\n<p>Plumwood, V. (1993). <em>Feminism and the mastery of nature<\/em>. Routledge: New York.<\/p>\n\n\n\n<p>Puleo, A. H. (2019). Ecofeminismo: una alternativa a la globalizaci\u00f3n androantropoc\u00e9ntrica. In Rosendo, D., Oliveira, F. A. G., Carvalho, P., Kuhnen, T. A. (Orgs.), <em>Ecofeminismos<\/em>: <em>fundamentos te\u00f3ricos e pr\u00e1xis interseccionais<\/em> (pp. 43-62). Rio de Janeiro: Ape\u2019Ku.<\/p>\n\n\n\n<p>Rodriguez, G. (2013). Ecofeminismo: superando a dicotomia natureza\/cultura. In: Rodriguez, G. (Coord.). <em>As mulheres na Rio+20: diversas vis\u00f5es contribuindo ao debate<\/em> (pp. 37-56). Rio de Janeiro: Instituto Eq\u00fcit.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosendo, D. (2019). <em>Quilt ecofeminista sens\u00edvel ao cuidado: uma concep\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a social, ambiental e interesp\u00e9cies<\/em>. (Tese de Doutorado), Centro de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina, Florian\u00f3polis. Recuperado de: https:\/\/repositorio.ufsc.br\/handle\/123456789\/214478. Acesso em: 15 jan. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosendo, D., Kuhnen, T. A. (2019). Ecofeminism. In: Leal Filho, W., Azul, A., Brandli, L., \u00d6zuyar, P., Wall, T. (Orgs<em>.<\/em>),<em> Encyclopedia of the UN sustainable development goals<\/em> (pp. 1-12). v. 1. Springer International Publishing, 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosendo, D., Zirbel, I. (2019). Domina\u00e7\u00e3o e sofrimento: um olhar ecofeminista animalista a partir da vulnerabilidade. In Rosendo, D., Oliveira, F. A. G., Carvalho, P., Kuhnen, T. A. (Orgs.), <em>Ecofeminismos<\/em>: <em>fundamentos te\u00f3ricos e pr\u00e1xis interseccionais<\/em> (pp. 111-132). Rio de Janeiro: Ape\u2019Ku.<\/p>\n\n\n\n<p>Shiva, V., Mies, M. (1993). <em>Ecofeminismo<\/em>. Lisboa: Piaget.<\/p>\n\n\n\n<p>Tong, R. (2014). <em>Feminist thought<\/em>: <em>a more comprehensive introduction<\/em>. 4th edn. Boulder: Westview Press.<\/p>\n\n\n\n<p>Warren, K. J. (2000). <em>Ecofeminist Philosophy<\/em>: <em>a Western Perspective on what it is and why it matters<\/em>. Maryland: Rowman &amp; Littlefield Publishers.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>________. (1998). The power and the promise of ecological feminism. In: Zimmermann, M. et al (Eds.) <em>Environmental Philosophy<\/em>: <em>from animal rights to radical ecology<\/em> (pp. 325-344). Upper Saddle River: Prentice Hall.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>________. (Ed.) (2003). <em>Filosof\u00edas ecofeministas<\/em>. Trad. Soledad Iriarte. Barcelona: Icaria.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Literatura secund\u00e1ria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Adams, C. J. (2018). <em>A pol\u00edtica sexual da carne: uma teoria feminista-vegetariana<\/em>. 2 ed. Trad. Critina Cupertino. S\u00e3o Paulo, Ala\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>D&#8217;Eaubonne, F. (1974). <em>Le F\u00e9minisme ou la Mort<\/em>. Collection Femmes en mouvement. Paris: Pierre Horay.<\/p>\n\n\n\n<p>Kheel, M. (2008). <em>Nature ethics: an ecofeminist perspective<\/em>. Rowman &amp; Littlefield Publishers.<\/p>\n\n\n\n<p>Puleo, A. (2011). <em>Ecofeminismo para otro mundo posible<\/em>. Madrid: C\u00e1tedra.<\/p>\n\n\n\n<p>Shiva, V., Mies, M. (1993). <em>Ecofeminismo<\/em>. Trad. Fernando Dias Antunes. Lisboa: Piaget.<\/p>\n\n\n\n<p>Warren, K. J. (2000). <em>Ecofeminist Philosophy<\/em>: <em>a Western Perspective on what it is and why it matters<\/em>. Maryland: Rowman &amp; Littlefield Publishers.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Literatura secund\u00e1ria com aten\u00e7\u00e3o especial a estudos realizados no Brasil<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Adams, C. J., Gruen, L. (Eds.), <em>Ecofeminism: feminist intersections with other animals and the Earth<\/em>. New York\/London: Bloomsbury.<\/p>\n\n\n\n<p>Arantes, R., Guedes, V. (Orgs). (2010). <em>Mulheres, trabalho e justi\u00e7a socioambiental<\/em>. Recife: SOS Corpo \u2013 Instituto Feminista para a Democracia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Di Ciommo, R. C. (1999). <em>Ecofeminismo e educa\u00e7\u00e3o ambiental<\/em>. S\u00e3o Paulo: Cone Sul.<\/p>\n\n\n\n<p>Donovan, J., Adams, C. (1996). <em>Beyond animal rights: a feminist caring ethic for the treatment of animals<\/em>. New York: Continuum.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Costa, M. da G. (2019). Conhecimento e luta pol\u00edtica das mulheres no movimento agroecol\u00f3gico: di\u00e1logos ecofeministas e descoloniais. In Rosendo, D., Oliveira, F. A. G., Carvalho, P., Kuhnen, T. A. (Orgs.), <em>Ecofeminismos<\/em>: <em>fundamentos te\u00f3ricos e pr\u00e1xis interseccionais <\/em>(pp. 205-222). Rio de Janeiro: Ape\u2019Ku.<\/p>\n\n\n\n<p>Felipe, S. T. (2012). <em>Galactolatria<\/em>: <em>mau deleite: implica\u00e7\u00f5es \u00e9ticas, ambientais e nutricionais do consumo de leite bovino<\/em>. S\u00e3o Jos\u00e9: Eco\u00e2nima.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Felipe, S. T.&nbsp; (2014a). A perspectiva ecoanimalista feminista antiespecista. In: Stevens, C., Oliveira, S. R. de., Zanello, V. (Orgs.) <em>Revista estudos feministas e de g\u00eanero: articula\u00e7\u00f5es e perspectivas <\/em>(pp. 52-73). Florian\u00f3polis, Ed. Mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>Felipe, S. T. (2014b).&nbsp; O cuidado na \u00e9tica ecoanimalista feminista. In: Borges, M. de L., Tiburi, M. (Orgs.), <em>Filosofia<\/em>: <em>machismos e feminismos<\/em> (pp. 275-298). Florian\u00f3polis: Ed. da UFSC.<\/p>\n\n\n\n<p>Gabriel, A. (2011). Ecofeminismo e ecologias queer: uma apresenta\u00e7\u00e3o. <em>Revista Estudos Feministas<\/em>, 19(1), se\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica, pp. 167-173.<\/p>\n\n\n\n<p>Garcia, L. (2012). <em>Meio Ambiente &amp; G\u00eanero<\/em>. S\u00e3o Paulo: SENAC.<\/p>\n\n\n\n<p>Gebara, I. (1997). <em>Teologia ecofeminista<\/em>: <em>ensaio para repensar o conhecimento e a religi\u00e3o<\/em>. Olho dagua.<\/p>\n\n\n\n<p>Kuhnen, T. A. (2020). Marcha das Margaridas: apontamentos para um (eco)feminismo latino-americano. <em>Revista Sul Sul<\/em>, 1(1), pp. 124-147.<\/p>\n\n\n\n<p>Kuhnen, T. A., Rosendo, D. (2018). Domination and power relations in Brazilian agriculture: a gender analysis of the concept of adequate food. <em>Ethica,<\/em> 17(2), pp. 259-289.<\/p>\n\n\n\n<p>Lemgruber, V. (2020). <em>Guia ecofeminista: mulheres, direito, ecologia<\/em>. Rio de Janeiro: Ape&#8217;ku.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Lessa, P., Galindo, D. (Orgs.). (2017). <em>Rela\u00e7\u00f5es multiesp\u00e9cies em rede<\/em>: <em>feminismos, animalismos e veganismo.<\/em> Maringa: Eduem.<\/p>\n\n\n\n<p>Lessa, P., Stubs, R., Bellini, M. (Orgs.) (2019). <em>Rela\u00e7\u00f5es interseccionais em rede: feminismos, animalismos e veganismos<\/em>. Salvador: Devires.<\/p>\n\n\n\n<p>Paulilo, M. I. (2016). <em>Mulheres rurais<\/em>: <em>quatro d\u00e9cadas de di\u00e1logo<\/em>. Florian\u00f3polis: Ed. da UFSC.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosendo, D. (2015). <em>Sens\u00edvel ao cuidado:<\/em> <em>uma perspectiva \u00e9tica ecofeminista<\/em>. Curitiba: Prismas.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosendo, D., Kuhnen, T. A. (2019). Direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o: direito, consumo, pol\u00edtica e \u00e9tica no Brasil. <em>Revista Novos Estudos Jur\u00eddicos<\/em>, 24(2), 2019, pp. 562-588.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Rosendo, D., Kuhnen, T. A., Oliveira, F. A. G. (2020). &#8216;Locus fraturado&#8217;: Resist\u00eancias no Sul Global e pr\u00e1xis antiespecistas ecofeministas descoloniais. In Dias, M. C., Gon\u00e7alves, L., Gonzaga, P., Soares, S. (Orgs.), <em>Feminismos decoloniais: homenagem a Mar\u00eda Lugones<\/em> (pp. 123-152). Rio de Janeiro: Ape&#8217;ku.<\/p>\n\n\n\n<p>Siliprandi, E. (2015). <em>Mulheres e agroecologia: transformando o campo, as florestas e as pessoas<\/em>. Rio de Janeiro: Editora UFRJ.<\/p>\n\n\n\n<p>Shiva, V. (2003). <em>Monoculturas da mente<\/em>: <em>perspectivas da biodiversidade e da biotecnologia.<\/em> S\u00e3o Paulo: Gaia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Outros materiais:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>ANPOF 8M &#8211; <\/strong>Dra. T\u00e2nia Kuhnen (UFOB) fala sobre ecofeminismo. <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Qf0i2QD7Q64&amp;t=1s\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Qf0i2QD7Q64&amp;t=1s<\/a>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As sementes. <\/strong><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=CCZcOCcm-9Q\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=CCZcOCcm-9Q<\/a>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ecofeminismo e epistemologia com Emma Siliprandi (aula 1)<\/strong>. https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=wHz6ds7E-0M<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ecofeminismo e epistemologia com Emma Siliprandi (aula 2)<\/strong>. https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=g8dFYBVcmII<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Vandana Shiva por Daniela Rosendo. <\/strong><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=S00pJ4De9OM&amp;list=PLgMELou_Khj4KA7RPW6d7p97t2gvBfVhF&amp;index=5\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=S00pJ4De9OM&amp;list=PLgMELou_Khj4KA7RPW6d7p97t2gvBfVhF&amp;index=5<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>MARCHA DAS MARGARIDAS. <strong><em>Margaridas seguem em Marcha por Desenvolvimento Sustent\u00e1vel com Democracia, Justi\u00e7a, Autonomia, Igualdade e Liberdade<\/em><\/strong>: Caderno de textos para estudos e debates. Bras\u00edlia: CONTAG, 2015.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Conversando sobre Ecofeminismos: Entrevista com Ivone Gebara. <\/strong><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=PG5NXw-fSBc&amp;t=1562s\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=PG5NXw-fSBc&amp;t=1562s<\/a><\/p>\n<\/div>\n<\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":360,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"class_list":["post-933","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/933","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/360"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=933"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/933\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1298,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/933\/revisions\/1298"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=933"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}