{"id":960,"date":"2021-06-09T14:35:17","date_gmt":"2021-06-09T17:35:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/?page_id=960"},"modified":"2021-06-09T14:48:49","modified_gmt":"2021-06-09T17:48:49","slug":"resenha-de-nas-ruinas-do-neoliberalismo-a-ascensao-da-politica-antidemocratica-no-ocidente-de-wendy-brown","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/resenhas\/resenha-de-nas-ruinas-do-neoliberalismo-a-ascensao-da-politica-antidemocratica-no-ocidente-de-wendy-brown\/","title":{"rendered":"Resenha de <i>Nas ru\u00ednas do neoliberalismo: a ascens\u00e3o da pol\u00edtica antidemocr\u00e1tica no ocidente<\/i>, de Wendy Brown"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns has-1-columns has-desktop-equal-layout has-tablet-equal-layout has-mobile-equal-layout has-default-gap has-vertical-unset\" id=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns-9f98bff4\"><div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns-overlay\"><\/div><div class=\"innerblocks-wrap\">\n<div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-column\" id=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-column-425c5867\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"882\" height=\"1182\" class=\"wp-image-961\" style=\"width: 250px\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/06\/WhatsApp-Image-2021-06-08-at-18.31.20.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/06\/WhatsApp-Image-2021-06-08-at-18.31.20.jpeg 882w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/06\/WhatsApp-Image-2021-06-08-at-18.31.20-224x300.jpeg 224w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/06\/WhatsApp-Image-2021-06-08-at-18.31.20-764x1024.jpeg 764w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/06\/WhatsApp-Image-2021-06-08-at-18.31.20-768x1029.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 882px) 100vw, 882px\" \/><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/06\/PDF-Nas-Rui\u0301nas-do-Neoliberalismo_Verbicaro-e-Pontes.pdf\">PDF &#8211; Nas Ru\u00ednas do Neoliberalismo<img decoding=\"async\" class=\"wp-image-963\" style=\"width: NaNpx\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/06\/PDF-Nas-Rui\u0301nas-do-Neoliberalismo_Verbicaro-e-Pontes.pdf\" alt=\"\"><\/a><\/p>\n<\/div>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">por <strong>Loiane Prado Verbicaro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Professora da Faculdade de Filosofia e do Programa de Mestrado em Filosofia da Universidade Federal do Par\u00e1 (UFPA). Coordenadora do Grupo de Pesquisa (CNPq): Filosofia Pr\u00e1tica: Investiga\u00e7\u00f5es em Pol\u00edtica, \u00c9tica e Direito \u2013 FilPED &#8211;<a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/4100200759767576\"> Lattes<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">por <strong>Juliana Fonseca Pontes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Graduada em Direito pelo Centro Universit\u00e1rio do Par\u00e1. Integrante do Grupo de Pesquisa (CNPq): Filosofia Pr\u00e1tica: Investiga\u00e7\u00f5es em Pol\u00edtica, \u00c9tica e Direito \u2013 FilPED &#8211; <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/2941229677884603\">Lattes<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BROWN, Wendy. <strong>Nas ru\u00ednas do neoliberalismo: a ascens\u00e3o da pol\u00edtica antidemocr\u00e1tica no ocidente. <\/strong>S\u00e3o Paulo: Editora Filos\u00f3fica Polit\u00e9ia, 2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Wendy Brown \u00e9 fil\u00f3sofa, com forma\u00e7\u00e3o em ci\u00eancia pol\u00edtica e economia. Seu pensamento \u00e9 influenciado pela teoria cr\u00edtica da Escola de Frankfurt e por Michel Foucault. \u00c9 professora de Ci\u00eancia Pol\u00edtica na Universidade da Calif\u00f3rnia em Berkeley e refer\u00eancia nas discuss\u00f5es sobre neoliberalismo econ\u00f4mico e crise democr\u00e1tica a partir da ascens\u00e3o de governos de extrema-direita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O livro publicado em 2019 \u201c<em>In the ruins of neoliberalism: the rise of antidemocratic politics in the West<\/em>\u201d, pela Columbia University Press, traduzido para o portugu\u00eas no mesmo ano de publica\u00e7\u00e3o com o t\u00edtulo \u201c<em>Nas ru\u00ednas do neoliberalismo: a ascens\u00e3o da pol\u00edtica antidemocr\u00e1tica no ocidente<\/em>\u201d, publicado pela editora Polit\u00e9ia, trata da ascens\u00e3o das for\u00e7as de extrema direita, do rep\u00fadio ao social e de alguns dispositivos do neoliberalismo: privatiza\u00e7\u00e3o do Estado, desmonte da solidariedade social, financeiriza\u00e7\u00e3o e corros\u00e3o da democracia, bem como da emerg\u00eancia, no interior das democracias liberais capitalistas, de valores que s\u00e3o aparentemente os seus opostos: nacionalismo, conservadorismo crist\u00e3o, racismo e masculinismo branco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No livro, a autora preocupa-se mais em realizar um diagn\u00f3stico e uma leitura de contexto da rela\u00e7\u00e3o entre neoliberalismo e democracia do que propor uma nova normatividade democr\u00e1tica. &nbsp;No primeiro cap\u00edtulo, Brown apresenta sua compreens\u00e3o a respeito do que est\u00e1 ocorrendo com o imagin\u00e1rio pol\u00edtico-social no paradigma neoliberal e explica como este \u00e9 respons\u00e1vel pelo desmantelamento da sociedade e pela sua transforma\u00e7\u00e3o em agrupamentos de indiv\u00edduos atomizados incapazes de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica consciente. No segundo cap\u00edtulo, a autora analisa como o neoliberalismo nega a pol\u00edtica a partir de tr\u00eas diferentes cartilhas: a de Milton Friedman, a de Friedrich Hayek e a dos ordoliberais. &nbsp;O terceiro cap\u00edtulo se debru\u00e7a sobre a rela\u00e7\u00e3o insidiosa entre o tradicionalismo moral e a liberdade econ\u00f4mica no neoliberalismo. O quarto cap\u00edtulo trata dos impasses existentes entre liberdade religiosa e liberdade de express\u00e3o no paradigma neoliberal e o papel do Judici\u00e1rio na media\u00e7\u00e3o desses conflitos. Por fim, o quinto cap\u00edtulo, diagnostica o quadro sintom\u00e1tico da sociedade contempor\u00e2nea a partir das categorias do niilismo, do fatalismo e do ressentimento, que irrompem com viol\u00eancia nas camadas historicamente privilegiadas que foram destronadas pela l\u00f3gica econ\u00f4mica predat\u00f3ria neoliberal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No livro, Wendy Brown pontua que a nova direita tem se apresentado de maneira agressiva e delet\u00e9ria contra a ci\u00eancia, a raz\u00e3o, a laicidade e as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas. Nesse contexto, a preocupa\u00e7\u00e3o de Brown \u00e9 compreender como a racionalidade neoliberal preparou terreno para mobilizar e legitimar for\u00e7as antidemocr\u00e1ticas na segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O argumento n\u00e3o \u00e9 que o neoliberalismo por si s\u00f3 tenha causado a insurg\u00eancia da extrema direita e todas as consequ\u00eancias advindas com ela. O argumento \u00e9 que nada fica intocado pela forma neoliberal e que as formula\u00e7\u00f5es neoliberais da liberdade inspiram a extrema direita que mobiliza um discurso de liberdade capaz de justificar exclus\u00f5es e viola\u00e7\u00f5es que visam reassegurar a hegemonia branca, masculina e crist\u00e3, al\u00e9m de expandir o poder do capital. Essa formula\u00e7\u00e3o da liberdade demoniza o social, rotula a esquerda como tir\u00e2nica em sua preocupa\u00e7\u00e3o com a justi\u00e7a social e, ao mesmo tempo, coloca-a como a respons\u00e1vel pelo esgar\u00e7amento do tecido moral e por premiar quem n\u00e3o merece.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em v\u00e1rias democracias no mundo, segundo an\u00e1lise de Wendy Brown, for\u00e7as de extrema direita t\u00eam assumido o poder: Hungria, Pol\u00f4nia, Estados Unidos, R\u00fassia, \u00cdndia e Israel, neonazistas no parlamento alem\u00e3o, neofascistas no italiano, o <em>Brexit<\/em> conduzido pela xenofobia, ascens\u00e3o do nacionalismo branco na Escandin\u00e1via, regimes autorit\u00e1rios tomando forma na Turquia e no Leste Europeu. Assiste-se \u00e0 eclos\u00e3o de uma onda conservadora depois de anos \u00e0 espreita, com uma curiosa combina\u00e7\u00e3o de libertarianismo, moralismo, autoritarismo, \u00f3dio ao Estado, conservadorismo crist\u00e3o (fundamentalismo religioso), sentimentos nativistas, racistas, homof\u00f3bicos, sexistas, antissemitas, islamof\u00f3bicos, bem como sentimentos antisseculares. Estas for\u00e7as conjugam elementos do neoliberalismo com seus aparentes opostos: de um lado, h\u00e1 o favorecimento do capital, repress\u00e3o ao trabalho, demoniza\u00e7\u00e3o do Estado Social e da esfera pol\u00edtica, esvaziamento do debate pol\u00edtico com <em>slogans<\/em> e palavras de ordem, ataque \u00e0s igualdades e exalta\u00e7\u00e3o da liberdade; de outro, nota-se uma imposi\u00e7\u00e3o da moralidade tradicional com o controle das formas de vida e demandas por solu\u00e7\u00f5es estatais para problemas econ\u00f4micos.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo Brown, esse cen\u00e1rio nos leva a uma dificuldade at\u00e9 mesmo de conceitua\u00e7\u00e3o desse fen\u00f4meno: trata-se de autoritarismo, fascismo, populismo, democracia n\u00e3o liberal, liberalismo antidemocr\u00e1tico ou plutocracia de extrema direita?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De acordo com a autora, uma narrativa comum da esquerda acena \u00e0 ideia segundo a qual, no Norte global, a pol\u00edtica econ\u00f4mica neoliberal devastou \u00e1reas rurais e suburbanas, esvaziando-as de empregos decentes, aposentadorias, escolas, servi\u00e7os e infraestrutura enquanto os gastos sociais minguavam e o capital ia \u00e0 ca\u00e7a de m\u00e3o de obra barata e de para\u00edsos fiscais no Sul global. Ao mesmo tempo, abria-se uma clivagem cultural e religiosa sem precedentes. Citadinos criaram um universo moral e cultural diferente daquele dos interioranos, intensificando um distanciamento entre eles. Al\u00e9m de empobrecidos e frustrados, os cidad\u00e3os brancos (crist\u00e3os), rurais ou suburbanos, eram deixados de lado e para tr\u00e1s, alienados e humilhados. Assim, passaram a cultivar um sentimento de abandono e trai\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Plutocratas e conservadores manipularam essa narrativa com uma sinfonia pol\u00edtica de valores familiares crist\u00e3os. Um novo populismo de extrema direita foi alimentado por um sentimento de rejei\u00e7\u00e3o aos imigrantes e minorias. Era a imagem de um passado m\u00edtico de fam\u00edlias felizes, \u00edntegras e heterossexuais, quando mulheres e minorias raciais \u201csabiam seus lugares\u201d, quando as vizinhan\u00e7as eram ordeiras, seguras e homog\u00eaneas e quando a cristandade e a branquitude hegem\u00f4nicas constitu\u00edam a identidade, o poder e o orgulho manifestos da na\u00e7\u00e3o e do Ocidente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Contr\u00e1rio \u00e0 invas\u00e3o de outros povos, ideias, culturas e religi\u00f5es, esse era o mundo de conto de fadas que os l\u00edderes populistas de direita prometeram restaurar. Os <em>slogans<\/em> das campanhas pol\u00edticas retratam esse saudosismo baseado em um passado m\u00edtico. Nos Estados Unidos, Donald Trump apresentou o <em>slogan<\/em> de campanha \u201cFa\u00e7a a Am\u00e9rica Grande de novo\u201d; na Fran\u00e7a, Le Pen defendeu a \u201cFran\u00e7a para os franceses\u201d; o <em>Brexit<\/em> usou o slogan \u201cRecupere o controle\u201d; o Partido Polon\u00eas da Lei e da Justi\u00e7a defendeu \u201cPol\u00f4nia Pura, Pol\u00f4nia branca\u201d; Democratas Suecos usaram o \u201cMantenha a Su\u00e9cia sueca\u201d; o Partido Alternativa para a Alemanha defendeu \u201cNossa cultura, nosso lar, nossa Alemanha\u201d. Esses slogans e o ressentimento que expressam conectaram grupos de franjas racistas outrora dispersos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">V\u00e1rias s\u00e3o as justificativas&nbsp; oferecidas pra tentar explicar a irrup\u00e7\u00e3o desse fen\u00f4meno. Dentre as de esquerda, em termos gerais, \u00e9 ponto incontroverso que a intensifica\u00e7\u00e3o da desigualdade neoliberal no Norte global foi um barril de p\u00f3lvora sobre o qual a imigra\u00e7\u00e3o em massa do Sul para o Norte lan\u00e7ou um \u201cf\u00f3sforo aceso\u201d. No entanto, Brown sugere que outros fatores tamb\u00e9m devem ser analisados: a demoniza\u00e7\u00e3o do social por parte da governamentalidade neoliberal, que gerou a desintegra\u00e7\u00e3o da sociedade e o descr\u00e9dito do bem p\u00fablico; a elimina\u00e7\u00e3o do pol\u00edtico do reino da justi\u00e7a, que provocou a ascens\u00e3o de uma cultura \u201cantipol\u00edtica\u201d no Ocidente, e a valoriza\u00e7\u00e3o da moralidade tradicional e dos mercados com seus substitutos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo Brown, h\u00e1 uma arquitetura que liga moralidade tradicional e neoliberalismo e que anima as campanhas da direita. Essas campanhas classificam como assalto \u00e0 liberdade toda pol\u00edtica social que desafia a reprodu\u00e7\u00e3o social das hierarquias de g\u00eanero e ra\u00e7a ou as pol\u00edticas que promovem corre\u00e7\u00f5es das diferen\u00e7as entre classes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Brown analisa a associa\u00e7\u00e3o que um dos grandes te\u00f3ricos do neoliberalismo, Friedrich Hayek (Escola Austr\u00edaca), realiza entre mercado e moral. Segundo ele, o mercado e a moral, juntos, s\u00e3o o fundamento da liberdade, da ordem e do desenvolvimento de uma civiliza\u00e7\u00e3o pr\u00f3spera. Ambos est\u00e3o enraizados em uma ontologia comum. Nesse sentido, o neoliberalismo hayekiano \u00e9 um projeto pol\u00edtico-moral que visa proteger as hierarquias tradicionais negando a ideia do social \u2013 ou seja, a ideia de uma comunh\u00e3o de vida greg\u00e1ria pelos integrantes de uma sociedade \u2013 e restringindo o alcance do poder pol\u00edtico democr\u00e1tico. Para Hayek, a liberdade \u00e9 parte da tradi\u00e7\u00e3o moral. Uma sociedade livre e exitosa ser\u00e1 sempre uma sociedade vinculada \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o. A tradi\u00e7\u00e3o assegurada pela religi\u00e3o assume o manto da incontestabilidade e da verdade simb\u00f3lica e, ao mesmo tempo, serve como um limite ao pol\u00edtico, compreendido como exist\u00eancia em comum pensada coletivamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, Brown recorda sempre que somente o pol\u00edtico resguarda a possibilidade da democracia entendida como governo do povo e para o povo, opondo-se a um mundo sem alternativas. A democracia sem o pol\u00edtico \u00e9 um ox\u00edmoro. A partilha de poder que a democracia implica \u00e9 um projeto eminentemente pol\u00edtico que requer cultivo, renova\u00e7\u00e3o e apoio institucional. O neoliberalismo busca desdemocratizar o pol\u00edtico (visto que o pol\u00edtico pode representar uma amea\u00e7a \u00e0 liberdade e ao mercado), substituindo o lugar da delibera\u00e7\u00e3o, contesta\u00e7\u00e3o e partilha democr\u00e1tica do poder por gest\u00e3o, lei e tecnocracia. Neoliberais representam uma oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia robusta que, segundo eles, identifica-se com o totalitarismo, o fascismo e o governo da plebe. &nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa perspectiva apol\u00edtica prepara terreno para o desmantelamento da democracia com a demoniza\u00e7\u00e3o dos esquemas de justi\u00e7a social em nome da liberdade, dos mercados e dos valores morais. Trata-se de uma substitui\u00e7\u00e3o da sociedade e da democracia pelo mercado e pela moralidade. E nesse contexto est\u00e3o em jogo elementos como normas heteropatriarcais e formas familiares; normas e enclaves raciais; acumula\u00e7\u00e3o, reten\u00e7\u00e3o e transmiss\u00e3o de riqueza \u2013 em suma, tudo aquilo que reproduz e legitima poderes e ordena\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas de classe, parentesco, ra\u00e7a e g\u00eanero. Essa simetria ontol\u00f3gica entre c\u00f3digos morais e regras de mercado deslegitima o conceito de provis\u00f5es de bem-estar-social e o projeto de desdemocratiza\u00e7\u00e3o dos poderes sociais de classe, ra\u00e7a, g\u00eanero e sexualidade. \u00c0 medida que a vida \u00e9 mercantilizada de um lado e familiarizada de outro pela racionalidade neoliberal, esses processos contestam os princ\u00edpios de igualdade, secularismo, pluralismo, diversidade e inclus\u00e3o, junto com a determina\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica de um bem comum.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Brown pontua que o ataque neoliberal \u00e0 sociedade e \u00e0 justi\u00e7a social em nome da liberdade de mercado e do tradicionalismo moral \u00e9 uma emana\u00e7\u00e3o direta da racionalidade neoliberal. Somando-se a isso, as for\u00e7as conservadoras fazem um apelo direto \u00e0 moralidade tradicional e ao livre mercado, em defesa dos valores do patriotismo, nativismo e cristandade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo a an\u00e1lise de Brown, a privatiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica neoliberal subverte profundamente a democracia, gera e legitima a desigualdade, a exclus\u00e3o, a apropria\u00e7\u00e3o privada dos comuns, a plutocracia e um imagin\u00e1rio democr\u00e1tico profundamente esmaecido. Dentre os neoliberais fundadores, somente Milton Friedman (Escola de Chicago) promove a causa da economia neoliberal por meio da \u201cdemocracia\u201d, formal e vagamente definida como liberdade pol\u00edtica ou liberdade individual. Segundo ele, h\u00e1 uma co-depend\u00eancia entre liberdade econ\u00f4mica e liberdade pol\u00edtica e a verdadeira liberdade pol\u00edtica nasceu apenas com o capitalismo. No entanto, Friedman articula o ideal compartilhado com outros neoliberais de separar o poder econ\u00f4mico e o pol\u00edtico, mesmo quando afirma a import\u00e2ncia do Estado em viabilizar as condi\u00e7\u00f5es para os mercados. Com essa perspectiva, Friedman, assim como Hayek, elimina completamente o valor do poder pol\u00edtico democratizado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De acordo com Brown, Hayek distingue liberalismo de democracia, apontado suas tens\u00f5es e contradi\u00e7\u00f5es. O liberalismo preocupa-se em limitar os poderes coercitivos de todo governo; enquanto a democracia (majoritarismo) limita o governo apenas de acordo com a opini\u00e3o da maioria do povo. A democracia e o liberalismo t\u00eam opostos radicalmente diferentes. O oposto da democracia \u00e9 o autoritarismo, poder pol\u00edtico concentrado, mas n\u00e3o necessariamente ilimitado. O oposto do liberalismo \u00e9 o totalitarismo, controle total de todos os aspectos da vida. Nesse sentido, o autoritarismo pode ser liberal (liberalismo autorit\u00e1rio) e o totalitarismo pode ser democr\u00e1tico (democracia totalit\u00e1ria). S\u00e3o, portanto, possibilidades l\u00f3gicas e at\u00e9 mesmo hist\u00f3ricas e, nesse sentido, Hayek aceita a legitimidade do autoritarismo para a transi\u00e7\u00e3o ao liberalismo, a exemplo do modelo implementado no Chile com Pinochet. Os neoliberais aproveitaram-se do hist\u00f3rico de autoritarismo da Am\u00e9rica Latina para implementar autoritariamente suas medidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seguindo sua an\u00e1lise, pontua que Hayek critica o conto de fadas de que a soberania popular significa que \u201cas pessoas est\u00e3o agindo juntas e que isso \u00e9 moralmente prefer\u00edvel \u00e0s a\u00e7\u00f5es separadas dos indiv\u00edduos.\u201d Segundo Hayek, essa fic\u00e7\u00e3o serve apenas para ungir o absolutismo com uma legitimidade democr\u00e1tica. Para a sua teoria, a soberania popular amea\u00e7a a liberdade individual. A soberania, por natureza ilimitada, \u00e9 categoricamente incompat\u00edvel com um governo limitado. O destronamento da pol\u00edtica torna-se necess\u00e1rio para uma ordem econ\u00f4mica e moral florescente. Hayek rejeita a formula\u00e7\u00e3o de Arist\u00f3teles segundo a qual \u00e9 a pol\u00edtica que torna os seres humanos livres, bem como a concep\u00e7\u00e3o de Rousseau sobre obter liberdade moral e pol\u00edtica por meio do contrato social. Para o austr\u00edaco, a democracia, conduzida pelo governo da maioria, trata interesses privados como se p\u00fablicos fossem.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo Brown, o entusiasmo neoliberal pelo mercado \u00e9 tipicamente animado por sua promessa de inova\u00e7\u00e3o, liberdade, novidade e riqueza, enquanto uma pol\u00edtica centrada na fam\u00edlia, religi\u00e3o e patriotismo \u00e9 autorizada pela tradi\u00e7\u00e3o, autoridade e modera\u00e7\u00e3o. O mercado inova e perturba. A tradi\u00e7\u00e3o assegura e sustenta. As sociedades mercadol\u00f3gicas baseadas no consumo s\u00e3o vazias de significado moral, se n\u00e3o francamente niilistas. Um programa pol\u00edtico-moral explicitamente conservador torna-se necess\u00e1rio para compensar o vazio niilista. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neoliberalismo e neoconservadorismo s\u00e3o duas racionalidades pol\u00edticas distintas, embora com caracter\u00edsticas formais sobrepostas, com efeitos convergentes na gera\u00e7\u00e3o de uma cidadania antidemocr\u00e1tica. As duas racionalidades se misturam para produzir for\u00e7as obscuras de desdemocratiza\u00e7\u00e3o. Embora os neoconservadores promovam os valores familiares por raz\u00f5es morais e os neoliberais por raz\u00f5es econ\u00f4micas, suas agendas juntam-se em pol\u00edticas por meio das quais as obriga\u00e7\u00f5es naturais e o altru\u00edsmo das fam\u00edlias substituem o Estado de bem-estar, a partir de um contrato de seguro m\u00fatuo e um contrapeso necess\u00e1rio \u00e0s liberdades de mercado. Para os neoliberais, a fam\u00edlia n\u00e3o \u00e9 apenas uma rede de prote\u00e7\u00e3o, mas um reservat\u00f3rio de disciplina e uma estrutura de autoridade, que representam um entrave aos excessos democr\u00e1ticos e ao colapso da autoridade que acreditam ser incitados pelas provis\u00f5es do estado Social e sua estrutura de bem estar e ensino superior p\u00fablico. &nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De acordo com a an\u00e1lise de Brown, a ordena\u00e7\u00e3o branca e masculina \u00e9 facilmente inserida no projeto neoliberal de valoriza\u00e7\u00e3o do mercado e da moral. Os mercados desregulamentados tendem a reproduzir, em vez de amenizar, as marginaliza\u00e7\u00f5es, estigmatiza\u00e7\u00f5es, estratifica\u00e7\u00f5es e os poderes sociais produzidos historicamente. Divis\u00f5es raciais e sexuais do trabalho est\u00e3o embutidas neles: o trabalho dom\u00e9stico, por exemplo, em que predomina um g\u00eanero, n\u00e3o \u00e9 remunerado, e sua vers\u00e3o de mercado sub-remunerada (atividades reprodutivas e relacionadas \u00e0 economia do cuidado) \u00e9 executada predominantemente por n\u00e3o brancos, mulheres e imigrantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A moralidade tradicional comumente repele o combate \u00e0s desigualdades, dificultando a garantia da liberdade reprodutiva das mulheres ou o desmantelamento da iconografia p\u00fablica que celebra um passado escravocrata. Essa moralidade compatibiliza-se com a utopia neoliberal de uma ordem desigualit\u00e1ria em que fam\u00edlias e indiv\u00edduos s\u00e3o pacificados politicamente pelo mercado e pela moral.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O neoliberalismo associa-se a um conjunto de pol\u00edticas que privatizam os servi\u00e7os p\u00fablicos, produzem ajustes estruturais, desregulamentam o capital, reduzem radicalmente o Estado social, amorda\u00e7am o trabalho, desregulam o capital e produzem um clima de impostos e tarifas amig\u00e1veis para investidores estrangeiros (tributa\u00e7\u00e3o regressiva). Esse modelo foi adotado em pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul, Am\u00e9rica do Norte e da Europa. O colapso do bloco sovi\u00e9tico no final dos anos 80 significou que boa parte da Europa Oriental realizou uma transi\u00e7\u00e3o do comunismo de Estado para o capitalismo neoliberal em menos de meia d\u00e9cada.&nbsp; &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Brown refere-se ao pensamento do fil\u00f3sofo franc\u00eas Michel Foucault que, em contraste com a an\u00e1lise neomarxista, oferece uma caracteriza\u00e7\u00e3o substancialmente diferente do neoliberalismo em seu significado, objetivo e prop\u00f3sito. Em seu curso no Coll\u00e8ge de France de 1978-1979, Foucault enfatizou a signific\u00e2ncia do neoliberalismo como uma nova racionalidade pol\u00edtica, cujo alcance e implica\u00e7\u00f5es v\u00e3o muito al\u00e9m da pol\u00edtica econ\u00f4mica e do fortalecimento do capital. Nessa racionalidade, os princ\u00edpios de mercado tornam-se princ\u00edpios de governo aplicados pelo e no Estado, circulando tamb\u00e9m nas institui\u00e7\u00f5es, entidades e em toda a sociedade \u2013 escolas, locais de trabalho, cl\u00ednicas etc. Esses princ\u00edpios governam cada esfera da exist\u00eancia e engendram o<em> homo economicus <\/em>(que se caracteriza pela economiza\u00e7\u00e3o da vida \u2013 sujeitos como atores de mercado)<em>, <\/em>transformando-o, de um sujeito da troca e da satisfa\u00e7\u00e3o de necessidades (liberalismo cl\u00e1ssico), em um sujeito da competi\u00e7\u00e3o e do aprimoramento do capital humano (neoliberalismo) a partir de pr\u00e1ticas de investimento em si mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse cen\u00e1rio, os mercados competitivos necessitam de suporte pol\u00edtico e, portanto, de uma nova forma de governamentaliza\u00e7\u00e3o do Estado. Na nova racionalidade governamental, por um lado, todo governo \u00e9 orientado por princ\u00edpios de mercado e, por outro, os mercados devem ser amparados e at\u00e9 resgatados por institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Os mercados competitivos s\u00e3o bons, mas n\u00e3o exatamente naturais e nem autossuficientes. Para Foucault, essas duas caracter\u00edsticas da racionalidade neoliberal \u2013 a elabora\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios de mercado como princ\u00edpios de governo onipresentes e o pr\u00f3prio governo reformatado para servir aos mercados \u2013 est\u00e3o entre aquelas que separam a racionalidade neoliberal daquela do liberalismo econ\u00f4mico cl\u00e1ssico. Elas constituem a reprograma\u00e7\u00e3o da governamentalidade liberal, \u201cempreendedorizando\u201d o sujeito (empres\u00e1rio de si &#8211; sujeito humano como part\u00edcula isolada de capital humano autoinvestidor), convertendo trabalho em capital humano (despido de g\u00eanero, sexualidade, ra\u00e7a ou qualquer posi\u00e7\u00e3o subjetiva) e reorganizando o Estado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Wendy Brown parte de uma leitura neomarxista e foucaultiana do neoliberalismo e expande ambas para saldar sua neglig\u00eancia m\u00fatua do aspecto moral do projeto neoliberal. A autora n\u00e3o trata essas duas abordagens como opostas ou redut\u00edveis \u00e0 compreens\u00e3o dicot\u00f4mica materialista <em>versus<\/em> ideacional do poder e da mudan\u00e7a hist\u00f3rica, mas as emprega por apresentarem diferentes dimens\u00f5es das transforma\u00e7\u00f5es neoliberais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A abordagem neomarxista tende a se concentrar nas institui\u00e7\u00f5es, pol\u00edticas, rela\u00e7\u00f5es e efeitos econ\u00f4micos, negligenciando os efeitos de longo alcance do neoliberalismo como forma de governar a raz\u00e3o pol\u00edtica e a produ\u00e7\u00e3o de sujeitos. A abordagem foucaultiana enfoca os princ\u00edpios que orientam o Estado, a sociedade e os sujeitos e, acima de tudo, o novo registro de valor do neoliberalismo, mas pouco atenta aos novos e espetaculares poderes do capital global que o neoliberalismo anuncia e edifica. A perspectiva neomarxista coloca o neoliberalismo como o que inaugura um novo cap\u00edtulo do capitalismo e gera novas for\u00e7as, contradi\u00e7\u00f5es e crises. A compreens\u00e3o foulcaultiana revela como governos, sujeitos e subjetividades s\u00e3o transformados pela remodela\u00e7\u00e3o neoliberal da raz\u00e3o liberal (ascens\u00e3o de uma raz\u00e3o normativa que estende m\u00e9tricas e pr\u00e1ticas de mercado a todas as dimens\u00f5es da vida \u2013 pol\u00edtica, cultural, pessoal, vocacional, educacional). Ambas as abordagens contribuem para a compreens\u00e3o das caracter\u00edsticas do neoliberalismo e da conjuntura atual. A proposta da Wendy Brown \u00e9, portanto, ampliar a compreens\u00e3o da racionalidade neoliberal para contemplar o seu ataque multifacetado \u00e0 democracia e sua promo\u00e7\u00e3o da moralidade tradicional em detrimento da justi\u00e7a social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A palavra \u201cdemocracia\u201d designa um regime pol\u00edtico em que os arranjos se organizam de tal modo que o povo governa a si pr\u00f3prio. A igualdade pol\u00edtica \u00e9 a base da democracia. Quando a igualdade pol\u00edtica est\u00e1 ausente, seja por exclus\u00f5es ou privil\u00e9gios pol\u00edticos, pelas disparidades sociais ou econ\u00f4micas extremas, pelo acesso desigual ou controlado ao conhecimento, ou pela manipula\u00e7\u00e3o do sistema eleitoral, o poder ser\u00e1 invariavelmente exercido por e para uma parte. O <em>demos<\/em> deixa de governar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A import\u00e2ncia da igualdade pol\u00edtica para a democracia \u00e9 a raz\u00e3o pela qual Rousseau insistiu que, em um regime democr\u00e1tico, as diferen\u00e7as pol\u00edtico-econ\u00f4micas entre os integrantes do povo n\u00e3o podem ser t\u00e3o grandes que permitam a algu\u00e9m ser t\u00e3o rico que possa comprar outra pessoa, nem t\u00e3o pobre que seja obrigado a se vender. Brown, lendo Rousseau, conclui que, para o fil\u00f3sofo franc\u00eas, a sistematiza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia ou da mis\u00e9ria coletiva leva ao fim da democracia. &nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse sentido, democracias liberais nunca foram democracias plenas. Democracias efetivas perpassam pela redu\u00e7\u00e3o das desigualdades de poder entre os cidad\u00e3os. Exigem, portanto, vigil\u00e2ncia constante para impedir que a riqueza concentrada assuma o controle das alavancas do poder pol\u00edtico, o que passa pelo apoio estatal para promover bens p\u00fablicos e redistribui\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas. A democracia exige esfor\u00e7os para criar um povo capaz de se engajar em formas de auto-governo. Exige tamb\u00e9m um cultivo robusto da sociedade como o local em que experimentamos um destino comum (e solid\u00e1rio) em meio \u00e0s diferen\u00e7as e dist\u00e2ncias, bem como a defesa da quest\u00e3o social. A justi\u00e7a social \u00e9 o ant\u00eddoto essencial para as estratifica\u00e7\u00f5es, exclus\u00f5es, abje\u00e7\u00f5es e desigualdades despolitizadas que servem ao privatismo liberal na ordem capitalista. O social \u00e9, pois, o lugar da emancipa\u00e7\u00e3o, da justi\u00e7a e da democracia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 sintom\u00e1tico que s\u00e3o precisamente a exist\u00eancia da sociedade e a ideia do social (como local da justi\u00e7a e do bem comum) que o neoliberalismo se prop\u00f5e a destruir conceitual, normativa e praticamente. Denunciada como um termo sem sentido por Hayek e notoriamente declarada inexistente por Thatcher (\u201cn\u00e3o existe tal coisa como a sociedade, mas apenas fam\u00edlias e indiv\u00edduos orientados pelo mercado e pela moral<a href=\"#_ftn1\">[1]<\/a>\u201d), sociedade \u00e9 um termo pejorativo para a direita que denuncia os guerreiros da justi\u00e7a social por minar a liberdade com uma agenda tir\u00e2nica de igualdade social, de direitos, de a\u00e7\u00e3o afirmativa e de educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica (desinvestimento em educa\u00e7\u00e3o). Na verdade, o objetivo do neoliberalismo \u00e9 desmantelar o Estado Social (rep\u00fadio ao social), privatizando-o, com a dissolu\u00e7\u00e3o dos la\u00e7os sociais. Com esse ataque, a l\u00f3gica economicista espraia-se para todas as esferas da vida. Cultiva-se uma cultura individualista, de indiv\u00edduos competitivos, produtivos, eficientes, empreendedores de si e responsabiliz\u00e1veis, com o decl\u00ednio do cultivo de valores antidemocr\u00e1ticos.&nbsp; &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Brown considera Friedrich Hayek um grande cr\u00edtico da social-democracia. Para ele, a preocupa\u00e7\u00e3o com o social \u00e9 o s\u00edmbolo da tirania (inimiga da liberdade), uma grave amea\u00e7a a uma civiliza\u00e7\u00e3o livre. A cren\u00e7a na justi\u00e7a social enquanto diretriz da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica aproxima-se de um sistema totalit\u00e1rio. Para o autor, a moral e o mercado juntos engendram a conduta evolu\u00edda e disciplinada para criar e sustentar a ordem social. Nesse sentido, mercado e moral revelam a natureza da justi\u00e7a, que considera a desigualdade como essencial para o desenvolvimento. Segundo Hayek, a verdadeira justi\u00e7a exige que as regras do jogo sejam conhecidas e aplicadas universalmente (tese universalista e generalista), mas considera que todo jogo tem vencedores e perdedores (desigualdade de base natural necess\u00e1ria ao mercado) e a civiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode evoluir sem deixar para tr\u00e1s os efeitos da fraqueza e do fracasso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para sua teoria (e inclusive para os neohayekianos), a justi\u00e7a social ataca a verdadeira justi\u00e7a, a liberdade e o desenvolvimento civilizacional garantidos pelo mercado e pela moral e, nesse sentido, a sociedade deve ser desmantelada em um movimento conjunto de desmassifica\u00e7\u00e3o, desproletariza\u00e7\u00e3o, individualiza\u00e7\u00e3o, desmobiliza\u00e7\u00e3o do pol\u00edtico, \u201cempreendedoriza\u00e7\u00e3o\u201d da vida e convers\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico em um espa\u00e7o vazio de democracia. Esse rep\u00fadio ao social e \u00e0 sociedade tornam invis\u00edveis as desigualdades geradas pelo legado da escravid\u00e3o, do colonialismo e do patriarcado. A liberdade sem igualdade (e sociedade) destr\u00f3i o l\u00e9xico pelo qual a liberdade torna-se democr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo Wendy Brown, essa tentativa de desmantelamento do social n\u00e3o \u00e9 defendida apenas por autores neoliberais. Hannah Arendt, uma te\u00f3rica pol\u00edtica alem\u00e3 influente para a esquerda, tamb\u00e9m expressou sua antipatia pelo social. Segundo Brown, sua cr\u00edtica equivale, em intensidade, \u00e0 de Hayek. Para Hayek, o social n\u00e3o existe; para Arendt, que apresentou uma cr\u00edtica incisiva \u00e0 ascens\u00e3o do social (quest\u00f5es sociais como desigualdade, sexismo, racismo, fome, pobreza, que n\u00e3o devem fazer parte dos assuntos p\u00fablicos) sobre o mundo pol\u00edtico, seu desenvolvimento moderno inchado destruiu as capacidades humanas de liberdade e a\u00e7\u00e3o na esfera p\u00fablica. Hayek e Arendt, ainda que em espectros pol\u00edtico-ideol\u00f3gicos distintos, execram o Estado dedicado a suprir as necessidades humanas, incluindo a compreens\u00e3o de democracia quando devotada ao bem-estar humano. Para ambos, a liberdade tem na ascens\u00e3o do social seu leito de morte. Ainda que com perspectivas distintas, para os autores, a liberdade est\u00e1 em demonizar e derrotar o social e, nesse sentido, \u201ca sociedade deve ser desmantelada\u201d. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Brown, o social \u00e9 o fundamento da democracia, compreendendo-a a partir da centralidade da igualdade para qualquer conceito ou pr\u00e1tica democr\u00e1tica. Sem o social e um sentido de vida comum e solid\u00e1rio, cria-se uma gera\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos isolados, perdidos e desprotegidos, em risco permanente de privatiza\u00e7\u00e3o dos meios vitais b\u00e1sicos, completamente vulner\u00e1veis \u00e0s vicissitudes do capital e do mercado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ademais, Brown ainda destaca como especialmente problem\u00e1tica a rela\u00e7\u00e3o entre liberdade de express\u00e3o e liberdade religiosa no neoliberalismo. Discorre sobre a utiliza\u00e7\u00e3o da Primeira Emenda da Constitui\u00e7\u00e3o norte-americana, tradicional escudo de minorias e da imprensa contra a censura e a repress\u00e3o estatal, como instrumento para promover a desregulamenta\u00e7\u00e3o dos mercados e barrar iniciativas antidiscriminat\u00f3rias. Esse fen\u00f4meno seria um retrato not\u00f3rio da nova \u201cjurisprud\u00eancia neoliberal\u201d da Suprema Corte, que interpreta a liberdade de express\u00e3o e a liberdade de exerc\u00edcio religioso de modo pareado \u2013 interpreta\u00e7\u00e3o esta que estaria promovendo a recristianiza\u00e7\u00e3o da esfera p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Numa jurisprud\u00eancia em que tudo \u00e9 considerado sob o signo da \u201clivre express\u00e3o\u201d e em que corpora\u00e7\u00f5es e pequenos neg\u00f3cios podem \u201cse expressar\u201d como se pessoas f\u00edsicas fossem, o resultado \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o de uma vers\u00e3o distorcida do projeto hayekiano em que a sociedade governada pelos mercados \u00e9 obediente \u00e0 moralidade tradicional. A l\u00f3gica democr\u00e1tica de um governo do povo e as conquistas alcan\u00e7adas por todas as minorias a duras penas durante tantos anos, restam, ent\u00e3o, vulner\u00e1veis e amea\u00e7adas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para exemplificar esse novo modo de decidir, Brown evoca dois casos emblem\u00e1ticos. O primeiro \u00e9 o caso <em>\u201cMasterpiece Cakeshop v. Colorado Civil Rights Comission\u201d<\/em>. Um casal homossexual procurou uma confeitaria para encomendar um bolo para seu casamento e viu seu pedido rejeitado porque o propriet\u00e1rio alegou ser contr\u00e1rio a casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Este \u00faltimo argumentou que os bolos eram suas \u201cexpress\u00f5es art\u00edsticas\u201d, que n\u00e3o poderia ser obrigado a expressar uma cren\u00e7a da qual n\u00e3o comunga como crist\u00e3o, e que a sua confeitaria gozaria do mesmo direito, por paralelismo. O confeiteiro perdeu em primeira inst\u00e2ncia, mas o caso, ao chegar \u00e0 Suprema Corte, foi revertido: entendeu-se que o direito ao exerc\u00edcio da liberdade religiosa do indiv\u00edduo fora violado no processo e que ele n\u00e3o poderia ser obrigado a realizar a encomenda do casal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O segundo caso \u00e9 o <em>National Institute of Family and Life Advocates, DBA NIFLA at al. v. Becerra, procurador-geral da Calif\u00f3rnia<\/em>. A celeuma envolve os chamados <em>Crisis Pregnancy Centers<\/em> (CPC), centros crist\u00e3os espalhados por todos os Estados Unidos que alegam fornecer orienta\u00e7\u00f5es para mulheres que enfrentam gravidezes indesejadas, mas que, a bem da verdade, funcionam com o prop\u00f3sito sub-rept\u00edcio de dissuadi-las a n\u00e3o optarem pelo aborto. Porque o objetivo dos centros n\u00e3o \u00e9 claro, no Estado da Calif\u00f3rnia, o chamado Ato FACT obrigou esses centros a publicarem uma declara\u00e7\u00e3o que informa 1) que o Estado oferece tratamentos abrangentes de sa\u00fade reprodutiva, gratuitos e de baixo custo, inclusive abortos e 2) que a o centro n\u00e3o \u00e9 uma instala\u00e7\u00e3o m\u00e9dica. Em 2018, a Suprema Corte entendeu que o referido ato \u00e9 violador da liberdade de express\u00e3o, numa decis\u00e3o que entende os centros como sujeitos de direito e a quest\u00e3o do aborto como uma mat\u00e9ria disputada que suscita \u201copini\u00f5es divergentes\u201d, n\u00e3o como um direito assegurado pelo Estado da Calif\u00f3rnia. Muito embora o tema da liberdade religiosa n\u00e3o seja mencionado expressamente, fica claro na decis\u00e3o que objetivos dos centros, que s\u00e3o religiosos, funcionaram como fundamento subjacente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses dois casos, segundo Brown, demonstrariam como o niilismo \u00e9 caracter\u00edstico do sistema moral no neoliberalismo. A autora lembra a previs\u00e3o de Friedrich Nietzsche de que a era do niilismo n\u00e3o seria uma sem valores, mas uma em que os valores seriam desatracados de seus fundamentos e, uma vez esvaziados, poderiam ser instrumentalizados para os mais diversos fins. Ela adiciona que a din\u00e2mica econ\u00f4mica do neoliberalismo, da qual nada passa inc\u00f3lume, teria confirmado essa previs\u00e3o e a aprofundado, criando um estado de coisas em que todos os valores podem ser utilizados pelo mercado como melhor o interessar. Ao mesmo tempo, o sujeito estaria livre do peso de observar princ\u00edpios morais e gozaria de uma liberdade ilimitada e que desconhece limites \u00e9ticos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse niilismo teria provocado o que Herbert Marcuse chamou de \u201cdessublima\u00e7\u00e3o repressiva\u201d: menos repress\u00e3o teria gerado menos consci\u00eancia de si, processo que resultaria na supress\u00e3o da considera\u00e7\u00e3o \u00e9tica e pol\u00edtica em geral. Os sujeitos teriam sido desbloqueados para a frui\u00e7\u00e3o dos mais diversos prazeres, mas se desligado da sua participa\u00e7\u00e3o enquanto integrantes de um grupo social maior. Para Brown, o tecido social \u00e9 rasgado pelo niilismo e passa a imperar uma din\u00e2mica pol\u00edtica fundada na indiferen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A autora destaca tamb\u00e9m a rela\u00e7\u00e3o existente entre o niilismo e a virul\u00eancia dos discursos de extrema direita. Lembra que, para Nietzsche, a civiliza\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3 foi fundada sobre o ressentimento dos \u201cfracos\u201d que culparam os \u201cfortes\u201d pela sua opress\u00e3o, passando a se considerar \u201cbons\u201d em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0queles e a enaltecer valores como abnega\u00e7\u00e3o, humilha\u00e7\u00e3o, humildade e resigna\u00e7\u00e3o. Nesse sistema de valores, no entanto, estariam no centro o rancor, a reprimenda e a vingan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Brown, esses sentimentos estariam aflorando naqueles que costumavam ser \u201cfortes\u201d, sujeitos que at\u00e9 ent\u00e3o gozavam de posi\u00e7\u00e3o dominante, ao assistirem \u00e0 fragiliza\u00e7\u00e3o de sua posi\u00e7\u00e3o social. Aqui, a autora destaca a branquitude e a masculinidade, que t\u00eam sofrido perdas com alguns avan\u00e7os progressistas, ainda que limitados, e com a monetiza\u00e7\u00e3o radical das rela\u00e7\u00f5es. Para exemplificar, faz refer\u00eancia \u00e0 classe m\u00e9dia branca norte-americana que, em raz\u00e3o da financeiriza\u00e7\u00e3o dos mercados, da privatiza\u00e7\u00e3o do acesso a certos bens e da intensifica\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais, agora embarca no \u201cport\u00e3o 5\u201d do aeroporto e se ressente com aqueles que embarcam no \u201cport\u00e3o 1\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A respeito da dire\u00e7\u00e3o que toma a c\u00f3lera daqueles foram \u201cdeixados para tr\u00e1s\u201d pelo neoliberalismo, Brown elabora duas hip\u00f3teses. A primeira \u00e9 que ela n\u00e3o produz nenhum novo c\u00f3digo de valores, mas permanece como c\u00f3lera pura e produz um desejo de negar tudo: a crise clim\u00e1tica, o racismo, a afirma\u00e7\u00e3o de direitos a mulheres e \u00e0 comunidade LGBT, a esfericidade da terra, etc. A c\u00f3lera abra\u00e7a o niilismo sem reservas e n\u00e3o coloca nada no lugar daquilo que quer derrubar. A segunda hip\u00f3tese \u00e9 que ela (esse afeto de ira) de fato produz um sistema de valores que remetem a um passado superior em que esses sujeitos dominavam. Slogans como \u201c<em>Make America Great Again\u201d<\/em> fariam remiss\u00e3o a esse passado e prometeriam restabelecer a supremacia dos destronados. Essa promessa assume tom quase escatol\u00f3gico: Brown escreve que sua l\u00f3gica subjacente \u00e9 \u201cse os homens brancos n\u00e3o podem ser donos da democracia, ent\u00e3o n\u00e3o haver\u00e1 democracia nenhuma. Se os homens brancos n\u00e3o podem dominar o planeta, ent\u00e3o n\u00e3o haver\u00e1 planeta\u201d (BROWN, 2019, p. 220).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Brown tamb\u00e9m leva em considera\u00e7\u00e3o o impacto que o neoliberalismo causa na organiza\u00e7\u00e3o espacial do globo. Para ela, o neoliberalismo derrubou definitivamente as fronteiras do Estado-na\u00e7\u00e3o, processo que, aliado aos outros fen\u00f4menos, intensificou o rancor da extrema-direita contra os imigrantes e contra aqueles que os acolhem. Tamb\u00e9m promoveu o fim do espa\u00e7o p\u00fablico e a ascens\u00e3o do espa\u00e7o digital, zona que a autora considera desdemocratizada. Por fim, o neoliberalismo teria produzido um poder gasoso que tudo governa e que n\u00e3o pode ser encontrado em nenhum lugar determinado: o poder das finan\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse poder das finan\u00e7as que n\u00e3o v\u00ea s\u00edmbolos, mas t\u00e3o somente cifras, teria ferido de morte a fam\u00edlia, o senso de pertencimento a uma na\u00e7\u00e3o, a propriedade e todas as tradi\u00e7\u00f5es que reproduzem estratifica\u00e7\u00f5es raciais e de g\u00eanero. O ressentimento relativo a essas perdas simb\u00f3licas foi apropriado pela extrema-direita que, agora, se esfor\u00e7a para destruir a democracia, \u00e0 qual adere\u00e7a, erroneamente, a culpa por esse estado de coisas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Nota<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> \u201c(\u2026) N\u00e3o existe uma tal coisa [a sociedade]! H\u00e1 indiv\u00edduos homens e mulheres e h\u00e1 fam\u00edlias, e o governo n\u00e3o pode fazer nada exceto atrav\u00e9s do povo, e o povo olha em primeiro lugar para si mesmo.\u201d THATCHER, Margaret. 1987. \u2018Interview for \u201cWoman\u2019s Own\u201d (\u201cNo Such Thing as Society\u201d).\u2019 <em>In<\/em>:&nbsp;<em>Margaret Thatcher Foundation: Speeches, Interviews and Other Statements<\/em>. London. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.margaretthatcher.org\/document\/106689\">https:\/\/www.margaretthatcher.org\/document\/106689<\/a>. Acesso em: abril de 2021.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Loiane Prado Verbicaro Professora da Faculdade de Filosofia e do Programa de Mestrado em Filosofia da Universidade Federal do<\/p>\n","protected":false},"author":360,"featured_media":0,"parent":762,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","inline_featured_image":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"class_list":["post-960","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/960","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/360"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=960"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/960\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":966,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/960\/revisions\/966"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/762"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=960"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}