{"id":975,"date":"2021-06-23T09:58:32","date_gmt":"2021-06-23T12:58:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/?page_id=975"},"modified":"2022-04-26T17:53:28","modified_gmt":"2022-04-26T20:53:28","slug":"feminismo-e-existencialismo","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/feminismo-e-existencialismo\/","title":{"rendered":"Feminismo e Existencialismo"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns has-1-columns has-desktop-equal-layout has-tablet-equal-layout has-mobile-equal-layout has-default-gap has-vertical-unset\" id=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns-e5df9afe\"><div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns-overlay\"><\/div><div class=\"innerblocks-wrap\">\n<div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-column\" id=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-column-58a2c9ea\">\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><strong>por Thana Mara de Souza<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Professora Associada do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Esp\u00edrito Santo (UFES), autora de <em>A liberdade em Sartre <\/em>(2019) e de diversos artigos e cap\u00edtulos de livros sobre Simone de Beauvoir, fenomenologia e g\u00eanero &#8211; <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/1586702620708183\">Lattes<\/a>.<\/p>\n<\/div>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/06\/Feminismo-e-Existencialismo-Thana-Mara-de-Souza.docx.pdf\">PDF &#8211; Feminismo e Existencialismo<img decoding=\"async\" class=\"wp-image-981\" style=\"width: NaNpx\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/06\/Feminismo-e-Existencialismo-PDF.pdf\" alt=\"\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-986\" style=\"width: NaNpx\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/06\/Feminismo-e-Existencialismo-Thana-Mara-de-Souza.docx.pdf\" alt=\"\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1010\" height=\"650\" class=\"wp-image-978\" style=\"width: 500px\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/06\/Beauvoir.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/06\/Beauvoir.jpeg 1010w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/06\/Beauvoir-300x193.jpeg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-content\/uploads\/sites\/178\/2021\/06\/Beauvoir-768x494.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 1010px) 100vw, 1010px\" \/><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foto: <a href=\"https:\/\/www.francetvinfo.fr\/culture\/livres\/simone-de-beauvoir-l-039-icone-du-feminisme-en-images_3360329.html\">ULIENNE\/SIPA<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 pouco tempo, quando fal\u00e1vamos em feminismo na Hist\u00f3ria da Filosofia, pens\u00e1vamos primeiramente em Simone de Beauvoir, fil\u00f3sofa que n\u00e3o era exce\u00e7\u00e3o e que n\u00e3o inaugurou a tem\u00e1tica, mas que era a mais lembrada de forma imediata. Felizmente, sabemos hoje que essa hist\u00f3ria \u00e9 m\u00faltipla e mais antiga, mas Beauvoir continua a ser um nome chave para pensar a quest\u00e3o de g\u00eanero na Filosofia. \u00c9 curioso que, se o seu nome \u00e9 sempre lembrado, associar o feminismo ao existencialismo, sua vertente filos\u00f3fica, \u00e9 pouco comum.<\/p>\n<p>Para mostrar a rela\u00e7\u00e3o prof\u00edcua entre feminismo e existencialismo, come\u00e7arei com uma breve descri\u00e7\u00e3o do existencialismo, apoiada principalmente em Sartre e Merleau-Ponty, assim como em um livro organizado por Linda Fisher e Lester Embree, que, de forma mais ampla, aponta para as possibilidades da associa\u00e7\u00e3o entre fenomenologia e feminismo. Depois, passarei a mostrar a import\u00e2ncia de Beauvoir para pensarmos a intersec\u00e7\u00e3o entre essas duas esferas, dado que, em todos seus os livros, ela afirma categoricamente que o seu ponto de partida \u00e9 a &#8220;moral existencialista&#8221;. Em um terceiro momento, ser\u00e1 importante mostrar alguns desdobramentos desta intersec\u00e7\u00e3o, seja em obras mais contempor\u00e2neas de filosofia, seja em outras \u00e1reas. Por fim, apenas como esbo\u00e7o, procurarei assinalar algumas das perspectivas que feminismo e existencialismo, juntos, podem trazer \u00e0 discuss\u00e3o contempor\u00e2nea sobre g\u00eanero.<\/p>\n<p>1) O existencialismo<\/p>\n<p>Mais associado a Sartre e Simone de Beauvoir, o existencialismo evoca uma s\u00e9rie de outros fil\u00f3sofos e a origem costuma ser dada, em um sentido bastante gen\u00e9rico, a Kierkegaard. De forma mais espec\u00edfica, temos dois textos de 1945 que assumem o existencialismo como forma filos\u00f3fica: <em>O existencialismo e a sabedoria das na\u00e7\u00f5es, <\/em>de Beauvoir e<em> O existencialismo \u00e9 um humanismo, <\/em>de Sartre. Hoje, costumamos chamar de existencialismo a perspectiva fenomenol\u00f3gica tal como, a partir principalmente de Husserl e Heidegger, se desenvolveu na Fran\u00e7a.\u00a0<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do existencialismo, nesse caminho da Alemanha para a Fran\u00e7a, pode ser verificada em <em>No caf\u00e9 existencialista <\/em>(BAKEWELL, 2017), livro no qual \u00e9 descrito, de maneira bastante did\u00e1tica, como, em meio \u00e0s redes acad\u00eamicas e pessoais, o existencialismo surgiu na Fran\u00e7a como uma vertente que deslocava a fenomenologia alem\u00e3 para outra dire\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00f3 uma moda dos anos 1940 a 1960 na Fran\u00e7a, o existencialismo traz uma mudan\u00e7a te\u00f3rica no pr\u00f3prio seio da fenomenologia. De uma &#8220;ci\u00eancia de rigor&#8221;, como dizia Husserl, e de uma ontologia sobre o esquecimento do sentido do ser, tal como apontava Heidegger, passamos, na Fran\u00e7a, a uma preocupa\u00e7\u00e3o mais cotidiana com as situa\u00e7\u00f5es concretas. Se \u00e9 certo que Heidegger j\u00e1 apontava para o ser-no-mundo, para Sartre, a fenomenologia pura era incapaz de lidar com o que importa: a facticidade.<\/p>\n<p>\u00c9, pois, com foco na concretude, nas experi\u00eancias vividas, que o existencialismo surge, e ao fazer isso distingue-se da fenomenologia alem\u00e3: Sartre e\u00a0 Merleau-Ponty s\u00e3o dois grandes nomes dessa vertente francesa, como veremos a seguir.<\/p>\n<p><strong>Maurice Merleau-Ponty<\/strong><\/p>\n<p>Em <em>Fenomenologia da percep\u00e7\u00e3o<\/em>, Merleau-Ponty lan\u00e7a m\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de corpo pr\u00f3prio para pensar a subjetividade, saindo da dicotomia consci\u00eancia\/corpo: &#8220;\u00c9 dessa maneira que o corpo exprime a exist\u00eancia total, n\u00e3o que ele seja seu acompanhamento exterior, mas porque a exist\u00eancia se realiza nele&#8221; (MERLEAU-PONTY, 2006, p. 229). O corpo \u00e9, pois, o local da viv\u00eancia e do sentido. Mas se inserir o corpo como express\u00e3o \u00e9 um passo fundamental para superar filosofias abstratas, focadas no conhecimento, \u00e9 verdade tamb\u00e9m que o fil\u00f3sofo franc\u00eas sempre\u00a0 coloca o corpo do ponto de vista masculino, que n\u00e3o \u00e9 apenas o seu, mas que \u00e9 generalizado, como se fosse o ponto de vista neutro, ou objetivo. Mesmo destinando um cap\u00edtulo do livro para falar sobre o corpo sexuado, o sujeito desse corpo \u00e9 um homem, e a mulher aparece sempre como objeto &#8211; como parceira de um\u00a0 homem, ou como paciente, como no exemplo utilizado da mo\u00e7a af\u00f4nica, impedida de ver o rapaz que ama.\u00a0<\/p>\n<p>Embora a associa\u00e7\u00e3o entre feminismo e existencialismo tenha sido e continue sendo feita por diversas autoras, h\u00e1 de se notar que n\u00e3o foi desde o in\u00edcio que essa vertente filos\u00f3fica manifestou preocupa\u00e7\u00e3o maior com a quest\u00e3o de g\u00eanero.\u00a0<\/p>\n<p>Linda Fisher, em seu artigo &#8220;Phenomenology and Feminism &#8211; Perspectives on their Relation&#8221; (Fenomenologia e Feminismo &#8211; Perspectivas de suas rela\u00e7\u00f5es) presente no livro <em>Feminist Phenomenology <\/em>[Fenomenologia Feminista], de 2000, mostra como Merleau-Ponty, ao falar do corpo, n\u00e3o o coloca numa perspectiva de g\u00eanero, silenciando sobre o corpo feminino como sujeito. Isto, no entanto, n\u00e3o deveria ser motivo para n\u00e3o utilizarmos sua filosofia para pensarmos, hoje, a situa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica das mulheres, aproveitando a no\u00e7\u00e3o de corpo pr\u00f3prio que ali aparece, enfatizando as condi\u00e7\u00f5es concretas e espec\u00edficas a partir dos g\u00eaneros.\u00a0<\/p>\n<p>Se, por um lado, Merleau-Ponty possibilita pensar a rela\u00e7\u00e3o entre <em>cogito<\/em> t\u00e1cito e corpo pr\u00f3prio de forma distinta de como a filosofia tradicional colocou; por outro, ele mesmo n\u00e3o realizou uma discuss\u00e3o sobre g\u00eanero a partir dessa proposta &#8211; o que, por sua vez, n\u00e3o impede que n\u00f3s, ao inv\u00e9s de simplesmente descartarmos seu pensamento porque a palavra g\u00eanero n\u00e3o foi utilizada, pensemos em desdobramentos. \u00c9, ali\u00e1s, o que\u00a0 Beauvoir j\u00e1 faz em <em>O segundo sexo<\/em>: ao concordar com Merleau-Ponty de que aquilo que \u00e9 dado nunca tem o sentido nele mesmo, mas sempre \u00e9 o modo pelo qual \u00e9 vivido, ela enfatiza, no entanto, que h\u00e1 diferen\u00e7a no modo como o corpo se coloca para mulheres e homens. Se \u00e9 verdade que todos assumimos o que \u00e9 dado de certo modo, \u00e9 preciso observar que algumas condi\u00e7\u00f5es permitem que falemos de exist\u00eancia, sendo uma delas o corpo como coisa do mundo. \u00c9 preciso, pois, para Beauvoir, observar as condi\u00e7\u00f5es distintas que s\u00e3o dadas \u00e0s mulheres, seja biologicamente, seja historicamente (como veremos no pr\u00f3ximo t\u00f3pico, Beauvoir n\u00e3o nega o binarismo, o que n\u00e3o implica, por sua vez, uma ess\u00eancia ou limita\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p><strong>Jean-Paul Sartre<\/strong><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o existencialismo de Sartre aponta para a import\u00e2ncia de se pensar a corporeidade. Em <em>Esbo\u00e7o para uma teoria das emo\u00e7\u00f5es, <\/em>h\u00e1 a preocupa\u00e7\u00e3o em pensar a emo\u00e7\u00e3o como um ato conjunto e sint\u00e9tico entre consci\u00eancia e corpo. Mesmo que, diferentemente de Merleau-Ponty, aqui tenhamos uma distin\u00e7\u00e3o de pap\u00e9is (o sentido \u00e9 dado pela consci\u00eancia, e a viv\u00eancia, pelo corpo), n\u00e3o h\u00e1 uma hierarquia entre eles. Emo\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 meramente uma forma pela qual a consci\u00eancia decide lidar com uma situa\u00e7\u00e3o; \u00e9 tamb\u00e9m, e necessariamente, uma viv\u00eancia corporal. Sem este \u00faltimo aspecto, ter\u00edamos apenas uma representa\u00e7\u00e3o. \u00c9 o corpo que diferencia uma emo\u00e7\u00e3o vivida de uma apenas fingida. Os fen\u00f4menos fisiol\u00f3gicos &#8220;n\u00e3o s\u00e3o redut\u00edveis a condutas: pode-se parar de fugir, n\u00e3o de tremer. Posso, por um violento esfor\u00e7o, levantar-me da cadeira, desviar meu pensamento do desastre que me oprime e p\u00f4r-me a trabalhar: minhas m\u00e3os continuar\u00e3o geladas&#8221; (SARTRE, 2006, p. 77).\u00a0<\/p>\n<p>Assim, tamb\u00e9m Sartre poderia, com sua filosofia, contribuir para pensar quest\u00f5es de g\u00eanero focadas na corporeidade que, embora n\u00e3o escolhida, \u00e9 o modo mesmo como nos colocamos no mundo, impossibilitando qualquer esp\u00e9cie de determina\u00e7\u00e3o total do corpo \u00e0 pessoa (ou poder\u00edamos dizer, do sexo ao g\u00eanero). \u00c9 o que <em>O ser e o nada<\/em> reafirma no cap\u00edtulo sobre &#8220;o corpo&#8221;, pensado, agora, em v\u00e1rias dimens\u00f5es, como para-si (concretude vivida) e como para-outro (o modo com o outro objetiva e naturaliza meu corpo). Sendo tanto objeto para outro, quanto modo como me coloco no mundo, o corpo ter\u00e1 um papel amb\u00edguo, de lugar de aliena\u00e7\u00e3o e, ao mesmo tempo, de supera\u00e7\u00e3o da aliena\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>E esse corpo, tal como para Merleau-Ponty, \u00e9 sempre sexuado. Ao falar do desejo, Sartre coloca-se explicitamente na contram\u00e3o da fenomenologia alem\u00e3, afirmando ser invi\u00e1vel pensar em um corpo assexuado:\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Por isso, as filosofias existenciais na\u0303o acreditaram na necessidade de preocupar-se com a sexualidade. Heidegger, em particular, a ela na\u0303o dedica a menor alusa\u0303o em sua anali\u0301tica existencial, de sorte que seu &#8216;<em>Dasein<\/em>&#8216; nos aparece como assexuado. E, sem du\u0301vida, pode-se considerar, com efeito, uma continge\u0302ncia para a &#8216;realidade humana&#8217; especificar-se como &#8216;masculina&#8217; ou &#8216;feminina&#8217;; sem du\u0301vida, pode-se dizer que o problema da diferenciac\u0327a\u0303o sexual nada tem a ver com o da <em>Existe\u0302ncia (Existenz), <\/em>posto que o homem, tal como a mulher, &#8216;existe&#8217;, nem mais nem menos. Tais razo\u0303es na\u0303o sa\u0303o em absoluto convincentes.&#8221; (SARTRE, 1999, p. 477)<\/p>\n<p>Notemos, assim, que os existencialistas, ao contr\u00e1rio do que Sartre chama de &#8220;filosofias existenciais&#8221; alem\u00e3s, pensam em subjetividades <em>concretas,<\/em> que se constroem na pr\u00f3pria exist\u00eancia, em meio a outros que nos alienam, em meio a um corpo que, n\u00e3o escolhido, \u00e9, ao mesmo tempo, nossa pr\u00f3pria marca de pessoalidade.<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia da concretude e do corpo vivido s\u00e3o fundamentais para construirmos um di\u00e1logo entre existencialismo e feminismo. No entanto, nem Sartre nem Merleau-Ponty fizeram uma filosofia que expl\u00edcita e diretamente discutiu g\u00eanero. O mesmo n\u00e3o pode ser dito de Beauvoir.<\/p>\n<p>2) Beauvoir: uma existencialista feminista<\/p>\n<p>Em todas suas obras, incluindo <em>O segundo sexo<\/em>, a fil\u00f3sofa deixa expl\u00edcito seu ponto de partida: uma moral existencialista, e \u00e9 com essa perspectiva que seu feminismo se constr\u00f3i. J\u00e1 na Introdu\u00e7\u00e3o do Primeiro Volume, encontramos o seguinte:<\/p>\n<p>&#8220;A perspectiva que adotamos \u00e9 a da moral existencialista. Todo sujeito coloca-se concretamente atrav\u00e9s de projetos como uma transcend\u00eancia; s\u00f3 alcan\u00e7a sua liberdade pela sua constante supera\u00e7\u00e3o em vista de outras liberdades (&#8230;). Cada vez que a transcend\u00eancia cai na iman\u00eancia, h\u00e1 degrada\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia em &#8220;em si&#8221;, da liberdade em facticidade; essa queda \u00e9 uma falha moral, se consentida pelo sujeito. Se lhe \u00e9 infligida, assume o aspecto de frustra\u00e7\u00e3o ou opress\u00e3o&#8221; (BEAUVOIR, 2016, vol. 1, p. 26).\u00a0<\/p>\n<p>A filosofia beauvoiriana se coloca a partir da liberdade. Sendo o ser humano distinto de uma coisa, quais s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es concretas que s\u00e3o dadas para que sua subjetividade possa ser de fato exercida? Se sa\u00edmos da tens\u00e3o entre dois elementos constituintes (liberdade\/facticidade; transcend\u00eancia\/iman\u00eancia) e ca\u00edmos em apenas um dos termos, h\u00e1 um &#8220;mal absoluto&#8221;, que deve ser descrito de forma diferente se desejado ou se infligido.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9, pois, com as no\u00e7\u00f5es fundamentais do existencialismo que Beauvoir pensa um feminismo. N\u00e3o se trata apenas de falar em liberdade, transcend\u00eancia e subjetividade, como se os seres humanos fossem abstratos e sobrevoassem a historicidade; assim como n\u00e3o se trata de falar apenas em facticidade, iman\u00eancia e objetividade, como se os seres humanos fossem coisas ou se anulassem totalmente na exist\u00eancia. \u00c9 na jun\u00e7\u00e3o desses elementos, ou na ambiguidade (palavra essencial em sua filosofia), que o ser humano existe: somos subjetividade em um mundo n\u00e3o escolhido, que d\u00e1 aos humanos possibilidades distintas. Nem um ser humano abstrato, nem uma concretude que apaga totalmente nossa subjetividade, por mais que tente.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 do ponto de vista das oportunidades concretas dadas aos indiv\u00edduos que julgamos as institui\u00e7\u00f5es&#8221; (BEAUVOIR, 2016, Vol. 1, p. 25). Assim, temos uma preocupa\u00e7\u00e3o em descrever os modos distintos pelos quais a sociedade trata certos grupos, em um movimento que se inicia pelo modo como as mulheres s\u00e3o vistas pela sociedade (fatos e mitos) e que continua, no segundo volume, pelo modo como as mulheres assumem e vivenciam, modificando, o que lhes \u00e9 dado (experi\u00eancia vivida). O mesmo movimento de interrela\u00e7\u00e3o e circularidade entre exterioridade e interioridade, ou objetividade e subjetividade, \u00e9 percorrido em outro livro, <em>A velhice<\/em>.<\/p>\n<p>Por um lado, Beauvoir \u00e9 uma das fil\u00f3sofas feministas que n\u00e3o se cansa de repetir que n\u00e3o h\u00e1 uma ess\u00eancia que determina o que \u00e9 ser mulher. \u00c9 sua primeira preocupa\u00e7\u00e3o: afastar-se do conceitualismo, da teoria do &#8220;eterno feminino&#8221;. Ser mulher n\u00e3o \u00e9, pois, participar de uma natureza dada.<\/p>\n<p>Por outro lado, e aqui talvez se encontre a dist\u00e2ncia maior com parte dos feminismos atuais, Beauvoir afirma que &#8220;h\u00e1 mulheres&#8221;, e assim o faz para diferenciar sua filosofia do que chama de nominalismo. Sem que a diferen\u00e7a justifique hierarquia, o ponto de partida \u00e9 justamente a descri\u00e7\u00e3o de que, ao menos naquele momento, a sociedade se dividia em &#8220;homens&#8221; e &#8220;mulheres&#8221;. Na introdu\u00e7\u00e3o ao segundo volume, a fil\u00f3sofa \u00e9 muito clara a esse respeito:\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Quando emprego as palavras &#8220;mulher&#8221; ou &#8220;feminino&#8221; n\u00e3o me refiro evidentemente a nenhum arqu\u00e9tipo, a nenhuma ess\u00eancia imut\u00e1vel; ap\u00f3s a maior parte de minhas afirma\u00e7\u00f5es cabe subentender: &#8216;no estado atual da educa\u00e7\u00e3o e dos costumes&#8217;. N\u00e3o se trata aqui de enunciar verdades eternas, mas de descrever o fundo comum sobre o qual se desenvolve toda a exist\u00eancia feminina singular&#8221; (BEAUVOIR, 2016, Vol. II, p. 6).\u00a0<\/p>\n<p>Na tentativa de descrever a realidade, \u00e9 da realidade que se parte: \u00e9 ao estado atual que a fil\u00f3sofa se volta para pensar a rela\u00e7\u00e3o entre objetividade e subjetividade, sem uma objetividade que oculta a subjetividade, sem que essa se fa\u00e7a sem um sedimento, sem uma facticidade que n\u00e3o \u00e9 escolhida. Entre elas, o corpo. Assim como Merleau-Ponty e Sartre, Beauvoir apontar\u00e1 diferen\u00e7as fisiol\u00f3gicas e morfol\u00f3gicas, que fazem parte da facticidade (ou do corpo como coisa), e n\u00e3o podem ser ignoradas, sem fazer, no entanto, dessa diferen\u00e7a, uma hierarquia ou uma defini\u00e7\u00e3o &#8211; porque corpo tamb\u00e9m \u00e9 ponto de vista. Corpo \u00e9 &#8220;a um tempo, coisa do mundo e ponto de vista sobre o mundo&#8221; (BEAUVOIR, 2016, vol. I, p. 35).<\/p>\n<p>Como aponta Heci Regina Candiani, no verbete <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/simone-de-beauvoir-2\/\"><em>Simone de Beauvoir<\/em><\/a>:\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;O conceito de situa\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental no existencialismo e se refere\u00a0basicamente\u00a0ao fato de estarmos posicionados no tempo, no espa\u00e7o e em rela\u00e7\u00e3o com os outros sobre condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas\u00a0que n\u00e3o escolhemos nem controlamos (nossa nacionalidade, etnia,\u00a0idade, classe social, educa\u00e7\u00e3o,\u00a0o sexo que nos \u00e9 atribu\u00eddo j\u00e1 nas primeiras semanas de gesta\u00e7\u00e3o,\u00a0nossas limita\u00e7\u00f5es f\u00edsicas, os valores vigentes no momento hist\u00f3rico em que vivemos, as conting\u00eancias da exist\u00eancia)&#8221; (CANDIANI, 2020, p. 27).\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 a manuten\u00e7\u00e3o de tens\u00e3o entre subjetividade e objetividade, ou ambiguidade, que traz, por um lado, o aspecto mais reconhecido de Beauvoir: uma teoria que afirma que n\u00e3o h\u00e1 eterno feminino. Mas que tamb\u00e9m traz, por outro lado, um aspecto menos compreendido: a constata\u00e7\u00e3o fenomenol\u00f3gica (descritiva portanto) da diferen\u00e7a sexual, mantendo um binarismo.<\/p>\n<p>Para o existencialismo, afirmar que h\u00e1 um binarismo sexual n\u00e3o \u00e9 um problema, dado que n\u00e3o nos reduzimos ao aspecto fisiol\u00f3gico, e o corpo tamb\u00e9m \u00e9 o modo como nos expressamos no mundo. Mas Beauvoir acaba por associar, ao binarismo sexual, o binarismo de g\u00eanero, afirmando que &#8220;h\u00e1 mulheres&#8221; e que &#8220;h\u00e1 homens&#8221;, o que, para ela, tamb\u00e9m n\u00e3o constitui um problema, j\u00e1 que nenhuma palavra \u00e9 capaz de nos definir. Adotar binarismo &#8220;homem e mulher&#8221; ou inventar outras palavras que tentam dar conta de quem somos \u00e9 manter uma mesma ilus\u00e3o.\u00a0 Como no existencialismo a falta \u00e9\u00a0constituinte do ser humano, nenhuma identidade conosco mesmo \u00e9 poss\u00edvel. Assim, qualquer que seja a palavra adotada, a ang\u00fastia permanece. Por isso, Beauvoir n\u00e3o v\u00ea problemas em afirmar que existe uma diferen\u00e7a sexual (j\u00e1 que ela n\u00e3o define o que somos), nem que a sociedade se divide em homens e mulheres.<\/p>\n<p>O foco de sua filosofia \u00e9 a viv\u00eancia, a preocupa\u00e7\u00e3o com as oportunidades concretas que s\u00e3o dadas aos indiv\u00edduos, e a den\u00fancia de que n\u00e3o s\u00e3o dadas as mesmas condi\u00e7\u00f5es, como no caso das mulheres na Europa em meados do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>O existencialismo feminista parte, assim, da compreens\u00e3o de que, n\u00e3o sendo coisa, ao humano falta uma completude e coincid\u00eancia consigo mesmo, de modo que nunca poder\u00e1 ser reduzido a seu corpo, nem identificado a uma palavra. \u00c9 para a exist\u00eancia concreta, singular e intersubjetiva que se volta, afirmando que nada define o ser humano, nem a biologia, nem a palavra &#8220;mulher&#8221;, nem qualquer outra palavra inventada; mas que, com nada definido, existimos em um mundo no qual n\u00e3o encontramos as mesmas condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia conforme sejamos vistos como mulheres ou homens ou algum outro g\u00eanero.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Beauvoir parte de uma liberdade ontol\u00f3gica de todas as subjetividades para chegar \u00e0 exig\u00eancia de uma igualdade de reconhecimento entre g\u00eaneros e de oportunidades concretas de todos manifestarem sua subjetividade, em um corpo que nunca \u00e9 s\u00f3 &#8220;coisa do mundo&#8221;, mas que tamb\u00e9m nunca \u00e9 s\u00f3 &#8220;ponto de vista sobre o mundo&#8221;.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre existencialismo e feminismo se tece, em Beauvoir, nesse movimento oscilante entre o modo como o mundo tenta nos colocar e o modo como vivemos esse mundo, entre a objetividade (a tentativa de naturalizar a inferioridade da mulher) e a subjetividade (o modo como as mulheres vivenciam essa tentativa). Dos &#8220;fatos e mitos&#8221; \u00e0 &#8220;experi\u00eancia vivida&#8221; (os subt\u00edtulos de <em>O segundo sexo<\/em>), \u00e9 \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o das exist\u00eancias singulares das mulheres que se volta.\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>3) Fox Keller e Manon Garcia<\/p>\n<p>N\u00e3o temos, no entanto, uma escola feminista existencialista forte, que teria se formado a partir de Beauvoir, embora possamos apontar alguns desdobramentos contempor\u00e2neos.<\/p>\n<p>Na filosofia, nos anos 1980 e 1990, temos, para citar apenas alguns nomes, Debra Bergoffen que, com o livro <em>The Philosophy of Simone de Beauvoir: Gendered Phenomenologies, Erotic Generosities<\/em> [<em>A Filosofia de Beauvoir: Fenomenologias genereficadas, Generosidades Er\u00f3ticas<\/em>} apontava para a import\u00e2ncia de reconhecer em Beauvoir uma fil\u00f3sofa para a qual a generosidade no erotismo permitiria uma rela\u00e7\u00e3o mais igualit\u00e1ria e de reconhecimento de subjetividades entre os g\u00eaneros.\u00a0<\/p>\n<p>O mesmo pode ser dito de Mich\u00e8le Le Doeuff: com o livro <em>Recherches sur l&#8217;imaginaire philosophique <\/em>[<em>Investiga\u00e7\u00f5es Sobre o Imagin\u00e1rio Filos\u00f3fico<\/em>]<em>, <\/em>aplica \u00e0 filosofia o que Beauvoir prop\u00f5e: tornar expl\u00edcitos os mitos que pretendem manter a hierarquia, historicamente constru\u00edda, e que quer se passar como natural. A autora denuncia o quanto, na Hist\u00f3ria da Filosofia, a alteridade sempre \u00e9 colocada a partir do homem, sendo a mulher submissa e incapaz de fazer filosofia. \u00c0s vezes o tom pol\u00eamico do livro enfraquece sua \u00f3tima tese, como quando questiona Beauvoir por esta n\u00e3o ter criticado Sartre, algo que n\u00e3o \u00e9 totalmente verdadeiro. Mesmo assim, o procedimento adotado no livro mostra uma heran\u00e7a do m\u00e9todo existencialista feminista.<\/p>\n<p>O mesmo pode ser visto em outras \u00e1reas do conhecimento.\u00a0<\/p>\n<p>Fox Keller, f\u00edsica que trabalha com biologia molecular e Hist\u00f3ria da Ci\u00eancia, escreve, em <em>Reflections On Gender and Science [Reflex\u00f5es sobre G\u00eanero e Ci\u00eancia]<\/em>, de 1985, textos em que denuncia, tal como Le Doeuff, o imagin\u00e1rio ideol\u00f3gico da ci\u00eancia. Iniciando o livro com uma cita\u00e7\u00e3o de Beauvoir, a autora faz um desvelamento e uma cr\u00edtica ao modo como a ci\u00eancia fez uma dicotomia entre racionalidade\/objetividade e emotividade\/subjetividade, colocando o primeiro par como caracter\u00edstico do masculino, e o segundo, do feminino.\u00a0<\/p>\n<p>A autora aponta para a constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica desses mitos, e como isso influencia a decis\u00e3o das mulheres de n\u00e3o exercerem uma carreira cient\u00edfica: se havia menos mulheres cientistas, isso n\u00e3o se devia a uma natureza diferente e inferior das mulheres, mas porque a elas eram dadas menos oportunidades concretas de serem cientistas, mesmo movimento que Beauvoir percorre em <em>O segundo sexo<\/em>. Esses mitos, que perpetuam o c\u00edrculo vicioso, aparecem, como mostra Keller, na forma\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>N\u00e3o temos, portanto, apenas uma refer\u00eancia textual a Beauvoir, mas uma continua\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo proposto pela existencialista feminista: trazer \u00e0 tona os mitos perpetuados historicamente pela ci\u00eancia e, a partir da descri\u00e7\u00e3o, propor um outro modo de pensar a rela\u00e7\u00e3o entre subjetivo e objetivo. Tal como Beauvoir, Fox Keller n\u00e3o passa de um oposto ao outro. N\u00e3o se trata, para ela, de afirmar que a ci\u00eancia deve passar dos elementos objetividade\/raz\u00e3o\/c\u00e9rebro para subjetividade\/emo\u00e7\u00e3o\/corpo. A ci\u00eancia precisa do aspecto objetivo e racional. O problema, para ela, n\u00e3o est\u00e1 a\u00ed, mas no pensar a objetividade e a racionalidade como processos estanques e separados da subjetividade e emotividade, al\u00e9m de associar cada um desses pares a um g\u00eanero, o que, obviamente, \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que se quer passar como natural.\u00a0<\/p>\n<p>Nessa associa\u00e7\u00e3o, h\u00e1 dois problemas: naturalizar o feminino como apenas um dos \u00e2mbitos, e o masculino como apenas o outro; e afirmar que a ci\u00eancia se constr\u00f3i apenas por meio de um desses pares (sendo, portanto, em consequ\u00eancia do primeiro problema, a ci\u00eancia um lugar que os homens devem ocupar).\u00a0<\/p>\n<p>A esses problemas, Fox Keller responde que i) n\u00e3o h\u00e1 nada que permita associar o feminino apenas \u00e0 emotividade\/subjetividade\/corpo, assim como o masculino n\u00e3o pode ser associado apenas \u00e0 racionalidade\/objetividade\/c\u00e9rebro. Mais que isso, Keller tamb\u00e9m mostra que ii) o fazer cient\u00edfico n\u00e3o pode abandonar a objetividade e a racionalidade, mas ambas n\u00e3o existem sem os componentes de subjetividade e emotividade.<\/p>\n<p>Trata-se, pois, de mostrar a interdepend\u00eancia entre subjetividade e objetividade, emo\u00e7\u00e3o e raz\u00e3o, corpo e c\u00e9rebro, sem identific\u00e1-las a g\u00eaneros espec\u00edficos. Contra uma &#8220;objetividade est\u00e1tica&#8221;, com separa\u00e7\u00e3o estanque entre sujeito e objeto, Fox Keller prop\u00f5e uma &#8220;objetividade din\u00e2mica&#8221;, que admite, na racionalidade, a emo\u00e7\u00e3o; no c\u00e9rebro, o corpo; e na objetividade, a subjetividade.\u00a0<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de abandonar a pretens\u00e3o cient\u00edfica de objetividade, mas de pens\u00e1-la de forma mais din\u00e2mica e interligada \u00e0 subjetividade, do mesmo modo como em Beauvoir, em <em>O segundo sexo<\/em>, os pares n\u00e3o s\u00e3o pensados como separados e separ\u00e1veis, mas como interligados. No conflito natureza x hist\u00f3ria, Beauvoir n\u00e3o busca um dos lados, mas mostra que um lado s\u00f3 faz sentido se pensado em conjunto com outro. &#8220;Foi dito que a esp\u00e9cie humana era uma <em>antiphysis<\/em>. A express\u00e3o n\u00e3o \u00e9 inteiramente exata, porquanto o homem n\u00e3o poderia contradizer o dado, mas \u00e9 na maneira pela qual o assume que lhe constitui a verdade&#8221; (BEAUVOIR, 2016, vol. 1, p. 63). Ao combater as dicotomias estanques e est\u00e1ticas, Beauvoir e Fox Keller n\u00e3o optam por apenas um dos lados &#8211; s\u00f3 subjetividade\/hist\u00f3ria, ou s\u00f3 objetividade\/natureza -, mas por mostrar a impossibilidade de separar os dois termos.<\/p>\n<p>Assim, em Fox Keller tamb\u00e9m podemos ver, na den\u00fancia aos mitos do fazer cient\u00edfico, e na necessidade de pensar em termos de ambiguidade, alguns desdobramentos, agora nas ci\u00eancias naturais, do pensamento feminista existencialista.\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Mais contemporaneamente, na Filosofia, enfrentando a quest\u00e3o da submiss\u00e3o moral, Manon Garcia tamb\u00e9m se coloca como feminista existencialista. Em livro publicado em 2018, <em>On ne na\u00eet pas soumise, on le devient <\/em>[<em>N\u00e3o se nasce submissa, torna-se<\/em>]<em>, <\/em>a autora aplica o m\u00e9todo fenomenol\u00f3gico da descri\u00e7\u00e3o e a preocupa\u00e7\u00e3o com a condi\u00e7\u00e3o concreta das viv\u00eancias para compreender que a submiss\u00e3o aparece mais cotidianamente como experi\u00eancia feminina, o que n\u00e3o implica, por sua vez, uma essencializa\u00e7\u00e3o, nem uma falha moral. Garcia enfatiza a concretude das viv\u00eancias, e procura compreender, nas condi\u00e7\u00f5es das mulheres, como a quest\u00e3o da submiss\u00e3o se coloca sem ser uma natureza (seja ontol\u00f3gica ou estrutural), e sem ser uma escolha deliberada e individual.\u00a0<\/p>\n<p>Neste sentido, \u00e9 fundamental pensar a articula\u00e7\u00e3o entre estrutura e indiv\u00edduo. Garcia n\u00e3o opta por focar apenas em indiv\u00edduos, nem por focar apenas em estruturas. Fazer da submiss\u00e3o uma mera aplica\u00e7\u00e3o de uma vontade estrutural seria contribuir para anular ainda mais as subjetividades. A autora se coloca, a partir de Beauvoir, contra o essencialismo e tamb\u00e9m contra o que ela chama de construtivismo social forte.<\/p>\n<p>No reconhecimento da diferen\u00e7a sexual (que nada determina), \u00e9 preciso voltar-se para a sociedade e descrever o modo como essa diferen\u00e7a \u00e9 vista. O reconhecimento da situa\u00e7\u00e3o concreta \u00e9 fundamental como ponto de partida, e ignor\u00e1-la, seria, para Garcia, um ato de m\u00e1-f\u00e9. \u00c9 precisamente aqui\u00a0&#8211; na concep\u00e7\u00e3o de constru\u00e7\u00e3o social &#8211; que Beauvoir e Butler se distinguiriam, segundo Garcia, pois a fil\u00f3sofa estadunidense afirma que n\u00e3o h\u00e1 realidade independente de nossas pr\u00e1ticas ou linguagem, enquanto Beauvoir, mesmo pensando o dado tamb\u00e9m como socialmente situado, n\u00e3o rejeita as diferen\u00e7as biol\u00f3gicas como realidade.\u00a0<\/p>\n<p>Nessa descri\u00e7\u00e3o do concreto, Manon Garcia diferencia vontade ativa (quando h\u00e1 express\u00e3o de um desejo de determinada situa\u00e7\u00e3o) de vontade passiva (quando h\u00e1 falta de resist\u00eancia \u00e0 situa\u00e7\u00e3o dada). E, no caso da submiss\u00e3o, o que predomina \u00e9 a vontade passiva: no sistema patriarcal no qual existimos, submeter-se parece ser, para as mulheres, a melhor op\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, se a submiss\u00e3o aparece mais cotidianamente nas mulheres, n\u00e3o \u00e9 nem porque s\u00e3o totalmente v\u00edtimas nem porque s\u00e3o totalmente algozes, mas sim porque, na rela\u00e7\u00e3o entre estrutura e indiv\u00edduo, o custo das mulheres em se livrarem da submiss\u00e3o \u00e9 muito alto, de modo que a muitas a vontade passiva aparece como meio de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Sem falar especificamente do problema da submiss\u00e3o, Beauvoir j\u00e1 apontava que h\u00e1 opress\u00e3o (e n\u00e3o falha moral) quando a subjetividade \u00e9 transformada em objetividade por exig\u00eancia da sociedade. Nenhuma das duas autoras culpa ou julga individualmente as mulheres que se submetem, mas o que procuram fazer \u00e9 descrever os mecanismos da articula\u00e7\u00e3o entre subjetividade e estrutura que permitem compreender por que as mulheres t\u00eam mais dificuldade em colocar-se como &#8220;n\u00f3s&#8221;. Para Garcia, se a mulher se submete mais que os homens, \u00e9 porque a situa\u00e7\u00e3o concreta torna a manuten\u00e7\u00e3o da liberdade muito custosa para as mulheres.\u00a0<\/p>\n<p>Ao inv\u00e9s, ent\u00e3o, de se contentar em criticar a solidariedade entre os agressores, Garcia acha importante n\u00e3o apenas mudar o foco do agressor para a agress\u00e3o, mas dar um passo a mais: voltar-se para a viv\u00eancia das pr\u00f3prias mulheres da situa\u00e7\u00e3o que lhes \u00e9 dada; e, nessa articula\u00e7\u00e3o entre estrutura e subjetividades, pensar mecanismos concretos para que seja poss\u00edvel fugir do que parece ainda ser, muitas vezes, a \u00fanica op\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia: o consentimento das mulheres \u00e0 sua pr\u00f3pria submiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Para isso, compreender os pap\u00e9is tanto dos elementos estruturais quanto dos elementos subjetivos \u00e9 essencial, sem anular nenhum deles. Neste sentido, o m\u00e9todo existencialista \u00e9 fundamental na recupera\u00e7\u00e3o da perspectiva do corpo concreto, do corpo vivido e de como as mulheres vivem a impossibilidade\/dificuldade de se colocarem como corpo vivido, de sa\u00edrem do corpo apenas objetificado.\u00a0<\/p>\n<p>Podemos, assim, ver que a rela\u00e7\u00e3o entre existencialismo e feminismo tem se desdobrado contemporaneamente na \u00eanfase das viv\u00eancias,\u00a0das situa\u00e7\u00f5es,\u00a0 das concretudes singulares; na \u00eanfase dos corpos objetificados e tamb\u00e9m vividos. Contra uma filosofia da consci\u00eancia abstrata e superpoderosa, contra filosofias das racionalidades desconexas da realidade, o existencialismo coloca a exist\u00eancia como ponto de partida. Descrever o que aparece, pensar nas situa\u00e7\u00f5es como o lugar da articula\u00e7\u00e3o entre subjetividade e objetividade, indiv\u00edduo e mundo, \u00e9 fundamental.<\/p>\n<p>Mas, para al\u00e9m de um tema espec\u00edfico, principalmente o pr\u00f3prio m\u00e9todo existencialista se mostra importante. Sair de uma dicotomia estanque e est\u00e1tica, que separa os elementos, e escolhe s\u00f3 um dos lados (raz\u00e3o\/emo\u00e7\u00e3o; objetividade\/subjetividade; iman\u00eancia\/transcend\u00eancia; corpo\/consci\u00eancia; facticidade\/liberdade; estrutura\/indiv\u00edduo), e pensar em termos de ambiguidade, \u00e9 ponto-chave para a compreens\u00e3o de um feminismo existencialista, que tenta escapar de duas respostas que parecem contr\u00e1rias, mas que se identificam ao eliminar um dos termos da rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tal como a &#8220;objetividade din\u00e2mica&#8221; de Fox Keller, \u00e9 preciso pensar os elementos em uma rela\u00e7\u00e3o din\u00e2mica e necess\u00e1ria, sem anular um deles. Toda subjetividade se constr\u00f3i junto a um corpo n\u00e3o escolhido, a um olhar do outro que nos define \u00e0 nossa revelia, e em uma sociedade j\u00e1 constitu\u00edda; assim como todo corpo n\u00e3o escolhido existe junto ao modo como vivemos esse corpo, todo olhar do outro nos d\u00e1 uma natureza com a qual n\u00e3o nos fundimos, e toda sociedade s\u00f3 existe junto ao modo como as subjetividades nela existem.<\/p>\n<p>Trazer a tens\u00e3o entre esses elementos, que nem sempre se colocam em uma rela\u00e7\u00e3o totalmente harmoniosa, \u00e9 fundamental para o feminismo existencialista.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>4) Feminismo existencialista<\/p>\n<p>O feminismo existencialista atual pensa nas viv\u00eancias, no modo como nos colocamos no mundo e de como o mundo delineia situa\u00e7\u00f5es distintas para grupos diversos. N\u00e3o faz da subjetividade a soberana da situa\u00e7\u00e3o, nem da estrutura o aniquilamento das subjetividades. \u00c9 um feminismo que foca na experi\u00eancia, na compreens\u00e3o de que o real n\u00e3o se reduz \u00e0 linguagem. H\u00e1 sempre algo que escapa, algo que falta, e isso \u00e9 justamente o que nos constitui como seres humanos, e n\u00e3o como coisa. Assim, mais do que buscar linguagens que deem conta de todos os modos de viv\u00eancias (afinal, por serem subjetivos, eles s\u00e3o, portanto, infinitos), o feminismo existencialista compreende que a linguagem, bin\u00e1ria ou n\u00e3o, n\u00e3o d\u00e1 conta do que importa: o modo como cada um vivencia sua situa\u00e7\u00e3o dada. O feminismo existencialista enfatiza nossas a\u00e7\u00f5es, nosso modo de ser em um mundo n\u00e3o escolhido, que nos aliena de n\u00f3s mesmos, mas n\u00e3o nos determina.<\/p>\n<p>Neste sentido, para al\u00e9m da descri\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es dadas aos grupos vistos pela sociedade como distintos, o feminismo existencialista pensa possibilidades concretas de modifica\u00e7\u00e3o dessa situa\u00e7\u00e3o, de modo que \u00e0s mulheres sejam dadas condi\u00e7\u00f5es reais para realiza\u00e7\u00e3o de sua subjetividade.\u00a0<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, \u00e9 deste modo que Beauvoir finaliza <em>O segundo sexo<\/em>, apontando para a necessidade da liberta\u00e7\u00e3o concreta e efetiva das mulheres, o que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se n\u00e3o anularmos a subjetividade no processo hist\u00f3rico.\u00a0<\/p>\n<p>O feminismo existencialista prop\u00f5e, assim, ferramentas te\u00f3ricas e pr\u00e1ticas que apontam para o respeito ao modo singular como cada pessoa constr\u00f3i sua vida, e para a exig\u00eancia de oportunidades concretas iguais, n\u00e3o apenas econ\u00f4micas, mas tamb\u00e9m morais, sexuais, sociais e pol\u00edticas.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>Bakewell, S. (2017). <em>No caf\u00e9 existencialista<\/em>. Rio de Janeiro: Objetiva.<\/p>\n<p>Beauvoir, S. (1975). <em>Por qu\u00e9 soy feminista. <\/em>Entrevista dispon\u00edvel no Youtube, com legenda em espanhol.<\/p>\n<p>Beauvoir, S. (2008). <em>O existencialismo e a sabedoria das na\u00e7\u00f5es<\/em>. Lisboa: Esfera do Caos.<\/p>\n<p>Beauvoir, S. (2008). <em>A velhice<\/em>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.<\/p>\n<p>Beauvoir, S. (2016). <em>O segundo sexo<\/em>. 2 volumes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.<\/p>\n<p>Beauvoir, S. (2019). Simone de Beauvoir e o Existencialismo. DVD. Document\u00e1rio com entrevistas com Beauvoir. S\u00e3o Paulo: Vers\u00e1til.<\/p>\n<p>Bergoffen, D. (1996).\u00a0 <em>The Philosophy of Simone de Beauvoir<\/em>: <em>Gendered Phenomenologies, Erotic Generositie<\/em>. Nova Iorque: State University of New York Press.<\/p>\n<p>Candiani, H (2020). <em>Simone de Beauvoir. <\/em>https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/simone-de-beauvoir-2\/<\/p>\n<p>Fisher, L. (2000). Phenomenology and Feminism &#8211; Perspectives on their Relation. In Fisher, L; Embree, L. (Orgs.). <em>Feminist Phenomenology. <\/em>Dordrecht: Springer.<\/p>\n<p>Garcia, M. (2018). <em>On ne na\u00eet pas soumise, on le devient. <\/em>Paris: Climats.<\/p>\n<p>Johanson, I. (2018). Moral da ambiguidade, liberdade e liberta\u00e7\u00e3o: filosofia e feminismo em Simone de Beauvoir. <em>ETHIC@ (UFSC)<\/em>, v. 17, p. 239-257.<\/p>\n<p>Keller, E.F. (1995).\u00a0 <em>Reflections On Gender and Science<\/em>. New Haven e Londres: Yale University Press.<\/p>\n<p>Kirkpatrick, K. (2020). <em>Simone de Beauvoir: uma vida. <\/em>S\u00e3o Paulo: Planeta do Brasil.<\/p>\n<p>Le Doeuff, M. 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Beauvoir e a situa\u00e7\u00e3o das mulheres: entre subjetividade e facticidade. <em>ETHIC@ (UFSC), <\/em>v. 17, p. 217-237.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PDF &#8211; Feminismo e Existencialismo Foto: ULIENNE\/SIPA<\/p>\n","protected":false},"author":360,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","inline_featured_image":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"class_list":["post-975","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/975","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/360"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=975"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/975\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":987,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/975\/revisions\/987"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=975"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}