{"id":1017,"date":"2019-12-04T18:00:38","date_gmt":"2019-12-04T21:00:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/?p=1017"},"modified":"2019-12-12T06:09:29","modified_gmt":"2019-12-12T09:09:29","slug":"38","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/12\/04\/38\/","title":{"rendered":"Complica\u00e7\u00e3o, complexidade e criatividade musical"},"content":{"rendered":"<p><strong>Parte 2<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right\">Jos\u00e9 Fornari (Tuti) \u2013 04 de dezembro de 2019<\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><em>fornari @ unicamp . br<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p>No <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/11\/27\/36\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">artigo anterior<\/a>, eu tratei do que havia definido como sendo as 3 perspectivas da criatividade musical que comp\u00f5em o \u201c<i>nature<\/i>\u201d (natureza) da ess\u00eancia que permite com que uma obra musical se torne interessante para os ouvintes. Este fato depende dos processos criativos do ouvinte, do m\u00fasico int\u00e9rprete (da performance) e do compositor. Com rela\u00e7\u00e3o ao \u201c<i>nurture<\/i>\u201d (nutrir), este \u00e9 composto pelos elementos externos que influenciam as 3 atua\u00e7\u00f5es criativas, seja de modo espont\u00e2nea (como uma mudan\u00e7a sociocultural que engendra uma mudan\u00e7a est\u00e9tica) ou intencional, como \u00e9 o caso da \u201cind\u00fastria de cultura\u201d, termo cunhado pelo fil\u00f3sofo Theodor Adorno, rapidamente <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/05\/15\/20\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">mencionado anteriormente<\/a> que trata a produ\u00e7\u00e3o cultural e art\u00edstica (entre outras, a musical) como mercadoria, cuja produ\u00e7\u00e3o \u00e9 voltada a maximizar seu consumo pelos ouvintes (conforme vimos no <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/11\/27\/36\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">primeiro artigo desta s\u00e9rie<\/a>, sobre a ind\u00fastria do K-pop), ou mesmo fomentar ideologias hegem\u00f4nicas (como \u00e9 o caso da produ\u00e7\u00e3o musical que enaltece um padr\u00e3o comportamental interessante ao mercado).<\/p>\n<div id=\"attachment_1067\" style=\"width: 710px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1067\" class=\"wp-image-1067 size-large\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/12\/theylive-1024x576.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"394\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/12\/theylive-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/12\/theylive-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/12\/theylive-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/12\/theylive-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/12\/theylive-700x394.jpg 700w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/12\/theylive.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><p id=\"caption-attachment-1067\" class=\"wp-caption-text\">Cena do filme &#8220;They Live&#8221; de John Carpenter, que faz uma cr\u00edtica social ao consumismo, considerado pelo fil\u00f3sofo Slavoj \u017di\u017eek como um &#8220;tesouro esquecido de Hollywood&#8221;. Fontes: https:\/\/www.slantmagazine.com\/film\/they-live\/ \u00a0 \u00a0 http:\/\/trabalhosujo.com.br\/slavoj-zizek-sobre-they-live\/<\/p><\/div>\n<p>A criatividade \u00e9 aqui definida sob uma perspectiva evolutiva de produ\u00e7\u00e3o mental de novos e v\u00e1lidos conceitos. A meu ver, esta \u00e9 composta de dois processos independentes por\u00e9m cooperativos, que chamo aqui de <u>reprodu\u00e7\u00e3o<\/u> e <u>sele\u00e7\u00e3o<\/u> de conceitos originais e \u00fateis (ou seja, criativos). A reprodu\u00e7\u00e3o cria novos conceitos baseados em outros dois subprocessos, aqui chamdos de <u>combina\u00e7\u00e3o<\/u> e <u>varia\u00e7\u00e3o<\/u>. A combina\u00e7\u00e3o, como o nome sugere, combina elementos de outros conceitos anteriores, j\u00e1 conhecidos e estabelecidos, criando assim um novo conceito que pode ser visto como um tipo de \u201ccolagem\u201d de conceitos anteriores. A varia\u00e7\u00e3o insere pequenos ajustes e elementos novos nesse conceito rec\u00e9m criado, tornando-o \u00fanico; diferente de todos os conceitos anteriores. A a\u00e7\u00e3o constante do processo de reprodu\u00e7\u00e3o gera assim um conjunto crescente de conceitos novos; poss\u00edveis candidatos para serem utilizados em um dado objetivo (por exemplo, uma frase mel\u00f3dica ou po\u00e9tica para uma can\u00e7\u00e3o, uma poss\u00edvel solu\u00e7\u00e3o para um problema n\u00e3o determin\u00edstico, etc.). J\u00e1 o processo de sele\u00e7\u00e3o trata de eliminar os conceitos que n\u00e3o se adequam ao prop\u00f3sito da a\u00e7\u00e3o criativa daquele instante.<\/p>\n<div id=\"attachment_1070\" style=\"width: 439px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1070\" class=\"wp-image-1070 \" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/12\/Genetic-Algorithm-Tree-Basic-steps-of-GA-selection-crossover-and-mutation.jpg\" alt=\"\" width=\"429\" height=\"286\" \/><p id=\"caption-attachment-1070\" class=\"wp-caption-text\">Diagrama simplificado do processo evolutivo. Fonte: https:\/\/images.app.goo.gl\/yBxaxBTJDdmavnHS7<\/p><\/div>\n<p>A l\u00f3gica define 2 tipos de racioc\u00ednio: a <u>dedu\u00e7\u00e3o<\/u> e a <u>indu\u00e7\u00e3o<\/u>. A dedu\u00e7\u00e3o utiliza conceitos estabelecidos para gerar conclus\u00f5es (ex: sabendo-se que 1+1=2, ent\u00e3o, com certeza 2+1=(1+1)+1=3). A indu\u00e7\u00e3o testa novos conceitos (ex: se x\u02c62=4, ent\u00e3o x pode ser 2, mas tamb\u00e9m pode ser -2). A dedu\u00e7\u00e3o parte de uma teoria (algo que j\u00e1 se sabe, que acredita ser verdadeiro) e da\u00ed segue para gerar hip\u00f3teses, observa\u00e7\u00f5es e conclus\u00f5es. A indu\u00e7\u00e3o parte de algo que se sup\u00f5e (um conceito que se quer averiguar como verdadeiro ou falso), normalmente atrav\u00e9s de observa\u00e7\u00f5es, de onde segue para uma poss\u00edvel constata\u00e7\u00e3o de repeti\u00e7\u00f5es, ou seja: <u>padr\u00f5es<\/u>, de onde se constr\u00f3i uma hip\u00f3tese e, se esta for verificada, torna-se ent\u00e3o uma teoria. A meu ver, o processo dedutivo \u00e9 dogm\u00e1tico enquanto que o processo indutivo \u00e9 especulativo, ou seja, cient\u00edfico, mas ambos s\u00e3o utilizados tanto nas ci\u00eancias (por exemplo, a dedu\u00e7\u00e3o para aplicar um teorema) quanto nas cren\u00e7as (por exemplo, a indu\u00e7\u00e3o para ratificar um dogma) e nas artes (na cria\u00e7\u00e3o e utiliza\u00e7\u00e3o de uma teoria est\u00e9tica). Por\u00e9m, ambos juntos n\u00e3o explicam o processo criativo. Em outras palavras, se a dedu\u00e7\u00e3o usa o conceito verificado e a indu\u00e7\u00e3o verifica um conceito, como os conceitos s\u00e3o gerados? A resposta est\u00e1 numa terceira forma de racioc\u00ednio que a mente humana possui e realiza constantemente, por\u00e9m, ao contr\u00e1rio da dedu\u00e7\u00e3o e da indu\u00e7\u00e3o, a meu ver, este processo \u00e9 realizado de modo subconsciente. Este \u00e9 chamado de <u>abdu\u00e7\u00e3o<\/u>. A abdu\u00e7\u00e3o gera novos conceitos, os quais s\u00e3o posteriormente testados pelo racioc\u00ednio indutivo e utilizados pelo racioc\u00ednio dedutivo. O processo de gera\u00e7\u00e3o de conceitos originais e \u00fateis da abdu\u00e7\u00e3o, a meu ver, ocorre de modo subconsciente e se vale de processos mentais que podem ser explicados pelo modelo evolutivo de teoria da criatividade acima mencionado, envolvendo os processos de reprodu\u00e7\u00e3o e sele\u00e7\u00e3o. A meu ver, a misteriosa e insond\u00e1vel abdu\u00e7\u00e3o \u00e9 de fato a ess\u00eancia da criativa humana.<\/p>\n<div id=\"attachment_1068\" style=\"width: 379px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1068\" class=\"wp-image-1068\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/12\/esquema_abducao.jpg\" alt=\"\" width=\"369\" height=\"266\" \/><p id=\"caption-attachment-1068\" class=\"wp-caption-text\">As 3 formas de infer\u00eancia mental. Fonte: https:\/\/images.app.goo.gl\/eVQPiyzwgT9ycki98<\/p><\/div>\n<p>Estes 3 modelos que representam os modos mentais de infer\u00eancia nos permitem aprender e utilizar um conhecimento adquirido para entender e interagir com a complexidade, tanto externa e objetiva (o universo que nos cerca) quanto interna e subjetiva (o nosso universo interno, de nossas mem\u00f3rias, pensamentos e emo\u00e7\u00f5es). Sua fun\u00e7\u00e3o \u00e9 mais teleol\u00f3gica do que ontol\u00f3gica; ou seja, n\u00e3o nos interessa tanto entender a ess\u00eancia do complexo, tanto quanto nos interessa saber como interagir com a complexidade, e assim usa-la a nosso favor. Uma vez aptos a navegar numa determinada complexidade, estabelecem-se bases epistemol\u00f3gicas para compreende-la atrav\u00e9s de modelos filos\u00f3ficos ou da l\u00f3gica matem\u00e1tica, at\u00e9 que este deixe de ser complexo. Assim a ci\u00eancia avan\u00e7a e subimos mais um degrau na escada do conhecimento humano, onde podemos passar a interagir com novas e anteriormente insond\u00e1veis complexidades. Para mim, a fronteira entre ci\u00eancia e arte ocorre neste horizonte de complexidade; onde a arte intuitivamente interage com esta e a ci\u00eancia tenta compreende-la.<\/p>\n<div id=\"attachment_1069\" style=\"width: 518px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1069\" class=\"wp-image-1069 \" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/12\/mandel02.jpg\" alt=\"\" width=\"508\" height=\"385\" \/><p id=\"caption-attachment-1069\" class=\"wp-caption-text\">Fractal de Mandelbrot. Figura totalmente gerada por uma \u00fanica equa\u00e7\u00e3o determin\u00edstica n\u00e3o linear e consideradas por muitos como contendo significado est\u00e9tico. Fonte: https:\/\/images.app.goo.gl\/uyMTyKLRUMKUvD5KA<\/p><\/div>\n<p>A est\u00e9tica \u00e9 o ramo da filosofia que lida com a defini\u00e7\u00e3o e o entendimento do belo. Tem-se nesta uma natureza funcional (ou teleol\u00f3gica) direta, do que instiga nossas predile\u00e7\u00f5es (como as belas cores de uma fruta madura, pronta para servir de alimento) bem como uma natureza indireta (como uma flor, que nos \u00e9 bela apesar de n\u00e3o representar alimento ou a sacia\u00e7\u00e3o de qualquer outra necessidade fisiol\u00f3gica, mas que pode representar a promessa da futura ocorr\u00eancia de frutos e ca\u00e7a). O fil\u00f3sofo Daniel Dennett tem uma famosa palestra do TED, intitulada \u201c<i>Cute, Sexy, Sweet and Funny<\/i>\u201d (meigo, atraente, doce e engra\u00e7ado), que fala sobre a natureza evolutiva daquilo que nos atrai, seja pela ternura, sensualidade, sabor ou com\u00e9dia; cada qual cumprindo uma fun\u00e7\u00e3o evolutiva espec\u00edfica, importante para a sobreviv\u00eancia e a manuten\u00e7\u00e3o da nossa esp\u00e9cie.<\/p>\n<p><iframe title=\"Dan Dennett: Cute, sexy, sweet, funny\" width=\"700\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/TzN-uIVkfjg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong>:<\/p>\n<p>Abduction Stanford Encyclopedia of Philosophy <a href=\"https:\/\/plato.stanford.edu\/entries\/abduction\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/plato.stanford.edu\/entries\/abduction\/<\/a><\/p>\n<p>Novelty, complexity. and hedonic value <a href=\"https:\/\/link.springer.com\/content\/pdf\/10.3758\/BF03212593.pdf\">https:\/\/link.springer.com\/content\/pdf\/10.3758\/BF03212593.pdf<\/a><\/p>\n<p>Aesthetic Preference: Anomalous Findings for Berlyne&#8217;s Psychobiological Theory <a href=\"https:\/\/www.jstor.org\/stable\/1423259?seq=1\">https:\/\/www.jstor.org\/stable\/1423259?seq=1<\/a><\/p>\n<p>Matthew M. Hurley, Daniel C. Dennett and Reginald B. Adams, Jr. \u201cInside Jokes: Using Humor to Reverse-Engineer the Mind\u201d. An evolutionary and cognitive account of the addictive mind candy that is humor. MIT press. 2011.<a href=\"https:\/\/mitpress.mit.edu\/books\/inside-jokes\">https:\/\/mitpress.mit.edu\/books\/inside-jokes<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Como citar este artigo:<\/strong><\/p>\n<p>Jos\u00e9 Fornari. \u201cComplica\u00e7\u00e3o, complexidade e criatividade musical \u2013 parte 2\u201d. Blogs de Ci\u00eancia da Universidade Estadual de Campinas. ISSN 2526-6187. Data da publica\u00e7\u00e3o: 04 de dezembro de 2019. Link: <span class=\"edit-post-post-link__link-prefix\">https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/12\/04\/<\/span><span class=\"edit-post-post-link__link-post-name\">38<\/span><span class=\"edit-post-post-link__link-suffix\">\/<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/12\/04\/38\/\" rel=\"bookmark\" title=\"Link permanente Complica\u00e7\u00e3o, complexidade e criatividade musical\"><p>Parte 2 Jos\u00e9 Fornari (Tuti) \u2013 04 de dezembro de 2019 fornari @ unicamp . br No artigo anterior, eu tratei do que havia definido como sendo as 3 perspectivas da criatividade musical que comp\u00f5em o \u201cnature\u201d (natureza) da ess\u00eancia que permite com que uma obra musical se torne interessante para os ouvintes. 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