{"id":1020,"date":"2019-12-02T13:00:09","date_gmt":"2019-12-02T16:00:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/?p=1020"},"modified":"2019-12-12T06:03:29","modified_gmt":"2019-12-12T09:03:29","slug":"37","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/12\/02\/37\/","title":{"rendered":"M\u00fasica e surdez: uma r\u00e1pida introdu\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left\"><strong>ESPECIAL<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right\">Jos\u00e9 Fornari (Tuti) \u2013 02 de dezembro de 2019<\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><em>fornari @ unicamp . br<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p>Neste domingo o pessoal da coordena\u00e7\u00e3o dos blogs de ci\u00eancia da Unicamp me enviou <a href=\"https:\/\/tvefamosos.uol.com.br\/colunas\/leo-dias\/2019\/11\/28\/alok-fara-primeiro-show-de-musica-eletronica-acessivel-para-surdos.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">este link<\/a> de uma coluna da UOL da semana passada falando que um DJ fez, no \u00faltimo dia 30\/11, o primeiro show de m\u00fasica eletr\u00f4nica para surdos (ou seja, com tradu\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea para a linguagem de sinais brasileiros, Libras).<\/p>\n<p><iframe title=\"Curso B\u00e1sico de Libras (L\u00edngua Brasileira de Sinais) parte (1) de 03\" width=\"700\" height=\"525\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/WDAOH_5pN1g?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Lembrei que em mar\u00e7o deste ano fui convidado por alguns amigos m\u00fasicos da <a href=\"https:\/\/pt-br.facebook.com\/orquestrarock\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Orquestra Rock<\/a> a assistir um ensaio da <a href=\"http:\/\/www.showscampinas.com.br\/2019\/02\/melim-orquestra-rock-22032019-jaguariuna.html?m=1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">banda Melim<\/a> que se apresentou com a orquestra rock na Red, em Jaguari\u00fana. Acabei ficando para a apresenta\u00e7\u00e3o e me sentei num mezanino ao lado do palco, onde tinha visibilidade tanto do palco como de toda a plateia. De l\u00e1 pude ver que existia uma grande quantidade de surdos assistindo aquele show. Num canto do palco ficavam 2 tradutores de Libras, que se revezavam para traduzir simultaneamente tanto o que os artistas diziam para o p\u00fablico como as letras das can\u00e7\u00f5es, enquanto eram cantadas pelos integrantes da banda. Fiquei particularmente interessado em observar os grupos de surdos, pr\u00f3ximos do palco, que conversavam animadamente entre eles, em Libras, enquanto alguns deles olhavam languidamente para os artistas (obviamente eram f\u00e3s) e balan\u00e7avam o corpo como que numa leve dan\u00e7a surpreendentemente dentro do andamento das can\u00e7\u00f5es que n\u00e3o escutavam, mas sentiam, e repetiam em gestos mais brandos e curtos os mesmos gestos que os tradutores de Libras estavam realizando, que eram referentes \u00e0 letra da m\u00fasica que estava sendo cantadas pelos artistas. Ou seja, estes f\u00e3s surdos estavam cantando as can\u00e7\u00f5es que tanto gostavam, n\u00e3o em sons mas em gestos, do mesmo modo que f\u00e3s que ouvem balbuciam as letras das m\u00fasicas que os seus \u00eddolos cantam num show.<\/p>\n<p><iframe title=\"COMO TRADUZIR M\u00daSICA EM LIBRAS  \u2022 SURDO\" width=\"700\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/KWA8-TxsEH4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Alguns m\u00fasicos da orquestra rock, depois me disseram que esta pr\u00e1tica, de tradu\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea de shows pra Libras, tem sido comum em diversos shows. A can\u00e7\u00e3o, que \u00e9 sem d\u00favida a forma musical mais importante da m\u00fasica pop, \u00e9 composta por m\u00fasica e letra, normalmente melodia com andamento e tonalidade regular, bem como poesia regular, em termos de m\u00e9trica, rimas, pros\u00f3dia e significa\u00e7\u00e3o emotiva, todos sincronizados com os elementos sonoros que comp\u00f5em a melodia da can\u00e7\u00e3o (e que assim acaba tomando emprestado o significado da sua letra). Traduzir a poesia da letra para Libras \u00e9 uma tarefa relativamente f\u00e1cil j\u00e1 que ambas formas de comunica\u00e7\u00e3o permitem conter significado sem\u00e2ntico (defini\u00e7\u00e3o de objetos, qualidades e a\u00e7\u00f5es). J\u00e1 a m\u00fasica pura, sem letra, como \u00e9 o caso de uma sinfonia ou de grande parte da produ\u00e7\u00e3o de m\u00fasica eletr\u00f4nica pop, n\u00e3o tem o respaldo da significa\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica dada pela letra. Sua significa\u00e7\u00e3o musical extende-se da sintaxe (frases mel\u00f3dicas, acordes, cad\u00eancias, andamento, estruturas r\u00edtmicas, arranjos timbr\u00edsticos, etc.) \u00e0 significa\u00e7\u00e3o emotiva (os estados emocionais que a pros\u00f3dia sonora que comp\u00f5e a m\u00fasica representa e tenta evocar no ouvinte). Neste caso, imagino que a tradu\u00e7\u00e3o da m\u00fasica pura, sem letra, deva ser relacionada \u00e0 qualidades perceptuais sonoras e cognitivas musicais.<\/p>\n<p><iframe title=\"How Do Deaf People Listen To Music? (American Sign Language Vlog)\" width=\"700\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/nKrHhqOQ5mw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><span style=\"font-size: 12pt\"><strong>Obs: Este video n\u00e3o tem \u00e1udio, mas tem legenda (em Ingl\u00eas)<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Todos os sentidos humanos (que s\u00e3o mais do que cinco, como se costuma catalogar, contendo outras sensa\u00e7\u00f5es al\u00e9m da vis\u00e3o, audi\u00e7\u00e3o, paladar, tato e olfato, como por exemplo, a sensa\u00e7\u00e3o de calor, acelera\u00e7\u00e3o, dor e outros) s\u00e3o basicamente sensores biol\u00f3gicos (na maioria dos casos compostos por neur\u00f4nios especializados para reagir \u00e0 varia\u00e7\u00e3o de um dado est\u00edmulo) e trazem informa\u00e7\u00e3o ao c\u00e9rebro, na forma de potenciais de a\u00e7\u00e3o que caminham por nervos aferentes (feixes de ax\u00f4nios neurais que transportam a informa\u00e7\u00e3o das c\u00e9lulas sensoras ao c\u00e9rebro). Alguns desses est\u00edmulos s\u00e3o interpretados pelo c\u00e9rebro como vis\u00e3o, outros como audi\u00e7\u00e3o ou tato mas todos tem a mesma natureza biol\u00f3gica, pois s\u00e3o todos compostos por pulsos el\u00e9tricos que caminham por nervos e chegam ao mesmo destino; o c\u00e9rebro. Assim, por exemplo, quando um indiv\u00edduo est\u00e1 num estado alterado de consci\u00eancia, os diferentes sentidos podem se mesclar, o que \u00e9 chamado de \u201csinestesia\u201d; onde h\u00e1 relatos de indiv\u00edduos neste estado alterado de consci\u00eancia \u201cvendo sons\u201d ou \u201cescutando cores\u201d. Tamb\u00e9m observa-se cotidianamente como naturalmente usamos, sem perceber, adjetivos de um sentido pra descrever qualidades de outra natureza; por exemplo, ao dizer que um som \u00e9 brilhante ou opaco, uma voz \u00e9 \u00e1spera ou aveludada, ou que uma pessoa \u00e9 iluminada. Isto para mim \u00e9 indicador de que os sentidos talvez possuam uma natureza fundamental em comum e que a sua cataloga\u00e7\u00e3o distinta, em diferentes naturezas, ocorre em n\u00edveis processuais superiores, relacionados aos processos cognitivos da mente humana.<\/p>\n<p><iframe title=\"Seeing song through the ears of a synesthete\" width=\"700\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/1LUbxfnpez4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, penso ser poss\u00edvel, at\u00e9 certo ponto, traduzir para Libras informa\u00e7\u00e3o musical pura, desprovida de letra. Muitos dos est\u00edmulos sonoros j\u00e1 s\u00e3o percebidos por outras vias neurais al\u00e9m da audi\u00e7\u00e3o, como o tato que \u00e9 composto por mecanoreceptores (neur\u00f4nios localizados na pele, especializados em responder a est\u00edmulos mec\u00e2nicos, como press\u00e3o, deslocamento e vibra\u00e7\u00e3o). A audi\u00e7\u00e3o \u00e9 processada pelo mesmo princ\u00edpio, onde tais sensores est\u00e3o tamb\u00e9m dispostos numa regi\u00e3o espec\u00edfica das 2 c\u00f3cleas (localizadas nas 2 orelhas internas) onde o est\u00edmulo mec\u00e2nico provocado pelas ondas ac\u00fasticas que comp\u00f5em o som s\u00e3o convertidos em est\u00edmulos el\u00e9tricos dos potenciais de a\u00e7\u00e3o neurais que s\u00e3o interpretados pelo c\u00e9rebro como som. Aprendemos a interpretar este est\u00edmulo espec\u00edfico como som. O mesmo ocorre com um surdo, atrav\u00e9s de um fen\u00f4meno conhecido como neuroplasticidade, onde o seu c\u00e9rebro se adapta e passa a utilizar as \u00e1reas ociosas, que normalmente processariam informa\u00e7\u00e3o sonora (como o c\u00f3rtex auditivo), para processar informa\u00e7\u00e3o de outros est\u00edmulos (como o visual, ou t\u00e1til) que pode assim permitir a reinterpreta\u00e7\u00e3o de um est\u00edmulo mec\u00e2nico cut\u00e2neo (provocado pela varia\u00e7\u00e3o de press\u00e3o ac\u00fastica que comp\u00f5em as ondas sonoras na atmosfera) em som e desse modo em m\u00fasica.<\/p>\n<p>Tem muito, muito mais para se falar sobre estes assuntos que considero t\u00e3o interessantes, mas deixarei para futuras postagens maiores aprofundamentos sobre o temas da audi\u00e7\u00e3o, percep\u00e7\u00e3o, acessibilidade e neuroplasticidade, em sua rela\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Como citar este artigo:<\/strong><\/p>\n<p>Jos\u00e9 Fornari. \u201cM\u00fasica e surdez: uma r\u00e1pida introdu\u00e7\u00e3o\u201d. Blogs de Ci\u00eancia da Universidade Estadual de Campinas. ISSN 2526-6187. Data da publica\u00e7\u00e3o: 2 de dezembro de 2019. Link: <span class=\"edit-post-post-link__link-prefix\">https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/12\/02\/<\/span><span class=\"edit-post-post-link__link-post-name\">37<\/span><span class=\"edit-post-post-link__link-suffix\">\/<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/12\/02\/37\/\" rel=\"bookmark\" title=\"Link permanente M\u00fasica e surdez: uma r\u00e1pida introdu\u00e7\u00e3o\"><p>ESPECIAL Jos\u00e9 Fornari (Tuti) \u2013 02 de dezembro de 2019 fornari @ unicamp . br Neste domingo o pessoal da coordena\u00e7\u00e3o dos blogs de ci\u00eancia da Unicamp me enviou este link de uma coluna da UOL da semana passada falando que um DJ fez, no \u00faltimo dia 30\/11, o primeiro show de m\u00fasica eletr\u00f4nica para [&hellip;]<\/p>\n<\/a>","protected":false},"author":389,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[43,8],"tags":[7,10,11,14,3,60,2,15,18,17,13,5],"class_list":["post-1020","post","type-post","status-publish","format-standard","category-especiais","category-musicologia","tag-blog","tag-blogs","tag-jose-fornari","tag-josefornari","tag-musica","tag-musica-e-surdez-uma-rapida-introducao","tag-musicologia","tag-musicologia-na-midia","tag-nics","tag-tuti","tag-tutifornari","tag-unicamp","h-entry","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1020","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/389"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1020"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1020\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1083,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1020\/revisions\/1083"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1020"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1020"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1020"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}