{"id":1061,"date":"2019-12-09T18:27:24","date_gmt":"2019-12-09T21:27:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/?p=1061"},"modified":"2019-12-12T06:02:31","modified_gmt":"2019-12-12T09:02:31","slug":"39","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/12\/09\/39\/","title":{"rendered":"Complica\u00e7\u00e3o, complexidade e criatividade musical"},"content":{"rendered":"<p><strong>Parte 3<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right\">Jos\u00e9 Fornari (Tuti) \u2013 09 de dezembro de 2019<\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><em>fornari @ unicamp . br<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p>No <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/12\/04\/38\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">artigo anterior<\/a>, tratei da defini\u00e7\u00e3o de criatividade sob a perspectiva evolutiva, onde seus processos mentais constituintes s\u00e3o similares aos processos darwinianos de evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica das esp\u00e9cies. Em seguida, tratei rapidamente das 3 formas de infer\u00eancia do racioc\u00ednio humano e como estas dialogam com o processo criativo, a atra\u00e7\u00e3o (pelo que \u00e9 meigo, er\u00f3tico, saboroso ou engra\u00e7ado) e a est\u00e9tica.<\/p>\n<p>Esta forma de interpretar a est\u00e9tica tem suas ra\u00edzes no s\u00e9culo 19 DC, num campo da psicologia experimental conhecido como \u201cest\u00e9tica experimental\u201d, definida por Gustav T. Fechner. Esta, por sua vez, tem suas ra\u00edzes na \u201cpsicof\u00edsica\u201d, que estuda a rela\u00e7\u00e3o entre um est\u00edmulo f\u00edsico e a sua percep\u00e7\u00e3o. A est\u00e9tica experimental procura investigar experimentalmente a rela\u00e7\u00e3o entre a percep\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de um est\u00edmulo como a m\u00fasica atrav\u00e9s do som) e a sua predile\u00e7\u00e3o (ou repulsa). Dennett termina seu video (apresentado no <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/12\/04\/38\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">artigo anterior<\/a>)\u00a0tratando sobre a est\u00e9tica da com\u00e9dia, que ele chama de \u201c<i>joy of debugging<\/i>\u201d (o prazer de resolver um enigma), o que ele, juntamente com colegas, descreve como \u201cHurley model\u201d no livro \u201c<i>Inside Jokes<\/i>\u201d (link nas refer\u00eancias).<\/p>\n<p><iframe title=\"CARTA:  Is the Human Mind Unique? -- Daniel Dennett: Humor\" width=\"700\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/jmfMyfu4NX0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Eu penso que este segmento, que Dennett atribui apenas \u00e0 com\u00e9dia, pode ser estendido tamb\u00e9m para a est\u00e9tica art\u00edstica e musical. O prazer que temos ao apreciar uma obra musical passa pela identifica\u00e7\u00e3o, compreens\u00e3o e entendimento, em diversos n\u00edveis, desde os mais b\u00e1sicos e perceptuais, como o andamento, tonalidade, identifica\u00e7\u00e3o de instrumentos, vozes, seguido pelos entendimentos mais contextuais e complexos, como a identifica\u00e7\u00e3o do g\u00eanero musical, do estilo dos m\u00fasicos int\u00e9rpretes e da inser\u00e7\u00e3o sociocultural da obra musical. A est\u00e9tica experimental na m\u00fasica trata do entendimento sistem\u00e1tico dos processos que levam o ouvinte a identificar, a compreender e a antecipar a complexidade musical nos seus diversos e multidimensionais n\u00edveis de percep\u00e7\u00e3o, cogni\u00e7\u00e3o e afeto.<\/p>\n<p>A complexidade \u00e9 sistematicamente estudada pelo menos desde o s\u00e9culo 19 DC, com o surgimento da famosa curva de Wundt (posteriormente refinada por Daniel E. Berlyne, no s\u00e9culo 20 DC) com rela\u00e7\u00e3o ao seu valor hed\u00f4nico (um outro termo para se referir \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o, que eu considero adequado aqui, no sentido de diferenciar este tipo espec\u00edfico de prazer est\u00e9tico art\u00edstico). Isto traz outros 2 conceitos relacionados ao estudo da complexidade; a <u>novidade<\/u> e a <u>curiosidade<\/u>. A novidade \u00e9 determinada pela sensa\u00e7\u00e3o do quanto uma informa\u00e7\u00e3o nos parece nova. Um ru\u00eddo branco, por exemplo, gerado por um processo aleat\u00f3rio uniformemente distribu\u00eddo, \u00e9 informacionalmente sempre original (novo), por\u00e9m para a nossa percep\u00e7\u00e3o auditiva, este soa sempre igual.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"mep_0\" class=\"mejs-container mejs-container-keyboard-inactive wp-audio-shortcode mejs-audio mejs-hide-cues\" role=\"application\" aria-label=\"Audio Player\">\n<div class=\"mejs-controls\">\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-1061-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/12\/wn.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/12\/wn.mp3\">https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/12\/wn.mp3<\/a><\/audio>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1041 size-full\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/12\/Screen-Shot-2019-12-05-at-18.09.10.png\" alt=\"\" width=\"947\" height=\"382\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/12\/Screen-Shot-2019-12-05-at-18.09.10.png 947w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/12\/Screen-Shot-2019-12-05-at-18.09.10-300x121.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/12\/Screen-Shot-2019-12-05-at-18.09.10-768x310.png 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/12\/Screen-Shot-2019-12-05-at-18.09.10-700x282.png 700w\" sizes=\"(max-width: 947px) 100vw, 947px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><span style=\"background-color: transparent;font-size: 14.399999618530273px\"><span style=\"font-family: Georgia, serif\">Acima tem-se um arquivo \u00e1udio de um ru\u00eddo branco, criado atrav\u00e9s de um gerador de n\u00fameros aleat\u00f3rios. A figura\u00a0<\/span><\/span><span style=\"font-family: Georgia, serif\"><span style=\"font-size: 14.399999618530273px\">acima mostra um pequeno trecho deste mesmo \u00e1udio onde pode-se observar a aus\u00eancia de um padr\u00e3o (ou periodicidade), tornando-o acusticamente desprovido de padr\u00e3o mas auditivamente com um padr\u00e3o constante e facilmente identific\u00e1vel.\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Assim a \u201cnovidade\u201d perceptual n\u00e3o \u00e9 a mesma que a \u201cnovidade\u201d f\u00edsica; uma diferen\u00e7a psicof\u00edsica que \u00e9 fundamental para o entendimento da natureza da mente humana. A curiosidade \u00e9 o elemento mental impulsionador do \u201cjoy of debugging\u201d de Dennett. A curiosidade \u00e9 o elemento afetivo que nos motiva a sentir prazer em querer entender algo que nos \u00e9 velado por uma t\u00eanue cortina de complexidade. A curva de Wundt-Berlyne \u00e9 assim uma curva experimental, que relaciona valor hed\u00f4nico \u00e0 complexidade, da seguinte forma:<\/p>\n<div id=\"attachment_1043\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<p><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-1043 size-full\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/12\/Screen-Shot-2019-12-05-at-18.16.26.png\" alt=\"\" width=\"598\" height=\"312\" aria-describedby=\"caption-attachment-1043\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/12\/Screen-Shot-2019-12-05-at-18.16.26.png 598w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/12\/Screen-Shot-2019-12-05-at-18.16.26-300x157.png 300w\" sizes=\"(max-width: 598px) 100vw, 598px\" \/><\/p>\n<p id=\"caption-attachment-1043\" class=\"wp-caption-text\">Exemplifica\u00e7\u00e3o de uma curva hipot\u00e9tica de Wundt-Berlyne.<\/p>\n<\/div>\n<p>Cada indiv\u00edduo tem a sua pr\u00f3pria curva hed\u00f4nica, mas todas apresentam um formato similar a este descrito acima. A grande contribui\u00e7\u00e3o desta curva \u00e9 relacionar diversas defini\u00e7\u00f5es, como satisfa\u00e7\u00e3o\/insatisfa\u00e7\u00e3o, novidade, curiosidade, simples\/dif\u00edcil, complexo e complicado, em uma \u00fanica descri\u00e7\u00e3o pict\u00f3rica. Esta descreve o valor hed\u00f4nico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 complexidade, n\u00e3o apenas para m\u00fasica, mas para toda forma de comunica\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Deste modo, tem-se a rela\u00e7\u00e3o entre complexo e complicado. O que determina se algo \u00e9 complexo para um indiv\u00edduo depende de muitos fatores, como aten\u00e7\u00e3o, percep\u00e7\u00e3o, bagagem cultural, intelig\u00eancia anal\u00edtica e predile\u00e7\u00e3o est\u00e9tica. Assim, a complexidade \u00e9 percebida de modo diferente para cada indiv\u00edduo, em cada forma de comunica\u00e7\u00e3o. A partir do momento em que a percep\u00e7\u00e3o de complexidade torna-se tal que esta \u00e9 ingerenci\u00e1vel pelo racioc\u00ednio do indiv\u00edduo, seu valor hed\u00f4nico cruza a fronteira do satisfat\u00f3rio para o insatisfat\u00f3rio e a comunica\u00e7\u00e3o passa a ser percebida como \u201ccomplicada\u201d, onde o indiv\u00edduo passa a experimentar emo\u00e7\u00f5es de repulsa, desde a ansiedade at\u00e9 a raiva, que o convidam a abandonar a tarefa. O complicado \u00e9 o complexo mentalmente ingerenci\u00e1vel.<\/p>\n<p>Do mesmo modo, no extremo oposto, a comunica\u00e7\u00e3o muito rudimentar e simples para o indiv\u00edduo pode despertar emo\u00e7\u00f5es relacionadas ao t\u00e9dio e, apesar de n\u00e3o estarem descritas na curva de Wundt-Berlyne, tamb\u00e9m podem vir a ser insatisfat\u00f3rias (quem j\u00e1 sentiu t\u00e9dio prolongado sabe do que estou falando). O ponto \u00f3timo da complexidade comunicacional \u00e9 individual e atinge um pico de satisfa\u00e7\u00e3o ao combinar adequadamente conceitos conhecidos com conceitos originais. Na m\u00fasica percebe-se isso nas can\u00e7\u00f5es de maior sucesso, como as que s\u00e3o apresentadas no filme <i>Yesterday<\/i>, que mencionei na introdu\u00e7\u00e3o da <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/11\/27\/36\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">primeira parte desta discuss\u00e3o<\/a>. A meu ver, a inten\u00e7\u00e3o do compositor deveria ser a de criar estruturas musicais que sejam devidamente complexas, para instigar os ouvintes a desvenda-las mas sem exceder sua complexidade a um dado ponto onde esta passa a ser percebida como complicada pelo ouvinte, que muito provavelmente abandonar\u00e1 a escuta por n\u00e3o sere mais capaz de resolver os enigmas musicais contidos na composi\u00e7\u00e3o. Este \u00e9 um comportamento recorrente da grande maioria dos compositores eruditos contempor\u00e2neos, que tem uma bagagem intelectual e at\u00e9 perceptual acima da m\u00e9dia da popula\u00e7\u00e3o de ouvintes e assim comp\u00f5em m\u00fasicas que s\u00f3 poder\u00e3o ser de fato apreciadas por seus pares. A m\u00fasica pop, por outro lado, como \u00e9 acossada pelos desid\u00e9rios do mercado (onde os mais famosos artistas s\u00e3o sempre os que mais vendem) tem naturalmente uma preocupa\u00e7\u00e3o com o que o ouvinte quer ouvir. Desse modo, a produ\u00e7\u00e3o pop espontaneamente segue perfeitamente a curva hed\u00f4nica de Wundt-Berlyne, mesmo que n\u00e3o a conhe\u00e7a. Ambos s\u00e3o necess\u00e1rios. A experimenta\u00e7\u00e3o intelectual divorciada das plateias e a est\u00e9tica reacion\u00e1ria da ind\u00fastria cultural cumprem pap\u00e9is importantes em reconstruir e representar a filogenia emocional que constitui os valores a anseios da sociedade contempor\u00e2nea expressos pela produ\u00e7\u00e3o musical.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong>:<\/p>\n<p>Abduction Stanford Encyclopedia of Philosophy <a href=\"https:\/\/plato.stanford.edu\/entries\/abduction\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/plato.stanford.edu\/entries\/abduction\/<\/a><\/p>\n<p>Novelty, complexity. and hedonic value <a href=\"https:\/\/link.springer.com\/content\/pdf\/10.3758\/BF03212593.pdf\">https:\/\/link.springer.com\/content\/pdf\/10.3758\/BF03212593.pdf<\/a><\/p>\n<p>Aesthetic Preference: Anomalous Findings for Berlyne\u2019s Psychobiological Theory <a href=\"https:\/\/www.jstor.org\/stable\/1423259?seq=1\">https:\/\/www.jstor.org\/stable\/1423259?seq=1<\/a><\/p>\n<p>Matthew M. Hurley, Daniel C. Dennett and Reginald B. Adams, Jr. \u201cInside Jokes: Using Humor to Reverse-Engineer the Mind\u201d. An evolutionary and cognitive account of the addictive mind candy that is humor. MIT press. 2011.<a href=\"https:\/\/mitpress.mit.edu\/books\/inside-jokes\">https:\/\/mitpress.mit.edu\/books\/inside-jokes<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Como citar este artigo:<\/strong><\/p>\n<p>Jos\u00e9 Fornari. \u201cComplica\u00e7\u00e3o, complexidade e criatividade musical \u2013 parte 3\u201d. Blogs de Ci\u00eancia da Universidade Estadual de Campinas. ISSN 2526-6187. Data da publica\u00e7\u00e3o: 09 de dezembro de 2019. Link: <span class=\"edit-post-post-link__link-prefix\">https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/12\/09\/<\/span><span class=\"edit-post-post-link__link-post-name\">39<\/span><span class=\"edit-post-post-link__link-suffix\">\/<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/12\/09\/39\/\" rel=\"bookmark\" title=\"Link permanente Complica\u00e7\u00e3o, complexidade e criatividade musical\"><p>Parte 3 Jos\u00e9 Fornari (Tuti) \u2013 09 de dezembro de 2019 fornari @ unicamp . br No artigo anterior, tratei da defini\u00e7\u00e3o de criatividade sob a perspectiva evolutiva, onde seus processos mentais constituintes s\u00e3o similares aos processos darwinianos de evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica das esp\u00e9cies. 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