{"id":1203,"date":"2020-01-24T23:30:36","date_gmt":"2020-01-25T02:30:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/?p=1203"},"modified":"2020-01-25T17:17:47","modified_gmt":"2020-01-25T20:17:47","slug":"46","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2020\/01\/24\/46\/","title":{"rendered":"Liberdade, criatividade e m\u00fasica"},"content":{"rendered":"<p><strong>Parte 2<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right\">Jos\u00e9 Fornari (Tuti) \u2013 24 de janeiro de 2020<\/p>\n<p style=\"text-align: right\">fornari @ unicamp . br<\/p>\n<hr \/>\n<p>No <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2020\/01\/17\/45\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">artigo anterior<\/a> eu tratei do determinismo e da sua incompletude, tanto cient\u00edfica quanto art\u00edstica, e assim tamb\u00e9m musical. Apesar de Einstein ter sido ferrenhamente determinista (como ele mesmo se intitulava, mencionado no <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2020\/01\/17\/45\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">artigo anterior<\/a>), onde acreditava que tudo pode ser completamente explicado por uma equa\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica formal (determin\u00edstica, ou seja, n\u00e3o probabil\u00edstica), \u00e9 tamb\u00e9m atribu\u00edda a ele a seguinte frase: &#8220;<i>Imagination is more important than knowledge. Knowledge is limited. Imagination encircles the world<\/i>&#8220;. Isto parece paradoxal, pelo menos a princ\u00edpio. Einstein considerava a imagina\u00e7\u00e3o, ou seja, a criatividade (algo ca\u00f3tico, que talvez s\u00f3 possa ser parcialmente explicado por um modelo probabil\u00edstico), como um atributo da mente humana, que \u00e9 mais importante do que o seu conhecimento formal (determin\u00edstico). Por exemplo, um livro registra conhecimento, por\u00e9m n\u00e3o o imagina nem o utiliza. S\u00f3crates, o fil\u00f3sofo mais importante de toda a hist\u00f3ria do pensamento ocidental, nunca escreveu um livro, ou mesmo registrou seus pensamentos filos\u00f3ficos de qualquer forma permanente. Diz-se que S\u00f3crates n\u00e3o confiava no pensamento registrado na forma de escrita. Ele afirmava que a pr\u00e1tica da leitura traria o esquecimento \u00e0 alma (consci\u00eancia) do leitor pois este passaria a acreditar mais nas palavras e nas frases do que em sua interpreta\u00e7\u00e3o daquele conhecimento, que equivaleria \u00e0 diferen\u00e7a entre memorizar e lembrar. Por outro lado, s\u00f3 sabemos destes e outros brilhantes pensamentos do passado gra\u00e7as ao seu registro dado pela escrita e acesso pela leitura. Acho que a diferen\u00e7a est\u00e1 em saber interpretar os fatos e utilizar adequadamente os recursos; saber ler nas entrelinhas, n\u00e3o somente o que est\u00e1 escrito mas porque foi escrito. No processo de ponderar, rememorar e sintetizar, de modo a destilar da informa\u00e7\u00e3o lida apenas aquilo que de fato interessa, entra em cena a criatividade.<\/p>\n<p>Apesar de sua estrondosa carreira cient\u00edfica, sendo considerado por muitos como o f\u00edsico mais importante de toda a hist\u00f3ria da humanidade (segundo uma pesquisa realizada pela <i>Physics World magazine<\/i>, em 1999) Einstein era mais conhecido pela sua criatividade do que pelo seu conhecimento. Einstein era tamb\u00e9m um violinista muito competente, capaz de executar pe\u00e7as cl\u00e1ssicas de significativa beleza e complexidade.<\/p>\n<p><iframe title=\"Einstein plays: Mozart violin sonata b flat major k.378\" width=\"700\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/BdUaNVPI1nU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Apesar da criatividade ser um processo ca\u00f3tico, no sentido de que ningu\u00e9m, nem mesmo o que cria, sabe se e quando um resultado esperado ser\u00e1 obtido, esta necessita da ordem, de regras e de estruturas para que o processo criativo possa se sustentar. Talvez a paix\u00e3o pelo determinismo de Einstein seja similar \u00e0 sua paix\u00e3o pela m\u00fasica cl\u00e1ssica, onde a estrutura musical \u00e9 r\u00edgida. Nao h\u00e1 improvisa\u00e7\u00f5es. As notas que comp\u00f5em uma pe\u00e7a musical erudita cl\u00e1ssica s\u00e3o imut\u00e1veis e perfeitamente dispostas numa forma de programa\u00e7\u00e3o organizada ao longo do tempo, chamada de partitura, que atrav\u00e9s de s\u00edmbolos da nota\u00e7\u00e3o musical determina exatamente qual, quando e como cada nota deve ser executada pelo m\u00fasico. No entanto, a execu\u00e7\u00e3o verbatim de uma partitura (por exemplo, aquela realizada por um software musical, que executar\u00e1 qualquer pe\u00e7a musical sem erros, exatamente como foi escrita) \u00e9 irremediavelmente enfadonha. A pequena, diminuta fresta de liberdade, quase que impercept\u00edvel, que est\u00e1 na fronteira entre a habilidade e a incompet\u00eancia (de inserir ou tentar evitar o erro humano, na execu\u00e7\u00e3o do instrumentista humano), \u00e9 o que faz toda a diferen\u00e7a. Ao inserir varia\u00e7\u00f5es de tempo, dura\u00e7\u00e3o e intensidade nas notas que executa, o interprete humano comp\u00f5e a sua interpreta\u00e7\u00e3o, que pode ser desde med\u00edocre at\u00e9 genial, mesmo que todas suas interpreta\u00e7\u00f5es da mesma pe\u00e7a executem corretamente todas as notas de uma dada obra musical. Esta \u00e9 a parte n\u00e3o escrita de uma partitura, que um software musical n\u00e3o consegue executar mas que permite ao m\u00fasico humano interpretar uma pe\u00e7a musical e assim demonstrar sua criatividade ao executar uma obra musical formal (ou seja, determin\u00edstica).<\/p>\n<p>Eu sempre lembro de um epis\u00f3dio que ocorreu na \u00e9poca que eu cursava a faculdade de m\u00fasica popular (modalidade piano, na Unicamp). Na \u00e9poca eu resolvi tamb\u00e9m fazer algumas aulas de piano erudito, para aperfei\u00e7oar a minha t\u00e9cnica e interpreta\u00e7\u00e3o. Assim, treinei algumas pe\u00e7as do repert\u00f3rio cl\u00e1ssico, e entre elas, uma que eu dediquei bastante tempo decorando e depurando, foi a sonata pat\u00e9tica, de Beethoven.<\/p>\n<pre>Annie Fischer (interpreta\u00e7\u00e3o muito melhor do que a melhor de minhas antigas interpreta\u00e7\u00f5es)<\/pre>\n<p><iframe title=\"Beethoven: Sonata &quot;Pathetique&quot; Op. 13 - I. Grave. Allegro di molto e con brio\" width=\"700\" height=\"525\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/kqvBJc9IovI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Na \u00e9poca, me indicaram uma professora particular (esqueci o nome dela) que era considerada excelente pelos alunos do curso de piano erudito. Esta senhora vinha de S\u00e3o Paulo para Campinas uma vez por semana, para dar aulas particulares de piano da regi\u00e3o. Marquei um hor\u00e1rio e fui visita-la. Ela me recebeu. Era uma senhora com bastante idade, que j\u00e1 apresentava certa dificuldade de para caminhar, tinha m\u00e3os bem pequenas e aparentava para mim (na \u00e9poca, jovem, com muita energia e t\u00e9cnica pian\u00edstica), de uma certa fragilidade preocupante. Ela me perguntou se eu poderia tocar alguma pe\u00e7a para ela me ouvir. Eu, mais do que depressa, me sentei ao piano e toquei as primeiras p\u00e1ginas da pat\u00e9tica, que sabia t\u00e3o bem. Ela me escutou com aten\u00e7\u00e3o. Depois me disse que estava muito bem, mas que ela teria interpretado de outra forma. Eu levantei do piano um pouco intrigado. Ela se sentou. Enquanto ela se ajeitava, eu tentava imaginar o que ela poderia fazer de diferente ou melhor do que eu havia feito ao tocar esta pe\u00e7a. J\u00e1 estava preparado para ouvir uma vers\u00e3o titubeante, geri\u00e1trica, com bem menos t\u00e9cnica do que a minha, e depois disso ter que fingir algum interesse antes de desaparecer de l\u00e1 para sempre. No entanto, quando ela tocou esta pe\u00e7a (e eram as mesma notas que eu havia acabado de tocar), eu fiquei chocado. Aquela pe\u00e7a parecia uma outra m\u00fasica, similar ao que eu havia realizado, no entanto; melhor, com mais profundidade, mais nuances, maior complexidade e nexo. Enfim, era uma interpreta\u00e7\u00e3o obviamente muito mais bela do que a que eu havia realizado. Como eu disse acima, esqueci o nome dessa grande professora e pianista, mas creio que jamais esquecerei a maneira formid\u00e1vel como ela tocou e assim a certeza de como a interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental para a m\u00fasica.<\/p>\n<p>Na minha opini\u00e3o, criatividade \u00e9 o nome que se d\u00e1 ao processo que une m\u00e9todo \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o. Estruturas s\u00e3o importantes para alicer\u00e7arem a constru\u00e7\u00e3o daquilo que \u00e9 novo, por isso a criatividade necessita do pensamento formal, determinista, para expressar o novo e exprimir o belo. A criatividade musical se baseia numa estrutura tripartida: 1) a criatividade do compositor, que se baseia no processo subjetivo de suas infer\u00eancias abdutivas apoiadas pelos processos indutivos (de testar) e dedutivos (de aplicar) seu conhecimento musical, bem como das interrela\u00e7\u00f5es destes com sua \u00e9poca, g\u00eanero e interveni\u00eancias socioculturais de sua comunidade; 2) a criatividade do interprete, que opera no n\u00edvel subliminal de varia\u00e7\u00e3o de tempo, dura\u00e7\u00e3o e intensidade musical das notas que executa, para poder assim expressar novas leituras de uma mesma composi\u00e7\u00e3o (algumas vezes sequer concebidas pelo pr\u00f3prio compositor que a criou); e 3) a criatividade do ouvinte, que escuta a obra e, baseado em sua mem\u00f3ria e predile\u00e7\u00e3o pessoal e social, tece uma cadeia de expectativas musicais, antecipando eventos sonoros e, desse modo, sendo emocionalmente afetado pela sua teia de constata\u00e7\u00f5es e surpresas. \u00c9 preciso uma certa restri\u00e7\u00e3o de op\u00e7\u00f5es, imposta pela estrutura formal de uma pe\u00e7a ou g\u00eanero musical, para que o interprete possa de fato ser livre para exercer a sua criatividade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n<p>Albert Einstein? Apocryphal? https:\/\/quoteinvestigator.com\/2013\/01\/01\/einstein-imagination\/ 1929 October 26, The Saturday Evening Post, What Life Means to Einstein: An Interview by George Sylvester Viereck, Start Page 17, Quote Page 117, Column 1, Saturday Evening Post Society, Indianapolis, Indiana. (Verified on microfilm)<\/p>\n<p>Socrates on the Forgetfulness that Comes with Writing https:\/\/newlearningonline.com\/literacies\/chapter-1\/socrates-on-the-forgetfulness-that-comes-with-writing<\/p>\n<p>Poll Reveals All-Star Physicists https:\/\/www.aps.org\/publications\/apsnews\/200002\/top10.cfm<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Como citar este artigo:<\/strong><\/p>\n<p>Jos\u00e9 Fornari. \u201cLiberdade, criatividade e m\u00fasica &#8211; parte 2\u201d. Blogs de Ci\u00eancia da Universidade Estadual de Campinas. ISSN 2526-6187. Data da publica\u00e7\u00e3o: 24 de janeiro de 2020. Link: https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2020\/01\/24\/46\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2020\/01\/24\/46\/\" rel=\"bookmark\" title=\"Link permanente Liberdade, criatividade e m\u00fasica\"><p>Parte 2 Jos\u00e9 Fornari (Tuti) \u2013 24 de janeiro de 2020 fornari @ unicamp . br No artigo anterior eu tratei do determinismo e da sua incompletude, tanto cient\u00edfica quanto art\u00edstica, e assim tamb\u00e9m musical. 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