{"id":1289,"date":"2021-04-04T12:00:00","date_gmt":"2021-04-04T15:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/?p=1289"},"modified":"2021-04-07T12:45:40","modified_gmt":"2021-04-07T15:45:40","slug":"krautrock-stockhausen-elektronische-musik-e-o-legado-para-a-musica-pop","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2021\/04\/04\/krautrock-stockhausen-elektronische-musik-e-o-legado-para-a-musica-pop\/","title":{"rendered":"Krautrock: Stockhausen, elektronische musik e o legado para a m\u00fasica pop"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><strong><em>Leonardo Porto Passos<\/em> <\/strong>&#8211; 4 de abril de 2021 <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">leoportopassos @ gmail.com<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0<\/p>\n<hr \/>\n<ol start=\"1971\">\n<li>H\u00e1 50 anos, Karlheinz Stockhausen j\u00e1 era um compositor consagrado e tornava-se professor de composi\u00e7\u00e3o na Universidade de M\u00fasica e Dan\u00e7a de Col\u00f4nia (<i>Hochschule f\u00fcr Musik und Tanz K\u00f6ln<\/i>, onde lecionou at\u00e9 1977), Alemanha, cidade pr\u00f3xima ao vilarejo de K\u00fcrten, na qual ele vivia desde 1965 e permaneceu at\u00e9 os anos finais de sua vida.<\/li>\n<\/ol>\n<p>1971 tamb\u00e9m foi o ano em que Stockhausen comp\u00f4s suas pe\u00e7as musicais <i>Sternklang<\/i> e <i>Trans<\/i>, suas composi\u00e7\u00f5es de n\u00famero 34 e 35, respectivamente. A primeira \u00e9 uma \u201cm\u00fasica de parque\u201d para ser executada ao ar livre por 21 cantores e instrumentistas (incluindo sintetizadores) divididos em cinco grupos de quatro pessoas, em locais esparsos, com consider\u00e1vel dist\u00e2ncia entre si. Os artistas s\u00e3o captados por microfones e amplificados em alto-falantes, e um percussionista fica numa regi\u00e3o central para ajudar a sincronizar os cinco grupos. J\u00e1 a segunda \u00e9 um trabalho orquestral semiacusm\u00e1tico, pois os m\u00fasicos mais ativos ficam escondidos da vista do p\u00fablico, enquanto, aos olhos da plateia, 42 instrumentistas de cordas (incluindo um \u00f3rg\u00e3o el\u00e9trico) realizam par\u00f3dias da m\u00fasica erudita moderna e um enorme tear de madeira em atividade se move pelo palco, realizando em conjunto uma obra on\u00edrica, baseada em um sonho do compositor.<\/p>\n<p><iframe title=\"Music Masters - s01e01 - Stockhausen\" width=\"700\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/WQJr0sRvHK8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Stockhausen n\u00e3o foi o primeiro compositor a utilizar instrumentos ou equipamentos eletr\u00f4nicos em suas obras. Antes dele, experimentos em m\u00fasica eletroac\u00fastica vinham sendo realizados por vanguardistas como John Cage, Pierre Schaeffer (<i>Musique Concr\u00e8te<\/i> francesa) e Herbert Eimert e Werner Meyer-Eppler (<i>Elektronische Musik<\/i> alem\u00e3, termo criado por Meyer-Eppler), fundadores do Est\u00fadio de M\u00fasica Eletr\u00f4nica (<i>Studio f\u00fcr Elektronische Musik<\/i>, da emissora de r\u00e1dio alem\u00e3 <i>Westdeutscher Rundfunk K\u00f6ln<\/i>), o primeiro est\u00fadio do g\u00eanero do mundo, na mesma Col\u00f4nia onde viveu Stockhausen, que come\u00e7ou a frequentar o est\u00fadio em 1951 e l\u00e1 gravou duas composi\u00e7\u00f5es: <i>Elektronische Studien I e II<\/i> (1953-54, suas composi\u00e7\u00f5es de n\u00ba 3) e <i>Gesang der J\u00fcnglinge<\/i> (1955-56, composi\u00e7\u00e3o n\u00ba 8). Portanto, Munique e Berlim n\u00e3o eram os \u00fanicos centros de experimenta\u00e7\u00e3o na \u00e9poca. O cora\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica europeia era em Col\u00f4nia. E ainda que Stockhausen n\u00e3o tenha sido o pioneiro da m\u00fasica eletr\u00f4nica, ele foi um dos mais prof\u00edcuos, e provavelmente o maior influenciador de uma gera\u00e7\u00e3o de jovens m\u00fasicos que fizeram parte daquilo que viria a ser conhecido como <b>krautrock<\/b>.<\/p>\n<p><iframe title=\"WDR Studio fu\u0308r Elektronische Musik 2018 (Visit)\" width=\"700\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/wD89pJXQvWE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Toda uma gera\u00e7\u00e3o de jovens \u2013 em grande parte filhos de simpatizantes do nazismo durante a Segunda Guerra que agora se calavam diante de todas as atrocidades ocorridas \u2013 se rebelara contra o legado de seu pa\u00eds nas duas grandes guerras, e isso eclodiu nos protestos dos movimentos estudantis de 1968 na Alemanha Ocidental, marcados pela rejei\u00e7\u00e3o ao tradicionalismo e \u00e0s autoridades alem\u00e3s, que inclu\u00edam diversos ex-oficiais do regime nazista. A liga\u00e7\u00e3o do krautrock com a extrema esquerda era \u00edntima, e da\u00ed infere-se a grande rejei\u00e7\u00e3o \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es e ao conservadorismo alem\u00e3es. Em 1967, surgiu em Munique o coletivo radical de arte pol\u00edtica Amon D\u00fc\u00fcl, que realizava shows e <i>happenings<\/i> de improvisa\u00e7\u00e3o livre, e que deu origem \u00e0 banda Amon D\u00fc\u00fcl II, um dos grupos seminais do krautrock. Entre os apoiadores do coletivo, estavam os diretores de cinema Wim Wenders, Rainer Werner Fassbinder e Werner Herzog, este \u00faltimo, inclusive, teve algumas trilhas musicais de alguns de seus filmes compostas pela banda Popol Vuh, que tinha estreitas liga\u00e7\u00f5es com a Amon D\u00fc\u00fcl II. A pol\u00eamica se d\u00e1 por conta de dois famigerados seguidores do coletivo: Andreas Baader e Gudrun Ensslin, fundadores do Rote Armee Fraktion &#8211; RAF (Fra\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito Vermelho), ou Grupo Baader-Meinhof, como era comumente chamado pela imprensa alem\u00e3, uma organiza\u00e7\u00e3o guerrilheira de extrema-esquerda fundada em 1970 na Alemanha Ocidental e dissolvida em 1998.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da rejei\u00e7\u00e3o \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es e ao passado nazista, a juventude alem\u00e3 carecia de representatividade nas artes e na m\u00fasica, principalmente diante do <i>schlager<\/i>, um estilo de m\u00fasica popular de entretenimento predominante na \u00e9poca, com melodias singelas, quase caricatas, e letras sentimentalistas e ing\u00eanuas. De acordo com Dieter Moebius (Kluster, Cluster e Harmonia): \u201c<i>Schlager<\/i> \u00e9 m\u00fasica com letras e melodias est\u00fapidas que todo mundo adora\u201d (KRAUTROCK, 2009). E o que n\u00e3o era <i>schlager<\/i> eram releituras ou c\u00f3pias da cultura pop estrangeira. \u201cAt\u00e9 o final dos anos 1960, tudo vinha de fora. Tudo era imita\u00e7\u00e3o, principalmente das bandas inglesas. Isso era normal, principalmente depois da devasta\u00e7\u00e3o sofrida pela cultura alem\u00e3. N\u00e3o eram apenas as cidades que estavam em ru\u00ednas, mas toda a cultura que estava em ru\u00ednas. As mentes estavam em ru\u00ednas. Tudo estava arruinado\u201d, como bem descreve Irmin Schmidt (STUBBS, 2015), tecladista do Can.<\/p>\n<p><iframe title=\"&quot;Krautrock \u2013The Rebirth of Germany&quot; (2009) [English\/Fran\u00e7ais\/Espa\u00f1ol\/Italiano\/Portugu\u00e9s subs] BBC 4\" width=\"700\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/QP5dOKTB3ng?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen title=\"\"Krautrock \u2013The Rebirth of Germany\" (2009) [English\/Fran\u00e7ais\/Espa\u00f1ol\/Italiano\/Portugu\u00e9s subs] BBC 4\"><\/iframe><\/p>\n<p>Os traumas e as consequ\u00eancias decorrentes da Alemanha ter protagonizado duas guerras de escala global somados a uma cultura musical popularesca e alienante motivou a inquietante juventude alem\u00e3 do final da d\u00e9cada de 1960 a buscar sua pr\u00f3pria identidade e a criar algo que pudesse represent\u00e1-la. Edgar Froese, principal membro do Tangerine Dream, diz que, \u201c[Ap\u00f3s a Alemanha iniciar e perder duas guerras] N\u00e3o havia mais nada a perder. N\u00f3s perdemos tudo. E ent\u00e3o, quando pensamos em fazer m\u00fasica de uma forma diferente, nos restava apenas a forma livre, a forma abstrata\u201d (KRAUTROCK, 2009). E isso foi um dos fios condutores do krautrock. Jean-Herv\u00e9 P\u00e9ron, da banda experimental Faust, defende que os artistas serviam como um espelho para os pensamentos revolucion\u00e1rios da \u00e9poca, e que o rock\u2019n\u2019roll n\u00e3o era suficiente para os jovens darem vaz\u00e3o a tudo o que estava acontecendo (KRAUTROCK, 2009).<\/p>\n<p>Se o rock\u2019n\u2019roll n\u00e3o era a refer\u00eancia ideal para os jovens alem\u00e3es por n\u00e3o dar conta de seus anseios, motiva\u00e7\u00f5es e necessidade de uma identidade pr\u00f3pria, quem ou o que poderia, ent\u00e3o, cumprir esse papel?<\/p>\n<p>A resposta estava dentro da pr\u00f3pria Alemanha: Stockhausen e a <i>elektronische musik<\/i>.<\/p>\n<p>Holger Czukay e Irmin Schmidt (que trabalhou como professor de piano e maestro), respectivamente baixista e tecladista do Can, foram alunos de Stockhausen. Membros do Kraftwerk e do Tangerine Dream declararam abertamente terem Stockhausen como influ\u00eancia. O compositor alem\u00e3o foi uma figura central para a emergente cena que buscava uma identidade em meio aos constantes pastiches p\u00f3s-guerra. E como defendeu Danny Fichelscher (Popol Vuh, Gila e Amon D\u00fc\u00fcl II): \u201cA verdadeira m\u00fasica alem\u00e3, \u00e9 claro, \u00e9 a m\u00fasica eletr\u00f4nica\u201d (KRAUTROCK, 2009). N\u00e3o por acaso, Klaus Schulze (Tangerine Dream) foi um dos primeiros a usar o rec\u00e9m-popularizado sintetizador, que j\u00e1 existia desde 1957, mas s\u00f3 come\u00e7ou a ser realmente difundido quando seus pre\u00e7os come\u00e7aram a ficar mais acess\u00edveis, a partir da segunda metade da d\u00e9cada de 1960.<\/p>\n<p><iframe title=\"Keyboard Karate with a Krautrock Genius - Noisey Meets Irmin Schmidt from CAN\" width=\"700\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/LT2fsc5t4wQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Ao misturar o experimentalismo de Stockhausen com a novas possibilidades trazidas pela m\u00fasica eletr\u00f4nica e as vanguardas da \u00e9poca, como a m\u00fasica contempor\u00e2nea, o free jazz, a livre improvisa\u00e7\u00e3o, o funk e o protopunk, os jovens alem\u00e3es \u2013 pelo menos aqueles ligados \u00e0 contracultura e \u00e0 rebeldia \u2013 come\u00e7aram a desenvolver um estilo musical \u00fanico, sem precedentes no resto do globo, e que, portanto, possu\u00eda toda a identidade da qual esses jovens eram carentes e que podia bem represent\u00e1-los naquele espa\u00e7o e tempo.<\/p>\n<p>Os padr\u00f5es recorrentes de verso e refr\u00e3o deram lugar, de um lado, ao improviso, e de outro, \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o. O krautrock lidava com esses dois extremos. John Cage e Steve Reich eram influ\u00eancias constantes. As estruturas do rock foram incorporadas por certos grupos, mas sem as mesmas progress\u00f5es de acordes, e quase sempre com exagero proposital de repeti\u00e7\u00f5es. Composi\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea aliada \u00e0 improvisa\u00e7\u00e3o idiom\u00e1tica.<\/p>\n<p>As primeiras manifesta\u00e7\u00f5es dessa nova forma de encarar a m\u00fasica popular na Alemanha ocorreram no Zodiak Free Arts Lab, uma casa de shows inaugurada em 1967, em Berlin Ocidental, por Hans-Joachim Roedelius (Kluster\/Cluster) e Conrad Schnitzler (Tangerine Dream, Kluster), onde se apresentavam grupos como Kluster, Tangerine Dream, Ash Ra Tempel e The Agitation.<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1290\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2021\/04\/Screen-Shot-2021-04-02-at-22.16.15.png\" alt=\"\" width=\"274\" height=\"370\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2021\/04\/Screen-Shot-2021-04-02-at-22.16.15.png 274w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2021\/04\/Screen-Shot-2021-04-02-at-22.16.15-222x300.png 222w\" sizes=\"(max-width: 274px) 100vw, 274px\" \/><\/p>\n<p>O primeiro registro encontrado do termo \u00e9 de um an\u00fancio de p\u00e1gina inteira da Popo Music Management e Bacillus Records para promover o rock alem\u00e3o no Reino Unido, publicado na <i>Billboard Newspaper<\/i>, v. 83, n. 22, de 29 de maio de 1971, h\u00e1 exatos 50 anos. Por\u00e9m, o termo krautrock j\u00e1 era usado antes disso por radialistas brit\u00e2nicos para se referir \u00e0s bandas alem\u00e3s do final da d\u00e9cada de 1960 e come\u00e7o de 1970 \u2013 termo, ali\u00e1s, de cunho pejorativo, j\u00e1 que a palavra \u201c<i>kraut<\/i>\u201d (\u201crepolho\u201d, por conta de \u201c<i>sauerkraut<\/i>\u201d, \u201cchucrute\u201d) era utilizada pelos ingleses como apelido para seus inimigos alem\u00e3es durante a Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>Por conta disso, diversos m\u00fasicos dessa gera\u00e7\u00e3o rejeitavam o termo, e preferiam se autodefinir de outras formas, como <i>kosmische musik<\/i> (m\u00fasica c\u00f3smica), termo cunhado por Edgar Froese e que aparece primeiramente no encarte do \u00e1lbum \u201cAlpha Centauri\u201d, de sua banda Tangerine Dream, lan\u00e7ado em 1971. E no ano seguinte, a Ohr Records \u2013 que lan\u00e7ou LPs e <i>singles<\/i> de diversas bandas de krautrock \u2013, ent\u00e3o gravadora da banda, lan\u00e7ou a colet\u00e2nea em vinil \u201cKosmische Musik\u201d, com m\u00fasicas de Tangerine Dream, Klaus Schulze (Tangerine Dream, Ash Ra Tempel e The Cosmic Jokers), Ash Ra Tempel e Popol Vuh. O termo tamb\u00e9m deu nome a um selo da Ohr, que n\u00e3o teve vida longa.<\/p>\n<p>Mas a verdade \u00e9 que at\u00e9 ent\u00e3o nem sequer existia uma cena krautrock propriamente dita, pois as bandas eram de regi\u00f5es distintas, espalhadas por toda a Alemanha, e a maior parte dos m\u00fasicos nem ao menos se conhecia. Uma ponte entre muitos grupos alem\u00e3es de rock experimental da \u00e9poca foi o produtor e engenheiro de som Conny Plank, que trabalhou com bandas como Can, Cluster, Neu!, Kraftwerk, Guru Guru, Harmonia e La D\u00fcsseldorf. Plank foi o principal produtor musical dessa gera\u00e7\u00e3o de bandas e contribuiu para que o krautrock realmente viesse a se tornar uma cena musical.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, houve tamb\u00e9m a contribui\u00e7\u00e3o da imprensa brit\u00e2nica, que passou a chamar de krautrock toda e qualquer banda que fizesse rock experimental na Alemanha, e at\u00e9 algumas que estavam distantes de qualquer experimentalismo, vanguardismo, propostas inovadoras ou quebras de padr\u00f5es, como alguns grupos de hard rock ou rock progressivo, g\u00eaneros que estavam em seu auge no Reino Unido no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970. Com a ajuda da imprensa brit\u00e2nica, o krautrock foi bem recebido na Gr\u00e3-Bretanha e acabou se popularizando, o que gerou a venda de muitos discos, a ponto de a maior gravadora da \u00e9poca, a Virgin, fechar contrato com grande parte dos grupos de krautrock.<\/p>\n<p>Foi tamb\u00e9m em 1971 que Conrad Schnitzler deixa a banda Kluster, e os membros remanescentes, Dieter Moebius e Hans-Joachim Roedelius, lan\u00e7am o primeiro disco do agora reformulado Cluster. Wolfgang Seidel (Ton Steine Scherben e Eruption) teceu uma concisa descri\u00e7\u00e3o para o grupo: \u201cUm bom exemplo de m\u00fasica feita por n\u00e3o m\u00fasicos. Eles tiveram a vis\u00e3o de criar um tipo de \u2018utopia s\u00f4nica\u2019, um mundo diferente, com sons diferentes. Uma esp\u00e9cie de promessa de que existe uma maneira de sair do ambiente, da sociedade\u201d. Por\u00e9m, talvez por conta da \u00eanfase no experimentalismo, o Cluster n\u00e3o obteve o mesmo sucesso de alguns de seus conterr\u00e2neos, como o Kraftwerk (que logo de in\u00edcio abriu m\u00e3o do krautrock para imergir por completo na m\u00fasica eletr\u00f4nica minimalista, tornando-se a primeira banda totalmente eletr\u00f4nica e considerados os pioneiros do que hoje se conhece por \u201cm\u00fasica eletr\u00f4nica\u201d, ligada ao <i>house<\/i>, <i>techno<\/i>, <i>raves<\/i> etc.), e assim, na mesma \u00e9poca da transi\u00e7\u00e3o de Kluster para Cluster, Roedelius e Moebius resolvem deixar Berlim e se mudam para um vilarejo do s\u00e9culo XVI, em Forst, na Baixa Sax\u00f4nia, em uma casa pr\u00f3xima ao rio Weser. Dois anos depois, em 1973, a dupla se junta ao guitarrista Michael Rother (Kraftwerk, Neu!), para formar um supergrupo do krautrock, o Harmonia.<\/p>\n<p>No mesmo ano de 1971, Michael Rother e o baterista Klaus Dinger sa\u00edram de uma das primeiras forma\u00e7\u00f5es do Kraftwerk para formarem o influente duo Neu!. Al\u00e9m de lan\u00e7ar excelentes discos, a dupla ficou conhecida pelas linhas de bateria que passaram a levar o nome de <i>motorik<\/i> (algo como \u201chabilidades motoras\u201d em alem\u00e3o), um <i>beat<\/i> 4\/4 minimalista que passou a ser largamente associado aos grupos de krautrock e que veio influenciar diversos grupos e g\u00eaneros futuros, como o punk, p\u00f3s-punk, rock alternativo e indie rock.<\/p>\n<p><iframe title=\"The Motorik Drum Beat | Off Beat\" width=\"700\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/GiNp119pn2g?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>1971 tamb\u00e9m foi o ano em que diversos discos importantes de krautrock foram lan\u00e7ados:<\/p>\n<ul>\n<li>\u00a0 Amon D\u00fc\u00fcl II &#8211; <i>Tanz der Lemminge<\/i> (3\u00ba)<\/li>\n<li>\u00a0 Ash Ra Tempel &#8211; <i>Ash Ra Tempel<\/i> (1\u00ba)<\/li>\n<li>\u00a0 Can &#8211; <i>Tago Mago<\/i> (3\u00ba)<\/li>\n<li>\u00a0 Cluster &#8211; <i>Cluster<\/i> (1\u00ba)<\/li>\n<li>\u00a0 Embryo &#8211; <i>Embryo\u2019s Rache<\/i> (2\u00ba)<\/li>\n<li>\u00a0 Faust &#8211; <i>Faust<\/i> (1\u00ba)<\/li>\n<li>\u00a0 Floh de Cologne &#8211; <i>Rockoper Profitgeier<\/i> (3\u00ba)<\/li>\n<li>\u00a0 Gila &#8211; <i>Gila: Free Electric Sound<\/i> (1\u00ba)<\/li>\n<li>\u00a0 Guru Guru &#8211; <i>Hinten<\/i> (2\u00ba)<\/li>\n<li>\u00a0 Kluster &#8211; <i>Zwei-Osterei<\/i> (2\u00ba)<\/li>\n<li>\u00a0 Kluster &#8211; <i>Eruption<\/i> (3\u00ba, ao vivo)<\/li>\n<li>\u00a0 Popol Vuh &#8211; <i>In den G\u00e4rten Pharaos<\/i> (2\u00ba)<\/li>\n<li>\u00a0 Tangerine Dream &#8211; <i>Alpha Centauri<\/i> (2\u00ba)<\/li>\n<\/ul>\n<p>O legado do krautrock \u00e9 ineg\u00e1vel para toda a m\u00fasica pop que a precedeu: \u201cUma s\u00e9rie extensa de estilos descende do krautrock: ambiente, hip-hop, post-rock, electropop, psych-rock, trance, rave, p\u00f3s-punk e outros ainda n\u00e3o nascidos\u201d (STUBBS, 2015). E mesmo que o krautrock n\u00e3o seja mais levado como um movimento musical e que n\u00e3o haja uma cena krautrock, suas influ\u00eancias s\u00e3o, quando n\u00e3o evidentes, latentes em boa parte da m\u00fasica pop contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p><iframe title=\"Under The Influence - Krautrock\" width=\"700\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ne7M63P820g?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>REFER\u00caNCIAS:<\/b><\/p>\n<p>ADELT, Ulrich. <i>Krautrock<\/i>: German music in the seventies. Ann Arbor: University of Michigan Press, 2016.<\/p>\n<p>BRITANNICA, The Editors of Encyclopaedia. Karlheinz Stockhausen. <i>Encyclopedia Britannica<\/i>, 1 dez. 2020. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/www.britannica.com\/biography\/Karlheinz-Stockhausen&gt;. Acesso em: 26 mar. 2021.<\/p>\n<p>HARDEN, Alexander C. Kosmische musik and its techno-social contexto. <i>IASPM@Journal<\/i>, v. 6, n. 2, p. 154-173, 2016. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/iaspmjournal.net\/index.php\/IASPM_Journal\/article\/view\/784&gt;. Acesso em: 29 mar. 2021.<\/p>\n<p>KRAUTROCK: the rebirth of Germany. Dire\u00e7\u00e3o e Produ\u00e7\u00e3o: Ben Whalley. Produ\u00e7\u00e3o Executiva de Mark Cooper. Document\u00e1rio televisivo, colorido, sonoro, 60 minutos. Londres: BBC, 23 out. 2009 [1. exibi\u00e7\u00e3o].<\/p>\n<p>STOCKHAUSEN Foundation for Music. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.karlheinzstockhausen.org\/&gt;. Acesso em: 26 mar. 2021.<\/p>\n<p>STOCKHAUSEN: Sounds in Space. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/stockhausenspace.blogspot.com\/&gt;. Acesso em: 26 mar. 2021.<\/p>\n<p>STUBBS, David. <i>Future days<\/i>: krautrock and the birth of a revolutionary new music. New York: Melville House Publishing, 2015.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Como citar este artigo:<\/strong><\/p>\n<p>Leonardo Porto Passos. &#8220;Krautrock: Stockhausen, elektronische musik e o legado para a m\u00fasica pop&#8221;. Blogs de Ci\u00eancia da Universidade Estadual de Campinas. ISSN 2526-6187. Data da publica\u00e7\u00e3o: 4 de abril de 2021. Link: <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2021\/04\/04\/krautrock-stockhausen-elektronische-musik-e-o-legado-para-a-musica-pop\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2021\/04\/04\/krautrock-stockhausen-elektronische-musik-e-o-legado-para-a-musica-pop\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2021\/04\/04\/krautrock-stockhausen-elektronische-musik-e-o-legado-para-a-musica-pop\/\" rel=\"bookmark\" title=\"Link permanente Krautrock: Stockhausen, elektronische musik e o legado para a m\u00fasica pop\"><p>Leonardo Porto Passos &#8211; 4 de abril de 2021 leoportopassos @ gmail.com<\/p>\n<\/a>","protected":false},"author":389,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[76],"tags":[79,77,78],"class_list":["post-1289","post","type-post","status-publish","format-standard","category-leop","tag-elektronische-musik","tag-krautrock","tag-stockhausen","h-entry","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1289","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/389"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1289"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1289\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1413,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1289\/revisions\/1413"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1289"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1289"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1289"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}