{"id":1490,"date":"2022-10-16T12:24:33","date_gmt":"2022-10-16T15:24:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/?p=1490"},"modified":"2024-03-10T18:58:18","modified_gmt":"2024-03-10T21:58:18","slug":"musas-musica-e-o-mundo-mental-parte-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2022\/10\/16\/musas-musica-e-o-mundo-mental-parte-4\/","title":{"rendered":"Musas, m\u00fasica e o mundo mental \u2013 parte 4"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-post\" data-elementor-id=\"1490\" class=\"elementor elementor-1490\" data-elementor-settings=\"{&quot;ha_cmc_init_switcher&quot;:&quot;no&quot;}\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-4cad1708 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default jltma-glass-effect-no\" data-id=\"4cad1708\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\" data-settings=\"{&quot;_ha_eqh_enable&quot;:false}\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-df461f2 jltma-glass-effect-no\" data-id=\"df461f2\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-2348af64 jltma-glass-effect-no elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"2348af64\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: right\">Jos\u00e9 Fornari \u2013 fornari@unicamp.br<\/p>\n<p style=\"text-align: right\">16 outubro 2022<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2022\/10\/09\/musas-musica-e-o-mundo-mental-parte-3\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">link para a parte anterior<\/a><\/p>\n<p>Musas, g\u00eanios, anjos e dem\u00f4nios s\u00e3o alguns dos diversos termos utilizados desde a antiguidade para se referir a supostos seres imateriais, metaf\u00edsicos, que eventualmente (e inesperadamente) interagem com o plano f\u00edsico, em especial, com pessoas intuitivas e criativas, como escritores e m\u00fasicos. O termo &#8220;<em>jinn<\/em>&#8221; vem da mitologia \u00e1rabe pr\u00e9-isl\u00e2mica e \u00e9 referente a um tipo de entidade sobrenatural invis\u00edvel, habitante de um mundo imaterial, com poderes sobrenaturais os quais pode usar tanto para o bem quanto para o mal (ajudando ou atrapalhando algu\u00e9m). Este termo foi posteriormente traduzido para o Latim como &#8220;<em>genius<\/em>&#8220;, de onde vem a palavra &#8220;g\u00eanio&#8221;, a qual foi incorporada na mitologia romana como um esp\u00edrito guardi\u00e3o, muitas vezes um mensageiro divino, similar ao conceito de <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Guardian_angel\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">anjo da guarda<\/a>. J\u00e1 no Grego, tais seres imateriais eram chamados de &#8220;<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Daimon\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>daemon<\/em><\/a>&#8221; (da mesma raiz de &#8220;demonstrar&#8221;, ou seja, de se manifestar) e de onde surgiu a palavra &#8220;dem\u00f4nio&#8221;. As musas eram entidades imateriais, por\u00e9m especificamente relacionadas com o processo criativo, tanto nas ci\u00eancias quanto nas artes, que inspiravam tanto as descobertas cient\u00edficas quanto as obras art\u00edsticas e as composi\u00e7\u00f5es musicais.<\/p>\n<p>Na mitologia grega, originalmente havia apenas <a href=\"https:\/\/www.mythindex.com\/greek-mythology\/M\/Musae.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">tr\u00eas musas<\/a>: <em>Mneme<\/em> (a musa da mem\u00f3ria), <em>Melete<\/em> (a musa do pensamento ou da medita\u00e7\u00e3o) e <em>Aoede<\/em> (a musa da express\u00e3o, da voz, da palavra e da can\u00e7\u00e3o). Juntas, estas musas, a meu ver, simbolizam as tr\u00eas caracter\u00edsticas mais importantes da ess\u00eancia humana: a mem\u00f3ria (por exemplo, &#8220;museu&#8221; significa &#8220;casa das musas&#8221;); o pensamento (ou medita\u00e7\u00e3o, do Latim &#8220;<em>meditatio<\/em>&#8220;, relacionada a &#8220;meditar&#8221;, &#8220;mente&#8221; e &#8220;medium&#8221;) e a express\u00e3o (como no caso do j\u00e1 mencionado termo &#8220;m\u00fasica&#8221; que vem de &#8220;arte das musas&#8221;). Posteriormente foram agregadas outras musas na cultura da Gr\u00e9cia antiga, constituindo as <a href=\"https:\/\/umabrasileiranagrecia.com\/2013\/12\/musas-das-artes.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">nove musas do Olimpo<\/a>: Calliope (musa da ret\u00f3rica), Clio (musa da hist\u00f3ria), Urania (musa da astronomia), Pol\u00edmnia (musa do sagrado), Erato (musa do erotismo), Terps\u00edcore (musa da dan\u00e7a), Melpomene (musa do canto), Euterpe (musa da poesia) e Thalia (musa da com\u00e9dia). As suas atribui\u00e7\u00f5es s\u00e3o muitas vezes amb\u00edguas e variaram ao longo das \u00e9pocas, o que para mim representa a din\u00e2mica da sociedade e a mudan\u00e7a de seus interesses ao longo dos s\u00e9culos, o que implicava na mudan\u00e7a do foco de a\u00e7\u00e3o de suas musas.<\/p>\n<div style=\"width: 316px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/4.bp.blogspot.com\/-gIqq4o68ToA\/UxG7Geusw7I\/AAAAAAAANqs\/DmM9U7Hy_P0\/s1600\/266678_457515484308851_1423207698_o.jpg\" alt=\"\" width=\"306\" height=\"517\" \/><p class=\"wp-caption-text\"><a href=\"https:\/\/umabrasileiranagrecia.com\/2013\/12\/musas-das-artes.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Thalia, a musa da com\u00e9dia<\/a><\/p><\/div>\n<p>Com o estabelecimento do paradigma fisicalista no final da idade m\u00e9dia e in\u00edcio do renascimento, musas e demais seres imateriais foram relegados ao plano do imagin\u00e1rio, do fant\u00e1stico e por fim do fantasioso; n\u00e3o havendo mais espa\u00e7o ou possibilidade para a sociedade crer na exist\u00eancia de musas ou g\u00eanios. Estes s\u00e3o atualmente considerados apenas mitos, no m\u00e1ximo arqu\u00e9tipos de um inconsciente coletivo junguiano. J\u00e1 num <a href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/publication\/324342683_The_Next_Paradigm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">paradigma idealista<\/a> (o que chamo aqui de &#8220;mundo mental&#8221;), o pensamento pode vir a determinar ou a indicar a exist\u00eancia de dissocia\u00e7\u00f5es (<em>alters<\/em>) do mundo mental, tais como somos n\u00f3s, os demais seres vivos, e tamb\u00e9m como poderiam vir a ser estes antigos seres sobrenaturais, referidos por todas as antigas culturas humanas, desde os tempos mais remotos. Um interessante exemplo nacional encontra-se nas <a href=\"http:\/\/www.rbma.org.br\/rbma\/pdf\/Caderno_07.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">cartas de padre Anchieta, de 1560<\/a>. Neste documento hist\u00f3rico, Anchieta, um sacerdote da igreja cat\u00f3lica, relata casos comprovados, tanto por nativos quanto por outros colegas sacerdotes, da exist\u00eancia do que o jesu\u00edta chama de &#8220;dem\u00f4nios da floresta&#8221;, como o curupira e o <em>baetat\u00e1<\/em> (boitat\u00e1), os quais Anchieta relata n\u00e3o ter d\u00favidas de suas exist\u00eancias comprovadas por frequentes a\u00e7\u00f5es (muitas vezes delet\u00e9rias). Apesar de sensivelmente diminu\u00edda, ao longo dos s\u00e9culos, a cren\u00e7a em seres imateriais de um certo modo nunca abandonou por completo qualquer comunidade ou cultura, por maior que tenha sido seu avan\u00e7o cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico ou opress\u00e3o ideol\u00f3gica. O desconhecido sempre esteve logo ap\u00f3s o horizonte fronteiri\u00e7o que a nossa raz\u00e3o alcan\u00e7a; e no \u00faltimo s\u00e9culo, conforme j\u00e1 mencionado, a pr\u00f3pria expans\u00e3o fisicalista das fronteiras cient\u00edficas, tanto nos limites da f\u00edsica qu\u00e2ntica quanto da neuroci\u00eancia, tem apontado cada vez mais para mist\u00e9rios metaf\u00edsicos de um mundo mental. No entanto, mesmo dentro do paradigma estritamente fisicalista, a contribui\u00e7\u00e3o inspiracional das musas ocorre no simples ato de nelas crer, como advogou Gilbert em seu <a href=\"https:\/\/youtu.be\/86x-u-tz0MA\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">TED Talk<\/a>, mesmo que de modo informal ou at\u00e9 mesmo jocoso. A frase castelhana &#8220;<em><a href=\"https:\/\/ciberduvidas.iscte-iul.pt\/consultorio\/perguntas\/a-frase-eu-nao-acredito-em-bruxas-mas\/16796\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">No creo en brujas, pero que las hay, las hay<\/a><\/em>&#8221; (eu n\u00e3o acredito em bruxas, mas sei que elas existem) reflete \u00e0 necessidade do mist\u00e9rio no pensamento humano, especialmente o criativo, algo como as estrelas no c\u00e9u, que mais inspiram do que orientam, e que s\u00e3o muitas vezes cobertas pela neblina do reducionismo fisicalista.\u00a0<\/p>\n<p>Durante a grava\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum &#8220;Carioca&#8221;, de Chico Buarque, em 2006, foi realizado o document\u00e1rio <a href=\"https:\/\/www.urbe.cc\/chico-buarque-desconstrucao-biscoito-fino\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Desconstru\u00e7\u00e3o<\/a> (<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/c\/pmiura\/videos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">diversos clipes deste document\u00e1rio podem ser assistidos aqui<\/a>) incluindo o famigerado clipe sobre <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=bUj0qffqQoU\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ahmed<\/a>, de quem Chico diz comprar can\u00e7\u00f5es (entre outros fornecedores). Este v\u00eddeo foi amplamente divulgado e utilizado como material para <em>fake news<\/em> de seus opositores ideol\u00f3gicos, que tentaram atrav\u00e9s deste, desmoralizar o artista e a sua obra; mas que foi posteriormente (e facilmente) <a href=\"https:\/\/lupa.uol.com.br\/jornalismo\/2020\/01\/03\/verificamos-chico-buarque-compra-musicas-compositores-anonimos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">desbancado<\/a> (afinal, foi uma \u00f3bvia brincadeira do artista; filmada e divulgada com o seu consentimento). Apesar disso, me parece que, num certo sentido, mais metaf\u00edsico, h\u00e1 um fundo de verdade nessa brincadeira que pode ser percebido na sua fala e express\u00e3o, especialmente ao revelar um pouco de suas m\u00e1scaras po\u00e9ticas, como g\u00eanios criativos, caprichosos e inconstantes, que inspiram sua obra \u00edmpar e a esta aferem a t\u00e3o conhecida autenticidade, a grande expressividade e a assombrosa profundidade de suas can\u00e7\u00f5es. N\u00e3o tenho d\u00favidas de que Chico Buarque \u00e9 de fato o autor das can\u00e7\u00f5es que assina; que ele n\u00e3o as compra de &#8220;fornecedores&#8221; e que este v\u00eddeo (abaixo) seja uma brincadeira que o pr\u00f3prio artista fez. Por\u00e9m, todo artista, mesmo sem querer, se exp\u00f5e em sua pr\u00f3pria obra, e como dizem (e aqui num contexto tanto metaf\u00f3rico quanto metaf\u00edsico) &#8220;todo boato tem seu fundo de verdade&#8221;.\u00a0<\/p>\n<p><iframe title=\"Chico Buarque - DVD Desconstru\u00e7\u00e3o - 04 Ahmed\" width=\"700\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/bUj0qffqQoU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>continua &#8230;<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Como citar este artigo:<\/strong><\/p>\n<p>Jos\u00e9 Fornari. \u201cMusas, m\u00fasica e o mundo mental \u2013 parte 4\u201d. Blogs de Ci\u00eancia da Universidade Estadual de Campinas. Data da publica\u00e7\u00e3o: 23 de outubro de 2022. Link: https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2022\/10\/16\/musas-musica-e-o-mundo-mental-parte-4\/<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2022\/10\/16\/musas-musica-e-o-mundo-mental-parte-4\/\" rel=\"bookmark\" title=\"Link permanente Musas, m\u00fasica e o mundo mental \u2013 parte 4\"><p>Jos\u00e9 Fornari \u2013 fornari@unicamp.br 16 outubro 2022 link para a parte anterior Musas, g\u00eanios, anjos e dem\u00f4nios s\u00e3o alguns dos diversos termos utilizados desde a antiguidade para se referir a supostos seres imateriais, metaf\u00edsicos, que eventualmente (e inesperadamente) interagem com o plano f\u00edsico, em especial, com pessoas intuitivas e criativas, como escritores e m\u00fasicos. 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