{"id":191,"date":"2019-01-23T18:00:18","date_gmt":"2019-01-23T20:00:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/?p=191"},"modified":"2021-06-11T12:35:30","modified_gmt":"2021-06-11T15:35:30","slug":"4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/01\/23\/4\/","title":{"rendered":"A musicologia de Descartes \u00e0 Gestalt"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><p style=\"text-align: right\"><em>Jos\u00e9&nbsp;Fornari&nbsp;(Tuti)&nbsp;\u2013&nbsp;23&nbsp;de&nbsp;janeiro&nbsp;de&nbsp;2019<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><em><span style=\"font-size: 12pt\">fornari @ unicamp . br<\/span><\/em><\/p><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<p>No s\u00e9culo 17 DC, durante o per\u00edodo Barroco, Descartes produziu a sua primeira obra filos\u00f3fica, \u201c<em>Compendium musicae<\/em>\u201d, escrita em 1618 mas publicada apenas ap\u00f3s a sua morte. \u00c9 interessante assim observar que a primeira obra de Descartes \u00e9 dedicada ao estudo filos\u00f3fico da m\u00fasica. O pensamento cartesiano, em termos de m\u00fasica, tem suas ra\u00edzes no movimento humanista da Renascen\u00e7a, que procurou resgatar os ideais musicais da Gr\u00e9cia antiga, tanto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua fundamenta\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica pitag\u00f3rica quanto ao seu componente aristot\u00e9lico, emocional e cat\u00e1rtico. Descartes inicia este seu primeiro livro com a seguinte afirma\u00e7\u00e3o \u201cA base da m\u00fasica \u00e9 o som e o seu objetivo \u00e9 nos agradar e despertar v\u00e1rias emo\u00e7\u00f5es\u201d. No entanto, Descartes n\u00e3o acreditava que valores est\u00e9ticos pudessem ser representados unicamente pela obra musical. Para ele, tais valores ocorrem atrav\u00e9s da rela\u00e7\u00e3o da m\u00fasica com o ouvinte, ou seja, atrav\u00e9s de propriedades relacionais entre objeto e observador. Em seu \u00faltimo livro, \u201cAs Paix\u00f5es da Alma\u201d (1649), Descartes afirma que existem apenas seis tipos de afetos gerados pela mente humana. Estes s\u00e3o: admira\u00e7\u00e3o, amor, \u00f3dio, desejo, alegria e tristeza). Os demais afetos seriam, segundo Descartes, meras combina\u00e7\u00f5es destes afetos primordiais. [1]<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\" style=\"text-align: center\">\r\n<figure class=\"aligncenter is-resized\">\r\n<div id=\"attachment_200\" style=\"width: 448px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-200\" class=\"wp-image-200\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/01\/descartes-739x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"438\" height=\"602\" \/><p id=\"caption-attachment-200\" class=\"wp-caption-text\">Fonte: <a href=\"http:\/\/www.sothebys.com\/en\/auctions\/ecatalogue\/2013\/music-continental-books-manuscripts\/lot.514.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/www.sothebys.com\/en\/auctions\/ecatalogue\/2013\/music-continental-books-manuscripts\/lot.514.html<\/a><\/p><\/div>\r\n<\/figure>\r\n<\/div>\n\n\n\n<p>Neste per\u00edodo, surgiu a \u201cDoutrina dos afetos\u201d, no campo da est\u00e9tica das artes. Esta doutrina era baseada na ideia de materializa\u00e7\u00e3o de um afeto atrav\u00e9s de um s\u00edmbolo ou evento, seja este musical ou pict\u00f3rico. Com base neste princ\u00edpio, a m\u00fasica era vista como um meio para evocar afetos no ouvinte, onde determinados eventos musicais poderiam incitar emo\u00e7\u00f5es espec\u00edficas. Diversos te\u00f3ricos do s\u00e9culo 17 e 18 DC, como \u00e9 o caso de Athanasius Kircher e Johann Mattheson, defenderam esta doutrina. Em seu livro \u201c<em>The perfect chapelmaster<\/em>\u201d (1739), Mattheson descreve, por exemplo, que a sensa\u00e7\u00e3o de alegria pode ser gerada por melodias com grandes intervalos musicais, enquanto que intervalos menores podem evocar a tristeza nos ouvintes; a f\u00faria pode ser gerada por harmonias \u00e1speras juntamente com melodias r\u00e1pidas; a obstina\u00e7\u00e3o pode ser evocada pela combina\u00e7\u00e3o contrapont\u00edstica formada por melodias muito independentes. [2]<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\" style=\"text-align: center\">\r\n<figure class=\"aligncenter is-resized\">\r\n<div id=\"attachment_202\" style=\"width: 555px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-202\" class=\"wp-image-202\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/01\/bernini.jpg\" alt=\"\" width=\"545\" height=\"545\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/01\/bernini.jpg 650w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/01\/bernini-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/01\/bernini-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/01\/bernini-24x24.jpg 24w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/01\/bernini-48x48.jpg 48w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/01\/bernini-96x96.jpg 96w\" sizes=\"(max-width: 545px) 100vw, 545px\" \/><p id=\"caption-attachment-202\" class=\"wp-caption-text\"><strong>O \u00eaxtase de Santa Teresa, de Bernini, s\u00e9culo 17 DC.<\/strong> Fonte: <a href=\"https:\/\/www.walksofitaly.com\/blog\/art-culture\/things-to-see-in-rome-bernini\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/www.walksofitaly.com\/blog\/art-culture\/things-to-see-in-rome-bernini<\/a><\/p><\/div>\r\n\r\n<\/figure>\r\n<\/div>\n\n\n\n<p>No s\u00e9culo 18 DC, durante o per\u00edodo Iluminista na Europa, surgem diversos pensadores e correntes filos\u00f3ficas que discorrem, dentre tantas outras quest\u00f5es, tamb\u00e9m a respeito da m\u00fasica. Gottfried Wilhelm Leibniz pensava na m\u00fasica como uma \u00e1rea do conhecimento na qual a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 unida \u00e0 exatid\u00e3o num\u00e9rica. Uma famosa afirma\u00e7\u00e3o de Leibniz diz que &#8220;a m\u00fasica \u00e9 um tipo de exerc\u00edcio de aritm\u00e9tica que a mente realiza, sem perceber que est\u00e1 calculando&#8221; (&#8220;<em>musica est exercitium arithmeticae occultum nescientis se numerare animi&#8221;<\/em>). Este aforismo foi posteriormente parafraseado por Arthur Schopenhauer, em seu primeiro livro \u201cO Mundo como Vontade e Representa\u00e7\u00e3o\u201d (<em>Die Welt als Wille und Vorstellung<\/em>) onde o autor diz que a &#8220;m\u00fasica \u00e9 um exerc\u00edcio metaf\u00edsico da alma, sem que esta perceba que est\u00e1 filosofando&#8221; (&#8220;<em>musica est exercitium metaphysices occultum nescientis se philosophari animi<\/em>&#8220;, ou em Ingl\u00eas \u201c<em>music is a hidden metaphysical exercise of the soul, which does not know that it is philosophizing<\/em>\u201d). Immanuel Kant (1724-1804), ao teorizar sobre o belo, diz que a m\u00fasica em si \u00e9 um tipo de arte sem representa\u00e7\u00e3o; um tipo de beleza livre. J\u00e1 a m\u00fasica com letra, como no caso da \u00f3pera e da can\u00e7\u00e3o, deixa de ser esta beleza livre e passa a ser o que Kant define como que uma forma de \u201cbeleza aderente\u201d, aproximando-se da literatura; uma arte representacional, que apresenta significado sem\u00e2ntico. Uma frase de Schopenhauer, citada por Oliver Sacks, em seu livro &#8220;<em>Musicophilia<\/em>&#8221; (2007), diz que \u201ca profundidade da m\u00fasica, t\u00e3o f\u00e1cil de perceber e t\u00e3o dif\u00edcil de explicar, vem do fato de que esta expressa todas as emo\u00e7\u00f5es humanas, por\u00e9m permanecendo distante da realidade e sem provocar dor\u201d. (\u201c<em>The inexpressible depth of music, so easy to understand and yet so inexplicable, is due to the fact that it reproduces all the emotions of our innermost being, but entirely without reality and remote from pain<\/em>&#8220;). [3,4]<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\" style=\"text-align: center\">\r\n<figure class=\"aligncenter is-resized\">\r\n<div id=\"attachment_205\" style=\"width: 439px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-205\" class=\"wp-image-205\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/01\/leibniz-947x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"429\" height=\"463\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/01\/leibniz.jpg 947w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/01\/leibniz-277x300.jpg 277w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/01\/leibniz-768x830.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/01\/leibniz-647x700.jpg 647w\" sizes=\"(max-width: 429px) 100vw, 429px\" \/><p id=\"caption-attachment-205\" class=\"wp-caption-text\">Fonte: https:\/\/www.the-philosophy.com\/leibniz-philosophy-summary<\/p><\/div>\r\n<\/figure>\r\n<\/div>\n\n\n\n<p>No s\u00e9culo 19 DC, tivemos os famosos estudos em m\u00fasica de Eduard Hanslick, considerado o primeiro professor de est\u00e9tica musical. Contempor\u00e2neo de Richard Wagner e Robert Schumann, Hanslick publicou, em 1854, seu aclamado livro: &#8220;Do Belo Musical&#8221;, onde discute e critica a Doutrina dos afetos em m\u00fasica, de Kircher e Mattheson. Para Hanslick, a m\u00fasica n\u00e3o deve se limitar ao que ele chama de \u201cest\u00e9tica dos sentimentos\u201d, onde a sua fun\u00e7\u00e3o seria restringida apenas a de representar e transmitir afetos. O \u201cbelo musical\u201d, para Hanslick, transcende a representa\u00e7\u00e3o de afetos, permanecendo belo mesmo quando a m\u00fasica n\u00e3o evoca qualquer emo\u00e7\u00e3o no ouvinte. Sendo a ess\u00eancia musical, conforme descrita por Arist\u00f3teles, composta por &#8220;som e movimento\u201d, para Hanslick, o prazer do ouvinte adv\u00e9m da antecipa\u00e7\u00e3o inconsciente deste movimento musical, que a sua mente inconscientemente tenta predizer ao escutar uma seq\u00fc\u00eancia de sons ordenados, que geram expectativas no campo de sua imagina\u00e7\u00e3o. Friedrich Nietzsche foi um partid\u00e1rio das ideias de Hanslick, bem como um fervoroso amante da m\u00fasica. \u00c9 atribu\u00edda a ele a frase &#8220;sem m\u00fasica, a vida seria um erro&#8221;. Al\u00e9m do livre pensador que todos conhecem, Nietzsche foi tamb\u00e9m pianista e compositor cl\u00e1ssico, deixando mais de 40 obras para piano, como a &#8220;<em>Hymnus an die Freundschaft<\/em>&#8221; (Hino \u00e0 amizade). Apesar de se declarar \u201co \u00faltimo disc\u00edpulo de Dion\u00edsio\u201d, a sua est\u00e9tica musical para muitos cr\u00edticos \u00e9 vista como Apol\u00ednea; sem os excessos e exageros dion\u00edsicos, mas ordenada, compenetrada, serena e conservadora. Nietzsche lamentava que S\u00f3crates, segundo ele, tenha contribu\u00eddo em afastar a m\u00fasica da trag\u00e9dia e opunha-se \u00e0 tend\u00eancia que percebia em muitos fil\u00f3sofos e compositores de secundar a m\u00fasica como uma serva da linguagem. Para Nietzsche, quanto mais a m\u00fasica se afasta de concep\u00e7\u00f5es sem\u00e2nticas, mais verdade esta abarca. Desse modo, a m\u00fasica cont\u00eam mais est\u00edmulos do que a linguagem pode representar; uma verdade inef\u00e1vel, profunda e intuitiva. No estudo da m\u00fasica, tanto Nietzsche quanto Hanslick acreditavam que a verdadeira m\u00fasica \u00e9 desprovida de palavras, ou seja, \u00e9 instrumental, e que o seu estudo deve ser emp\u00edrico, baseando-se na matem\u00e1tica e na ac\u00fastica, sendo que, para Nietzsche, todo conhecimento adv\u00eam da experi\u00eancia e da matem\u00e1tica. [5,6]<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\" style=\"text-align: center\">\r\n<figure class=\"aligncenter is-resized\">\r\n<div id=\"attachment_207\" style=\"width: 523px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-207\" class=\"wp-image-207\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/01\/nietzsche.jpg\" alt=\"\" width=\"513\" height=\"652\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/01\/nietzsche.jpg 754w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/01\/nietzsche-236x300.jpg 236w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/01\/nietzsche-550x700.jpg 550w\" sizes=\"(max-width: 513px) 100vw, 513px\" \/><p id=\"caption-attachment-207\" class=\"wp-caption-text\">Fonte: <a href=\"https:\/\/readersofindia.wordpress.com\/2015\/09\/22\/nietzsche-on-the-power-of-music\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/readersofindia.wordpress.com\/2015\/09\/22\/nietzsche-on-the-power-of-music\/<\/a><\/p><\/div>\r\n\r\n<\/figure>\r\n<\/div>\n\n\n\n<p>Na \u00e1rea da ac\u00fastica e percep\u00e7\u00e3o sonora, tem-se o importante trabalho do f\u00edsico e m\u00e9dico Hermann von Helmholtz (1821-1894). Helmholtz desenvolveu importante pesquisa em \u00e1reas diversas, como a mec\u00e2nica, a fisiologia dos sentidos, o sistema nervoso humano, o eletromagnetismo e a psicoac\u00fastica (a ci\u00eancia que estuda a percep\u00e7\u00e3o sonora). Em 1863, Helmholtz lan\u00e7ou o livro \u201c<em>On the Sensations of Tone as a Physiological Basis for the Theory of Music<\/em>\u201d (A sensa\u00e7\u00e3o sonora como base fisiol\u00f3gica para a teoria musical) que \u00e9 um trabalho seminal que influenciou profundamente a \u00e1rea da musicologia sistem\u00e1tica no s\u00e9culo 20 DC. Neste livro, entre tantos outros assuntos, Helmholtz menciona uma inven\u00e7\u00e3o sua, chamada posteriormente de \u201cRessoador de Helmholtz\u201d. Trata-se de um tipo de vaso met\u00e1lico, em formato aproximadamente esf\u00e9rico, que isola um parcial espec\u00edfico do som. Todo som natural \u00e9 formado por in\u00fameros parciais. Estes podem ser representados por senoides com diferentes e vari\u00e1veis amplitudes, frequ\u00eancias e fases. Os parciais mais relevantes de um som tonal (como \u00e9 o caso do som de uma \u00fanica nota musical) s\u00e3o chamados de harm\u00f4nicos. Utilizando diversos destes ressonadores, \u00e9 poss\u00edvel se fazer uma an\u00e1lise primordial dos parciais que comp\u00f5em um som natural, confirmando na pr\u00e1tica musical a s\u00e9rie de Fourier (desenvolvida no final do s\u00e9culo 18 DC por Joseph Fourier, para explicar a propaga\u00e7\u00e3o de calor em placas met\u00e1licas), que prova matematicamente que todo sinal cont\u00ednuo no dom\u00ednio do tempo (como \u00e9 o caso do som) pode ser decomposto em parciais; componentes ou harm\u00f4nicos que podem representar este som no dom\u00ednio da frequ\u00eancia; o que \u00e9 tamb\u00e9m conhecido como \u201cespectro sonoro\u201d.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\" style=\"text-align: center\">\r\n<figure class=\"aligncenter is-resized\">\r\n<div id=\"attachment_210\" style=\"width: 530px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-210\" class=\"wp-image-210\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/01\/helmholtz.jpg\" alt=\"\" width=\"520\" height=\"394\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/01\/helmholtz.jpg 450w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/01\/helmholtz-300x227.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 520px) 100vw, 520px\" \/><p id=\"caption-attachment-210\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Ressoadores de Helmholtz.<\/strong> Fonte: <a href=\"http:\/\/physics.kenyon.edu\/EarlyApparatus\/Rudolf_Koenig_Apparatus\/Helmholtz_Resonator\/Helmholtz_Resonator.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/physics.kenyon.edu\/EarlyApparatus\/Rudolf_Koenig_Apparatus\/Helmholtz_Resonator\/Helmholtz_Resonator.html<\/a><\/p><\/div>\r\n\r\n<\/figure>\r\n<\/div>\n\n\n\n<p>O fil\u00f3sofo e psic\u00f3logo Carl Stumpf (1848-1936) lan\u00e7ou diversos livros sobre o estudo da m\u00fasica, como &#8220;<em>The Origins of Music<\/em>&#8221; e &#8220;<em>Tone psychology<\/em>&#8221; (psicologia tonal) que foi publicado em 2 volumes (nos anos de 1883 e 1890). Stumpf tem uma abordagem principalmente qualitativa e fenomenol\u00f3gica, deixando clara a distin\u00e7\u00e3o entre o fen\u00f4meno em si e a sua representa\u00e7\u00e3o mental. Ele realizou diversas investiga\u00e7\u00f5es, como: as caracter\u00edsticas particulares dos sons de distintos instrumentos musicais, os fatores determinantes da melodia, a fus\u00e3o tonal (o fen\u00f4meno que ocorre quando os parciais, ao serem ordenados linearmente, numa determinada sequ\u00eancia em termos de suas frequ\u00eancias de f, 2.f, 3.f, etc. e com intensidades decrescentes, s\u00e3o percebidos pela mente como uma \u00fanica nota de um tom complexo) e a defini\u00e7\u00e3o da conson\u00e2ncia e da disson\u00e2ncia musical.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\" style=\"text-align: center\">\r\n<figure class=\"aligncenter\">\r\n<div id=\"attachment_214\" style=\"width: 643px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-214\" class=\"wp-image-214\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/01\/stumpf.jpg\" alt=\"\" width=\"633\" height=\"315\" \/><p id=\"caption-attachment-214\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Carl Stumpf (direita) durante uma grava\u00e7\u00e3o.<\/strong> Fonte: <a href=\"https:\/\/www.smb.museum\/en\/exhibitions\/detail\/laut-die-welt-hoeren.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/www.smb.museum\/en\/exhibitions\/detail\/laut-die-welt-hoeren.html<\/a><\/p><\/div>\r\n\r\n<\/figure>\r\n<\/div>\n\n\n\n<p>Wilhelm Wundt (1832-1920), considerado pai da psicologia moderna, foi tamb\u00e9m um pioneiro no estudo sistem\u00e1tico da m\u00fasica. Ao contr\u00e1rio de Stumpf, Wundt possu\u00eda uma abordagem quantitativa de investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Em seu livro &#8220;<em>An introduction to psychology<\/em>&#8221; (1912), Wundt apresenta sua teoria da \u201cexpectativa\u201d e \u201ccompreens\u00e3o\u201d, que influenciou o trabalho de music\u00f3logos do s\u00e9culo 20 DC, como Leonard Meyer. Wundt antecipou alguns conceitos da psicologia da <em>Gestalt<\/em> (termo que significa \u201cforma\u201d), cujo mote \u00e9 &#8220;o todo \u00e9 maior do que a soma de suas partes&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\" style=\"text-align: center\">\r\n<figure class=\"aligncenter is-resized\">\r\n<div id=\"attachment_215\" style=\"width: 646px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-215\" class=\"wp-image-215\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/01\/wilhelm-wundt.jpg\" alt=\"\" width=\"636\" height=\"472\" \/><p id=\"caption-attachment-215\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Wilhelm Wund (sentado) em seu laborat\u00f3rio de psicologia experimental.<\/strong> Fonte: <a href=\"https:\/\/bibliolore.org\/tag\/wilhelm-wundt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/bibliolore.org\/tag\/wilhelm-wundt\/<\/a><\/p><\/div>\r\n\r\n<\/figure>\r\n<\/div>\n\n\n\n<p><p>Existe uma forte liga\u00e7\u00e3o entre o estudo da m\u00fasica e os criadores da psicologia da Gestalt, ainda mais pelo fato de que muitos deles (K\u00f6hler, Koffka, Wertheimer e Ehrenfels) eram tamb\u00e9m m\u00fasicos amadores e, como tais, englobaram e descreveram fen\u00f4menos gest\u00e1lticos atrav\u00e9s de exemplos musicais. Ehrenfels, por exemplo, mencionava que, ao transpormos uma melodia para outra tonalidade, ainda assim facilmente a reconhecemos, apesar do fato de que todas as suas notas tenham de fato mudado. Isto s\u00f3 ocorre porque a rela\u00e7\u00e3o entre as alturas das notas (os intervalos) se mant\u00eam [&#8220;<em>If we change the key of a melody, all the elements are replaced. The only way that we still recognize the melody is not because of the sum of the elements but by the totality of the relationship between them<\/em>\u201d] o que \u00e9, em si, um exemplo musical de um processo gest\u00e1ltico.\u00a0<\/p> <p>\u00a0<\/p><\/p>\n\n\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias:\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>[1] Jorgensen, L. M. (2012). Descartes on Music: Between the Ancients and the Aestheticians. The British Journal of Aesthetics, 52(4), 407\u2013424. doi:10.1093\/aesthj\/ays041<\/p>\n<p>[2] <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/full\/10.1002\/jhbs.20495\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/www.britannica.com\/art\/doctrine-of-the-affections<\/a><\/p>\n<p>[3] Kant&#8217;s Aesthetics and Teleology. First published Sat Jul 2, 2005; substantive revision Wed Feb 13, 2013. <a href=\"https:\/\/plato.stanford.edu\/entries\/kant-aesthetics\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/plato.stanford.edu\/entries\/kant-aesthetics\/<\/a><\/p>\n<p>[4] Klempe SH (2011). &#8220;The role of tone sensation and musical stimuli in early experimental psychology&#8221;. Journal of the History of the Behavioral Sciences. 47 (2): 187\u2013199. PMID 21462196. doi:10.1002\/jhbs.20495. <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/full\/10.1002\/jhbs.20495\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/full\/10.1002\/jhbs.20495<\/a><\/p>\n<p>[5] Helmut Walther. &#8220;Nietzsche as Composer&#8221; (Nuremberg). http:\/\/www.f-nietzsche.de\/n_komp_e.htm<\/p>\n<p>[6] Sophie Bourgault. FRIEDRICH NIETZSCHE\u2019S MUSICAL AESTHETICS: A REASSESSMENT. University of Ottawa. Symposium, vol. 17 no. 1. Spring Printemps. 2003. <a href=\"https:\/\/www.artsrn.ualberta.ca\/symposium\/files\/original\/8d13d631c8779d8a81ace522d8aafdde.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/www.artsrn.ualberta.ca\/symposium\/files\/original\/8d13d631c8779d8a81ace522d8aafdde.pdf<\/a><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<p><strong>Como citar este artigo:&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Jos\u00e9 Fornari. \u201cA musicologia de Descartes \u00e0 Gestalt\u201d. Blogs de Ci\u00eancia da Universidade Estadual de Campinas. ISSN 2526-6187. Data da publica\u00e7\u00e3o: 23 de janeiro de 2019. Link: https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/01\/23\/4\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/01\/23\/4\/\" rel=\"bookmark\" title=\"Link permanente A musicologia de Descartes \u00e0 Gestalt\"><p>Jos\u00e9&nbsp;Fornari&nbsp;(Tuti)&nbsp;\u2013&nbsp;23&nbsp;de&nbsp;janeiro&nbsp;de&nbsp;2019 fornari @ unicamp . br No s\u00e9culo 17 DC, durante o per\u00edodo Barroco, Descartes produziu a sua primeira obra filos\u00f3fica, \u201cCompendium musicae\u201d, escrita em 1618 mas publicada apenas ap\u00f3s a sua morte. \u00c9 interessante assim observar que a primeira obra de Descartes \u00e9 dedicada ao estudo filos\u00f3fico da m\u00fasica. O pensamento cartesiano, em termos [&hellip;]<\/p>\n<\/a>","protected":false},"author":389,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[69,20,11,14,3,2,13,5],"class_list":{"0":"post-191","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-musicologia","7":"tag-jose-eduardo-fornari-novo-junior","8":"tag-a-musicologia-de-descartes-a-gestalt","9":"tag-jose-fornari","10":"tag-josefornari","11":"tag-musica","12":"tag-musicologia","13":"tag-tutifornari","14":"tag-unicamp","15":"h-entry","16":"hentry"},"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/191","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/389"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=191"}],"version-history":[{"count":27,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/191\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1331,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/191\/revisions\/1331"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=191"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=191"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=191"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}