{"id":465,"date":"2019-03-06T18:00:52","date_gmt":"2019-03-06T21:00:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/?p=465"},"modified":"2020-01-19T13:40:31","modified_gmt":"2020-01-19T16:40:31","slug":"10","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/03\/06\/10\/","title":{"rendered":"Tens\u00f5es e for\u00e7as musicais"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><em>Jos\u00e9\u00a0Fornari\u00a0(Tuti)\u00a0\u2013 06 de\u00a0mar\u00e7o de\u00a02019<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><em><span style=\"font-size: 12pt\">fornari @ unicamp . br<\/span><\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p>No <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/02\/27\/9\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">artigo anterior<\/a>, foi apresentado o modelo geral de expectativa, ITPRA, onde o T representa o sentimento de Tens\u00e3o gerado pela antecipa\u00e7\u00e3o de um evento. No caso da m\u00fasica, a tens\u00e3o \u00e9 descrita como sendo um fator decisivo para se gerar emo\u00e7\u00e3o no ouvinte. Em 2012, Morwaread M. Farbood lan\u00e7ou um artigo intitulado \u201c<i>A Parametric, Temporal Model of Musical Tension<\/i>\u201d onde apresenta um modelo temporal para tens\u00e3o musical, ou seja, um modelo capaz de calcular o desenvolvimento da tens\u00e3o no ouvinte ao longo de uma pe\u00e7a musical, simulando aquilo que este experienciaria ao escutar a mesma pe\u00e7a musical. Neste modelo, o conceito de tens\u00e3o musical \u00e9 definido em fun\u00e7\u00e3o de diversos par\u00e2metros musicais, entre eles a expectativa musical mel\u00f3dica, conforme definida pelo modelo de Margulis (descrito no <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/02\/27\/9\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">artigo anterior<\/a>). Farbood prop\u00f4s um modelo quantitativo de tens\u00e3o musical a partir de 2 experimentos realizados (que s\u00e3o descritos em seu artigo), onde s\u00e3o utilizados os seguintes par\u00e2metros musicais: harmonia, altura (<i>pitch<\/i>), expectativa mel\u00f3dica, din\u00e2mica, andamento, regularidade r\u00edtmica e s\u00edncopa. O modelo foi melhorado no sentido de incorporar uma janela temporal m\u00f3vel de percep\u00e7\u00e3o, bem como levar em considera\u00e7\u00e3o o conceito de \u201csali\u00eancia de relev\u00e2ncia\u201d (<i>trend salience<\/i>) que trata da ocorr\u00eancia de um padr\u00e3o musical perceptualmente relevante para o ouvinte. Os resultados deste modelo para tens\u00e3o musical apresentaram grande correla\u00e7\u00e3o com dados emp\u00edricos de ouvintes ao escutarem pe\u00e7as musicais completas. Este modelo apresenta 4 importantes conclus\u00f5es: 1) Isoladamente, os fatores mais importantes para se gerar tens\u00e3o musical s\u00e3o as varia\u00e7\u00f5es de din\u00e2mica e altura musical (<i>pitch<\/i>). 2) M\u00fasicos responderam demonstraram ser mais sens\u00edveis \u00e0 tens\u00e3o gerada por varia\u00e7\u00f5es de harmonia enquanto que n\u00e3o m\u00fasicos foram mais sens\u00edveis \u00e0s varia\u00e7\u00f5es mel\u00f3dicas (de altura musical). 3) Em pe\u00e7as musicais mais complexas, tanto os ouvintes m\u00fasicos quanto os n\u00e3o-m\u00fasicos foram incapazes de apresentar respostas claras \u00e0 tens\u00e3o musical. 4) Quando diversos par\u00e2metros musicais agem simultaneamente (como no caso de um <i>tutti orquestral<\/i>) a tens\u00e3o musical percebida \u00e9 significativamente aumentada. [1]<\/p>\n<p><iframe title=\"Orchestral crescendo gets you pumped\" width=\"700\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ygHhf7kogwE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Em 2012, Steve Larson publicou um livro intitulado \u201c<i>Musical Forces<\/i>\u201d, onde procura responder 2 perguntas: 1) Por que normalmente se refere \u00e0 m\u00fasica como se esta de fato se movesse; no sentido de apresentar comportamentos sonoros que s\u00e3o identificados e descritos por analogias, tais como: crescendos ou decrescendos, acelerandos ou ralentandos (\u201c<i>Why do we talk about music as if it actually moved<\/i>?\u201d). 2) Por que a m\u00fasica nos move; tanto no sentido de nos convidar ao movimento f\u00edsico regular, como dan\u00e7ar os tamborilar os dedos sobre a mesa, bem como no sentido de nos incitar \u00e0 movimentos subjetivos, como quando esta nos evoca emo\u00e7\u00f5es (\u201c<i>Why does music actually move us<\/i>?\u201d). Larson se baseia nos trabalhos de Rudolf Arnheim (sobre percep\u00e7\u00e3o visual) e Douglas Hofstadter (sobre analogias com for\u00e7as naturais, como a gravidade, o magnetismo e a in\u00e9rcia) para propor um entendimento musical baseado numa an\u00e1lise estendida a partir dos conceitos de Schenker, que estabelece um significado musical a partir de met\u00e1foras com as for\u00e7as f\u00edsicas acima mencionadas. Segundo este trabalho, evolu\u00edmos moldados pelas for\u00e7as naturais, como a gravidade, o magnetismo e in\u00e9rcia, as quais s\u00e3o inconscientemente identificadas e esperadas pela nossa expectativa criada a partir de predi\u00e7\u00f5es que constantemente realizamos. Isto naturalmente moldou a nossa maneira de pensar, processar informa\u00e7\u00e3o e exprimir o seu significado, em forma de arte, como \u00e9 o caso da m\u00fasica. Larson faz uma importante distin\u00e7\u00e3o entre infer\u00eancias mentais relacionadas \u00e0 m\u00fasica, que ele define como \u201cpensar sobre m\u00fasica\u201d (<i>thinking about music<\/i>), que \u00e9 a atividade realizada pela mente quando o indiv\u00edduo se refere \u00e0 m\u00fasica; e \u201cpensar em m\u00fasica\u201d (<i>thinking in music<\/i>), que \u00e9 a atividade mental engajada em escutar ou criar m\u00fasica. Ambas s\u00e3o moldadas pela analogia com as fo\u00e7as f\u00edsicas. Uma vez que a m\u00fasica \u00e9 uma arte sonora fortemente atrelada \u00e0 dura\u00e7\u00e3o do tempo, sua imaterialidade f\u00edsica e regularidade de padr\u00f5es sonoros apresenta como que uma analogia \u00e0s regularidades temporais das for\u00e7as f\u00edsicas detectadas pelos sentidos do corpo e interpretadas pela mente, que j\u00e1 possui a expectativa da ocorr\u00eancia de tais regularidades. Isto nos permite agir corporalmente sobre esta for\u00e7as e com estas interagir harmonicamente. No caminho reverso, a expectativa inerente de tais regularidades pela mente, possibilita a cria\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento de uma arte temporal, como \u00e9 o caso da m\u00fasica que exprime, atrav\u00e9s da manipula\u00e7\u00e3o de antecipa\u00e7\u00f5es geradas pela mente do ouvinte, um significado est\u00e9tico baseado tanto na satisfa\u00e7\u00e3o da constata\u00e7\u00e3o de estruturas sonoras instigantes quanto na emo\u00e7\u00e3o por esta evocada. [2]<\/p>\n<p><iframe title=\"Jerry Lewis - The Typewriter (Scene From WhoS Minding The Store).avi\" width=\"700\" height=\"525\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/EcDQr75GlxI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Em 2016, Fr\u00e9d\u00e9ric Bimbot e colegas publicaram um artigo intitulado \u201c<i>System and Contrast<\/i>\u201d onde apresentam um modelo para a an\u00e1lise de dados musicais simb\u00f3licos (nota\u00e7\u00e3o musical) que procura delinear a organiza\u00e7\u00e3o interna de segmentos (normalmente de 1 ou 2 compassos de dura\u00e7\u00e3o) de pe\u00e7as musicais (normalmente de m\u00fasica popular). Inspirado no modelo IR de Narmour (<a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/02\/20\/8\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">citado anteriormente<\/a>), onde a expectativa musical \u00e9 gerada pela percep\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica do ouvinte em contexto ao g\u00eanero musical, o modelo de Bimbot se baseia em duas premissas: 1) <strong>Sistema<\/strong> representa a estrutura musical portadora e multidimensional (formada por aspectos musicais de diversas naturezas, tais como melodia, harmonia e ritmo). O sistema \u00e9 assim formado por uma rede de rela\u00e7\u00f5es (descritos neste modelo por fun\u00e7\u00f5es) de auto-evidentes sintagmas (unidade sonora com significado, como aquela definida pelo termo <i>ursatz<\/i>, ou estrutura fundamental, na an\u00e1lise schenkeriana). 2) <strong>Contraste<\/strong> se refere \u00e0 estrutura variante da organiza\u00e7\u00e3o evidenciada pelo Sistema. O contraste temporariamente se distancia do sistema, oferecendo assim uma moment\u00e2nea resignifica\u00e7\u00e3o para a estrutura da pe\u00e7a musical. Este modelo procura estabelecer um m\u00e9todo para descrever os padr\u00f5es de implica\u00e7\u00f5es estruturais internas na m\u00fasica, evidenciando as similaridades e fun\u00e7\u00f5es entre sintagmas estruturais de modo a reduzir a complexidade da an\u00e1lise e da descri\u00e7\u00e3o de uma pe\u00e7a musical. [3]<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong>:<\/p>\n<p>[1] Morwaread M. Farbood. \u201c<em>A Parametric, Temporal Model of Musical Tension<\/em>\u201d. Music Perception: An Interdisciplinary Journal, Vol. 29 No. 4, April 2012; (pp. 387-428) DOI: 10.1525\/mp.2012.29.4.387.<a href=\"http:\/\/mp.ucpress.edu\/content\/29\/4\/387\">http:\/\/mp.ucpress.edu\/content\/29\/4\/387<\/a><\/p>\n<p>[2] Steve Larson. \u201c<em>Musical Forces: Motion, Metaphor, and Meaning in Music<\/em>\u201d. Indiana University Press. 2012.<\/p>\n<p>[3] Fr\u00e9d\u00e9ric Bimbot, Emmanuel Deruty, Gabriel Sargent, Emmanuel Vincent. \u201c<em>System &amp; Contrast : A Polymorphous Model of the Inner Organization of Structural Segments within Music Pieces<\/em>\u201d. Music Perception, University of California Press, 2016, 33 (5), pp.631-661. https:\/\/hal.inria.fr\/hal-01188244<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Como citar este artigo:\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Jos\u00e9 Fornari. \u201cTens\u00f5es e for\u00e7as musicais\u201d. Blogs de Ci\u00eancia da Universidade Estadual de Campinas. ISSN 2526-6187. Data da publica\u00e7\u00e3o: 6 de mar\u00e7o de 2019. Link: https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/03\/06\/10\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/03\/06\/10\/\" rel=\"bookmark\" title=\"Link permanente Tens\u00f5es e for\u00e7as musicais\"><p>Jos\u00e9\u00a0Fornari\u00a0(Tuti)\u00a0\u2013 06 de\u00a0mar\u00e7o de\u00a02019 fornari @ unicamp . br No artigo anterior, foi apresentado o modelo geral de expectativa, ITPRA, onde o T representa o sentimento de Tens\u00e3o gerado pela antecipa\u00e7\u00e3o de um evento. No caso da m\u00fasica, a tens\u00e3o \u00e9 descrita como sendo um fator decisivo para se gerar emo\u00e7\u00e3o no ouvinte. 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