{"id":790,"date":"2019-06-12T19:00:08","date_gmt":"2019-06-12T22:00:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/?p=790"},"modified":"2021-06-18T13:48:02","modified_gmt":"2021-06-18T16:48:02","slug":"23","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/06\/12\/23\/","title":{"rendered":"M\u00fasica e Amor"},"content":{"rendered":"<p><strong><span style=\"text-decoration: underline\">ESPECIAL<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right\">Jos\u00e9 Fornari (Tuti) \u2013 12 de junho de 2019<\/p>\n<p style=\"text-align: right\">fornari @ unicamp . br<\/p>\n<hr \/>\n<p>Hoje, dia dos namorados no Brasil, resolvi escrever algo diferente. Algo sobre a m\u00fasica e a sua intera\u00e7\u00e3o com o amor. Este tema com certeza daria pra escrever diversos livros, mas aqui como sempre tratarei rapidamente, como \u00e9 de se esperar de um blog, dando r\u00e1pidas pinceladas sobre algumas interessantes nuances dessa intersec\u00e7\u00e3o, t\u00e3o bem sentida e no entanto t\u00e3o pouco compreendida.<\/p>\n<p>A meu ver, um excelente exemplo dessa intera\u00e7\u00e3o encontra-se na famosa abertura do prel\u00fadio da \u00f3pera <i>Tristan und Isolde\u00a0<\/i>(Trist\u00e3o e Isolda), de Richard Wagner. Nesta obra \u00e9 apresentada uma progress\u00e3o de 2 acordes que \u00e9 considerada por diversos te\u00f3ricos musicais como aquela que representa o momento na hist\u00f3ria da m\u00fasica europ\u00e9ia onde esta transcende a tonalidade. A famosa sequ\u00eancia \u00e9 mostrada abaixo:<img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-793\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/06\/ti-1024x225.png\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"154\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/06\/ti-1024x225.png 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/06\/ti-300x66.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/06\/ti-768x169.png 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/06\/ti-700x154.png 700w\" sizes=\"(max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-790-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/06\/tristan-and-isolde-prelude.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/06\/tristan-and-isolde-prelude.mp3\">https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/06\/tristan-and-isolde-prelude.mp3<\/a><\/audio>\n<p>Esta progress\u00e3o de dois acordes foi estudada por diversos te\u00f3ricos, desde Carl Mayrberger a Jean-Jacques Nattiez. Apesar de utilizada em obras anteriores, como a Sonata de D\u00f3 menor Op. 4, de 1828, composta por Chopin, sua apresenta\u00e7\u00e3o, na abertura desta \u00f3pera, em 1865, imediatamente chamou a aten\u00e7\u00e3o pela sua ambiguidade harm\u00f4nica. O primeiro acorde \u00e9 conhecido como <i>Tristan chord\u00a0<\/i>(acorde de Trist\u00e3o). No entanto, \u00e9 a progress\u00e3o deste acorde para a sua resolu\u00e7\u00e3o amb\u00edgua que de fato traz um novo contexto harm\u00f4nico que transcende o tonalismo. Ao inv\u00e9s desta progress\u00e3o representar uma resolu\u00e7\u00e3o, um relaxamento tonal, normalmente esperado ap\u00f3s uma tens\u00e3o (no caso, o tr\u00edtono, nas notas mais graves do acorde de Trist\u00e3o), este progride para outro acorde tamb\u00e9m com tens\u00e3o (que tamb\u00e9m possui tr\u00edtono, entre a segunda e a terceira nota do segundo acorde), como se este representasse a permuta\u00e7\u00e3o de um conflito, como algo que a princ\u00edpio inquieta e que parece tentar se resolver mas que na verdade apenas transmuta de natureza, para outros contexto tanto quanto ou ainda mais inquietante. Esta progress\u00e3o cabe como uma luva para a est\u00f3ria de amor de Trist\u00e3o e Isolda.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-795\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/06\/ti-chord2.png\" alt=\"\" width=\"773\" height=\"381\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/06\/ti-chord2.png 773w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/06\/ti-chord2-300x148.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/06\/ti-chord2-768x379.png 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/06\/ti-chord2-700x345.png 700w\" sizes=\"(max-width: 773px) 100vw, 773px\" \/><\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-790-2\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/06\/ti-chord.mp3?_=2\" \/><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/06\/ti-chord.mp3\">https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/06\/ti-chord.mp3<\/a><\/audio>\n<p>Apesar do libreto da \u00f3pera ter sido escrito pelo pr\u00f3prio Wagner, a est\u00f3ria de Trist\u00e3o e Isolda \u00e9 mitol\u00f3gica e remonta os s\u00e9culos. Os primeiros registros desta est\u00f3ria despontam no per\u00edodo medieval europeu, mais precisamente no s\u00e9culo 12 D.C. Esta conta, com pequenas varia\u00e7\u00f5es entre fontes, a est\u00f3ria de Trist\u00e3o, um cavaleiro, que \u00e9 incumbido pelo seu tio, rei Marcos, de ir at\u00e9 a Irlanda numa embarca\u00e7\u00e3o para trazer Isolda, com quem o seu tio pretende se casar. Isolda \u00e9 conhecedora de feiti\u00e7os, po\u00e7\u00f5es e curas. Na viagem, sem querer, Trist\u00e3o e Isolda tomam uma po\u00e7\u00e3o m\u00e1gica (a po\u00e7\u00e3o do amor) que havia sido preparada para que Isolda a tomasse junto com o rei Marcos, a fim de que estes se apaixonassem para toda a vida, j\u00e1 que estavam combinados de se casar. O efeito da po\u00e7\u00e3o do amor \u00e9 irrevers\u00edvel. Com este acidente, Trist\u00e3o e Isolda ficam perdidamente apaixonados. Ao chegarem no reino, Isolda se casa com o rei, por\u00e9m continua apaixonada por Trit\u00e3o. Trist\u00e3o ama o seu tio como a um pai e tenta a todo custo resistir ao amor que sente por Isolda, mas acaba por n\u00e3o conseguir se conter. Trist\u00e3o e Isolda se engajam num intenso caso amoroso \u00e0s escondidas mas que num dado momento acaba sendo descoberto. Trist\u00e3o \u00e9 banido por seu tio do reino e no seu ex\u00edlio termina por se casar com outra mulher tamb\u00e9m chamada Isolda (a Isolda das m\u00e3os brancas). Ap\u00f3s muito tempo, Trit\u00e3o \u00e9 mortalmente ferido por uma lan\u00e7a e, percebendo que est\u00e1 para morrer, pede \u00e0 sua esposa que chame a antiga Isolda, conhecedora de curas miraculosas, para saber se ela pode tentar cur\u00e1-lo. Ao ouvir tal pedido, Isolda p\u00f5e-se a caminho, por\u00e9m a outra Isolda (das m\u00e3os brancas), esposa de Trist\u00e3o, por ci\u00fames o engana e diz que a outra Isolda n\u00e3o vir\u00e1. Desolado, Trist\u00e3o morre. Ao chegar no local onde Trist\u00e3o est\u00e1, Isolda o encontra j\u00e1 morto. Com isso, Isolda tamb\u00e9m acaba morrendo, de amor.<\/p>\n<p><iframe title=\"Richard Wagner - &quot;Tristan und Isolde&quot;, Prelude\" width=\"700\" height=\"525\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/J-qoaioG2UA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Esta est\u00f3ria traz em si os 3 tipos de amor que a filosofia da Gr\u00e9cia antiga j\u00e1 havia catalogado: \u00c1gape, Philia e Eros. No caso do amor rec\u00edproco que Trist\u00e3o sentia pelo seu tio, o rei Marcos, temos um bom exemplo de amor mais puro, incondicional, confiante e ben\u00e9fico, que \u00e9 o amor \u00e1gape. Este \u00e9 considerado o mais perfeito tipo de amor, onde o que ama n\u00e3o tenta tolher a liberdade da pessoa amada mas apenas quer o seu melhor; algo que se aproxima do amor que alguns pais conseguem ter por seus filhos. O caso do amor que Trist\u00e3o sente por Isolda \u00e9 um exemplo t\u00edpico de amor eros. Este \u00e9 comparado \u00e0 uma fogueira que queima, consome e, ao ser consumado, muitas vezes se acaba. Por causa deste amor er\u00f3tico por Isolda, Trist\u00e3o \u00e9 consumido. Ele \u00e9 banido, perde o amor \u00e1gape do seu tio (como que numa analogia da passagem b\u00edblica onde o criador expulsa Ad\u00e3o e Eva de seu para\u00edso). Por fim, o amor que Trist\u00e3o sente pela mulher com quem ele se casa, a Isolda das m\u00e3os brancas, \u00e9 um exemplo de amor philia. Este ocorre nas amizades em geral, onde ainda que exista um certo grau de possessividade e at\u00e9 ci\u00fames, nem de perto se comprara ao que se tem no amor eros. Na minha opini\u00e3o, a progress\u00e3o do prel\u00fadio de Trist\u00e3o e Isolda descreve a transmuta\u00e7\u00e3o desses tipos de amor, onde os 2 acordes como que representam a passagem de eros a philia e o contexto harm\u00f4nico, que d\u00e1 sentido perceptual a todo o contexto da progress\u00e3o, representa o \u00e1gape.<\/p>\n<p>Das est\u00f3rias modernas que se tornam mitol\u00f3gicas, temos como bom exemplo o filme original <i>Star Wars<\/i>, lan\u00e7ado em 1977. Este tamb\u00e9m traz representado em sua trama os 3 tipos de amor. Inicialmente fadado ao desastre, tanto na opini\u00e3o do seu criador, George Lucas, quanto do diretor Steven Spielberg, este filme ganhou outra roupagem ap\u00f3s uma total re-edi\u00e7\u00e3o e principalmente ap\u00f3s a inclus\u00e3o de uma trilha sonora orquestral brilhantemente, composta por John Williams. Na trilha sonora de Star Wars, que se tornou um dos maiores <em>best sellers<\/em> de todos os tempos, temos excertos musicais compostos por Williams com a inten\u00e7\u00e3o de representar as 3 formas de amor acima descritas. No pr\u00f3ximo artigo, que corresponde \u00e0 segunda parte desta discuss\u00e3o, falarei brevemente sobre esta trilha sonora, onde irei contrast\u00e1-la com estudos sobre a capacidade que a m\u00fasica tem de nos provocar rea\u00e7\u00f5es emotivas e sensoriais, como \u00e9 o caso do <i>frisson\u00a0<\/i>(o arrepio cut\u00e2neo ocasionado devido a uma intensa emo\u00e7\u00e3o), fator este fundamental para que uma trilha sonora cumpra a sua principal fun\u00e7\u00e3o; a de potencializar o impacto emotivo de uma obra cinematogr\u00e1fica.<\/p>\n<div id=\"attachment_797\" style=\"width: 722px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-797\" class=\"wp-image-797 size-full\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/06\/snut9r9qnlzz.jpg\" alt=\"\" width=\"712\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/06\/snut9r9qnlzz.jpg 712w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/06\/snut9r9qnlzz-300x190.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/06\/snut9r9qnlzz-700x442.jpg 700w\" sizes=\"(max-width: 712px) 100vw, 712px\" \/><p id=\"caption-attachment-797\" class=\"wp-caption-text\">Fonte: https:\/\/i.redd.it\/snut9r9qnlzz.jpg<\/p><\/div>\n<hr \/>\n<p><strong>Como citar este artigo:<\/strong><\/p>\n<p>Jos\u00e9 Fornari. \u201cM\u00fasica e Amor\u201d. Blogs de Ci\u00eancia da Universidade Estadual de Campinas. ISSN 2526-6187. Data da publica\u00e7\u00e3o: 12 de junho de 2019. Link: https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/06\/12\/23\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/06\/12\/23\/\" rel=\"bookmark\" title=\"Link permanente M\u00fasica e Amor\"><p>ESPECIAL Jos\u00e9 Fornari (Tuti) \u2013 12 de junho de 2019 fornari @ unicamp . br Hoje, dia dos namorados no Brasil, resolvi escrever algo diferente. Algo sobre a m\u00fasica e a sua intera\u00e7\u00e3o com o amor. 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