{"id":867,"date":"2019-08-14T18:00:26","date_gmt":"2019-08-14T21:00:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/?p=867"},"modified":"2020-01-20T02:54:15","modified_gmt":"2020-01-20T05:54:15","slug":"29","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/08\/14\/29\/","title":{"rendered":"Escrita textual e musical"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\">Jos\u00e9 Fornari (Tuti) \u2013 14 de agosto de 2019<\/p>\n<p style=\"text-align: right\">fornari @ unicamp . br<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Seguindo a compara\u00e7\u00e3o entre m\u00fasica e linguagem que iniciei no <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/07\/31\/28\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">artigo anterior<\/a>, existiu um importante fato na hist\u00f3ria do desenvolvimento da civiliza\u00e7\u00e3o que foi t\u00e3o marcante e definitivo que passou a ser considerado o marco divis\u00f3rio em sua hist\u00f3ria; o advento da escrita. Conforme disse <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/01\/16\/3\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">anteriormente<\/a>, o advento da escrita musical parece ter ocorrido praticamente no mesmo per\u00edodo que surgiu a escrita das linguagens. Segundo registros palentoantropol\u00f3gicos (paleontologia da esp\u00e9cie humana), os primeiros seres humanos modernos (similares ao n\u00f3s) surgiram a mais de 100.000 anos atr\u00e1s, no leste da Africa. Apesar de existirem registros de ocorr\u00eancias simult\u00e2neas (em termos de escala paleontol\u00f3gica) em outros povos e locais ao redor do mundo, a origem dos primeiros sistemas de escrita da linguagem datam de aproximadamente 5.000 anos atr\u00e1s, nos povos da Mesopot\u00e2mia (mais especificamente, entre o povo da Sum\u00e9ria). Similarmente, um dos primeiros registros de escrita musical que se tem conhecimento datam de cerca de 4.000 anos atr\u00e1s, tamb\u00e9m na Mesopot\u00e2mia (mais especificamente, entre o povo da Babil\u00f4nia). Percebe-se assim a necessidade que naturalmente surgiu de se registrar cria\u00e7\u00f5es nestes dois tipos de comunica\u00e7\u00e3o sonora.<\/p>\n<div id=\"attachment_870\" style=\"width: 694px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-870\" class=\"wp-image-870 size-full\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/08\/Tableta_con_trillo.png\" alt=\"\" width=\"684\" height=\"315\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/08\/Tableta_con_trillo.png 684w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/08\/Tableta_con_trillo-300x138.png 300w\" sizes=\"(max-width: 684px) 100vw, 684px\" \/><p id=\"caption-attachment-870\" class=\"wp-caption-text\"><strong><em>Limestone Kish tablet from Sumer with pictographic writing; may be the earliest known writing, 3500 BC. Ashmolean Museum<\/em>.<\/strong> Fonte: https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/History_of_writing#\/media\/File:Tableta_con_trillo.png<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_151\" style=\"width: 736px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-151\" class=\"wp-image-151 size-full\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/01\/oldest-known-music-notation-ms-5105_f.jpg\" alt=\"\" width=\"726\" height=\"866\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/01\/oldest-known-music-notation-ms-5105_f.jpg 726w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/01\/oldest-known-music-notation-ms-5105_f-252x300.jpg 252w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/01\/oldest-known-music-notation-ms-5105_f-587x700.jpg 587w\" sizes=\"(max-width: 726px) 100vw, 726px\" \/><p id=\"caption-attachment-151\" class=\"wp-caption-text\"><strong>O mais antigo registro hist\u00f3rico de nota\u00e7\u00e3o musical.<\/strong> Fonte: https:\/\/www.schoyencollection.com\/music-notation\/old-babylonia-cuneiform-notation\/oldest-known-music-notation-ms-5105<\/p><\/div>\n<p>O registro da comunica\u00e7\u00e3o humana por meio de um sistema de escrita permitiu vencer a barreira da mem\u00f3ria individual, amplificando a capacidade social de reter de modo virtualmente indefinido a informa\u00e7\u00e3o em registros escritos de conhecimento, criando assim a possibilidade da sustenta\u00e7\u00e3o de uma cultura muito mais complexa e abrangente. Isto tamb\u00e9m alterou a maneira como a transmiss\u00e3o deste conhecimento era realizada entre indiv\u00edduos e comunidades. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que o advento da escrita permitiu um enorme avan\u00e7o da civiliza\u00e7\u00e3o, onde as tradi\u00e7\u00f5es culturais deixaram de ser orais e passaram a ser liter\u00e1rias. Walter J. Ong, em seu famoso livro \u201c<i>Orality and Literacy<\/i>\u201d, descreve 2 tipos de oralidade: prim\u00e1ria e secund\u00e1ria. A oralidade prim\u00e1ria \u00e9 denotada pela fala sem registro sonoro. Neste contexto de aus\u00eancia de m\u00e9todos de registro da informa\u00e7\u00e3o oral, era necess\u00e1rio o aprimoramento da capacidade de mem\u00f3ria do indiv\u00edduo, pois uma boa capacidade de retens\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o em sua forma aural significava uma clara vantagem para a sua sobreviv\u00eancia, manuten\u00e7\u00e3o e bem estar. Assim, foram naturalmente desenvolvidas nas comunidades, estrat\u00e9gias de aumento da retens\u00e3o aural da informa\u00e7\u00e3o oral, como s\u00e3o os recursos dram\u00e1ticos dos contadores de hist\u00f3rias, que impressionavam suas audi\u00eancias com gestos e express\u00f5es faciais exageradas e abruptas, utilizadas durante seus relatos, normalmente realizados em circunst\u00e2ncias at\u00edpicas e ritual\u00edsticas (por exemplo, a noite, perto de uma fogueira). Al\u00e9m de tamb\u00e9m se valerem de grandes varia\u00e7\u00f5es de intensidade e frequ\u00eancia vocal de seu discurso, a fim de impressionarem a audi\u00eancia e assim promoverem a retens\u00e3o do conhecimento que estava sendo comunicado.<\/p>\n<div id=\"attachment_871\" style=\"width: 730px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-871\" class=\"size-full wp-image-871\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/08\/storyteller.jpg\" alt=\"\" width=\"720\" height=\"488\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/08\/storyteller.jpg 720w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/08\/storyteller-300x203.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/08\/storyteller-700x474.jpg 700w\" sizes=\"(max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><p id=\"caption-attachment-871\" class=\"wp-caption-text\"><em><strong>Story Teller.<\/strong> <\/em>Fonte: https:\/\/fantasycollective.files.wordpress.com\/2013\/07\/storyteller.jpg<\/p><\/div>\n<p>Estes relatos muitas vezes tamb\u00e9m eram realizados com a utiliza\u00e7\u00e3o de regularidades ac\u00fasticas da informa\u00e7\u00e3o oral, organizadas em similaridades perceptuais r\u00edtmicas e fon\u00e9ticas, o que parece ter dado origem \u00e0s m\u00e9tricas e \u00e0s rimas dos poemas que, organizados em estruturas gramaticais, exprimem poesia. Com o advento da escrita, estas estrat\u00e9gias foram pouco a pouco deixando de ter um significado estritamente funcional, de fomentar maior retens\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o oral, para um significado est\u00e9tico e l\u00fadico, como \u00e9 atualmente o caso da utiliza\u00e7\u00e3o de tais regularidades sonoras presentes, por exemplo, nos versos, estrofes e rimas (no caso dos poemas tradicionais), nos seus cantos e nas letras de can\u00e7\u00f5es de m\u00fasicas folcl\u00f3ricas, populares e nas \u00f3peras.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Chio Buarque \u2013 &#8220;Sob medida&#8221;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-873\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/08\/sob-medida-1.png\" alt=\"\" width=\"577\" height=\"648\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/08\/sob-medida-1.png 577w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/08\/sob-medida-1-267x300.png 267w\" sizes=\"(max-width: 577px) 100vw, 577px\" \/><\/p>\n<p><iframe title=\"Sob Medida - Chico Buarque\" width=\"700\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/LqJwBCxCtPU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>A m\u00fasica tamb\u00e9m foi certamente afetada pelo advento do seu registro simb\u00f3lico, na forma de nota\u00e7\u00e3o musical, onde estruturas mais complexas e de maior dura\u00e7\u00e3o puderam ser registradas e assim desenvolvidas sob a perspectiva de estruturas mais elaboradas e refinadas, como a forma sonata, as sinfonias e as \u00f3peras. O desenvolvimento de um m\u00e9todo formal de registro do conjunto de a\u00e7\u00f5es que um m\u00fasico deve executar a fim de reproduzir um evento musical deu origem \u00e0 nota\u00e7\u00e3o musical, o que por sua vez, permitiu o desenvolvimento da \u00e1rea mais desenvolvida da musicologia; a musicologia hist\u00f3rica, conforme mencionada no <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/01\/02\/1\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">primeiro artigo deste blog<\/a>. No entanto, n\u00e3o me parece que a m\u00fasica tenha atingido um patamar secund\u00e1rio t\u00e3o delineado quanto a oralidade secund\u00e1ria, conforme definida por Ong, no que diz respeito \u00e0 inser\u00e7\u00e3o da escrita na m\u00fasica. A m\u00fasica, como se sabe, n\u00e3o tem a necessidade ou muitas vezes sequer a inten\u00e7\u00e3o de efetivar uma comunica\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica. Para esse prop\u00f3sito, servem as letras das can\u00e7\u00f5es, que de fato, atrav\u00e9s do contexto sem\u00e2ntico, potencializam uma efetiva comunica\u00e7\u00e3o afetiva. Prova de que a m\u00fasica foi menos afetada pelo advento da escrita musical \u00e9 o fato de que grande parte da produ\u00e7\u00e3o musical ter ocorrido e ainda continuar ocorrendo sem a exist\u00eancia ou necessidade de nota\u00e7\u00e3o musical, o que definitivamente n\u00e3o \u00e9 o caso da oralidade. A m\u00fasica popular e pop por exemplo, \u00e9 muitas vezes produzida sem utilizar partituras de apoio. A produ\u00e7\u00e3o musical parece ter saltado da sua musicalidade prim\u00e1ria (correspondente \u00e0 oralidade prim\u00e1ria) a uma musicalidade terci\u00e1ria, onde os meios tecnol\u00f3gicos eletr\u00f4nicos e comunicacionais (em especial, a internet) permitem o seu registro e dissemina\u00e7\u00e3o. Este fato \u00e9 tamb\u00e9m evidente mesmo dentro das esferas da m\u00fasica formal, intelectual e acad\u00eamica; no caso espec\u00edfico da m\u00fasica eletroac\u00fastica, conforme citada no <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/02\/06\/6\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">artigo anterior<\/a>, onde muitos compositores criam suas obras diretamente atrav\u00e9s da manipula\u00e7\u00e3o do registro digital do material sonoro, onde a mixagem final cumpre o papel de partitura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Como citar este artigo:<\/strong><\/p>\n<p>Jos\u00e9 Fornari. \u201cEscrita textual e musical\u201d. Blogs de Ci\u00eancia da Universidade Estadual de Campinas. ISSN 2526-6187. Data da publica\u00e7\u00e3o: 14 de agosto de 2019. Link: https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/08\/14\/29\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/08\/14\/29\/\" rel=\"bookmark\" title=\"Link permanente Escrita textual e musical\"><p>Jos\u00e9 Fornari (Tuti) \u2013 14 de agosto de 2019 fornari @ unicamp . br &nbsp; Seguindo a compara\u00e7\u00e3o entre m\u00fasica e linguagem que iniciei no artigo anterior, existiu um importante fato na hist\u00f3ria do desenvolvimento da civiliza\u00e7\u00e3o que foi t\u00e3o marcante e definitivo que passou a ser considerado o marco divis\u00f3rio em sua hist\u00f3ria; o [&hellip;]<\/p>\n<\/a>","protected":false},"author":389,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[69,7,10,50,3,2,15,18,17,13,5],"class_list":["post-867","post","type-post","status-publish","format-standard","category-musicologia","tag-jose-eduardo-fornari-novo-junior","tag-blog","tag-blogs","tag-escrita-textual-e-musical","tag-musica","tag-musicologia","tag-musicologia-na-midia","tag-nics","tag-tuti","tag-tutifornari","tag-unicamp","h-entry","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/867","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/389"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=867"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/867\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":875,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/867\/revisions\/875"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=867"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=867"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=867"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}