{"id":878,"date":"2019-08-28T18:00:11","date_gmt":"2019-08-28T21:00:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/?p=878"},"modified":"2020-01-20T02:55:52","modified_gmt":"2020-01-20T05:55:52","slug":"30","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/08\/28\/30\/","title":{"rendered":"Bifurca\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o musical na oralidade secund\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\">Jos\u00e9 Fornari (Tuti) \u2013 28 de agosto de 2019<\/p>\n<p style=\"text-align: right\">fornari @ unicamp . br<\/p>\n<hr \/>\n<p>No <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/08\/14\/29\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">artigo anterior<\/a> eu tratei brevemente dos paralelos entre os processos de escrita da comunica\u00e7\u00e3o verbal e musical, onde comparei os processos de oralidade prim\u00e1ria e secund\u00e1ria tanto na linguagem quanto na m\u00fasica. Como conjecturei, ao contr\u00e1rio do que ocorreu com a linguagem, uma significativa parcela da produ\u00e7\u00e3o musical parece n\u00e3o ter sido diretamente afetada pela ocorr\u00eancia da escrita musical, ou seja, a nota\u00e7\u00e3o. A meu ver, o advento da oralidade secund\u00e1ria foi mais transformador para a linguagem do que para a m\u00fasica.<\/p>\n<div id=\"attachment_881\" style=\"width: 650px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-881\" class=\"size-full wp-image-881\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/08\/guinga.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"390\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/08\/guinga.jpg 640w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/wp-content\/uploads\/sites\/182\/2019\/08\/guinga-300x183.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><p id=\"caption-attachment-881\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Guinga, famoso compositor popular, aclamado pela cr\u00edtica e pela comunidade musical, que declara n\u00e3o saber ler ou escrever nota\u00e7\u00e3o musical.<\/strong> Fonte: http:\/\/culturafm.cmais.com.br\/radiometropolis\/violonista-e-compositor-carioca-guinga-lanca-disco-cancao-da-impermanencia-em-sp<\/p><\/div>\n<p>De fato, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que a partitura trouxe grandes avan\u00e7os para o estabelecimento da arte musical, em especial, no caso da m\u00fasica erudita de tradi\u00e7\u00e3o Europ\u00e9ia, que evoluiu fundamentalmente pela ocorr\u00eancias da nota\u00e7\u00e3o musical tradicional, tanto em termos da complexidade das estruturas musicais, com no surgimento de composi\u00e7\u00f5es mais extensas e complexas (por exemplo, as sonatas, as \u00f3peras e as sinfonias) como em termos de complexidade dos grupos e forma\u00e7\u00f5es musicais, com o surgimento de organiza\u00e7\u00f5es estruturadas e estabelecidas, como \u00e9 o caso do quarteto de cordas ou da orquestra sinf\u00f4nica. O famoso maestro estadunidense Michael Tilson Thomas apresentou em 2012 uma palestra no famoso evento TED onde tra\u00e7ou um breve hist\u00f3rico sobre o desenvolvimento da m\u00fasica escrita. Segundo Thomas, o sucesso da m\u00fasica erudita se baseia naquilo que ele se refere como sendo a parceria do instinto com a intelig\u00eancia. A rela\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o musical intuitiva e espont\u00e2nea e o seu parceiro silencioso, a nota\u00e7\u00e3o musical, permitiu o aprofundamento da explora\u00e7\u00e3o da composi\u00e7\u00e3o musical atrav\u00e9s do registro de estruturas mel\u00f3dicas, harm\u00f4nicas e r\u00edtmicas com maior extens\u00e3o e complexidade, indo al\u00e9m daquilo que a mem\u00f3ria humana \u00e9 capaz de registrar e a mente \u00e9 capaz de lidar sem o aux\u00edlio da escrita. A nota\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m permitiu o desenvolvimento de uma heran\u00e7a est\u00e9tica musical e o consequente processo de encultura\u00e7\u00e3o do p\u00fablico ouvinte a novas formas, estilos e g\u00eaneros musicais, o que permitiu n\u00e3o apenas o desenvolvimento da m\u00fasica mas tamb\u00e9m o desenvolvimento de novas expectativas est\u00e9ticas.<\/p>\n<p><iframe title=\"Michael Tilson Thomas: Music and emotion through time\" src=\"https:\/\/embed.ted.com\/talks\/michael_tilson_thomas_music_and_emotion_through_time\" width=\"700\" height=\"394\" frameborder=\"0\" scrolling=\"no\" webkitAllowFullScreen mozallowfullscreen allowFullScreen><\/iframe><\/p>\n<p>Um exemplo da encultura\u00e7\u00e3o de uma nova est\u00e9tica musical \u00e9 o not\u00f3rio caso do j\u00e1 citado \u201c<a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/01\/16\/3\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">intervalo do diabo<\/a>\u201d; ou seja, o tr\u00edtono, um intervalo de 3 tons inteiros que \u00e9 normalmente entendido como sendo dissonante. Na idade m\u00e9dia, o tr\u00edtono era considerado t\u00e3o agressivo para os padr\u00f5es est\u00e9ticos musicais da maioria dos ouvintes daquela \u00e9poca que este era evitado pelos compositores, especialmente nas composi\u00e7\u00f5es eclesi\u00e1sticas. Com o passar dos tempos, este mesmo intervalo passou a ser amplamente utilizado nas composi\u00e7\u00f5es, tanto da m\u00fasica erudita, a partir do per\u00edodo Barroco, quanto da m\u00fasica popular, como o Jazz, especialmente devido a sua tens\u00e3o cognitiva, que permite seu contraponto com um intervalo mais est\u00e1vel que simbolize o relaxamento da tens\u00e3o representada pelo tr\u00edtono.<\/p>\n<p><iframe title=\"What is a Tritone? Tritone Explained in 2 Minutes (Music Theory)\" width=\"700\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/JJIO-Jr0E8o?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>No entanto, a produ\u00e7\u00e3o musical que n\u00e3o se enveredou pelo vi\u00e9s do formalismo e da erudi\u00e7\u00e3o que o registro notacional proporcionou, continuou a ser amplamente produzida, apreciada e consumida pela popula\u00e7\u00e3o. Este \u00e9 o caso das m\u00fasicas folcl\u00f3ricas e populares, normalmente associadas \u00e0 dan\u00e7as e que s\u00e3o amplamente estudadas pela etnomusicologia, especialmente por representar as caracter\u00edsticas idiossincr\u00e1ticas de uma comunidade e sua regi\u00e3o geogr\u00e1fica. Isto representou uma certa biparti\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e est\u00e9tica musical que \u00e9 simplisticamente referida pelos termos: erudito e popular. Enquanto a produ\u00e7\u00e3o de m\u00fasica erudita fomentava um processo anal\u00edtico de \u201cencultura\u00e7\u00e3o\u201d do seu p\u00fablico ouvinte (que tinha que se eruditizar para entender e assim apreciar a produ\u00e7\u00e3o musical erudita), a m\u00fasica popular fomentava um processo afetivo de \u201cacultura\u00e7\u00e3o\u201d onde comunidades recebiam, percebiam e assimilavam as caracter\u00edsticas culturais de outras comunidades, normalmente vindas das comunidades hegemonicamente superiores.<\/p>\n<p><iframe title=\"Enculturation, Acculturation, and Cultural Diffusion\" width=\"700\" height=\"525\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/gkpfZZ6hubY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>A m\u00fasica erudita foi assim abrindo m\u00e3o de uma estrutura musical flex\u00edvel que permitisse a sua improvisa\u00e7\u00e3o e centrou esfor\u00e7os na interpreta\u00e7\u00e3o de uma estrutura r\u00edgida notacional; a performance. Do mesmo modo, a m\u00fasica popular foi flexibilizando sua estrutura composicional, permitindo a explora\u00e7\u00e3o de improvisa\u00e7\u00f5es e rearranjos (uma composi\u00e7\u00e3o tocada com diferentes forma\u00e7\u00f5es musicais).\u00a0Nota-se assim que a predomin\u00e2ncia de uma oralidade prim\u00e1ria na m\u00fasica popular diminuiu a explora\u00e7\u00e3o da complexidade da estrutura musical ao mesmo tempo que aumentou a explora\u00e7\u00e3o de sua espontaneidade atrav\u00e9s da improvisa\u00e7\u00e3o, do mesmo modo que ocorre com a linguagem falada, que \u00e9 a parte espont\u00e2nea da express\u00e3o verbal; sendo como que uma improvisa\u00e7\u00e3o idiom\u00e1tica da l\u00edngua textual. Por este vi\u00e9s comparativo, podemos imaginar que o processo de forma\u00e7\u00e3o dos diferentes idiomas ao longo da hist\u00f3ria da humanidade ocorreu por fatores similares aos que levaram ao surgimento de diferentes g\u00eaneros musicais das distintas comunidades ao redor do mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Como citar este artigo:<\/strong><\/p>\n<p>Jos\u00e9 Fornari. \u201cBifurca\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o musical na oralidade secund\u00e1ria\u201d. Blogs de Ci\u00eancia da Universidade Estadual de Campinas. ISSN 2526-6187. Data da publica\u00e7\u00e3o: 28 de agosto de 2019. Link: https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/08\/28\/30\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/08\/28\/30\/\" rel=\"bookmark\" title=\"Link permanente Bifurca\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o musical na oralidade secund\u00e1ria\"><p>Jos\u00e9 Fornari (Tuti) \u2013 28 de agosto de 2019 fornari @ unicamp . br No artigo anterior eu tratei brevemente dos paralelos entre os processos de escrita da comunica\u00e7\u00e3o verbal e musical, onde comparei os processos de oralidade prim\u00e1ria e secund\u00e1ria tanto na linguagem quanto na m\u00fasica. 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