{"id":938,"date":"2019-09-25T18:22:01","date_gmt":"2019-09-25T21:22:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/?p=938"},"modified":"2020-10-26T18:14:27","modified_gmt":"2020-10-26T21:14:27","slug":"32","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/09\/25\/32\/","title":{"rendered":"Liberdade e Significado Musical"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\">Jos\u00e9 Fornari (Tuti) \u2013 25 de setembro de 2019<\/p>\n<p style=\"text-align: right\">fornari @ unicamp . br<\/p>\n<hr>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 1948, um artigo intitulado \u201c<i>A Mathematical Theory of Communication<\/i>\u201d, do matem\u00e1tico Claude Shannon, revolucionou o entendimento formal dos mecanismos que regem a comunica\u00e7\u00e3o, criando assim uma nova \u00e1rea de estudos na matem\u00e1tica, a <i>Information Theory<\/i> (Teoria da Informa\u00e7\u00e3o). Shannon apresentou neste artigo (que logo em seguida se transformou num livro com o mesmo t\u00edtulo) um modelo matem\u00e1tico que permite quantificar e dimensionar o que \u00e9 e como ocorre a comunica\u00e7\u00e3o. Neste contexto, informa\u00e7\u00e3o \u00e9 vista como um conjunto de mensagens que cont\u00e9m significado. Estas s\u00e3o comunicadas atrav\u00e9s de um canal que \u00e9 sempre ruidoso, ou seja, que sempre insere ru\u00eddo na mensagem, aumentando assim a sua entropia. A capacidade do canal em transmitir mensagens depende do seu grau de entropia. Se este for muito alto, o ru\u00eddo inserido pode degradar a mensagem a ponto de torna-la indecifr\u00e1vel (ou seja, transformando-a tamb\u00e9m em ru\u00eddo). O receptor recebe a mensagem transmitida pelo transmissor atrav\u00e9s do canal ruidoso e sua tarefa \u00e9 reconstrui-la atrav\u00e9s de processos de filtragem, ou seja, a separa\u00e7\u00e3o entre a informa\u00e7\u00e3o da mensagem e a entropia (ru\u00eddo) inserido pelo canal. O objetivo assim \u00e9 minimizar o ru\u00eddo acrescido pelo canal, diminuindo a probabilidade de ocorr\u00eancia de erros de interpreta\u00e7\u00e3o das mensagens, de modo a garantir a exist\u00eancia de uma comunica\u00e7\u00e3o suficiente para que se tenha ao final da comunica\u00e7\u00e3o um n\u00edvel adequado de informa\u00e7\u00e3o m\u00fatua entre transmissor e receptor. A mensagem \u00e9 transmitida em por\u00e7\u00f5es at\u00f4micas, ou seja, que representam o n\u00edvel m\u00ednimo de informa\u00e7\u00e3o; aquele que n\u00e3o podem ser dividido.. Estes s\u00e3o chamados de \u201c<i>bits<\/i>\u201d (na eletr\u00f4nica digital, um bit \u00e9 representado por uma vari\u00e1vel bin\u00e1ria, que s\u00f3 pode ter um entre 2 valores poss\u00edveis: 0 ou 1). Para garantir a comunica\u00e7\u00e3o da mensagem, o transmissor normalmente se vale de \u201credund\u00e2ncias\u201d na informa\u00e7\u00e3o, repetindo-as de modo a maximizar a possibilidade de sua decodifica\u00e7\u00e3o. Desse modo, a transmiss\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o que comp\u00f5e a comunica\u00e7\u00e3o nunca \u00e9 perfeita e sempre ocorre dentro de uma probabilidade de comunica\u00e7\u00e3o abaixo da ideal (onde n\u00e3o haveria ru\u00eddo acrescido na transmiss\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p><iframe title=\"What is information theory? | Journey into information theory | Computer Science | Khan Academy\" width=\"700\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/d9alWZRzBWk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Esta formula\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica pode nos servir de met\u00e1fora para compreender os meandros das duas mais importantes formas de comunica\u00e7\u00e3o sonora que a evolu\u00e7\u00e3o social nos trouxe: a linguagem e a m\u00fasica. Ambas s\u00e3o constitu\u00eddas de sinais sonoros organizados em sequ\u00eancia ao longo do tempo e s\u00e3o encontradas ao longo da hist\u00f3ria da humanidade em todas as culturas e comunidades que se tem registro. M\u00fasica e Linguagem compartilham as mesmas regi\u00f5es cerebrais para o seu processamento (transmiss\u00e3o, processada pela regi\u00e3o cerebral conhecida como \u00e1rea de Broca) e compreens\u00e3o (recep\u00e7\u00e3o, processada pela regi\u00e3o cerebral conhecida como \u00e1rea de Wernicke). Utilizando o modelos de Shannon, descrito acima, vemos que tanto m\u00fasica quanto linguagem s\u00e3o transmitidas atrav\u00e9s de um canal ruidoso, seja em termos ac\u00fasticos, onde as ondas sonoras sofrem distor\u00e7\u00f5es do meio; quanto em termos cognitivos, onde a mensagem depende da capacidade e das peculiaridades subjetivas do processo de decodifica\u00e7\u00e3o do receptor (o ouvinte). Apesar de linguagem e m\u00fasica se aproximarem epistemologicamente, estas se especializam em termos de funcionalidade da mensagem, distanciando-se teleologicamente. A linguagem especializa-se primordialmente na comunica\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica, com as defini\u00e7\u00f5es de objetos e a\u00e7\u00f5es (que tratam de responder quest\u00f5es tais como: quem, o que, onde, como e quando), enquanto que a m\u00fasica trata mais especificamente da comunica\u00e7\u00e3o de emo\u00e7\u00f5es, n\u00e3o no sentido de induzir o ouvinte \u00e0 rea\u00e7\u00f5es pavlovianas, como que se o estivesse adestrando a sentir a emo\u00e7\u00e3o que a m\u00fasica dita, mas no sentido de exercer uma influ\u00eancia sutil, como que tentando persuadi-lo a encarar um certo cen\u00e1rio pragm\u00e1tico sob a perspectiva de um determinado prisma emocional sugerido pela m\u00fasica escutada. Ambas s\u00e3o assim fundamentais para a express\u00e3o humana e, ao inv\u00e9s de competirem, se complementam, muitas vezes cooperando em g\u00eaneros art\u00edsticos como o poema (que \u00e9 uma arte da linguagem mas que se vale de estrat\u00e9gias tipicamente musicais, tais como: rimas, m\u00e9tricas e entoa\u00e7\u00f5es na declama\u00e7\u00e3o), a can\u00e7\u00e3o (que une poesia com m\u00fasica, criando um discurso com significado sem\u00e2ntico e afetivo, que s\u00e3o correlacionados e se complementam), o cinema (onde a trilha sonora cumpre um papel fundamental na evoca\u00e7\u00e3o emotiva de uma cena, ao mesmo tempo que muitas vezes este processo \u00e9 obliterada pela consci\u00eancia do ouvinte, que \u00e9 persuadido \u00e0quele estado emocional pela m\u00fasica da trilha sem ter sequer a consci\u00eancia de t\u00ea-la escutado) e mais recentemente, os recursos tecnol\u00f3gicos ubiquamente disponibilizados que permitem com que o ouvinte facilmente crie repert\u00f3rios que quer escutar, empoderando-o com a possibilidade de programar uma esp\u00e9cie de auto-persuas\u00e3o emotiva, ou seja, uma auto indu\u00e7\u00e3o de estados emocionais os quais este ouvinte deseja experienciar, atrav\u00e9s da escuta seletiva de pe\u00e7as musicais que servem primordialmente este prop\u00f3sito.<\/p>\n<p><iframe title=\"The Art of Free Improvisation, Part One\" width=\"700\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/yzZrB2-yc-A?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Outra similaridade entre a linguagem e a m\u00fasica \u00e9 a capacidade de ambas serem desenvolvidas em tempo real, na medida de nossa necessidade comunicacional. Quando falamos informalmente com algu\u00e9m, n\u00e3o temos um texto previamente preparado, memorizado ou sequer definido, que guie a constru\u00e7\u00e3o de nossa ret\u00f3rica. Iniciamos apenas com uma inten\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica; a de tratar de algum assunto espec\u00edfico, o qual para expressa-lo criamos de modo perceptualmente imediato uma estrutura sint\u00e1tica na medida em que falamos e escutamos a resposta de quem estamos conversando, ou seja, na medida em que a conversa evolui. Do mesmo modo, na m\u00fasica existe o improviso. Este \u00e9 criado pelo m\u00fasico (normalmente o m\u00fasico popular) a partir de um significado estrutural, de certo modo assemelhando-se \u00e0 estrutura sint\u00e1tica da linguagem que surge durante uma conversa, ou seja, uma estrutura ordenada no tempo que determina a sequ\u00eancia harm\u00f4nica e r\u00edtmica que sustenta (ou seja, da significado) \u00e0 melodia. Mesmo o m\u00fasico criando embelezamentos estruturais, atrav\u00e9s de rearmoniza\u00e7\u00f5es, substitui\u00e7\u00f5es de acordes ou ostinatos r\u00edtmicos, sua estrutura funcional e temporal s\u00e3o respeitadas de modo a manter a coer\u00eancia da improvisa\u00e7\u00e3o como uma varia\u00e7\u00e3o da estrutura mel\u00f3dica original. Linguagem falada desse modo se assemelha \u00e0 improvisa\u00e7\u00e3o musical idiom\u00e1tica, ou seja, aquela que ocorre dentro de um dado g\u00eanero musical (que parece se aproximar de um tipo de proto-sem\u00e2ntica musical, pois determina um contexto que \u00e9 decodificado por quem conhece o g\u00eanero). J\u00e1 a improvisa\u00e7\u00e3o livre tenta transcender os limites da estrutura harm\u00f4nica, r\u00edtmica e de g\u00eanero musical, onde o grupo que a pratica tenta n\u00e3o se atrelar \u00e0 uma forma ou g\u00eanero musical, focando na promo\u00e7\u00e3o da intera\u00e7\u00e3o musical com os outros membros do grupo de improvisa\u00e7\u00e3o livre. Por\u00e9m, ao que me parece, a aus\u00eancia continuada de contextualiza\u00e7\u00e3o torna-se em si mesma uma outra forma de contextualiza\u00e7\u00e3o: a contextualiza\u00e7\u00e3o daquilo que n\u00e3o tem contexto, ou seja, do incontest\u00e1vel (j\u00e1 que n\u00e3o pode ser julgado), o que impede que a cogni\u00e7\u00e3o do ouvinte atue no sentido de estabelecer um significado musical (como no caso da improvisa\u00e7\u00e3o idiom\u00e1tica), tornando, na maioria das vezes, a mensagem musical inc\u00f3gnita. Desse modo, a livre improvisa\u00e7\u00e3o transcende as barreiras da m\u00fasica como um todo, na minha opini\u00e3o, aproximando-a da composi\u00e7\u00e3o de outra forma de arte sonora, a composi\u00e7\u00e3o din\u00e2mica e coletiva de paisagens sonoras, onde este processo de continuada intera\u00e7\u00e3o iconoclasta (sendo o \u00edcone o g\u00eanero) entre o grupo de livre improvisa\u00e7\u00e3o, faz com que texturas sonoras emerjam desta intera\u00e7\u00e3o, imergindo os participantes numa intera\u00e7\u00e3o musical din\u00e2mica cuja sonoridade evolui, transmuta e eventualmente \u00e9 subitamente rompida. Todas estas s\u00e3o caracter\u00edsticas encontradas em paisagens sonoras naturais, as quais a livre improvisa\u00e7\u00e3o emula, se expressando musicalmente como que numa forma de onomatopeia sonora auto organizada cuja sonoridade imita seu processo composicional.<\/p>\n<p><iframe title=\"Free improvisation: still the ultimate in underground music?\" width=\"700\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/kejGAbNS4Ck?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n<p>[] Shannon, C.E. &#8220;A Mathematical Theory of Communication&#8221;, Bell System Technical Journal, 27, pp. 379\u2013423 &amp; 623\u2013656, July &amp; October, 1948.<\/p>\n<p>[] FREE IMPROVISATION &#8212; Derek Bailey. https:\/\/web.archive.org\/web\/20080605044808\/http:\/\/www.cortical.org\/dbfree.html<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Como citar este artigo:<\/strong><\/p>\n<p>Jos\u00e9 Fornari. \u201cOralidade terci\u00e1ria e a converg\u00eancia da produ\u00e7\u00e3o musical\u201d. Blogs de Ci\u00eancia da Universidade Estadual de Campinas. ISSN 2526-6187. Data da publica\u00e7\u00e3o: 25 de setembro de 2019. Link: https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/09\/25\/32\/<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/musicologia\/2019\/09\/25\/32\/\" rel=\"bookmark\" title=\"Link permanente Liberdade e Significado Musical\"><p>Jos\u00e9 Fornari (Tuti) \u2013 25 de setembro de 2019 fornari @ unicamp . br &nbsp; Em 1948, um artigo intitulado \u201cA Mathematical Theory of Communication\u201d, do matem\u00e1tico Claude Shannon, revolucionou o entendimento formal dos mecanismos que regem a comunica\u00e7\u00e3o, criando assim uma nova \u00e1rea de estudos na matem\u00e1tica, a Information Theory (Teoria da Informa\u00e7\u00e3o). 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