Cidade Invisível é divulgação científica sobre meio ambiente sim senhor!

Desenho do Curupira no meio da floresta
Curupira, por Paulo Muzio

Por Paulo Andreetto de Muzio

Antigamente, ou poucos anos atrás, os lançamentos de filmes, séries e novelas eram um estardalhaço. Saíam nos grandes jornais e telejornais e fazia-se propaganda comercial até a exaustão. Não sei se sou eu ou se as tradições é que estão se transformando. E ainda que o dinheiro continue nas mãos de poucos, sinto que as mídias estão mais dispersas. Talvez por isso não tenha notado o lançamento do seriado brasileiro Cidade Invisível, disponível desde fevereiro na plataforma de streaming Netflix.

A série recebeu críticas positivas e negativas, ouvi dizer. Talvez até alguma polêmica… resolvi nem ler. Para não ser influenciado, apenas assisti. E prometo tentar não dar nenhum spoiler, apesar do mistério da trama não ser muito difícil de desvendar.

O gênero da produção aparece na minha interface do streaming como “séries sobre crimes”, ou algo parecido. Sei lá… o mundo está tão doido que acho que se colocassem que a produção é sobre o folclore brasileiro, talvez não tivesse gerado tanto interesse por parte do público.

A primeira cena é o embate do Curupira e um caçador na floresta. Ao longo da história, outras entidades fantásticas vão sendo apresentadas, mas no ambiente urbano. Em um primeiro momento, achei que o enredo se passava na Amazônia. Nosso imaginário é condicionado. Mas logo é revelada a cidade do Rio de Janeiro, um ambiente de metrópole sui generis que briga por espaço com a mata. A narrativa traz a questão fundiária e a pressão do setor imobiliário sobre as áreas naturais e as comunidades que vivem na floresta.

O Decreto Federal nº 6.040/2007, que institui a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, define esses grupos como “culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição.” O Decreto Federal nº 8.750/2016, que institui o Conselho Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais, reconhece 28 diferentes categorias. Caiçaras, ribeirinhos, caipiras, quilombolas e indígenas são apenas algumas. Bons tempos aqueles em que ainda havia governo.

No primeiro episódio do seriado, chama a atenção uma fala de Ciço, antigo morador da comunidade tradicional fictícia da história, vivido pelo ator veterano José Dumont. “Estão acabando com nossa floresta e nossa tradição”, diz ele. Perdoem se a frase não for exatamente essa, mas a o sentido era esse.

Ano passado, durante uma atividade de contação de histórias realizada online nas páginas de Facebook e Instagram do Museu Florestal “Octávio Vecchi”, o músico e compositor Artur Cezar Santinello falou um pouco desta relação entre meio ambiente folclore. Servidor do recém-extinto Instituto Florestal, órgão de pesquisa ligado à Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do Estado de São Paulo, ele conta no vídeo que em suas andanças pelo país e na própria instituição conheceu pessoas que já haviam visto aparições. Pessoas mais velhas que eram crianças na época que avistaram ou ouviram os pais e avós contarem sobre essas lendas. Segundo ele, com o passar do tempo, com a devastação da mata e com a poluição dos rios, aqueles seres já não apareciam mais. “Devastando o meio ambiente, também desaparece o nosso folclore e desaparece nossa cultura. E somos invadidos por culturas de fora. Por causa da devastação do meio ambiente, o Brasil está perdendo sua identidade cultural”, conclui Artur.

Não é preciso acreditar em entidades sobrenaturais para validar a importância dessas lendas tupiniquins, que movimentam o enredo de Cidade Invisível e são ferramentas de divulgação científica.

Há aqueles que adoram colocar em oposição ciência e religião e acabam até demonizando crenças. Mas estão longe de ter um método na manga para criar uma porta de entrada e atrair os mais variados públicos para esse tal de conhecimento científico.

A divulgação científica ocorre em vários níveis. Não precisa necessariamente ser uma aula complexa sobre o assunto proposto. Pode ser uma provocação, um convite, um flerte. Como um filme que conta a história já narrada em um livro, a divulgação científica é uma adaptação da ciência. É preciso abandonar a necessidade de literalidade. Tudo bem ter elementos que não necessariamente existam.

Em Cidade Invisível, por exemplo, o protagonista da série é um investigador da Polícia Ambiental, sendo essa divisão ligada à Polícia Civil do Estado na ficção. Na vida real, no estado do Rio de Janeiro (onde se passa o enredo), assim como em São Paulo, o policiamento ambiental é atribuição da Polícia Militar. Então, não tem problema fazer adaptações da realidade para que se possa falar dos assuntos propostos. As questões abordadas no seriado e que podem trazer reflexões para nossa realidade material continuam ali: a especulação imobiliária, a devastação da matas, a corrupção, a marginalização de determinados grupos, a correlação de tudo isso… uma série de variáveis que movimentam as questões ambientais muito além do que apenas um folclórico método científico positivista.

Então por que não aceitar entidades fantásticas para falar sobre questões de ciências?

Nas Caminhadas Históricas, atividade de educação ambiental promovida pelo coletivo Amigos do Museu Florestal e pelo Movimento Conservatio desde 2018 no Parque Estadual Alberto Löfgren, em São Paulo/SP, tanto o Curupira quanto São João Gualberto são utilizados para debater questões ambientais e que tenham viés científico. Ambos os personagens são considerados protetores da floresta e ostentam monumentos no local, possuindo relação com a comunidade do entorno. Dessa forma, são um poderoso canal de diálogo que toca as pessoas não necessariamente pela razão, mas pelo afeto.

O sobrenatural encanta. Seduz. E Cidade Invisível trabalha com uma abordagem contemporânea sobre as criaturas folclóricas para nos trazer questões atuais e estruturais. Só para dar alguns exemplos, e trabalhando no limiar dos spoilers, vale mencionar que no seriado, antes de se tornar entidade, a Cuca foi uma mãe solteira abandonada pela própria família. O Saci foi um escravo que teve que decepar a própria perna para se livrar dos grilhões. Iara sofreu feminicídio antes de se tornar Mãe d’Água.

E nos dias atuais essas personagens moram em regiões degradadas e ocupações. As entidades acabam tendo, portanto, o mesmo destino que as comunidades tradicionais têm quando são tiradas de suas terras ou quando essas terras são descaracterizadas: a marginalidade.

Que cidade invisível é essa que o título do seriado propõe? Uma comunidade de criaturas folclóricas que andam entre nós sem o nosso conhecimento? Ou pessoas de carne e osso que optamos por ignorar?

 

*ERRATA (24/03/2021 – 9:32) – O policiamento realizado pela Polícia militar Ambiental não se confunde com a função da Polícia Civil, que é o órgão com função investigativa. Tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo existem delegacias especializadas em crimes ambientais. A Polícia Militar, também chamada de polícia administrativa, pode autuar e impor sanções administrativas. A Polícia Civil também é chamada de polícia judiciária, pois ela atua quando existe um crime e através do inquérito reúne indícios para que seja instaurada ação criminal pelo Ministério Público. O Ministério Público por si, também tem poder de Polícia, podendo instaurar inquérito civil e pedir instauração de inquérito policial. (Consultoria de Natália Almeida)

3 Comentários

    • Obrigado, Ana. O texto gerou polêmica nas redes sociais, mas o importante é que acende a discussão de como é complexo definir o que é divulgação científica. Assim como na Filosofia das Ciências a gente como há diferentes concepções de ciência. Ela muda ao longo do tempo e também há diferentes correntes em disputa num mesmo período histórico.

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