10 anos do Acordo de Paris: aprendizados em 2025 e decisões em 2026

Ban Ki-moon e outros líderes celebram a adoção do Acordo de Paris na Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP 21) em 2015. Foto: UN Climate Change / Hajü Staudt

Dez anos após sua adoção, o Acordo de Paris chega a um ponto de inflexão histórico. O tratado que, em 2015, reorganizou a resposta global às mudanças climáticas completa sua primeira década justamente no encerramento de 2025, um ano que concentra símbolos, alertas científicos e decisões políticas difíceis de ignorar.

O mundo fecha o ano mais quente já registrado, após a realização da COP30 na Amazônia, com o primeiro ciclo completo do balanço global (Global Stocktake) concluído e com a constatação inequívoca de que a trajetória atual ainda é incompatível com o limite de 1,5°C. No Brasil, esse fechamento é ainda mais emblemático: o país encerra o ano com a aprovação do Plano Clima, instrumento que pretende traduzir os compromissos internacionais em política pública doméstica.

Mais do que perguntar se o acordo funcionou, a questão central passa a ser outra: o que ainda pode (e precisa) ser feito na próxima década da governança climática?

O Acordo de Paris e a reconfiguração da política climática global

Adotado durante a COP21, o Acordo de Paris representou um ponto de ruptura na política climática internacional. Pela primeira vez, 195 países assumiram um compromisso comum de longo prazo: manter o aumento da temperatura média global bem abaixo de 2°C, com esforços para limitá-lo a 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais (UNFCCC, 2015).

Ao contrário do Protocolo de Kyoto, o acordo não impôs metas obrigatórias diferenciadas apenas aos países desenvolvidos. Em seu lugar, instituiu um modelo universal e dinâmico, baseado nas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), revisadas a cada cinco anos, com ambição progressiva.

Esse desenho refletiu uma leitura pragmática da diplomacia climática: diante da complexidade geopolítica do século XXI, a cooperação só seria possível se todos participassem, ainda que em ritmos e responsabilidades distintas.

Dez anos depois: o que efetivamente mudou?

Antes de 2015, as projeções científicas indicavam que o planeta caminhava para um aquecimento de até 4,8°C até o fim do século. Hoje, considerando os compromissos assumidos, o mundo está em uma trajetória estimada entre 2,3°C e 2,9 °C — um cenário ainda perigoso, mas significativamente menos catastrófico (Scientific American, 2025).

Gráfico: Projeções de aquecimento global até 2100. Fonte: Climate Action Tracker

Cada fração de grau evitada representa menos mortes por calor extremo, menor risco à segurança alimentar e hídrica e menor intensidade de eventos climáticos extremos. Nesse sentido, o Acordo de Paris não falhou em seu objetivo central de mudar a direção da curva.

Outro legado importante foi a ampliação do escopo da governança climática. Empresas, cidades, investidores e governos subnacionais passaram a assumir compromissos voluntários, muitas vezes mais ambiciosos do que os nacionais.

Iniciativas como a Race to Zero e coalizões empresariais nos Estados Unidos, mesmo durante a retirada formal do país do acordo, ilustram como o Acordo de Paris reorganizou incentivos e expectativas, extrapolando o espaço estrito da negociação entre Estados.

Apesar desses avanços, o balanço científico ao fim de 2025 é contundente. Segundo o Relatório de Lacuna de Emissões da ONU, as políticas atualmente em vigor conduzem o planeta a um aquecimento superior a 2,5°C até 2100 (UNEP, 2024).

Além disso:

  • As NDCs atuais entregariam menos de 14% das reduções necessárias até 2035
  • Nenhum dos principais indicadores globais está alinhado com um cenário de 1,5°C
  • O financiamento climático permanece insuficiente, especialmente para adaptação

Em 2024, a temperatura média global ultrapassou temporariamente o limite de 1,5 °C, reforçando que o desafio já não é apenas evitar impactos futuros, mas gerir riscos presentes.

O gráfico evidencia a grande lacuna entre os compromissos climáticos atuais e as metas do Acordo de Paris: com as políticas vigentes, projeta-se um aquecimento global de cerca de 3°C até 2100, resultando em emissões de 56 GtCO2e em 2030; mesmo com as NDCs de 2020, no cenário mais otimista, a redução seria insuficiente, limitando o aquecimento a aproximadamente 2,5°C. Para alcançar a meta de 1,5°C, seria necessária uma redução adicional de 30 GtCO2e por ano, destacando a urgência de ações mais ambiciosas. Fonte: UNEP, 2023 (World Resources Institute).

2025 como ano-limite da diplomacia climática

Encerrar 2025 não é apenas virar a página do calendário. É fechar o primeiro grande ciclo político do Acordo de Paris. Com o Balanço Global concluído e as novas NDCs entregues, o sistema internacional entra em uma fase distinta: a da cobrança por resultados.

A COP30, realizada em Belém, simbolizou essa transição. Diferentemente de conferências anteriores, o foco deslocou-se da negociação de novos textos para a implementação concreta dos compromissos já assumidos.

Três mensagens ficaram claras:

  • Não há mais espaço para metas genéricas sem planos de execução
  • Clima, biodiversidade e desenvolvimento precisam caminhar juntos
  • A coerência entre política externa e política doméstica tornou-se critério central de credibilidade

Nesse sentido, a COP30 funcionou como um teste prático da maturidade do Acordo de Paris, dez anos após sua assinatura.

COP 30 Closing Plenary. UN Climate Change. Foto: Kiara Worth

No plano nacional, o fechamento de 2025 também marca um avanço institucional relevante com a aprovação do Plano Clima brasileiro. Após anos de fragmentação, o país passa a contar com um instrumento estruturante que articula mitigação, adaptação, financiamento e governança.

Mais do que cumprir uma exigência formal do Acordo de Paris, o Plano Clima representa uma tentativa de alinhar política climática com planejamento de longo prazo. Seu impacto real, contudo, dependerá de fatores políticos e institucionais: capacidade de orientar decisões orçamentárias; resistência a ciclos eleitorais e pressões setoriais; e integração com políticas de desenvolvimento, infraestrutura e uso da terra

A forma como o Brasil implementará esse plano será determinante para seu papel na próxima década da política climática internacional.

Sim, este primeiro decênio do Acordo de Paris mostra que a cooperação internacional é possível, e pode ser eficaz, para alterar trajetórias globais. O tratado não resolveu a crise climática, mas construiu as bases institucionais que tornaram a ação coletiva viável.

Encerrar 2025, com a COP30 realizada na Amazônia e o Plano Clima aprovado no Brasil, marca a transição definitiva da fase de construção para a fase de execução. A partir daqui, o Acordo de Paris deixará de ser avaliado pelo que evitou e passará a ser julgado pelo que entrega.

A próxima década já começou, e ela será definida pelas decisões tomadas agora.

Feliz 2026!

 

Referências

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. The Paris Agreement. UNFCCC, 2015. Disponível em: https://unfccc.int/process-and-meetings/the-paris-agreement. Acesso em: 15 dez. 2025.

PAINEL INTERGOVERNAMENTAL SOBRE MUDANÇAS CLIMÁTICAS (IPCC). AR6 Synthesis Report. Genebra: IPCC, 2023.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Emissions Gap Report 2024. Nairobi: UNEP, 2024.

WORLD RESOURCES INSTITUTE (WRI). O estado da ação climática em 2025. Disponível em: https://www.wribrasil.org.br. Acesso em: 15 dez. 2025.

ROMEIRO, V. Entrevista ao Valor Econômico. In: 10 anos do Acordo de Paris. CEBDS, 2025.

FIGUERES, C. Declarações públicas sobre os dez anos do Acordo de Paris. UNFCCC, 2025.

 

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Jaqueline Nichi é jornalista e cientista social, pesquisadora de pós-doutorado no Centro de Síntese USP Cidades Globais (IEA/USP) e doutora em Ambiente e Sociedade pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais da Universidade de Campinas (NEPAM/UNICAMP). Sua área de pesquisa é centrada nas dimensões sociais e políticas das mudanças climáticas: Governança Multinível, Políticas Climáticas, Planejamento Urbano Sustentável e Cidades Inteligentes.

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