Ornitologia, educação ambiental e diário da natureza: Experiências de Gersony Jovchelevich

Por Vinícius Nunes Alves*

Gersony Jovchelevich é engenheira agrônoma formada pela Esalq-USP, mãe de três filhos e residente na área rural de Botucatu (SP). O interesse pelas aves a levou a cursar disciplinas de Ornitologia pela Unesp e a realizar formação em Bird Sleuths (Detetive de Aves), com a pesquisadora Lilly Briggs, da Universidade Cornell, Estados Unidos. Também é sócia da Ecoastro – treinamento educacional e Nature Journaling. Recentemente, se tornou educadora membro do Nature Journaling Educators Program (Programa de Educadores em Diário da Natureza).

Estudiosa e observadora de aves desde 2005, já publicou três Guias de Identificação de Aves e tem um canal no YouTube – “Fundo de Quintal Fauna Silvestre” – no qual mostra através de histórias curtas, as inter-relações e dinâmicas da vida natural. “Considero uma missão pessoal de Vida ajudar a reconectar as pessoas com a natureza”, ressalta Gersony com sua franqueza e sensibilidade características.

Há décadas, é moradora da Demétria, bairro do município de Botucatu, no interior paulista, formado originalmente em torno de uma fazenda biodinâmica voltada à produção agroecológica. Atualmente, a região abriga condomínios sustentáveis intercalados por fragmentos de um valioso ecótono em regeneração entre os biomas Cerrado e Mata Atlântica. Toda essa biodiversidade é uma das características que justifica a preocupação e a resistência de moradores do bairro às pressões decorrentes do avanço da urbanização.

Em entrevista exclusiva ao blog Natureza Crítica da Unicamp, Gersony compartilha, com simplicidade e profundidade, um repertório de visões e experiências acumuladas ao longo de sua trajetória na ornitologia, na educação ambiental e na divulgação científica.

O educador Rubem Alves dizia que crianças têm olhos encantados. Na sua infância, você já tinha interesse por aves e plantas? As escolas onde estudou ajudaram a sensibilizar o seu olhar pelas ciências da natureza?

Eu me considero uma pessoa de muita sorte: tive a alegria de ter pais que, apesar de muito humildes, eram pessoas sábias e muito conectadas com a natureza. Falavam do céu, estrelas, das plantas e animais. Meu pai conhecia bem as aves e seus cantos. Meus pais cresceram na roça e seus conhecimentos se nutriam muito pela própria vivência. No ensino médio, eu pude estudar numa escola Waldorf, onde aprofundei meu interesse e tive contato com a Fenomenologia de Goethe – que se baseia na observação profunda e sistêmica da natureza. Inclusive esse foi o tema do meu TCC do ensino médio na Escola Rudolf Steiner: “A metamorfose das plantas de Goethe”. E foi uma ótima surpresa reencontrar essa perspectiva na metodologia do Nature Journaling, os Diários da Natureza, que comentarei mais adiante. 

Com formação em engenharia agronômica (Esalq-USP), você sempre conciliou a educação ambiental em sua trajetória profissional ou começou a trabalhar como educadora ambiental bem depois? De forma geral, pode comentar como a sua identificação por ensinar jovens foi se desenvolvendo?  

A preocupação com o meio ambiente sempre esteve no centro da minha atuação profissional. No início, ainda atuando como agrônoma, eu oferecia consultoria em manejo agrícola embasado na Agricultura biodinâmica, um caminho que busca harmonia com a natureza e não utiliza agroquímicos do qual fiz formação – no curso fundamental de agricultura Biodinâmica, aqui em Botucatu concomitante ao último ano de agronomia. Atuava através de um projeto do SENAR (braço do “SEBRAE” voltado para a agricultura). Depois, com meus filhos ainda pequenos, comecei a observar, estudar e fotografar aves. Quanto mais me aprofundava, mais me encantava e foi daí que veio o impulso de compartilhar. Fui então buscando formas de espalhar esse sentimento de encantamento. Surgiram então os livros, o canal do YouTube e os vídeos, os painéis, os jogos e as muitas ideias de atividades para as aulas.

Em março, você lançou na Pinacoteca Fórum das Artes e em diversas escolas municipais de Botucatu, o minidocumentário “Ninhos: um gavião que veio da Amazônia & outras histórias”, cujo roteiro e produção tiveram a sua direção. O curta recebeu recursos da Lei Paulo Gustavo e levou mais de um ano para ser produzido. Quais foram os principais desafios e surpresas ao longo desse processo?

Os desafios são sempre gigantes. Boa parte deles está relacionado aos aspectos técnicos da edição em si, pois não sou dessa área, sou autodidata: fui me embrenhando intuitivamente e construindo o aprendizado conforme a necessidade, e sinto falta dessa base.  Para futuros projetos pretendo agregar profissionais dessa área desde o início. 

Outro enorme desafio é o fato de não poder combinar as cenas com os “atores”. Esse é um dos mais difíceis de lidar. Num documentário de natureza, você pode querer contar uma determinada história, mas precisa ter a sorte de estar “no lugar certo, na hora certa” para poder captar a cena que está buscando. Por outro lado você pode não estar com equipamento pronto e daí surge uma cena legal, com que você estava contando e então vai sem regulagem, só pra não perder o momento. E depois é correr atrás de corrigir o que for possível na edição, para não comprometer demais o resultado final. Mas esses momentos valem demais: é daí que surgem muitas descobertas que tenho feito sobre comportamento e a vida das aves.    

A produção de um documentário e esse “compromisso” com as filmagens são  oportunidades de observar com regularidade, fazendo surgir sacadas como a percepção de mudanças sutis no comportamento ou na dinâmica de um grupo. Para isso, é preciso atenção focada a fim de captar estes momentos com precisão. Um exemplo singelo, mas bonito de ver, foi acompanhar  o processo dos pais de uma família de pica paus oferecendo o alimento cada vez mais para fora da entrada do ninho, estimulando os filhotes a se acostumarem com a luz.

Você já publicou três Guias de Identificação de Aves que ocorrem em Botucatu e região, onde temos Cerrado e Mata Atlântica, biomas com alto grau de espécies endêmicas. Em remanescentes naturais da nossa região, temos o pássaro Culicivora caudacuta (papa-moscas-do-campo) que está em estado crítico de ameaça no estado de São Paulo (2025). Considerando a lista vermelha oficial e atual das espécies ameaçadas de extinção, há outras espécies que têm a Cuesta de Botucatu como um dos poucos refúgios naturais que sobraram para viver? 

Esse tema das espécies ameaçadas é muito relevante e gostaria de chamar a atenção para um aspecto importante: a fonte da classificação. Se considerarmos a Lista da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), às vezes espécies que são muito raras no Brasil, mas ainda são encontradas com certa facilidade em um país vizinho, podem não entrar na lista internacional. Isso corre o risco de dar a falsa impressão de que a situação não é tão séria, o que influenciou a minha escolha por usar em meus livros uma referência local para a classificação: o Livro Vermelho de aves ameaçadas do Estado de São Paulo. Segundo essa lista, para além dos caboclinhos de-chapéu-cinzento Sporophila cinnamomea e de-barriga-preta Sporophila melanogaster, temos a saíra sapucaia Stipnia peruviana e outras. Além do papa-mosca que citou, temos outras espécies que inspiram cuidado e aparecem como ameaçadas ou quase ameaçadas no Estado e que estão presentes nas áreas protegidas em Botucatu, como o gavião-pega-macaco Spizaetus tyrannus, o soldadinho Antilophia galeata endêmica de Cerrado e outras.

Voltando à sua pergunta, mesmo considerando a lista IUCN, Botucatu tem registro de 6 espécies globalmente ameaçadas. Isso coloca a cidade como um importante refúgio para a avifauna. Além disso, em estudo recente de Antonelli e colaboradores (2025), foram listadas 40 espécies endêmicas (38 de Mata Atlântica e 2 de Cerrado) em áreas de pesquisa da Unesp Botucatu.

Como ornitóloga e educadora ambiental, quais cuidados e recomendações você considera importante de esclarecer e divulgar para a prática dos iniciantes, seja na sala de aula ou no ambiente natural? 

A principal recomendação é simples: observem a natureza, está tudo aí. Tenho percebido que quanto mais observo, mais compreendo. É como segredos sendo revelados. Uma outra imagem que me ocorre é a de camadas que vão se desdobrando. Ao observar algum fenômeno, surgem perguntas e continuo observando para compreender melhor e surgem algumas hipóteses que podem ser checadas com novas observações e esse processo contínuo de observação, perguntas , hipóteses estudo, novas observações é justamente a construção do conhecimento. Isso é muito estimulante, é o processo científico.  No entanto, há cuidados importantes: se ater aos fatos e não apressar conclusões.

Em parcerias comigo e com a bióloga e professora Giovanna Concuruto, durante aulas de Experiências em Ciências da Natureza, especialmente na Emefi Jesumina Domene Dal Farra, você desenvolveu um conjunto de dinâmicas e etapas do Nature Journaling (Diário da Natureza), metodologia desenvolvida pelo cientista e artista americano John Muir Laws. Como membro do Programa Internacional de Educadores em Diário da Natureza, você é uma das pioneiras dessa metodologia no Brasil e sempre reforçou os elementos informativos fundamentais que são necessários de ter em cada página do diário – palavras, imagens e números, assim como as ações ou verbos fundamentais – observar, perguntar e lembrar. Pensando em um público amplo que nunca ouviu sobre isso, poderia dar alguns exemplos práticos de como conduzir esse diário com crianças na escola? 

Ótima pergunta, Vinícius. É uma boa oportunidade para deixar essa dica aqui, porque realmente essa prática do diário não só ajuda a nos conectar com a natureza em si,  como também promove calma e bem estar através dessa conexão. Isso, nos dias de hoje que a gente vive uma vida tão acelerada, é valioso.

Para ir direto ao ponto: manter um diário é ter o hábito de registrar com certa constância as observações sobre algum tema da natureza. Pode ser olhar pela janela, observar como está o céu, registrar aquela cor e colocar a data do registro, apenas isso, se repetido durante certo tempo, já traz a consciência das mudanças ao longo do tempo. Eu dei um exemplo bem singelo, mas podem ser outros elementos observados. Pode ser acompanhar o desabrochar de uma flor, um formigueiro, o ciclo de uma árvore. Os alunos podem ir fazendo desenhos e também quantificando: marcar quantos insetos visitam a flor, ou quantas aves visitaram uma pitangueira durante um tempo que você definir, por exemplo. Esse foco bem fechado e esse ritmo, por si só, já são benéficos e ajudam a conectar com a natureza. Há outras formas também, mas tudo isso se relaciona ao aspecto do “observar”.

Outro aspecto é o “perguntar”.  A ideia é provocar os alunos a refletir: “O que me deixa curioso nisso que observei?”. É saudável desenvolver o hábito da curiosidade, treinar a fazer perguntas sobre o que foi visto em campo e sempre ver se podemos sanar nossa dúvida observando novamente em outro momento, ou se precisamos pesquisar. Com isso estimulamos o pensar: a curiosidade ativa o pensamento, que pede mais observação, que traz novas perguntas e esse ciclo é muito poderoso.

Um último aspecto é o “lembrar”: perceber as ligações que podemos fazer para nos conectarmos com algo que observamos. Assim fica mais fácil nos lembrarmos em outra ocasião. E isso pode ser algo bem pessoal mesmo, por exemplo: “Essa planta me lembra minha avó, pois ela me fazia um chá com esse cheiro”. Quando isso fica registrado nos Diários da Natureza, as crianças se conectam ao fato observado através de um âmbito mais íntimo e consolida-se o aprendizado.

Você coordenou o projeto “Diário da Natureza – aprendendo a ser cientistas ”, premiado pela Wild Wonder Foundation em maio de 2024, e que foi aplicado em duas escolas de Botucatu-SP com turmas de ensino fundamental anos iniciais, no caso, a Emefi Jesumina Domene Dal Farra e a Escola Aitiara. Quais aprendizados você destacaria dessa experiência?

Durante o projeto trabalhei com um grupo de crianças do 1º ano, com 7 anos, e outro, bem maior, com alunos do 4º ano com idades variando entre 9 e 10 anos. Aprendi que, ao trabalhar com crianças dessa idade (menores de 12 anos), a orientação precisa ser dividida em etapas gerenciáveis, explicando cada uma e dando-lhes tempo para concluí-la antes de passar para a próxima etapa. Foi desafiador trabalhar com grupos tão grandes, especialmente em atividade externa: havia duas turmas de 30 alunos cada. O grupo menor do 1º ano, com nove crianças mais novas, foi mais fácil de orientar; por outro lado, como são mais jovens e não sabem escrever fluentemente, foi necessário muita atenção e tempo para esse aspecto. Para as perguntas, no caso de crianças menores, o adulto pode registrar.

Considero esse o coração do processo: é incrível perceber através das perguntas que surgem, a liberdade do pensamento das crianças e a beleza da sua percepção do mundo.  

Você também atua como divulgadora científica por meio do canal no YouTube chamado “Fundo de Quintal Fauna Silvestre”. O conteúdo vai além da identificação das espécies, ao explorar aspectos comportamentais e adaptativos da fauna, muitas vezes acompanhando todo o ciclo reprodutivo de aves. Um exemplo é o registro do picapauzinho-escamoso (Picumnus albosquamatus), que ganhou repercussão ao ser exibido no programa Terra da Gente, do G1. Moradora do bairro Demétria, em uma área que ainda resiste com um ecótono em regeneração entre Cerrado e Mata Atlântica, seu quintal é uma extensão desse valioso ambiente. Poderia comentar um pouco sobre como surgem as oportunidades de registro e como se dão as  escolhas e visões que te levam a filmar e narrar o cotidiano de um animal silvestre?

Fui percebendo que leva tempo para se chegar a conhecer um ambiente. Eu me surpreendi ao perceber que, mesmo morando bastante tempo em área rural, sempre vou conhecendo cada vez mais as espécies de aves e só fui começar a entender um pouco melhor a dinâmica da paisagem, depois de vários anos!

Tenho hoje em dia a percepção que são muitas camadas de vida sobrepostas: o mundo das aves, a vegetação, os insetos, etc, cada uma com seus ciclos e todos entrelaçados numa teia incrivelmente perfeita. Enquanto nós humanos, vivemos tão autocentrados que deixamos passar muitas maravilhas sem serem notadas. Ao me dar conta disso, veio uma vontade muito grande de tentar jogar luz naquilo que tenho encontrado para propagar essa noção de que não precisamos ir num Safari na África para nos encantar, basta treinar um pouco o olhar e abrir a porta do quintal.

Literalmente, em qualquer lugar você encontra coisas lindas, curiosas e interessantes acontecendo. Até mesmo em São Paulo, no meio de prédios. Pouco tempo atrás, presenciei um pica-pau-de-banda-branca (Dryocopus lineatus) escalando a parede de um prédio, talvez para achar um local para ninho, e que se alojou num buraco de ar condicionado abandonado. A vida vai se adaptando conforme é possível.

Em meio a uma sociedade acelerada, superficial e digital, poderíamos dizer que ser “detetive da natureza” e alimentar um diário da natureza chega a ser subversivo, nadando contra a correnteza e resgatando valores em declínio? Na literatura científica, já existem evidências sobre os benefícios que essa metodologia propicia na educação das crianças?

Sem dúvidas um dos objetivos é justamente escapar da armadilha do mundo digital acelerado e desconectado da Vida, levando ao consumismo e à superficialidade. A natureza é o caminho mais rápido, além de prazeroso, para garantirmos saúde. Muitas pesquisas sobre o tema foram produzidas recentemente, em especial a partir do ano 2000. Pesquisas têm demonstrado que existem efeitos benéficos diretos de se praticar os Diários da Natureza. Isso também ficou evidente por tudo que foi comentado acima. Aproveito para recomendar muito essa prática e compartilhar algumas referências:

  • McClain, LR, Powell, AE, & Bettwy, KA (2024). Diários comunitários da natureza: bem-estar e resultados de aprendizagem para participantes adultos e jovens. Journal of Adventure Education and Outdoor Learning , 25 (1), 282–300. https://doi.org/10.1080/14729679.2024.2425933 

*Vinícius Nunes Alves é biólogo pela Unesp-IBB, mestre em Ecologia e Conservação de Recursos Naturais pela UFU-Inbio e especialista em Jornalismo Científico pela Unicamp-Labjor. Foi professor substituto em Filosofia da Ciência na Unesp-IBB e é colunista no jornal Notícias Botucatu. É doutorando no Programa Educação para a Ciência na Unesp-FC, atua como professor de Ciências na Prefeitura de Botucatu e como jornalista independente, colaborando em veículos como O Eco, #Colabora, ComCiência, Ciência na Rua e Observatório da Imprensa.

10 Comentários

  1. Tenho muito orgulho dessa minha querida irmã Gersony pelo trabalho que realiza há tempos com a natureza. Sempre muito motivada e encontrando meios cada vez mais interessantes de compartilhar tudo isso com todos e especialmente trazendo esse universo maravilhoso para as crianças.

  2. Que entrevista linda! Desde pequena, pisciana raiz, você já vivia ‘avoando’ por aí… hoje entendemos: era treino para observar aves com tanta sensibilidade e encanto. Orgulho demais dessa observadora que transforma voo em poesia! Parabéns Ge. Te amo! 🐦💙💫❤️😘

  3. Entrevista incrível, muito obrigada.
    Esses diários da natureza precisariam ser incorporados como atividade curricular normal! A observação da natureza, quando é cultivada de forma artística,inevitavelmente leva à admiração e esta ao cuidado,respeito e parceria.

    • Gratidão, Eduarda! O entrevistador também merece créditos pelas ótimas perguntas. Seria realmente revolucionário incorporar essa prática especialmente nos anos iniciais para consolidar essa conexão com a natureza. Trabalhando para ampliar o alcance !

  4. Gostei bastante, Vinícius!
    Que profissional e pesquisadora importante temos aqui em Botucatu!
    Desconhecia totalmente que tínhamos uma pessoa tão importante nessa área aqui!
    Gostei do seu enfoque, já que levantou questões importantes. E acho que ela também gostou de respondê-las.
    Parabéns, Vinícius!

    • Gratidão pelas palavras . Com certeza foi uma satisfação responder a essa entrevista . Foram realmente ótimas perguntas . Vinicius fez provocações relevantes, foi generoso no destaque ao meu trabalho e me deu muito espaço para discorrer.

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