Em um país atravessado por extremos climáticos, desigualdade territorial e pressão por produtividade, inteligência artificial só faz sentido se vier acompanhada de dados confiáveis, ciência cidadã e compromisso com práticas sustentáveis. É nesse ponto que a Trilha Agro do BI0S (Brazilian Institute Of Data Science) se torna um laboratório estratégico para pensar a agricultura brasileira do presente; e não apenas do futuro.
Existe uma tentação recorrente no debate sobre agro e tecnologia no Brasil: imaginar que a inteligência artificial, sozinha, resolverá os impasses de um campo atravessado por crise climática, desigualdade territorial, infraestrutura precária e assimetrias de acesso ao conhecimento. Não vai. IA sem dado de qualidade, sem extensão rural, sem conectividade e sem participação social corre o risco de virar apenas uma nova embalagem para velhos problemas. O que está em jogo não é apenas levar mais tecnologia ao campo. É construir tecnologia que faça sentido para o território, para quem produz e para o tipo de futuro agrícola que o país deseja sustentar.
Essa conversa é urgente porque os sistemas alimentares estão ao mesmo tempo no centro do problema climático e no centro de qualquer saída minimamente séria. O IPCC estima que os sistemas alimentares respondam por cerca de 21% a 37% das emissões globais de gases de efeito estufa. A FAO, por sua vez, insiste que a digitalização da agricultura e o uso de IA só serão transformadores se conseguirem enfrentar, e não aprofundar, o “triplo fosso” digital, rural e de gênero. Em termos menos diplomáticos: uma inovação que ignora o gênero e falha em alcançar as pequenas produtoras e os pequenos produtores não é apenas limitada, é ineficaz. Quando a tecnologia não dialoga com as especificidades do território e não fortalece a gestão pública, ela pode ostentar uma face moderna, mas carece da base social necessária para ser verdadeiramente sustentável.
A agricultura familiar muda o centro da discussão
No Brasil, essa discussão precisa começar com um dado que frequentemente desaparece sob a retórica do agronegócio high-tech: a agricultura familiar ainda é central para a estrutura produtiva e social do campo. Segundo o Censo Agropecuário, 77% dos estabelecimentos agropecuários brasileiros pertencem à agricultura familiar. Eles ocupam 23% da área, respondem por 23% do valor da produção e concentram 67% das pessoas ocupadas no setor. Isso muda o enquadramento do debate. Quando falamos em ciência de dados, monitoramento climático, sensoriamento remoto e inteligência artificial, não estamos falando apenas de eficiência. Estamos falando também de acesso, desigualdade e política pública.

É justamente aí que o BI0S (Brazilian Institute of Data Science) ganha relevância. Sediado na Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação da Unicamp, o centro é um dos núcleos de inteligência artificial apoiados no âmbito de um acordo da FAPESP com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o Ministério das Comunicações e o CGI.br. Seu projeto tem vigência de setembro de 2023 a agosto de 2028. Mais do que um centro de pesquisa convencional, o BI0S foi concebido como um ecossistema de inovação aplicado a problemas brasileiros, conectando academia, empresas, setor público e sociedade em torno de duas áreas estratégicas: saúde e agricultura.
BI0S aposta em IA aplicada a problemas públicos
O BI0S não opera apenas como vitrine de tecnologia. Ele articula pesquisa, educação, transferência e negócios, e busca transformar ciência de dados em soluções concretas, com impacto social e capacidade de escala. Em sua apresentação institucional, o centro se define como uma iniciativa voltada a expandir a fronteira aplicada da inteligência artificial no Brasil, difundir a cultura de dados e fomentar pesquisa e soluções inovadoras. Entre os parceiros institucionais estão USP, UFABC, UFAM, ITA, Fiocruz, FITec, CPQD, Hospital Israelita Albert Einstein e Templo, além do vínculo estruturante com a Unicamp. É um arranjo raro no país, porque combina densidade acadêmica, interdisciplinaridade e potencial de tradução entre ciência, setor produtivo e interesse público.
Na Trilha Agro, esse modelo aparece com nitidez. A frente é apresentada pelo próprio BI0S como um eixo de aplicação de ciência de dados para apoiar a tomada de decisão na agropecuária no curto, médio e longo prazo, do manejo da irrigação ao planejamento territorial e às estratégias de adaptação climática. A coordenação está com Jurandir Zullo Junior e Priscila Pereira Coltri. O ponto central aqui não é apenas usar IA para automatizar tarefas, e sim organizar e cruzar bases ambientais, produtivas, econômicas e sociais para melhorar decisões no campo e também subsidiar políticas públicas. Num país em que ainda faltam dados acessíveis e integrados para orientar decisões estratégicas, isso é menos glamouroso que a propaganda da inovação, mas muito mais transformador.
A própria Trilha Agro reconhece um gargalo decisivo: a ausência de dados organizados e acessíveis sobre o setor produtivo. Segundo o BI0S, essa carência afeta inclusive o poder público, que muitas vezes necessita definir políticas sem informação precisa sobre clima, produtividade ou risco. Para enfrentar esse problema, pesquisadores da trilha afirmam estar desenvolvendo infraestruturas integradas de dados, além de soluções em robótica, monitoramento climático por radar e satélite, modelagem de mudanças ambientais e bancos de dados inteligentes adaptados a diferentes culturas e realidades produtivas. O aspecto realmente inovador do BI0S, portanto, não está apenas no uso de algoritmos. Está em tratar IA como infraestrutura de decisão e não como ornamento tecnológico.

Existe uma falsa oposição entre alta tecnologia e participação social. Como se ciência cidadã fosse algo “menor”, quase artesanal, e inteligência artificial fosse o verdadeiro lugar da inovação. Projetos como CacauClima e Escutadô, outro projeto da trilha, mostram exatamente o contrário. Em contextos complexos, dados melhores dependem tanto de capacidade computacional quanto de observação situada, memória local e envolvimento de quem vive os efeitos concretos das transformações ambientais. A boa inovação, nesse caso, não elimina o território. Ela aprende com ele.
O risco de aprofundar desigualdades digitais
Ao mesmo tempo, seria ingênuo ignorar os limites. A FAO tem alertado que soluções digitais e baseadas em IA só geram transformação positiva quando acompanhadas de governança, capacitação, infraestrutura e proteção de direitos. Sem isso, o risco é ampliar exclusões já existentes. No Brasil, essa advertência deveria ser levada especialmente a sério. O país tem enorme capacidade técnico-científica, mas ainda convive com assimetrias profundas entre grandes produtores altamente capitalizados e agricultoras e agricultores que seguem enfrentando conectividade precária, crédito restrito e acesso limitado a ferramentas digitais. O futuro da agricultura baseada em dados dependerá menos da sofisticação do software e mais da capacidade de democratizar as condições de uso.
Ainda assim, o BI0S representa uma tentativa rara de construir, no Brasil, uma infraestrutura científica e institucional para IA aplicada com enraizamento em problemas públicos. Ao reunir pesquisadores de diferentes áreas, conectar universidades, centros de pesquisa e empresas, e apostar em projetos que cruzam sustentabilidade, dados, saúde, produção agropecuária e participação social, o centro ajuda a deslocar a conversa sobre inovação para um patamar mais maduro. Não se trata de vender uma promessa futurista. Trata-se de fortalecer a capacidade nacional de produzir conhecimento útil, rigoroso e socialmente orientado.
Num país em que a crise climática já altera safras, intensifica riscos e pressiona modos de vida rurais, o desafio não é escolher entre tecnologia e sustentabilidade. O desafio é recusar, de uma vez, a fantasia de que haverá agricultura resiliente sem dados confiáveis, sem leitura territorial e sem compromisso com práticas sustentáveis. O que a Trilha Agro do BI0S sugere, no melhor dos casos, é que a inteligência artificial mais relevante para o campo brasileiro talvez não seja a mais vistosa, mas a que souber combinar ciência, território, participação pública e responsabilidade ecológica.
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Jornalista e socióloga. Pesquisadora doutora em Ambiente e Sociedade. Bolsista do Programa José Reis de Incentivo ao Jornalismo Científico (Mídia Ciência/FAPESP) no Instituto Brasileiro de Ciência de Dados e Inteligência Artificial (BI0S/Unicamp) – https://www.bi0s.unicamp.br/
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