Conferência preparatória da COP31 terminou com avanços técnicos limitados, impasses sobre financiamento e uma pergunta incômoda: como transformar metas globais em proteção concreta para quem já vive os impactos do aquecimento?
A Conferência de Bonn terminou sem entregar o consenso necessário sobre alguns dos temas mais sensíveis da política climática internacional. Mas talvez seu principal resultado não esteja apenas nos textos que avançaram ou ficaram pelo caminho. Bonn escancarou uma tensão mais profunda: o mundo já sabe que precisa reduzir emissões, financiar adaptação, proteger populações vulneráveis e acelerar a transição para longe dos combustíveis fósseis. O que continua em disputa é quem paga, quem muda primeiro, quem decide os termos da mudança e quem permanece exposto enquanto a diplomacia procura uma frase aceitável para todos.
Realizada entre 8 e 18 de junho, na Alemanha, a 64ª sessão dos Órgãos Subsidiários da Convenção do Clima da ONU — a chamada SB64 — funcionou como a principal reunião preparatória para a COP31, marcada para novembro, em Antália, na Turquia. Esses encontros costumam parecer técnicos demais para interessar ao público fora do circuito das negociações climáticas. Não deveriam. É em Bonn que muitos conflitos aparecem antes de chegar às COPs. É ali que metas viram rascunhos, rascunhos viram colchetes e colchetes, muitas vezes, revelam o tamanho da discordância.
O vocabulário da diplomacia costuma amenizar conflitos. A Comissão Europeia avaliou que Bonn manteve o impulso rumo à COP31, com avanços em temas como transição justa, tecnologia climática, transparência e implementação do Acordo de Paris. Há verdade nisso. Negociações multilaterais raramente produzem rupturas visíveis em reuniões intermediárias. Parte do trabalho é mesmo lento, acumulativo e técnico. O problema é que, quando a crise climática já se expressa em calor extremo, enchentes, perdas agrícolas, deslocamentos e pressão sobre sistemas de saúde, a lentidão deixa de ser apenas método. Passa a ser risco.

A cobertura do Carbon Brief e do IISD mostrou uma leitura menos confortável: em várias salas de negociação, o progresso foi difícil de encontrar. A adaptação, justamente a agenda que deveria responder aos impactos já em curso, ficou travada. A Meta Global de Adaptação, criada para orientar como os países medem e acompanham seus esforços de preparação para um mundo mais quente, não conseguiu avançar com texto acordado. O tema acabou submetido à chamada Regra 16, mecanismo usado quando não há consenso e a discussão precisa ser empurrada para a sessão seguinte. Em linguagem comum: o processo volta sem base política suficientemente consolidada para avançar.
Isso importa porque adaptação não é uma palavra abstrata. É drenagem urbana antes da próxima tempestade. É sistema de alerta que chega a tempo na periferia. É posto de saúde preparado para ondas de calor. É agricultor familiar com informação climática, crédito adequado e assistência técnica. É cidade que entende onde estão seus idosos, suas crianças, suas encostas, suas ilhas de calor, seus bairros sem árvore, suas casas sem conforto térmico. Quando a adaptação trava na negociação internacional, o atraso não fica preso em um documento. Ele escorre para os territórios.
O impasse central foi, mais uma vez, financiamento. Países em desenvolvimento defenderam que a Meta Global de Adaptação reconhecesse a necessidade de ampliar recursos para implementar ações concretas. Países desenvolvidos resistiram a incluir referências mais fortes sobre a triplicação do financiamento para adaptação e preferiram tratar o dinheiro em outros espaços da negociação. Parece uma disputa de procedimento. Não é. O lugar onde o financiamento aparece em um texto climático define sua força política, sua rastreabilidade e a pressão para que compromissos saiam do discurso.

Há uma diferença enorme entre dizer que todos devem se adaptar e garantir meios para que isso aconteça. Muitos países vulneráveis não precisam apenas de metas. Precisam de recursos previsíveis, acessíveis e, em muitos casos, públicos e concessionais, porque adaptação raramente atrai investimento privado na escala e na velocidade necessárias. Uma ponte reforçada, um sistema de alerta comunitário, uma política de proteção social para ondas de calor ou a recuperação de áreas de manguezal podem salvar vidas, mas nem sempre oferecem retorno financeiro a um investidor. É por isso que a discussão sobre financiamento climático é também uma discussão sobre justiça.
A transição justa seguiu a mesma lógica. Em Bonn, os países avançaram no debate sobre o Programa de Trabalho de Transição Justa e sobre o Mecanismo de Ação de Belém, criado no ciclo da COP30. Mas a disputa sobre seu sentido continua aberta. Para países em desenvolvimento, transição justa envolve financiamento, transferência de tecnologia, capacitação, combate à pobreza e direito ao desenvolvimento. Para países desenvolvidos, a tendência tem sido enquadrar o tema de modo mais restrito, com foco em trabalhadores, proteção social e troca de experiências. Esses elementos são importantes, mas não esgotam o problema.
Uma transição só é justa se enfrentar a desigualdade entre países, dentro dos países e nos próprios territórios. Não basta substituir uma tecnologia por outra mantendo intactas as assimetrias de poder, renda, raça, gênero e acesso à infraestrutura. Também não basta falar em empregos verdes sem perguntar onde eles serão criados, para quem, com que direitos e às custas de quais territórios. No Sul Global, a transição energética conversa com dívida, dependência tecnológica, exportação de commodities, informalidade no trabalho e vulnerabilidade climática. Separar transição justa de financiamento é, em muitos casos, esvaziar sua dimensão política.
Outro ponto sensível foi a presença dos combustíveis fósseis, mesmo sem ocupar formalmente o centro da agenda. Desde o primeiro balanço global do Acordo de Paris, a expressão “transição para longe dos combustíveis fósseis” tornou-se uma espécie de teste de realidade da diplomacia climática. Todos sabem que o tema é incontornável. Poucos querem pagar o custo político de colocá-lo no centro das decisões. Em Bonn, o assunto apareceu em diálogos, eventos paralelos e discussões sobre o legado da COP30, mas seguiu encontrando resistência de países produtores de petróleo e gás.
Esse é um dos paradoxos do multilateralismo climático. O processo da ONU é indispensável porque reúne quase todos os países e dá legitimidade às decisões globais. Ao mesmo tempo, a exigência de consenso permite que interesses específicos retardem avanços necessários. Quando um texto precisa ser aceitável para todos, inclusive para quem tem forte dependência econômica dos combustíveis fósseis, a linguagem tende a perder força justamente onde deveria ser mais clara.

Emissões CO2. Foto de Daniel Gimbel/Unsplash.
Bonn também foi um teste para o legado da COP30, realizada em Belém. A presidência brasileira deixou sobre a mesa temas importantes: os mapas do caminho para a transição para longe dos combustíveis fósseis e para deter e reverter o desmatamento, a revitalização da Agenda de Ação, o debate sobre financiamento e o Mecanismo de Ação de Belém para Transição Justa. Parte dessa agenda continuou viva na Alemanha, mas ainda cercada de cautela, disputas e dúvidas sobre como transformar iniciativas voluntárias em mudanças mensuráveis.
Esse ponto merece atenção. Depois de Belém, ficou mais difícil sustentar a ideia de que o problema climático é apenas falta de ambição formal. Há metas, planos, compromissos, declarações, plataformas, mecanismos e roadmaps. O gargalo está na implementação: capacidade institucional, dinheiro, governança, transparência, participação social e enfrentamento de interesses econômicos que operam dentro e fora das salas de negociação.
A pergunta que Bonn deixa para a COP31 é menos diplomática e mais concreta: quem terá condições de se proteger enquanto o planeta aquece? A resposta não virá apenas de metas globais. Ela dependerá da qualidade do financiamento, da força dos mecanismos de adaptação, da coragem de enfrentar a dependência fóssil e da capacidade de fazer a política climática chegar onde a vida acontece: cidades, florestas, campos, periferias, sistemas alimentares, escolas, hospitais e territórios indígenas e tradicionais.

Deslizamento em Petrópolis, na região Serrana do Rio, matou mais de 200 pessoas em fevereiro de 2022. Foto: Carl de Souza/AFP.
Bonn não foi um fracasso absoluto. Também não foi uma conferência capaz de dissipar a sensação de impasse. Talvez sua importância esteja justamente nessa ambiguidade. Ela mostrou que o regime climático ainda funciona, mas sob tensão. Produz espaços de diálogo, mas entrega pouco diante da velocidade dos impactos. Mantém o vocabulário da cooperação, mas esbarra na aritmética desigual das responsabilidades.
A caminho de Antália, a COP31 terá menos espaço para discursos confortáveis. A crise climática já deixou de ser um alerta futuro. Ela reorganiza preços de alimentos, agrava riscos à saúde, pressiona infraestrutura, desloca populações e expõe a fragilidade dos sistemas públicos. Quando a negociação internacional evita decidir quem paga a conta, alguém paga mesmo assim. Em geral, paga quem menos emitiu, menos acumulou riqueza e menos participou das decisões.
É por isso que Bonn importa. Não porque tenha produzido grandes anúncios, mas porque revelou, com pouca maquiagem, o conflito que define esta década: transformar compromissos climáticos em proteção real exige mais do que consenso técnico. Exige redistribuir responsabilidades, recursos e poder. Sem isso, a implementação continuará sendo uma palavra elegante para uma promessa que não chega ao chão.
Referências
Agência Brasil. (2026). Conferência de Bonn tem avanços limitados e impasses para COP31. https://agenciabrasil.ebc.com.br
Amazônia Vox. (2026). Bonn termina sem consenso sobre financiamento climático e expõe impasses no caminho da COP31. https://amazoniavox.com
Carbon Brief. (2026, junho). Bonn climate talks: key outcomes from the June 2026 UN climate conference. https://www.carbonbrief.org
ClimaInfo. (2026). Bonn testa resiliência dos resultados da COP30 e futuro das negociações climáticas. https://climainfo.org.br
Down To Earth. (2026). Countries push for UN-led just transition mechanism, but finance remains a sticking point. https://www.downtoearth.org.in
Euronews. (2026). How oil-rich nations influenced the UN climate conference in Bonn. https://www.euronews.com
OECD. (2026). Climate finance provided and mobilised by developed countries, 2013–2024. https://www.oecd.org
UNEP. (2025). Adaptation Gap Report 2025: Fire and rain. United Nations Environment Programme. https://www.unep.org
UNFCCC. (2026c). SB64 official page & roadmap to COP31. United Nations Framework Convention on Climate Change. https://unfccc.int
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Jaqueline Nichi é jornalista, cientista social e doutora em Ambiente e Sociedade (IFCH/UNICAMP). É pesquisadora de pós-doutorado no CEBRAP e bolsista Mídia Ciência/FAPESP no BI0S/Unicamp. Estuda as dimensões sociais e políticas das mudanças climáticas, governança, planejamento urbano e cidades inteligentes.
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