Descarbonizar a economia não basta. O teste real da transição está nas condições de quem trabalha, nos territórios que recebem novos empreendimentos e na distribuição de custos e benefícios.
A crise climática já chegou ao trabalho antes mesmo de o mercado de trabalho terminar de entender o que fazer com ela. Está no agricultor que precisa mudar a jornada por causa do calor, no operário da construção civil exposto ao sol, no entregador que atravessa uma cidade em temperatura extrema e em quem perde renda quando enchentes interrompem transporte, produção e comércio.
Isso muda a maneira como discutimos transição energética. Durante muito tempo, o debate climático tratou o trabalho principalmente pelos empregos que poderiam desaparecer ou surgir com a descarbonização. Essa conta continua importante, mas ficou pequena. A pergunta agora é mais incômoda: que tipo de trabalho sobreviverá — e em quais condições — num planeta mais quente?

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que mais de 2,4 bilhões de trabalhadores estejam potencialmente expostos ao calor excessivo. A organização também projeta que, em 2030, mais de 2% das horas de trabalho no mundo poderão ser perdidas por temperaturas altas demais ou pela necessidade de reduzir o ritmo das atividades. O dado ajuda a desmontar uma separação ainda comum: de um lado estaria a política climática; de outro, a política do trabalho. O corpo de quem trabalha já mostrou que essa fronteira não existe.
O clima entra no trabalho pela porta da frente
No Brasil, uma pesquisa do Aurora Lab e da More in Common ouviu 2.630 pessoas em nove capitais entre maio e setembro de 2025. Entre os entrevistados, 85% disseram já sentir efeitos da crise climática sobre custo de vida, saúde, renda ou acesso ao trabalho, e sete em cada dez atribuíram ao Estado a responsabilidade de proteger trabalhadores durante a transição. A amostra é por conveniência e não representa estatisticamente toda a população brasileira, mas registra algo relevante: clima já aparece como experiência econômica concreta, não como tema distante das negociações internacionais.

Essa aproximação também aparece nos Diálogos sobre Trabalho e Clima, que reúnem especialistas, organizações climáticas e movimento sindical para discutir petróleo e gás, renováveis, eletrificação dos transportes, informalidade, juventude e exposição a eventos extremos. O ponto comum é simples: não existe política climática socialmente sustentável se o mundo do trabalho aparecer apenas como consequência da transição, e não como parte de sua formulação.
Emprego verde não é sinônimo de trabalho decente
Há outro problema. Costumamos falar em “empregos verdes” como se o adjetivo funcionasse como certificado automático de qualidade. Não funciona. O estudo Empregos Verdes e Sustentáveis no Brasil, do DIEESE, identificou cerca de 3,1 milhões de vínculos formais em setores considerados verdes em 2020, equivalentes a 6,7% do emprego formal do país. Levantamentos posteriores do próprio DIEESE chamaram atenção para informalidade e remunerações baixas em parte das ocupações verdes. As metodologias são diferentes, mas a advertência é a mesma: criar atividades ambientalmente desejáveis não garante, por si só, trabalho digno.
Uma placa solar não assina carteira. Uma turbina eólica não garante salário digno. Um ônibus elétrico reduz emissões, mas pode continuar integrado a uma cadeia de trabalho terceirizada e vulnerável. O selo verde de um setor diz algo sobre sua relação com o ambiente; diz muito menos, sozinho, sobre relações trabalhistas, renda ou poder.
É justamente esse o ponto levantado pelo Inesc ao discutir trabalho, justiça climática e transição energética: a expansão das renováveis abre oportunidades econômicas, mas pode coexistir com terceirização, desigualdades e conflitos territoriais. Energia limpa na ponta do fio pode conviver com injustiça no chão onde a infraestrutura foi instalada.
Trabalho também é adaptação climática
Uma versão pobre da transição justa poderia ser resumida assim: uma atividade econômica perde espaço, trabalhadores ficam para trás e, depois, oferecemos cursos para que encontrem alguma ocupação “do futuro”. Qualificação é necessária, mas insuficiente. Uma transição justa exige planejamento industrial, proteção de renda, negociação coletiva, política territorial e participação de trabalhadores antes que as decisões estejam prontas.
Essa é uma reivindicação histórica do movimento sindical. A CUT associa transição justa a trabalho decente, direitos, proteção social, qualificação e diálogo social. A UGT aproxima clima, saúde ocupacional, formação profissional e proteção social. São posições políticas das organizações de trabalhadores, não evidências científicas, mas ajudam a revelar o campo de disputa: quem terá voz para decidir como a economia muda?
Depois da COP30, realizada em Belém em 2025, a transição justa ganhou maior peso institucional. No plano internacional, a Convenção do Clima passou a discutir um mecanismo específico de cooperação e apoio à transição justa. No Brasil, o Plano Clima incorporou Transição Justa e Justiça Climática entre suas estratégias transversais. É um passo importante, mas documento não protege trabalhador do calor, estratégia não substitui fiscalização e meta climática não reorganiza jornada automaticamente.

Talvez seja hora de ampliar o que entendemos por adaptação. Ela não é apenas drenagem, alerta de desastre, área verde ou hospital preparado. Adaptar um país ao clima que muda também significa reorganizar o trabalho: estabelecer protocolos para calor extremo, acesso a água e sombra, pausas adequadas, horários seguros, monitoramento de riscos e proteção de renda quando as condições ambientais impedirem determinadas atividades.
Também significa medir de outro modo o sucesso da economia verde. Contar megawatts renováveis ou vagas criadas é insuficiente. Precisamos perguntar quantos empregos são formais, quanto pagam, quem consegue acessá-los, como se distribuem regionalmente, quais riscos ocupacionais carregam e quanto valor permanece nos territórios.
Porque uma transição que reduz carbono, mas amplia precarização, apenas desloca o problema de coluna. A diferença entre uma mudança tecnológica e uma transição realmente justa estará menos na tecnologia instalada e mais em quatro perguntas: quem decide, quem trabalha, quem é protegido e quem fica com os benefícios da mudança.
Referências
AURORA LAB; MORE IN COMMON. Pesquisa Clima, Trabalho e Transição Justa. [S. l.], 2025. Disponível em: https://aurora-lab.org/pesquisa-clima-trabalho-e-transicao-justa/.
AURORA LAB. Diálogos sobre Trabalho e Clima: caminhos para o futuro. [S. l.], 2025. Disponível em: https://climaesociedade.org/publicacao/dialogos-sobre-trabalho-e-clima/.
INSTITUTO DE ESTUDOS SOCIOECONÔMICOS – INESC. Trabalho, justiça climática e transição energética: por que a mudança da matriz energética também depende da proteção aos trabalhadores. Brasília: Inesc, 2026. Disponível em: https://inesc.org.br/trabalho-justica-climatica-e-transicao-energetica-por-que-a-mudanca-da-matriz-energetica-tambem-depende-da-protecao-aos-trabalhadores/.
ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO – OIT. Working on a warmer planet: the impact of heat stress on labour productivity and decent work. Geneva: ILO, 2019. Disponível em: https://www.ilo.org/publications/major-publications/working-warmer-planet-effect-heat-stress-productivity-and-decent-work.
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Jaqueline Nichi é jornalista, cientista social e doutora em Ambiente e Sociedade (IFCH/UNICAMP). É pesquisadora de pós-doutorado no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP) e bolsista Mídia Ciência/FAPESP no BI0S/Unicamp. Estuda as dimensões sociais e políticas das mudanças climáticas, governança, políticas públicas e cidades inteligentes.
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