Por Tássia Oliveira Biazon¹, Thiago Henrique Diniz² e Vinícius Nunes Alves³
Contextualização
Historicamente, a educação brasileira exige diferentes habilidades de seus professores, sejam elas sobre conhecimentos específicos da sua área de ensino ou sobre os conhecimentos pedagógicos necessários a essa prática, para além, claro, dos desafios estruturais das redes municipais, estaduais e federais de educação. Nesse cenário, é um desafio a formação de professores capacitados a compreender e a desenvolver as habilidades e competências necessárias à sua área de atuação.
Esse novo desafio é uma missão dos profissionais da educação frente ao desenvolvimento integral do indivíduo e à grande frenesi do fluxo de dados, informações e conhecimentos, de maneira que não é possível controlar as galáxias do pensamento. Ao mesmo tempo, o excesso e a velocidade desse fluxo fragmentam o ser humano moderno. Na alternativa de conectar fluxo e ser humano, a interdisciplinaridade se desenvolve na busca da (re)construção de um novo ser.
Independente da classe social, todos os estudantes têm potencialidades. Mesmo aqueles com condições socialmente desfavoráveis, não podem ser subestimados, pois possuem habilidades que podem ser desenvolvidas por professores bem formados, dedicados e éticos. Também, independente das limitações sociológicas existentes, acreditar, em algum nível, na transformação de jovens está na essência motora de uma educação emancipatória.
Uma referência na formação de professores, com rigor, cuidado e profundidade, com ênfase em Ensino-Aprendizagem, atuando principalmente no ensino de ciências e divulgação científica, é a Lucia Maria Paleari. Ela possui graduação em Ciências Físicas e Biológicas pela Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 1976, graduação em Pedagogia pela Faculdade de Ciências e Letras Plínio Augusto do Amaral (1990), mestrado em Ecologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em 1987 e doutorado em Ecologia também pela Unicamp (1997), professora assistente doutora aposentada da Unesp em 2017.
Diante de seu rigor e sinceridade, Lucia promovia um ambiente que desestabilizava a zona de conforto emocional e intelectual do alunado, mas no longo prazo eram aulas que contribuíam para a capacitação conceitual, procedimental e atitudinal no desafio laboral de atuar como professores engajados, críticos e de base sólida em Ciências da Natureza. Com sua capacidade de sintetizar, descrever, contextualizar e conectar informações da natureza, sobretudo quando ela explicava coisas corriqueiras com conhecimento de ciência básica, ela fez muitos alunos pensarem e agirem na ação docente de forma mais criteriosa e curiosa.
Mais do que uma profissão, o professor é um mobilizador que desempenha uma função singular na vida das pessoas promovendo uma reflexão sobre diferentes faces do conhecimento sistematizado e acumulado. No episódio de abertura da série Cosmos: Uma Odisséia do Espaço-Tempo, o astrônomo e divulgador científico Neil deGrasse Tyson ao se referir a Carl Sagan seu professor, disse que “A Ciência é uma iniciativa de cooperação que cobre gerações, é uma passagem da tocha do professor para o aluno e de volta ao professor”. Assim ocorre com este texto, alunos da fonte entrevistada que agora também são professores.
Conversa aguçada sem pressa
I) Por que o céu é azul? Por que as abelhas produzem mel? Por que o peixe elétrico não toma choque? Por que sentimos frio quando saímos da piscina e não nos enxugamos? Ter muitos porquês é associado mais à infância. Conforme Rubem Alves dizia, as crianças ainda têm olhos encantados. O que você destacaria para estimular e direcionar a curiosidade de uma criança sobre a Natureza? Diferente das crianças, você considera que os adultos se aproximam mais da ciência por necessidade e não por encanto?
Os olhos encantados das crianças brilham diante de bons desafios e precisam ser estimulados com poesia e beleza, que é o que traduz a Natureza para povos de diferentes origens. Quanto às respostas que foram construídas para fenômenos naturais, como resultados de testes e busca por coerências explicativas, que estão na base do que denominamos de Ciência, se não chegarem à criança também com poesia e beleza, por meio de atividades e questionamentos capazes de desafiarem-na a encontrar explicações plausíveis até adquirir os fundamentos científicos, penso ser muito difícil chegar à fase adulta com encantamento pela Ciência e respeito pela Natureza.
Mais provável é que resultados científicos alcançados, especialmente aqueles traduzidos em tecnologias e melhorias com relação à saúde ou ao entretenimento, sejam considerados apenas de forma utilitarista, não importando as possíveis explicações para os fenômenos envolvidos ou os desafios que levaram a humanidade às aplicações úteis e até mesmo prazerosas. Talvez por isso nos deparamos com poucos cientistas e muitos práticos, ainda que competentes, conduzindo pesquisas, que muitas vezes passam ao largo das questões éticas e de justiça social, em favor das vaidades e patentes.
II) No prefácio do livro “O mundo assombrado pelos demônios – a ciência vista como uma vela no escuro”, o autor Carl Sagan reconhece a importância dos seus professores, em especial os universitários, para sua formação. Mas reconhece que seus pais foram ainda mais importantes por apresentarem a ele duas formas de pensar de difícil convivência e centrais para o método científico que são a admiração e o ceticismo. Pode nos contar quais são as suas principais influências que contribuíram para o desenvolvimento da sua mentalidade e da sua jornada profissional? Houve algum momento, situação ou pessoa que foi determinante para você escolher o caminho que trilhou?
O ceticismo salutar, especialmente entre acadêmicos, me parece menos praticado do que o da confrontação. Confrontação que, ao invés de avanços e correções de rotas, tende a promover estagnação e atrasos, em disputas descabidas por notoriedade. Por isso, a formação do caráter para o desenvolvimento de condutas ilibadas e percepções sensíveis, parece-me ser primordial para o exercício de pesquisas científicas e de qualquer outra atividade na vida.
Pelo que me lembro dos tempos de infância, meados do século XX, em cidade do interior paulista, havia a admiração pelo que proporcionavam as máquinas, as vacinas, os cuidados com higiene, o controle de espécies indesejadas de insetos, como formigas e pernilongos, com venenos químicos etc. No entanto, não havia entre os adultos que eu conhecia, incluindo os meus pais, conhecimento que possibilitasse questionamentos sobre método e teorias científicas.
A minha infância foi marcada por acompanhamento dos afazeres dos meus pais, ajudando nas tarefas ou apenas observando, mas sempre recebendo orientações valiosas, que me permitem até hoje compreender assuntos diversos, saber fazer e ter autonomia para dar conta de diversas exigências e problemas do cotidiano. Provavelmente com a participação dos neurônios em espelho, garantindo essa forma de aprender sutil, de resultados tão profundos quanto duradouros. Cresci conhecendo crianças e adolescentes com deficiências físicas devido à poliomielite e uma coleguinha de escola primária que morava em um cortiço, cuja mãe usava hexaclorobenzeno (BHC) para livrar a casa de pulgas. À época, esse produto, que se acumula em tecido adiposo, era amplamente utilizado para matar formigas e foi causa de graves problemas de saúde e mortes até mesmo de agrônomos.
No mais, a liberdade para brincar com as demais crianças, subindo em árvores, fazendo e empinando papagaio, barquinhos para navegar nas enxurradas das chuvas, amarelinha, bolinha de gude, e viajando em períodos de férias do meu pai para o litoral e o campo, foi o que me permitiu o desenvolvimento de inúmeras habilidades, das quais tenho hoje a dimensão da importância no desenvolvimento inicial de capacidades cognitivas e motoras. Atividades que permitiam dimensionar força e direção, manter equilíbrio, desenvolver coordenação motora, habilidades finas, tomar decisões, apreciar sabores e odores e com eles reconhecer grande variedade de plantas e frutos. Aprendia-se a calcular sem números, resolver problemas inventando soluções criativas e a perceber o ambiente com encantamento e sentimento de pertencimento. Um tempo muito rico de vivências importantes com adultos que contavam suas histórias de vida, transmitindo os conhecimentos adquiridos, e com crianças vizinhas com as quais se aprendia a interagir desenvolvendo estratégias individuais e em grupo durante as brincadeiras.
No grupo escolar houve o primeiro contato com muitas crianças de diferentes classes sociais e origens étnicas (muitos italianos, espanhóis e africanos, poucos árabes e japoneses); filhos de operários como era o meu pai na movelaria, além de médicos, lavradores, comerciantes e políticos da cidade. Iniciávamos no jardim de infância com brincadeiras, jogos de montar, livros cheios de imagens e diariamente com um momento dedicado ao descanso pós-lanche, que garantia até mesmo o sono profundo de diversas crianças. Ao final dessa etapa, ganhei de uma professora o livro “O anão e a filha do moleiro”, como prêmio de aplicação.
Em seguida, no ensino primário, atual fundamental I, aprendi a ler, escrever e fazer as contas básicas da aritmética. No recreio tínhamos brincadeiras de roda, cantoria e, nas festinhas comemorativas, algumas encenações. Nessa etapa a austeridade da maioria das professoras era a norma. Uma delas, que foi minha professora no segundo ano, era bastante exigente, mas competente e dedicada, tendo merecido boas lembranças e o meu reconhecimento até hoje; mas havia algumas que chegavam a ser cruéis. Ricos e pobres frequentavam os mesmos grupos escolares, que não eram “escolas de lata”, locais improvisados, mas estabelecimentos de ensino organizados.
No colégio de freiras cursei o ginasial, hoje fundamental II. Escola particular onde a elite era a maioria. Foram marcantes as aulas de ciências, cujas experiências simples com explicações do professor, permitiam adquirir conceitos principalmente de física a partir de fenômenos do cotidiano, além dos de biologia, com base em imagens para conhecimento de estruturas e funções. Nessa época encantei-me pela língua francesa, disciplina obrigatória desde o segundo ano. Canto orfeônico, inglês com novidades dos Beatles, língua portuguesa e estímulo à elaboração de textos para participação em concursos e aulas de artes, que iam do bordado delicado e macramê ao corte e montagem de peças em madeira, nas quais a decoração era gravada com pirógrafo e depois pintada. Isso tudo estimulava a sensibilidade. Nessa fase vieram também os primeiros contatos com a história universal, grandes impérios, costumes e guerras em tempos antigos, que alimentavam a imaginação. Tudo dividindo o enorme interesse que surgira pelo vôlei, que praticávamos com treinador voluntário externo, no contraturno das aulas regulares.
No colegial, que substituía o Científico e Clássico e hoje corresponde ao ensino médio, eu estava novamente em escola pública, e nesse período alguns professores foram marcantes: a de química, a quem devo todo o meu interesse pelos experimentos científicos, registros organizados, questionamentos e explicações sobre fenômenos, conhecimentos sobre a teoria atômica e reações químicas; o de biologia que nos apresentou os diversos grupos de seres vivos e conosco realizou atividades práticas inesquecíveis, bem como orientou pesquisas bibliográficas que apresentávamos oralmente e sobre as quais éramos interrogados para que pudéssemos demonstrar o que havíamos compreendido e não decorado sobre os assuntos. Tivemos também uma professora de geografia, tão competente quão corajosa, que em pleno regime militar introduziu questões relevantes, especialmente ao tratar da construção da transamazônica, o que nos despertou a consciência para questões ambientais, sociais e políticas. Nessa época a bossa-nova ganhou grande espaço na minha vida, não faltando os Beatles.
O caminho que trilhei desde então parece ser resultado das circunstâncias vivenciadas. Poderia ter sido mais musical e literário, por exemplo, se eu tivesse me empenhado ou sido especialmente estimulada a me exercitar em canto ou algum instrumento, a ler e escrever com mais afinco, dando asas à imaginação, ou eu poderia ter trilhado um caminho de produtora de alimentos, ou — quem sabe? — de cozinheira.
O que provavelmente não teria mudado seria a forma de percepção e encantamento que tenho pela Natureza, a capacidade de observação, o gosto por trabalhos práticos e a busca para compreender fenômenos a partir dos elos, das interações que marcam a complexidade.
Por influência dos ambientes nos quais estive, o estímulo maior foi para seguir estudos, que a princípio seriam em faculdade de farmácia e bioquímica, mas por considerações de um médico, pai de uma amiga, esse curso foi descartado em prol das ciências biológicas, da Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu (FCMBB), que, mais tarde, em 1976 foi reunida aos demais institutos e faculdades isolados do estado de SP, que constituíram a Universidade Estadual “Júlio de Mesquita Filho”, UNESP. Na FCMBB, o que de mais interessante aconteceu durante a graduação foi a reunião dos estudantes das áreas biológica, médica (humana e veterinária) e agronômica, para as aulas das disciplinas básicas nos dois primeiros anos. Entendia o Dr. Mário Rubens Montenegro, excepcional professor, patologista e principal responsável pela criação da FCMBB, que as teorias dos conhecimentos biológicos, fundadas na físico-química e matemática, eram as mesmas para aquelas diferentes áreas e responsáveis por diferenciar um bom técnico, capaz de operar, plantar e descrever seres vivos, de um médico, agrônomo ou biólogo, que deviam compreender processos fisiológicos e bioquímicos integrados e tomar decisões durante suas atuações, com base nesses conhecimentos; fazia parte dos atributos de um bom profissional questionar e investigar adequadamente os fenômenos. O número de “pés” que apresentam os seres vivos, por exemplo, não alterariam certos testes estatísticos, apenas permitiriam caracterizar, ajustar os exercícios e interpretações a laranjeiras, porcos e humanos. As disciplinas básicas das ciências biológicas e da medicina eram equivalentes ao ponto de ser possível aos alunos interessados em biologia, cursar medicina a partir do terceiro ano se vagas houvesse. Hoje, acredito que poucos compreenderam a dimensão e importância da proposta, abandonada em prol da criação de diversos cursos estanques com suas respectivas diretorias, pessoal administrativo e de manutenção.
Certamente devido a essa formação, sempre me soou estranho especialização precoce. Alunos que se especializam desde o primeiro ou segundo ano da faculdade, assumindo estágio único e posteriormente carreira de ensino e/ou pesquisa nessa área, acabam tendo conhecimentos, atividades e visão estreitos, compartimentados, que desfavorecem interpretações e compreensão do todo.
Mesmo assim, foi essa visão de conhecimentos estanques que avançou e determinou que o próprio curso de ciências biológicas, compartimentado em disciplinas, por exemplo, perdesse algumas delas, justificando a implantação de cursos novos como biomedicina, nutrição e ecologia, que poderiam ser especialidades definidas apenas ao final da graduação, quando o caminho já estivesse pavimentado de conceitos básicos, que permitiriam olhar mais adequadamente para a Natureza e investigá-la, como um todo complexo, integrado e não como algo constituído de partes desconexas, justapostas.
III) Você organizou o livro “Experimentando Ciência – teorias e práticas para o ensino de biologia” em uma disciplina sua de estágio supervisionado. Na abertura do livro você defende que compreender e posicionar-se adequadamente diante de questões médico-sanitárias, agrícolas e de sustentabilidade ambiental, passa, necessariamente, pela apropriação de conhecimentos de base das Ciências Naturais. Pela sua experiência, pode destacar casos evidentes de como a falta de conhecimento sobre as ciências prejudica a cidadania ativa e responsável?
Recentemente ouvi alguém, em um supermercado, alertar um homem sobre os riscos à saúde que representavam alguns dos alimentos que ele selecionara para levar, devido aos agrotóxicos que normalmente recebem na plantação, ao que o homem retrucou com empáfia: “Mas nós não estamos vivendo mais?” Será que lhe ocorrera que viver mais não equivale a viver bem, gozando de boa saúde? Será que pensara no papel preponderante das vacinas e antibióticos no tempo médio de vida da humanidade? Provavelmente ignorando a ação prejudicial dos venenos químicos no metabolismo dos seres vivos, as altas taxas de câncer e mortalidade entre lavradores que fazem uso dos agrotóxicos e o efeito acumulativo desses venenos nas cadeias alimentares, além da seleção de microrganismos e insetos herbívoros mais resistentes, que chance haveria desse homem opor-se a propostas oportunistas de parlamentares para liberação de novos tipos de agrotóxicos? Que chance haveria desse homem orientar adequadamente seus filhos sobre essas questões em prol de um mundo mais salutar e harmonioso? Em outra situação, um senhor mandou perfurar um poço d’água em sua chácara que fica à beira de um rio. Depois de ver a água cristalina que dali saíra, considerou improcedente a sugestão de um amigo, para analisar aquela água, porque não só estava cristalina, como localizada a dezenas de metros da superfície do solo.
Se no início da escolaridade a criança não desenvolve certos conceitos básicos, realizando experimentos simples e observações no campo, para compreender fenômenos como o das intempéries e seres vivos transformando rochas em solos, que além de diferentes estruturas e composições físico-químicas, integram-se a microrganismos, animais e plantas, que os transformam e promovem a ciclagem de nutrientes, é improvável que ela incorpore os conhecimentos e consiga lançar mão deles para entender e saber explicar eventos inter-relacionados, como aqueles presentes nos dois fatos relatados.
Como poderá compreender a natureza e extensão das consequências de determinadas condutas humanas, posicionando-se conscientemente, com argumentação fundamentada e apoiando propostas visando o bem-estar do conjunto dos seres vivos e ambiente, sem conhecimentos pertinentes? Sem os conhecimentos de base das ciências naturais, é impossível questionar a produção atual de alimentos em monoculturas cada vez mais extensas, com safras, entressafras, safrinhas, sementes transgênicas, práticas de adubação inorgânica e aplicação de agrotóxicos visando superprodução a pretexto de matar a fome de um planeta superpopuloso; tampouco é possível encontrar inconsistência entre o fato de a humanidade ter ampliado o tempo de vida médio por meio do papel protetor das vacinas e o oportunismo político nefasto de uma campanha antivacinação em plena pandemia.






Arquivos pessoais do entrevistador: práticas e modelos reproduzidos e adaptados do livro “Experimentando Ciência” em aulas de escolas municipais de Botucatu
IV) Para aguçados entendedores, o funcionamento da natureza só pode ser explicado integralmente com o cruzamento e entendimento de informações de todas as Ciências da Natureza. Em um dos capítulos do livro “Experimentando Ciência”, por exemplo, fica claro que para entender a locomoção de peixes ósseos, é necessário passar por informações de biologia, química e física. Com base no seu conhecimento e experiência, comente exemplos de como a interdisciplinaridade nos ajuda a entender fenômenos naturais.
Certa vez, eu soube que uma professora de geografia que atuava nos sextos e sétimos anos do ensino fundamental II, comentou sobre dificuldades para desenvolver sua disciplina depois que me afastei das aulas para fazer o doutorado em ecologia. Aos alunos, faltavam habilidade e conhecimento para coletar dados, produzir tabelas, construir e interpretar gráficos — atividades comuns em experimentos e trabalhos de campo em aulas de ciências que eu orientava — mas também conceitos básicos comuns a ambas as disciplinas, como o de densidade. Posteriormente, este conceito poderia ser utilizado em explicações de fenômenos como o da sobrevivência de indivíduos da flora e fauna de lagos profundos congeláveis no inverno, e de eventuais variações demográficas e comportamentais de espécies sob ação de fatores físicos e biológicos.
Densidade é um exemplo do que denomino de conceito-chave, que acompanhado de outros igualmente fundamentais, permitem a construção de uma rede de conhecimentos significativos, que transcendem os limites de uma disciplina e permitem compreender os fenômenos da Natureza. Outro exemplo interessante, é a formação dos “Rios voadores” que vindos da Amazônia e desviados na Cordilheira dos Andes, impedem que o sudeste do Brasil seja desértico. Fenômeno cuja compreensão passa por conhecimentos físicos, geológicos, ecológicos e históricos.

V) Com base na sua experiência profissional tanto na Educação Básica quanto no Ensino Superior, poderia comentar sobre a importância da formação inicial para a construção do professor de Ciências da Natureza para atuar na educação básica? Quais contribuições o docente universitário pode fazer para a construção inicial desse profissional?
Se alguém decide ser professor apenas porque nada mais deu certo, expressão de muitos dos alunos que vi chegar à licenciatura em Ciências Biológicas, certamente será um professor frustrado prestando um desserviço à formação de seus alunos, sejam eles da graduação ou do ensino fundamental. Entendo que o professor deve ter amplo e profundo conhecimento das áreas específicas do seu curso, para que todos os temas possam ser adequadamente tratados com as crianças e adolescentes. Ao mesmo tempo, não poderá abdicar de contribuições da psicologia, neurociências e prática de ensino, que têm dado importantes contribuições para que se possa lidar com turmas que, em geral, são compostas de grande número de alunos, diversos quanto às estruturas e influências familiares, quanto aos talentos para esta ou aquela área, quanto à capacidade de concentração, cooperação etc. Por isso, envolvê-los em um mesmo tema e atividade pode ser bem mais desafiador e com grandes chances de frustração, se o professor especialista não tiver antes de tudo domínio do conteúdo específico, necessário para preparar boas aulas, intelectualmente honestas com estratégias bem elaboradas para desafiar e envolver os presentes, sem dogmatismos.
Suprimir ou tratar com superficialidade e inadequação certos assuntos, por falta de domínio ou porque desafiam crenças e preconceitos, é desonesto, por isso inadmissível. Ter domínio do conhecimento específico me parece condição primordial para que a prática no nível básico de ensino aconteça e resulte na elaboração de estratégias de ensino bem elaboradas e ajustáveis a realidades de diferentes escolas e grupos diferentes de estudantes. O mesmo se espera do professor universitário, durante as disciplinas da graduação, para não impingir aos graduandos os seus próprios dogmas. Nas suas aulas, conhecimento e honestidade intelectual são fundamentais para que as teorias científicas mais aceitas e suas concorrentes sejam igualmente apresentadas como verdades provisórias e acompanhadas das suas limitações e incompletudes.
A meu ver, essa conduta é a contribuição mais valorosa de um professor universitário para a formação de graduandos como seres pensantes, questionadores, abertos ao debate com boa argumentação, respeitadores de opiniões diversas e não meros reprodutores das verdades apresentadas dogmaticamente. Sigam eles que carreiras forem, terão como contribuir para construções coletivas valorosas.


VI) O professor e especialista Pedro Demo defende, em seu livro “Educar pela pesquisa”, que a pesquisa é um princípio científico e educativo, sendo que ela deve ser incorporada no processo de ensino-aprendizagem. Considerando a produção científica das universidades na área de educação e as atividades de ensino-aprendizagem que ocorrem nas escolas, quais são os pontos de aproximação e distanciamento relacionados a essas práticas?
Com base na minha experiência tanto no ensino fundamental e médio, como na graduação, me parece que as pesquisas que são desenvolvidas na área de educação geralmente não dão suporte teórico aos alunos em formação para que suas práticas favoreçam o aprendizado das ciências. Por isso, acredito que haja mais pontos de distanciamento do que de aproximação entre produção científica em educação e as práticas de ensino conduzidas nas escolas de ensino fundamental e médio. Alunos de cursos de licenciatura queixam-se da falta de práticas de ensino durante a formação para a docência, no caso de ciências e biologia, que, no primeiro momento, poderiam ser desenvolvidas em classes experimentais, um tipo de laboratório com grupos de adolescentes voluntários, como já se fez outrora.
Se a questão é saber como determinados temas e conceitos deveriam ser tratados de forma a permitir o aprendizado, é preciso construir estratégias e reunir materiais apropriados para realizar o trabalho de ensino, que poderá gerar dados de pesquisa para entendimento de possíveis caminhos de pensamento percorridos pelos alunos para a construção de conceitos e ideias. Para pesquisas em ensino-aprendizagem, é imprescindível o domínio do conteúdo específico a ser ensinado e de contribuições de áreas correlatas do conhecimento para que do planejamento às análises dos resultados haja suporte teórico adequado.
VII) Iniciativas como o Clube de Ciências, que estimulava adolescentes a compreender questões científicas por meio da experimentação e que foi desenvolvido por você na EMEF Dr. João Maria de Araujo Jr., na cidade de Botucatu. Esse Clube trouxe contribuições que se diferenciam em relação às propostas pedagógicas dos livros didáticos oficiais?
Boa parte dos adolescentes tem curiosidade e gosta de pôr a mão na massa para investigar e descobrir coisas. Quando as propostas de ensino contemplam essas possibilidades, em geral há engajamento. Muitas das propostas para o ensino de ciências que vi em livros didáticos relativamente recentes subestimam a capacidade intelectual e de empreendimento dos adolescentes. Dessa forma, não vejo como eles poderiam desenvolver os conceitos fundamentais da área para compreender fenômenos e ter autonomia para ampliar o conhecimento científico por meio de leituras e usá-lo também para entendimento de questões sociais relacionadas.

VIII) Você investigou por anos as estruturas glandulares da planta Croton glandulosus – conhecida popularmente como carvão-branco e erva peluda – bem como os insetos visitantes dela. Essa planta herbácea ou subarbustiva ocorre em todos os biomas brasileiros e tem interação com predadores e parasitoides, como o besourinho que você descobriu e foi batizado com seu sobrenome Coelocephalapion paleariae. O dito cujo se alimenta de sementes, folhas jovens e néctar de C. glandulosus. Se você fosse sintetizar os achados mais curiosos desse sistema planta-insetos para um público amplo, o que compartilharia? Quais pontes criativas você usaria para o letramento científico de jovens que estão entrando em contato com tricomas, glândulas, parasitoides e predadores?
Os achados mais curiosos e interessantes sobre as interações entre C. glandulosus, insetos e aranhas, acompanhados de seus respectivos inimigos naturais, eu acredito que já sintetizei nas matérias publicadas no blog www.projetocroton.blogspot.com.br. Em dado momento, me ocorreu a ideia de produzir uma história em quadrinhos protagonizada por Clarice, um microhimenóptero do gênero Conura, visitante de nectários extraflorais. Infelizmente o projeto não foi adiante, porque dependeria de parceria com uma bióloga especialista em ilustração, mas que não pôde assumir a empreitada. Dona de um traço delicado e expressivo, ela certamente encantaria o leitor e o envolveria em uma aventura repleta de desafios e beleza pelo interior de C. glandulosus, onde estruturas e processos bioquímicos integrados seriam revelados à luz dos contextos interativos internos e externos, que definem o padrão de cooperação que se detecta entre planta e artrópodes associados. Clarice, por meio de um processo fantástico de redução, embarcaria em uma nanocápsula para sua viagem exploratória.



Arquivos pessoais da entrevistada: fotografias de Coelocephalapion paleariae, sendo a primeira em lupa, a segunda em microscopia eletrônica de varredura e a terceira em campo
IX) O conhecimento pode ser entendido como o resultado de um processo de assimilação, associação e análise das informações. Mas, atualmente, o ritmo de vida acelerado e o excesso de informações e desinformações não é um contexto favorável para formar conhecimento. Como você costuma filtrar, acumular e aplicar as informações para tecer seu conhecimento?
Quando se trata de um assunto de interesse busco fontes variadas, originais e confiáveis, nas quais eu possa acessar a totalidade dos dados obtidos e apresentados. O filtro depende no mínimo do conjunto de conhecimentos anteriores que eu tenha reunido e da coerência entre eles. Eu não uso redes sociais e não sinto falta. Não sou consumidora de informações que, em geral, não contribuem para melhorar a vida, dar sentido ao que se faz. Penso que com a quantidade de produção pouco relevante ou descartável que inunda noticiários escritos, televisivos, canais da internet e até mesmo revistas científicas, talvez as pessoas acabem se voltando a bons livros inclusive antigos para releituras.
X) “Quantos humanos já não iniciaram uma nova era em suas vidas ao ler um livro?”, disse Henry David Thoreau. Cite algumas referências (livros, documentários e autores) que você considera imprescindíveis para a formação de professores de Ciências da Natureza.
Considerando a pouca atenção que se verifica em grades curriculares e/ou abordagem de assuntos de física, astronomia e história de conhecimentos indígenas e dos colonizadores, eu destacaria, por proporcionar reflexões, abordagens sistêmicas e discussões enriquecedoras:
Livros: Um pouco mais de azul, de Hubert Reeves; Infinito em todas as direções, de Freeman Dyson; O quinto milagre, de Paul Davies; Bilhões de Bilhões e O mundo assombrado pelos demônios, ambos de Carl Sagan; A ferro e fogo, de Warren Dean; Primavera silenciosa, de Rachel Carson; Improving Nature, de Michael J. Reiss e Roger Straughan; Os próximos cem anos, de Jonathan Weiner; A árvore do conhecimento, de Humberto R. Maturana e Francisco J. Varela; A teia da vida e As conexões ocultas, ambos de Fritjof Capra; Prelúdio para uma história, de Shozo Motoyama; A queda do céu, de Davi Kopenawa e Bruce Albert; This Changing World, de Samuel Ralph Powers, Elsie Flint Neuner e Hebert Bascom Bruner; O naturalista amador – Um guia prático ao mundo da Natureza, de Gerald Durrell.
Filmes e documentários: Cosmos – Mundos possíveis (2020), baseado no original de Carl Sagan, com coautoria de Ann Druyan e Steven Soter; O ponto de mutação, de Bernt Amadeus Capra, baseado no livro O Ponto de Mutação de Fritjof Capra e a série de documentários, Caminhos e Parcerias, de Neide Duarte, produzida pela TV Cultura de São Paulo, que trata com poesia e olhar acurado as belezas e mazelas de populações brasileiras, que revelam seus contextos sociais, ambientais, históricos e educacionais.


Capas de alguns dos livros de acesso aberto da entrevistada
Mensagem final
Em síntese, vislumbramos que o percurso formativo e as reflexões de Lucia Maria Paleari reafirmam que educar em ciências é muito mais do que transmitir conteúdos: é cultivar o encantamento aliado ao rigor, a curiosidade acompanhada de método e a interdisciplinaridade sustentada por sólidos conceitos de base. Em um tempo marcado por tantos desafios como a fragmentação do conhecimento, o excesso de informações superficiais e a crise no sistema educacional, durante a entrevista, compreendemos que uma formação ampla, ética e humanizadora constitui um dos alicerces para a preparação da mentalidade científica de docentes comprometidos com um ensino de ciências que interaja com o cotidiano dos jovens, contribuindo com a formação de sujeitos críticos, sensíveis e responsáveis.
Para saber mais
- ALVES, Rubem. A alegria de ensinar. Campinas: Papirus, 2000.
- CLUBE DE CIÊNCIAS: Escola municipal Dr. João Maria de Araújo Jr. Lucia Maria Paleari, 2014. Disponível em: https://luciamariapaleari.blogspot.com/.
- COSMOS: Uma Odisseia do Espaço-Tempo. Direção: Brannon Braga; Bill Pope; Ann Druyan. Estados Unidos: Cosmos Studios e Fuzzy Door Productions, 2014. Disponível em: https://www.natgeotv.com/pt/series/natgeo/cosmos-odisseia-no-espaco-1.
- DEMO, Pedro. Educar pela pesquisa. 8ª ed. Campinas: Editores Associados, 2007.
- OLIVEIRA, Silvaney de; GUIMARÃES, Orliney Maciel; FERREIRA, Jacques de Lima. As entrevistas semiestruturadas na pesquisa qualitativa em educação. Revista Linhas, Florianópolis, v. 24, n. 55, p. 210–236, 2023.
- PALEARI, Lucia Maria; CAMPOS, Raquel Sanzovo Pires; OTSUKA, Helton; CARVALHO, Marina Begali. Experimentando Ciência: teorias e práticas para o ensino da biologia. São Paulo: Cultura Acadêmica e Unesp, 2011.
- PALEARI, Lucia Maria. Um pão recheado de histórias. São Paulo: O Autor, 2021. PDF. ISBN 978-65-00-18020-6. Disponível em: Rede SANS.
- SAGAN, Carl. O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
¹Tássia Oliveira Biazon é bióloga pela Unesp-IBB e pela Universidade de Coimbra, especialista em Jornalismo Científico pela Unicamp-Labjor e mestre em Genética e Biologia Molecular pela Unicamp-IB. Atualmente cursa sua segunda graduação em Ciência de Dados na Univesp, leciona Programação e Robótica na Educação Básica na Rede Sesi e é colunista no Instituto Ciência Hoje.
²Thiago Henrique Diniz é biólogo pela Unesp-IBB e pela Universidade de Coimbra, mestre em Educação para a Ciência pela UNESP-FC. É formado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas pela Fatec Botucatu. Atua como professor de Ciências na Educação Básica e como programador júnior.
³Vinícius Nunes Alves é biólogo pela Unesp-IBB, mestre em Ecologia pela UFU-Inbio e especialista em Jornalismo Científico pela Unicamp-Labjor. Atualmente cursa sua segunda graduação em Pedagogia na Univesp e doutorado em Educação para a Ciência na Unesp/FC. Atua como Professor de Ciências da Prefeitura de Botucatu e como jornalista autônomo, sendo colaborador de veículos como ((o))eco, #Colabora e ComCiência. É membro da Academia de Letras do Brasil (ALB) – Seccional Botucatu-SP.
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