{"id":2840,"date":"2025-02-03T21:28:19","date_gmt":"2025-02-04T00:28:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/?p=2840"},"modified":"2025-02-04T13:20:01","modified_gmt":"2025-02-04T16:20:01","slug":"fogo-desafios-do-manejo-integrado-e-o-papel-das-politicas-publicas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/2025\/02\/03\/fogo-desafios-do-manejo-integrado-e-o-papel-das-politicas-publicas\/","title":{"rendered":"Fogo: desafios do Manejo Integrado e o papel das Pol\u00edticas P\u00fablicas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong>Por Ariadne Magalh\u00e3es Carneiro, Fabr\u00edcio de Toledo, Felipe Gustavo Camolezi Filho, Ricardo Greggo e Vin\u00edcius Nunes Alves<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Na postagem <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/2024\/12\/25\/incendios-na-cuesta-do-interior-paulista-conheca-os-impactos-as-acoes-de-monitoramento-e-recuperacao\/\">anterior<\/a> sobre o I Webinar \u201cInc\u00eandios Florestais: Um debate emergente\u201d (grava\u00e7\u00e3o completa dispon\u00edvel no <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/live\/x21lYEJqsls\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">link<\/a>&nbsp;do YouTube), foi resumida a palestra de abertura do evento, ministrada pela Prof. Dra. Renata Cristina Batista Fonseca da Faculdade de Ci\u00eancias Agron\u00f4micas&nbsp;(FCA)&nbsp;da Universidade Estadual Paulista (Unesp). O evento ocorreu em 26 de novembro, os meses passam, mas o efeito continua. Renata contou sobre os impactos dos inc\u00eandios sem precedentes que atingiram a Cuesta da regi\u00e3o de Botucatu entre setembro e outubro, especialmente no per\u00edmetro da Fazenda Experimental Edg\u00e1rdia. Ela tamb\u00e9m apresentou importantes frentes de trabalho e parcerias que est\u00e3o em desenvolvimento no Laborat\u00f3rio de Conserva\u00e7\u00e3o da Natureza (<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/lcn_unesp\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">LCN<\/a>)&nbsp;que ela coordena, pertencente ao Departamento de Ci\u00eancia Florestal, Solos e Ambiente da FCA.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Na continua\u00e7\u00e3o do webinar, houve mais duas palestras de profissionais com larga experi\u00eancia de pesquisa relacionada ao fogo: Christian Niel Berlinck e Ana Carolina Moreira Pess\u00f4a. Christian possui gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas pela Universidade Federal de Santa Catarina (1998), mestrado (2003) e doutorado (2008) em Ecologia pela Universidade de Bras\u00edlia. \u00c9 analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (<a href=\"https:\/\/www.gov.br\/icmbio\/pt-br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ICMBio<\/a>) onde trabalha com Ecologia do Fogo e Conserva\u00e7\u00e3o de Fauna. \u00c9 especialista em queimadas prescritas e manejo do fogo, investigador de causa e origem de inc\u00eandios florestais, instrutor de preven\u00e7\u00e3o e combate a inc\u00eandios florestais, al\u00e9m de acumular experi\u00eancia com gest\u00e3o de <a href=\"https:\/\/oeco.org.br\/dicionario-ambiental\/27099-o-que-sao-unidades-de-conservacao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o<\/a>. Ana Carolina possui gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas &#8211; Bacharelado em Ecologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013).\u00a0Mestre e Doutora em Sensoriamento Remoto pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (2016, 2022). Atuou como Pesquisadora Assistente no projeto &#8216;Tropical Deforestation and Economic Development&#8217;, financiado pelo &#8216;Research Council of Norway&#8217; (2016-2018). Hoje atua como pesquisadora no Instituto de Pesquisa Ambiental da Amaz\u00f4nia (<a href=\"https:\/\/ipam.org.br\/pt\/?gad_source=1&amp;gclid=Cj0KCQiA4-y8BhC3ARIsAHmjC_En-Q6kBgn6dhNjAVr6glr3iD6RMfzA2PGztzaMmEHTGkWBfN-f9_EaApHtEALw_wcB\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">IPAM<\/a>), tem experi\u00eancia em estudos ambientais na Mata Atl\u00e2ntica e na Amaz\u00f4nia, Sensoriamento Remoto e Geoprocessamento, Avalia\u00e7\u00e3o de Pol\u00edticas P\u00fablicas Ambientais e Conserva\u00e7\u00e3o da Natureza.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Nesta mat\u00e9ria para o&nbsp;<strong>Natureza Cr\u00edtica<\/strong>, adaptamos em formato de entrevista algumas percep\u00e7\u00f5es, experi\u00eancias, desafios e recomenda\u00e7\u00f5es apresentadas pelos dois pesquisadores durante o webinar em suas respectivas especialidades. A primeira parte foi direcionada para o Christian e a segunda foi direcionada para a Ana Carolina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><\/p>\n\n\n\n<figure class=\" wp-block-image size-large eplus-wrapper\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"425\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/wp-content\/uploads\/sites\/172\/2025\/02\/WhatsApp-Image-2025-01-30-at-10.29.53-1024x425.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2847\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/wp-content\/uploads\/sites\/172\/2025\/02\/WhatsApp-Image-2025-01-30-at-10.29.53-1024x425.jpeg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/wp-content\/uploads\/sites\/172\/2025\/02\/WhatsApp-Image-2025-01-30-at-10.29.53-300x125.jpeg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/wp-content\/uploads\/sites\/172\/2025\/02\/WhatsApp-Image-2025-01-30-at-10.29.53-768x319.jpeg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/wp-content\/uploads\/sites\/172\/2025\/02\/WhatsApp-Image-2025-01-30-at-10.29.53-500x208.jpeg 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/wp-content\/uploads\/sites\/172\/2025\/02\/WhatsApp-Image-2025-01-30-at-10.29.53-800x332.jpeg 800w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/wp-content\/uploads\/sites\/172\/2025\/02\/WhatsApp-Image-2025-01-30-at-10.29.53-1280x531.jpeg 1280w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/wp-content\/uploads\/sites\/172\/2025\/02\/WhatsApp-Image-2025-01-30-at-10.29.53.jpeg 1436w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong>Ap\u00f3s um inc\u00eandio, quais s\u00e3o os efeitos sobre a fauna nos tipos de vegeta\u00e7\u00e3o que j\u00e1 estudou?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong>Christian \u2013<\/strong> A estrutura e os recursos disponibilizados pela vegeta\u00e7\u00e3o s\u00e3o afetados quando ocorrem altera\u00e7\u00f5es ambientais abruptas, como inc\u00eandios, e isso afeta a sobreviv\u00eancia da fauna local. Em estudos de fogo no Pantanal com florestas poliespec\u00edficas que participei, n\u00e3o registrei perda de diversidade de mam\u00edferos nativos de m\u00e9dio e grande porte, mas sim uma leve redu\u00e7\u00e3o de abund\u00e2ncia. J\u00e1 em florestas monoespec\u00edficas adjacentes que j\u00e1 t\u00eam baixa diversidade e menos recursos, tanto a diversidade quanto a abund\u00e2ncia sofreram uma queda acentuada ap\u00f3s a passagem do fogo. Esse efeito durou mesmo ap\u00f3s dois anos do inc\u00eandio, as popula\u00e7\u00f5es destas esp\u00e9cies da fauna monitoradas n\u00e3o se recuperaram, indicando que outros inc\u00eandios semelhantes aos de 2020 no Pantanal podem reduzir ainda mais o tamanho das popula\u00e7\u00f5es, pois n\u00e3o houve tempo de recupera\u00e7\u00e3o, acarretando em alguns casos extin\u00e7\u00f5es locais. A altera\u00e7\u00e3o do regime de fogo gera efeito significativos, hoje \u00e9 importante considerar que podem existir os tr\u00eas tipos de fogo ao mesmo tempo \u2013 o de superf\u00edcie, o de solo e o de copa, afetando de forma diversa a fauna, incluindo as suas estrat\u00e9gias de sobreviv\u00eancia durante e ap\u00f3s o fogo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong>Cada grupo de animais \u00e9 afetado de maneira diferente pelo fogo. Pode comentar um pouco sobre essas diferen\u00e7as observadas nos inc\u00eandios?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong>Christian \u2013 <\/strong>Considerando o regime hist\u00f3rico de fogo em cada regi\u00e3o, a fauna se adapta e desenvolve estrat\u00e9gias para sobreviv\u00eancia. Atualmente estamos vendo altera\u00e7\u00e3o do regime e tipo de fogo, por exemplo, onde antes ocorria apenas o de superf\u00edcie, agora, devido \u00e0s secas acentuadas, ocorre fogo subterr\u00e2neo e, em alguns casos, at\u00e9 fogo de copa, antes raro no Brasil. Assim, as esp\u00e9cies que tinham a estrat\u00e9gia de subir nas \u00e1rvores para fugir do fogo, s\u00e3o afetadas tanto pela fuma\u00e7\u00e3o, morrendo intoxicadas, quanto queimadas nas copas das \u00e1rvores. Outra estrat\u00e9gia de fuga e sobreviv\u00eancia dos animais \u00e9 se entocarem, mas se o fogo no solo tamb\u00e9m ocorre, acaba matando-os, elevando o impacto na abund\u00e2ncia e na riqueza. Hoje existe um banco de dados nacional sobre todos os animais que s\u00e3o afetados diretamente pelo fogo, com quase 3 mil registros. Ent\u00e3o, a maior parte dos registros s\u00e3o de inc\u00eandios, um n\u00famero bem maior que o fogo das queimadas prescritas. Os mais afetados geralmente s\u00e3o os r\u00e9pteis, principalmente os de pequeno porte e baixa mobilidade. Os anf\u00edbios tamb\u00e9m s\u00e3o bem afetados porque mesmo indo para as \u00e1reas \u00famidas pr\u00f3ximas, estas tamb\u00e9m acabam sendo atingidas pelos inc\u00eandios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong>Christian \u2013 <\/strong>Outro aspecto a ser estudado \u00e9 a ecologia comportamental dos animais que est\u00e1 relacionada com a taxa de sobreviv\u00eancia das esp\u00e9cies. Ent\u00e3o, a gente olha para cada uma dessas esp\u00e9cies, vendo o comportamento que elas t\u00eam e como que elas podem responder \u00e0 passagem de fogo. As observa\u00e7\u00f5es devem ir al\u00e9m da quantidade de indiv\u00edduos que morrem, mas tamb\u00e9m o quanto de biomassa e de fun\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica que esses indiv\u00edduos desenvolviam naquela regi\u00e3o e que ap\u00f3s o fogo ser\u00e3o perdidas. A partir disso, podemos analisar a sa\u00fade e a qualidade do ambiente&nbsp; para desenhar as melhores estrat\u00e9gias de recupera\u00e7\u00e3o e restaura\u00e7\u00e3o ambiental, considerando inclusive a reintrodu\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies que foram localmente extintas ap\u00f3s os inc\u00eandios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong>Excluir o fogo n\u00e3o necessariamente \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o do problema, mas sim manejar o fogo em cada situa\u00e7\u00e3o. Como especialista em manejo integrado do fogo, pode ponderar diferentes contextos para tratar o fogo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong>Christian \u2013 <\/strong>O fogo n\u00e3o \u00e9 o problema, e sim o seu uso indiscriminado e sem controle, o inc\u00eandio. O problema \u00e9 como ele \u00e9 usado.&nbsp; A legisla\u00e7\u00e3o permite o uso&nbsp; do fogo quando autorizado pelos \u00f3rg\u00e3os ambientais competentes, sejam eles municipais, estaduais ou federais. A gente tem uma cultura de fogo zero no Brasil, ela vem desde a \u00e9poca colonial, imposto por Portugal e os invasores, esquecemos como isso era tratado aqui pelos povos originais, como eles usavam o fogo para manejar o ambiente, para fins culturais e econ\u00f4micos. Mas isso n\u00e3o quer dizer que a gente tem que banalizar o fogo, usar a torto e a direito. O que a gente precisa \u00e9 ter normativas que orientem o uso do fogo de forma adequada. Se apenas tirar o fogo do local, vai crescer vegeta\u00e7\u00e3o e acumular biomassa, potencializando a ocorr\u00eancia de inc\u00eandios de grandes propor\u00e7\u00f5es. Hoje em dia n\u00e3o temos que pensar se vai vir inc\u00eandio, \u00e9 quando ele vai vir. Isso \u00e9 fato e o que n\u00f3s temos observado hoje com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas \u00e9 que os dias est\u00e3o cada vez mais quentes, a quantidade de chuva que est\u00e1 caindo \u00e9 cada vez menor e a quantidade de dias sem chuva \u00e9 cada vez maior no ano, isso auxilia o pr\u00e9-aquecimento e a desidrata\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o, facilitando a propaga\u00e7\u00e3o do fogo e a perda de seu controle.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong>Christian \u2013 <\/strong>Se temos uma fonte de igni\u00e7\u00e3o, o fogo pode se alastrar com facilidade. A gente precisa fazer com que esse fogo fique contido, se isso n\u00e3o \u00e9 feito, n\u00e3o tem equipe profissional que consiga controlar. Isso s\u00f3 vai ser alcan\u00e7ado se a gente tiver um planejamento em escala de paisagem que envolva \u00e1reas protegidas, \u00e1reas particulares, institutos de pesquisa, educa\u00e7\u00e3o e toda a comunidade de interessados. Hoje a Pol\u00edtica Nacional deManejo Integrado do Fogo subsidia essa a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong>Fora das Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o Federais, n\u00e3o atuam equipes de profissionais do ICMBio para manejar o fogo da melhor maneira poss\u00edvel. Qual poderia ser o caminho para a implanta\u00e7\u00e3o do manejo integrado do fogo, com aplica\u00e7\u00e3o, por exemplo, de queimadas prescritas, em uma Unidade de Conserva\u00e7\u00e3o Municipal?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong>Christian \u2013 <\/strong>\u00c9 importante se basear na Pol\u00edtica Nacional de Manejo Integrado do Fogo, al\u00e9m de documentos do ICMBio que orientam a elabora\u00e7\u00e3o de planos de manejo integrado do fogo. Outro ponto fundamental \u00e9 que manejo integrado do fogo n\u00e3o se restringe a queimas prescritas, ela \u00e9 apenas uma das t\u00e9cnicas de preven\u00e7\u00e3o de inc\u00eandios em vegeta\u00e7\u00e3o que podem ser utilizadas. O primeiro passo ent\u00e3o, seria trabalhar junto com os estados, porque s\u00e3o os estados que normatizam essas a\u00e7\u00f5es fora das Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o Federais. Al\u00e9m disso, \u00e9 fundamental levantar o hist\u00f3rico de ocorr\u00eancia de fogo, entender por que e como ele ocorre, onde se inicia e para onde se propaga, al\u00e9m da \u00e9poca de ocorr\u00eancia. Com o conhecimento b\u00e1sico&nbsp; implementa-se as a\u00e7\u00f5es devagar, o primeiro passo \u00e9 fazer um mapeamento da regi\u00e3o do munic\u00edpio, o que \u00e9 sens\u00edvel (como ambientes florestais) e o que \u00e9 adaptado (como ambientes sav\u00e2nicos e campestres) ao fogo. Envolver institutos de pesquisa e universidades para monitorar essas \u00e1reas antes da passagem do fogo \u00e9 fundamental, por exemplo, pode-se fazer uma queimada prescrita de 5 ou 10 hectares e ver como essa \u00e1rea responde. O processo longo, n\u00f3s estamos h\u00e1 mais de 10 anos trabalhando nisso para conseguir chegar nos resultados que o ICMBio tem hoje. Mas comece devagar, planejando, olhando para a paisagem, caracterizando ela e depois vem a tomada de decis\u00e3o. Por fim, enfatizo que existem diversas t\u00e9cnicas de preven\u00e7\u00e3o de inc\u00eandios al\u00e9m do manejo de combust\u00edvel com queimadas prescritas, como educa\u00e7\u00e3o e envolvimento das comunidades, presen\u00e7a institucional, aceiros e evitar fontes de igni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\" wp-block-image size-large eplus-wrapper\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"430\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/wp-content\/uploads\/sites\/172\/2025\/02\/WhatsApp-Image-2025-01-30-at-10.29.37-1024x430.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2846\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/wp-content\/uploads\/sites\/172\/2025\/02\/WhatsApp-Image-2025-01-30-at-10.29.37-1024x430.jpeg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/wp-content\/uploads\/sites\/172\/2025\/02\/WhatsApp-Image-2025-01-30-at-10.29.37-300x126.jpeg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/wp-content\/uploads\/sites\/172\/2025\/02\/WhatsApp-Image-2025-01-30-at-10.29.37-768x323.jpeg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/wp-content\/uploads\/sites\/172\/2025\/02\/WhatsApp-Image-2025-01-30-at-10.29.37-500x210.jpeg 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/wp-content\/uploads\/sites\/172\/2025\/02\/WhatsApp-Image-2025-01-30-at-10.29.37-800x336.jpeg 800w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/wp-content\/uploads\/sites\/172\/2025\/02\/WhatsApp-Image-2025-01-30-at-10.29.37-1280x538.jpeg 1280w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/wp-content\/uploads\/sites\/172\/2025\/02\/WhatsApp-Image-2025-01-30-at-10.29.37.jpeg 1438w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong>Com base na sua experi\u00eancia com pol\u00edticas p\u00fablicas ambientais, o que destacaria como principais marcos na pol\u00edtica e na legisla\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao fogo em ambientes naturais?&nbsp;&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong>Ana Carolina \u2013<\/strong> Trazendo um pouco do que \u00e9 pol\u00edtica ambiental, ela \u00e9 considerada um conjunto de diretrizes, princ\u00edpios e regras criadas para orientar comportamentos em determinado contexto e meio ambiente. A promo\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas ambientais visa a conserva\u00e7\u00e3o da sociobiodiversidade, a gest\u00e3o sustent\u00e1vel dos recursos naturais e a mitiga\u00e7\u00e3o dos impactos das atividades humanas. Em 1981, tivemos a Pol\u00edtica Nacional do Meio Ambiente, em 1988 a Constitui\u00e7\u00e3o Federal que traz no artigo 225 a prote\u00e7\u00e3o do meio ambiente como direito fundamental e como responsabilidade tanto do poder p\u00fablico quanto da sociedade. Em 2000 a gente tem um marco importante com a cria\u00e7\u00e3o do Sistema Nacional de Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o, trazendo ent\u00e3o as categorias de \u00e1reas protegidas em nosso pa\u00eds. Em 2015 o Brasil passa a ser signat\u00e1rio do Acordo de Paris, se comprometendo internacionalmente com a redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es dos gases do efeito estufa. E somente em 2024 \u00e9 que a gente tem ent\u00e3o a cria\u00e7\u00e3o da Pol\u00edtica Nacional de Manejo Integrado do Fogo, trazendo uma pol\u00edtica em que o fogo \u00e9 realmente o protagonista. Ent\u00e3o oficialmente o fogo s\u00f3 se tornou protagonista recentemente, apesar de j\u00e1 ser mencionado em outras pol\u00edticas anteriores. Antes disso, existia muito mais uma mentalidade de fogo zero.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong>Ana Carolina \u2013<\/strong> Al\u00e9m disso, o fogo sempre foi muito atrelado ao desmatamento, ent\u00e3o, acreditava-se que se atacassem o desmatamento, consequentemente, o fogo tamb\u00e9m iria diminuir. O que \u00e9 em parte verdade, mas n\u00e3o \u00e9 sempre assim, atualmente com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas vemos o desmatamento diminuindo na Amaz\u00f4nia, por exemplo, mas \u00e1reas com inc\u00eandios continuam aumentando.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong>Como surge uma boa pol\u00edtica p\u00fablica para a conserva\u00e7\u00e3o ambiental e como o sensoriamento remoto pode auxiliar?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong>Ana Carolina \u2013<\/strong> Primeiro, identifica-se um problema. Depois, formula-se uma agenda para discutir a quest\u00e3o. Em seguida, elabora-se a pol\u00edtica, desenvolvendo propostas e alternativas. Ap\u00f3s a tomada de decis\u00e3o, ocorre a implementa\u00e7\u00e3o, monitoramento e avalia\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica.O sensoriamento remoto \u00e9 fundamental em todas essas etapas, pois melhora a precis\u00e3o, a agilidade e a transpar\u00eancia, permitindo uma gest\u00e3o mais eficiente e informada. Ele fornece dados cruciais para gestores e tomadores de decis\u00e3o. Um exemplo que sempre me chamou aten\u00e7\u00e3o s\u00e3o as \u00e1reas protegidas, pois podemos observ\u00e1-las em uma escala de paisagem, indicando onde a floresta est\u00e1 sendo afetada pela degrada\u00e7\u00e3o.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong>Pode explicar isso com um exemplo da sua experi\u00eancia de pesquisa?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong>Ana Carolina \u2013<\/strong> A Terra Ind\u00edgena Parakan\u00e3, no Par\u00e1, por exemplo. N\u00f3s observamos que, ao longo do tempo, o desmatamento \u2014 representado pelas \u00e1reas mais claras \u2014 avan\u00e7a na paisagem, enquanto a terra ind\u00edgena permanece como uma ilha de floresta.Sempre me questionei se essas \u00e1reas protegidas, al\u00e9m de serem eficazes contra o desmatamento, tamb\u00e9m poderiam barrar o fogo. Diferentemente do desmatamento, o fogo n\u00e3o se inibe por fronteiras pol\u00edticas. Mas medir o efeito causal de uma pol\u00edtica \u00e9 desafiador, principalmente porque sua implementa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 aleat\u00f3ria e diversos outros fatores, como condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, tamb\u00e9m influenciam a ocorr\u00eancia de fogo al\u00e9m da cria\u00e7\u00e3o da prote\u00e7\u00e3o de uma \u00e1rea o que introduz vieses estat\u00edsticos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong>Ana Carolina \u2013<\/strong> Sabendo disso, eu usei dois modelos econom\u00e9tricos acoplados. Primeiro, o pareamento, que compara pixels de imagem dentro e fora de \u00e1reas protegidas, mas com caracter\u00edsticas ambientais semelhantes.Comparar uma floresta protegida com um pasto seria injusto. O pareamento seleciona um controle v\u00e1lido: um pixel fora da \u00e1rea protegida, mas com condi\u00e7\u00f5es similares.Na segunda etapa, utilizei o modelo de diferen\u00e7as em diferen\u00e7as , comparando a \u00e1rea dentro e fora e antes e depois da implementa\u00e7\u00e3o da prote\u00e7\u00e3o. Isso permite afirmar se a pol\u00edtica reduziu a ocorr\u00eancia de inc\u00eandios. A vantagem do&nbsp; sensoriamento remoto \u00e9 que ele fornece dados para controlar m\u00faltiplos fatores, por exemplo, no meu trabalho, controlei fatores clim\u00e1ticos, de uso da terra e de rentabilidade da terra. Os resultados mostraram que a cria\u00e7\u00e3o de \u00e1reas protegidas reduziu significativamente o fogo na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong>Como podemos incentivar as prefeituras a usarem sensoriamento remoto na gest\u00e3o ambiental?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong>Ana Carolina \u2013<\/strong> Na regi\u00e3o da Amaz\u00f4nia, onde tenho mais experi\u00eancia, vimos que muitas prefeituras n\u00e3o utilizam essas tecnologias por falta de pessoal. \u00c0s vezes, uma pessoa j\u00e1 \u00e9 respons\u00e1vel por diversas tarefas, e adicionar mais uma sobrecarrega ainda mais o trabalho. J\u00e1 no n\u00edvel estadual, h\u00e1 maior capacidade de monitoramento, mas o gargalo est\u00e1 na articula\u00e7\u00e3o entre institui\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, a quest\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 relevante, pois muitos tomadores de decis\u00e3o t\u00eam interesses conflitantes. Uma alternativa \u00e9 traduzir o conhecimento cient\u00edfico em aplicativos e ferramentas acess\u00edveis que possam ser utilizados por gestores locais de forma f\u00e1cil e r\u00e1pida. Tornar a tecnologia acess\u00edvel para quem est\u00e1 fora da academia \u00e9 fundamental.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong><em>Ariadne Magalh\u00e3es Carneiro<\/em><\/strong><em>&nbsp;\u00e9 bacharel em Biotecnologia pela Unifal, mestre e doutora em Biotecnologia pela Unesp. Trabalha nos projetos de extens\u00e3o universit\u00e1ria Projeto Trilha e Clube da Mata, da Unesp de Botucatu, voltados \u00e0 educa\u00e7\u00e3o ambiental.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong><em>Fabr\u00edcio de Toledo<\/em><\/strong><em>&nbsp;\u00e9 graduando em Engenharia Florestal pela Unesp, presidente da empresa j\u00fanior Conflor Jr. e participa das atividades do laborat\u00f3rio de Restaura\u00e7\u00e3o e Silvicultura Tropical (RESTROP).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong><em>Felipe Gustavo Camolezi Filho<\/em><\/strong><em>&nbsp;\u00e9 graduando em Engenharia Florestal pela Unesp \u2013 FCA, Integrante do grupo PET \u2013 Florestal e participante de pesquisas sobre Detec\u00e7\u00e3o e Varredura por Luz (LiDAR).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong><em>Ricardo Greggo<\/em><\/strong><em>&nbsp;\u00e9 comunicador social, fot\u00f3grafo de biomas, ativista ambiental e atual presidente da ONG Cuesta Viva.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong><em>Vin\u00edcius Nunes Alves<\/em><\/strong><em>&nbsp;\u00e9&nbsp;bi\u00f3logo pela Unesp, mestre em Ecologia e Conserva\u00e7\u00e3o pela UFU, especialista em Jornalismo Cient\u00edfico pela Unicamp. Foi professor substituto no Departamento de Ci\u00eancias Humanas do IBB-Unesp, \u00e9 colunista do jornal Not\u00edcias Botucatu, atua como professor de Ci\u00eancias na Prefeitura de Botucatu-SP e como jornalista independente.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Por Ariadne Magalh\u00e3es Carneiro, Fabr\u00edcio de Toledo, Felipe Gustavo Camolezi Filho, Ricardo Greggo e Vin\u00edcius Nunes Alves Na postagem anterior sobre o I Webinar \u201cInc\u00eandios <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/2025\/02\/03\/fogo-desafios-do-manejo-integrado-e-o-papel-das-politicas-publicas\/\" title=\"Fogo: desafios do Manejo Integrado e o papel das Pol\u00edticas P\u00fablicas\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":615,"featured_media":2843,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[142,80],"tags":[],"class_list":["post-2840","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-divulgacao","category-entrevista"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.9 - 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