{"id":2893,"date":"2025-09-11T17:07:10","date_gmt":"2025-09-11T20:07:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/?p=2893"},"modified":"2025-09-11T17:07:15","modified_gmt":"2025-09-11T20:07:15","slug":"vida-e-morte-do-curupira-em-sao-paulo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/2025\/09\/11\/vida-e-morte-do-curupira-em-sao-paulo\/","title":{"rendered":"Vida e morte do Curupira em S\u00e3o Paulo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n<p>Curupira \u00e9 um menino de cabelos vermelhos e p\u00e9s voltados para tr\u00e1s. Ele protege a floresta de seus inimigos. Ente fant\u00e1stico do folclore brasileiro, esconde as ferramentas dos ca\u00e7adores e desmatadores e confunde esses pilantras, pois suas pegadas em sentido oposto fazem com que eles se percam na mata. Mascote da 30\u00aa Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas, incomoda inclusive antagonistas engravatados, a exemplo de um pol\u00edtico de car\u00e1ter duvidoso que recentemente ajudou fac\u00e7\u00e3o criminosa com suas mentiras.<\/p>\n<p>Em 2021, foi publicado neste blog o texto \u201c<a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/2021\/03\/22\/cidade-invisivel-e-divulgacao-cientifica-sobre-meio-ambiente-sim-senhor\/\">Cidade Invis\u00edvel \u00e9 divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica sobre meio ambiente sim senhor!<\/a>\u201d, no qual \u00e9 defendo que podemos utilizar criaturas fant\u00e1sticas para falar sobre quest\u00f5es de ci\u00eancias. Que a divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica n\u00e3o precisa necessariamente ser uma aula complexa. Pode ser uma provoca\u00e7\u00e3o, um convite, um flerte. Que a divulga\u00e7\u00e3o do conhecimento cient\u00edfico ocorre em v\u00e1rios n\u00edveis. E \u00e0s vezes \u00e9 necess\u00e1rio lan\u00e7ar m\u00e3o de variadas estrat\u00e9gias para criar uma porta de entrada e atrair os mais variados p\u00fablicos. Gerou pol\u00eamica nas redes sociais. Positivistas ficaram de cabelo em p\u00e9. Mas tamb\u00e9m teve quem se identificou e apoiou.<\/p>\n<p>As divulgadoras cient\u00edficas Erica Mariosa, Maria Clara Sosa e Ana Arnt levaram adiante a discuss\u00e3o e produziram um <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/edreal\/a\/YQQd4cX77WMdF9CtsbMrZdN\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">artigo cient\u00edfico<\/a> no peri\u00f3dico <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/edreal\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Educa\u00e7\u00e3o &amp; Realidade<\/a> a partir da pol\u00eamica, produzindo uma an\u00e1lise que mesclou de Focault a Krenak e avaliou potencial da s\u00e9rie televisiva como ferramenta de debate sobre divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, apagamento do saber popular e necessidade de valida\u00e7\u00e3o na sociedade ocidental.<\/p>\n<p>Argumentos foram lan\u00e7ados, mas cada pessoa \u00e9 livre para acreditar no que quiser. No entanto, apelando para uma abordagem legalista, \u00e9 preciso refor\u00e7ar que todo mundo \u00e9 obrigado a respeitar a lei. E no estado de S\u00e3o Paulo existe normativa legal espec\u00edfica para o Curupira.<\/p>\n<p><strong>Protetor das florestas do estado<\/strong><\/p>\n<p>A narrativa do seriado Cidade Invis\u00edvel inova ao trazer as criaturas folcl\u00f3ricas para o ambiente urbano. A primeira temporada, que tem a participa\u00e7\u00e3o do Curupira como um dos personagens, acontece no Rio de Janeiro. Mas esse neg\u00f3cio de ente fant\u00e1stico em uma capital de grande porte n\u00e3o \u00e9 novidade. E a hist\u00f3ria que segue, sobre a saga do Curupira no territ\u00f3rio paulista, n\u00e3o tem nada de fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1968, a deputada estadual Dulce Salles Cunha Braga apresentou na <a href=\"https:\/\/www.al.sp.gov.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Assembleia Legislativa<\/a> o projeto de lei n\u00ba 558, que propunha o Curupira como s\u00edmbolo estadual de guardi\u00e3o e protetor das florestas e dos animais que nela vivem. O projeto determinava ainda que o s\u00edmbolo do Curupira seria difundido nas escolas de graus prim\u00e1rio e m\u00e9dio e que as secretarias da Agricultura e da Educa\u00e7\u00e3o deveriam tomar as provid\u00eancias no sentido de difundir o Curupira como protetor da flora e fauna. Em julho 1970, Dulce reapresentou o projeto de lei, agora com n\u00famero 40. Em agosto daquele ano, o deputado Solon Borges dos Reis, ao recomendar que o projeto fosse aprovado pela casa, escreveu:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\"><em>\u201cDiariamente nos jornais temos not\u00edcias de atos criminosos no sentido de devastar a nossa flora e a fauna, apesar da prote\u00e7\u00e3o que o estado oferece. \u00c9 importante, a fim de p\u00f4r paradeiro a esses atos criminosos, educar as nossas crian\u00e7as, mostrando-lhes os aspectos positivos da preserva\u00e7\u00e3o for\u00e7osa da natureza e da fauna, t\u00e3o necess\u00e1rias \u00e0 vida do homem\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Os deputados aprovaram o projeto no primeiro dia de setembro daquele ano. No dia 11, foi promulgada a lei que instituiu o Curupira com o S\u00edmbolo Estadual de Guardi\u00e3o e Protetor das Florestas e dos animais.<\/p>\n<p><strong>Curupira da capital<\/strong><\/p>\n<p>Em 21 de setembro de 1970, Dia da \u00c1rvore, foi inaugurado um monumento ao Curupira no Horto Florestal da cidade de S\u00e3o Paulo, atualmente designado Parque Estadual Alberto L\u00f6fgren (PEAL). A estatueta foi doada pelo prefeito de Ribeir\u00e3o Preto. O monumento \u00e9 uma r\u00e9plica de uma est\u00e1tua que existia naquele munic\u00edpio.<\/p>\n<p>No entanto, a est\u00e1tua do Horto sofreu depreda\u00e7\u00f5es na d\u00e9cada de 1990 e acabou sendo retirada de seu pedestal. Anos e anos ap\u00f3s o ocorrido, era comum escutar relatos das pessoas mais velhas que passavam pela \u00e1rea do Parque sobre suas mem\u00f3rias afetivas relacionadas \u00e0quela imagem do Curupira.<\/p>\n<p>Coincidentemente e infelizmente, a obra original de Ribeir\u00e3o Preto, que provavelmente era de bronze, tamb\u00e9m havia sido furtada. Mas uma nova est\u00e1tua, de concreto, foi confeccionada e colocada em um parque do munic\u00edpio: Parque Prefeito Luiz Roberto J\u00e1bali (conhecido tamb\u00e9m como Parque do Curupira).<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 est\u00e1tua \u201cpaulistana\u201d, ela foi parcialmente restaurada pelo servidor do ent\u00e3o Instituto Florestal (IF) Robinson Dias e, posteriormente, na segunda metade da d\u00e9cada de 2010, passou a integrar o acervo do Museu Florestal \u201cOct\u00e1vio Vecchi\u201d, localizado no PEAL.<\/p>\n<p><strong>O retorno<\/strong><\/p>\n<p>Em 2018, o bi\u00f3logo Felipe Zanusso realizava sua pesquisa de doutorado na <a href=\"https:\/\/unicamp.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Universidade Estadual de Campinas<\/a> (Unicamp), estudando, dentre outros temas, a hist\u00f3ria das \u00e1reas protegidas. Ex-funcion\u00e1rio da Funda\u00e7\u00e3o Florestal do estado de S\u00e3o Paulo, j\u00e1 havia trabalhado lotado no Parque Estadual Alberto L\u00f6fgren (PEAL). Mas ainda n\u00e3o conhecia a hist\u00f3ria do Curupira dali. At\u00e9 que teve um sonho: de que havia um Curupira naquele parque. A revela\u00e7\u00e3o on\u00edrica o levou ao Museu Florestal, onde p\u00f4de conhecer um pouco mais dessa saga. Durante esse processo, desenvolveu nos anos que se seguiram, junto \u00e0 equipe do Museu, \u00e0 \u00e9poca vinculado ao extinto IF, diversas atividades de educa\u00e7\u00e3o ambiental e divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica visando a cria\u00e7\u00e3o e o fortalecimento de uma cultura de valoriza\u00e7\u00e3o de \u00e1reas protegidas.<\/p>\n<p>Em parceria com Nat\u00e1lia Almeida, respons\u00e1vel pelo Museu \u00e0 \u00e9poca, pesquisando mais a fundo as origens do Curupira do Horto, Felipe chegou ao artista Thirso Cruz, com 82 anos \u00e0 \u00e9poca. O artista era natural de S\u00e3o Joaquim da Barra e radicado h\u00e1 mais de sessenta anos em Ribeir\u00e3o Preto, onde produziu muitas obras e ensinou seu of\u00edcio. A cidade ostenta dezenas de esculturas de sua autoria. Ele era autor da segunda vers\u00e3o do Curupira ribeir\u00e3o-pretano. A primeira, desaparecida, era do artista pl\u00e1stico Antonio Palocci (pai do pol\u00edtico hom\u00f4nimo).<\/p>\n<p>Ap\u00f3s trocas de mensagens e conversas por telefone entre Felipe e Thirso, o artista fez uma surpresa: ele havia esculpido uma nova imagem do Curupira. Era uma r\u00e9plica da est\u00e1tua do Parque do Curupira, de Ribeir\u00e3o Preto.<\/p>\n<p>Pegos de surpresa, Felipe e a turma do Museu fizeram uma vaquinha para pagar Thirso pela \u201cencomenda\u201d e trazer a nova imagem para a capital. O fato desta vers\u00e3o ter sido executada em fibra de vidro, portanto mais leve, reduziu a dificuldade para transport\u00e1-la. As inst\u00e2ncias governamentais n\u00e3o ajudaram muito, mas tamb\u00e9m n\u00e3o atrapalharam. Assim, o novo Curupira passou a integrar a paisagem do PEAL. Deste modo, em 21 de setembro de 2019, dia da \u00e1rvore, o s\u00edmbolo do protetor da biodiversidade das florestas paulistas voltou a ser representado na \u00e1rea externa do Parque.<\/p>\n<p>A volta do Curupira ao Horto foi um dos eventos mais marcantes da\u00a0<a href=\"https:\/\/festadasarvores.wixsite.com\/2019\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Festa das \u00c1rvores<\/a>, realizada ao longo daquele m\u00eas, e que foi uma iniciativa dessa turma em resgatar a tradi\u00e7\u00e3o iniciada em 1902, quando aconteceu o primeiro evento do g\u00eanero no pa\u00eds, no munic\u00edpio paulista de Araras.<\/p>\n<p>Com uma nova est\u00e1tua, os visitantes do Parque, inclusive os mais jovens, puderam criar novas mem\u00f3rias com o Curupira e estreitar suas rela\u00e7\u00f5es com a natureza e com aqueles que vivem nela.<\/p>\n<p><strong>O fim?<\/strong><\/p>\n<p>Em 2021, Andrea Esc\u00f3rcio apresentou trabalho de conclus\u00e3o de curso de bacharelado em Hist\u00f3ria da Arte pela <a href=\"https:\/\/portal.unifesp.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Universidade Federal de S\u00e3o Paulo<\/a> (Unifesp) \u2013 Campus Guarulhos. Na monografia \u201c<a href=\"https:\/\/repositorio.unifesp.br\/handle\/11600\/61867\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Narrativas sobre o Curupira: povos origin\u00e1rios, folclores e mercantiliza\u00e7\u00e3o da cultura<\/a>\u201d dedica um cap\u00edtulo para contar a biografia do Curupira do PEAL.<\/p>\n<p>Sobre o retorno da imagem do ente folcl\u00f3rico ao Parque, ela conclui que:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\"><em>\u201cesse n\u00e3o \u00e9 o fim da \u201cvida social\u201d da estatueta. Podem ocorrer novamente depreda\u00e7\u00f5es, roubos ou quem sabe uma nova tentativa de iconoclastia; algum movimento social pode criticar a utiliza\u00e7\u00e3o dessa est\u00e1tua e o modo de representar o Curupira; uma nova gest\u00e3o do parque pode querer remover a est\u00e1tua e substitu\u00ed-la por outro s\u00edmbolo; uma \u00e1rvore pode cair em cima do objeto e degrad\u00e1-lo; enfim, uma obra em um espa\u00e7o p\u00fablico parece estar sujeita aos mais variados tipos de interven\u00e7\u00f5es.\u201d<\/em><\/p>\n<p>No primeiro semestre de 2022,\u00a0a <a href=\"https:\/\/semil.sp.gov.br\/2022\/01\/governo-de-sp-assina-concessao-de-areas-turisticas-do-cantareira-e-horto-florestal\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00e1rea do uso p\u00fablico do<\/a> <a href=\"https:\/\/semil.sp.gov.br\/2022\/01\/governo-de-sp-assina-concessao-de-areas-turisticas-do-cantareira-e-horto-florestal\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Parque foi concedida \u00e0 iniciativa privada<\/a> para que pudesse ser explorada economicamente. No primeiro dia em que a concession\u00e1ria assumiu, foi avistado, em um dos lagos, um bigu\u00e1 com um anel de pl\u00e1stico preso entre o bico e o pesco\u00e7o. A equipe do Museu tentou socorr\u00ea-lo. Foram atr\u00e1s da Pol\u00edcia Ambiental. De algum especialista em bichos. J\u00e1 estava escurecendo. E estava tenso. N\u00e3o conseguiam capturar a ave para libert\u00e1-la do lacre. Ela fugia a cada tentativa de aproxima\u00e7\u00e3o. Morreria se continuasse daquele jeito. Nisso, um \u201ccarrinho de golfe\u201d se aproximou. Nele, o rec\u00e9m gestor do Parque e um bi\u00f3logo decorativo da empresa. Explicaram a eles a situa\u00e7\u00e3o do animal. Ele deu \u201cboa sorte\u201d e foi embora. N\u00e3o tivemos mais not\u00edcias do bigu\u00e1. Provavelmente morreu em algum canto sem poder se alimentar.<\/p>\n<p>Em outra ocasi\u00e3o, uma pessoa que se candidatou \u00e0 vaga de monitor para trabalhar no parque contou que, durante a entrevista de emprego, com esse mesmo gestor indigesto, ele havia afirmado que os animais n\u00e3o eram problema deles.<\/p>\n<div id='gallery-1' class='gallery galleryid-2893 gallery-columns-3 gallery-size-medium'><figure class='gallery-item'>\n\t\t\t<div class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/wp-content\/uploads\/sites\/172\/2025\/09\/bigua-Horto-Florestal-1.jpg\" title=\"\" data-rl_title=\"\" class=\"rl-gallery-link\" data-rl_caption=\"\" data-rel=\"lightbox-gallery-1\" data-rl_><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"300\" height=\"225\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/wp-content\/uploads\/sites\/172\/2025\/09\/bigua-Horto-Florestal-1-300x225.jpg\" class=\"attachment-medium size-medium\" alt=\"\" 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Ibirapuera, na Zona Sul da capital paulista, desde 2020. Em 2025, o <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/sp\/sao-paulo\/cidade\/sao-paulo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Minist\u00e9rio P\u00fablico de\u00a0S\u00e3o Paulo\u00a0abriu um inqu\u00e9rit<\/a><a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/sp\/sao-paulo\/cidade\/sao-paulo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o<\/a> para investigar a Prefeitura da capital e a empresa por uso e segrega\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os p\u00fablicos para fins particulares. A investiga\u00e7\u00e3o apura o excesso de cobran\u00e7as por servi\u00e7os privados e a exposi\u00e7\u00e3o de marcas dentro das \u00e1reas p\u00fablicas. A explora\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria fez com que a empresa transformasse o parque em um shopping center.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o no PEAL \u00e9 ainda mais grave, pois, diferentemente do Ibirapuera, que \u00e9 um parque urbano, trata-se de uma unidade de conserva\u00e7\u00e3o da natureza da categoria de prote\u00e7\u00e3o integral. E n\u00e3o foram poucas as interven\u00e7\u00f5es desastrosas da concession\u00e1ria para tirar um troquinho em cima do patrim\u00f4nio p\u00fablico: atentados ao meio ambiente, ao patrim\u00f4nio hist\u00f3rico, \u00e0 seguran\u00e7a dos visitantes e ao bom gosto.<\/p>\n<p>Encheram de <em>food trucks<\/em> e de brinquedos t\u00edpicos de parques de divers\u00e3o. Meteram at\u00e9 um gramado sint\u00e9tico em um lugar onde anteriormente havia grama. Cortaram \u00e1rvores a rodo e o bosqueamento de v\u00e1rias \u00e1reas do parque \u00e9 vis\u00edvel. \u00c9 frequente o som das motosserras e a serragem de esp\u00e9cimes de \u00e1rvores mutiladas. Cobram fortunas para que as pessoas possam participar de atividades e eventos com m\u00fasica alta, o que perturba a fauna do parque. Instalaram uma s\u00e9rie de pain\u00e9is de <em>led<\/em> luminosos indutores de enxaqueca que, al\u00e9m de incomodar os bichos e quebrar qualquer conex\u00e3o que os frequentadores possam estar querendo ter com a natureza, ao inv\u00e9s de servirem como suporte \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o do Parque com informa\u00e7\u00f5es educativas, servem para a concession\u00e1ria arrecadar dinheiro cedendo o espa\u00e7o para propaganda das mais variadas, incluindo de bebidas alc\u00f3olicas e de sites de apostas.<\/p>\n<p>Aparentemente, n\u00e3o h\u00e1 plano de conting\u00eancia caso algum visitante seja picado por animal pe\u00e7onhento, visto que ocorrem no parque esp\u00e9cies de import\u00e2ncia m\u00e9dica, como jararacas e aranhas marrom e armadeira. No final de 2023, um jovem foi picado por uma serpente. De acordo com relatos de ex-funcion\u00e1rios da empresa, os primeiros socorros e o encaminhamento ao hospital foram realizados por uma enfermeira que, por sorte, passava pelo local. N\u00e3o houve atua\u00e7\u00e3o alguma de equipe da concession\u00e1ria.<\/p>\n<p>Contrariando o plano de manejo, liberaram o uso de bicicletas por todo o parque, o que tira a paz dos caminhantes e resulta em alguns atropelamentos, de gente e de fauna. J\u00e1 teve at\u00e9 uma pessoa que perdeu o controle da bike e caiu em um dos lagos, que por sinal est\u00e1 podre, j\u00e1 que passa esgoto por ali.<\/p>\n<p>Em outro lago, tamb\u00e9m insalubre, para colocarem pedalinho e arrecadar mais um dinheirinho, arrancaram todas as ninfeias que tinham fun\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica, como filtrar a \u00e1gua e oferecer abrigo a esp\u00e9cies aqu\u00e1ticas de fauna, e faziam parte do paisagismo hist\u00f3rico do parque. Estavam l\u00e1 h\u00e1 mais de cem anos.<\/p>\n<p>A falta de apre\u00e7o pela hist\u00f3ria tamb\u00e9m fez com que trocassem o telhado do casar\u00e3o hist\u00f3rico outrora conhecido como Pal\u00e1cio de Ver\u00e3o do Governador. Nenhum \u00f3rg\u00e3o de conserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio foi consultado. Simplesmente arrancaram as telhas portuguesas e trocaram por modelos do estilo romano. Tamb\u00e9m descaracterizaram as janelas do pr\u00e9dio da antiga Esta\u00e7\u00e3o Vida, onde acontecia o baile da terceira idade e atualmente funciona como restaurante.<\/p>\n<p>Segundo o plano de manejo do Parque, a \u00e1rea \u00e9 tombada pelo Conselho de Defesa do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico, Arqueol\u00f3gico, Art\u00edstico e Tur\u00edstico do Estado de S\u00e3o Paulo (Condephaat) desde 1983. Em 1988, a \u00e1rea de entorno da unidade tamb\u00e9m foi tombada.<\/p>\n<p>J\u00e1 o edif\u00edcio do Museu Florestal est\u00e1 caindo aos peda\u00e7os. Antes gratuito, agora h\u00e1 cobran\u00e7a de ingresso. E parece que a concession\u00e1ria n\u00e3o fez investimento algum no espa\u00e7o. Pelo contr\u00e1rio. N\u00e3o h\u00e1 posto de vigil\u00e2ncia espec\u00edfico para o local. Sob a gest\u00e3o estatal, o Museu contava com dois postos. Agora, apenas um indiv\u00edduo cuida de tudo sozinho: seguran\u00e7a, monitoria, limpeza, auto capacita\u00e7\u00e3o, cobrar ingresso&#8230; ali\u00e1s, pra que pagar um t\u00e9cnico especializado em museologia se voc\u00ea pode deixar o acervo largado? A sorte \u00e9 que o Condephaat iniciou o processo de tombamento de seu acervo pouco antes da entrega do espa\u00e7o para a iniciativa privada. Sorte n\u00e3o. Articula\u00e7\u00e3o entre servidores p\u00fablicos lotados no Museu e professores da Unifesp de Guarulhos.<\/p>\n<p>Em 9 de julho de 2024, Thirso Cruz faleceu aos 86 anos em Ribeir\u00e3o Preto. Em setembro do mesmo ano, uma senhora de 77 anos foi assassinada na ciclovia do arboreto da Vila Am\u00e1lia, uma \u00e1rea do Parque Estadual Alberto L\u00f6fgren sob gest\u00e3o da concession\u00e1ria. Em vez de aumentarem a seguran\u00e7a do local e melhorarem a infraestrutura de atendimento \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, apenas restringiram o acesso \u00e0quela parte do parque.<\/p>\n<p>E o que ser\u00e1 que o Curupira acha disso tudo? Em 2025, fomos consult\u00e1-lo e o encontramos depredado. Escalpelado. Sem o tampo da cabe\u00e7a. A hist\u00f3ria se repete. Trag\u00e9dia ou farsa?<\/p>\n<div id='gallery-2' class='gallery galleryid-2893 gallery-columns-2 gallery-size-large'><figure class='gallery-item'>\n\t\t\t<div class='gallery-icon portrait'>\n\t\t\t\t<a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/wp-content\/uploads\/sites\/172\/2025\/09\/Curupira-escapelado-2025-2.jpeg\" title=\"\" data-rl_title=\"\" class=\"rl-gallery-link\" data-rl_caption=\"\" data-rel=\"lightbox-gallery-2\" data-rl_><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/wp-content\/uploads\/sites\/172\/2025\/09\/Curupira-escapelado-2025-2-768x1024.jpeg\" class=\"attachment-large size-large\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/wp-content\/uploads\/sites\/172\/2025\/09\/Curupira-escapelado-2025-2-768x1024.jpeg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/wp-content\/uploads\/sites\/172\/2025\/09\/Curupira-escapelado-2025-2-225x300.jpeg 225w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/wp-content\/uploads\/sites\/172\/2025\/09\/Curupira-escapelado-2025-2-500x667.jpeg 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/wp-content\/uploads\/sites\/172\/2025\/09\/Curupira-escapelado-2025-2-800x1067.jpeg 800w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/wp-content\/uploads\/sites\/172\/2025\/09\/Curupira-escapelado-2025-2.jpeg 960w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/div><\/figure><figure class='gallery-item'>\n\t\t\t<div class='gallery-icon portrait'>\n\t\t\t\t<a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/wp-content\/uploads\/sites\/172\/2025\/09\/Curupira-escalpelado-2025-3.jpeg\" title=\"\" data-rl_title=\"\" class=\"rl-gallery-link\" data-rl_caption=\"\" data-rel=\"lightbox-gallery-2\" data-rl_><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/wp-content\/uploads\/sites\/172\/2025\/09\/Curupira-escalpelado-2025-3-768x1024.jpeg\" class=\"attachment-large size-large\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/wp-content\/uploads\/sites\/172\/2025\/09\/Curupira-escalpelado-2025-3-768x1024.jpeg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/wp-content\/uploads\/sites\/172\/2025\/09\/Curupira-escalpelado-2025-3-225x300.jpeg 225w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/wp-content\/uploads\/sites\/172\/2025\/09\/Curupira-escalpelado-2025-3-500x667.jpeg 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/wp-content\/uploads\/sites\/172\/2025\/09\/Curupira-escalpelado-2025-3-800x1067.jpeg 800w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/wp-content\/uploads\/sites\/172\/2025\/09\/Curupira-escalpelado-2025-3.jpeg 960w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/div><\/figure>\n\t\t<\/div>\n\n<p>Se o Curupira \u00e9 um ser fantasioso, algu\u00e9m explica como \u00e9 que ele consegue nos ajudar tanto a abrirmos os olhos para a mais crua realidade. A ci\u00eancia aponta uma s\u00e9rie de esp\u00e9cies que s\u00e3o indicadoras de qualidade ambiental. Uma ci\u00eancia bem feita pode mostrar que a sobreviv\u00eancia de algumas lendas tamb\u00e9m.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Curupira \u00e9 um menino de cabelos vermelhos e p\u00e9s voltados para tr\u00e1s. Ele protege a floresta de seus inimigos. 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