{"id":449,"date":"2019-06-25T23:02:32","date_gmt":"2019-06-26T02:02:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/?p=449"},"modified":"2019-06-25T23:02:32","modified_gmt":"2019-06-26T02:02:32","slug":"o-futuro-da-economia-e-verde","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/2019\/06\/25\/o-futuro-da-economia-e-verde\/","title":{"rendered":"O futuro da economia \u00e9 verde"},"content":{"rendered":"<h3><strong>O conceito de bioeconomia emerge como uma alternativa para um futuro sustent\u00e1vel dentro da sociedade de consumo, mas \u00e9 preciso ponderar e avaliar o que de fato \u00e9 tido como sustent\u00e1vel dentro deste modelo<\/strong><\/h3>\n<p>Pr\u00e1ticas sustent\u00e1veis de produ\u00e7\u00e3o t\u00eam se tornado cada vez mais urgentes e aos poucos s\u00e3o inseridas em nossos h\u00e1bitos de consumo. Esta necessidade vem n\u00e3o somente do ponto de vista do uso de mat\u00e9rias primas n\u00e3o renov\u00e1veis ou do esgotamento de mat\u00e9rias primas por pr\u00e1ticas n\u00e3o sustent\u00e1veis, mas principalmente pelo aumento da consci\u00eancia ambiental dos consumidores. Empresas desejam alinhar seus produtos \u00e0 pr\u00e1ticas que n\u00e3o sejam nocivas ao meio ambiente. No entanto, o maior gargalo para que produtos ditos \u201cverdes\u201d se tornem predominantes \u00e9 ainda a quest\u00e3o do desenvolvimento de novas tecnologias e sua viabilidade econ\u00f4mica para concorrer com processos industriais j\u00e1 estabelecidos. Eis, portanto, que surge o conceito de bioeconomia.<\/p>\n<p>A bioeconomia, tamb\u00e9m referida como economia verde, diz respeito \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias primas n\u00e3o renov\u00e1veis por outras que sejam extra\u00eddas de maneira sustent\u00e1vel, e tamb\u00e9m \u00e0 uma revis\u00e3o do modelo de produ\u00e7\u00e3o vigente. A l\u00f3gica cartesiana, sob a qual nosso sistema econ\u00f4mico se sustenta, analisa o uso de elementos da natureza de forma linear e isolada, sem levar em considera\u00e7\u00e3o as complexas intera\u00e7\u00f5es ambientais entre seres vivos e recursos. Este modelo, estabelecido desde a Primeira Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, tem mostrado sinais de esgotamento, tais como a diminui\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola por processos de eros\u00e3o e desertifica\u00e7\u00e3o do solo, a escassez de chuva e o aumento de eventos clim\u00e1ticos extremos e o problema do ac\u00famulo de lixo pl\u00e1stico nos oceanos. Faz-se necess\u00e1rio, portanto, o desenvolvimento de novas tecnologias e meios de produ\u00e7\u00e3o que sejam pautados em pr\u00e1ticas sustent\u00e1veis.<\/p>\n<h4><strong>Biorrefinaria<\/strong><\/h4>\n<p>\u00c9 costume atribuir-se poucos ou apenas um produto final a determinada mat\u00e9ria-prima. Por exemplo, a partir de uma planta\u00e7\u00e3o de caf\u00e9, obtemos o gr\u00e3o do caf\u00e9 torrado como produto final, sendo ele mat\u00e9ria-prima para a bebida. O cultivo de cana-de-a\u00e7\u00facar \u00e9 normalmente associado \u00e0 produ\u00e7\u00e3o do a\u00e7\u00facar de cozinha ou de etanol. Desta maneira, fica ofuscada a exist\u00eancia de muitos outros produtos poss\u00edveis de se obter no processo de produ\u00e7\u00e3o destas mat\u00e9rias primas, como por exemplo com a utiliza\u00e7\u00e3o de subprodutos (\u201cres\u00edduos\u201d) agroindustriais para a gera\u00e7\u00e3o de energia ou fertilizantes.<\/p>\n<p>Pensando nesta abordagem sist\u00eamica do uso de mat\u00e9rias primas que se criou o conceito de biorrefinarias. Segundo Ant\u00f4nio Bonomi, pesquisador e coordenador da \u00e1rea de Intelig\u00eancia de Processos do Laborat\u00f3rio Nacional de Ci\u00eancia e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), o termo \u00e9 emprestado do conceito de refinaria de petr\u00f3leo. \u00a0\u201cUma refinaria de petr\u00f3leo \u00e9 uma unidade industrial que produz todas as poss\u00edveis fra\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo. A biorrefinaria representa uma unidade industrial capaz de produzir diversos produtos derivados de uma ou mais biomassas\u201d. Ainda segundo Bonomi, \u201cas usinas de cana-de-a\u00e7\u00facar atuais s\u00e3o exemplos de plantas industriais que representam este conceito, pois produzem a\u00e7\u00facar, etanol \u00a0e eletricidade, mas podem produzir tamb\u00e9m, entre outros produtos, o biog\u00e1s, derivados de levedura, ra\u00e7\u00e3o animal e outros biocombust\u00edveis.\u201d<\/p>\n<p>Um subproduto abundante do processo fermentativo para a produ\u00e7\u00e3o de etanol \u00e9 a vinha\u00e7a. Para cada litro de etanol produzido, s\u00e3o gerados de 10 a 13 litros desse l\u00edquido. Os agricultores utilizam parte dessa vinha\u00e7a para a fertiliza\u00e7\u00e3o da planta\u00e7\u00e3o de cana, no entanto esta pr\u00e1tica pode levar ao processo de saliniza\u00e7\u00e3o do solo. Se exposta ao ambiente, pode provocar a prolifera\u00e7\u00e3o da mosca-do-est\u00e1bulo, um inseto hemat\u00f3fago que causa grandes transtornos para criadores de gado, diminuindo o peso e a produ\u00e7\u00e3o de leite. Segundo Bonomi, uma alternativa para a vinha\u00e7a dentro do conceito de biorrefinaria seria \u201ca biodigest\u00e3o antes da sua aplica\u00e7\u00e3o no campo para a produ\u00e7\u00e3o de biog\u00e1s, produzindo biometano que pode ser comercializado na rede de g\u00e1s natural ou na substitui\u00e7\u00e3o do diesel empregado na mecaniza\u00e7\u00e3o agr\u00edcola ou no transporte da cana\u201d. Outra alternativa seria ainda a produ\u00e7\u00e3o de algas ou leveduras capazes de serem cultivadas em vinha\u00e7a para a produ\u00e7\u00e3o de biodiesel.<\/p>\n<p>J\u00e1 outros subprodutos do cultivo de cana, tais como o baga\u00e7o e a palha, possuem como destino a queima para a gera\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica para as usinas. No entanto, estes s\u00e3o mat\u00e9rias primas cujo interesse reside em seu aproveitamento para a gera\u00e7\u00e3o de etanol de segunda gera\u00e7\u00e3o (ou etanol 2G). O processo consiste no acesso \u00e0 a\u00e7\u00facares menores, metaboliz\u00e1veis pelas leveduras que produzem etanol, a partir de pol\u00edmeros de a\u00e7\u00facares que fazem parte da parede vegetal celular, tais como a celulose e a hemicelulose. \u201cEste j\u00e1 \u00e9 um processo realizado em duas plantas industriais no Brasil, pertencentes \u00e0 Ra\u00edzen (com a produ\u00e7\u00e3o de etanol 2G integrado a uma usina de etanol convencional) e \u00e0 GranBio (com a produ\u00e7\u00e3o \u00a0de etanol 2G independente, adquirindo baga\u00e7o e palha de uma usina separada). No entanto, trata-se de um processo com alguns entraves que ainda tornam a produ\u00e7\u00e3o economicamente invi\u00e1vel, como o processo de pr\u00e9-tratamento e hidr\u00f3lise enzim\u00e1tica para a \u201cquebra\u201d da biomassa. \u201cO estabelecimento da produ\u00e7\u00e3o local das enzimas empregadas na opera\u00e7\u00e3o de hidr\u00f3lise, e o melhor aproveitamento do res\u00edduo rico em lignina &#8211; outro constituinte da parede celular vegetal &#8211; \u00a0para produ\u00e7\u00e3o de energia e\/ou produtos qu\u00edmicos s\u00e3o outros aspectos da tecnologia industrial que precisar\u00e3o ser superados\u201d, nos explica Bonomi.<\/p>\n<h4><strong>Biopol\u00edmeros<\/strong><\/h4>\n<p>Uma das consequ\u00eancias mais graves dos m\u00e9todos industriais atuais \u00e9 a grande acumula\u00e7\u00e3o de res\u00edduos pl\u00e1sticos. Nem todos os pl\u00e1sticos s\u00e3o recicl\u00e1veis, e podem levar de 200 a 400 anos para serem degradados, dependo do tipo. Um grande agravante deste problema \u00e9 o processo de acumula\u00e7\u00e3o de pl\u00e1sticos nos oceanos e de bioacumula\u00e7\u00e3o nos tecidos de seres aqu\u00e1ticos. Estes pl\u00e1sticos, em exposi\u00e7\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es do meio ambiente, v\u00e3o sendo quebrados em part\u00edculas cada vez menores, ao ponto de serem ingeridos e passarem a fazer parte da cadeia alimentar marinha e, com isso, podendo afetar a sa\u00fade humana. Por conta disso, tem sido crescente o interesse na produ\u00e7\u00e3o de pl\u00e1sticos biodegrad\u00e1veis a partir de biopol\u00edmeros, em substitui\u00e7\u00e3o aos pol\u00edmeros pl\u00e1sticos sint\u00e9ticos obtidos de derivados do petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>Segundo nos explica Gustavo Brito, engenheiro de materiais e professor da Universidade Federal da Para\u00edba, \u201cos biopol\u00edmeros s\u00e3o assim denominados por serem produzidos (ou extra\u00eddos) a partir de mat\u00e9rias-primas provenientes de fontes renov\u00e1veis, as quais s\u00e3o fontes que uma vez utilizadas apresentam a capacidade de se renovar em um per\u00edodo de tempo relativamente curto, como de seis meses a um ano\u201d. Este tipo de pol\u00edmero apresenta vantagens como a sua r\u00e1pida degrada\u00e7\u00e3o no ambiente e\/ou a n\u00e3o depend\u00eancia de fontes n\u00e3o renov\u00e1veis de mat\u00e9ria prima para a sua produ\u00e7\u00e3o. Entre os biopol\u00edmeros de ocorr\u00eancia natural, temos o amido, celulose e prote\u00ednas. Podem ser obtidas ainda formas sint\u00e9ticas, como o poli\u00e1cido l\u00e1tico (PLA), que possui caracter\u00edsticas semelhantes ao pl\u00e1stico PET, e o biopolietileno, obtido a partir do etanol.\u00a0 No entanto, Brito faz uma ressalva: \u201c\u00e9 importante ressaltar que nem todo biopol\u00edmero \u00e9 biodegrad\u00e1vel, e nem todo pol\u00edmero biodegrad\u00e1vel \u00e9 um biopol\u00edmero. Os pol\u00edmeros biodegrad\u00e1veis s\u00e3o aqueles capazes de servir como alimento para microrganismos como bact\u00e9rias e fungos\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, o pre\u00e7o ainda alto para a produ\u00e7\u00e3o acaba sendo o principal entrave para um uso mais amplo dos biopol\u00edmeros. Al\u00e9m disso, eles nem sempre apresentam as propriedades mec\u00e2nicas desejadas, presentes em suas contrapartidas oriundas de fontes n\u00e3o renov\u00e1veis. Uma alternativa para barateamento de custos e produ\u00e7\u00e3o de pl\u00e1sticos \u00e9 o uso de subprodutos agroindustriais em \u201cblendas\u201d &#8211; misturas de biopol\u00edmeros naturais com o pl\u00e1stico. Este \u00e9 o objeto de estudo de Bianca Maniglia, pesquisadora da Poli-USP. \u201cEsta seria uma maneira de trazer os biopol\u00edmeros nos pl\u00e1sticos convencionais, que s\u00e3o estes que usamos no dia-a-dia. Com isso, podemos produzir pl\u00e1sticos com parcial biodegradabilidade, al\u00e9m de aproveitar res\u00edduos agroindustriais na produ\u00e7\u00e3o\u201d. Segundo Maniglia, \u00e9 poss\u00edvel produzir blendas com at\u00e9 30% de fibras vegetais, o que representaria uma diferen\u00e7a significativa na degrada\u00e7\u00e3o deste material na natureza. \u201cEm uma primeiro momento, esta se mostra uma tecnologia vi\u00e1vel, com impactos ambientais positivos, enquanto novos tecnologias sejam desenvolvidas e se tornem economicamente vi\u00e1veis\u201d, aponta Bianca.<\/p>\n<h4><strong>Nem tudo que reluz \u00e9 verde<\/strong><\/h4>\n<p>Os termos bioeconomia e sustentabilidade t\u00eam sido usados pelo mercado de maneira equivocada, mais como uma ferramenta de marketing do que como um modelo de neg\u00f3cios. Entende-se como uma pr\u00e1tica sustent\u00e1vel aquela que \u00e9 capaz de garantir o recurso explorado para a gera\u00e7\u00e3o atual sem comprometer sua disponibilidade para as gera\u00e7\u00f5es futuras. Em um <a href=\"http:\/\/science.sciencemag.org\/content\/302\/5653\/2112\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">estudo<\/a> publicado na revista Science em 2003, o pesquisador paraense Carlos Peres mostrou que a pr\u00e1tica de extra\u00e7\u00e3o de Castanha-do-Par\u00e1, apontada como sustent\u00e1vel, \u00e9 realizada de tal maneira que n\u00e3o garanta o surgimento de novas \u00e1rvores para a continuidade da extra\u00e7\u00e3o no futuro. Estudos como esse apontam a necessidade que pesquisas sejam feitas <em>a priori <\/em>para o entendimento da din\u00e2mica ecol\u00f3gica de determinado recurso, para que de fato possa ser realizada de maneira sustent\u00e1vel. Um <a href=\"http:\/\/doi.editoracubo.com.br\/10.4322\/natcon.2012.013\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">levantamento bibliogr\u00e1fico<\/a> de 126 estudos que avaliam a sustentabilidade de pr\u00e1ticas extrativistas no Brasil chegou \u00e0 conclus\u00e3o que quase a metade delas (48,4%) s\u00e3o pr\u00e1ticas n\u00e3o sustent\u00e1veis, sendo que dos 21 casos de extra\u00e7\u00e3o madeireira &#8211; todos na Amaz\u00f4nia &#8211; apenas um se mostrou uma pr\u00e1tica sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Em seu livro \u201cMuito Al\u00e9m da Economia Verde\u201d, o autor Ricardo Abramovay debate que o conceito de bioeconomia n\u00e3o remete apenas ao uso de mat\u00e9rias primas renov\u00e1veis nos processos de produ\u00e7\u00e3o, mas em repensar as pr\u00f3prias rela\u00e7\u00f5es de consumo. Segundo ele, os n\u00edveis de desigualdade social e o ritmo fren\u00e9tico e infinito esperado de crescimento da economia tornariam este modelo, tal como tem sido proposto, incompat\u00edvel com as limita\u00e7\u00f5es do ecossistema. O autor aponta como a bioeconomia tem sido utilizada como uma esp\u00e9cie de \u201cSanto Graal\u201d da economia, tentando passar a ideia de que seria capaz de aliar a l\u00f3gica de produ\u00e7\u00e3o vigente com o respeito ao meio-ambiente, mas ignorando a preserva\u00e7\u00e3o e regenera\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os ecossist\u00eamicos dos quais depende a pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o e as sociedades humanas. Os desafios que se colocam na busca de uma economia que seja de fato sustent\u00e1vel do ponto de vista ambiental oferecem uma oportunidade para redefini\u00e7\u00e3o, \u00e0 n\u00edvel global, da rela\u00e7\u00e3o entre pa\u00edses fornecedores de mat\u00e9ria prima e pa\u00edses industrializados, de forma a beneficiar comunidades locais e redefinir aspectos sociais como as rela\u00e7\u00f5es de trabalho, produ\u00e7\u00e3o e consumo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>O conceito de bioeconomia emerge como uma alternativa para um futuro sustent\u00e1vel dentro da sociedade de consumo, mas \u00e9 preciso ponderar e avaliar o que <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/naturezacritica\/2019\/06\/25\/o-futuro-da-economia-e-verde\/\" title=\"O futuro da economia \u00e9 verde\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":369,"featured_media":464,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[29],"tags":[54,56,55],"class_list":["post-449","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-reportagem","tag-bioeconomia","tag-economia-verde","tag-sustentabilidade"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.9 - 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